Então o senhor o chamou e disse: “Escravo mau! Eu perdoei toda aquela dívida porque você me suplicou.
1. Introdução
O senhor manda chamar o escravo e, pela primeira vez na parábola, alguém é chamado de mau.
O adjetivo não veio quando o escravo devia dez mil talentos. Veio agora, depois do que ele fez com o colega. E o senhor lembra o perdão com as palavras exatas: toda a dívida, perdoada porque o escravo pediu.
2. Contexto Histórico e Cultural
O benefício que se perde por ingratidão
No mundo romano, quem recebia um grande favor ficava em dívida com quem o concedeu, e essa dívida tinha consequências jurídicas. O caso mais claro é o do escravo libertado. O liberto devia ao antigo senhor, agora seu patrono, respeito, visitas, às vezes dias de trabalho por ano. A liberdade era um presente, e o presente criava obrigação.
O liberto que faltava com ela podia perder o que tinha recebido. Suetônio (biógrafo romano do início do século II), na Vida de Cláudio 25, conta que o imperador Cláudio devolveu à escravidão os libertos ingratos de quem os patronos se queixavam. Séculos depois, o direito de Justiniano (o código de leis romanas compilado no século VI) ainda previa a revogação de uma doação por ingratidão grave de quem a recebeu.
O ouvinte da parábola conhecia, portanto, a ideia de um benefício que pode ser desfeito pela conduta de quem o recebeu.
A parábola, porém, muda um ponto essencial. Nessas leis, a ingratidão é contra o próprio benfeitor: o liberto que insulta o patrono, o donatário que agride o doador. O escravo da parábola não fez nada contra o senhor. A falta dele foi contra um colega. O senhor trata a crueldade com o colega como se fosse uma ofensa contra si.
O senhor como juiz da sua casa
O senhor não leva o caso a nenhum tribunal. Chama o escravo e julga. Dentro da casa, o senhor decidia sobre os seus escravos, sem juiz de fora. A cena, que ao leitor de hoje parece sumária, provavelmente soava ao ouvinte como o procedimento normal.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então o senhor o chamou"
No começo da parábola, o escravo foi "trazido" ao rei (Mateus 18:24), como um entre muitos devedores num acerto de contas. Agora é chamado sozinho, por causa do que fez. A primeira audiência era sobre uma dívida; esta é sobre uma conduta.
"e disse: 'Escravo mau!'"
É a primeira vez que alguém na parábola recebe um adjetivo moral. Quando o escravo devia dez mil talentos, o rei mandou vendê-lo, mas não o chamou de mau. Dever não o fez mau. O que o fez mau foi o que ele fez com quem lhe devia.
A distinção é do próprio texto, e é das mais claras da parábola. A dívida impagável, por maior que fosse, não recebe juízo moral. A recusa de um prazo a um colega recebe.
O vocativo "escravo mau" é uma fórmula de sentença nas parábolas de Jesus. O senhor da parábola dos talentos diz o mesmo ao servo que enterrou o dinheiro (Mateus 25:26), e o de Lucas também (Lucas 19:22). É o momento em que o senhor deixa de ser credor e passa a ser juiz.
"Eu perdoei toda aquela dívida"
No versículo 27, o perdão foi narrado, e o senhor não disse uma palavra. Agora ele mesmo fala do que fez, e escolhe dois reforços: "toda" — nada ficou de fora — e "aquela" — a dívida enorme, apontada como se ainda estivesse ali.
O senhor não lembra o valor. Não precisa. "Aquela" basta, e o escravo sabe do que se trata.
"porque você me suplicou"
O senhor dá a razão do perdão, e a razão não é a promessa de pagar, nem algum mérito do escravo, nem a situação da família. É o pedido. O escravo pediu, e foi perdoado.
Há um detalhe na escolha do verbo. Quando o texto contou a cena do escravo diante do rei, usou o verbo de prostrar-se, o da reverência (Mateus 18:26). O verbo "suplicar" apareceu depois, para o pedido do colega (Mateus 18:29). Agora o senhor descreve o pedido do escravo com esse verbo — o do colega. Na boca do senhor, as duas súplicas passam a ter o mesmo nome.
A frase para aí. O senhor não tira a conclusão: deixa-a para uma pergunta, no versículo seguinte.
O senhor é personagem de uma parábola, e a parábola é contada para iluminar o perdão de Deus (Mateus 18:35). Isso não faz de cada gesto do senhor uma descrição de como Deus age. O que se aplica, e em que medida, é o próprio Jesus quem diz no fim.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O senhor
O rei do versículo 23. Volta à cena depois de ouvir o relato dos companheiros, e fala pela primeira vez desde o versículo 25.
O escravo
Chamado à presença do senhor pela segunda vez. Desta vez não fala. A parábola não registra resposta nenhuma dele.
Evento
A convocação e o começo da sentença. O senhor recorda o perdão antes de julgar.
5. Pontos de Ensino
Dever não é ser mau
O escravo devia uma fortuna e não foi chamado de mau. Foi chamado de mau pelo que fez com o colega.
O perdão foi resposta a um pedido
O senhor não perdoou por mérito, nem pela promessa de pagar. Perdoou porque o escravo pediu.
As duas súplicas recebem o mesmo nome
O senhor usa, para o pedido do escravo, o verbo do pedido do colega.
Quem julga é quem perdoou
O juízo não vem de alguém de fora. Vem de quem tinha perdoado a dívida inteira.
6. Aspectos Filosóficos
A parábola separa duas coisas que o senso comum às vezes junta: falhar e ser mau. O escravo falhou de modo gigantesco — contraiu uma dívida que nenhuma vida pagaria — e não recebeu nenhum juízo moral por isso. Recebeu quando tratou com dureza alguém em situação igual à que ele tinha vivido. O juízo recai sobre o modo de agir diante de outra pessoa, e não sobre o tamanho do fracasso. É uma ética em que a pergunta decisiva não é "quanto você deve?", e sim "o que você fez com quem lhe devia?".
7. Aplicações Práticas
Não confundir fracasso com maldade
O versículo dá uma régua útil para julgar os outros e a si mesmo. Dívidas, erros, fracassos — mesmo grandes — não são o que a parábola chama de mau. A dureza com quem está na mesma situação é. Vale para o modo como tratamos quem falhou conosco, e para o modo como tratamos quem nos deve algo que nós também já devemos a alguém.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que o escravo não diz nada em sua defesa?
O texto não diz. Pode ser que não tivesse o que dizer; pode ser que a parábola simplesmente não se interesse pela defesa. Diante do rei, no versículo 26, ele falou muito. Aqui, calado, ouve.
O senhor tinha posto alguma condição ao perdoar?
O versículo 27 não registra condição nenhuma. O senhor teve compaixão, soltou e perdoou. Se havia uma condição implícita, a parábola não a enuncia. O leitor só a descobre pelo que acontece depois.
9. Conexão com Outros Textos
O perdão que o senhor recorda
Mateus 18:27 — "O senhor daquele escravo teve compaixão dele, soltou-o e lhe perdoou a dívida."
A súplica do colega, com o mesmo verbo
Mateus 18:29 — "O companheiro caiu aos pés dele e lhe suplicou: 'Tenha paciência comigo e eu lhe pagarei tudo.'"
O mesmo vocativo em outras parábolas
Mateus 25:26 — "Mas o seu senhor lhe respondeu: 'Servo mau e preguiçoso! Você sabia que eu colho onde não plantei e ajunto onde não espalhei.'"
Lucas 19:22 — "Porém ele lhe disse: Servo mau, por tua boca eu te julgarei; tu sabias que eu era um homem rigoroso, que tomo o que não pus, e que colho o que não semeei;"
Perdoar a quem pede
Salmos 130:3-4 — "Se tu, SENHOR, considerares todas as perversidades, quem resistirá, Senhor? Mas contigo está o perdão, para que tu sejas temido."
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Então o senhor o chamou e disse: “Escravo mau! Eu perdoei toda aquela dívida porque você me suplicou.
Texto grego (Textus Receptus)
τότε προσκαλεσάμενος αὐτὸν ὁ κύριος αὐτοῦ λέγει αὐτῷ, Δοῦλε πονηρέ, πᾶσαν τὴν ὀφειλὴν ἐκείνην ἀφῆκά σοι, ἐπεὶ παρεκάλεσάς με·
Transliteração
tote proskalesamenos auton ho kyrios autou legei autō, Doule ponēre, pasan tēn opheilēn ekeinēn aphēka soi, epei parekalesas me;
Análise palavra por palavra
τότε — tote, "então".
Advérbio de tempo e sequência. É a ligação preferida de Mateus, que o usa perto de noventa vezes, muito mais que os outros evangelhos.
προσκαλεσάμενος αὐτὸν — proskalesamenos auton, "tendo-o chamado para junto de si".
Particípio aoristo médio de proskaleō, "chamar". A voz média acrescenta "para si": o senhor chama o escravo à sua presença. É o verbo de Jesus quando chama os discípulos para perto (Mateus 10:1, 15:32).
ὁ κύριος αὐτοῦ — ho kyrios autou, "o senhor dele".
λέγει αὐτῷ — legei autō, "diz-lhe".
Presente no meio de uma narrativa no passado. O recurso põe a fala em primeiro plano, como se acontecesse diante do leitor.
Δοῦλε πονηρέ — Doule ponēre, "escravo mau".
Os dois no vocativo, o caso de quem é chamado diretamente. Ponēros é o adjetivo mais forte do grego para o mal moral: não "ruim" no sentido de inútil, mas "malvado". Em Mateus, é a palavra de "sendo maus" (Mateus 7:11) e de "o maligno" (Mateus 13:19). O mesmo vocativo abre a sentença do senhor na parábola dos talentos (Mateus 25:26).
πᾶσαν τὴν ὀφειλὴν ἐκείνην — pasan tēn opheilēn ekeinēn, "toda aquela dívida".
Opheilē, "dívida, o que se deve". Nos evangelhos, a palavra só aparece aqui; Paulo a usa em Romanos 13:7 para o que se deve às autoridades. No versículo 27, o texto chamara a mesma dívida de daneion, "empréstimo". Na boca do senhor, ela deixa de ser um empréstimo e passa a ser, simplesmente, o que se devia. Pasan, "toda", e ekeinēn, "aquela", cercam o substantivo dos dois lados.
ἀφῆκά σοι — aphēka soi, "perdoei a você".
Aoristo de aphiēmi, "soltar, deixar ir, perdoar". O sentido do verbo, que serve para perdoar dívidas e pecados, está no estudo de Mateus 18:27.
ἐπεὶ παρεκάλεσάς με — epei parekalesas me, "já que você me suplicou".
Epei, "já que, uma vez que": dá a causa. Parekalesas é o aoristo de parakaleō, o mesmo verbo do pedido do colega em Mateus 18:29. No relato do pedido do escravo, no versículo 26, o grego não usa este verbo, e sim proskyneō, "prostrar-se".
11. Conclusão
O versículo leva a três conclusões.
O juízo moral da parábola não cai sobre a dívida. O escravo devia o impagável e não foi chamado de mau. Foi chamado de mau pelo que fez a um igual. O que a parábola condena é a conduta, não o fracasso.
O perdão que o escravo recebeu não dependeu de nada além do pedido. O senhor diz isso com todas as letras. Se um pedido bastou para o perdão de dez mil talentos, o pedido do colega bastava para um prazo de cem denários. O senhor não precisa terminar o raciocínio.
A ofensa contra o colega é tratada como assunto do senhor. O escravo não faltou com o senhor em nada. Mesmo assim, é o senhor quem o chama e o julga. Na parábola, o modo de tratar o outro servo não é assunto privado entre os dois.













