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Mateus 18:35

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 12 min de leitura·👁 31 acessos
Assim também o meu Pai celestial fará a vocês, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão as ofensas dele.”
Jesus sentado ao ar livre fala a um grupo de discípulos atentos; Pedro, à frente, olha para o chão, pensativo.

Estudo


Assim também o meu Pai celestial fará a vocês, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão as ofensas dele.”

1. Introdução

Jesus sai da parábola e fala direto aos discípulos: o Pai dele fará com eles o que o senhor fez com o escravo, se cada um não perdoar ao irmão de coração.

A frase fecha a resposta a Pedro, que perguntou quantas vezes devia perdoar. A dívida em dinheiro vira "as ofensas" do irmão. E a exigência vai além do gesto: o perdão tem de sair do coração. O versículo é uma ameaça, e fica sendo uma ameaça.

2. Contexto Histórico e Cultural

Perdoar para ser perdoado, no judaísmo antigo

A ideia de que Deus trata cada um conforme cada um trata o próximo circulava no judaísmo da época. Duas fontes a formulam de modo próximo ao versículo.

Os Testamentos dos Doze Patriarcas são um conjunto de discursos de despedida atribuídos aos doze filhos de Jacó. No de Zebulom (8:1-3), o patriarca diz aos filhos: "Tenham compaixão de todo homem com misericórdia, para que também o Senhor tenha compaixão de vocês e misericórdia", e acrescenta que, "na medida em que um homem tem compaixão do seu próximo, nessa medida o Senhor tem dele". A data da obra é discutida: há um núcleo judeu, provavelmente anterior a Jesus, e há acréscimos cristãos. Não é possível garantir de que camada vem este trecho.

O Talmude Babilônico (a grande compilação de discussões rabínicas, fechada por volta do ano 500), no tratado Rosh Hashaná 17a, registra uma sentença do mestre Rava, do século IV: "Quem passa por cima das suas medidas, passam por cima de todas as suas transgressões". "Passar por cima das medidas" é não cobrar do outro tudo o que ele fez: deixar passar. E a recompensa é descrita com o mesmo verbo: Deus deixa passar as faltas de quem deixa passar as dos outros. A sentença é bem posterior a Jesus, e mostra a ideia instalada no judaísmo rabínico.

O perdão "de coração"

A exigência de que o perdão seja sincero também tem longa história judaica. No século XII, Maimônides (rabino e filósofo judeu nascido em Córdoba), no seu código de leis, na seção sobre o arrependimento (Leis do Arrependimento 2:10), diz que quem é procurado por alguém que o ofendeu não deve ser cruel e recusar a reconciliação, e sim perdoar "de coração inteiro e alma disposta". A formulação é tardia, mas mostra o que a tradição judaica entendeu por perdoar de verdade: não um ato formal, e sim uma disposição interior.

3. Análise Teológica do Versículo

"Assim também o meu Pai celestial fará a vocês"

A parábola acabou. Jesus agora aplica. "Assim também" liga o que o senhor fez com o escravo ao que o Pai fará com os discípulos.

A frase é dura, e o texto não a amacia. Mas ela levanta uma pergunta que o versículo não responde sozinho: o "assim também" aplica a Deus a parábola inteira, passo a passo, ou só o desfecho? Há três leituras.

Primeira leitura: o perdão de Deus pode ser retirado. O senhor perdoou e depois revogou o perdão. Do mesmo modo, quem recebeu o perdão de Deus e não perdoa o irmão pode perdê-lo. Muitos leitores antigos, e boa parte das tradições católica e ortodoxa, leem assim.

Segunda leitura: quem não perdoa mostra que não recebeu o perdão de verdade. O perdão de Deus, uma vez dado, não se desfaz; a recusa em perdoar revela que ele nunca foi acolhido por dentro. É a leitura de tradições protestantes que afirmam que a salvação não se perde. Ela precisa explicar por que a parábola mostra um perdão que foi dado e depois retirado.

Terceira leitura: o "assim" compara o resultado, não cada passo. Uma parábola não se aplica detalhe por detalhe. O que se transfere para Deus é a correspondência: quem não perdoa não será perdoado. O mecanismo — revogação, torturadores, prazo — pertence à história, e não descreve como Deus age.

Não há consenso, e o versículo não permite decidir. As três leituras, porém, concordam num ponto: nenhuma delas tira a ameaça. Elas discutem como ela funciona, e não se ela existe.

"Meu Pai": Jesus não diz "o Pai de vocês", como no versículo 14. Diz "meu". No versículo 14, o Pai não quer que nenhum dos pequeninos se perca; aqui, o mesmo Pai "fará" o que o senhor fez. Os dois versículos começam com a mesma palavra, "assim" (ou "da mesma forma"), e fecham as duas parábolas do capítulo. O capítulo põe lado a lado a vontade de não perder ninguém e a ameaça contra quem não perdoa, e não explica como as duas se encaixam.

"se cada um não perdoar"

"Cada um": a exigência não é para a comunidade como bloco. É para cada pessoa diante de cada irmão.

O verbo é o mesmo da parábola: perdoar uma dívida e perdoar uma ofensa são, em Mateus, a mesma palavra. O "se" põe uma condição, e a condição é a mesma que Jesus já tinha posto depois do Pai Nosso — o sentido dessa condição está no estudo de Mateus 6:14-15.

"de coração"

A parábola falava de gestos: soltar, perdoar a dívida, dar prazo. A aplicação exige mais. O perdão tem de sair "do coração" — no grego, "dos corações de vocês", no plural.

Um perdão só de palavras, com a conta guardada por dentro, não atende. É a exigência mais difícil do versículo, porque não se cumpre por nenhum ato exterior.

O texto não define o que é perdoar de coração. Não diz que é esquecer, nem que é não sentir mais dor, nem que é restabelecer a relação como antes. Diz de onde o perdão tem de sair.

"ao seu irmão as ofensas dele"

Na parábola, o outro era "companheiro de escravidão". Na aplicação, é "irmão" — a palavra de Pedro, "meu irmão" (Mateus 18:21), e a da correção fraterna (Mateus 18:15). O companheiro da história era o irmão da pergunta.

E a dívida muda de nome. Os dez mil talentos e os cem denários eram imagem; o que se perdoa são "as ofensas". O Textus Receptus traz essas palavras, que faltam nos manuscritos mais antigos (ver o item 10). Com elas, o versículo diz com todas as letras o que a parábola significava: a dívida entre os escravos eram as faltas de um irmão contra outro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Deixa a parábola e fala na primeira pessoa: "o meu Pai". É o fim do discurso do capítulo 18.

O Pai celestial

O Pai de Jesus, a quem o versículo atribui a ação futura: "fará".

Os discípulos

O "vocês" do versículo. A resposta começou para Pedro (Mateus 18:21-22) e termina dirigida a todos.

O irmão

Quem ofendeu. O mesmo "irmão" da pergunta de Pedro e da correção dos versículos 15 a 17.

5. Pontos de Ensino

A parábola vira aplicação

"Assim também": o que aconteceu ao escravo é posto diante dos discípulos.

A ameaça é real

As leituras discutem o mecanismo, e nenhuma a remove.

O perdão é pessoal

"Cada um", diante do seu irmão.

O perdão sai de dentro

"De coração": um perdão só formal não atende à exigência.

A dívida era imagem das ofensas

O dinheiro da parábola vira "as ofensas dele".

6. Aspectos Filosóficos

O versículo ordena algo que parece não caber numa ordem: perdoar de coração. Um gesto pode ser mandado; um sentimento, não se faz surgir por decreto. Há duas saídas para essa dificuldade. Uma entende o perdão "de coração" como decisão interior, e não como emoção: resolver, por dentro, não cobrar mais — uma decisão que pode vir antes do sentimento. A outra aceita que a ordem exige o que ninguém produz sozinho, e que é justamente isso que a torna tão dura. O texto não escolhe. Ele só não aceita o perdão que fica na boca.

7. Aplicações Práticas

A conta guardada por dentro

A aplicação mais direta do versículo é contra o perdão de fachada: dizer "está tudo bem" e continuar lembrando, cobrando em silêncio, esperando a ocasião. O versículo pede que a conta seja fechada onde ela é guardada.

Cada um, com o seu irmão

A exigência é individual. Ninguém cumpre por outro, e ninguém se protege dela porque o grupo, a família ou a igreja "já perdoou". Cada pessoa tem os seus irmãos, e as ofensas deles.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O versículo vale para qualquer ofensa, mesmo as mais graves?

O texto não distingue. Fala de "as ofensas" sem fazer lista nem exceção. Ele também não diz que perdoar elimina as consequências, dispensa a correção dos versículos 15 a 17 ou obriga a restabelecer a convivência. Essas perguntas são reais e não são respondidas aqui.

E se a pessoa quer perdoar e não consegue?

O versículo não trata desse caso. Exige o perdão de coração e não descreve o caminho até ele. Entre a vontade de perdoar e o perdão completo, o texto não diz o que acontece.

9. Conexão com Outros Textos

A condição depois do Pai Nosso

Mateus 6:14-15 — "Porque, se vocês perdoarem às pessoas as suas ofensas, também o seu Pai celestial perdoará a vocês; mas, se vocês não perdoarem às pessoas as suas ofensas, também o seu Pai não perdoará as ofensas de vocês."

Mateus 6:12 — "E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores."

A pergunta que a parábola responde

Mateus 18:21 — "Então Pedro se aproximou e lhe perguntou: 'Senhor, quantas vezes meu irmão pode pecar contra mim que eu deva perdoá-lo? Até sete vezes?'"

O outro "assim" do capítulo

Mateus 18:14 — "Da mesma forma, não é da vontade do Pai de vocês, que está nos céus, que um só destes pequeninos se perca."

O coração como origem

Mateus 15:19 — "Pois do coração procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias."

O mesmo ensino em Marcos e Paulo

Marcos 11:25 — "E quando estiverdes orando, perdoai, se tendes algo contra alguém, para que o vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe vossas ofensas."

Colossenses 3:13 — "Suportai-vos uns aos outros, e perdoai-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro. Como o Senhor vos perdoou, assim também fazei."

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Assim também o meu Pai celestial fará a vocês, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão as ofensas dele.”

Texto grego (Textus Receptus)

οὕτω καὶ ὁ πατήρ μου ὁ ἐπουράνιος ποιήσει ὑμῖν, ἐὰν μὴ ἀφῆτε ἕκαστος τῷ ἀδελφῷ αὐτοῦ ἀπὸ τῶν καρδιῶν ὑμῶν τὰ παραπτώματα αὐτῶν.

Transliteração

houtō kai ho patēr mou ho epouranios poiēsei hymin, ean mē aphēte hekastos tō adelphō autou apo tōn kardiōn hymōn ta paraptōmata autōn.

Diferença entre manuscritos

Os manuscritos mais antigos terminam em "de coração" e não trazem "as ofensas deles"; também dizem ouranios em vez de epouranios, as duas palavras para "celestial". O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue) tem o objeto explícito, e com ele a frase nomeia o que se perdoa.

Análise palavra por palavra

οὕτω καὶ — houtō kai, "assim também".

Houtō (ou houtōs), "assim, desta maneira": o advérbio com que Mateus liga uma parábola à sua aplicação. O versículo 14 começa com a mesma palavra, depois da ovelha desgarrada, e também fecha com o Pai. Kai, "também".

ὁ πατήρ μου ὁ ἐπουράνιος — ho patēr mou ho epouranios, "o meu Pai celestial".

Epouranios, de epi, "sobre", e ouranos, "céu": "o que está nos céus, celeste". No Textus Receptus de Mateus, é a única vez que o evangelho usa esta forma; nos outros lugares, o "Pai celestial" é ouranios (Mateus 6:14, 15:13). O sentido é o mesmo.

ποιήσει ὑμῖν — poiēsei hymin, "fará a vocês".

Futuro de poieō, "fazer". O futuro não diz quando. Hymin, "a vocês", no plural: os discípulos.

ἐὰν μὴ ἀφῆτε — ean mē aphēte, "se não perdoarem".

Ean com o subjuntivo aoristo: uma condição que pode ou não se cumprir. Aphēte é o subjuntivo aoristo de aphiēmi, o verbo do versículo 27 e do versículo 32: soltar, perdoar dívida e perdoar falta.

ἕκαστος — hekastos, "cada um".

Pronome distributivo, no singular, apesar do verbo no plural. A frase fala a todos e cobra de cada um.

τῷ ἀδελφῷ αὐτοῦ — tō adelphō autou, "ao seu irmão".

Adelphos, "irmão", no dativo de quem recebe o perdão. É a palavra de Mateus 18:15 e 18:21.

ἀπὸ τῶν καρδιῶν ὑμῶν — apo tōn kardiōn hymōn, "dos corações de vocês".

Apo, "a partir de, desde": a preposição da origem. Kardia, "coração", no plural. No mundo bíblico, o coração é a sede do pensamento e da decisão, e não só da emoção: é de lá que, segundo Mateus 15:19, "procedem os maus pensamentos".

τὰ παραπτώματα αὐτῶν — ta paraptōmata autōn, "as ofensas deles".

Paraptōma vem de parapiptō, "cair ao lado, tropeçar, desviar-se": é o passo em falso, a falta. A raiz é a de piptō, "cair", o verbo dos devedores que "caíram" diante do credor (Mateus 18:26 e 29). É a mesma palavra de Mateus 6:14-15, "as suas ofensas". Autōn, "deles", no plural: as ofensas dos irmãos, cada um com as do seu. A tradução portuguesa, no singular ("as ofensas dele"), acompanha o "cada um".

11. Conclusão

O versículo leva a quatro conclusões.

A parábola não era só uma história sobre escravos. Jesus a aplica aos discípulos, e a aplica com a mesma dureza com que ela terminou. Quem ouviu a parábola como exemplo moral é obrigado a ouvi-la como aviso.

O perdão recebido de Deus e o perdão dado ao irmão estão amarrados. O modo exato da amarra é discutido, e as leituras divergem. Que a amarra existe, o versículo diz sem ambiguidade.

O que Deus cobra é interior. Um perdão que se limita ao gesto não satisfaz a exigência. "De coração" põe a questão num lugar onde nenhuma aparência resolve.

A pergunta de Pedro recebeu a sua resposta. Pedro quis saber até quantas vezes. A resposta terminou falando de outra coisa: não de quantas vezes, mas de onde vem o perdão, e do que acontece a quem, tendo sido perdoado do impagável, se recusa a perdoar o pouco.

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