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Mateus 18:14

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 11 min de leitura·👁 29 acessos
Da mesma forma, não é da vontade do Pai de vocês, que está nos céus, que um só destes pequeninos se perca.
Porta de uma casa simples aberta à noite, com uma lamparina acesa na soleira e um caminho de terra vazio que sobe para os morros escuros.

Estudo


Da mesma forma, não é da vontade do Pai de vocês, que está nos céus, que um só destes pequeninos se perca.

1. Introdução

Jesus aplica a parábola da ovelha: assim como o dono não desiste da que se desgarrou, não é da vontade do Pai que um só destes pequeninos se perca.

A frase fecha o trecho que começou no versículo 10, com as mesmas palavras: "destes pequeninos" e o Pai "que está nos céus". Ela diz o que o Pai não quer, e não o que acontecerá. E logo depois, no versículo 15, o pequenino passa a ser chamado de "irmão", e o capítulo muda do cuidado para a correção.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Vontade diante do Pai": um modo judaico de falar de Deus

O grego do versículo diz, ao pé da letra, "não é vontade diante do Pai de vocês". A tradução ABC diz "não é da vontade do Pai", que é o sentido. A forma literal tem uma origem.

No judaísmo do tempo de Jesus havia o cuidado de não atribuir a Deus, de modo direto, ações e sentimentos humanos. As traduções aramaicas da Bíblia lidas nas sinagogas, os Targumim (plural de Targum, "tradução"), trocavam com frequência "Deus quis" ou "Deus viu" por "houve vontade diante do SENHOR" ou "foi revelado diante do SENHOR". Deus continuava sendo o sujeito, mas a frase guardava distância.

A mesma fórmula entrou na oração judaica, onde é usada até hoje: "seja da vontade diante de ti", em hebraico yehi ratson milfanekha. O Talmude (a grande compilação de discussões rabínicas, fechada por volta do século VI) registra, no tratado Berakhot (16b-17a), uma série de orações pessoais de mestres do século II e III que começam exatamente assim.

O versículo usa essa linguagem. Quem o ouvia reconhecia nele o jeito respeitoso de falar do que Deus quer. Mateus, que escreve para uma comunidade de origem judaica, conserva a forma que Lucas não tem.

3. Análise Teológica do Versículo

"Da mesma forma"

A expressão liga a parábola à aplicação. O que o dono faz com a ovelha, o Pai quer com os pequeninos. Mas a comparação não é completa: o versículo não diz que o Pai sai procurando, e sim o que ele quer. Quem vai atrás, no capítulo, são os discípulos, a partir do versículo 15.

"não é da vontade do Pai de vocês"

A frase é negativa. Jesus não diz "o Pai quer que todos sejam salvos"; diz "o Pai não quer que um se perca". A forma negativa põe o peso sobre o indivíduo: a vontade do Pai é medida pelo um, como a busca da ovelha era medida pela uma em cem.

E é "o Pai de vocês". No versículo 10, Jesus disse "meu Pai"; aqui fala do Pai dos discípulos. Os pequeninos que eles não devem desprezar têm o mesmo Pai que eles.

No Evangelho de Mateus, a vontade do Pai não se cumpre sozinha. Os discípulos pedem que ela seja feita (Mateus 6:10), só entra no Reino quem a faz (Mateus 7:21), e o próprio Jesus, no Getsêmani, ora para aceitá-la (Mateus 26:42). O versículo diz o que o Pai quer; o texto não diz que isso acontecerá em todos os casos. A frase vem logo depois do "se conseguir achá-la" do versículo 13, que já admitia a falha.

Como a vontade do Pai se relaciona com o que de fato acontece?

Leitores cristãos discutiram isso por séculos, e o versículo é um dos textos da discussão.

Primeira leitura: Deus quer que ninguém se perca, e alguns se perdem por recusa própria. A vontade é sincera e universal, e a perda vem da liberdade humana. É a leitura que aproxima este versículo de 1 Timóteo 2:4 e de Ezequiel 18:23.

Segunda leitura: o versículo fala do que Deus deseja, não do que decreta. Há uma distinção entre o que Deus aprova e o que ele determina, e esta frase trata só da primeira. É a leitura das tradições que dão mais peso à escolha divina.

O versículo não resolve a questão, porque não foi dito para resolvê-la. Ele está numa instrução aos discípulos sobre como tratar os mais fracos da comunidade, e o seu uso nesse debate vem de fora do contexto.

"que um só destes pequeninos se perca"

O que significa "se perder" aqui? O mesmo verbo serve para perder-se e para ser destruído.

Primeira leitura: a perda definitiva. Poucos versículos antes, Jesus falou do fogo eterno e da geena de fogo (Mateus 18:8-9). "Perder-se" seria acabar ali.

Segunda leitura: a perda para a comunidade e para a fé. A parábola fala de uma ovelha fora do rebanho, e o que vem depois trata do irmão que se afasta. "Perder-se" seria sair e não voltar.

As duas não se excluem, e não é possível decidir onde o versículo põe o acento. O que é claro é a mudança de verbo: na parábola a ovelha "se desgarra"; na aplicação, o pequenino "se perde". A aplicação fala do risco maior.

"Destes pequeninos" amarra o trecho. A expressão aparece nos versículos 6, 10 e 14: o pequenino que alguém leva ao pecado, o pequenino que alguém despreza, o pequenino que se perde. Em cada um, a ameaça é diferente, e em todos a responsabilidade cai sobre quem está em volta.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O Pai

Chamado "o Pai de vocês, que está nos céus". No trecho, é aquele que os anjos veem (versículo 10) e aquele cuja vontade protege os pequeninos.

Os pequeninos

Os mesmos dos versículos 6 e 10: crianças e discípulos de pouca importância. No versículo seguinte, a palavra dá lugar a "irmão".

Os discípulos

Os ouvintes, tratados como filhos do mesmo Pai: "o Pai de vocês".

O trecho

O versículo encerra a unidade dos versículos 10 a 14 (os anjos, a ovelha e a aplicação) e prepara a seguinte, que vai do 15 ao 20 (a correção do irmão).

5. Pontos de Ensino

A vontade do Pai é medida pelo um

A frase não fala da maioria. Fala de "um só".

Querer não é o mesmo que acontecer

O versículo diz o que o Pai não quer. Não diz que ninguém se perderá.

Os pequeninos são filhos do mesmo Pai

Jesus diz "o Pai de vocês": quem despreza um pequenino despreza um irmão.

A responsabilidade é da comunidade

Levar ao pecado, desprezar e deixar perder-se são três modos de falhar com os pequeninos, e os três estão nas mãos dos discípulos.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo expõe a distância entre querer e acontecer. Se o mais poderoso não quer que alguém se perca, e alguém se perde, então ou a vontade não era tão firme, ou o poder tem limites que ele mesmo aceitou. A frase de Jesus não escolhe e não parece incomodada com a pergunta: ela declara a vontade e passa a dizer aos discípulos o que fazer. Pode-se ler nisso uma resposta prática ao problema. A vontade de que ninguém se perca não é apresentada como garantia, e sim como tarefa entregue a quem ouve.

7. Aplicações Práticas

Não use o versículo como consolo automático

"Deus não quer que ninguém se perca" é verdade segundo este versículo, mas ele não autoriza a conclusão de que ninguém se perderá, nem dispensa ninguém de agir. No capítulo, a frase vem entre uma ovelha que precisa ser procurada e um irmão que precisa ser corrigido.

Pergunte-se de qual dos três modos você falha

O capítulo nomeia três: fazer alguém cair (versículo 6), não dar importância (versículo 10), deixar alguém ir embora sem ir atrás (versículos 12 a 14). A maioria das pessoas não comete o primeiro. O segundo e o terceiro são comuns em qualquer grupo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O versículo ensina que todos serão salvos?

Não. Ele diz o que o Pai não quer, e o mesmo capítulo fala de fogo eterno e de irmãos que não ouvem ninguém. O que o versículo afirma é a vontade; o resultado ele deixa em aberto.

Se o Pai não quer que nenhum se perca, por que depende dos discípulos ir atrás?

O texto não explica a relação entre as duas coisas; apenas as põe em sequência. O versículo 14 declara a vontade do Pai, e o 15 começa a instrução sobre o irmão que peca. Uma leitura possível é que, em Mateus, a vontade de Deus costuma chegar às pessoas pela ação de outras pessoas. Mas o versículo não formula essa regra.

9. Conexão com Outros Textos

A vontade de Deus em outros textos

1 Timóteo 2:3-4 — "Isso é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade."

A frase positiva correspondente à negativa de Mateus. Note-se o "diante de Deus", a mesma fórmula respeitosa.

Ezequiel 18:23 — "Será que eu tenho algum prazer na morte do ímpio?, diz o Senhor DEUS. Não tenho prazer, antes, em que ele se converta dos seus caminhos e viva?"

O profeta faz a pergunta que o versículo responde.

A vontade que precisa ser feita

Mateus 6:10 — "Venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim no céu como na terra."

Mateus 7:21 — "Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus."

Em Mateus, a vontade do Pai é pedida e feita. Não se cumpre por si.

Não perder nenhum

João 6:39 — "E a vontade daquele que me enviou é esta: que eu não perca nenhum de todos os que ele me deu, mas os ressuscite no último dia."

Em João, a mesma vontade é confiada a Jesus. Em Mateus 18, ela é apresentada aos discípulos.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Da mesma forma, não é da vontade do Pai de vocês, que está nos céus, que um só destes pequeninos se perca.

Texto grego (Textus Receptus)

οὕτως οὐκ ἔστι θέλημα ἔμπροσθεν τοῦ πατρὸς ὑμῶν τοῦ ἐν οὐρανοῖς, ἵνα ἀπόληται εἷς τῶν μικρῶν τούτων.

Transliteração

houtōs ouk esti thelēma emprosthen tou patros hymōn tou en ouranois, hina apolētai heis tōn mikrōn toutōn.

Uma nota textual

Parte dos manuscritos antigos traz "meu Pai" em vez de "Pai de vocês", e "um" no neutro em vez do masculino; o sentido não muda.

Análise palavra por palavra

οὕτως — houtōs, "da mesma forma, assim". Advérbio que introduz a aplicação de uma comparação. Mateus o usa assim no fim de outras parábolas, como em Mateus 13:49 e Mateus 18:35.

οὐκ ἔστι θέλημα — ouk esti thelēma, "não é vontade". Thelēma é "vontade, desejo, o que se quer", substantivo do verbo thelō, "querer". É a palavra do Pai Nosso em Mateus 6:10 e da oração do Getsêmani em Mateus 26:42.

ἔμπροσθεν τοῦ πατρὸς ὑμῶν — emprosthen tou patros hymōn, "diante do Pai de vocês".

Emprosthen significa "diante de, na frente de". O uso normal é de lugar, como em Mateus 5:24, a oferta deixada "diante do altar". Aqui, porém, não há lugar: "não é vontade diante do Pai" corresponde à fórmula aramaica e hebraica que diz "diante de Deus" para falar, com respeito, do que Deus quer (ver o item 2). Mateus usa a mesma construção em Mateus 11:26, que a ABC traduz "assim foi do Teu agrado" e que diz, literalmente, "assim foi agrado diante de ti".

τοῦ ἐν οὐρανοῖς — tou en ouranois, "que está nos céus". A mesma fórmula do versículo 10, que fecha o trecho.

ἵνα ἀπόληται — hina apolētai, "que se perca".

Hina com subjuntivo aqui não indica finalidade, e sim o conteúdo da vontade: "que". Apolētai é aoristo médio do subjuntivo de apollymi. Na voz média, o verbo significa "perder-se, perecer, ser destruído". É o mesmo verbo de Mateus 18:11 ("o que estava perdido"), de Mateus 10:28 ("aquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno") e de Mateus 8:25 ("estamos perecendo").

Na parábola, o verbo era outro, planaō, "desgarrar-se". A troca de verbo entre parábola e aplicação é a diferença examinada no item 3.

εἷς τῶν μικρῶν τούτων — heis tōn mikrōn toutōn, "um só destes pequeninos". Heis, "um", no masculino, pensando na pessoa. É a terceira vez no capítulo que aparece "destes pequeninos", depois de Mateus 18:6 e 18:10.

11. Conclusão

Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.

O trecho sobre os pequeninos termina na vontade do Pai. Os anjos, a ovelha e a aplicação formam uma unidade, fechada com as mesmas palavras com que abriu. O que a sustenta não é uma regra, é o que o Pai quer.

A vontade é declarada, não garantida. O versículo diz em forma negativa que o Pai não quer perder nenhum. Não diz que nenhum se perderá, e o próprio capítulo prevê casos de perda. Usá-lo para decidir o debate sobre salvação universal ou predestinação é tirá-lo do lugar.

A vontade do Pai vira tarefa dos discípulos. O versículo seguinte começa dizendo o que fazer quando um irmão peca. A frase sobre o Pai é a ponte entre o cuidado com os pequeninos e a correção do irmão.

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