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Mateus 18:13

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 9 min de leitura·👁 21 acessos
E, se conseguir achá-la, eu asseguro a vocês: ele se alegra mais com aquela ovelha do que com as noventa e nove que não se desgarraram.
Pastor descendo um morro ao anoitecer com uma ovelha nos braços, o rosto aliviado, sem ninguém à sua espera.

Estudo


E, se conseguir achá-la, eu asseguro a vocês: ele se alegra mais com aquela ovelha do que com as noventa e nove que não se desgarraram.

1. Introdução

A busca termina em alegria, mas com uma condição: "se conseguir achá-la".

Lucas, contando a mesma parábola, não tem esse "se". Lá o dono procura "até encontrá-la", põe a ovelha nos ombros e chama os vizinhos para festejar. Mateus deixa aberta a possibilidade de a busca falhar, e a alegria que descreve é só do dono, sem festa e sem vizinhos.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que se esperava de um pastor

A busca por uma ovelha desgarrada podia falhar, e todos sabiam disso. Lobos, chacais e hienas rondavam os morros da Galileia; ravinas e poços abertos matavam animais sozinhos; a noite caía cedo no inverno.

A lei judaica posterior chegou a fixar até onde ia a obrigação de quem guardava rebanho alheio. A Mishná (a coleção de leis judaicas organizada por volta do ano 200) diz que um lobo não é caso de força maior, mas dois lobos são (Bava Metzia 7:9). Diante de um lobo, o guardador tinha de defender o rebanho; diante de dois, não se esperava dele que enfrentasse o risco, e não pagava pela perda. Leão, urso, leopardo, cobra e assaltante armado também contavam como força maior.

A regra trata do empregado, não do dono, e é posterior a Jesus. Mas mostra o que o ouvinte da parábola tinha na cabeça: procurar uma ovelha não garantia encontrá-la, e havia situações em que o sensato era desistir.

Davi, pedindo para enfrentar Golias, conta que ia atrás do leão ou do urso que levava uma ovelha e a arrancava da boca do animal (1 Samuel 17:34-35). É a busca bem-sucedida, narrada como proeza. O normal era que nem sempre desse certo.

3. Análise Teológica do Versículo

"E, se conseguir achá-la"

A frase está em condicional, e a condição é real. O dono foi pelos montes, mas o texto não garante que volte com a ovelha.

Em Lucas 15:4, o dono procura "até encontrá-la", e no versículo seguinte "quando a encontra" a põe nos ombros. Lucas conta a busca como coisa que termina bem. Mateus a conta como coisa que pode terminar mal.

Por que Mateus põe um "se" onde Lucas não põe? Há duas leituras.

Primeira leitura: é realismo de pastor. Todo ouvinte sabia que ovelhas desgarradas às vezes não voltavam. O "se" só registra isso, sem intenção teológica.

Segunda leitura: prepara o que vem depois no capítulo. Nos versículos 15 a 17, Jesus descreve como ir atrás do irmão que pecou, em três etapas, e admite que ele pode não ouvir nenhuma delas. A busca da ovelha e a busca do irmão têm o mesmo desfecho possível: nem sempre se traz de volta. O "se" do versículo 13 anuncia o "se nem à igreja ele der ouvidos" do versículo 17.

Não é possível decidir. Nas duas leituras, o versículo recusa a promessa de que todo desgarrado será recuperado.

"eu asseguro a vocês"

A fórmula solene aparece no meio de uma cena de pastoreio. Jesus garante com ela não o sucesso da busca, mas o que acontece quando ela dá certo: a alegria.

"ele se alegra mais com aquela ovelha do que com as noventa e nove"

A comparação é de alegria, não de amor. O dono não passa a gostar mais da ovelha que fugiu. Ele sente, pelo reencontro, uma alegria que as noventa e nove, que nunca saíram, não provocam naquele momento. É a alegria de quem recupera o que já dava por perdido.

No Evangelho de Tomé, a mesma parábola diz o contrário: o pastor procura a ovelha porque ela é "a maior" e diz a ela "eu gosto mais de você" (ver o item 9 do estudo de Mateus 18:12). Mateus não diz que a ovelha valia mais. A alegria vem do reencontro, não do valor.

"que não se desgarraram"

As noventa e nove são descritas só pelo que não fizeram. Não são chamadas de justas nem de fiéis, e não recebem crítica.

Em Lucas 15:7 a comparação é outra: há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende "do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento". A frase de Lucas tem uma ponta de ironia, porque é dita diante de fariseus que se consideravam justos. Em Mateus não há ironia nem arrependimento: há ovelhas que ficaram e uma que saiu. O tema de Mateus não é o pecador que se converte, é o membro que se afastou e foi trazido de volta.

E Mateus não tem festa. Não há ombros, amigos nem vizinhos. A alegria fica com o dono.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O dono

O mesmo homem do versículo 12. Aqui é o sujeito da alegria.

A ovelha achada

A que se desgarrou. O texto não diz em que estado foi encontrada nem como foi trazida.

As noventa e nove

Descritas como as que "não se desgarraram". Não recebem elogio nem censura.

Os ouvintes

Os discípulos, a quem Jesus se dirige com "eu asseguro a vocês".

5. Pontos de Ensino

A busca pode falhar

Mateus não promete que toda ovelha desgarrada volta. Promete alegria quando volta.

A alegria do reencontro não diminui os que ficaram

O dono se alegra "mais" com a ovelha achada, e as noventa e nove não são rebaixadas por isso.

O afastamento não apaga a pertença

A ovelha achada é recebida com alegria, sem cobrança pelo tempo que passou fora.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo separa o valor de uma coisa da alegria de reavê-la. Quem recupera o que perdeu sente mais do que sentia enquanto o tinha, sem que a coisa tenha passado a valer mais. A alegria mede a distância entre o medo da perda e o reencontro, e não o preço do que foi reencontrado. Por isso ela não é injusta com os que nunca saíram: eles não perderam nada, simplesmente não foram objeto de uma perda.

7. Aplicações Práticas

Não prometa o que o texto não promete

Quem vai atrás de alguém que se afastou, filho, amigo ou membro de uma comunidade, às vezes volta sem ele. O versículo não diz que isso é falta de fé ou de esforço. Diz "se conseguir". Fazer a busca é obrigação; o resultado não está garantido a ninguém.

Receba sem cobrar

Quando alguém volta, a reação da parábola é alegria. Não há sermão, cobrança nem período de prova. É uma medida útil para quem recebe de volta alguém que se afastou.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que as noventa e nove não recebem nenhum elogio?

O texto não explica. Na parábola, elas simplesmente ficaram onde deviam. O versículo não as trata como heróis nem como justos presunçosos, ao contrário de Lucas 15:7. O foco está todo na ovelha que saiu e no dono que foi atrás.

O "se" quer dizer que Deus pode falhar em encontrar alguém?

O versículo fala de um dono de ovelhas, não diretamente de Deus. A aplicação vem no versículo 14, e ela fala da vontade do Pai, não de um resultado garantido. Se o "se" diz algo sobre Deus ou só sobre a busca humana que o capítulo manda fazer, não é possível decidir pelo texto.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma cena em Lucas

Lucas 15:5-6 — "E, quando a encontra, põe-na nos ombros, cheio de alegria. Chegando em casa, reúne os amigos e os vizinhos e lhes diz: 'Alegrem-se comigo, porque encontrei a minha ovelha que estava perdida.'"

Em Lucas, "quando"; em Mateus, "se". Em Lucas, ombros, amigos e vizinhos; em Mateus, nada disso.

Lucas 15:7 — "Eu digo a vocês que, da mesma forma, haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento."

A aplicação de Lucas fala de arrependimento; a de Mateus, no versículo 14, fala da vontade do Pai.

A alegria de achar o que se perdeu

Lucas 15:9 — "E, quando a encontra, reúne as amigas e as vizinhas e diz: 'Alegrem-se comigo, porque encontrei a moeda que eu tinha perdido.'"

A parábola da moeda, que em Lucas vem logo depois da ovelha, não está em Mateus.

A busca que nem sempre dá certo

Mateus 18:17 — "Se ele não der ouvidos a eles, comunique à igreja; e, se nem à igreja ele der ouvidos, que ele seja para você como o pagão e o cobrador de impostos."

Poucos versículos adiante, o mesmo capítulo prevê que a busca do irmão pode terminar sem ele.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

E, se conseguir achá-la, eu asseguro a vocês: ele se alegra mais com aquela ovelha do que com as noventa e nove que não se desgarraram.

Texto grego (Textus Receptus)

καὶ ἐὰν γένηται εὑρεῖν αὐτό, ἀμὴν λέγω ὑμῖν ὅτι χαίρει ἐπ᾽ αὐτῷ μᾶλλον ἢ ἐπὶ τοῖς ἐννενηκονταεννέα τοῖς μὴ πεπλανημένοις.

Transliteração

kai ean genētai heurein auto, amēn legō hymin hoti chairei ep' autō mallon ē epi tois ennenēkontaennea tois mē peplanēmenois.

Análise palavra por palavra

καὶ ἐὰν γένηται εὑρεῖν αὐτό — kai ean genētai heurein auto, "e, se conseguir achá-la", literalmente "e se acontecer de achá-la".

Ean com o subjuntivo marca condição possível, não certa. Genētai, de ginomai, "acontecer", dá à frase um tom de acaso: "se calhar de". Heurein é infinitivo aoristo de heuriskō, "achar, encontrar". Auto, "a", é neutro, concordando com probaton.

Em Lucas 15:4-5 a construção é outra: heōs heurē, "até que ache", e heurōn, "tendo achado", sem condição. A diferença entre os dois evangelhos está na gramática, não só no tom.

ἀμὴν λέγω ὑμῖν — amēn legō hymin, "eu asseguro a vocês", literalmente "amém, digo a vocês". Amēn é palavra hebraica que significa "é certo, firme". Na oração judaica vinha no fim, como resposta; Jesus a usa no começo, para garantir o que vai dizer.

ὅτι χαίρει ἐπ᾽ αὐτῷ — hoti chairei ep' autō, "ele se alegra com ela". Chairō, "alegrar-se", no presente, que descreve o que costuma acontecer. Epi com dativo indica o motivo da alegria: "por causa dela".

μᾶλλον ἢ — mallon ē, "mais do que". Comparativo simples. Compara a alegria, não o afeto.

ἐπὶ τοῖς ἐννενηκονταεννέα — epi tois ennenēkontaennea, "com as noventa e nove". Mesma construção de motivo.

τοῖς μὴ πεπλανημένοις — tois mē peplanēmenois, "que não se desgarraram".

Particípio perfeito passivo de planaō, o verbo de "desgarrar-se" do versículo 12. O perfeito descreve um estado: as que não estão em situação de desgarradas. A negação mē é a usada com particípios que definem um grupo. O verbo aparece aqui pela terceira vez na parábola, e é ele que dá nome às ovelhas: as que se desgarraram e as que não.

11. Conclusão

Do que se viu, o versículo leva a duas conclusões.

Mateus não garante o reencontro. O "se" é real, e o mundo dos ouvintes sabia que ovelhas desgarradas às vezes não voltavam. O capítulo vai na mesma direção logo adiante, quando admite que o irmão procurado pode não ouvir ninguém.

A alegria é de reencontro, não de preferência. O dono não passa a amar mais a ovelha que fugiu, e as que ficaram não são diminuídas nem elogiadas. Sem festa e sem vizinhos, Mateus deixa só o essencial: quando a busca dá certo, a reação é alegria.

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