Se a sua mão ou o seu pé levam você a pecar, corte-os e jogue-os longe. É melhor entrar na vida manco ou aleijado do que, com as duas mãos ou os dois pés, ser lançado no fogo eterno.
1. Introdução
Jesus manda cortar a mão ou o pé que faz cair, e diz que é melhor entrar na vida manco ou aleijado do que ser lançado inteiro no fogo eterno.
A ordem já tinha aparecido no Sermão do Monte, para o olho e a mão. Aqui entram o pé e uma promessa que lá não havia: "entrar na vida", mesmo com o corpo incompleto. E a frase vem logo depois de o capítulo falar de quem faz os outros caírem. O texto dá a ordem sem dizer se é figura.
2. Contexto Histórico e Cultural
A amputação como pena
Para quem ouvia Jesus, cortar a mão não era só imagem. Era um castigo que existia, previsto em leis e aplicado em pessoas conhecidas.
A Lei de Moisés tem um único caso: a mulher que, numa briga, agarra as partes íntimas do homem que luta com o marido dela deve ter a mão cortada, "o teu olho não terá piedade dela" (Deuteronômio 25:11-12). Os códigos do Oriente antigo tinham vários outros.
E a Galileia viu isso acontecer. Josefo, historiador judeu do século I, que comandou a Galileia no começo da guerra contra Roma, conta que em Tiberíades, por volta do ano 67, a multidão lhe pediu que punisse um jovem chamado Clito, o líder de uma revolta. Josefo mandou um guarda cortar-lhe as duas mãos. Clito, da margem do lago, pediu que lhe deixassem uma. Josefo aceitou, com a condição de que ele mesmo cortasse a outra. Clito tirou a espada com a mão direita e cortou a esquerda (Vida 170-173; também na Guerra judaica 2.642-644).
O episódio é trinta e poucos anos posterior ao ministério de Jesus e não tem relação com ele. Mas mostra que, naquela região, um homem cortar a própria mão, por ordem de outro, para evitar um mal maior, era coisa que podia acontecer diante de uma cidade inteira.
Os mestres judeus usavam a mesma imagem
A linguagem do corte também aparece entre os rabinos, e num contexto parecido com o do Sermão do Monte.
A Mishná (a coleção de leis dos mestres judeus, fechada por volta do ano 200) diz, no tratado Niddá (2:1), que a mão do homem que se toca com frequência "deve ser cortada". No Talmude (a grande compilação de discussões rabínicas, fechada por volta do século VI), a discussão continua (Niddá 13b). Rabi Tarfon, mestre do fim do século I, diz: "a mão que desce abaixo do umbigo, que seja cortada". Os outros objetam: e se ele tiver um espinho na barriga, não pode tirá-lo? E Tarfon responde: é melhor que a barriga dele se rasgue do que ele desça ao poço da perdição.
Ninguém, na discussão, propõe cortar mãos de verdade. A frase é uma forma extrema de dizer quanto o assunto é grave. E a estrutura é a mesma do versículo: o corte, a comparação ("é melhor"), e o lugar de destruição como alternativa.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se a sua mão ou o seu pé levam você a pecar"
Até o versículo 7, o capítulo falava de quem faz os outros caírem. Agora a queda é a do próprio discípulo, e quem o derruba é uma parte do seu corpo. O mesmo verbo do tropeço passa de fora para dentro.
Em relação a Mateus 5:29-30 há três diferenças. Lá eram "o olho direito" e "a mão direita"; aqui é "a mão", sem "direita", e entra o pé. Lá o contexto era o desejo sexual; aqui é o de fazer tropeçar os pequeninos. E aqui a mão e o pé estão juntos numa só frase, com um só verbo: "corte-os".
A mão é o que se faz; o pé é para onde se vai. "Os seus pés correm para o mal", diz Provérbios 1:16. Com o pé, a frase alcança não só os atos, mas os caminhos: os lugares a que se vai e as companhias que se procuram.
"corte-os e jogue-os longe"
O que a mão e o pé representam, neste capítulo? O texto não diz, e há três leituras.
Primeira leitura: são partes do próprio corpo, que representam hábitos e ações. Cortar seria romper com o que leva a pessoa a cair, por mais que custe. É a leitura mais antiga e a mais comum.
Segunda leitura: são membros da comunidade. O capítulo trata da vida entre os discípulos e, no versículo 17, prevê que o irmão que não ouve seja tratado "como um pagão". O corpo seria o grupo, e a mão ou o pé que faz tropeçar os pequeninos seria alguém de dentro, a ser afastado. A leitura aproveita o contexto de Mateus 18, mas supõe uma imagem, a da comunidade como corpo, que o evangelho não usa.
Terceira leitura: são eufemismos para o sexo. Em hebraico, "pés" pode designar as partes íntimas (Isaías 7:20, Rute 3:7), e a discussão rabínica do Talmude usa a mão nesse sentido (ver o item 2). Alguns estudiosos leem assim as três partes do corpo do versículo e do seguinte. É hipótese, e combina mais com Mateus 5 do que com Mateus 18.
Não é possível decidir.
E há a pergunta que o versículo não responde: a ordem é figura ou é para ser cumprida? O texto dá a ordem sem nenhum sinal de que seja imagem. A favor da figura, costuma-se dizer que o mal vem do coração (Mateus 15:19) e que cortar a mão não o tira de lá, e que Jesus fala por exagero em outros lugares, como o camelo que passa pelo fundo da agulha (Mateus 19:24). Contra a leitura só figurada, pesa que a amputação era real naquele mundo (ver o item 2) e que o versículo imagina um corpo de fato incompleto entrando na vida. A leitura ao pé da letra quase não teve seguidores na história cristã. O estudo de Mateus 5:29-30 trata a frase como hipérbole.
"É melhor entrar na vida manco ou aleijado"
Em Mateus 5:29-30 havia só a ameaça: é melhor perder um membro do que o corpo inteiro ir para o inferno. Aqui há também um destino positivo: entrar na vida.
"A vida" é o nome que Mateus dá, algumas vezes, ao Reino. O "caminho que leva à vida" é o apertado (Mateus 7:14); o jovem rico pergunta como "entrar na vida" (Mateus 19:17); os justos vão "para a vida eterna" (Mateus 25:46). No paralelo de Marcos 9:47, onde Mateus diz "vida", Marcos diz "Reino de Deus".
E a imagem é ousada. Na Lei, o manco e o aleijado não se aproximavam do altar (Levítico 21:18). Aqui, entram na vida mancos e aleijados. Quem se mutilou para não cair entra; quem guardou o corpo inteiro fica de fora. Em Mateus 15:31, os aleijados eram curados e os mancos andavam; o versículo 8 imagina alguém que aceita entrar sem a cura.
"do que, com as duas mãos ou os dois pés, ser lançado no fogo eterno"
É a primeira vez que Mateus diz "fogo eterno". A expressão volta em Mateus 25:41, "o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos". O versículo 9 falará da "geena de fogo". O versículo 8 não descreve o fogo; opõe "entrar" a "ser lançado", a vida ao fogo, e o corpo incompleto ao corpo inteiro.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
Fala aos discípulos, agora na segunda pessoa do singular: "a sua mão", "o seu pé". A ameaça, que era sobre terceiros, passa a ser dirigida a cada um.
O discípulo
O "você" da frase. Pode ser tanto quem faz cair os outros quanto quem é derrubado por si mesmo.
Josefo, Clito e Rabi Tarfon
Flávio Josefo, historiador judeu do século I, comandante na Galileia em 66-67; Clito, jovem de Tiberíades que cortou a própria mão por ordem dele; Rabi Tarfon, mestre judeu do fim do século I e começo do II. Citados no item 2.
Tiberíades
Cidade à margem ocidental do lago da Galileia, fundada por Herodes Antipas por volta do ano 20, onde aconteceu o episódio de Clito.
5. Pontos de Ensino
A queda pode vir de dentro
Depois de falar de quem derruba os outros, o capítulo fala do que derruba a própria pessoa.
O pé acrescenta os caminhos aos atos
Não só o que se faz, mas para onde se vai.
Há uma perda preferível a outra
O versículo põe na balança um membro e a vida inteira, e diz qual vale mais.
A vida pode ser recebida incompleta
Entra-se "manco ou aleijado". O corpo inteiro não é condição para entrar.
O texto não diz se a ordem é figura
As leituras existem, e a decisão é do leitor, não do versículo.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo pergunta, sem dizer, se uma pessoa é o seu corpo. Ele admite que se perca uma parte para salvar o todo, como quem aceita uma amputação para sobreviver. Mas o "todo" que ele quer salvar não é o corpo: é a entrada na vida, que pode ser feita com o corpo incompleto. A integridade física, que quase toda ética trata como bem a proteger, aparece aqui como um bem que pode ser sacrificado a outro maior. A frase não diz qual é a medida para decidir quando o sacrifício vale; diz só que há casos em que vale.
7. Aplicações Práticas
Cortar o caminho, não só o gesto
O pé leva a lugares. Quem sabe que sempre cai no mesmo lugar, na mesma companhia, no mesmo trajeto, tem no versículo uma indicação concreta: deixar de ir. Isso custa, às vezes, amizades, hábitos e prazeres legítimos. O versículo diz que há perdas que valem a pena.
Não ferir o corpo
Seja qual for a leitura que se faça da ordem, a tradição cristã, quase sem exceção, não a aplicou como mandado de automutilação, e quem sofre com impulsos de se ferir precisa de ajuda, não de um versículo. A frase fala do valor da vida, não do desprezo pelo corpo.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus mandou mesmo cortar a mão?
O texto dá a ordem sem dizer que é figura, e as leituras estão no item 3. A história cristã quase inteira entendeu a frase como imagem, mas o versículo, por si, não decide.
Por que o pé, que não estava em Mateus 5:30?
Mateus 18 segue aqui o dito de Marcos 9:43-47, que tem mão, pé e olho. No Sermão do Monte, Mateus usou só o olho e a mão, ligados ao desejo sexual. O pé amplia o alcance: não só o que se faz, mas os caminhos.
"Entrar na vida" é o mesmo que entrar no céu?
No evangelho, "a vida" equivale ao Reino: no paralelo de Marcos, a mesma frase diz "Reino de Deus". O versículo não descreve esse lugar; opõe-no ao fogo eterno.
9. Conexão com Outros Textos
O dito no Sermão do Monte
Mateus 5:30 — E se a sua mão direita o faz pecar, corte-a e lance-a para longe de você; pois é melhor perder um dos seus membros do que ir todo o seu corpo para o inferno.
O dito em Marcos
Marcos 9:43 — "Se a tua mão te servir de pedra de tropeço, corta-a; melhor é entrares na vida manco do que, tendo duas mãos, ires para a Geena, para o fogo inextinguível."
Marcos 9:45 — "Se o teu pé te servir de pedra de tropeço, corta-o; melhor é entrares na vida aleijado, do que, tendo dois pés, seres lançado na Geena."
Marcos separa a mão e o pé em duas frases; Mateus as junta numa.
"Entrar na vida"
Mateus 7:14 — Porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e são poucos os que o encontram.
Mateus 19:17 — Ele lhe respondeu: “Por que você me chama de bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus. Mas, se você quer entrar na vida, guarde os mandamentos.”
O fogo eterno
Mateus 25:41 — Então dirá também aos que estiverem à esquerda: “Afastem-se de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos.
Mancos e aleijados
Mateus 15:31 — De modo que a multidão se admirava, ao ver os mudos falando, os aleijados curados, os mancos andando e os cegos vendo; e glorificaram o Deus de Israel.
2 Samuel 5:8 — "Por isso, se diz: Nem cego nem coxo entrará na casa."
O provérbio que fechava a casa ao coxo; o versículo 8 o faz entrar na vida.
Os pés que correm para o mal
Provérbios 1:16 — "porque os seus pés correm para o mal, e eles se dão pressa a derramar sangue."
O mal que vem do coração
Mateus 15:19 — Pois do coração procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Se a sua mão ou o seu pé levam você a pecar, corte-os e jogue-os longe. É melhor entrar na vida manco ou aleijado do que, com as duas mãos ou os dois pés, ser lançado no fogo eterno.
Texto grego
εἰ δὲ ἡ χείρ σου ἢ ὁ πούς σου σκανδαλίζει σε, ἔκκοψον αὐτὰ καὶ βάλε ἀπὸ σοῦ· καλόν σοί ἐστὶν εἰσελθεῖν εἰς τὴν ζωὴν χωλὸν ἢ κυλλόν, ἢ δύο χεῖρας ἢ δύο πόδας ἔχοντα βληθῆναι εἰς τὸ πῦρ τὸ αἰώνιον.
Transliteração
ei de hē cheir sou ē ho pous sou skandalizei se, ekkopson auta kai bale apo sou; kalon soi estin eiselthein eis tēn zōēn chōlon ē kyllon, ē dyo cheiras ē dyo podas echonta blēthēnai eis to pyr to aiōnion.
Os manuscritos mais antigos e as edições críticas modernas trazem "corte-o" no singular (auton) e a ordem inversa, "aleijado ou manco" (kyllon ē chōlon); o Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) traz o plural e "manco ou aleijado", e é essa a ordem da tradução.
Análise palavra por palavra
εἰ δὲ ἡ χείρ σου ἢ ὁ πούς σου — ei de hē cheir sou ē ho pous sou, "e se a sua mão ou o seu pé". Ei com o indicativo apresenta a condição como real: "se, como acontece". Cheir é "mão"; pous, "pé".
σκανδαλίζει σε — skandalizei se, "faz você tropeçar". Presente de skandalizō, o verbo dos versículos 6 e 7. O verbo fica no singular, embora os sujeitos sejam dois: concorda com o mais próximo, ou trata "mão ou pé" como uma coisa só.
ἔκκοψον αὐτὰ — ekkopson auta, "corte-os". Imperativo aoristo de ekkoptō, "cortar fora", o verbo de cortar uma árvore pela raiz (Mateus 3:10, 7:19). O aoristo pede uma ação única e decisiva. Auta, "os", no neutro plural, cobre a mão e o pé juntos.
καὶ βάλε ἀπὸ σοῦ — kai bale apo sou, "e jogue-os para longe de você". Imperativo aoristo de ballō, "lançar". O mesmo verbo volta no fim, na forma passiva: "ser lançado". Quem não lança o membro será lançado.
καλόν σοί ἐστὶν — kalon soi estin, "é bom para você". Kalon é "bom, belo, conveniente". Com o "do que" (ē) que vem depois, forma uma comparação: "é melhor". Em Mateus 5:29-30 o verbo era outro, sympherei, "é vantajoso".
εἰσελθεῖν εἰς τὴν ζωὴν — eiselthein eis tēn zōēn, "entrar na vida". Zōē é a vida no sentido pleno, não a vida biológica (para esta, o grego tem bios, e o evangelho usa também psychē). O verbo de entrar é o mesmo do versículo 3, "entrar no Reino".
χωλὸν ἢ κυλλόν — chōlon ē kyllon, "manco ou aleijado". Chōlos é quem não anda direito, ligado ao pé; kyllos, o membro torto ou mutilado, sobretudo a mão. O estudo de Mateus 15:30 trata das duas palavras.
A ordem do Textus Receptus cruza as palavras: "mão ou pé", depois "manco ou aleijado", isto é, pé e mão. É uma estrutura em espelho, que a ordem das edições críticas desfaz.
ἢ δύο χεῖρας ἢ δύο πόδας ἔχοντα — ē dyo cheiras ē dyo podas echonta, "do que tendo duas mãos ou dois pés". O particípio echonta, "tendo", descreve o corpo inteiro.
βληθῆναι εἰς τὸ πῦρ τὸ αἰώνιον — blēthēnai eis to pyr to aiōnion, "ser lançado no fogo eterno". Infinitivo aoristo passivo de ballō. Aiōnios vem de aiōn, "era, tempo longo, eternidade", e designa o que pertence à era que vem, sem fim. Em Mateus, o adjetivo qualifica o fogo (aqui e em Mateus 25:41), o castigo e a vida (Mateus 25:46).
11. Conclusão
Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.
O capítulo passa de quem derruba os outros para o que derruba a própria pessoa. O verbo do tropeço vira para dentro, e a ameaça, que era sobre terceiros, é dita a cada discípulo.
O que Mateus 18 acrescenta ao Sermão do Monte é o pé e a vida. Com o pé, a frase alcança os caminhos, e não só os atos. Com "entrar na vida", ela ganha um destino positivo: há uma entrada, e ela pode ser feita com o corpo incompleto.
A ordem é dada sem dizer se é figura. As leituras sobre o que se corta, o próprio corpo, a comunidade, o sexo, e sobre o alcance da ordem, imagem ou mandado, existem lado a lado. O versículo afirma sem ambiguidade só a escala: um membro vale menos que a vida.













