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Mateus 18:7

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 12 min de leitura·👁 25 acessos
Ai do mundo por causa das coisas que levam ao pecado! É inevitável que elas venham, mas ai daquele homem por quem elas vêm!
Um caminho de pedra na Galileia com uma pedra saliente no meio, um homem tropeçando nela ao fundo, e Jesus falando aos discípulos em primeiro plano.

Estudo


Ai do mundo por causa das coisas que levam ao pecado! É inevitável que elas venham, mas ai daquele homem por quem elas vêm!

1. Introdução

Jesus afirma duas coisas que parecem se chocar: os tropeços vão acontecer, sem remédio; e quem os provoca é culpado.

O versículo tem dois "ai". O primeiro lamenta o mundo, que vai sofrer com as quedas. O segundo ameaça a pessoa por meio de quem elas chegam. Entre um e outro está a palavra "inevitável", e ela não serve de desculpa.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Ai de…": a fórmula dos profetas

O "ai" com que Jesus abre a frase não é um suspiro. Na Bíblia hebraica, é a abertura de um tipo de fala profética: a lamentação sobre alguém que ainda está vivo, mas cujo fim já é anunciado. Isaías 5:8-23 tem uma série de seis, uma atrás da outra: "Ai dos que ajuntam casa a casa", "ai dos que se levantam cedo para correr atrás da bebida", e assim por diante. O "ai" era o lamento que se fazia sobre um morto, dito antes da morte. Quem o ouvia sabia que era ameaça.

Tudo é previsto, e a escolha é livre

A tensão que o versículo põe numa só frase, entre o que tem de acontecer e a culpa de quem faz acontecer, era discutida pelos judeus do tempo de Jesus. E cada grupo tinha a sua resposta.

Josefo, historiador judeu do século I, descreve os três grupos principais do judaísmo pelo que pensavam sobre o destino. Os essênios, diz ele, punham tudo nas mãos do destino e de Deus. Os saduceus negavam o destino e atribuíam tudo à escolha humana. Os fariseus ficavam no meio: algumas coisas acontecem pelo destino, outras dependem de nós, e o agir bem ou mal está, em grande parte, nas mãos do homem, embora o destino colabore em cada ação (Antiguidades judaicas 13.172 e Guerra judaica 2.162-165).

Josefo escreve para leitores gregos e usa a palavra deles, "destino", onde um judeu diria "a providência de Deus". Mas o quadro que ele dá é claro: a pergunta estava viva, e a resposta mais comum entre os mestres do povo juntava as duas coisas.

Uma geração depois, a Mishná (a coleção de leis dos mestres judeus, fechada por volta do ano 200) guarda uma frase de Rabi Aquiba, mestre morto por volta do ano 135, que diz o mesmo em quatro palavras hebraicas: "Tudo é previsto, e a permissão é dada" (tratado Avot 3:15; em algumas edições, 3:19). Deus sabe o que vai acontecer, e o homem continua livre para escolher. Aquiba não explica como as duas coisas cabem juntas; afirma as duas.

O versículo de Mateus pertence a esse mundo. Não é uma posição isolada nem estranha: é a forma que muitos judeus davam à questão.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ai do mundo por causa das coisas que levam ao pecado!"

O primeiro "ai" tem o mundo como objeto, e o mundo aqui é quem sofre. As quedas vão atingi-lo, e Jesus lamenta isso. Não é condenação do mundo; é lamento sobre ele.

O grego repete neste versículo três vezes a mesma palavra, a do tropeço. A ABC a traduz por "coisas que levam ao pecado" e depois retoma com "elas". É sempre a mesma coisa: aquilo que faz alguém cair.

"É inevitável que elas venham"

A frase afirma uma necessidade, e não explica de onde ela vem. Por que é inevitável que os tropeços venham? O texto não diz, e há três leituras.

Primeira leitura: é inevitável porque o mundo é como é. Onde há gente, há quem faça os outros caírem. Jesus não estaria falando de um plano, e sim constatando uma realidade: num mundo como este, as quedas não vão faltar.

Segunda leitura: é inevitável porque faz parte do que precisa acontecer antes do fim. Mateus usa a linguagem da necessidade para o que está previsto nos planos de Deus: as guerras que "é preciso que aconteçam" (Mateus 24:6), a paixão de Jesus, que "assim deve acontecer" (Mateus 26:54). E Mateus 13:41 diz que, no fim, os anjos tirarão do Reino "tudo o que causa pecado". Nessa leitura, os tropeços pertencem ao tempo que vai até esse fim.

Terceira leitura: é inevitável porque o tropeço revela quem é firme. Paulo diz, em 1 Coríntios 11:19, que "é necessário que haja facções" para que os aprovados se manifestem. A queda de uns mostraria a fidelidade de outros.

Não é possível decidir. As três leituras podem se somar, e nenhuma delas diminui o que vem a seguir.

"mas ai daquele homem por quem elas vêm!"

O "mas" é forte no grego: "contudo, apesar disso". A necessidade não absolve ninguém. Que as quedas venham é inevitável; que venham por meio desta pessoa não é.

O segundo "ai" é outro. O primeiro era lamento pelo mundo; este é ameaça contra alguém. O mundo sofre os tropeços; a pessoa os traz.

Mateus tem outra frase com a mesma forma, e ela é sobre Judas: "O Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito; mas ai daquele homem por meio de quem o Filho do homem é traído!" (Mateus 26:24). Lá também o que acontece estava escrito, e a culpa do traidor continua inteira. As duas frases têm a mesma estrutura: primeiro o que tem de acontecer, depois o "ai" contra o instrumento.

O versículo não tenta explicar como a necessidade e a culpa cabem juntas. Afirma as duas, lado a lado, sem que uma anule a outra.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Continua a falar aos discípulos, agora num tom de profeta, com dois "ai".

O mundo

A humanidade em geral, que sofre com os tropeços. É lamentada, não condenada.

A pessoa "por quem" o tropeço chega

Não identificada. É o instrumento da queda, e é sobre ela que cai a ameaça.

Josefo e Rabi Aquiba

Flávio Josefo, historiador judeu do século I; Rabi Aquiba, um dos mestres mais importantes da Mishná, morto por volta de 135 na revolta contra Roma. Citados no item 2.

5. Pontos de Ensino

O mundo é lamentado, não amaldiçoado

O primeiro "ai" tem compaixão pelos que vão cair.

Os tropeços são inevitáveis

Jesus não promete uma comunidade sem quedas.

O inevitável não desculpa ninguém

Que o tropeço venha é necessário; que venha por mim, não.

A mesma estrutura serve para Judas

Mateus 26:24 junta o que "está escrito" e o "ai" contra o traidor.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo junta duas afirmações que o pensamento costuma separar: algo é necessário, e quem o faz é responsável. Se uma coisa vai acontecer de qualquer jeito, parece injusto culpar quem a realiza; se alguém é culpado, parece que a coisa podia não ter acontecido. A frase recusa as duas saídas. Ela trata a necessidade como um fato sobre o conjunto, o mundo em que haverá quedas, e a culpa como um fato sobre cada um, a pessoa por meio de quem a queda vem. Que alguém vá fazer o mal não quer dizer que tenha de ser eu.

7. Aplicações Práticas

Não usar o "é inevitável" como desculpa

Diante de um escândalo numa igreja, numa empresa ou numa família, é comum ouvir que "isso acontece em todo lugar". O versículo concorda que acontece. E diz que isso não alivia em nada quem o provocou. Quem reconhece que as quedas são inevitáveis e, ao mesmo tempo, se recusa a ser o canal delas, entendeu a frase.

Não se escandalizar com o escândalo

O versículo também prepara quem sofre as quedas. Jesus avisou que elas viriam. Descobrir que há quem derruba os outros dentro da comunidade não prova que tudo é falso; foi anunciado.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se os tropeços são inevitáveis, por que culpar alguém?

O versículo não responde à objeção; afirma as duas coisas. O que se pode notar é que a necessidade é dita do conjunto, "que venham", e a culpa, de cada um, "por quem chega". Que haja quedas no mundo não obriga nenhuma pessoa em particular a provocá-las.

O "mundo" aqui é inimigo de Deus?

Não neste versículo. O primeiro "ai" é um lamento: o mundo é quem vai sofrer os tropeços. Mateus não usa aqui o "mundo" no sentido de sistema hostil a Deus.

Por que a ABC não repete a palavra três vezes?

Para evitar a repetição em português. O grego repete a palavra do tropeço nas três vezes; a ABC diz "coisas que levam ao pecado" na primeira e retoma com "elas" nas outras duas, sem mudar de assunto.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo dito em Lucas

Lucas 17:1 — "Disse Jesus aos seus discípulos: É impossível que não haja pedras de tropeço, mas ai daquele por quem elas vêm!"

Lucas diz "é impossível que não haja": a mesma necessidade, pelo avesso.

A mesma forma, aplicada a Judas

Mateus 26:24 — O Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito; mas ai daquele homem por meio de quem o Filho do homem é traído! Melhor seria para esse homem não haver nascido”.

O que está escrito, o "ai" contra o instrumento e o "melhor seria", como no versículo 6.

O que é preciso que aconteça

Mateus 24:6 — Vocês vão ouvir falar de guerras e de rumores de guerras. Vejam, não se assustem, porque é preciso que isso aconteça; mas ainda não é o fim.

O fim dos tropeços

Mateus 13:41 — O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu Reino tudo o que causa pecado e todos os que praticam a injustiça,

"Tudo o que causa pecado" é a mesma palavra deste versículo.

O plano e a culpa juntos

Atos 2:23 — "sendo este entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;"

O necessário que revela

1 Coríntios 11:19 — "Pois é necessário que haja facções entre vós, para que os aprovados entre vós se tornem manifestos."

O "ai" dos profetas

Isaías 5:8 — "Ai dos que ajuntam casa a casa, achegam campo a campo, até que não haja mais lugar, de modo que habitem sós no meio da terra!"

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Ai do mundo por causa das coisas que levam ao pecado! É inevitável que elas venham, mas ai daquele homem por quem elas vêm!

Texto grego

οὐαὶ τῷ κόσμῳ ἀπὸ τῶν σκανδάλων· ἀνάγκη γάρ ἐστιν ἐλθεῖν τὰ σκάνδαλα· πλὴν οὐαὶ τῷ ἀνθρώπῳ ἐκείνῳ, δι’ οὗ τὸ σκάνδαλον ἔρχεται.

Transliteração

ouai tō kosmō apo tōn skandalōn; anankē gar estin elthein ta skandala; plēn ouai tō anthrōpō ekeinō, di' hou to skandalon erchetai.

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) traz "é" (estin) e "aquele" (ekeinō), que as edições críticas modernas omitem. O sentido não muda.

Análise palavra por palavra

οὐαὶ τῷ κόσμῳ — ouai tō kosmō, "ai do mundo". Ouai é uma interjeição de dor, que imita o som do lamento; na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.) traduz o hebraico hoy e oy, o "ai" dos profetas. Kosmos é "mundo": aqui, a humanidade inteira.

ἀπὸ τῶν σκανδάλων — apo tōn skandalōn, "por causa dos tropeços". Apo, normalmente "de, a partir de", tem aqui o sentido de causa. Skandala é o plural de skandalon, "armadilha, pedra de tropeço". A origem e o campo da palavra estão no estudo de Mateus 16:23.

A palavra aparece três vezes no versículo: skandalōn, skandala, skandalon. A ABC a traduz por "coisas que levam ao pecado" e retoma com "elas" nas outras duas vezes. Skandalon não é a tentação que alguém sente, e sim a coisa ou a pessoa que o faz cair.

ἀνάγκη γάρ ἐστιν — anankē gar estin, "pois é necessário". Anankē é o substantivo "necessidade, força que obriga". Em grego clássico, era também a necessidade que nem os deuses podiam desfazer. No Novo Testamento, significa com frequência "aflição, aperto" (Lucas 21:23, 2 Coríntios 6:4). Aqui, com o infinitivo, é "é inevitável". Mateus usa esta palavra só aqui; para o que "é preciso" nos planos de Deus, costuma usar o verbo dei (Mateus 16:21, 24:6, 26:54). O gar, "pois", explica o primeiro "ai": o mundo é lamentado porque as quedas virão.

ἐλθεῖν τὰ σκάνδαλα — elthein ta skandala, "que venham os tropeços". Infinitivo aoristo de erchomai, "vir".

πλὴν — plēn, "contudo, no entanto". Advérbio que corta a frase anterior e acrescenta uma ressalva forte. Mateus o usa em Mateus 26:39: "contudo, não como eu quero".

οὐαὶ τῷ ἀνθρώπῳ ἐκείνῳ — ouai tō anthrōpō ekeinō, "ai daquele homem". Anthrōpos é "ser humano", sem marca de sexo; a ABC traduz "daquele homem", como em Mateus 26:24. Ekeinō, "aquele", aponta com ênfase para o culpado. É exatamente a expressão de Mateus 26:24, sobre Judas: ouai tō anthrōpō ekeinō.

δι’ οὗ τὸ σκάνδαλον ἔρχεται — di' hou to skandalon erchetai, "por meio de quem o tropeço vem". Dia com o genitivo indica o meio, o canal. O tropeço "vem", no presente, como coisa que chega; a pessoa é aquela por onde ele passa.

11. Conclusão

Com base no que se viu, o versículo leva a três conclusões.

Jesus não promete aos discípulos uma comunidade sem quedas. Os tropeços virão, e ele o diz como coisa certa. O primeiro "ai" é compaixão por quem vai sofrê-los.

A necessidade do conjunto não apaga a culpa de cada um. Que haja quedas é inevitável; que venham por uma pessoa determinada não é. O versículo põe as duas afirmações lado a lado, como Mateus 26:24 faz com Judas, e não sacrifica nenhuma delas.

O texto não explica como as duas coisas cabem juntas. Ele se alinha com o que muitos judeus do seu tempo diziam, previsão e liberdade ao mesmo tempo, e deixa a tensão onde ela está. Resolver a frase para um dos lados é ler menos do que ela diz.

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