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Mateus 15:32

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✍️ Por Alberto Adriano·1 de setembro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 51 acessos
Jesus chamou os seus discípulos e disse: “Tenho compaixão desta multidão, porque já faz três dias que permanecem comigo e não têm o que comer; e não quero mandá-los embora em jejum, para que não desfaleçam no caminho.”
Multidão sentada no chão de uma encosta seca ao entardecer, com pessoas cansadas e crianças, e um homem em pé falando com um pequeno grupo.

Estudo


Jesus chamou os seus discípulos e disse: “Tenho compaixão desta multidão, porque já faz três dias que permanecem comigo e não têm o que comer; e não quero mandá-los embora em jejum, para que não desfaleçam no caminho.”

1. Introdução

Jesus não fala desde o versículo 28. Atravessou quatro versículos em silêncio — subiu, sentou, recebeu doentes, curou. Aqui ele abre a boca, e a primeira coisa que diz não é doutrina: é que aquela gente está com fome.

Três coisas neste versículo pedem exame, e as três são fáceis de atropelar.

A primeira é a palavra da compaixão, que em grego é física: o que ele sente está localizado nas entranhas, não no pensamento. A análise do original examina o termo.

A segunda é a direção do movimento. Na cena equivalente do capítulo anterior, foram os discípulos que procuraram Jesus para sugerir que a multidão fosse liberada. Desta vez ninguém o procura: ele é que convoca, e o que diz inverte a proposta que ouvira antes.

A terceira é uma distinção que a pregação costuma perder. Despedir não é o problema — o próprio Jesus despede multidões duas vezes neste trecho do evangelho. O problema é despedir em jejum.

Há ainda o detalhe do prazo. Três dias sem comer não é fome de fim de tarde: é fraqueza real, com risco concreto no caminho de volta.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que se comia, e o que significava ficar sem

A base alimentar da população rural da região era o pão, e ele fornecia a maior parte das calorias do dia: cereal, azeite, algum legume, cebola, alho, figo e tâmara na estação, peixe salgado perto do lago, vinho aguado, carne em ocasiões raras. Por isso a palavra "pão" funciona, nas línguas bíblicas, como sinônimo de alimento em geral — não ter pão é não ter nada.

Quem viajava levava provisão: um saco com pão, um odre, talvez queijo e azeitona. As instruções de missão em Mateus 10:9-10 mandam justamente o contrário — não levar alforje nem pão —, e é a excepcionalidade da ordem que mostra qual era o costume. Uma multidão que passa três dias fora de casa esgotou o que trouxe, e é isso que o versículo pressupõe sem dizer.

Três dias sem comer: o que acontece com um corpo

O dado importa porque a frase costuma ser lida como retórica e não é.

Um adulto sadio sobrevive muito mais do que três dias sem alimento; a desidratação é o problema urgente, não a fome. Mas o desempenho físico despenca bem antes disso. Depois de cerca de vinte e quatro a trinta e seis horas sem comer, as reservas de açúcar armazenadas no fígado se esgotam e o corpo passa a queimar gordura e proteína, com queda de força, tontura ao levantar, dificuldade de concentração e sensação de frio.

Some-se o perfil da multidão: gente que acabou de caminhar até ali, muitos carregando doentes, sob sol, provavelmente com pouca água, e que terá de refazer o caminho. Crianças e idosos aguentam menos, e ninguém ali tinha reservas de sociedade abastada. Quando o versículo diz que podem desfalecer no caminho, não está usando figura de linguagem: está descrevendo um risco realista para uma parte daquela gente.

A obrigação de não despedir de mãos vazias

O mundo antigo levava a hospitalidade a sério, e não por sentimentalismo: era instituição, com regras e com sanção social. Quem recebia alguém devia comida, água e proteção; quem despachasse um hóspede faminto se desonrava. A literatura de Israel dá a isso peso religioso — Abraão corre para preparar comida aos visitantes em Gênesis 18, e Isaías 58:7 define o jejum aceitável como repartir o pão com o faminto.

E há um caso legal instrutivo em Deuteronômio 15:13, sobre o escravo libertado: não o mandarás embora de mãos vazias. A lógica é exatamente a deste versículo — o modo de encerrar uma relação é parte da relação, e mandar embora sem provisão é uma forma de abandono, mesmo quando a dispensa em si é legítima.

Jejum: o que a palavra carregava

O termo grego traduzido por "em jejum" pertence ao mesmo campo do jejum religioso. O jejum obrigatório na Torá é um só, o Dia da Expiação de Levítico 16:29-31; depois do exílio acrescentaram-se jejuns comemorativos, mencionados em Zacarias 8:19, e havia ainda o voluntário, que Lucas 18:12 põe na boca de um fariseu como prática de duas vezes por semana. Mateus trata do assunto em 6:16-18, contra a exibição do jejum, e em Mateus 9:14-15.

No versículo 32, porém, a palavra não tem conteúdo religioso nenhum. Descreve estômago vazio. E essa dessacralização é ela mesma informativa, num capítulo que começou discutindo comida e pureza.

3. Análise Teológica do Versículo

"Jesus chamou os seus discípulos"

O verbo é o de chamar para junto de si — não convocar alguém para outro lugar, mas puxar para perto. Mateus o usa em momentos de instrução deliberada: quando dá autoridade aos doze, em Mateus 10:1; quando põe uma criança no meio deles, em Mateus 18:2; quando ensina sobre autoridade, em Mateus 20:25. Em cada caso, o que se segue muda alguma coisa.

A inversão que o capítulo anterior torna visível

Aqui está o achado de composição do versículo, e ele se verifica em duas linhas de leitura comparada.

Mateus 14:15: "Chegando a tarde, os seus discípulos aproximaram-se dele, dizendo: O lugar é deserto, e a hora é já passada; despede a multidão, para que vá às aldeias e compre comida para si."

Mateus 15:32: Jesus chama os discípulos e diz que tem compaixão, e que não quer despedi-los em jejum.

Quatro elementos se invertem. Quem toma a iniciativa: lá, eles; aqui, ele. A direção do movimento: lá, aproximaram-se dele; aqui, ele os chama. A proposta: lá, dispensar; aqui, recusa expressa de dispensar. E a solução: lá, que a multidão se vire e compre; aqui, nada — Jesus expõe o problema e para.

Há ainda a diferença de motivo declarado. Em Mateus 14:15 o argumento dos discípulos é logístico: lugar deserto, hora tarde. Aqui o argumento é o estado das pessoas: três dias sem comer, risco de desfalecer. A comparação é literal, e Mateus registra a inversão sem comentá-la — como registra, sem comentar, quase tudo neste bloco.

"Tenho compaixão desta multidão"

O verbo da compaixão é físico. O que ele diz sentir está localizado nas entranhas, não no pensamento: é a reação que se sente no tronco, do tipo que a língua portuguesa registra em "senti no estômago" ou "levei um soco na boca do estômago". A análise do original examina a palavra e a sua distribuição, que é surpreendente.

Duas coisas na formulação merecem atenção: o tempo verbal, que não é "compadeci-me" mas "estou compadecido, sinto isto agora", e a pessoa, porque quem informa o estado interior é o próprio Jesus. Vale medir a raridade disso: os evangelhos quase nunca informam o que Jesus sente; quando o fazem, é o texto que atribui — teve compaixão, irou-se, alegrou-se no espírito. Aqui a informação vem da boca dele e serve de premissa para o que virá. É argumento, e não confidência.

"porque já faz três dias que permanecem comigo e não têm o que comer"

O verbo da permanência não é o de estar presente: é o de ficar junto, aderir, não sair de perto. É a única ocorrência dele em Mateus, e o campo é o da constância — fora dos evangelhos ele aparece na exortação a permanecer no Senhor, em Atos 11:23, e a respeito da viúva que persevera em súplicas, em 1 Timóteo 5:5.

A frase entrega, sem enunciar, uma informação inteira: essa multidão está acampada. Três dias significa duas noites ao relento. Significa que trouxeram o que tinham e acabou. E significa que ninguém foi embora quando a comida terminou — é isso que o verbo da permanência registra.

Quanto ao número, ele exige contenção, porque é o tipo de detalhe em que a leitura simbólica entra sem pedir licença. "Três dias" é unidade narrativa frequente na Bíblia hebraica — a jornada pedida a Faraó, a preparação antes do Sinai, Jonas no ventre do peixe, a viagem até o monte em Gênesis 22:4 — e Mateus a usa em pontos decisivos: o sinal de Jonas em Mateus 12:40, os anúncios da ressurreição em 16:21, 17:23 e 20:19.

Mas aqui o contexto é inteiramente prático: três dias explicam por que a comida acabou e por que há risco no caminho de volta. Se fosse um dia, não haveria problema; se fossem sete, a cena seria implausível. E o evangelista não faz ligação nenhuma — não cita Jonas, não menciona ressurreição, não comenta. Ler o terceiro dia da paixão dentro deste versículo é importar uma chave que ele não fornece: é leitura possível e não é sustentável como sentido do texto.

"e não quero mandá-los embora em jejum"

O rastro do verbo "despedir" nos dois capítulos anteriores é o dado mais forte do versículo, e é verificável em três linhas.

Em Mateus 14:15, os discípulos: "despede a multidão". Em Mateus 15:23, os discípulos, sobre a mulher cananeia: "despede-a, pois vem gritando atrás de nós". Em Mateus 15:32, Jesus: "não quero despedi-los em jejum".

Duas vezes o verbo está na boca dos discípulos, pedindo que se tire alguém do caminho. A terceira está na boca de Jesus, e vem negada.

É preciso, aqui, um cuidado que a pregação costuma dispensar: o verbo não é, em si, negativo. Em Mateus 14:22-23, depois de alimentar os cinco mil, o próprio Jesus despede as multidões com esse mesmo verbo e sobe ao monte para orar. E no versículo 39 deste capítulo ele as despedirá de novo, depois de comerem.

Ou seja: dispensar não é o problema. O problema é dispensar em jejum. A oposição do versículo não está entre acolher e mandar embora; está entre mandar embora alimentado e mandar embora vazio. É uma distinção que a leitura moralizante costuma perder, porque prefere a antítese mais simples — e perdê-la transforma a frase num elogio difuso do acolhimento, que é precisamente o que ela não é.

Note-se ainda a formulação: "não quero". Não é "não posso", não é "não convém", não é "seria melhor que não". É recusa deliberada, e é a única coisa que Jesus afirma sobre si mesmo neste versículo além da compaixão.

"para que não desfaleçam no caminho"

O verbo final descreve algo que se afrouxa e cede — um nó que se desfaz, uma corda que perde tensão. Aplicado a pessoas, é o esgotamento das forças: desfalecer, desmaiar, ficar sem energia.

E há um detalhe que a análise do original desenvolve e que vale registrar aqui pela consequência: o verbo de despedir e o verbo de desfalecer são compostos da mesma raiz. Soltar para longe e soltar por dentro. A frase diz, com duas palavras aparentadas, que soltá-los pela estrada os faria soltar-se por dentro. Se o jogo é intencional, não há como saber; ele existe no grego.

Há uma cena do Antigo Testamento que ilumina esta com precisão incômoda. Em 1 Samuel 14, Saul impõe ao exército o juramento de que ninguém comeria antes do anoitecer, e o resultado é um povo exausto no meio da batalha; Jônatas, que não ouviu o juramento, prova um pouco de mel e recupera o vigor. Um preceito religioso produziu fraqueza física e prejudicou aquilo que deveria favorecer.

O contraste vale enunciar com cuidado, porque é fácil transformá-lo em caricatura. Não se trata de opor um Deus severo a um Jesus bondoso. Trata-se de notar que, num capítulo que começou discutindo se comer sem lavar as mãos contamina, o mesmo capítulo termina numa preocupação puramente física com o estômago de quem vai voltar para casa a pé: o eixo se desloca da pureza da comida para a existência dela.

E há um paralelo positivo que fecha o campo: em 1 Reis 19:5-8, Elias, exausto e querendo morrer, é acordado por um anjo com pão e água e ouve "levanta-te e come, porque o caminho te será demasiado longo". Alimento dado por causa do caminho que falta — a lógica exata deste versículo, numa coincidência temática, e não verbal.

O que Jesus não diz

Ele não dá ordem. Não diz "dai-lhes vós de comer", como em Mateus 14:16. Não pede nada aos discípulos, não anuncia o que vai fazer, não pergunta o que eles acham. Expõe uma comoção, dois fatos e uma recusa, e para.

O efeito é deixar um espaço aberto, que o versículo seguinte vai preencher com uma pergunta. Se a exposição do problema é convite a que eles proponham alguma coisa, ou apenas declaração antes da ação, não é possível decidir: o texto não informa a intenção.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Volta a falar depois de quatro versículos calado, e o que fala é sobre comida. A estrutura da fala é a de um argumento: um estado interior declarado em primeira pessoa, dois fatos sobre a multidão, uma recusa de vontade e um motivo. Não há ordem, não há pergunta, não há anúncio de milagre.

É também uma das raríssimas passagens em que um evangelho põe na boca de Jesus a descrição do próprio sentimento. O padrão é o inverso: o texto atribui as emoções e o personagem age.

Os discípulos

Reaparecem depois de terem sumido no versículo 23, quando pediram que a mulher cananeia fosse despachada. Não são nomeados individualmente e não falam aqui — falarão no seguinte.

O detalhe de que precisaram ser chamados sugere que não estavam junto a Jesus durante as curas. Onde estavam, o texto não diz, e a informação não deve ser inventada.

A multidão

Aqui ela ganha, pela primeira vez, uma característica que não é numérica: permanece. O verbo indica adesão, e não simples presença — ficaram colados a ele por três dias.

Ganha também uma condição, a fome, e um destino implícito: o caminho de volta, que o versículo menciona e que é a razão de toda a preocupação. O que continua sem definição é a identidade. O versículo não diz de onde vieram nem quem são, e a discussão aberta pelo versículo anterior não recebe aqui nenhum elemento novo — a não ser, indiretamente, o fato de terem viajado o suficiente para ficar três dias fora.

O caminho

Aparece no fim do versículo como espaço de risco: é ali que se desfalece. Não é descrito, não é medido, não é nomeado. Vale registrar que a preocupação declarada não é com a fome em si, e sim com a fome no percurso — essa gente tem de voltar, e não vai conseguir.

O evento: uma decisão anunciada antes de qualquer ação

Nada acontece neste versículo além de uma convocação e uma fala. Nenhum milagre, nenhum gesto, nenhuma resposta.

É um versículo de deliberação, e a sua função é criar o problema que os versículos seguintes vão resolver. Sem ele, a alimentação dos quatro mil seria um prodígio sem motivo declarado; com ele, a refeição tem uma causa nomeada, e a causa é o estado físico de quem ficou.

5. Pontos de Ensino

Quem levanta o problema, desta vez, é Jesus

No capítulo 14 foram os discípulos que se aproximaram para dizer que a hora era tarde e que a multidão devia ser despachada. Aqui ninguém o procura: ele chama e expõe a fome. A inversão é verificável linha a linha, e o evangelista não a comenta.

O estado interior é declarado em primeira pessoa, e serve de premissa

O padrão dos evangelhos é o texto atribuir as emoções. Aqui Jesus diz "tenho compaixão", no presente, e a frase funciona como argumento para o que se segue. É raro, e é deliberado.

"Três dias" faz trabalho narrativo antes de qualquer simbolismo

O número explica o fim das provisões e o risco no retorno. A expressão é frequente na Bíblia hebraica e Mateus a usa em contextos carregados — mas aqui ele não cita Jonas, não menciona ressurreição e não comenta. Importar essa chave é decisão do leitor.

O verbo "despedir" tem três ocorrências em dois capítulos, e o padrão é claro

Duas vezes na boca dos discípulos, pedindo que alguém seja tirado do caminho — a multidão em Mateus 14:15, a cananeia em 15:23. Uma vez na boca de Jesus, negada. E o mesmo verbo descreve, em Mateus 14:22 e 15:39, dispensas que ele próprio faz depois de as pessoas comerem.

A oposição do versículo não é entre acolher e dispensar

É entre dispensar alimentado e dispensar vazio. A leitura que transforma a frase em elogio genérico do acolhimento perde a distinção que o texto faz — e é justamente a lógica de Deuteronômio 15:13, que regula o modo de despedir o escravo libertado.

O risco descrito é físico e realista

Depois de aproximadamente um dia e meio sem comer, o corpo já opera em reserva, com queda de força e tontura. Uma multidão que caminhou até ali, muitos carregando doentes, terá de refazer o percurso. "Desfalecer no caminho" não é figura de linguagem.

6. Aspectos Filosóficos

O limite desta leitura

As considerações seguintes nascem do encontro entre a cena e perguntas de outros séculos. O evangelho não discute o fundamento da moral, não define compaixão e não argumenta: registra uma comoção e uma decisão.

A compaixão é fundamento da moral, ou é ruído?

A palavra escolhida localiza a comoção nas vísceras, e essa localização não é ingenuidade de povo pré-científico: é descrição bastante exata. A emoção intensa é sentida no tronco antes de ser pensada — o aperto no peito, o nó no estômago, a sensação de queda. Quem diz "senti no estômago" está sendo literal.

Daí nasce uma das disputas centrais da ética moderna, e este versículo se planta num dos lados dela sem argumentar.

Immanuel Kant está no lado oposto. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, "Fundamentação da metafísica dos costumes", em alemão, 1785), ele sustenta que o valor moral de um ato não vem da inclinação de quem o pratica, e sim do dever reconhecido pela razão. E dá o exemplo que se tornou célebre: o filantropo que ajuda os outros por simpatia natural faz algo agradável e louvável, mas ainda não propriamente moral; o valor moral aparece quando esse mesmo homem, com a alma coberta pelo próprio sofrimento e sem sentir inclinação nenhuma, ajuda assim mesmo, por dever. A desconfiança kantiana tem razões: o sentimento é instável, varia com o humor, e não se pode exigir de ninguém.

Arthur Schopenhauer atacou exatamente esse ponto em Sobre o Fundamento da Moral (Über die Grundlage der Moral, "Sobre o fundamento da moral", em alemão, 1840), escrito como resposta a um concurso acadêmico. Para ele, o dever kantiano é uma abstração vazia, e o único motivo genuinamente moral é a compaixão: o estado em que o sofrimento do outro se torna, direta e imediatamente, o meu motivo — sem cálculo, sem raciocínio e sem interesse próprio. Schopenhauer vai além e propõe uma explicação de fundo: a compaixão é possível porque a separação entre indivíduos é, em algum nível, aparência; quem se compadece percebe, sem formular, que aquilo que sofre no outro não é inteiramente estranho a si.

Convém registrar que a suspeita contra a piedade é bem mais antiga do que Kant, e circulava no mundo em que o evangelho foi escrito. O estoicismo, filosofia dominante entre as elites romanas, considerava-a um defeito: Sêneca, no tratado De Clementia ("Sobre a clemência", em latim, dirigido ao imperador Nero), distingue clemência de piedade — a primeira é virtude racional do soberano, a segunda é doença da alma, perturbação provocada pela vista da miséria alheia. O sábio ajuda quem precisa e não se comove, porque comover-se é ser movido de fora.

A crítica aponta um problema real: quem age por comoção age em função do que vê, e o que se vê é enviesado — socorre-se a criança que está na frente e não a distante, ainda que a segunda esteja pior. O versículo está do outro lado dessa discussão, e sem argumentar: apresenta a comoção visceral como o motor declarado da ação, e não como fraqueza a corrigir. Vale acrescentar que os dois lados falham de maneiras opostas, porque a compaixão sem cálculo socorre mal e socorre poucos, e o cálculo sem compaixão produz decisões que ninguém tomaria olhando para a pessoa afetada.

Piedade e justiça não são a mesma coisa

Há uma distinção que o versículo torna visível e que costuma ser apagada.

Ninguém naquela encosta tinha direito a pão. Não havia contrato, promessa, dívida nem obrigação. O que se descreve é um ato que ninguém poderia exigir — e é justamente isso que caracteriza a piedade: ela é discricionária, responde ao que está diante dos olhos, e quem não a recebe não foi lesado em nenhum direito.

A justiça funciona ao contrário. É devida, é geral, e é cega à proximidade: ela não pergunta quem está na minha frente, pergunta o que é de cada um. Por isso pode ser exigida, e por isso a sua falta é uma ofensa, e não apenas uma pena.

A consequência prática é grande e costuma ser ignorada. Um sistema que atende os pobres por compaixão depende do humor, da visibilidade e da disposição de quem dá; um que os atende por justiça não depende de nada disso, e por isso alcança quem não sabe se apresentar bem. Substituir justiça por piedade é uma forma elegante de manter o poder do lado de quem distribui.

O versículo não formula nada disso, e seria abuso atribuir-lhe a distinção. O que ele oferece é o caso puro de um dos dois termos.

7. Aplicações Práticas

Não terminar sem provisão

A recusa do versículo é específica: não dispensar em jejum. Dispensar, sim — e o próprio Jesus dispensa multidões duas vezes neste trecho do evangelho, depois de comerem.

Traduzido para o cotidiano: encerrar um vínculo é frequentemente necessário e às vezes urgente. O que quase nunca é necessário é encerrar sem nada. Demitir sem aviso útil, sem prazo, sem indicação. Encerrar uma parceria sem transição. Sair de um projeto sem entregar o que se sabe. Terminar uma relação sem devolver o que é da outra pessoa.

A prática concreta é fazer, antes de qualquer encerramento, uma lista curta: o que a outra parte precisa para o trecho seguinte, e quanto disso está ao meu alcance. A lista costuma ser mais curta e mais barata do que se imagina — e é exatamente ela que distingue um término de um abandono.

Deixar a comoção chegar ao orçamento

A palavra do versículo descreve reação física, e ela desemboca imediatamente numa decisão prática sobre alimento. Não há intervalo entre sentir e resolver fazer alguma coisa.

A distância entre esses dois momentos é, na vida contemporânea, enorme e bem administrada. É perfeitamente possível comover-se todos os dias com notícias, imagens e relatos sem que nada mude em nenhuma agenda ou em nenhuma conta. A comoção sem consequência tem inclusive uma função: produz a sensação de já ter feito a parte devida.

O teste é banal e desconfortável: nos últimos doze meses, alguma comoção chegou a alterar uma linha do orçamento, uma hora fixa do calendário ou uma decisão concreta? Se a resposta for não, o que houve foi consumo de emoção. Se for sim, vale olhar o tamanho — porque o número, e não a intensidade do sentimento, é o que a outra pessoa recebe.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

"Compaixão" é a melhor tradução do verbo grego?

É a melhor disponível em português, e é incompleta. O verbo grego é formado sobre a palavra que designa as vísceras e descreve uma reação sentida no corpo — algo entre revirar-se por dentro e levar um golpe no estômago.

"Compaixão" tem a vantagem de ser exata quanto ao conteúdo, que é sofrer com, e a desvantagem de soar controlada e um pouco formal. Traduções que tentam recuperar a força usam paráfrases longas e perdem em fluidez o que ganham em precisão. Não há solução perfeita.

Por que Jesus não pede simplesmente que os discípulos providenciem?

No capítulo 14 ele fez isso — "dai-lhes vós de comer". Aqui não. Expõe o problema e para.

O texto não explica a diferença. Pode ser variação de tradição, pode ser deliberação, pode ser que a cena tenha sido lembrada assim. O que é observável é o efeito: o silêncio abre espaço para a pergunta do versículo seguinte, e é dessa pergunta que o episódio ganha o seu problema mais interessante.

A multidão reclamou de fome?

O texto não registra reclamação nenhuma. Isso é notável porque a narrativa do deserto, na tradição de Israel, é a narrativa da murmuração — Êxodo 16 e Números 11 são feitos disso.

Vale ter cuidado com o argumento: a ausência de registro não prova ausência do fato, e o versículo é curto. O que se pode dizer é que o evangelista não escreveu murmuração e escreveu permanência, e que o verbo escolhido para a permanência indica adesão, não resignação.

"Não quero despedi-los" significa que dispensar é errado?

Não. O mesmo verbo descreve, em Mateus 14:22 e em 15:39, dispensas que o próprio Jesus faz — sempre depois de as pessoas terem comido.

O contraste em jogo não separa hospitalidade de dispensa. Separa a dispensa feita depois da refeição da dispensa feita com o estômago vazio. Quem apaga essa diferença converte a frase num louvor difuso à acolhida, precisamente o que ela não é.

9. Conexão com Outros Textos

O verbo da compaixão nos evangelhos

Mateus 9:36 — "E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desamparadas, como ovelhas que não têm pastor." A primeira ocorrência em Mateus, e a que introduz o discurso da missão.

Mateus 14:14 — "E Jesus, saindo, viu uma grande multidão, e possuído de íntima compaixão para com ela, curou os seus enfermos." Imediatamente antes da alimentação dos cinco mil.

Lucas 10:33 — "Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão."

Lucas 15:20 — "E, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou."

A misericórdia com raiz no ventre

Êxodo 34:6 — "SENHOR, SENHOR Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade." A fórmula mais repetida do Antigo Testamento, construída sobre a palavra hebraica de misericórdia, cuja raiz é a do útero.

Isaías 49:15 — "Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho de peito, que se não compadeça do filho do seu ventre?" A imagem materna que está na origem do termo hebraico.

A inversão em relação ao capítulo anterior

Mateus 14:15 — "E, sendo já tarde, os seus discípulos se aproximaram dele, dizendo: O lugar é deserto, e a hora é já passada; despede a multidão, para que vão pelas aldeias e comprem comida."

Mateus 15:23 — "Manda-a embora, pois vem gritando atrás de nós." O mesmo verbo de dispensar, na boca dos discípulos, oito versículos antes.

Mateus 14:22-23 — "E logo obrigou os seus discípulos a entrar no barco... enquanto despedia as multidões." O próprio Jesus dispensando, depois da refeição.

Alimento para o caminho

1 Reis 19:5-8 — "Levanta-te e come, porque o caminho te será demasiado longo." O anjo a Elias, exausto no deserto, com pão e água.

Deuteronômio 15:13 — "E, quando o despedires livre, não o despedirás vazio." A lei sobre o escravo libertado: o modo de despedir é regulado.

O desfalecimento e a regra que o produz

1 Samuel 14:24 — "E os homens de Israel estavam angustiados naquele dia, porquanto Saul conjurara o povo, dizendo: Maldito o homem que comer pão até à tarde." O juramento que enfraquece o exército.

10. Original Grego e Análise

Sobre a língua deste painel: a decomposição a seguir é do grego, língua em que Mateus foi escrito. Neste versículo o vocabulário grego é particularmente importante, porque a palavra central — o verbo da compaixão — não tem equivalente exato em português e carrega uma imagem corporal que a tradução necessariamente perde.

Texto em português

Jesus chamou os seus discípulos e disse: “Tenho compaixão desta multidão, porque já faz três dias que permanecem comigo e não têm o que comer; e não quero mandá-los embora em jejum, para que não desfaleçam no caminho.”

Texto grego

Ὁ δὲ Ἰησοῦς προσκαλεσάμενος τοὺς μαθητὰς αὐτοῦ εἶπεν· σπλαγχνίζομαι ἐπὶ τὸν ὄχλον, ὅτι ἤδη ἡμέραι τρεῖς προσμένουσίν μοι καὶ οὐκ ἔχουσιν τί φάγωσιν· καὶ ἀπολῦσαι αὐτοὺς νήστεις οὐ θέλω, μήποτε ἐκλυθῶσιν ἐν τῇ ὁδῷ.

Transliteração

Ho dè Iēsoûs proskalesámenos toùs mathētàs autoû eîpen: splanchnízomai epì tòn óchlon, hóti ḗdē hēmérai treîs prosménousín moi kaì ouk échousin tí phágōsin; kaì apolûsai autoùs nḗsteis ou thélō, mḗpote eklythôsin en tê hodô.

Palavra por palavra

προσκαλεσάμενος (proskalesámenos) — "chamando a si"

Particípio aoristo médio de proskaléomai: prós, "para junto de", mais kaléō, "chamar". A voz média indica que o sujeito chama no próprio interesse e para perto de si. Mateus reserva o verbo para convocações que precedem instrução importante: a comissão dos doze em Mateus 10:1, a criança posta no meio em Mateus 18:2, a lição sobre autoridade em Mateus 20:25.

σπλαγχνίζομαι (splanchnízomai) — "tenho compaixão"

Presente do indicativo, primeira pessoa do singular. Formado sobre splánchna, "vísceras" — coração, pulmões, fígado, rins —, que no rito grego eram as partes do animal consumidas no banquete sacrificial. A palavra começa concreta: é o interior do corpo.

Daí ela passou a designar a sede das emoções fortes. A anatomia antiga não localizava o sentimento no cérebro, e sim no tronco. No grego clássico, o verbo construído sobre essa raiz refere-se a comer ou consultar as entranhas da vítima sacrificial; o sentido moral de compadecer-se é desenvolvimento do grego judaico do período helenístico, e é nele que os evangelhos o recebem.

A distribuição é notável. São doze ocorrências no Novo Testamento, todas nos três primeiros evangelhos — nenhuma nas cartas, nenhuma em João, nenhuma no Apocalipse. Em nove delas o sujeito é Jesus, entre elas Mateus 9:36, 14:14 e 20:34. As outras três estão em parábolas, e sempre com a personagem decisiva: o senhor que perdoa a dívida em Mateus 18:27, o samaritano em Lucas 10:33, o pai que vê o filho de longe em Lucas 15:20. Em nenhuma ocorrência o sujeito é um discípulo ou um crente comum.

Isso não faz da compaixão privilégio divino — o samaritano da parábola é um homem, e a parábola termina com "vai, e faz da mesma maneira". Significa que o vocabulário está reservado, nos textos que temos, a um tipo de comoção que produz ação imediata e custosa. E o tempo presente é significativo: não é comoção passada, é estado declarado no momento da fala.

ἐπὶ τὸν ὄχλον (epì tòn óchlon) — "sobre a multidão"

A preposição epí com acusativo indica extensão sobre um objeto. A comoção não é dirigida a indivíduos: espalha-se sobre o conjunto. O substantivo é o mesmo dos versículos 30 e 31, sem qualificação de origem.

ἤδη ἡμέραι τρεῖς (ḗdē hēmérai treîs) — "já três dias"

Construção solta: "três dias" está no nominativo, sem regência aparente na frase. É um nominativo absoluto, traço de língua falada mais do que de prosa literária.

O advérbio ḗdē ("já") marca que o prazo se estendeu além do previsto. Não é a informação de um cronista: é a de alguém que está achando muito tempo.

προσμένουσίν μοι (prosménousín moi) — "permanecem comigo"

Presente do indicativo de prosménō: prós, "junto a", mais ménō, "ficar, permanecer", regido de dativo de pessoa. Única ocorrência em Mateus. O campo é o da constância e da adesão: Atos 11:23 usa o verbo para permanecer no Senhor, e 1 Timóteo 5:5 para a viúva que persevera em orações.

Não é "estão aqui": é "não saem de perto de mim". A escolha transforma a permanência num dado sobre a relação, e não apenas sobre a localização.

οὐκ ἔχουσιν τί φάγωσιν (ouk échousin tí phágōsin) — "não têm o que comer"

Literalmente, "não têm o quê possam comer", com o verbo final no subjuntivo. A construção transforma a falta numa pergunta sem resposta: não é apenas que estejam sem comida, é que a pergunta "comeremos o quê?" está aberta e sem candidato.

ἀπολῦσαι (apolûsai) — "despedir, mandar embora"

Infinitivo aoristo de apolýō: apó, "para longe", mais lýō, "soltar, desatar". O sentido básico é liberar, deixar ir, e o campo é largo — em Mateus 18:27 significa soltar um devedor; em Mateus 27:15-26, libertar um preso; em Mateus 5:31-32 e 19:3-9, repudiar a esposa, num uso jurídico técnico.

νήστεις (nḗsteis) — "em jejum"

Acusativo plural de nêstis, adjetivo raro: no Novo Testamento, apenas aqui e no lugar paralelo de Marcos 8:3. Formado por um prefixo negativo mais uma raiz ligada a comer — literalmente, "não comedores". É a mesma família de nēsteía, o jejum religioso; aqui, porém, a palavra descreve apenas estômago vazio.

οὐ θέλω (ou thélō) — "não quero"

Presente do indicativo de thélō, verbo de vontade e de determinação, com a negação objetiva ou. Não é "não posso" nem "não convém": é recusa deliberada, declarada em primeira pessoa.

ἐκλυθῶσιν (eklythôsin) — "desfaleçam"

Aoristo do subjuntivo passivo de eklýō: ek, "para fora", mais lýō, "soltar". A imagem é a de algo que se afrouxa e cede — a corda que perde tensão, o nó que se desfaz. Aplicado a pessoas, descreve o esgotamento das forças. Gálatas 6:9 e Hebreus 12:3 o usam no plano do desânimo; aqui é físico.

Note-se que este verbo e o de "despedir" são compostos da mesma raiz. Soltar para longe e soltar por dentro. Se o jogo é intencional, não há como saber; ele está no grego.

Nota textual

O versículo é estável. As variantes conhecidas são menores e não alteram o sentido. Vale registrar que o adjetivo raro traduzido por "em jejum" atravessou a transmissão sem substituição, apesar de ser palavra incomum — o tipo de termo que copistas às vezes trocam por sinônimo mais corrente.

11. Conclusão

Do que foi exposto, este versículo leva a quatro conclusões.

A primeira é sobre a natureza do que move a cena. A palavra da compaixão é construída sobre o substantivo das vísceras e descreve reação sentida no tronco, não um sentimento amável. É palavra rara, quase toda ela reservada a um único sujeito nos evangelhos, e aqui vem no presente e em primeira pessoa — o que é raríssimo, porque os evangelhos costumam deixar ao texto a tarefa de dizer o que Jesus sentia. A comoção não é ilustração da decisão: é a premissa declarada dela.

A segunda é sobre quem levanta o problema. No capítulo 14 foram os discípulos que se aproximaram para propor que a multidão fosse despachada; aqui é ele que os chama, e o que diz é o contrário do que eles haviam proposto. O mesmo verbo do despedir aparece três vezes em dois capítulos: duas na boca deles, pedindo dispensa, e uma na dele, negando.

A terceira é a distinção que a pregação costuma perder, e é a mais importante do versículo. Dispensar não é o problema — o próprio Jesus dispensa multidões duas vezes neste trecho, com esse mesmo verbo. A recusa é a de dispensar vazio. A oposição não está entre acolher e mandar embora: está entre mandar embora alimentado e mandar embora em jejum. É a mesma lógica da lei sobre o escravo libertado, e ela diz que o modo de encerrar uma relação é parte da relação.

A quarta é sobre o motivo declarado, que é físico e verificável. Passadas cerca de trinta horas sem comer, o corpo já opera em reserva; aquela gente caminhou até ali e terá de refazer o percurso. Num capítulo que começou perguntando se comer sem lavar as mãos contamina, o eixo se deslocou para a existência da comida — e o texto faz esse deslocamento sem uma palavra de comentário.

Fica, por fim, a forma da fala. Jesus expõe uma comoção, dois fatos e uma recusa, e para. Não dá ordem, não pergunta, não anuncia o que fará. O espaço que sobra será preenchido, no versículo seguinte, por uma objeção dos discípulos — e é dessa objeção que nasce o problema mais difícil do bloco.

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