Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles
1. Introdução
Os discípulos perguntaram quem é o maior. Jesus responde, primeiro, sem palavras: chama uma criança e a põe de pé no meio deles.
O versículo é só o gesto; a fala vem no versículo seguinte. A criança não diz nada, não é nomeada e não é abraçada, como em Marcos. Mateus a mostra num lugar, o centro da roda, que no mundo daquela época não era o dela.
2. Contexto Histórico e Cultural
A criança não tinha lugar próprio
Para quem ouvia Jesus, uma criança era alguém sem voz jurídica e sem posição. Era amada, desejada, tida como bênção. Mas contava pelo que viria a ser, não pelo que era.
No mundo judaico
A Mishná (a coleção de leis dos mestres judeus, fechada por volta do ano 200) põe a criança numa categoria fixa, sempre ao lado de outras duas: "o surdo-mudo, o demente e o menor". O trio aparece, por exemplo, no começo do tratado Hagigá (1:1), que dispensa os três da peregrinação ao templo, e no tratado Bava Qamma (8:4), que decide que quem os fere paga, mas eles não pagam pelo que ferem. São os que não respondem pelos próprios atos: não fazem voto válido, não servem de testemunha, não entram na conta.
A classificação não é desprezo; é a forma jurídica de dizer que o menor ainda não é agente. Ele é protegido e é responsabilidade do pai. Mas não tem voz própria em nenhuma instância.
No mundo grego e romano
No direito romano, o pai tinha sobre os filhos um poder que as fontes chamam de "poder de vida e de morte". Na prática ele era raramente exercido assim, mas o filho, mesmo adulto, não possuía bens em nome próprio enquanto o pai vivesse. A criança pequena estava inteiramente dentro desse poder.
A língua grega guarda a mesma posição. A palavra pais ("criança", em grego) servia também para chamar o escravo, de qualquer idade. O senhor dizia "menino" ao homem que o servia. Criança e escravo dividiam o mesmo nome porque dividiam o mesmo lugar: o de quem obedece e não decide.
O que isso faz com a cena
Pôr uma criança no centro de uma roda de homens adultos era pôr no meio alguém que, em qualquer outra reunião, ficaria na borda ou fora dela. O modo como as multidões eram contadas nos evangelhos, com as crianças à parte, está no estudo de Mateus 14:21.
3. Análise Teológica do Versículo
"Jesus chamou uma criança"
A resposta a "quem é o maior?" começa com um chamado. O verbo é o que Mateus usa quando Jesus convoca alguém para perto de si antes de ensinar (ver o item 10). Aqui o convocado não é um discípulo nem a multidão: é uma criança.
O texto não diz de onde ela veio. Marcos situa a conversa "em casa", em Cafarnaum (Marcos 9:33), e a criança seria então da casa ou da vizinhança. É hipótese; Mateus não informa.
Também não diz a idade. A palavra usada é a de criança pequena, a mesma do menino Jesus no capítulo 2. Mas a criança atende ao chamado e fica de pé, e por isso não é um bebê de colo.
"colocou-a no meio deles"
O verbo diz que Jesus a pôs de pé. E o lugar é o meio da roda: o ponto para onde todos olham.
Os três evangelhos contam o gesto, e cada um de um jeito. Em Lucas 9:47, Jesus põe a criança "junto de si", ao seu lado. Em Marcos 9:36, põe no meio e em seguida a abraça. Em Mateus não há abraço. A criança é chamada, posta no centro, e fica ali.
A ausência do abraço tira da cena o que ela teria de ternura e deixa só a posição. Em Marcos, o leitor vê o carinho de Jesus pela criança. Em Mateus, vê uma criança onde não se esperava que ela estivesse. E o versículo 4 vai confirmar que é a posição que interessa: o que se pede é tornar-se "como esta criança", baixo como ela.
O gesto antes da fala
O versículo termina sem que Jesus tenha dito nada. A ABC mantém isso: a frase continua no versículo seguinte, "e disse". Durante um momento, a resposta à pergunta sobre o maior é só uma criança de pé, calada, no meio de doze adultos.
O gesto responde antes da explicação. Os discípulos pediram um nome de dentro do grupo, e Jesus põe diante deles alguém de fora, que não disputava lugar nenhum. A criança não fala, não é perguntada e não é nomeada. É mostrada.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
Faz o gesto. Não fala neste versículo.
A criança
Sem nome, sem idade, sem sexo definido no grego, que usa a palavra neutra. Não fala nem age além de atender ao chamado. Uma tradição grega da Idade Média identificou-a com Inácio de Antioquia, bispo do começo do século II, que se chamava a si mesmo "Teóforo" ("portador de Deus"); a lenda leu o nome como "carregado por Deus", nos braços de Jesus. Não há nenhum apoio antigo para a identificação, e Mateus nem registra o colo.
Os discípulos
Os que fizeram a pergunta do versículo 1. A criança é posta "no meio deles".
O lugar
Provavelmente uma casa em Cafarnaum, segundo Marcos 9:33. Mateus não repete a indicação.
5. Pontos de Ensino
Jesus responde a uma pergunta sobre grandeza com uma pessoa, não com um conceito
Antes de qualquer definição, ele põe alguém à vista. A resposta pode ser vista antes de ser ouvida.
O centro da roda é dado a quem não tinha lugar
No mundo daquela época, a criança estava à margem das decisões e das contagens. O gesto a põe no ponto para onde todos olham.
Mateus mostra a posição, não o afeto
Sem o abraço de Marcos, a cena fala de lugar. É isso que o versículo 4 vai explicar.
A criança não precisa fazer nada
Ela não é elogiada por uma qualidade nem convidada a falar. Está ali, e isso basta para a lição.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo usa um recurso que a palavra não tem: mostrar. Uma definição pode ser discutida, reinterpretada, adaptada ao interesse de quem ouve; uma criança de pé no meio da sala está simplesmente ali. O gesto obriga os ouvintes a olhar para o que prefeririam não considerar antes de lhes dar uma explicação que pudessem contornar. E ele escolhe como prova alguém que não pode argumentar a favor de si mesmo, o que tira da resposta qualquer ar de defesa de interesse próprio.
7. Aplicações Práticas
Olhar para quem está fora da roda
Em qualquer grupo que discute quem manda, há alguém que não participa da conversa porque nem é considerado: o funcionário mais novo, a criança da casa, quem não tem voto. O gesto de Jesus foi pôr essa pessoa no centro antes de dizer qualquer coisa. Numa reunião, numa família ou numa igreja, perguntar "quem aqui não tem voz?" é um modo concreto de repetir o gesto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A criança era de algum dos discípulos?
O texto não diz. Se a cena se passa numa casa de Cafarnaum, como indica Marcos, pode ser da família que os hospedava. É só hipótese.
Por que Mateus não conta o abraço que Marcos conta?
Mateus não explica. É plausível que tenha resumido a cena para concentrá-la na posição da criança, que é o tema do versículo 4. Também é possível que conhecesse o episódio por outra via. Não é possível decidir.
A criança entendeu o que estava acontecendo?
O texto não se interessa por isso. Ela não fala e não reage. Mateus a apresenta como alguém que é mostrado, e não como personagem com fala própria.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo gesto em Marcos e Lucas
Marcos 9:36 — "Tomando um menino, pô-lo no meio deles e, abraçando-o, disse-lhes:"
O abraço que Mateus não registra.
Lucas 9:47 — "Mas Jesus, percebendo o pensamento dos seus corações, tomou um menino, pô-lo junto de si"
A criança ao lado de Jesus, e não no meio da roda.
As crianças que os discípulos queriam afastar
Mateus 19:13-14 — Então lhe trouxeram crianças, para que impusesse as mãos sobre elas e orasse; mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, disse: “Deixem as crianças e não as impeçam de vir a mim, pois o Reino dos céus pertence aos que são como elas.”
Um capítulo depois, os mesmos discípulos tentam impedir o acesso das crianças.
As crianças no templo
Mateus 21:15-16 — Mas, quando os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei viram as maravilhas que ele fazia e as crianças gritando no templo: “Hosana ao Filho de Davi!”, ficaram indignados e lhe perguntaram: “Você ouve o que estas crianças estão dizendo?” “Ouço”, respondeu Jesus; “vocês nunca leram: ‘Da boca das crianças e dos recém-nascidos tiraste perfeito louvor’?”
As crianças, que aqui não falam, lá falam, e é a fala delas que incomoda.
O que é escondido aos sábios
Mateus 11:25 — Naquele tempo Jesus disse: Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles
Texto grego
καὶ προσκαλεσάμενος ὁ Ἰησοῦς παιδίον ἔστησεν αὐτὸ ἐν μέσῳ αὐτῶν,
Transliteração
kai proskalesamenos ho Iēsous paidion estēsen auto en mesō autōn,
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) traz o nome "Jesus"; os manuscritos mais antigos e as edições críticas não o têm, e o sujeito fica subentendido. O sentido não muda.
Análise palavra por palavra
καὶ προσκαλεσάμενος — kai proskalesamenos, "e, tendo chamado para junto de si". Particípio aoristo médio de proskaleomai, formado de pros, "para junto de", e kaleō, "chamar". O estudo de Mateus 15:32 trata do uso deste verbo no evangelho, sempre antes de uma instrução.
ὁ Ἰησοῦς — ho Iēsous, "Jesus". O sujeito, explícito no Textus Receptus.
παιδίον — paidion, "criança pequena". Diminutivo de pais, "criança", e de gênero neutro. O neutro não indica sexo: é o gênero gramatical da palavra, como em português "a criança" é feminino para menino e menina. É a palavra que Mateus usa para Jesus recém-nascido em todo o capítulo 2 e a que se repete nos versículos 3, 4 e 5 deste capítulo.
Fora da Bíblia, paidion também designava o escravo jovem, como pais. Aqui o contexto não deixa dúvida: é uma criança.
ἔστησεν — estēsen, "pôs, colocou de pé". Aoristo ativo de histēmi, "fazer ficar de pé, pôr em posição". É o verbo de quem coloca alguém num lugar para ser visto. Em Mateus 4:5, o diabo "põe" Jesus sobre o ponto mais alto do templo com o mesmo verbo.
αὐτὸ — auto, "a" (a criança). Pronome neutro, concordando com paidion.
ἐν μέσῳ αὐτῶν — en mesō autōn, "no meio deles". Mesos é "meio, centro". A expressão aparece de novo em Mateus 18:20: "ali eu estou no meio deles". O capítulo abre com uma criança no meio dos discípulos e, na metade, promete a presença de Jesus no meio dos que se reúnem.
11. Conclusão
Com base no que se viu, o versículo leva a duas conclusões.
A primeira é que a resposta de Jesus à pergunta sobre o maior começa por um deslocamento de lugar. Quem não tinha posição, nem voz, nem entrava na conta foi posto no centro, à vista de todos, antes de qualquer palavra.
A segunda é que Mateus quer que se olhe para a posição, e não para o afeto. Sem o abraço de Marcos, a cena não fala da ternura de Jesus pelas crianças; fala de onde a criança está. É isso que prepara o "como esta criança" dos versículos seguintes.













