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Mateus 14:21

✍️ Por Alberto Adriano·18 de agosto de 2026·⏱️ 36 min de leitura·👁 10 acessos
Os que comeram foram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
Vista ampla da encosta com milhares de pessoas sentadas comendo, incluindo famílias com crianças.

Estudo


Os que comeram foram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

1. Introdução

A conta vem no fim, e ela é deliberadamente incompleta.

"Os que comeram foram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças."

O número que ficou famoso é o dos homens. O total real era maior, e o texto avisa que não o dá.

É um versículo sobre quem entrava na contagem daquele mundo — e sobre quem tinha comido assim mesmo.

2. Contexto Histórico e Cultural

O número

Cerca de cinco mil homens.

O advérbio de aproximação está no texto: não é contagem exata, é estimativa.

Cinco mil homens adultos era, para a época, uma multidão considerável — comparável à população de uma cidade média da região.

A ressalva

"Sem contar mulheres e crianças."

Vale ler com atenção o que essa frase faz.

Ela informa que a contagem apresentada é parcial. E, ao informar, registra que havia mais gente.

Mateus é o único dos quatro evangelhos a acrescentar essa observação neste episódio.

O costume de contar

Contar apenas homens adultos era prática comum no mundo antigo, inclusive nos censos do Antigo Testamento.

Não é invenção do evangelista: é o modo como se contava.

O que Mateus faz é registrar que o modo de contar deixava gente de fora.

O total provável

Se a proporção fosse a usual de um grupo com famílias, o total poderia chegar a dez ou quinze mil pessoas.

É estimativa, e o texto não a fornece.

3. Análise Teológica do Versículo

"Os que comeram"

O grego é hoi esthíontes, particípio presente com artigo: literalmente "os que estavam comendo".

O detalhe de tempo verbal vale um comentário. O particípio presente descreve a ação em curso, e não um ponto encerrado. A frase, ao pé da letra, conta as pessoas enquanto elas comiam.

Convém não construir teologia sobre isso — o grego usa essa construção com naturalidade para identificar um grupo pela atividade que exerce. Registro o dado.

O que a frase estabelece é o objeto da contagem: contam-se os que comeram, e não os que estavam presentes. Em princípio são o mesmo conjunto, já que o versículo anterior disse que todos comeram.

"foram cerca de cinco mil"

A palavra a observar aqui é hōseí, e ela é pequena e honesta: significa "como que", "aproximadamente", "cerca de".

O narrador não afirma precisão. Não diz que foram cinco mil, diz que foram algo em torno disso.

Vale reter isso, porque muda o estatuto da informação. Não se está diante de um recenseamento com listas: está-se diante de uma estimativa.

E convém perguntar como uma estimativa dessas seria feita numa encosta, à noite, com a multidão espalhada.

O evangelho de Marcos oferece a resposta, e Mateus não. Marcos registra que a multidão foi distribuída em grupos, em fileiras de cem e de cinquenta — e um arranjo desses torna a contagem viável, porque basta contar os grupos.

Mateus omite a organização. Em Mateus, o número aparece sem explicação de método.

Registro a diferença sem preenchê-la. Quem quiser saber como se chegou ao número precisa recorrer ao outro relato.

Vale ainda uma observação de honestidade histórica. Números grandes em textos antigos exigem cautela — é fenômeno reconhecido que quantidades em relatos antigos, bíblicos ou não, tendem a ser redondas, retóricas e ampliadas.

Não é possível decidir quanta gente havia naquela encosta. O que se pode afirmar é o que o texto afirma: um número da ordem de milhares, apresentado como aproximação pelo próprio narrador.

"homens"

Aqui está a palavra que dá ao versículo o seu problema e o seu interesse.

O grego é ándres, plural de anḗr. E o grego tem duas palavras para isso, que convém distinguir.

Ánthrōpos designa o ser humano, a pessoa, sem marca de sexo. É a palavra de "antropologia".

Anḗr designa o homem adulto do sexo masculino, em oposição à mulher e à criança. É a palavra de "andrologia", e é a que aparece aqui.

A escolha não é ambígua. O versículo conta homens.

"sem contar mulheres e crianças"

O grego é chōrìs gynaikōn kaì paidíōn — separadamente de mulheres e de crianças.

A preposição chōrís significa à parte de, separado de, fora da conta. O substantivo paidíon é diminutivo: criança pequena.

Duas coisas precisam ser ditas sobre esta frase, e vale dizê-las na ordem.

A primeira: ela é exclusiva de Mateus. Marcos, Lucas e João registram cerca de cinco mil homens e param aí. O acréscimo não está em nenhum deles.

A segunda: ela reaparece no capítulo 15, na segunda multiplicação — quatro mil homens, além de mulheres e crianças. Ou seja, não é ocorrência isolada. É hábito deste evangelista.

Agora convém tratar do que a frase significa, e o assunto exige honestidade em vez de conserto.

Como se contava, e por quê

A prática de contar apenas homens adultos não é invenção deste versículo. É o padrão do Antigo Testamento, e vale ver de onde vem.

No livro dos Números, a ordem de recenseamento é explícita: contem-se os que têm de vinte anos para cima, todos os que podem sair à guerra. A finalidade é militar, e por isso a contagem é de homens em idade de combate.

Não se contam mulheres, não se contam crianças, não se contam os velhos, não se contam os levitas — que são recenseados à parte, por outro critério.

Ou seja: toda contagem tem um critério, e o critério determina quem entra. Não existe censo neutro.

E há uma passagem que vale conhecer, porque a sua formulação é quase idêntica à deste versículo.

No relato da saída do Egito, o Êxodo registra que partiram cerca de seiscentos mil homens de pé, sem contar as crianças.

Repare na estrutura: um número aproximado, a palavra "homens", e uma cláusula que põe outra categoria fora da conta.

É a mesma arquitetura de frase, no episódio fundador da memória de Israel — e um episódio que, como este, se passa num lugar despovoado, com uma multidão que precisa comer.

Registro o limite com todo o rigor. Mateus não cita o Êxodo. Não há fórmula de citação nem alusão declarada, e a estrutura da frase é simplesmente a maneira convencional de dar números naquele mundo. A coincidência não prova intenção.

O que se pode afirmar é que o leitor judeu do primeiro século conhecia a fórmula, e que ela pertencia ao vocabulário das grandes travessias.

O que o acréscimo faz

Convém agora examinar as leituras possíveis da cláusula, porque há mais de uma e o texto não decide entre elas.

A primeira leitura é aritmética: o acréscimo serve para ampliar o número. Se havia cinco mil homens e as famílias estavam presentes, a multidão real era muito maior — talvez o dobro, talvez o triplo.

Essa leitura é a mais comum, e é razoável. Ela transforma a frase num reforço do prodígio: não foram cinco mil, foram bem mais.

A segunda leitura é de outra natureza: o acréscimo registra quem a contagem deixou de fora.

Repare que, sem a cláusula, ninguém saberia que havia mulheres e crianças ali. O relato teria falado de cinco mil homens e o leitor imaginaria cinco mil homens.

Ao acrescentar a frase, o evangelista faz duas coisas ao mesmo tempo: mantém a convenção de contar homens e informa que a convenção não cobre todo mundo.

Vale insistir na diferença entre as duas coisas. Ele não muda o critério de contagem — continua contando homens, como todo mundo contava. Mas anota, ao lado do número, que havia gente fora dele.

Convém agora marcar o limite, e marcá-lo com firmeza, porque este é terreno em que se exagera muito.

Não é possível afirmar que Mateus estivesse fazendo crítica social ao registrar isso. Nada no texto sugere protesto, correção ou denúncia. A frase é seca e informativa.

É plausível que o acréscimo tenha função puramente aritmética — dar a entender que a multidão era maior. É igualmente plausível que reflita interesse do evangelista pelas pessoas que as contagens ignoram. As duas coisas cabem, e não há como decidir.

Registro, para quem quiser pesar, um dado adicional: este é o evangelho que abre com uma genealogia em que aparecem quatro mulheres, o que é incomum em listas do gênero. É indício, não prova, e vale exatamente isso.

Não suavizar o que está lá

Vale dizer uma palavra sobre o modo de tratar este versículo, porque há duas tentações opostas.

A primeira é apagar o problema, dizendo que a contagem não implicava desprezo e que mulheres e crianças eram muito valorizadas. É meia-verdade que serve para não incomodar. O fato permanece: elas não entravam na conta, e não entravam porque a conta media outra coisa — capacidade militar, chefia de casa, participação pública.

A segunda tentação é o anacronismo indignado, que lê o versículo como se fosse uma escolha do autor contra as mulheres. Também não se sustenta: ele está usando a convenção universal do seu tempo, e é justamente ele quem acrescenta a frase que informa a presença delas.

O que se pode fazer é o que este comentário tenta: mostrar a prática como ela era, dizer de onde vinha, e não fingir que ela é outra coisa.

Vale acrescentar uma observação que decorre do próprio relato e não depende de intenção nenhuma. Quem não foi contado comeu. A cláusula não separa quem recebeu de quem não recebeu — separa quem entrou no número de quem não entrou.

O versículo anterior havia dito que todos comeram e se fartaram. O critério da contagem não afetou a distribuição.

O fecho do bloco

Este versículo encerra a unidade narrativa que começou no versículo 13, e vale olhar para o conjunto.

O bloco começa com uma notícia de morte e uma retirada de barco. Segue com uma multidão que caminha atrás, uma compaixão, curas, uma discussão sobre o jantar, uma refeição improvável e uma sobra. E termina com um número.

Vale reparar em como Mateus fecha: sem reação da multidão, sem gratidão registrada, sem confissão de fé, sem espanto. Apenas a contagem.

Nenhuma das pessoas alimentadas diz uma palavra em todo o episódio. É notável, e o evangelista não comenta.

Duas mesas no mesmo capítulo

Resta a observação que o capítulo permite e que Mateus, fiel ao seu estilo, deixa por conta do leitor.

Há duas refeições em Mateus 14, e elas estão a poucos versículos uma da outra.

A primeira acontece num palácio. É uma festa de aniversário, com convidados escolhidos, num salão fechado. Há dança, há juramento, há um rei constrangido diante dos que estavam à mesa. E o prato que entra na sala é uma cabeça humana.

A segunda acontece numa encosta. Não há convite, não há sala, não há lista. Ninguém foi chamado — a multidão foi atrás por conta própria, num dia em que ele queria estar só. Há grama, há pão de pobre, há peixe salgado, há doze homens servindo de garçom.

Na primeira, quem tem tudo produz uma morte. Na segunda, quem tem quase nada produz fartura.

Na primeira, o rei faz o que não queria por medo do que os convidados pensariam. Na segunda, ninguém está olhando o que os outros vão achar.

Vale registrar o que o texto faz com esse contraste: nada. Não há uma frase comparando as duas cenas, não há "assim como", não há moral enunciada.

O evangelista coloca as duas coisas próximas e segue adiante. A comparação está disponível e não é feita por ele — e é essa contenção que a torna eficaz.

Registro, portanto, a leitura como leitura: o paralelo é meu, apoiado na vizinhança das cenas dentro do mesmo capítulo, e não numa afirmação do texto.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os cinco mil homens — número aproximado, contando apenas varões adultos.

As mulheres e crianças — presentes e alimentadas, mas fora da contagem.

Mateus — único dos quatro evangelistas a registrar a ressalva neste episódio.

O costume de contagem — contar apenas homens adultos era prática comum, inclusive nos censos antigos.

O total real — não informado; poderia chegar a dez ou quinze mil, por estimativa.

O evento — o fecho do episódio, com uma conta que o próprio texto declara parcial.

5. Pontos de Ensino

O número famoso é parcial. São cinco mil homens, não cinco mil pessoas.

O texto avisa. Diz expressamente que não contou mulheres e crianças.

Elas comeram. Não foram contadas, mas estavam lá.

Contar só homens era o costume. Inclusive nos censos antigos.

Só Mateus faz a ressalva. Os outros três não a registram aqui.

O total pode ter sido o dobro ou o triplo. O texto não informa.

O número é estimativa, e o texto diz isso. O grego traz "cerca de", e não afirma precisão nenhuma.

Marcos explica como se contou; Mateus não. As fileiras de cem e de cinquenta, que tornam a conta viável, estão no outro relato.

"Homens" é a palavra específica. O grego tem um termo para ser humano em geral e outro para o homem adulto — está usado o segundo.

O critério vem dos censos antigos. No livro dos Números conta-se quem pode sair à guerra; a régua decide quem entra, e censo neutro não existe.

A fórmula do Êxodo é quase idêntica. "Cerca de seiscentos mil homens de pé, sem contar as crianças" — número aproximado e cláusula de exclusão.

A cláusula final é só de Mateus. Os outros três param em "cinco mil homens"; ele repete o acréscimo no capítulo 15.

Quem não foi contado comeu. A contagem separa quem entra no número, e não quem recebe o pão.

6. Aspectos Filosóficos

Um número que todo mundo cita errado

Vale começar pelo mal-entendido, porque ele é universal.

O episódio é conhecido como a multiplicação para cinco mil pessoas.

O texto diz outra coisa: cinco mil homens — e o termo grego empregado designa especificamente varões adultos, e não seres humanos em geral. Há outra palavra para isso, e o evangelista não a usa.

Depois acrescenta: sem contar mulheres e crianças.

Ou seja, o número famoso é o de uma parcela.

Quantas pessoas comeram de fato, o texto não diz. Se a composição fosse a de um grupo com famílias, o total poderia facilmente dobrar ou triplicar.

Registro que isso é estimativa, e não informação do texto.

Por que se contava assim

Convém entender o costume, sem julgá-lo anacronicamente e sem justificá-lo.

Contar apenas homens adultos era prática corrente no mundo antigo. Os censos do Antigo Testamento fazem exatamente isso — Números conta os homens de vinte anos para cima, aptos à guerra.

Não era invenção de Mateus. Era o modo como se registravam multidões.

A lógica era militar e fiscal: contava-se quem podia lutar e quem podia pagar tributo.

Mulheres e crianças existiam, comiam, andavam, morriam — e não entravam na conta.

O que o evangelista faz com o costume

Aqui está o ponto que merece atenção.

Mateus podia simplesmente ter escrito "cerca de cinco mil homens" e parar. Era o registro normal, e ninguém estranharia.

Ele acrescenta a ressalva.

E a ressalva não muda o número. Muda o que o leitor sabe sobre o número.

A partir dela, quem lê não pode mais imaginar cinco mil pessoas comendo. Tem que imaginar cinco mil homens mais uma quantidade não informada de mulheres e crianças.

Vale registrar que Marcos, Lucas e João não fazem essa observação neste episódio. Só Mateus.

E vale registrar também que ele repetirá a ressalva no capítulo 15, na segunda multiplicação.

Ou seja, é escolha consistente do evangelista, e não descuido.

O que isso significa e o que não significa

Convém ser cuidadoso aqui, porque este versículo é usado às vezes de modo apressado.

Não é possível afirmar que Mateus estivesse fazendo uma denúncia social. O texto não formula crítica ao costume de contagem, não diz que era injusto, não propõe outro método.

Ele registra o número pelo padrão da época e informa que o padrão deixava gente de fora.

Isso é menos do que uma denúncia e mais do que nada.

O que se pode dizer com segurança: o texto não deixa o leitor esquecer que havia mais gente do que o número diz.

E vale notar a coerência com o resto do capítulo. Ali, os que não são contados comeram exatamente como os contados. Ninguém ficou de fora da distribuição — apenas da estatística.

Onde mais isso acontece

Uma última observação, que amplia a leitura.

Este capítulo tem outras pessoas que aparecem sem nome ou sem contagem.

A menina que dança e leva a bandeja não é nomeada. Os discípulos de João, que sepultam o corpo, não são nomeados. O guarda que executa não é nomeado. Os que carregaram os doentes pela margem do lago não são mencionados.

E aqui, milhares de pessoas comem sem entrar na conta.

O evangelista não comenta nenhuma dessas ausências.

Registro o padrão porque ele existe, e porque é o tipo de coisa que só aparece lendo o capítulo inteiro de uma vez — mas convém não transformá-lo em tese sobre a intenção do autor, que o texto não declara.

O fecho de um bloco

Vale fazer o balanço do que este versículo encerra.

O bloco começou no versículo 13, com Jesus sabendo da morte de João e tentando ficar sozinho.

Termina aqui, com milhares de pessoas alimentadas.

Entre uma coisa e outra: uma multidão que andou a pé, uma compaixão sentida nas entranhas, doentes curados, uma proposta recusada, uma ordem impossível, um inventário de escassez, uma entrega sem garantia, uma refeição partilhada e uma sobra recolhida.

E o luto não foi mencionado nenhuma vez depois do versículo 13.

Vale notar isso. O capítulo informa a causa da retirada e não volta ao assunto. Não há registro de Jesus falando sobre João, lamentando, explicando.

O versículo 23 mostrará o retiro finalmente acontecendo — de noite, sozinho, no monte.

O que se passou ali, o texto não conta.

Uma comparação que o capítulo permite

Vale reunir, ao fim deste bloco, o contraste que o capítulo constrói sem comentar.

Na primeira metade, um banquete: salão fechado, convidados selecionados, mesa farta, e uma cabeça humana servida numa bandeja.

Na segunda, uma refeição: encosta aberta, multidão sem convite, quase nada de comida, e todos saciados.

Num, o anfitrião precisa impressionar e mata para não passar vergonha. No outro, alguém que queria ficar sozinho alimenta quem interrompeu o seu dia.

Num, sobra uma bandeja. No outro, sobram doze cestos.

O evangelista não estabelece a comparação em momento algum. Coloca as duas cenas no mesmo capítulo e passa adiante.

Registro como leitura, e não como afirmação do texto. Mas ela é difícil de não ver.

Toda régua exclui

Vale extrair deste versículo uma questão que ultrapassa em muito o episódio.

Contar exige um critério, e o critério define quem entra. Não existe contagem sem recorte, e o recorte nunca é inocente — ele reflete o que quem conta considera relevante.

No livro dos Números, o critério é a capacidade de combate, e por isso mulheres, crianças e velhos ficam fora. A conta não está errada: ela mede o que se propôs a medir.

O problema começa depois, quando o número passa a circular sozinho, sem o critério que o produziu. Aí ele deixa de significar "homens em idade de guerra" e passa a significar "quantos eram".

Esse deslize é universal e continua acontecendo. Números de público, de desemprego, de pobreza, de audiência — todos dependem de definições que quase ninguém consulta, e todos são repetidos como se fossem a realidade.

O versículo faz algo raro: dá o número e, ao lado, informa quem ele não pega.

Registro que essa observação é minha, e que não há indício de que o evangelista tivesse essa intenção. O que ele faz é registrar; a leitura é de quem lê.

O silêncio dos alimentados

Convém reparar numa ausência que atravessa o episódio inteiro e se torna evidente no fecho.

Milhares de pessoas caminharam horas, tiveram os seus doentes atendidos, comeram até se fartar — e não dizem uma palavra em todo o relato.

Não há reação, não há espanto, não há agradecimento, não há confissão. O bloco termina com um número, e ponto.

Vale medir o quanto isso é incomum. Mateus sabe registrar reações de multidão: em outros episódios ele anota que se maravilharam, que glorificaram a Deus, que a fama se espalhou.

Aqui, nada disso. E convém não preencher o silêncio com o que se gostaria de encontrar.

Uma observação sóbria decorre daí. O relato não apresenta o gesto como método de convencimento. Se o objetivo fosse produzir adesão, a ausência de qualquer resposta registrada seria fracasso narrativo.

O texto simplesmente não trata o assunto. Alimentou, contou, e o versículo seguinte já move os discípulos para o barco.

A comparação que o capítulo permite

Vale fechar com o desenho do capítulo, porque ele é a peça mais elegante desta parte do evangelho.

Duas refeições, a poucos versículos uma da outra. Um salão e uma encosta. Convidados selecionados e gente que ninguém chamou. Mesa farta e cinco pães. Uma cabeça numa travessa e doze cestos de sobra.

E, em cada uma, um homem no centro tomando decisões: um que manda matar para não perder a compostura diante dos convidados, e outro que interrompe o próprio luto para atender quem apareceu.

O evangelista não compara. Não há "assim como", não há moral, não há sequer uma partícula ligando as duas cenas.

Vale pensar em como essa contenção funciona. Um narrador que explicasse o contraste o enfraqueceria — transformaria em lição o que agora é constatação do leitor.

Registro, portanto, que a leitura é minha e que ela se apoia apenas na vizinhança dos textos. É leitura disponível, e não afirmação do evangelho.

7. Aplicações Práticas

Confira o número antes de repetir

O episódio é conhecido como a multiplicação para cinco mil pessoas. O texto diz cinco mil homens — o termo grego designa especificamente varões adultos, e há outra palavra para seres humanos em geral, que o evangelista não usa. Depois acrescenta: sem contar mulheres e crianças.

O número famoso é o de uma parcela, e o total real nunca foi informado.

Vale como hábito com qualquer estatística que você repassa. Pergunte o que exatamente foi contado e o que ficou de fora. A resposta muda o significado do número com mais frequência do que se imagina.

Todo critério de contagem exclui alguém

Contar apenas homens adultos era prática corrente — os censos do Antigo Testamento fazem isso, contando os aptos à guerra. A lógica era militar e fiscal: contava-se quem podia lutar e quem podia pagar tributo. Mulheres e crianças existiam, comiam e não entravam na conta.

Não era descuido: era o método.

Quando você medir alguma coisa — desempenho, participação, resultado —, pergunte quem o seu critério deixa invisível. Sempre deixa alguém. Saber quem é permite pelo menos não confundir o que você mediu com o que existe.

Registre o que a sua conta não pegou

Mateus podia ter escrito "cerca de cinco mil homens" e parado. Era o registro normal, e ninguém estranharia. Acrescentou a ressalva — e ela não muda o número, muda o que o leitor sabe sobre o número.

Marcos, Lucas e João não fazem essa observação aqui. Só ele, e ele repetirá no capítulo seguinte.

Ao apresentar dados, inclua a nota sobre o que ficou fora. Custa uma linha, protege quem lê de conclusões erradas, e é a diferença entre informar e apenas impressionar.

Não confunda estar fora da conta com estar fora

Os que não foram contados comeram exatamente como os contados. Ninguém ficou de fora da distribuição — apenas da estatística.

São coisas distintas, e a distinção importa.

Se você trabalha com pessoas, verifique se as que não aparecem nos seus relatórios estão sendo atendidas do mesmo jeito. Frequentemente não estão, e o relatório é justamente o que impede de perceber.

Repare em quem atravessa a história sem nome

Este capítulo tem várias pessoas assim: a menina que dança e leva a bandeja, os discípulos de João que sepultam o corpo, o guarda que executa, os que carregaram doentes pela margem do lago. E aqui, milhares que comem sem entrar na conta.

O evangelista não comenta nenhuma dessas ausências. O padrão só aparece lendo o capítulo inteiro de uma vez.

Faça esse exercício com as histórias que você conta sobre a sua vida e o seu trabalho. Quem aparece sem nome? Nomear essas pessoas, mesmo tardiamente, é um dos atos mais baratos de justiça que existem.

Não force denúncia onde há apenas registro

Não é possível afirmar que Mateus estivesse fazendo crítica social. O texto não formula censura ao costume de contagem, não diz que era injusto, não propõe outro método. Registra o número pelo padrão da época e informa que o padrão deixava gente de fora.

É menos do que uma denúncia e mais do que nada.

Ao ler textos antigos, resista a transformá-los em manifestos das suas próprias convicções. O que eles dizem já é bastante — e atribuir-lhes o que não disseram enfraquece justamente o que você queria sustentar.

O luto não some porque o dia continuou

O bloco começou com Jesus sabendo da morte de João e tentando ficar sozinho. Termina com milhares alimentados — e o luto não é mencionado nenhuma vez depois do versículo 13. Não há registro dele falando sobre João, lamentando, explicando.

O versículo 23 mostrará o retiro finalmente acontecendo, de noite, sozinho no monte. O que se passou ali, o texto não conta.

Se você atravessou um dia inteiro funcionando com uma dor guardada, isso não significa que a dor não estava lá. Significa que ela esperou. Só não deixe que espere para sempre — reserve a hora, mesmo que tarde.

Compare as duas mesas

Na primeira metade do capítulo, um banquete: salão fechado, convidados selecionados, mesa farta, e uma cabeça humana servida numa bandeja. Na segunda, uma refeição: encosta aberta, multidão sem convite, quase nada de comida, e todos saciados.

Num, o anfitrião precisa impressionar e mata para não passar vergonha. No outro, alguém que queria ficar sozinho alimenta quem interrompeu o seu dia. Num, sobra uma bandeja; no outro, doze cestos.

O evangelista não estabelece a comparação — coloca as duas cenas no mesmo capítulo e segue. Vale a pergunta pessoal: qual das duas mesas se parece mais com as suas?

Pergunte sempre pelo critério do número

Contar exige recorte, e o recorte define quem entra. No livro dos Números conta-se quem pode sair à guerra, e por isso mulheres, crianças e velhos ficam fora — a conta não está errada, ela mede o que se propôs a medir.

O problema começa quando o número passa a circular sozinho, sem o critério que o produziu, e deixa de significar "homens em idade de guerra" para significar "quantos eram".

Isso continua acontecendo todo dia com números de público, de desemprego, de pobreza, de audiência. Antes de repetir uma estatística, descubra a definição que a produziu. Metade das discussões públicas se resolveria aí — e você vai descobrir que quase ninguém à sua volta conhece a régua que está citando.

Registre quem a sua conta não pega

Sem a cláusula final, ninguém saberia que havia mulheres e crianças naquela encosta. O relato teria falado de cinco mil homens, e o leitor imaginaria cinco mil homens.

O acréscimo faz duas coisas ao mesmo tempo: mantém a convenção de contar e informa que a convenção não cobre todo mundo.

Vale copiar o procedimento em qualquer relatório que você produza. Ao lado do número, uma linha dizendo o que ficou de fora. Custa pouco, evita mal-entendido, e protege você de ser citado dizendo o que não disse.

Não espere resposta para saber se valeu

Milhares de pessoas caminharam horas, tiveram os seus doentes atendidos e comeram até se fartar — e não dizem uma palavra em todo o relato. Nem espanto, nem agradecimento, nem confissão. O bloco termina num número.

Mateus sabe registrar reação de multidão quando existe: em outros episódios ele anota que se maravilharam e glorificaram a Deus. Aqui, nada.

Se você mede o que faz pela resposta que recebe, vai passar boa parte da vida decepcionado. A ausência de retorno não diz nada sobre o que foi feito — diz apenas que ninguém registrou. Faça a conta do que você entregou, não do que voltou.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Foram cinco mil pessoas?

Não. O texto diz cinco mil homens, e o termo grego designa especificamente varões adultos — há outra palavra para seres humanos em geral, que o evangelista não usa. Depois acrescenta: sem contar mulheres e crianças.

Quantas pessoas comeram, então?

O texto não informa. Se a composição fosse a de um grupo com famílias, o total poderia facilmente dobrar ou triplicar — mas isso é estimativa, e não dado do texto.

Por que contar só os homens?

Era prática corrente no mundo antigo. Os censos do Antigo Testamento fazem isso, contando os homens de vinte anos para cima, aptos à guerra. A lógica era militar e fiscal: contava-se quem podia lutar e quem podia pagar tributo.

As mulheres e crianças comeram?

Sim. O texto não diz que elas não comeram — diz que não foram contadas. Ficaram de fora da estatística, não da distribuição.

Os outros evangelhos fazem essa ressalva?

Não neste episódio. Só Mateus a registra aqui — e ele a repetirá no capítulo 15, na segunda multiplicação. É escolha consistente, e não descuido.

Mateus estava criticando o costume?

Não é possível afirmar. O texto não formula censura ao método de contagem, não diz que era injusto e não propõe outro. Registra o número pelo padrão da época e informa que o padrão deixava gente de fora — o que é menos do que uma denúncia e mais do que nada.

O número é exato?

O próprio texto diz que não. O grego traz "cerca de", uma palavra que significa "aproximadamente". Não se está diante de recenseamento com listas, e sim de estimativa. Vale acrescentar a cautela histórica geral: quantidades grandes em textos antigos tendem a ser redondas e ampliadas, e não é possível determinar quanta gente havia ali.

Como alguém contaria uma multidão dessas no escuro?

Marcos oferece a resposta e Mateus não: no outro relato, a multidão é distribuída em fileiras de cem e de cinquenta, arranjo que torna a conta viável porque basta contar os grupos. Em Mateus o número aparece sem explicação de método.

Por que a palavra "homens" é significativa?

Porque o grego tem dois termos: um para ser humano em geral e outro para o homem adulto do sexo masculino. O que está aqui é o segundo, e não é ambíguo. O versículo conta homens, e diz em seguida que mulheres e crianças ficaram fora da conta.

De onde vem essa forma de contar?

Dos censos do Antigo Testamento. No livro dos Números, a ordem é contar os de vinte anos para cima, os que podem sair à guerra — finalidade militar, e por isso ficam fora mulheres, crianças, velhos e até os levitas, recenseados à parte. O relato da saída do Egito usa fórmula quase idêntica à deste versículo: cerca de seiscentos mil homens de pé, sem contar as crianças.

Mateus está criticando a exclusão das mulheres?

Não é possível afirmar isso. Nada no texto sugere protesto ou denúncia: a frase é seca e informativa. É plausível que o acréscimo tenha função apenas aritmética, ampliando o total; é igualmente plausível que reflita interesse pelas pessoas que as contagens ignoram. As duas leituras cabem. Como indício — e apenas indício —, vale lembrar que este é o evangelho que abre com uma genealogia em que aparecem quatro mulheres, o que é incomum.

Então como tratar esse versículo sem falsear?

Sem as duas saídas fáceis. A primeira é apagar o problema dizendo que a contagem não implicava desprezo — meia-verdade que serve para não incomodar, já que o fato é que elas não entravam na conta. A segunda é o anacronismo indignado, que lê o versículo como escolha do autor contra as mulheres, quando ele está usando a convenção universal do seu tempo e é justamente quem informa a presença delas.

A contagem afetou quem recebeu comida?

Não. O versículo anterior diz que todos comeram e se fartaram. A cláusula separa quem entrou no número, e não quem foi atendido.

9. Conexão com Outros Textos

Mateus 15:38Ora, os que tinham comido eram quatro mil homens, além de mulheres e crianças.

A mesma ressalva, repetida na segunda multiplicação.

Números 1:2-3Tomai a soma de toda a congregação... todo o homem de vinte anos para cima, todos os que saem à guerra em Israel.

O padrão de contagem do Antigo Testamento.

Êxodo 12:37Cerca de seiscentos mil de pé, homens, sem contar os meninos.

A mesma fórmula de contagem parcial, no êxodo.

Marcos 6:44E os que comeram os pães eram quase cinco mil homens.

O paralelo, sem a ressalva sobre mulheres e crianças.

João 6:10Assentaram-se, pois, os homens em número de quase cinco mil.

Outro paralelo, também sem a ressalva.

Mateus 14:20E comeram todos, e saciaram-se.

O versículo anterior, cujo "todos" inclui os que não foram contados.

Êxodo 12:37Assim partiram os filhos de Israel de Ramessés para Sucote, cerca de seiscentos mil homens de pé, sem contar os meninos.

A mesma arquitetura de frase: número aproximado, a palavra "homens", e uma cláusula que põe outra categoria fora da conta.

Números 1:2-3Tomai a soma de toda a congregação dos filhos de Israel... de vinte anos para cima, todos os que saem à guerra em Israel.

O critério explícito dos censos antigos, e a razão pela qual mulheres e crianças não entravam.

Números 1:47Mas os levitas, segundo a tribo de seus pais, não foram contados entre eles.

Prova de que o recorte era técnico: até homens adultos ficavam fora quando o critério era outro.

2 Samuel 24:1-2Vai, numera a Israel e a Judá... para que eu saiba o número do povo.

O censo de Davi, que o próprio relato trata como falta — sinal de que contar o povo não era ato neutro em Israel.

Marcos 6:44E os que comeram os pães eram quase cinco mil homens.

O paralelo que registra o número e não traz o acréscimo.

Marcos 6:40E assentaram-se repartidos de cem em cem, e de cinquenta em cinquenta.

A organização que torna a contagem possível, e que Mateus não menciona.

Mateus 1:3-6E Judá gerou de Tamar a Perez... e Salmom gerou de Raabe a Boaz, e Boaz gerou de Rute a Obede... e Davi gerou a Salomão, da que foi mulher de Urias.

As mulheres na genealogia de abertura — indício, e apenas indício, do interesse deste evangelista.

Mateus 14:9E o rei entristeceu-se; mas, por causa do juramento, e dos que estavam à mesa com ele, ordenou que se lhe desse.

A outra mesa do capítulo, com os seus convidados escolhidos e o seu desfecho.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Os que comeram foram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

Texto grego

οἱ δὲ ἐσθίοντες ἦσαν ἄνδρες ὡσεὶ πεντακισχίλιοι χωρὶς γυναικῶν καὶ παιδίων

Transliteração

hoi dè esthíontes ēsan ándres hōseì pentakischílioi chōrìs gynaikōn kaì paidíōn

Palavra por palavra

οἱ ἐσθίοντες (hoi esthíontes) — "os que comiam"

Particípio substantivado. Designa os que estavam comendo.

ἄνδρες (ándres) — "homens"

Aqui está a palavra decisiva.

Anḗr designa o homem adulto do sexo masculino — o varão, o marido.

É distinta de ánthrōpos, que designa o ser humano em geral, sem distinção de sexo.

O evangelista tinha as duas palavras disponíveis e escolheu a primeira.

Portanto, o número não é ambíguo: são cinco mil varões adultos.

ὡσεὶ (hōseì) — "cerca de"

Advérbio de aproximação. O número é estimativa, não contagem.

Vale registrar: ninguém contou um a um. Alguém estimou.

πεντακισχίλιοι (pentakischílioi) — "cinco mil"

Numeral composto: cinco vezes mil.

χωρὶς (chōrìs) — "à parte de"

Preposição que indica separação, exclusão. Significa sem, à parte de, além de.

É a palavra que faz o trabalho do versículo.

Ela não nega a presença — indica que aquele grupo está fora do que foi contado.

γυναικῶν καὶ παιδίων (gynaikōn kaì paidíōn) — "de mulheres e crianças"

O primeiro substantivo designa mulheres; o segundo é diminutivo e designa crianças pequenas.

Vale notar o diminutivo: não são jovens, são crianças de pouca idade.

Ou seja, havia famílias inteiras naquela encosta — inclusive gente pequena, que tinha caminhado a mesma distância.

Nota — a preposição que guarda a memória

Vale fechar com a palavra chōrìs, porque ela é o versículo inteiro.

Sem ela, o texto diria apenas: cerca de cinco mil homens. Registro padrão, do jeito que se contava.

Com ela, o texto passa a dizer duas coisas ao mesmo tempo.

Diz o número — e diz que o número não é o total.

É uma preposição de exclusão usada para fazer o contrário do que se esperaria: em vez de apagar quem ficou de fora, ela registra que ficou.

Quem lê não pode mais imaginar cinco mil pessoas na encosta. Tem que imaginar cinco mil homens mais um número desconhecido de mulheres e crianças pequenas.

O evangelista não comenta a escolha. Não explica por que acrescentou, não critica o costume, não propõe outra contagem.

Escreve chōrìs e encerra o episódio.

E encerrará do mesmo modo a segunda multiplicação, um capítulo adiante.

Nota — anḗr e ánthrōpos

Vale registrar a distinção, porque ela decide o sentido do versículo.

Ánthrōpos designa o ser humano, a pessoa, sem marca de sexo. É a raiz de "antropologia".

Anḗr, genitivo andrós, designa o homem adulto do sexo masculino, em oposição à mulher e à criança. É a raiz de "andrologia".

O texto usa o segundo, no plural, e não há ambiguidade: contam-se homens.

Nota — hōseí, a palavra da estimativa

O advérbio hōseí significa "como que", "aproximadamente", "cerca de".

É palavra pequena e importante, porque estabelece o estatuto da informação. O narrador não afirma um número exato: oferece uma ordem de grandeza.

Vale registrar que a mesma cautela deve ser aplicada de fora: quantidades grandes em relatos antigos, bíblicos ou não, tendem a ser redondas e ampliadas. Não é possível determinar quanta gente havia.

Nota — chōrís e a cláusula de exclusão

A preposição chōrís significa à parte de, separadamente de, sem.

Seguida de genitivo, forma a cláusula que põe uma categoria fora da conta — construção que aparece com a mesma função no relato da saída do Egito.

O substantivo paidíon é diminutivo de paîs, criança: designa a criança pequena.

Registro que a cláusula é exclusiva de Mateus entre os quatro evangelhos, e que ele a repete na segunda multiplicação, no capítulo 15.

Nota — o particípio presente

A expressão hoi esthíontes é particípio presente com artigo: "os que estão comendo".

A construção identifica um grupo pela atividade que exerce, e é corrente em grego.

Ao pé da letra, portanto, o versículo conta as pessoas enquanto elas comiam — o que é observação sobre a forma da frase, e não sobre o momento em que a contagem teria sido feita.

11. Conclusão

O episódio termina numa contagem, e a contagem é mais interessante do que parece. A primeira palavra a observar é a menor delas: o grego diz "cerca de", e não "foram". O narrador não reivindica precisão, e o que oferece é estimativa, não recenseamento. Vale a pergunta prática de como se estimaria isso numa encosta escura, com gente espalhada — e a resposta está no outro evangelho, que registra a multidão distribuída em fileiras de cem e de cinquenta, arranjo que torna a conta viável. Mateus omite a organização, de modo que, nele, o número chega sem explicação de método.

Convém acrescentar uma cautela histórica que vale para qualquer texto antigo, e não só para este: quantidades grandes em relatos da antiguidade tendem a ser redondas, retóricas e ampliadas. Não é possível determinar quanta gente havia ali. O que se afirma com segurança é o que está escrito — uma ordem de grandeza de milhares, apresentada como aproximação pelo próprio narrador.

A palavra traduzida por "homens" não é ambígua. O grego dispõe de um termo para ser humano em geral e de outro para o homem adulto do sexo masculino, e o que está aqui é o segundo. Contam-se homens, e o versículo diz em seguida que mulheres e crianças ficaram fora da conta.

Essa prática não nasce aqui. É o padrão dos censos do Antigo Testamento, e o livro dos Números explicita o critério: contam-se os de vinte anos para cima, os que podem sair à guerra. A finalidade é militar, e por isso ficam de fora mulheres, crianças, velhos e até os levitas, recenseados à parte por outro critério. Toda contagem tem uma régua, e a régua decide quem entra — censo neutro não existe. Vale ainda registrar que o relato da saída do Egito emprega uma fórmula quase idêntica à daqui: cerca de seiscentos mil homens de pé, sem contar as crianças. Número aproximado, a palavra "homens", uma cláusula que põe outra categoria fora da conta. Mateus não cita o Êxodo e a estrutura é simplesmente a maneira convencional de dar números naquele mundo — mas era fórmula que qualquer leitor judeu reconhecia.

Sobre a cláusula final, há duas leituras e o texto não escolhe. Uma é aritmética: ela serve para ampliar o total, deixando entender que a multidão real era o dobro ou o triplo. A outra é de outra natureza: sem essa frase, ninguém saberia que havia mulheres e crianças ali, e o leitor imaginaria cinco mil homens. Ao acrescentá-la, o evangelista mantém a convenção de contar homens e informa, ao lado do número, que a convenção não cobre todo mundo. Vale saber que a cláusula é exclusiva de Mateus — os outros três param em "cinco mil homens" — e que ele a repete no capítulo 15. É hábito dele.

Convém não exagerar em nenhuma das duas direções. Nada no texto sugere protesto ou denúncia: a frase é seca e informativa, e ler nela crítica social é ir além do que se pode provar. Tampouco convém a saída fácil de dizer que a contagem não implicava desprezo porque mulheres e crianças eram muito valorizadas — meia-verdade que serve para não incomodar. Elas não entravam na conta, e não entravam porque a conta media outra coisa. O que se pode fazer é mostrar a prática como era, dizer de onde vinha, e não fingir que é outra coisa. Uma observação, porém, decorre do relato e independe de intenção: quem não foi contado comeu. O versículo anterior diz que todos se fartaram, e o critério da contagem não afetou a distribuição.

Resta olhar para o conjunto que este versículo encerra. O bloco começou com uma notícia de execução e uma retirada de barco, passou por uma multidão que caminhou atrás, por curas, por uma discussão sobre o jantar e por uma refeição improvável — e termina assim, num número. Sem reação da multidão, sem gratidão, sem confissão de fé, sem espanto. Nenhuma das pessoas alimentadas diz uma palavra em todo o episódio. E, a poucos versículos dali, o mesmo capítulo guardou outra refeição: um salão fechado, convidados escolhidos, dança, juramento, um rei constrangido diante da mesa e uma cabeça humana servida numa travessa. Aqui, encosta aberta, ninguém convidado, pão de pobre, peixe salgado, doze homens servindo. Lá, quem tinha tudo produziu uma morte; aqui, quem tinha quase nada produziu fartura. O evangelista põe as duas cenas a poucas linhas uma da outra e não escreve uma única frase comparando-as — e registro que a comparação é minha, apoiada na vizinhança dos textos e não em afirmação nenhuma dele.

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Mateus 14:21

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