Mas, quando os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei viram as maravilhas que ele fez e as crianças gritando no templo: “Hosana ao Filho de Davi!”, ficaram indignados
1. Introdução
Os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei veem duas coisas no pátio: as "maravilhas" que Jesus acabou de fazer e meninos gritando dentro do templo o mesmo grito da multidão da estrada. E ficam indignados.
A palavra "maravilhas" não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento; vem da linguagem com que os Salmos contam os feitos de Deus no Egito. E a dupla de autoridades, somada aos meninos, refaz uma cena do começo do evangelho, em Belém.
O versículo também mostra crianças fazendo parte do culto em voz alta, algo que a lei judaica previa, e que a liturgia cristã transformou, séculos depois, na procissão de Ramos.
2. Contexto Histórico e Cultural
Crianças que recitavam o louvor no templo
Meninos gritando "hosana" no pátio do templo não eram uma intromissão estranha ao culto. A tradição judaica previa a participação deles, e justamente nas palavras do Salmo 118, de onde vem o grito. A Mishná (a coleção de leis dos mestres judeus, fechada por volta do ano 200), no tratado Sucá 3:10, trata do caso em que o Hallel — a sequência de salmos de louvor, do 113 ao 118, cantada nas festas — é recitado por um escravo, uma mulher ou um menor. Quem ouve deve repetir palavra por palavra o que eles dizem. O adulto repete o menino.
A mesma Mishná acrescenta um comentário ácido: maldito o adulto que precisa disso, por não saber recitar sozinho. A regra mostra as duas coisas ao mesmo tempo — que crianças sabiam e recitavam o Hallel em público, e que a hierarquia via com maus olhos o adulto que dependia delas.
Há outra regra no mesmo tratado (Sucá 3:15, desenvolvida no Talmude em Sucá 42a): "o menor que sabe agitar o lulav é obrigado ao lulav". O lulav (o ramo de palmeira agitado na festa das Tendas durante o canto do Hallel) estava, portanto, também nas mãos de meninos. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), no comentário a este versículo, já ligava os meninos do templo a essa regra. O Talmude completa a lista: o menino que sabe se enrolar no manto é obrigado às franjas; o que sabe falar aprende do pai a Torá e o Shemá. A educação religiosa começava pela participação, não pela explicação.
Essas regras são de festa das Tendas, não de Páscoa, e foram escritas depois do primeiro século; não descrevem a cena de Mateus. Mostram que meninos com ramos e gritos de "hosana" faziam parte do repertório do culto, e que um menino capaz de repetir o Salmo 118 era tratado como participante. O incômodo dos chefes, por isso, não era ver crianças no templo. Era ouvir o que elas diziam.
Como as crianças do templo foram parar na estrada
A cena teve uma história curiosa na tradição cristã: as crianças saíram do pátio e foram para o caminho da entrada em Jerusalém. Nos evangelhos, a aclamação na estrada é feita por "multidões" (Mateus 21:9), e só Mateus fala de crianças, e só dentro do templo. Mas os Atos de Pilatos (um relato apócrifo do julgamento de Jesus, conhecido também como Evangelho de Nicodemos, provavelmente do século IV) põem na boca do mensageiro de Pilatos que, na entrada de Jesus, "as crianças dos hebreus" seguravam ramos e gritavam "hosana" — e os acusadores retrucam que as crianças falaram em hebraico, e perguntam como ele o diz em grego.
A liturgia latina fixou essa versão. A antífona do Domingo de Ramos, Pueri Hebraeorum ("os meninos dos hebreus"), canta que os meninos foram ao encontro do Senhor com ramos de oliveira, clamando "hosana nas alturas". E o hino Gloria, laus et honor ("glória, louvor e honra"), atribuído a Teodulfo, bispo de Orléans, por volta de 820, tem um refrão que fala de Cristo como rei "a quem a graça das crianças entoou um piedoso hosana". A lenda diz que Teodulfo o compôs na prisão, em Angers, e que o imperador Luís, o Piedoso, ao ouvi-lo, o libertou; é lenda tardia, sem apoio nas fontes do tempo.
O resultado é que, na memória cristã, as crianças do Domingo de Ramos estão na estrada, com ramos. No texto de Mateus, elas estão no templo, sem ramos mencionados, diante dos chefes dos sacerdotes. O deslocamento tirou da cena exatamente o conflito.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas, quando os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei viram"
É a primeira vez que essa dupla aparece em Jerusalém diante de Jesus, e a última vez que ela apareceu junta foi no capítulo 2. Lá, Herodes reuniu "todos os chefes dos sacerdotes e os escribas do povo" para perguntar onde o Cristo haveria de nascer (Mateus 2:4). Eles sabiam a resposta — Belém, a cidade de Davi — e a deram de pronto, citando o profeta. Não foram ver. Agora o nascido em Belém está no templo deles, sendo chamado de Filho de Davi, e eles o veem.
Entre um capítulo e outro, o evangelho já tinha anunciado o desfecho: o Filho do homem seria entregue "aos chefes dos sacerdotes e aos mestres da lei", que o condenariam à morte (Mateus 20:18). O leitor que chega a este versículo sabe para onde a indignação vai.
"as maravilhas que ele fez"
A palavra grega traduzida por "maravilhas" só aparece aqui em todo o Novo Testamento. Mateus tinha à mão o vocabulário comum dos milagres — "poderes", "sinais", e sobretudo "curou" — e escolheu uma palavra que os evangelhos não usam em nenhum outro lugar.
De onde ela vem? Da Bíblia grega, onde é o termo dos feitos de Deus no Êxodo. Em Êxodo 3:20 Deus promete ferir o Egito "com todas as maravilhas que farei no meio dele". E o Salmo 78, na tradução grega, tem praticamente a fórmula deste versículo: "as maravilhas dele que ele fez" (Salmo 78:4) — as mesmas palavras gregas, na mesma ordem, com um "dele" a mais. Mateus descreve o que Jesus fez no templo com a frase que o salmo usa para o que Deus fez no Egito.
O salmo traz mais do que a fórmula. Ele começa com uma promessa: não esconder dos filhos essas maravilhas, mas contá-las à geração seguinte (Salmo 78:4). E é a história de pais que viram as maravilhas e se esqueceram delas (Salmo 78:11-12). O Salmo 106:7 diz o mesmo de outro jeito: "os nossos pais, no Egito, não entenderam as tuas maravilhas". No templo de Mateus, os adultos responsáveis pela Lei veem as maravilhas e se indignam, e quem as proclama são meninos. A correspondência com o salmo é leitura possível, não declarada pelo texto; a fórmula verbal é que é idêntica.
Quais são as maravilhas? Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) pensa na expulsão dos vendedores e nas curas; o Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário britânico do início do século XX) inclui também o entusiasmo que Jesus despertara. O texto, colado ao versículo anterior, aponta primeiro para as curas de cegos e mancos.
E a raiz da palavra corre o capítulo. No versículo 20, os discípulos ficam "admirados" com a figueira seca, com o verbo da mesma família. No versículo 42, o salmo da pedra rejeitada diz que isso "é maravilhoso aos nossos olhos", com o adjetivo da mesma família. Três vezes em Mateus 21, e em três posições: as autoridades veem maravilhas e se indignam; os discípulos veem e se admiram; o salmo chama de maravilhoso justamente o que os construtores rejeitaram.
"e as crianças gritando no templo"
A palavra grega é masculina: são meninos. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) calculou que teriam entre sete e catorze anos, sem excluir os menores; o texto não dá idade. Podiam ser filhos de peregrinos, meninos que ajudavam no templo ou crianças da cidade.
Em todo o evangelho, a palavra só aparece nesta forma — no plural, como objeto do verbo — duas vezes. A outra é Mateus 2:16: Herodes "mandou matar todos os meninos que havia em Belém". Os meninos de Belém morreram por causa do rei nascido; os meninos de Jerusalém o aclamam como filho de Davi. Mateus 2 tem um rei, os chefes dos sacerdotes e os escribas, Belém, e os meninos; Mateus 21:15 tem os chefes dos sacerdotes e os escribas, o Filho de Davi, e os meninos. Que o evangelho feche um arco aqui é leitura defensável; a coincidência de palavras é dado.
E "gritando" é o mesmo verbo da multidão em Mateus 21:9. Os meninos não inventam nada: fazem no pátio o que os adultos fizeram na estrada.
"'Hosana ao Filho de Davi!'"
É a primeira frase do grito de Mateus 21:9, repetida sem uma palavra de diferença — e só ela. "Bendito o que vem em nome do Senhor" e "Hosana nas alturas" ficaram na estrada. O que chega ao templo pela boca dos meninos é a parte mais curta e mais política: um título de rei.
Por que os meninos repetem? Há três respostas.
Primeira resposta: por imitação, sem entender. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) diz que eles pegaram e ecoaram o grito dos peregrinos, inconscientes do que as palavras significavam. É a leitura mais comum.
Segunda resposta: porque alguém os animou. Gill sugere que os pais os incentivaram, e que a irritação dos chefes se voltava também contra os pais que deixavam os filhos gritar.
Terceira resposta: porque viram as curas. A frase põe as maravilhas e o grito lado a lado, como as duas coisas que as autoridades viram; o grito pode ser reação ao que os meninos acabavam de presenciar. É leitura possível, e é a única das três que tira os meninos da posição de papagaios.
O texto não escolhe. Mas a primeira resposta, a mais comum, supõe uma ideia de criança — alguém que fala sem saber o que diz — que o próprio evangelho contesta em Mateus 11:25, quando Jesus agradece ao Pai por ter revelado aos pequeninos o que escondeu dos sábios.
"ficaram indignados"
O verbo é o mesmo da indignação dos dez discípulos com Tiago e João, e o seu percurso em Mateus — três ocorrências, todas de gente que o evangelho não endossa — está no estudo de Mateus 20:24. O que é próprio deste versículo é o objeto. A gramática liga a indignação às duas coisas vistas: as maravilhas e os meninos. Os chefes se irritam também com as curas. No versículo seguinte, porém, só reclamam em voz alta do grito. A cura de cegos no templo eles não contestam; contestam quem lhe dá nome.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Os chefes dos sacerdotes — o plural não quer dizer que houvesse vários sumos sacerdotes ao mesmo tempo. O cargo era de um só, naquele ano Caifás; mas a expressão cobria também os que já o tinham ocupado, como Anás, e os membros das poucas famílias de onde saíam os sumos sacerdotes, que controlavam o tesouro e a guarda do templo. Era a aristocracia sacerdotal de Jerusalém, a quem os romanos confiavam a ordem local.
Os mestres da lei — em grego, "escribas", os homens das letras: especialistas na Lei de Moisés, que a interpretavam, ensinavam e redigiam documentos. Não eram um partido; havia escribas fariseus e escribas ligados aos sacerdotes. Em Mateus 2:4 a ABC os chama de "escribas do povo"; aqui, de "mestres da lei". A palavra grega é a mesma.
Os meninos — sem número, sem nome, sem idade dada. O plural masculino pode incluir meninas, mas o grego escolheu a forma que, em Mateus, também designou os meninos mortos em Belém. Não voltam a aparecer; Mateus 18:2 e 19:13-15 falam de outras crianças, em outros momentos.
Jesus — não fala neste versículo. É o sujeito das maravilhas e o destinatário do grito. A resposta dele vem no versículo seguinte.
Lugares
O templo — o mesmo pátio da expulsão e das curas. O grito que na véspera, ou poucas horas antes, ecoara na descida do monte das Oliveiras, agora ecoa dentro do recinto sagrado, sob os olhos da administração do templo.
Eventos
A aclamação na estrada — Mateus 21:9, quando as multidões que iam à frente e as que vinham atrás gritaram "Hosana ao Filho de Davi". Os meninos repetem a primeira frase. A história do título, que a multidão mandara calar na saída de Jericó e depois cantou, está no estudo de Mateus 20:31.
5. Pontos de Ensino
O incômodo costuma recair sobre o significado, não sobre o fato
Ninguém no versículo contesta a cura de cegos no templo. O alvo da irritação é o grito que dá nome a quem curou. É um padrão que se repete em qualquer instituição: o bem feito por outro é tolerado enquanto não tiver consequências para quem manda.
As crianças participavam do culto, e o culto contava com elas
A tradição judaica previa meninos recitando os salmos de louvor e agitando ramos nas festas. A participação deles era formação, não enfeite. A cena de Mateus pressupõe esse costume e o leva ao limite: o que os meninos recitam, desta vez, é um título de rei aplicado a um homem presente.
A memória pode mudar a cena de lugar
A tradição cristã levou as crianças do templo para a estrada, e com isso tirou delas o confronto. Comparar a lembrança com o texto recupera o que a lembrança perdeu.
6. Aspectos Filosóficos
O que vale a palavra de uma criança dita em público?
Os adultos responsáveis pelo templo se incomodam com o que meninos dizem em voz alta. A pergunta que o versículo levanta é sobre o lugar da criança na vida pública: ela é participante, com palavra própria, ou plateia que repete sem entender? A resposta que damos hoje, quase sem pensar, tem história — e é aí que entra Neil Postman.
Neil Postman e o desaparecimento da infância
Neil Postman (1931-2003), crítico cultural e professor da Universidade de Nova York, publicou em 1982 O desaparecimento da infância. A tese é que a infância, como categoria separada da vida adulta, não é um dado da natureza: é uma invenção social, e uma invenção recente.
No mundo da comunicação oral, argumenta Postman, não havia grande distância entre crianças e adultos. Por volta dos sete anos, quando dominava a fala, a criança entrava no mundo dos adultos: trabalhava ao lado deles, ouvia as mesmas histórias, estava nos mesmos lugares, participava das mesmas festas. Não havia um conjunto de saberes trancado para ela, porque tudo o que se sabia circulava pela voz.
A imprensa mudou isso. Com o livro, o saber adulto passou a exigir uma habilidade que se aprende por anos — a leitura —, e a criança passou a ser alguém que ainda não entrou nesse mundo. Surgiram a escola por idades, a literatura infantil, a ideia de que há coisas que as crianças não devem saber. A infância, para Postman, é filha da página impressa. E a televisão, que entrega tudo a todos sem exigir leitura, estaria desfazendo a fronteira.
O que isso faz com o versículo
A cena acontece num mundo anterior à imprensa, exatamente o tipo de mundo em que, segundo Postman, meninos de sete ou doze anos estavam nos mesmos espaços dos adultos e diziam as mesmas palavras. As regras judaicas sobre o menino que recita o louvor e agita o ramo confirmam esse retrato: a participação vinha antes da explicação.
Visto assim, os meninos do templo não são intrusos nem papagaios. São participantes de um culto oral, fazendo no pátio o que os adultos fizeram na estrada. E a leitura moderna mais comum — a de que eles gritaram sem saber o que diziam — talvez diga mais sobre a nossa ideia de criança, a que Postman descreve, do que sobre os meninos de Jerusalém.
Postman ajuda também a ver o que incomodou os chefes. Num mundo de comunicação oral, o grito repetido é o principal meio de circulação de uma ideia. O título "Filho de Davi", dito por meninos no pátio do templo, não é uma opinião infantil: é a ideia política mais perigosa da semana circulando pelo único meio que não precisava de licença.
Os limites de Postman
A tese tem críticos fortes. Historiadores da Idade Média, como Nicholas Orme, em Crianças medievais (2001), mostraram que pais medievais reconheciam fases da infância, faziam brinquedos, choravam filhos mortos e tinham cuidados próprios com os pequenos. A ideia de que "não havia infância" antes da imprensa é exagero. E o próprio texto de Mateus é prova: os chefes perguntam se Jesus ouve o que "estas crianças" estão dizendo, o que supõe que palavra de criança tinha, para eles, outro peso.
O que sobra da tese, depois das críticas, é a parte útil para este versículo: a maneira como uma sociedade define a criança decide o valor que ela dá à palavra da criança. Os chefes do templo a ouviram como ameaça. A leitura moderna tende a ouvi-la como gracinha. Nenhuma das duas é a de Mateus, que a põe ao lado das maravilhas, como coisa que se vê e que pede resposta.
7. Aplicações Práticas
Levar a sério o que as crianças dizem sobre Deus
Em muitas comunidades, a fala das crianças no culto é tratada como enfeite: bonitinha, para fotografar, sem consequência. O versículo aponta para outro lugar. Os meninos do templo disseram uma coisa verdadeira e perigosa, e os adultos da instituição foram os únicos que perceberam o peso dela. Uma aplicação real é ouvir o que as crianças repetem e perguntar a elas o que entendem — sem supor de antemão que não entendem nada.
Cuidar do que os adultos gritam diante das crianças
Os meninos repetiram, palavra por palavra, o que ouviram dos adultos na estrada. Isso vale para o louvor e vale para o resto. O que se grita em casa, na rua, nas redes e na política chega à boca das crianças com a mesma fidelidade. Antes de se indignar com o que elas dizem, pergunte onde aprenderam.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Havia meninas entre as crianças?
O grego usa o plural masculino, que podia abranger um grupo misto. Mas as regras judaicas sobre o menor que recita o louvor e agita o ramo falam de meninos, e a participação de meninas nas aclamações públicas do templo não é documentada. Não é possível decidir; o mais provável é que fossem sobretudo meninos.
Gritar "Filho de Davi" no templo era perigoso?
O título designava o herdeiro do trono de Israel. Gritado no pátio do templo, durante a Páscoa, com a cidade cheia de peregrinos e a administração local responsável perante Roma pela ordem, ele soava como aclamação de rei. O incômodo dos chefes não precisa ser lido só como inveja ou incredulidade; tinha também uma dimensão política concreta. Que eles temessem uma reação romana é hipótese plausível, que o texto não formula.
Por que reclamar com Jesus, e não com as crianças ou os pais?
No versículo seguinte, os chefes se dirigem a Jesus. Supõem que ele tem autoridade para mandá-las calar, e que, se não manda, aprova. Lucas 19:39-40 conta um pedido semelhante, feito por fariseus na estrada, e lá Jesus responde que as pedras gritariam. Mateus guarda a resposta para o templo e a funda num salmo.
Os meninos estavam entre os que viram as curas?
O texto põe as maravilhas e o grito lado a lado, como as duas coisas que os chefes viram, mas não diz que os meninos testemunharam as curas. É possível que sim, porque tudo aconteceu no mesmo pátio. Se o grito foi resposta ao que viram ou eco do que ouviram na estrada, o versículo não esclarece.
Por que só Mateus conta a cena?
Marcos e Lucas não têm os meninos no templo. Mateus tem um interesse constante por crianças (Mateus 18:2-5; 19:13-15) e pelo título "Filho de Davi", que usa mais do que qualquer outro evangelho. A cena junta os dois interesses. Se ela vem de uma tradição que só Mateus conhecia ou se foi composta a partir do Salmo 8, citado no versículo seguinte, é questão discutida.
9. Conexão com Outros Textos
As maravilhas no Êxodo e nos Salmos
Êxodo 3:20 — "Por isso estenderei a minha mão e ferirei o Egito com todas as maravilhas que farei no meio dele; depois disso ele deixará vocês irem."
Na Bíblia grega, a mesma palavra deste versículo, aplicada aos feitos de Deus no Egito.
Salmo 78:4 — "Não as esconderemos dos filhos deles; contaremos à geração seguinte os louvores do SENHOR, o seu poder e as maravilhas que ele fez."
A fórmula quase idêntica à de Mateus, num salmo que manda contar as maravilhas às crianças.
Salmo 78:11-12 — "Esqueceram-se dos seus feitos e das maravilhas que lhes mostrara. Diante dos pais deles fez maravilhas, na terra do Egito, no campo de Zoã."
Salmo 106:7 — "Os nossos pais, no Egito, não entenderam as tuas maravilhas; não se lembraram da grandeza da tua bondade."
Os dois salmos contam a história de quem viu as maravilhas e não as entendeu.
A dupla e os meninos no começo do evangelho
Mateus 2:4 — "E, reunindo todos os chefes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntava-lhes onde o Cristo haveria de nascer."
Mateus 2:16 — "Então Herodes, ao ver que tinha sido enganado pelos magos, enfureceu-se muito e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e em todos os seus arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo que apurara com precisão dos magos."
As únicas duas vezes em que Mateus usa a palavra destes meninos no plural, como objeto: os de Belém, mortos; os de Jerusalém, gritando.
O grito original
Mateus 21:9 — "As multidões que iam à frente e as que o seguiam gritavam: 'Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do SENHOR! Hosana nas alturas!'"
Os meninos repetem só a primeira frase.
Salmo 118:25 — "Ó SENHOR, salva-nos, por favor! Ó SENHOR, dá-nos prosperidade, por favor!"
O "salva-nos, por favor" que deu origem a "hosana".
A mesma raiz no fim do capítulo
Mateus 21:42 — "Disse-lhes Jesus: 'Vocês nunca leram nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos'?"
O adjetivo da mesma família de "maravilhas", aplicado ao que os construtores rejeitaram.
Revelado aos pequenos
Mateus 11:25 — "Naquele tempo Jesus disse: Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos."
O agradecimento pelo que foi mostrado aos pequenos e escondido dos entendidos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas, quando os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei viram as maravilhas que ele fez e as crianças gritando no templo: “Hosana ao Filho de Davi!”, ficaram indignados
Texto grego
Ἰδόντες δὲ οἱ ἀρχιερεῖς καὶ οἱ γραμματεῖς τὰ θαυμάσια ἃ ἐποίησε, καὶ τοὺς παῖδας κράζοντας ἐν τῷ ἱερῷ, καὶ λέγοντας, Ὡσαννὰ τῷ υἱῷ Δαβίδ, ἠγανάκτησαν,
Transliteração
Idontes de hoi archiereis kai hoi grammateis ta thaumasia ha epoiēse, kai tous paidas krazontas en tō hierō, kai legontas, Hōsanna tō huiō Dabid, ēganaktēsan,
As diferenças entre as edições
O texto crítico (a edição Nestle-Aland, base das traduções modernas) difere do Textus Receptus em um artigo: escreve tous paidas tous krazontas, "os meninos, os que gritavam", em vez de tous paidas krazontas, "os meninos gritando". Com o artigo, o grito identifica quais meninos; sem ele, descreve o que faziam. O sentido muda pouco. A grafia do nome de Davi também varia entre as edições (Dabid, Dauid), sem efeito na leitura.
Análise palavra por palavra
Ἰδόντες δὲ — idontes de, "mas, tendo visto". Particípio aoristo de horaō, "ver". O particípio abre a frase e adia o verbo principal até a última palavra do versículo: tudo o que foi visto vem primeiro, e a reação, no fim.
οἱ ἀρχιερεῖς — hoi archiereis, "os chefes dos sacerdotes". Composto de archē, "comando, primazia", e hiereus, "sacerdote". No singular é o sumo sacerdote; no plural, o grupo dirigente das famílias sacerdotais.
καὶ οἱ γραμματεῖς — kai hoi grammateis, "e os mestres da lei". De gramma, "letra, escrito": literalmente, "os homens das letras". A ABC traduz pela função, "mestres da lei"; em Mateus 2:4, pela palavra, "escribas". A dupla archiereis kai grammateis aparece em Mateus 2:4, 16:21, 20:18 e aqui, e é sempre o par que decide sobre o Cristo.
τὰ θαυμάσια — ta thaumasia, "as maravilhas". Neutro plural do adjetivo thaumasios, "admirável", usado como substantivo. É a única ocorrência da palavra no Novo Testamento. Vem de thauma, "assombro", a mesma família do verbo thaumazō, "admirar-se" (Mateus 21:20), e do adjetivo thaumastos, "maravilhoso" (Mateus 21:42).
Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento), ta thaumasia traduz quase sempre o hebraico nifla'ot, de uma raiz que indica o que é extraordinário, fora do alcance humano — a mesma raiz de Gênesis 18:14, "há alguma coisa difícil demais para o SENHOR?". É vocabulário reservado a Deus: as maravilhas do Egito (Êxodo 3:20), as que os pais não entenderam (Salmo 106:7), as que se devem contar aos filhos (Salmo 78:4). Mateus aplica a palavra ao que Jesus fez no templo.
ἃ ἐποίησε — ha epoiēse, "que fez". Aoristo de poieō. O grego diz "que fez", o fato concluído, e a ABC acompanha; é também a forma do Salmo 78:4 na Septuaginta (ta thaumasia autou ha epoiēse). Em português o eco do salmo fica visível.
καὶ τοὺς παῖδας — kai tous paidas, "e os meninos". Acusativo plural masculino de pais, "criança" e também "servo". Em Mateus, essa forma exata só aparece aqui e em Mateus 2:16, os meninos de Belém. Em Mateus 12:18, no singular, pais designa o "servo" de Isaías 42:1 aplicado a Jesus.
κράζοντας — krazontas, "gritando". Particípio presente de krazō, "gritar, clamar": o grito continua enquanto as autoridades olham. É o verbo da multidão em Mateus 21:9 (ekrazon) e dos cegos de Jericó em Mateus 20:30-31. O som da palavra imita o grito, como o português "crocitar".
ἐν τῷ ἱερῷ — en tō hierō, "no templo", o recinto inteiro, como no versículo anterior.
καὶ λέγοντας — kai legontas, "e dizendo". A fórmula grega que introduz o conteúdo de um grito. A ABC a substitui pelos dois-pontos.
Ὡσαννὰ τῷ υἱῷ Δαβίδ — Hōsanna tō huiō Dabid, "Hosana ao Filho de Davi". Idêntico, letra por letra, à primeira frase de Mateus 21:9. O dativo tō huiō, "ao filho", indica a quem a aclamação se dirige.
ἠγανάκτησαν — ēganaktēsan, "ficaram indignados". Aoristo de aganakteō, o verbo principal da frase, deixado para o fim. A palavra e as suas três ocorrências em Mateus estão no estudo de Mateus 20:24. A frase grega não termina aqui: o versículo acaba numa vírgula, e a fala dos indignados vem no versículo 16.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva às seguintes conclusões.
As autoridades do templo não reagem por falta de evidência. Elas viram. Mateus descreve o que viram com a palavra que a Bíblia grega reserva aos feitos de Deus no Egito, e a reação delas é a dos pais dos Salmos, que viram as maravilhas e não as entenderam. O problema da cena não é de informação; é de disposição.
O que as autoridades não toleram é o nome dado ao fato. As curas passam sem protesto; o título de rei, gritado por meninos no pátio, não passa. A indignação recai sobre a interpretação, porque é a interpretação que ameaça a posição de quem administra a casa.
Os meninos não são figurantes. A lei judaica os contava como participantes do louvor, e Mateus os põe ao lado das maravilhas como coisa vista e decisiva. Tratá-los como papagaios que não sabiam o que diziam é uma leitura moderna, não a de Mateus.
E o versículo amarra o fim do evangelho ao começo. Os mesmos chefes dos sacerdotes e escribas que, em Belém, souberam onde o Cristo nasceria e não foram vê-lo, veem-no agora no templo e se indignam; os meninos que lá foram mortos por causa dele, aqui o aclamam. A ligação não é declarada pelo texto, mas as palavras estão lá para quem lê Mateus inteiro.













