Cegos e mancos aproximaram-se dele no templo, e ele os curou.
1. Introdução
Os vendedores acabam de sair do templo, e quem entra são cegos e mancos. Mateus conta a cena em uma linha, sem nomes, sem fala e sem gesto descrito, e é o único evangelista que a registra.
É a única cura de Mateus feita dentro do templo, o lugar onde a condição dessas pessoas definia até onde elas podiam ir. Os mestres judeus as dispensavam da peregrinação, e um grupo radical as proibia de entrar na cidade santa e reclamava por escrito de que elas se aproximavam do santuário.
A frase também levanta uma pergunta que o texto não responde: curar alguém para que caiba no lugar é o mesmo que abrir o lugar para ele?
2. Contexto Histórico e Cultural
Dispensados, não proibidos: o que diziam os mestres judeus
A Lei mandava todo homem israelita "aparecer diante do SENHOR" três vezes por ano, nas festas de peregrinação (Êxodo 23:14-17). A Mishná, no início do tratado Hagigá, lista quem está dispensado dessa obrigação, e no meio da lista estão "o coxo, o cego, o doente e o velho, e quem não consegue subir a pé". A dispensa vem de uma leitura literal: o texto de Êxodo 23:14 chama as festas de regalim ("vezes", mas também "pés", em hebraico), e quem não tem pés firmes não é obrigado a subir.
O Talmude, comentando essa lista, chega a dois detalhes que iluminam este versículo. O primeiro está em Hagigá 2a: o coxo que estava impedido no primeiro dia da festa e ficou curado no segundo passa a ser obrigado a comparecer. A cura muda a condição religiosa da pessoa no mesmo instante. O segundo está numa opinião atribuída a Yochanan ben Dehavai, em Hagigá 4b: até quem é cego de um olho fica dispensado, porque o verbo de Êxodo 23:17, escrito sem vogais, pode ser lido como "aparecerá" ou como "verá" — e "assim como vem para ver, vem para ser visto". Quem não vê com os dois olhos não entra no encontro em que Deus e o peregrino se olham.
O dado decisivo é o tipo da regra. A tradição rabínica dispensa; não proíbe. Um cego que subisse a Jerusalém não violava lei nenhuma. Esses textos foram redigidos depois do ano 200 e não descrevem com certeza o primeiro século, mas mostram a lógica: a deficiência tirava a obrigação, não o direito.
Proibidos: o que diziam os manuscritos do mar Morto
Um grupo foi mais longe. O Rolo do Templo, achado na gruta 11 de Qumran e catalogado como 11QT, descreve o templo ideal e a cidade que o cerca, e na coluna 45 determina que nenhum cego entrará nela por todos os seus dias, para não contaminar a cidade em cujo meio Deus habita. Não é a área do altar; é a cidade inteira do santuário.
A carta que os especialistas chamam de 4QMMT ("Algumas das obras da Lei", texto polêmico de Qumran contra a administração do templo) explica a razão e, ao mesmo tempo, revela a prática. O cego não vê a impureza e não pode se proteger dela; o surdo não ouve as leis de pureza; "quem não vê nem ouve não sabe como agir". E a frase seguinte é uma queixa: "mas esses se aproximam da pureza do templo". O grupo reclama porque, no templo de Jerusalém, cegos e surdos entravam. A exclusão de Qumran era o programa de uma minoria, escrito justamente contra o que a maioria permitia. A outra exclusão de Qumran, a da assembleia do fim dos tempos, e a regra de Levítico 21 para os sacerdotes estão no estudo de Mateus 15:30.
Na porta, pedindo esmola
O retrato mais concreto vem dos Atos dos Apóstolos. Atos 3:2 descreve um homem coxo de nascença que era carregado todos os dias até a porta do templo chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam. A porta era o lugar econômico do deficiente: ali passava o fluxo de peregrinos, e dar esmola na subida ao templo era gesto de piedade. O mesmo texto conta que, curado, o homem entrou no templo "andando, saltando e louvando a Deus" (Atos 3:8). A porta e o pátio aparecem como dois lugares diferentes, e a cura como passagem de um ao outro.
Junte os três quadros e o cenário de Mateus 21:14 fica nítido. Cegos e mancos não estavam proibidos de entrar no templo de Jerusalém, mas estavam dispensados de subir, eram vistos por alguns como ameaça à pureza e, na prática, ficavam sobretudo nas portas, de mão estendida.
3. Análise Teológica do Versículo
"Cegos e mancos"
A dupla não é aleatória. Na Bíblia hebraica, cego e coxo andam juntos sempre que o assunto é acesso: a lista dos sacerdotes impedidos de oferecer em Levítico 21:18 começa por eles, e o provérbio de 2 Samuel 5:8 diz que "cego e coxo não entrarão na casa". A ligação deste versículo com esse provérbio, e o peso do verbo "aproximar-se", já foram examinados no estudo de Mateus 15:30.
Há dois detalhes que aquele estudo não traz. O primeiro está na tradução grega de 2 Samuel 5:8, a que os leitores de Mateus usavam: ela não diz "a casa", diz "a casa do Senhor". Para um leitor dessa Bíblia, o provérbio falava do templo, sem ambiguidade. O segundo está na boca de quem o provérbio é posto: Davi. Neste capítulo, Jesus é aclamado duas vezes como "Filho de Davi" (Mateus 21:9 e 21:15), e entre as duas aclamações está esta cena, em que o filho de Davi recebe no templo quem o dito de Davi deixava de fora. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX, organizador de um comentário bíblico popular) leu a cena exatamente assim: a dureza de Davi contra a compaixão do Filho de Davi. Mateus não cita 2 Samuel; a ligação é leitura, e plausível, porque o título e o par estão lado a lado no mesmo trecho.
"aproximaram-se dele"
Em Mateus 15:30, os doentes eram trazidos e largados aos pés de Jesus por outras pessoas. Aqui o verbo tem os próprios cegos e mancos como sujeito: eles se aproximaram. Mateus não diz que alguém os carregou, e não diz que ninguém os carregou. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) supôs que tivessem sido levados, porque não poderiam vir sozinhos; o texto não autoriza nem desautoriza a suposição. O que ele faz é dar a iniciativa a eles.
"no templo"
É a única cura de Mateus feita dentro do templo. O evangelho registra curas em casas, estradas, sinagogas, montes e na beira do lago; no recinto sagrado de Jerusalém, só esta. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) observou que ninguém mais fez milagres no templo, e viu na cena "o uso correto do templo".
O lugar muda o sentido da cura. Uma cura no caminho devolve a saúde; uma cura no templo devolve também o lugar na vida religiosa. Pela regra rabínica do coxo curado no meio da festa, quem deixa de ser coxo deixa de estar dispensado, e a Páscoa estava a poucos dias (Mateus 26:2). Que Mateus pense nisso é hipótese; que a cura tivesse esse efeito, para quem conhecia a regra, é o que a regra diz.
E há a ordem das cenas, que Mateus construiu e os outros evangelhos não têm. No versículo 12 saem os que vendiam e compravam; no 14 entram cegos e mancos. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) pôs isso numa imagem: o bom médico toma o lugar do negociante ganancioso. A troca de quem está dentro e quem está fora é a forma do trecho, e responde à citação de Isaías 56 do versículo anterior, que falava justamente da casa aberta aos que estavam à margem.
"e ele os curou"
Três palavras em português, duas em grego. Nenhum toque, nenhuma ordem, nenhuma menção de fé, nenhum número. É a forma dos resumos de cura de Mateus, e é o último deles no evangelho.
O que a frase não diz pesa tanto quanto o que diz. Não diz que os cegos e mancos foram acolhidos no templo tal como estavam; diz que foram curados. A cura remove o que os mantinha à margem, e assim resolve o problema da fronteira sem mexer nela. Lida dessa forma, a cena não suprime a regra de pureza: dispensa a regra ao eliminar o caso. Lida de outra, ela mostra que o Messias tem autoridade sobre o próprio critério de quem pertence. As duas leituras se apoiam no texto, e nenhuma é imposta por ele.
O que só Mateus conta
Marcos e Lucas passam da expulsão dos vendedores direto para o ensino diário de Jesus no templo e para o plano das autoridades de matá-lo (Marcos 11:18; Lucas 19:47). Mateus põe no lugar uma cura e um coro de crianças. A informação nova não é sobre o que os adversários planejavam; é sobre quem ocupou o espaço que os vendedores deixaram.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Os cegos e os mancos — sem número, sem nome, sem origem. Podiam ser peregrinos que subiram para a Páscoa apesar da dispensa, moradores de Jerusalém, ou os pedintes que ficavam nas portas do templo. O texto não diz, e eles não voltam a aparecer.
Jesus — acaba de expulsar os vendedores e de citar Isaías e Jeremias. É sujeito de um único verbo no versículo: curou.
Os observadores — ausentes da frase, presentes na cena. O versículo seguinte diz que os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei "viram as maravilhas que ele fez": a cura foi pública e teve testemunhas hostis.
Lugares
O templo — o recinto inteiro, com pátios e pórticos, e não o santuário fechado onde só os sacerdotes entravam. A cena ocorre no mesmo espaço da expulsão, provavelmente o grande pátio externo, aberto a todos; a descrição dos pátios está no estudo de Mateus 21:12.
As portas do templo — fora da frase, mas pressupostas por ela. Era nas portas que os pedintes ficavam, como o coxo de Atos 3:2 na porta chamada Formosa. Qual porta era essa é discutido; o texto de Atos só dá o nome.
Eventos
A semana da Páscoa — a cena acontece nos dias que antecedem a festa (Mateus 26:2), quando Jerusalém se enchia de peregrinos e a obrigação de "aparecer diante do SENHOR" estava em vigor. Era a época em que a dispensa de cegos e coxos mais se fazia sentir.
5. Pontos de Ensino
Os que estão à margem entram quando os que lucram saem
Mateus constrói a sequência: primeiro saem os vendedores, depois entram cegos e mancos. O templo não fica vazio depois da expulsão; fica ocupado por outra gente. A ordem das cenas é a mensagem, e Mateus é o único a escrevê-la.
Dispensar não é o mesmo que excluir — mas pode virar
A tradição rabínica dispensava o cego e o coxo da peregrinação, por consideração com a dificuldade deles. Na prática, a dispensa os deixava nas portas. Uma regra feita para aliviar pode acabar funcionando como fronteira, sem que ninguém a tenha escrito como fronteira.
A cura no templo devolve mais do que a saúde
No caminho, curar é devolver a visão ou o andar. No templo, é devolver também o lugar na vida do povo, com as obrigações que ele traz. A cura, aqui, tem dimensão social e religiosa, e não só física.
O texto não decide se a fronteira caiu
Jesus curou; o texto não diz que ele declarou abertas as portas a quem continuasse cego. Quem lê a cena como abolição das regras de pureza vai além do que está escrito, e quem a lê como simples milagre ignora o lugar onde ela acontece. O versículo sustenta as duas tensões e não resolve nenhuma.
6. Aspectos Filosóficos
O que um grupo põe para fora para saber quem é
O Rolo do Templo proíbe o cego de entrar na cidade santa "para não contaminar" o lugar onde Deus mora. A carta de Qumran dá a razão: quem não vê não percebe a impureza e não sabe se proteger dela. O raciocínio é coerente. Uma comunidade que se define pela separação entre puro e impuro precisa de membros capazes de vigiar essa separação, e o corpo que não consegue vigiá-la passa a ser tratado como brecha. A pergunta filosófica é antiga e atual: o que uma comunidade precisa excluir para continuar sabendo quem é?
Julia Kristeva e a abjeção
Julia Kristeva (nascida em 1941), psicanalista e linguista búlgara radicada na França, deu nome a esse mecanismo em Poderes do horror, de 1980. O livro trata do "abjeto": aquilo que não é exatamente um objeto de que se tem medo, mas algo que perturba a identidade, a ordem e o sistema, e que por isso é jogado para fora. O cadáver, o dejeto, o que vaza do corpo. Para Kristeva, os indivíduos e os grupos se constituem traçando essa linha: eu sou o que não é aquilo.
Uma parte do livro é dedicada à Bíblia. Kristeva lê as leis de Levítico como um grande sistema de separações — entre o limpo e o imundo, o inteiro e o defeituoso, o que se aproxima do altar e o que fica longe — e vê nelas a construção da identidade de um povo pela demarcação de fronteiras. E lê o cristianismo como uma virada: com frases como a de Mateus 15:11, de que o que contamina não é o que entra pela boca, a impureza deixa de estar fora e passa a estar dentro da pessoa. O abjeto se interioriza.
Aplicada a este versículo, a análise de Kristeva ilumina o lado de Qumran. A exclusão do cego não é crueldade gratuita; é o modo de uma comunidade proteger a fronteira que a constitui. E é por isso que a entrada de cegos e mancos no templo, seguida de cura, é tão carregada: ela mexe na linha que define quem pertence.
A Kristeva que conviveu com a deficiência
Há uma segunda Kristeva, menos conhecida e mais próxima desta cena. Mãe de um filho com deficiência neurológica, ela escreveu em 2003 uma carta pública ao presidente da França sobre os cidadãos em situação de deficiência, no molde da carta de Diderot sobre os cegos (estudada em Mateus 20:30). E em 2011 publicou com Jean Vanier, fundador das comunidades da Arca, onde pessoas com deficiência intelectual vivem com assistentes, uma troca de cartas intitulada O olhar deles atravessa as nossas sombras.
Nessas cartas, Vanier fala de caridade cristã. Kristeva, que não é crente, recusa esse modelo: a caridade, diz ela, tende a fazer da pessoa com deficiência um objeto de cuidado, quando ela deveria ser sujeito. O que Kristeva propõe é encontro, e não integração; reconhecimento da singularidade, e não assimilação à norma. A deficiência, para ela, expõe a vulnerabilidade que todos têm e preferem não ver, e é esse medo que produz a exclusão.
O que essa leitura faz com o versículo
Ela levanta duas coisas, e em direções opostas. A primeira favorece o texto: os cegos e mancos são sujeito do verbo. Eles se aproximaram. Mateus, que em outros lugares os mostra carregados e largados, aqui lhes dá a iniciativa, e isso é exatamente o que Kristeva pede — que não sejam objeto.
A segunda incomoda. A cena termina em cura, isto é, na eliminação da diferença. Pela régua de Kristeva, curar para que a pessoa caiba no lugar não é o mesmo que abrir o lugar para ela como ela é. A teóloga norte-americana Nancy Eiesland, ela própria com deficiência, levou essa crítica para dentro da teologia em O Deus deficiente, de 1994: a leitura cristã das curas, disse, ensinou gerações a ver o corpo deficiente como algo a consertar, e ela propôs olhar para o Cristo ressuscitado que conserva as marcas dos cravos. O texto de Mateus não responde a essa objeção, porque não foi escrito para respondê-la. Mas ela mostra o limite de qualquer leitura que transforme a cena em programa de inclusão: o versículo fala de cura, não de acolhimento da deficiência.
Um último dado, porque omiti-lo seria desonesto: em 2020, uma investigação encomendada pela própria Arca concluiu que Jean Vanier abusara sexualmente de mulheres ao longo de décadas. As cartas com Kristeva continuam publicadas e discutidas; a autoridade moral de um dos seus dois autores não sobreviveu.
7. Aplicações Práticas
Quem fica na porta da sua comunidade?
Ninguém proibia o cego de entrar no templo; ele simplesmente ficava na porta. A aplicação mais direta deste versículo é olhar para os lugares de culto de hoje com essa pergunta: quem não entra porque há degraus sem rampa, culto sem intérprete de libras, texto sem versão para quem não enxerga, ou porque ninguém espera que essa pessoa venha? A exclusão mais comum não é escrita como regra; é uma dispensa silenciosa que vira costume.
Não fazer da cura a condição do pertencimento
O versículo conta uma cura, e quem tem fé pode pedir a sua. Mas uma comunidade que só sabe acolher a pessoa com deficiência como candidata a milagre a trata como problema a resolver. A cena de Mateus não autoriza esse uso: os cegos e mancos já estavam no templo quando foram curados.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Cegueira e mancura tornavam a pessoa impura?
Não, pela Lei de Moisés. A Torá trata como impureza ritual coisas como a lepra, o fluxo do corpo e o contato com cadáver, e para elas prevê ritos de purificação. Cegueira e mancura não estão nessa lista: são "defeitos", e o defeito só importa em dois casos — o sacerdote que oferece no altar (Levítico 21) e o animal oferecido em sacrifício (Levítico 22:22). Por isso Mateus 8:4 manda o leproso curado ao sacerdote, e nada parecido acontece aqui: não havia rito a cumprir. A ideia de que o cego contamina o santuário é do Rolo do Templo e da carta de Qumran, não da Torá.
A cura aconteceu num sábado?
O texto não diz, e nada indica que sim. A cronologia de Mateus põe a cena no dia da entrada em Jerusalém, e os evangelhos não a associam a um sábado. Em Mateus 12:10, uma cura numa sinagoga em dia de sábado provocou acusação; aqui, a irritação dos chefes no versículo seguinte não menciona o dia.
Por que ninguém protestou contra as curas em si?
O versículo seguinte diz que os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei viram "as maravilhas" e ficaram indignados, mas a única coisa que eles reclamam em voz alta é o grito das crianças. Nenhuma voz contesta a cura de cegos dentro do templo. Talvez porque não houvesse regra violada; talvez porque contestar uma cura diante de uma multidão fosse imprudente. O texto não permite decidir.
Os curados foram à festa?
Pela regra rabínica, o coxo curado durante a festa passava a ser obrigado a comparecer. Se esses homens e mulheres celebraram a Páscoa daquele ano no templo, como peregrinos plenos, o evangelho não conta. Eles entram e saem da história numa linha.
9. Conexão com Outros Textos
O provérbio, na Bíblia grega
2 Samuel 5:8, na Septuaginta — "Por isso dirão: cegos e coxos não entrarão na casa do Senhor."
O hebraico diz só "a casa"; a tradução grega, que era a Bíblia dos leitores de Mateus, acrescenta "do Senhor" e faz do provérbio uma regra sobre o templo.
Cegos e coxos como animais rejeitados
Malaquias 1:8 — "Quando vocês trazem animal cego para sacrificar, isso não é mal? E quando trazem o coxo e o doente, isso não é mal? Ofereça-o ao seu governador: ele se agradará de você?"
No último livro dos profetas, "cego e coxo" é o que os sacerdotes ofereciam de pior no altar. Em Mateus, cegos e coxos são pessoas, e o que acontece com eles no templo é o contrário de serem descartados.
O retorno que inclui os cegos e os coxos
Jeremias 31:8 — "Eis que eu os trarei da terra do norte e os reunirei dos confins da terra; entre eles o cego e o coxo, a grávida e a que está dando à luz, juntos: uma grande multidão voltará para cá."
O mesmo Jeremias do covil de ladrões anuncia a volta do exílio com cegos e coxos na caravana. A volta a Sião não espera que eles sarem.
Miqueias 4:6-7 — "Naquele dia, diz o SENHOR, reunirei a que manqueja e ajuntarei a que foi expulsa […]; e da que manqueja farei um resto, e da que foi afastada, uma nação forte."
A imagem do rebanho que manca, reunido no monte do SENHOR.
A casa aberta aos de fora
Isaías 56:4-5 — "Aos eunucos que guardam os meus sábados […] darei na minha casa e dentro dos meus muros um memorial e um nome melhor do que filhos e filhas."
O trecho de onde vem a "casa de oração" do versículo anterior: a promessa a quem a Lei deixava de fora.
O coxo na porta do templo
Atos 3:2 — "Era carregado um homem, coxo de nascença, que punham todos os dias à porta do templo chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam no templo."
Atos 3:8 — "De um salto pôs-se de pé e começou a andar; e entrou com eles no templo, andando, saltando e louvando a Deus."
A mesma passagem da porta para o pátio, contada por Lucas a respeito dos apóstolos, com o coxo saltando como em Isaías 35:6.
O banquete aberto e o banquete fechado
Lucas 14:21 — "Saia depressa pelas praças e ruas da cidade e traga aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos."
Na parábola do grande banquete, os excluídos da mesa de Qumran são os primeiros convidados.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Cegos e mancos aproximaram-se dele no templo, e ele os curou.
Texto grego
Καὶ προσῆλθον αὐτῷ τυφλοὶ καὶ χωλοὶ ἐν τῷ ἱερῷ· καὶ ἐθεράπευσεν αὐτούς.
Transliteração
Kai prosēlthon autō typhloi kai chōloi en tō hierō; kai etherapeusen autous.
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) coincide aqui com as edições críticas. Doze palavras, sem variante de sentido.
O versículo como molde de Mateus 15:30
A frase grega é a de Mateus 15:30 reduzida ao esqueleto. Lá: kai prosēlthon autō ochloi polloi […] kai etherapeusen autous, "e aproximaram-se dele grandes multidões […] e ele os curou". Aqui: kai prosēlthon autō […] kai etherapeusen autous. O começo e o fim são idênticos, palavra por palavra. O que muda é o meio: as multidões que carregavam doentes somem, os próprios cegos e coxos passam a sujeito, e entra um lugar — en tō hierō, "no templo". A análise de prosēlthon, typhloi, chōloi e etherapeusen está no estudo de Mateus 15:30; abaixo, só o que é próprio deste versículo.
Análise palavra por palavra
Καὶ προσῆλθον αὐτῷ — kai prosēlthon autō, "e aproximaram-se dele". Aoristo, terceira pessoa do plural. A diferença em relação a Mateus 15:30 é gramatical e decisiva: lá o sujeito do verbo eram as multidões; aqui são os doentes. O pronome autō, "a ele", está no dativo, o caso do destinatário do movimento.
τυφλοὶ καὶ χωλοὶ — typhloi kai chōloi, "cegos e mancos". Adjetivos usados como substantivos, no plural e sem artigo: não são "os cegos" de algum lugar, são cegos quaisquer. A ordem cego-coxo é a de Levítico 21:18, e 2 Samuel 5:8 na Septuaginta traz typhloi kai chōloi — as mesmas duas palavras, na mesma ordem e no mesmo caso. Em Mateus 15:30 a lista começava pelos coxos. A ABC traduz chōloi aqui por "mancos"; em Mateus 11:5, pela mesma palavra, por "coxos".
ἐν τῷ ἱερῷ — en tō hierō, "no templo". Hieron é o adjetivo "sagrado" usado como substantivo: o lugar sagrado, o recinto inteiro do templo, com pátios, pórticos e portas. O grego do Novo Testamento tem outra palavra, naos, para o santuário propriamente dito, o edifício interno onde só os sacerdotes entravam; Mateus a usa, por exemplo, para o véu rasgado em Mateus 27:51. Os cegos e mancos estão no hieron, não no naos: no espaço aberto, onde também estavam os vendedores.
Entre Mateus 21:12 e 21:15, hieron aparece quatro vezes — duas no versículo 12, uma neste e uma no 15 —, e no 13 o mesmo lugar é chamado de "casa". A repetição prende a ação ao lugar: expulsão, cura e grito das crianças acontecem ali.
καὶ ἐθεράπευσεν αὐτούς — kai etherapeusen autous, "e ele os curou". Aoristo de therapeuō. A origem da palavra, ligada a "servir, cuidar", já foi analisada. O que este versículo acrescenta é o lugar: no grego comum, therapeuein tous theous significava "servir aos deuses", prestar-lhes culto. Platão, no diálogo Eutífron, discute a piedade justamente como uma espécie de therapeia, de serviço aos deuses. E o próprio Novo Testamento conserva esse uso em Atos 17:25, onde Paulo diz em Atenas que Deus não é "servido" por mãos humanas, com o mesmo verbo.
Num templo, portanto, a palavra tinha um eco que na estrada não tem. O serviço que acontece ali, nesta frase, não é prestado a Deus no altar; é prestado a cegos e mancos no pátio. O eco é real na língua; se Mateus o quis, não é possível provar.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva às seguintes conclusões.
A cena só tem sentido pleno no lugar onde acontece. Cegos e mancos não estavam proibidos de entrar no templo de Jerusalém, mas estavam dispensados de subir, eram tratados por alguns como ameaça à pureza e, na prática, ficavam nas portas. Curá-los no pátio é tocar no ponto exato em que a condição deles definia a distância do sagrado.
Mateus constrói uma substituição. Saem os que vendiam, entram os que mendigavam, e a citação de Isaías sobre a casa aberta aos de fora, feita no versículo anterior, ganha corpo na cena seguinte. Essa ordem é obra de Mateus: os outros evangelhos não a têm.
A gramática dá aos cegos e mancos a iniciativa. Eles se aproximaram; ninguém os trouxe, pelo que o texto diz. Num evangelho que os mostra muitas vezes carregados, esse detalhe os põe no lugar de sujeito.
E o versículo tem um limite que não se pode apagar. Ele fala de cura, não de acolhimento da deficiência como tal. Lê-lo como abolição das fronteiras de pureza vai além do texto; lê-lo como milagre qualquer, sem o templo, fica aquém. O que se pode afirmar é que o Filho de Davi, aclamado antes e depois desta linha, recebeu na casa os que o dito de Davi deixava de fora — e que o modo de recebê-los foi devolvê-los inteiros.













