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Mateus 20:31

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✍️ Por Alberto Adriano·29 de setembro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 29 acessos
A multidão os repreendia para que ficassem calados, mas eles gritavam ainda mais: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!”
Dois homens cegos sentados na margem de uma estrada de terra, com a boca aberta em grito, enquanto pessoas de uma multidão em marcha se voltam para eles fazendo gesto de silêncio.

Estudo


A multidão os repreendia para que ficassem calados, mas eles gritavam ainda mais: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!”

1. Introdução

A multidão que estava indo atrás de Jesus dá uma ordem, e a ordem é de silêncio.

Mateus escolhe para isso um verbo pesado — o mesmo que ele usa quando Pedro tenta impedir Jesus de falar da própria morte, e o mesmo que os discípulos aplicam a quem trazia crianças. Não é pedido de calma: é repreensão com autoridade.

O resultado é o contrário do pretendido. Os dois gritam mais, e repetem a frase inteira, palavra por palavra. E o título que a multidão manda calar aqui é o que ela mesma vai cantar na entrada em Jerusalém.

2. Contexto Histórico e Cultural

Gritar era o procedimento, não a falta de educação

Para quem tinha meios, chegar a um homem importante no mundo romano era coisa organizada: você conseguia um intermediário, alguém que devia favor a você e favor a ele, e era apresentado. Para quem não tinha meios, e sobretudo para quem não sabia escrever, havia um único procedimento reconhecido — a voz.

Isso não é reconstrução vaga. O grito coletivo dirigido a uma autoridade era instrumento normal na parte oriental do império: multidões aclamavam governadores em voz alta, e em voz alta lhes apresentavam queixas, no teatro, no estádio, na rua por onde passava o cortejo. Flávio Josefo, o historiador judeu do primeiro século, descreve uma dessas cenas em Jerusalém: ofendida por um soldado romano durante a festa, a multidão “clamou a Cumano” — o governador da Judeia — para que punisse o homem. O clamor era o canal. Quem sabia escrever entregava uma petição por escrito; quem não sabia, gritava.

Segue-se disto uma consequência para a leitura da cena. Os dois homens da beira da estrada não estão quebrando nenhuma etiqueta por desespero: estão usando o único recurso que a posição deles oferecia. E esse recurso tem uma fragilidade evidente — depende de ser ouvido. É exatamente essa fragilidade que a multidão explora.

A estrada de Jericó na semana da Páscoa era estrada vigiada

Aqui entra o fundo político que o versículo pressupõe e não enuncia, e ele é documentado.

Josefo registra que, nas festas, uma coorte romana ficava postada sobre os pórticos do Templo, armada, com a função explícita de impedir qualquer novidade que a multidão reunida quisesse promover. A palavra é dele: a guarda existia por causa do ajuntamento. E o mesmo autor conta o que acontecia quando o mecanismo falhava — numa Páscoa do tempo de Cumano, um gesto obsceno de um soldado desencadeou tumulto e pânico, e muita gente morreu pisoteada na saída. Os números que Josefo dá para essa mortandade variam entre as suas duas obras e não são confiáveis; o tipo de acontecimento, sim.

Ora, “Filho de Davi” não é um elogio religioso vago. É o nome de um pretendente ao trono da casa real de Israel. Gritá-lo a plenos pulmões, numa estrada cheia de peregrinos, a menos de um dia de Jerusalém, na semana em que a cidade estava sob reforço militar, era dizer em público uma coisa que Roma e a casa de Herodes tinham motivo para ouvir com atenção.

Isso torna inteligível a reação da multidão sem absolvê-la, e é uma das leituras que o Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) já listava. Convém o cuidado de sempre: o texto não atribui motivo nenhum à multidão. O fundo explica o que podia estar em jogo, e nada mais.

O séquito fazia parte da reputação de quem era seguido

Um último elemento, menos visível e importante. Na cultura de honra do Mediterrâneo antigo, quem andava com um mestre era parte da imagem pública dele. O tamanho do grupo, a compostura do grupo, quem tinha direito de falar e quando — tudo isso contava a favor ou contra o homem que o grupo acompanhava.

Numa lógica assim, dois mendigos gritando da margem não são incidente lateral: são um borrão no quadro. A multidão que manda calar está, entre outras coisas possíveis, defendendo o próprio decoro e o daquele a quem segue.

3. Análise Teológica do Versículo

“A multidão os repreendia”

Quem manda calar é quem está indo atrás de Jesus. O grego não permite outra leitura: a palavra vem com artigo definido, e o artigo retoma a multidão que o versículo 29 acabou de apresentar seguindo-o pela estrada. Não é um grupo hostil que apareceu do nada, não são adversários, não são os sacerdotes. São os que estão no caminho com ele.

E o verbo que Mateus escolhe não é brando. É o mesmo com que Jesus manda o vento e o mar se calarem, o mesmo com que expulsa espíritos, e o mesmo que Pedro usa contra Jesus em Mateus 16:22 — verbo de quem tem posição para mandar parar, analisado no estudo daquele versículo. Aqui o sujeito é uma massa anônima, e ela se arroga essa posição diante de dois mendigos.

Por que a multidão fez isso? O texto não diz

Mateus registra o ato e cala o motivo. É o comentário clássico que preenche o vazio, e vale conhecer as quatro respostas que ele oferece — cada uma é leitura, nenhuma é informação do texto.

Primeira resposta: incômodo e decoro. O grito atrapalhava; a cena tinha uma solenidade que aquela algazarra quebrava. É a linha de Ellicott.

Segunda resposta: proteção do mestre. A multidão achava que Jesus estava ocupado e que aqueles dois o estavam importunando. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) atribui essa leitura a Eutímio Zigabeno, comentarista bizantino do século XII, que escreveu que a multidão os repreendeu por estarem perturbando Jesus.

Terceira resposta: o título. O que incomodou não foi o volume, foi o conteúdo — a multidão não admitia que Jesus fosse chamado em voz alta pelo nome de herdeiro do trono. É a leitura que o Pulpit Commentary registra, e é a única das quatro que tem fundo histórico verificável a seu favor, porque o risco político de proclamar um pretendente naquela semana era real.

Quarta resposta: a condição de quem gritava. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) desdobra em duas: se aquela gente era amiga de Jesus, repreendeu os dois por serem gente sem importância, indigna de tomar o tempo dele; se era adversária, objetou ao título.

Não é possível decidir, e o silêncio do texto sobre o motivo não é descuido. Ele deixa o ato de pé sem desculpa e sem acusação — o leitor vê o que a multidão fez, e não recebe autorização para saber por quê.

“para que ficassem calados”

A frase diz o objetivo, e o objetivo não é ordem, disciplina ou fila. É silêncio. A repreensão tem um único alvo: que aquelas duas bocas se fechem.

E há algo notável na história do verbo do silêncio que Mateus usa aqui. Ele é raro no Novo Testamento — dez ocorrências — e três delas merecem ser postas lado a lado.

É o verbo que Jesus dirige ao mar, em Marcos 4:39: “cala-te”. É o verbo que Marcos 10:48 usa nesta mesma cena, para a ordem dada a Bartimeu. E é o verbo de Lucas 19:40, na entrada em Jerusalém, quando fariseus pedem a Jesus que repreenda os discípulos que aclamam, e ele responde que, se aqueles se calarem, as pedras clamarão.

Em Lucas 19:39-40 estão as três palavras deste versículo na mesma ordem — repreender, calar, clamar —, na entrada da cidade para onde esta estrada sobe, com a diferença de que ali quem quer o silêncio são fariseus. A coincidência de vocabulário é verificável; que haja ligação literária entre as duas cenas é hipótese.

“mas eles gritavam ainda mais”

A conjunção vira a frase. O que Mateus registra é que a repreensão produziu o oposto do que pedia.

O advérbio que ele usa é um comparativo — “mais” — e o grego não especifica em que sentido: mais alto, ou mais vezes. As duas coisas não são iguais, e as traduções escolhem sem avisar. O Expositor's Greek Testament (“Novo Testamento Grego do Expositor”, comentário inglês do início do século XX) nota que essa forma adverbial não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento, e resume o efeito numa frase que é comentário, e não texto: a repressão sempre se derrota a si mesma.

Marcar o que Mateus não escreve é importante aqui. Ele não elogia a persistência dos dois homens. Não diz que tiveram fé, não diz que fizeram bem, não diz que a multidão errou. Escreve o que a multidão fez, escreve o que eles fizeram, e passa ao versículo seguinte.

“Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!”

A frase é repetida inteira, sem uma palavra de diferença. Mateus podia ter escrito “e repetiram o pedido”. Escreveu a frase de novo — e, na segunda vez, ela é dita mais alto.

Isso deixa uma coisa clara: a ordem de silêncio não conseguiu nem alterar a formulação. Os dois não amaciaram o título para escapar da repreensão, não trocaram “Filho de Davi” por algo mais discreto, não negociaram. Repetiram.

E aqui está o dado que fecha o episódio, e que Mateus não comenta. Poucos dias depois, na entrada em Jerusalém, a multidão que vai à frente e a que vai atrás gritam “Hosana ao Filho de Davi” (Mateus 21:9), e no templo as crianças repetem a mesma coisa, ao ponto de os chefes dos sacerdotes se indignarem (Mateus 21:15). O título que a multidão mandou calar na estrada de Jericó é o título que a multidão canta na chegada.

Mateus põe as duas cenas a um capítulo de distância e não estabelece a ligação em nenhuma linha. Que ele tenha construído o contraste de propósito é leitura possível e não demonstrável. Que as duas cenas estejam ali, com o mesmo título e com a multidão em posições opostas, é fato do texto.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A multidão

É o sujeito do versículo e o personagem que o capítulo vinha montando. Ela entra em Mateus 20:29 seguindo, age aqui mandando calar, e depois disso desaparece do capítulo. Nenhum dos seus integrantes é nomeado, ninguém fala em primeira pessoa, e a ordem que ela dá não tem autor. Um verbo no singular com sujeito coletivo: é assim que Mateus escreve o ato, e é assim que o ato fica sem dono.

Os dois cegos

Aparecem aqui na posição de quem resiste, e é a única coisa que fazem em todo o episódio antes de serem chamados: repetir. Não respondem à multidão, não discutem, não pedem licença. Dirigem-se a uma pessoa só, e mais alto.

A estrada

O lugar do episódio, e um lugar público em sentido forte. Tudo o que se diz ali é dito diante de todos — o grito, a repreensão e a repetição do grito. Não há nada reservado nesta cena.

O acontecimento

Uma tentativa pública de silenciamento, e o seu fracasso. É o único episódio de Mateus 20 em que quem age contra alguém não é discípulo nem autoridade religiosa, e sim gente comum em movimento.

5. Pontos de Ensino

Quem está no mesmo caminho pode ser o obstáculo

Não são adversários declarados que tentam calar os dois homens. São os companheiros de estrada. É a lição mais incômoda do versículo, e ela não depende de nenhuma extensão: está na gramática, no artigo que liga esta multidão à do versículo 29.

O silêncio pedido em nome da ordem

A repreensão tem um objetivo declarado, e é só esse: que eles se calem. Nada de resolver o problema dos dois homens, nada de encaminhar o pedido, nada de explicar. Quando a única providência tomada diante de uma queixa é fazê-la parar de ser ouvida, o que está em jogo é o incômodo de quem ouve, não a causa de quem fala.

Insistir não é impertinência quando não há outro canal

Eles repetem porque não têm mais nada. Vale distinguir isso da teimosia: a persistência aqui é medida pela ausência de alternativa, e é assim que se deve avaliar a insistência de qualquer pessoa que não tenha acesso ao balcão, ao intermediário ou à fila.

Mateus não absolve e não condena

O evangelho registra o ato da multidão sem adjetivo. Quem lê espera uma frase de reprovação e ela não vem. O texto confia no leitor — e essa confiança é um dado sobre como este evangelho trabalha, não um descuido.

6. Aspectos Filosóficos

O que muda quando quem age é uma multidão?

O versículo tem um problema filosófico inteiro dentro dele, e ele começa na sintaxe: o sujeito da ordem é um coletivo. Ninguém, individualmente, mandou aqueles dois homens se calarem. Uma multidão mandou. Como se atribui um ato a um conjunto de pessoas, e o que acontece com a responsabilidade quando o autor não tem nome?

Le Bon, e por que ele não serve como autoridade

O livro que fixou o modo moderno de falar disso é a Psicologia das multidões, que Gustave Le Bon (1841-1931), médico e divulgador francês, publicou em 1895. A tese: reunido em multidão, o indivíduo perde o sentido da responsabilidade, fica sugestionável, contagia-se e passa a agir num nível mental inferior ao seu próprio. Le Bon chamava isso de alma coletiva. O livro fez enorme sucesso e influenciou gerações — inclusive, notoriamente, gente interessada em manipular multidões.

E é preciso dizer, na mesma frase em que se cita o livro, que ele está desacreditado. Le Bon escrevia como polemista assustado com a democracia de massas, e a sua alma coletiva nunca foi medida: era postulado, não achado. Pior, ele descrevia a violência das multidões como se ela brotasse de dentro delas, sem olhar para quem mais estava na rua — a polícia, a tropa, a situação concreta do confronto. A pesquisa empírica das últimas décadas, feita sobretudo por Steve Reicher, John Drury e colaboradores a partir dos anos 1980, chegou ao contrário: numa multidão as pessoas não perdem identidade, adotam a identidade e as normas do grupo que formam ali; e multidões se revelam capazes de autorregulação, de solidariedade e de socorro mútuo com uma frequência que o modelo de Le Bon não previa.

O que sobra, e serve

Sobra pouco de Le Bon, e o pouco é justamente o que este versículo mostra: a diluição da responsabilidade. Mateus escreve um verbo no singular com sujeito coletivo, e o resultado é um ato sem autor. Nenhuma pessoa daquela estrada teria dito, a sós, para dois mendigos cegos: cale a boca. Dito por todos, ninguém o disse.

Mas a explicação que melhor descreve a cena é a do modelo novo, não a do antigo. Aquela multidão não estava fora de si. Estava aplicando uma norma — não aqui, não agora, não esse título —, e aplicar norma compartilhada é o oposto de perder a cabeça. É o que torna a cena tão desconfortável: a multidão de Jericó não está num acesso de loucura coletiva. Está se comportando bem, pelos critérios que ela própria carrega.

E um limite, para não emprestar ao texto o que ele não dá. Mateus não descreve mecanismo nenhum. Ele não diz como a ordem se formou, se alguém começou, se houve concordância. Tudo o que se disser sobre o processo é reconstrução — o que está escrito é o resultado.

7. Aplicações Práticas

Perguntar em nome de quem se pede silêncio

A repreensão desta cena é apresentada como zelo: pelo mestre, pela solenidade, pela ordem da estrada. Vale treinar a pergunta em cima disso — quando alguém pede silêncio, a quem o silêncio serve. Às vezes serve a quem foi interrompido; com frequência serve ao conforto de quem estava ouvindo. O versículo não resolve isso na cena dele, e a distinção continua útil em reunião, em família e em qualquer sala com hierarquia.

Repetir quando o canal foi cortado

Os dois homens não mudaram uma palavra do que diziam. Reagir a uma tentativa de silenciamento suavizando o pedido é, na prática, aceitar a ordem pela metade. Há situações — em atendimento público, em hospital, em qualquer balcão — em que a única saída de quem não tem intermediário é repetir a mesma frase, exatamente, até ser ouvido.

Reparar em si mesmo dentro do grupo em movimento

Ninguém naquela multidão era inimigo de ninguém. É aí que está a aplicação desconfortável: o ato que este versículo registra é o tipo de ato que se pratica sem decidir praticá-lo, junto com os outros, e sem que sobre depois nenhum autor a quem atribuí-lo. Reconhecer-se nessa posição é mais difícil do que reconhecer-se na posição de adversário declarado, e é o que a cena oferece.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus repreendeu a multidão?

Não, e o silêncio é notável. Mateus podia ter escrito isso com três palavras, e não escreveu. Marcos e Lucas também não escrevem. Nos três evangelhos a tentativa de silenciar é registrada, e em nenhum dos três há uma frase de reprovação dirigida a quem a fez.

O que os três registram é o gesto seguinte: ele para. Em Marcos, manda chamar o homem, e são as pessoas da multidão que vão buscá-lo — o mesmo grupo que mandava calar passa a servir de mensageiro. A correção, se há correção, é feita por ato e não por palavra.

Insistir na oração é forçar a mão de Deus?

A cena é muito citada em favor da oração insistente, e o detalhe que quase sempre se perde desfaz o argumento: a insistência destes dois homens não é dirigida a Jesus, é dirigida contra a multidão. Não há nenhum sinal de que ele estivesse resistindo ao pedido — o obstáculo entre eles e ele é gente, não demora divina.

Segue-se que este versículo não é base para a ideia de que o pedido precisa ser repetido até vencer a relutância de Deus. Ele é base para outra coisa, mais concreta: às vezes o que se interpõe entre a pessoa e a ajuda são as pessoas do caminho.

Por que o evangelho repete a frase inteira, em vez de escrever “e repetiram”?

Não se sabe, e o efeito é mensurável. Escrever a frase de novo obriga o leitor a ouvi-la de novo, e mostra que nada nela foi alterado sob pressão — nem o título, nem o tratamento, nem a palavra do pedido. Se o texto dissesse apenas “repetiram”, o leitor não saberia se repetiram a mesma coisa ou uma versão atenuada.

E há o efeito de ritmo: a mesma frase, com um obstáculo no meio, é novidade na primeira vez e resistência na segunda.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma ordem de silêncio nos outros evangelhos

Marcos 10:48 — “E muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele clamava cada vez mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”

Marcos escreve “muitos”, e não “a multidão”. O verbo de repreender e o verbo de calar são os mesmos de Mateus.

Lucas 18:39 — “E os que iam passando repreendiam-no para que se calasse; mas ele clamava ainda mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”

Em Lucas quem repreende são “os que iam à frente”, e o verbo do silêncio é outro — Lucas usa a palavra de “ficar quieto”, não a de “calar-se” que Mateus e Marcos empregam.

A cena que repete as três palavras deste versículo

Lucas 19:39-40 — “E alguns dos fariseus que estavam entre a multidão lhe disseram: Mestre, repreende os teus discípulos. E, respondendo ele, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão.”

Repreender, calar e clamar, na mesma ordem, na entrada em Jerusalém — o destino da estrada que este versículo percorre.

O título, dois capítulos depois

Mateus 21:9 — “As multidões que iam à frente e as que o seguiam gritavam: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do SENHOR! Hosana nas alturas!”

A multidão gritando o título que mandou calar na estrada.

Mateus 21:15 — “Mas, quando os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei viram as maravilhas que ele fez e as crianças gritando no templo: Hosana ao Filho de Davi!, ficaram indignados”

A tentativa de silenciamento recomeça, agora feita pelas autoridades e contra crianças.

Os outros que tentam filtrar o acesso, no próprio Mateus

Mateus 15:23 — “Mas Jesus não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, aproximando-se, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, porque vem gritando atrás de nós.”

O paralelo mais próximo desta cena: mesma insistência, mesma tentativa de afastar quem pede. A diferença é quem intervém — ali são os discípulos, e está tratado no estudo daquele versículo.

Mateus 19:13 — “Então lhe trouxeram alguns meninos, para que sobre eles pusesse as mãos e orasse; mas os discípulos os repreendiam.”

O mesmo verbo de repreensão, um capítulo antes, com os discípulos por sujeito.

O mesmo verbo de calar, dito ao mar

Marcos 4:39 — “E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança.”

Os dois verbos deste versículo — repreender e calar — aplicados juntos à tempestade.

O clamor do aflito, no saltério

Salmo 22:24 — “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu.”

A afirmação de que o grito do desamparado é ouvido, no salmo que a paixão vai citar.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

A multidão os repreendia para que ficassem calados, mas eles gritavam ainda mais: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!”

Texto grego (Textus Receptus)

ὁ δὲ ὄχλος ἐπετίμησεν αὐτοῖς ἵνα σιωπήσωσιν· οἱ δὲ μεῖζον ἔκραζον, λέγοντες, Ἐλέησον ἡμᾶς, Κύριε, υἱὸς Δαβίδ.

Transliteração

ho de ochlos epetimēsen autois hina siōpēsōsin; hoi de meizon ekrazon, legontes, Eleēson hēmas, Kyrie, huios Dabid.

Análise palavra por palavra

ὁ δὲ ὄχλος — ho de ochlos, “e a multidão”. Nominativo singular com artigo definido.

O artigo é a peça mais importante do versículo e a que nenhuma tradução consegue mostrar. Em português, “a multidão” soa genérico; em grego, o artigo nessa posição é de retomada — ele aponta para o substantivo que já apareceu, e o substantivo apareceu no versículo 29, sem artigo, porque ali era novo. Uma multidão seguiu; a multidão repreendeu. É a mesma.

Só Mateus fecha esse circuito gramatical entre quem segue e quem manda calar; Marcos e Lucas usam outros sujeitos.

A partícula de é adversativa branda — “e”, “mas”, “por sua vez”. Ela aparece duas vezes no versículo, marcando as duas viradas: a multidão, por sua vez, repreendeu; eles, por sua vez, gritaram mais.

ἐπετίμησεν — epetimēsen, “repreendeu”. Aoristo do indicativo ativo de epitimaō. A palavra, a sua etimologia e a sua distribuição nos evangelhos estão analisadas no estudo de Mateus 16:22.

Duas notas próprias deste versículo. A primeira é o número: o verbo está no singular, concordando com o coletivo, e por isso o ato não tem autor individual — o grego constrói uma ação de todos que não é de ninguém. A segunda é o tempo: o aoristo apresenta a repreensão como um fato pontual e acabado, e não como algo que se prolongou. A tradução da ABC usa o imperfeito (“repreendia”), que alonga a cena; é escolha legítima de estilo, e o grego é mais seco.

ἵνα σιωπήσωσιν — hina siōpēsōsin, “para que se calassem”. Conjunção de finalidade com aoristo do subjuntivo ativo, construção padrão do grego para expressar o propósito de uma ação.

Siōpaō é o verbo de fechar a boca, de guardar silêncio deliberadamente, e o grego também o aplicava ao mar calmo. Ocorre dez vezes no Novo Testamento: aqui e em Mateus 26:63, cinco vezes em Marcos (3:4, 4:39, 9:34, 10:48 e 14:61), duas em Lucas (1:20 e 19:40) e uma em Atos 18:9. A distribuição diz bastante — é o verbo do silêncio de Jesus diante do sumo sacerdote, é o verbo da ordem dada ao mar, e é o verbo que Lucas 19:40 usa na frase sobre as pedras que clamariam. No Textus Receptus, a forma de Lucas 19:40 é siōpēsōsin, exatamente a mesma que está aqui.

Lucas 18:39, no relato paralelo, troca a palavra: usa sigaō, o verbo de ficar quieto. Não é a mesma escolha de vocabulário, e a diferença é do evangelista, não de copista.

οἱ δέ — hoi de, “eles, porém”. O artigo no plural, sozinho, funcionando como pronome — recurso clássico do grego para trocar de sujeito sem repetir o substantivo. O português precisa do pronome; o grego só precisa do artigo.

μεῖζον — meizon, “mais”. Forma neutra do comparativo de megas (“grande”), usada como advérbio. O Expositor's Greek Testament observa que esse uso adverbial não reaparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento.

E o grego não diz em que a segunda vez foi “maior”. Cabe “mais alto”, cabe “mais intensamente”, cabe “mais vezes”. As traduções escolhem uma das três sem sinalizar a escolha, e a ABC ficou com “ainda mais”, que conserva a indeterminação do original.

ἔκραζον — ekrazon, “gritavam”. Imperfeito do indicativo ativo de krazō.

Aqui está a variante que vale conhecer, e ela é uma das poucas do capítulo em que o Textus Receptus e o texto crítico contam coisas diferentes.

O Textus Receptus e o texto bizantino trazem o imperfeito, que em grego apresenta a ação como processo em curso, sem fim marcado: iam gritando, continuavam gritando. As edições críticas modernas trazem o aoristo, ekraxan — a mesma forma que aparece no versículo 30 nas duas tradições.

O efeito da diferença é pequeno e é real. Na leitura do Textus Receptus, o versículo 30 tem um grito dado, um ato pontual, e o versículo 31 tem um grito que passa a durar: a repreensão transformou um ato em estado. Na leitura crítica, os dois versículos têm a mesma forma verbal, e o que distingue a segunda vez é apenas o advérbio. A ABC segue o Textus Receptus, e a tradução (“gritavam”) conserva o imperfeito.

Nenhuma decisão doutrinária depende disso: é questão de crítica textual, e nada obriga a preferir um desenho ao outro.

Ἐλέησον ἡμᾶς, Κύριε, υἱὸς Δαβίδ — eleēson hēmas, Kyrie, huios Dabid, “tem misericórdia de nós, Senhor, Filho de Davi”. A frase é idêntica, palavra por palavra, à do versículo 30 no Textus Receptus. A repetição literal é do texto, não da tradução: nenhum dos termos foi trocado, atenuado ou abreviado na segunda vez.

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo, e a primeira é a que dá nome ao episódio.

O filtro não veio de fora. Quem tentou impedir o acesso de dois mendigos a Jesus foi o grupo que estava indo atrás dele — e isso não é suspeita moral posta sobre o texto, é o artigo definido do grego ligando este versículo ao 29. Conclui-se daí algo que vale para todo o evangelho: em Mateus, os obstáculos entre quem precisa e quem socorre são postos, com regularidade, por quem está do lado certo da estrada. Os discípulos pediram que a mulher estrangeira fosse despachada; repreenderam quem trazia crianças; e aqui é a multidão que segue quem manda calar.

A segunda conclusão é sobre o que aconteceu com a ordem. Ela falhou, e falhou sem que ninguém a enfrentasse: os dois homens não discutiram, não pediram autorização, não amaciaram a formulação. Repetiram a mesma frase mais alto. Segue-se que a única coisa que a multidão conseguiu foi documentar a própria impotência — e que Mateus, ao escrever a frase inteira duas vezes em vez de dizer “repetiram”, deixou isso registrado na forma do texto e não em comentário.

A terceira é sobre o lugar deste episódio no capítulo. Mateus 20 vinha discutindo precedência: quem é o primeiro, quem se senta onde, quem manda em quem. Nesse capítulo, um pedido chegou com endereço completo — os dois assentos, à direita e à esquerda, em Mateus 20:21. Este versículo põe, no fim da mesma sequência, dois homens que não pedem lugar nenhum e que, por isso mesmo, são os únicos a quem alguém tenta calar. Conclui-se que o capítulo não fecha com uma tese sobre humildade: fecha com uma cena em que o pedido mais modesto é o que encontra resistência organizada.

E fica aberto o essencial, que é o motivo. Se a multidão agiu por zelo, por decoro, por desprezo ou por medo do que aquele título significava numa estrada vigiada, o texto não informa — e as quatro respostas que os comentaristas oferecem continuam sendo quatro.

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