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Mateus 15:39

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✍️ Por Alberto Adriano·1 de setembro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 41 acessos
Depois de despedir as multidões, Jesus entrou no barco e foi para os limites de Magdala.
Barco de pesca de madeira afastando-se da margem de um lago ao entardecer, com a multidão dispersando-se na praia ao fundo e colinas escurecendo no horizonte.

Estudo


Depois de despedir as multidões, Jesus entrou no barco e foi para os limites de Magdala.

1. Introdução

O último versículo do capítulo termina com um nome de lugar que os manuscritos não conseguem soletrar do mesmo jeito e que a geografia não consegue localizar.

São quatro nomes para um destino: Magadã nas edições críticas modernas, Magdala na tradição majoritária de onde vem a versão adotada neste site, Magedã em alguns testemunhos latinos, e Dalmanuta em Marcos 8:10 — palavra que não aparece em nenhum outro texto grego conhecido. É o tipo de dado que costuma ser silenciado nos comentários devocionais, e ele ensina mais sobre como o texto chegou até nós do que uma página de teoria.

Há um segundo motivo para não passar rápido por esse nome. Se o destino da travessia fica na margem ocidental — a margem judaica —, então a refeição dos quatro mil aconteceu do outro lado, em território majoritariamente pagão: é a perna geográfica da leitura que vê no episódio uma multidão não judaica. Ou seja, o apoio mais concreto de uma das leituras mais discutidas do capítulo repousa sobre o dado menos seguro que ele contém.

E há um terceiro achado, de estrutura. A palavra usada aqui para dispensar o povo é a mesma que aparece no versículo 32, numa recusa: não era isso que Jesus queria fazer com gente em jejum. Sete versículos separam a recusa do gesto.

Por fim, este é o versículo que encerra o capítulo — e o capítulo começou com uma discussão sobre mãos lavadas.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde estamos

O episódio da alimentação terminou no versículo anterior, com a contagem. Este versículo faz três coisas em sequência: despede a multidão, embarca e chega. Depois dele, o capítulo 16 abre com fariseus e saduceus exigindo um sinal do céu.

É também o fecho de uma unidade maior. O capítulo 15 se divide em dois blocos — a controvérsia sobre a tradição dos anciãos, nos versículos 1 a 20, e a sequência que vai de Tiro e Sidom até aqui —, e este versículo encerra os dois.

O lago e as suas margens

Para entender o que uma travessia significa aqui, é preciso ter o mapa na cabeça.

O mar da Galileia é um lago de água doce com pouco mais de vinte quilômetros de comprimento por treze de largura, abaixo do nível do mar. A sua margem ocidental, no primeiro século, era densamente povoada e majoritariamente judaica: Cafarnaum, Betsaida, Corazim, Magdala, e mais ao sul Tiberíades, fundada por Herodes Antipas por volta do ano 20. A margem oriental e sudeste pertencia à Decápole, a confederação de cidades de cultura grega, de população mista com predominância não judaica.

Atravessar o lago de barco era o modo rápido de ir de um mundo cultural ao outro — algumas horas de navegação contra um ou dois dias contornando a pé. Os evangelhos registram várias dessas travessias, e elas costumam marcar mudança de cenário narrativo. É por isso que o destino deste versículo tem peso: se ele está na margem ocidental, a travessia é um retorno ao território judaico, e implica que a cena anterior se deu do outro lado.

Magdala, a cidade que existe

Magdala ficava na margem ocidental, cerca de cinco quilômetros ao norte de Tiberíades, onde hoje está o sítio de Migdal. O nome vem do semítico migdal ("torre", em hebraico), palavra que aparece em dezenas de topônimos do Levante justamente porque torres eram comuns. Os gregos a chamavam de Tariqueias, palavra formada sobre o verbo de salgar: era um centro de processamento de pescado, e Josefo (historiador judeu do primeiro século) a menciona com frequência, atribuindo-lhe frota e população considerável.

É de lá que vem o epíteto de Maria Madalena, isto é, Maria "a de Magdala" (Mateus 27:56; Lucas 8:2). O lugar é real, é escavado e é datado — e nada disso resolve o problema deste versículo, porque o nome que as edições críticas leem não é Magdala.

Como o texto do Novo Testamento chegou até nós

Um pano de fundo necessário, e ele é menos dramático do que costuma parecer.

Não existe o original de nenhum livro do Novo Testamento. O que existe são cópias — milhares delas, em grego, além de traduções antigas e citações dos autores cristãos primitivos; as mais antigas cópias substanciais dos evangelhos são do quarto século, e fragmentos são mais antigos.

Copistas erram e corrigem. Trocam letras parecidas, saltam linhas, harmonizam um evangelho com outro, substituem palavras raras por familiares, incorporam anotações de margem. A disciplina que estuda essas variações é a crítica textual, e ela não é atividade de suspeita: é o trabalho de reconstruir, a partir de muitas cópias, a forma mais provável do texto. Este versículo é um caso escolar dela.

3. Análise Teológica do Versículo

"Depois de despedir as multidões"

O verbo é mais largo do que "despedir" sugere. O seu sentido básico é soltar o que estava preso, e daí os usos: libertar um prisioneiro — é o verbo repetido seis vezes na cena de Barrabás —, perdoar uma dívida e liberar o devedor, repudiar a esposa, e dispensar um ajuntamento, que é o uso presente. O que amarra tudo é a ideia de desligar um vínculo: quem é despedido é solto da situação em que estava.

E aqui está a observação estrutural mais firme do versículo. Sete versículos antes, Jesus disse aos discípulos: "não quero mandá-los embora em jejum". O verbo daquela recusa é exatamente este.

A cena inteira está, portanto, emoldurada pela mesma palavra. Ela abre com a recusa de despedir gente com fome e fecha com a despedida efetiva, depois da comida. Não é impressão de leitor: é o mesmo verbo nas duas pontas, e o intervalo entre elas é o episódio todo.

Vale observar que a moldura se repete na outra alimentação. Em Mateus 14:15, os discípulos pedem: "despede a multidão". Em Mateus 14:22, depois da refeição, Jesus faz isso. Nos dois episódios o verbo aparece antes e depois, e nos dois a despedida só acontece com o povo alimentado.

"entrou no barco"

Não é "um barco": é "o barco". Mateus usa a construção com artigo definido ao longo do evangelho — em Mateus 8:23, 9:1, 13:2, 14:13, 14:22 e aqui — e nunca identifica o dono.

A hipótese corrente é a de que se trate de uma embarcação determinada e disponível ao grupo, provavelmente de algum dos pescadores entre os discípulos. Lucas 5:3 registra Jesus ensinando de dentro do barco de Simão, o que dá alguma base à ideia. É leitura plausível, e é preciso dizer que o grego não a exige: um artigo genérico produziria o mesmo texto.

O dado sólido é outro e mais simples: houve travessia de água. Quem embarca vai para outra margem, e isso tem consequência geográfica que o resto do versículo levanta.

"e foi para os limites"

A palavra significa fronteiras e, por extensão, o território que elas delimitam — um dos modos habituais de Mateus para nomear uma região (Mateus 2:16; 8:34; 19:1). E, o que interessa mais, é a mesma que abre este bloco em Mateus 15:22, quando a mulher cananeia sai "daqueles limites": as duas ocorrências do capítulo enquadram exatamente o trecho que vai de Tiro e Sidom até o fim.

Num capítulo cuja discussão inicial é sobre fronteiras — o que separa o puro do impuro, quem come com quem, o que entra e o que sai —, a ressonância é evidente. E o freio vem na mesma frase: é o termo corrente para designar um distrito, Mateus o usa em contextos neutros, e não há como demonstrar intenção. A ressonância está disponível ao leitor; a intenção do autor não é acessível.

Repare também no que o texto não faz: não nomeia uma cidade. Diz "os limites de", que é fórmula de região, não de localidade.

"de Magdala"

Aqui está o problema do versículo. O quadro completo dos manuscritos, com as quatro formas concorrentes e a razão pela qual as edições críticas preferem a mais estranha, está no item 10 — inclusive a explicação de por que o texto em português deste site diz "Magdala" e o painel grego traz "Magadã". O que importa neste item é a consequência para a leitura do episódio, e ela é maior do que parece.

A leitura de que a multidão dos quatro mil era predominantemente não judaica se apoia em três pernas. A primeira é a expressão do versículo 31, "glorificaram o Deus de Israel", que soaria natural na boca de quem não pertence a Israel. A segunda é o paralelo de Marcos 7:31, que descreve o trajeto passando pela Decápole. A terceira é geográfica: se o destino desta travessia fica na margem ocidental judaica, a cena anterior se passou na margem oriental.

Essa terceira perna é a única que se pode apontar num mapa — e é justamente a que se apoia num topônimo não identificado. O argumento mais concreto da leitura repousa sobre o elemento menos seguro do capítulo.

Isso não a derruba: as outras duas pernas continuam de pé, e a leitura permanece plausível. Mas quem a apresenta como estabelecida está usando um mapa em que um dos pontos é uma interrogação.

O fecho do capítulo

Resta olhar o conjunto, e é preciso fazê-lo com a régua bem visível, porque aqui a tentação de fechar bonito é grande.

O capítulo abriu com fariseus e escribas vindos de Jerusalém perguntando por que os discípulos comiam sem cumprir a lavagem cerimonial das mãos. A resposta de Jesus deslocou a questão: não é o que entra pela boca que contamina, e sim o que sai do coração. Em seguida, ele se retirou para as regiões de Tiro e Sidom e atendeu — depois de uma conversa dura — a uma mulher de fora do povo de Israel. Depois subiu ao monte junto ao mar, curou multidões, e a multidão glorificou o Deus de Israel. E o capítulo termina com todos comendo, sem que nenhuma condição prévia seja mencionada.

Lido assim, o capítulo inteiro é um arco sobre quem está dentro e quem está fora, e a resposta se desloca ao longo dele: começa numa disputa sobre a fronteira da mesa e termina numa mesa sem fronteira declarada. É leitura coerente, é antiga, e Mateus é autor que compõe os seus blocos com deliberação — o corte no versículo 21 é dele, e a justaposição das cenas é escolha, não acaso.

Agora os freios, e são quatro.

O primeiro: o arco depende da identificação da multidão como não judaica, e essa identificação não é consenso — a expressão "Deus de Israel" ocorre com frequência no Antigo Testamento em boca israelita (Salmos 41:13; 72:18; 106:48), reaparece em Lucas 1:68 num cântico judaico, e a Decápole tinha população judaica considerável.

O segundo: onze versículos antes do fim, no versículo 24, o próprio Jesus diz ter sido enviado apenas às ovelhas perdidas da casa de Israel, e o evangelista não retirou a frase. Um capítulo que fosse manifesto de abertura universal não a conservaria intacta.

O terceiro: Mateus não comenta nada disso, e não escreve "para que se cumprisse", que é a sua fórmula de sinalização, usada mais de dez vezes ao longo do evangelho. Onde ele quer que o leitor veja um sentido, ele o aponta; aqui não aponta.

O quarto: a refeição não tem, no texto, nenhuma menção a pureza, permissão ou dispensa. O silêncio é o que sustenta a leitura, e silêncio não afirma.

O balanço possível é este. O arco existe como composição: as cenas estão nessa ordem, e a ordem é do evangelista. Não existe como afirmação: nada no capítulo o enuncia. A distância entre as duas coisas é exatamente a distância entre ler bem e ler demais, e vale mantê-la visível.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

É o sujeito das três ações do versículo — despedir, embarcar, chegar —, embora o nome não apareça no grego: a tradução portuguesa acrescenta "Jesus" para clareza, e vale saber que é acréscimo. Não fala; a última fala dele no capítulo foi no versículo 32. O capítulo termina com ele em movimento e em silêncio.

As multidões

Aparecem no plural e são despedidas. É a última menção a elas no capítulo, e o verbo que as dispensa é o mesmo que Jesus recusou usar no versículo 32.

Os discípulos

Não são mencionados, e estão presentes: o capítulo 16 os traz atravessando com Jesus e esquecendo-se de levar pão (Mateus 16:5). O barco é do grupo, não de um homem só.

O barco

Aparece com artigo definido, construção que Mateus repete ao longo do evangelho sem jamais identificar o dono. A hipótese de que se trate de embarcação determinada e disponível ao grupo é plausível e não é exigida pelo grego. O que o barco estabelece com segurança é que houve travessia de água.

Magdala, ou Magadã

O destino, e o problema do versículo. As edições críticas leem Magadã, com apoio dos manuscritos mais antigos; a tradição majoritária posterior lê Magdala, e é dessa linha que vem a versão adotada neste site. Marcos, no paralelo, escreve Dalmanuta, palavra sem qualquer outra ocorrência conhecida em grego.

Magdala é lugar real e escavado, na margem ocidental do lago, chamada Tariqueias pelos gregos e mencionada por Josefo. Magadã não tem sítio associado, e a sua localização não é consenso.

O mar da Galileia

Não é nomeado neste versículo e está pressuposto pelo verbo de embarque. É um lago de água doce de pouco mais de vinte quilômetros de extensão, com margem ocidental predominantemente judaica e margem oriental de cultura grega. A travessia entre as duas levava horas; o contorno a pé levava dias.

O evento

Uma partida: dispensa da multidão, embarque e chegada a território não identificado com segurança. Narrativamente, é o fecho do capítulo e a preparação do seguinte, em que fariseus e saduceus vêm exigir um sinal do céu (Mateus 16:1).

5. Pontos de Ensino

1. O verbo da despedida fecha o que o versículo 32 abriu

No versículo 32, Jesus disse não querer mandar a multidão embora em jejum; aqui ele a manda embora, com o mesmo verbo. A recusa e o ato emolduram o episódio inteiro, e o mesmo padrão aparece na outra alimentação (Mateus 14:15 e 14:22).

2. "Despedir" é soltar, e o campo do verbo é largo

O mesmo verbo serve para libertar prisioneiro (Barrabás, em Mateus 27:15-26), perdoar dívida (Mateus 18:27) e repudiar esposa (Mateus 5:31-32; 19:3-9). O que une esses usos é o desligamento de um vínculo.

3. O texto grego das edições críticas não diz Magdala

Diz Magadã, com apoio dos manuscritos mais antigos. Magdala é a leitura da tradição majoritária posterior, que passou ao Texto Recebido e às versões portuguesas clássicas — inclusive à adotada neste site.

4. Marcos, no paralelo, escreve um terceiro nome

Dalmanuta (Marcos 8:10) não aparece em nenhum outro texto grego conhecido, e as próprias cópias de Marcos hesitam ali. Quatro nomes disputam um destino.

5. O lugar não é identificado com segurança

As escavações de Migdal, com sinagoga do primeiro século, identificam Magdala — não Magadã, que continua sem sítio associado. Três propostas circulam e nenhuma se impõe.

6. O argumento geográfico da multidão não judaica repousa no dado mais frágil

Se o destino está na margem ocidental judaica, a refeição ocorreu na oriental. É a única perna da leitura que se aponta num mapa, e é a que depende de um topônimo não localizado.

7. "Limites" enquadra o segundo bloco do capítulo

A mesma palavra grega aparece em Mateus 15:22, quando a cananeia sai daqueles limites, e aqui, na chegada. A ressonância com o tema das fronteiras é evidente, e a intenção do autor não é demonstrável.

8. O arco do capítulo existe como composição, não como afirmação

Ele começa com mãos lavadas e termina com todos comendo. As cenas estão nessa ordem por escolha do evangelista, que não comenta nada, não usa a sua fórmula habitual de sinalização e conserva intacta a frase do versículo 24 sobre as ovelhas perdidas de Israel. E o que vem depois não é celebração: o capítulo 16 abre com fariseus e saduceus exigindo um sinal do céu, logo depois de um sinal.

6. Aspectos Filosóficos

O problema

Duas questões de método atravessam este versículo, e as duas são filosóficas antes de serem bíblicas. Uma é como se escolhe, entre duas versões de um texto, a que provavelmente é a original. A outra é se a ordem em que um autor dispõe as suas cenas pode ser atribuída a ele como afirmação.

As duas são problemas de quem lê, e não do texto: nada do que se discute abaixo pode ser atribuído ao evangelista.

Peirce: a inferência que explica a existência da outra

O critério que decide a variante deste versículo tem estrutura lógica que ultrapassa em muito a crítica de manuscritos. Diante de duas versões de alguma coisa, uma estranha e outra natural, pergunta-se qual delas explica a existência da outra. Se a estranha explica o surgimento da natural — porque alguém teria motivo para suavizar, corrigir, tornar compreensível —, mas a natural não explica o surgimento da estranha, então a estranha é provavelmente a original.

Isso não é dedução nem indução. É o que o filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce, no fim do século XIX, chamou de abdução: a inferência que parte de um fato surpreendente e busca a hipótese que, se verdadeira, o tornaria natural. A dedução prova que algo deve ser; a indução mostra que algo é, de fato, assim; e só a abdução, dizia ele, introduz ideias novas — ao custo de nunca produzir certeza. Ela sugere; não demonstra.

O raciocínio funciona porque as deformações têm direção. Sistemas de transmissão — cópia, memória, boato, tradução, relato de testemunha — não erram ao acaso: erram na direção do familiar, do coerente e do esperado. É por isso que a versão áspera de uma história costuma ser mais antiga do que a versão redonda.

O limite do critério também precisa ser dito, porque ele é abusado. "Mais difícil" não significa "impossível" nem "absurdo": uma leitura que não faz sentido nenhum é provavelmente erro de cópia, e não original. O critério se aplica ao que é estranho e ainda assim funciona, e a aplicação exige julgamento — exatamente como Peirce dizia da abdução, que é o único dos três tipos de inferência que depende de escolher bem a hipótese.

A intenção do autor, e se ela é acessível

A segunda questão é a que este estudo enfrentou ao tratar do arco do capítulo, e ela tem um debate próprio. Em 1946, os críticos literários William Wimsatt e Monroe Beardsley publicaram um ensaio chamado A falácia intencional, sustentando que a intenção do autor não é nem acessível nem desejável como critério para julgar o sentido de uma obra. O que o autor quis dizer, argumentavam, está fora do texto e não é verificável; o que o texto diz está nele, e é sobre isso que se discute.

Contra essa posição, o teórico Eric Donald Hirsch publicou em 1967 Validade na interpretação, defendendo que sem intenção do autor não há como distinguir uma leitura correta de uma leitura inventada — e que o sentido de um texto é o que o autor quis dizer, ao passo que a relevância dele para nós é outra coisa, e variável.

A discussão não se encerrou, e o versículo obriga a tomar partido de modo prático. Um autor diz coisas de dois modos: enuncia — e então o que diz está no texto, verificável — e dispõe, escolhendo a ordem, a vizinhança, o que fica junto do quê, o que é omitido. A disposição produz sentido sem enunciar nada, e é por isso que ela é ao mesmo tempo poderosa e indemonstrável.

O leitor que percebe uma disposição está percebendo algo real: a ordem das cenas deste capítulo é escolha, e não acaso. O mesmo leitor, ao converter a percepção em afirmação sobre o que o autor quis dizer, atravessa uma fronteira — porque a ordem é compatível com várias intenções, inclusive nenhuma em particular.

O procedimento honesto é declarar as duas camadas separadamente: eis o que o texto diz; eis o que a montagem sugere; e eis que a segunda não é dedutível da primeira. Quem faz isso perde retórica e ganha o direito de ser levado a sério quando afirma alguma coisa.

7. Aplicações Práticas

Não dispensar ninguém em jejum

O verbo que fecha o episódio é o mesmo que Jesus recusou usar quando a multidão estava com fome. A despedida foi adiada até que houvesse o que dar.

A transposição não é sobre comida. Encerramentos apressados são um dos custos ocultos mais comuns em qualquer operação: o funcionário desligado sem que ninguém lhe explique o que aconteceu, o cliente que sai sem receber o que já estava pago, o paciente que recebe alta sem entender o próprio tratamento, o projeto interrompido sem que se diga às pessoas o que foi feito do trabalho delas. Em todos os casos, o vínculo termina antes de a obrigação terminar.

Vale notar, de passagem, a diferença que o verbo carrega: despedir alguém e simplesmente desaparecer produzem, do lado de fora, o mesmo resultado — a pessoa deixa de estar ali. Do lado de dentro, são coisas opostas. Despedir reconhece o vínculo no momento em que o desfaz; abandonar nega que houvesse vínculo.

A verificação é curta e cabe numa pergunta, feita antes de qualquer despedida: o que esta pessoa precisa levar daqui para conseguir seguir? Às vezes é dinheiro, às vezes é informação, às vezes é apenas a explicação do que aconteceu. Custa pouco, e é exatamente a parte que se pula quando há pressa.

Auditar o que sustenta a sua conclusão

Três apoios sustentam a hipótese sobre o público daquela refeição, e o único que se marca num mapa exige um lugar que ninguém consegue marcar. A peça mais palpável do raciocínio é a que se assenta no material mais quebradiço.

Esse arranjo é comum e passa despercebido, porque a atenção se concentra na conclusão e não na estrutura que a sustenta. A decisão de investimento apoiada em três projeções, das quais duas derivam da mesma premissa. O diagnóstico apoiado em quatro sintomas, dos quais três seriam explicados pela mesma causa alternativa. A avaliação de um profissional apoiada em vários episódios, todos relatados pela mesma pessoa.

O exercício é escrever a conclusão e, embaixo, listar o que a sustenta — e então perguntar, item por item, o que aconteceria com ela se aquele item caísse. Quando um único item derruba tudo, não havia três razões: havia uma, com dois acompanhantes.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Marcos diz Dalmanuta. É o mesmo lugar?

Não é possível decidir. A forma que o segundo evangelho registra é única em toda a literatura grega de que se tem notícia, sagrada ou profana: não há um segundo lugar onde ela apareça.

Os copistas daquele evangelho também travaram diante dela, e as suas cópias oferecem ali três substituições diferentes — sinal de que o obstáculo é antigo. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) propõe que Dalmanuta fosse uma localidade dentro dos limites de Magdala, e Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) sustenta que não há contradição, porque os dois evangelistas nomeiam uma região e não uma cidade. São conjecturas razoáveis, e nenhuma tem meio de confirmação.

O que a arqueologia encontrou no lugar?

Bastante, e nada que resolva o problema. As escavações de Migdal, na margem ocidental, revelaram a partir de 2009 uma sinagoga do primeiro século, com um bloco de pedra esculpido que se tornou um dos achados mais discutidos da arqueologia da Galileia, além de um porto e instalações ligadas ao processamento de pescado.

Tudo isso identifica Magdala. Magadã continua sem sítio associado, e é justamente esse o nome que as edições críticas leem aqui.

O barco era de Pedro?

O texto não diz. Diz "o barco", com artigo definido, construção que Mateus repete em Mateus 8:23, 9:1, 13:2, 14:13 e 14:22, sem nunca identificar o dono.

A hipótese de que fosse embarcação determinada, disponível ao grupo e pertencente a algum dos pescadores é razoável e tem algum apoio em Lucas 5:3, onde Jesus ensina de dentro do barco de Simão. O grego não a exige: um artigo genérico produziria o mesmo texto.

O que acontece logo depois?

Fariseus e saduceus vêm exigir um sinal do céu (Mateus 16:1), imediatamente após um sinal. Depois disso, na travessia seguinte, Jesus cobrará dos discípulos a memória das duas alimentações, mantendo separadas as palavras dos cestos de cada uma (Mateus 16:9-10).

Mateus põe as três coisas em sequência — a refeição, a exigência de sinal e a cobrança de memória — e não faz nenhum comentário ligando-as.

9. Conexão com Outros Textos

O verbo de despedir

Mateus 15:32 — "e não quero mandá-los embora em jejum, para que não desfaleçam no caminho." A recusa, com o mesmo verbo deste versículo.

Mateus 14:15 — "Despede a multidão, para que vão pelas aldeias e comprem comida para si." O pedido dos discípulos na outra alimentação.

Mateus 14:22 — "enquanto despedia a multidão." O ato, depois da refeição.

Mateus 18:27 — "o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, o soltou e perdoou-lhe a dívida." O mesmo verbo, no sentido de liberar.

Mateus 19:3 — "É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?" O mesmo verbo, no sentido de divorciar-se.

Mateus 27:15-26 — a cena de Barrabás, em que o verbo aparece seis vezes no sentido de libertar um preso.

O barco em Mateus

Mateus 8:23 — "E, entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram."

Mateus 9:1 — "E, entrando no barco, passou para o outro lado."

Mateus 14:13 — "retirou-se dali num barco, para um lugar deserto."

Lucas 5:3 — "E, entrando num dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da terra." A única identificação de dono.

A palavra "limites"

Mateus 2:16 — "mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus limites."

Mateus 8:34 — "rogaram-lhe que se retirasse dos seus limites."

Mateus 15:22 — "uma mulher cananeia, que saíra daqueles limites." Neste mesmo capítulo, abrindo o bloco que este versículo fecha.

Mateus 19:1 — "partiu da Galileia, e dirigiu-se aos limites da Judeia, além do Jordão."

O paralelo e a sequência

Marcos 8:10 — "E, entrando logo no barco com os seus discípulos, foi para as partes de Dalmanuta." O terceiro nome do destino.

Marcos 7:31 — "tornou a sair dos limites de Tiro e Sidom, e foi para o mar da Galileia, pelos limites de Decápolis." O trajeto que sustenta o argumento geográfico.

Mateus 16:1 — "E, chegando-se os fariseus e os saduceus, para o tentarem, pediram-lhe que lhes mostrasse algum sinal do céu."

A fórmula "o Deus de Israel"

Mateus 15:31 — "e glorificaram o Deus de Israel." O versículo de que depende a identificação da multidão.

Salmo 41:13 — "Bendito seja o SENHOR Deus de Israel, de eternidade em eternidade." A mesma fórmula, em boca israelita; assim também nos Salmos 72:18 e 106:48.

Lucas 1:68 — "Bendito o Senhor Deus de Israel, porque visitou e remiu o seu povo." Num cântico judaico, no Novo Testamento.

Mateus 15:24 — "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." A frase que o evangelista conserva, onze versículos antes do fim.

10. Original Grego e Análise

Nota preliminar: o texto analisado abaixo é o grego, língua original deste evangelho. Neste versículo, o exame do original faz diferença por um motivo particular: o nome do lugar que fecha o capítulo aparece de formas diferentes conforme a linha de manuscritos, e a versão portuguesa deste site segue uma delas enquanto as edições críticas seguem outra.

Texto em português

Depois de despedir as multidões, Jesus entrou no barco e foi para os limites de Magdala.

Texto grego

καὶ ἀπολύσας τοὺς ὄχλους ἐνέβη εἰς τὸ πλοῖον καὶ ἦλθεν εἰς τὰ ὅρια Μαγαδάν.

Transliteração

kai apolysas tous ochlous enebē eis to ploion kai ēlthen eis ta horia Magadan.

Palavra por palavra

καὶ (kai) — "e"

Conjunção coordenativa simples, sem valor lógico. Observe-se que o versículo não tem sujeito expresso: as formas verbais estão na terceira pessoa do singular, e o leitor recupera Jesus do contexto.

ἀπολύσας (apolysas) — "tendo despedido"

Particípio aoristo ativo, nominativo masculino singular, de apolyō — apo- ("para longe de") mais lyō ("soltar, desatar"). O sentido básico é desligar um vínculo, e daí os usos listados no item 9.

O dado estrutural: é exatamente o verbo que Jesus recusou no versículo 32, no infinitivo apolysai — "não quero mandá-los embora em jejum". A recusa e o ato emolduram o episódio com o mesmo verbo, sete versículos separando um do outro. O mesmo par ocorre na outra alimentação, em Mateus 14:15 e 14:22.

τοὺς ὄχλους (tous ochlous) — "as multidões"

Acusativo plural de ochlos, com artigo, objeto direto do particípio. Note-se o número: aqui plural, ao passo que o versículo 35 traz o singular. Mateus alterna com frequência e o mais plausível é que a variação não carregue intenção.

ἐνέβη εἰς τὸ πλοῖον (enebē eis to ploion) — "entrou no barco"

Aoristo indicativo ativo de embainō — composto de en ("em") e bainō ("ir, pôr o pé") —, cujo sentido técnico é subir a bordo; com a preposição eis e o acusativo de ploion ("barco"), com artigo definido.

O artigo é o ponto de interesse: Mateus escreve "o barco", não "um barco", e repete a construção sem jamais identificar o dono. Isso alimenta a hipótese de uma embarcação determinada, disponível ao grupo — leitura plausível que o grego não exige, já que o artigo genérico produziria exatamente o mesmo texto.

ἦλθεν εἰς τὰ ὅρια (ēlthen eis ta horia) — "veio para os limites"

Aoristo indicativo ativo de erchomai ("vir, ir"), verbo de deslocamento genérico, sem informação sobre trajeto ou duração; e o acusativo plural neutro de horion — fronteira, limite e, por extensão, o território delimitado. Da mesma raiz vem o português "horizonte".

É fórmula habitual de Mateus para nomear região, e as duas ocorrências deste capítulo — Mateus 15:22 e 15:39 — enquadram o bloco inteiro que vai de Tiro e Sidom até aqui.

Μαγαδάν (Magadan) — "Magadã"

Nome próprio indeclinável, transcrição de topônimo semítico. É o problema do versículo, e o quadro completo é o seguinte.

As edições críticas modernas leem Magadan, com apoio dos manuscritos mais antigos — entre eles o Sinaítico em primeira mão, o Vaticano e o Bezae. A tradição majoritária posterior lê Magdala ou Magdalan; foi essa leitura que entrou nas edições impressas do século XVI conhecidas como Texto Recebido e, por meio delas, nas versões portuguesas clássicas.

Daí a divergência que o leitor tem diante dos olhos neste painel, e que precisa ficar declarada: a tradução em português deste site segue o Texto Recebido para o Novo Testamento, por decisão editorial, e por isso traz "Magdala"; o texto grego examinado aqui é o das edições críticas, e por isso traz "Magadã". Não é erro de tradução nem descuido de revisão: é a diferença entre duas linhas de manuscritos, e o leitor tem direito de saber disso.

Alguns testemunhos, sobretudo latinos, apresentam ainda Magedan, e o siríaco traz uma forma próxima. Marcos, no relato paralelo (Marcos 8:10), escreve um quarto nome: Dalmanoutha, palavra sem qualquer outra ocorrência conhecida em grego, e cujos próprios copistas hesitaram, produzindo ali variantes como Magadã, Magedã e Melegadã.

Quanto à leitura original, o critério aplicável é o da lectio difficilior potior ("a leitura mais difícil é a mais forte", regra da crítica textual): copistas facilitam. Magdala era cidade conhecida, com porto e indústria de salga, chamada Tariqueias pelos gregos, mencionada por Josefo e associada a Maria Madalena. Magadã não é conhecido de lugar algum. A substituição do desconhecido pelo famoso e graficamente próximo se explica; a inversa, não. O grau de certeza quanto à direção da mudança é alto.

Quanto à localização, não há consenso. As três propostas em circulação — que Magadã seja variante do mesmo topônimo semítico por trás de Magdala, ambos formados sobre migdal ("torre"); que seja localidade vizinha desaparecida; ou que seja outro nome da região que Marcos chama Dalmanuta — não se impõem umas sobre as outras. As escavações de Migdal identificam Magdala, não Magadã.

Balanço do painel

Doze palavras gregas para fechar um capítulo, e duas carregam o peso. A primeira é o verbo da despedida, que recupera a recusa do versículo 32: a multidão que não seria mandada embora com fome é mandada embora depois de comer. A segunda é o nome do destino, que é ao mesmo tempo o dado menos seguro do capítulo e aquele de que depende o argumento geográfico sobre a identidade da multidão.

11. Conclusão

Doze palavras gregas encerram o capítulo, e o exame delas deixa cinco resultados.

A primeira é estrutural e é segura. Como o verbo com que Jesus despede a multidão é exatamente o que ele havia recusado sete versículos antes, ao dizer que não queria mandá-la embora em jejum, a cena está emoldurada pela mesma palavra nas duas pontas — e a moldura se repete na outra alimentação, em Mateus 14:15 e 14:22. Segue daí que a despedida, nos dois episódios, só acontece com o povo alimentado: é observação verificável, e não impressão de leitor.

A segunda é sobre o nome do lugar, e tem duas metades de firmeza desigual. Quanto ao que Mateus escreveu, a crítica textual é firme na direção ainda que não no resultado: pelo critério da leitura mais difícil, o nome desconhecido é provavelmente o original, porque um copista tem todo motivo para substituí-lo pelo nome famoso e graficamente próximo, e nenhum para fazer o contrário. Quanto a onde ficava, não há consenso.

A terceira é a consequência disso, e ultrapassa a curiosidade erudita. Como a hipótese do público majoritariamente não judaico se equilibra sobre três apoios, e como apenas um deles se marca num mapa — justamente o que exige saber de onde a travessia partiu e aonde chegou —, o elemento mais palpável do argumento é também o mais vulnerável do capítulo. Os outros dois continuam operando, de modo que a hipótese não cai; ela apenas não pode ser anunciada como resultado.

Vem depois o conjunto. O que se lê ao longo destes trinta e nove versículos é uma sequência montada: uma exigência de pureza à mesa levantada por especialistas da capital, uma réplica que muda o eixo da pergunta, uma viagem para fora da Galileia judaica, uma estrangeira que insiste e é atendida, curas diante de gente que louva o Deus de Israel, e uma refeição em que o texto emprega "todos" sem qualificar nada. Como percurso, isso desenha uma discussão sobre pertencimento cuja resposta vai mudando de lugar — leitura antiga, coerente e legítima.

A quinta é o limite da quarta, e é a conclusão que este estudo mais insiste em manter. Como a identificação da multidão não é consenso, como a restrição da missão à casa de Israel continua no texto poucos versículos antes do fim, como o autor não emprega a marca com que sinaliza sentido mais de dez vezes ao longo do livro, e como o que ampara a leitura na cena final é a ausência de qualquer menção a pureza — o arco existe como composição e não como afirmação. A ordem das cenas é escolha do evangelista; nada no capítulo a enuncia. Manter as duas coisas separadas é o trabalho inteiro.

E o capítulo termina sem ajudar nisso: com um barco atravessando o lago e um nome de lugar que ninguém consegue marcar no mapa.

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Mateus 15:39

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