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Mateus 16:5

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✍️ Por Alberto Adriano·2 de setembro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 32 acessos
Quando os discípulos chegaram à outra margem, esqueceram-se de levar pão.
Barco de pesca de madeira encostado na margem de um lago ao amanhecer, com homens desembarcando de mãos vazias e as colinas ao fundo.

Estudo


Quando os discípulos chegaram à outra margem, esqueceram-se de levar pão.

1. Introdução

A cena muda, e o versículo é quase todo mudança de cena.

Entre o fim do versículo anterior e o começo deste houve uma partida, um embarque e uma travessia inteira, e Mateus resolve tudo em três palavras: chegaram à outra margem.

Dois pontos merecem atenção.

O primeiro é a travessia. O lago é atravessado o tempo todo neste evangelho, e cada travessia costuma separar dois blocos de sentido. Vale entender o que o gesto significa dentro da estrutura do livro.

O segundo é o pão esquecido. É um detalhe doméstico, sem grandeza nenhuma, e Mateus faz questão de registrá-lo. Sem ele, o diálogo dos versículos seguintes não existiria.

O que este versículo não faz é interpretar. Ele apenas informa. Quem quiser saber por que o esquecimento importa precisa continuar lendo — e essa suspensão é escolha de quem escreveu.

2. Contexto Histórico e Cultural

Atravessar o lago

O mar da Galileia é pequeno. Tem cerca de vinte e um quilômetros no eixo maior e treze no menor, e está a aproximadamente duzentos metros abaixo do nível do mar.

Uma travessia de margem a margem levava algumas horas, dependendo do vento — e o vento ali é imprevisível, por causa das colinas que cercam a depressão. Com vento contrário, remava-se, e o que seria uma tarde vira uma noite inteira, como em Mateus 14:24.

O barco típico da região é conhecido por um achado concreto. Em 1986, uma seca excepcional baixou o nível do lago e revelou o casco de uma embarcação de pesca do primeiro século, perto do kibutz Ginosar. Tem pouco mais de oito metros de comprimento por dois e meio de largura, e comportaria cerca de quinze pessoas — praticamente o tamanho do grupo que atravessa aqui.

Isso ajuda a imaginar a cena com realismo. Não é um navio: é um barco em que treze homens vão apertados, com espaço mínimo para carga. O que se leva a bordo é pouco, e o que se esquece em terra fica em terra.

O que era "pão"

A palavra não descreve o que hoje se compra na padaria.

O pão do primeiro século era um disco achatado, de vinte a trinta centímetros, com um dedo de espessura ou menos. Assava-se em forno doméstico de barro ou sobre uma pedra quente. A massa quase sempre levava fermento — o que era esse fermento, e por que a imagem dele importa, é assunto do versículo 6.

Havia dois tipos, e a diferença marcava condição social. O pão de cevada era o dos pobres, mais escuro e mais grosseiro; o de trigo, mais caro. Os cinco pães do menino, em João 6:9, são especificados como de cevada.

E o pão não durava. Assado sem conservante, endurecia em um ou dois dias. Por isso se assava todo dia, e por isso a oração ensinada em Mateus 6:11 pede o pão "de cada dia" — não é figura de linguagem devocional, é a rotina real de quem não tinha como estocar.

Por que se levava pão para uma travessia

Comer fora de casa não era como hoje.

Não havia comércio de comida pronta espalhado pelo caminho, e a maior parte dos deslocamentos era feita com provisão levada de casa, num alforje de couro. Quem saía sem levar dependia de encontrar alguém que vendesse ou hospedasse.

Há ainda um ponto que os comentaristas costumam levantar e que merece cautela. A margem oriental do lago era região de população mista, com cidades de cultura grega, e comprar comida ali podia levantar questões de pureza para um judeu observante — de que modo o alimento fora preparado, com que utensílios, se havia contato com o que era oferecido a ídolos.

Isso é contexto plausível, não afirmação do texto. Mateus não diz que houve dificuldade em comprar; diz apenas que esqueceram de levar. E o capítulo anterior mostra os discípulos alimentando quatro mil pessoas em território não judaico, sem que a questão da pureza seja levantada.

A "outra margem" no evangelho

A expressão é praticamente um termo técnico em Mateus.

Ela aparece em vários momentos de transição: em Mateus 8:18, quando Jesus manda passar para o outro lado e vem a tempestade; em Mateus 8:28, na chegada à região dos gadarenos; em Mateus 14:22, quando os discípulos vão à frente e ele anda sobre o mar.

O padrão é reconhecível. A travessia costuma separar um bloco de ensino do seguinte, e costuma vir acompanhada de algum episódio em que os discípulos não entendem o que está acontecendo. Aqui não é diferente.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando os discípulos chegaram à outra margem"

A frase é toda de transição, e há três coisas nela.

A primeira é quem aparece. O sujeito é "os discípulos" — não "eles", não "Jesus e os discípulos". Mateus muda de foco: quem estava em cena no versículo anterior eram os adversários e Jesus; agora o grupo que interessa é outro.

Essa troca prepara o que vem. Os versículos seguintes são uma conversa interna, e o evangelho já sinaliza que a plateia mudou.

A segunda é a compressão. Uma travessia inteira cabe num particípio. Mateus não descreve o embarque, não descreve o tempo no mar, não diz quanto durou. Comparado com Mateus 8:23-27 ou Mateus 14:24-33, onde o próprio percurso é o episódio, este é o mínimo possível.

A economia serve a um propósito: nada deve competir com o que será dito ao chegar.

A terceira é o lugar. "A outra margem" é a única indicação geográfica, e ela é relativa — outra em relação a onde se estava. O leitor sabe de onde saíram, pelo versículo 4 e por Mateus 15:39, mas não sabe onde chegaram.

Marcos 8:22 informa que chegaram a Betsaida. Mateus não informa, e o texto não explica por quê. É discutido se ele desconhecia o dado, se o considerou irrelevante, ou se está compondo a cena com liberdade. Não é possível decidir.

"esqueceram-se de levar pão"

Aqui está o detalhe que o versículo existe para registrar.

Antes de qualquer leitura, convém notar o tipo de informação que é. Não é milagre, não é ensino, não é conflito. É logística doméstica: um grupo saiu com pressa e não pegou a comida.

Que isso esteja num evangelho já diz alguma coisa. O texto conserva um dado que não engrandece ninguém e que, se fosse suprimido, ninguém sentiria falta — a não ser pelo diálogo que ele torna possível.

Há um problema de tempo que vale expor. O esquecimento aconteceu antes de embarcar, mas a frase o registra na chegada. Não é contradição: o texto conta o fato no momento em que ele se torna perceptível. Ninguém percebe que esqueceu enquanto embarca — percebe quando chega e vai procurar.

Alguns comentaristas leram a construção como equivalente a "tendo chegado, deram-se conta de que haviam esquecido". Outros sustentam que a conversa aconteceu ainda no barco, durante a travessia, o que também é possível — o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) argumenta nesse sentido, observando que a viagem dava tempo de sobra para o assunto surgir. Não há como decidir pelo texto de Mateus.

O detalhe que Marcos acrescenta

Marcos 8:14 conta a mesma coisa e acrescenta uma informação: "não tinham consigo no barco senão um pão".

A diferença é pequena e muda a cena. Em Marcos não é que não houvesse nada — havia um pão, insuficiente para treze homens. Em Mateus a informação é simplesmente que esqueceram.

Quem harmoniza os dois relatos dirá que Mateus resume. Quem os lê separadamente notará que o efeito é outro: com um pão a bordo, a preocupação dos discípulos tem base concreta; sem essa informação, ela parece mais desproporcional.

Vale registrar que nenhuma das duas versões diz que passaram fome. O que se descreve é uma preocupação, não uma privação.

O que o versículo não diz

Convém marcar o silêncio, porque a pregação costuma preenchê-lo.

O texto não repreende ninguém pelo esquecimento. Não diz que foi falta de fé, não diz que foi descuido, não diz que Jesus notou. A repreensão que vem no versículo 8 é por outra coisa — pela reação ao esquecimento, não por ele.

E o texto não explica a pressa. É leitura razoável ligar o esquecimento à saída abrupta do versículo 4: quem sai de um lugar depois de encerrar uma discussão não passa no mercado. Razoável, mas leitura — Mateus não faz a ligação.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os discípulos

O grupo dos doze, presumivelmente, embora o versículo não diga o número. Boa parte deles era de pescadores da própria região, gente que conhecia aquele lago melhor do que qualquer outra coisa.

O detalhe tem alguma graça. São eles que esquecem a comida numa viagem de barco que fariam de olhos fechados.

Neste capítulo, os discípulos aparecem como grupo até o versículo 13, quando a cena se estreita e Pedro passa a falar por todos.

A margem de partida

A região de Magadã, mencionada em Mateus 15:39 e não identificada com segurança. A maioria dos estudiosos a situa na margem ocidental do lago, e alguns manuscritos trazem Magdala. Marcos 8:10 chama o lugar de Dalmanuta, nome igualmente incerto.

Não há consenso sobre nenhum dos dois, e a arqueologia não fechou a questão.

A margem de chegada

Mateus não a nomeia. Marcos 8:22 diz que chegaram a Betsaida.

Betsaida ficava no extremo norte do lago, perto da foz do rio Jordão, e era terra natal de Pedro, André e Filipe, segundo João 1:44. Herodes Filipe a elevou à condição de cidade e lhe deu o nome de Júlias, em homenagem à família imperial romana.

A localização exata é discutida. Há dois sítios candidatos, e a questão continua aberta entre arqueólogos.

O que aconteceu antes

A sequência imediata é curta: pedido de sinal, recusa, partida, travessia. Antes disso, no capítulo 15 de Mateus, houve a alimentação de quatro mil pessoas — episódio que os versículos 9 e 10 deste capítulo vão retomar, e cujo detalhamento pertence a eles.

O que importa registrar aqui é apenas a proximidade. O esquecimento do pão acontece pouco depois de uma cena em que sobrou comida.

5. Pontos de Ensino

O evangelho guarda o que não engrandece ninguém

Um esquecimento de mantimento não é material de propaganda. Mostra um grupo desorganizado, e nada mais.

Textos escritos para promover uma causa costumam podar esse tipo de coisa. Este não podou — e a observação vale como dado sobre a natureza dos evangelhos, sem que se possa concluir dela que tudo o que está escrito seja igualmente factual.

O ensino nasce do que estava à mão

A conversa dos próximos versículos não começa com um tema. Começa com um problema prático que apareceu sozinho.

É um padrão frequente nos evangelhos: a pergunta sobre o tributo nasce de uma moeda, a lição sobre a viúva nasce de duas moedinhas na caixa de ofertas, a conversa com a samaritana nasce da sede. O assunto entra pela porta que estava aberta.

Distância curta, gente diferente

A travessia leva poucas horas e muda tudo. De um lado, adversários e controvérsia; do outro, um grupo pequeno e uma conversa privada.

Vale notar como o evangelho usa o deslocamento físico para separar contextos. Sair do lugar é parte do que se está fazendo, não apenas transporte.

Preocupar-se com o que falta é reação, não caráter

Aqui o versículo apenas prepara o terreno, e convém não antecipar o que os versículos 7 e 8 desenvolvem.

O que se pode observar já é que faltar pão numa viagem é problema real. Ninguém está sendo tolo por notar. O que virá depois não é uma crítica ao fato de terem percebido a falta.

Um detalhe pequeno pode ser a dobradiça de uma cena

Sem o pão esquecido não há advertência sobre fermento, não há mal-entendido, não há a repreensão do versículo 8 nem a lembrança dos dois milagres.

Toda a segunda cena do capítulo depende de um saco de comida deixado em terra.

6. Aspectos Filosóficos

A questão que o versículo levanta

Este versículo não sustenta uma discussão filosófica, e é honesto dizer isso em vez de fabricar uma.

O que ele oferece é outra coisa: uma observação sobre como o pensamento se organiza a partir do que está por perto.

A advertência sobre o fermento, que vem em seguida, não cai do céu. Ela usa uma imagem de cozinha porque o assunto do momento é comida — e o assunto do momento é comida porque alguém esqueceu um saco em terra. O ensino toma a forma do que estava disponível.

Isso não é acidente isolado. As parábolas de Mateus falam de semeadura, de rede de pesca, de fermento, de tesouro enterrado, de lâmpada, de sal. São todas coisas que um camponês galileu via todo dia. O material do pensamento é o material do cotidiano.

O limite dessa observação

Convém não transformar isso numa tese. O versículo não diz que o ensino depende da circunstância, nem que a verdade nasce do concreto.

Ele apenas registra o encadeamento, e quem nota o padrão está lendo o conjunto do evangelho, não este versículo. A leitura é do comentarista.

Há também uma limitação prática. Um mesmo objeto sustenta mais de uma imagem: o fermento será usado, aqui, para corrupção que se espalha, e em Mateus 13:33 para o Reino que cresce escondido. O cotidiano fornece o material, não o significado.

7. Aplicações Práticas

Esquecimento não é falha moral

O texto não repreende ninguém por ter esquecido o pão. A repreensão, quando vem, é por outra coisa.

A distinção é útil para quem cresceu associando descuido a pecado. Esquecer a comida é falha de organização, e se resolve com uma lista, não com arrependimento.

Depois de uma discussão difícil, coisas práticas escapam

É leitura provável que o esquecimento tenha vindo da saída abrupta descrita no versículo 4.

Isso é reconhecível. Quem acaba de sair de um confronto tenso não está pensando em compras. A atenção fica presa no que passou, e o básico escapa.

O ajuste prático é banal e funciona: decidir as coisas simples antes do momento de tensão, não depois.

O que se leva quando se muda de lugar

Há uma aplicação que o texto sugere sem afirmar.

Eles esqueceram o pão e levaram a conversa da margem anterior — nos versículos seguintes, é da discussão com os fariseus que Jesus fala. Deixou-se para trás o que era necessário e trouxe-se o que ficou na cabeça.

Vale marcar que isso é observação do comentarista. O texto não faz esse contraste.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que registrar um detalhe tão pequeno?

Porque sem ele a cena seguinte não se sustenta.

O mal-entendido dos versículos 6 e 7 depende de haver, de fato, um problema de pão. Se ninguém estivesse preocupado com comida, a advertência sobre o fermento não teria como ser mal compreendida.

Se há outra razão — memória de testemunha, gosto pelo detalhe concreto, composição literária —, o texto não diz.

Mateus e Marcos se contradizem quanto ao pão?

Não exatamente. Marcos 8:14 diz que havia um pão no barco; Mateus diz que esqueceram de levar pão.

Um pão para treze homens é, na prática, nenhum pão. As duas afirmações podem descrever a mesma situação com ênfases diferentes. Ainda assim, é discutido se Mateus está resumindo Marcos ou trabalhando com outra informação.

Onde exatamente eles desembarcaram?

Mateus não diz. Marcos 8:22 diz Betsaida, no norte do lago.

A localização de Betsaida é objeto de disputa arqueológica, com mais de um sítio candidato. Não há consenso.

A conversa aconteceu no barco ou em terra?

O texto de Mateus permite as duas leituras, e comentaristas se dividiram.

A favor de ter sido em terra: a frase começa com a chegada. A favor de ter sido no barco: a travessia era longa o bastante, e Marcos situa a advertência com eles ainda a bordo.

Não é possível decidir, e a resposta não altera nada do que se segue.

Faltou fé em não terem levado pão?

O versículo não diz isso, e vale resistir à leitura.

Alguns comentaristas antigos sugeriram que os discípulos confiavam demais na provisão milagrosa e por isso relaxaram na preparação — Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) menciona a hipótese. É construção, não dado do texto, e a hipótese mais simples continua sendo a pressa da partida.

9. Conexão com Outros Textos

O relato paralelo

Marcos 8:13-14 — "E, deixando-os, tornou a embarcar e foi para a outra margem. E os discípulos tinham se esquecido de levar pão, e não tinham consigo no barco senão um pão."

A mesma cena, com a informação a mais do único pão a bordo.

As travessias em Mateus

Mateus 8:18 — "Vendo Jesus muitas multidões ao seu redor, ordenou que passassem para a outra margem."

Mateus 14:22 — "E imediatamente obrigou os seus discípulos a entrar no barco e a passar adiante dele para a outra margem, enquanto despedia as multidões."

Nos dois casos a travessia marca uma virada, e nos dois algo acontece com os discípulos no caminho.

Pão como necessidade diária

Mateus 6:11 — "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje."

A oração pressupõe exatamente a situação deste versículo: pão não se estoca, e a falta dele é problema do dia.

Mateus 4:4 — "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus."

A frase da cena do deserto, que voltará a fazer sentido no versículo 8, quando a preocupação com o pão for tratada como desproporcional.

Provisão para o caminho

Mateus 10:9-10 — "Não leveis ouro, nem prata, nem cobre nos vossos cintos; nem alforje para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bordão."

Vale a comparação, com cautela. Ali a ausência de provisão é instrução deliberada; aqui é esquecimento. O texto não liga uma coisa à outra.

Marcos 6:8 — "e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, senão somente um bordão; nem alforje, nem pão, nem dinheiro no cinto."

Esquecer, no vocabulário do Novo Testamento

Lucas 12:6 — "Não se vendem cinco pardais por duas moedinhas? E nenhum deles está esquecido diante de Deus."

Hebreus 13:2 — "Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, sem o saber, hospedaram anjos."

O mesmo verbo deste versículo, aplicado a coisas de peso muito maior. Aqui ele descreve um saco de comida deixado em terra.

Filipenses 3:13 — "Esquecendo-me das coisas que ficam para trás, e avançando para as que estão diante de mim."

A única ocorrência em que o esquecimento é apresentado como coisa boa.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Quando os discípulos chegaram à outra margem, esqueceram-se de levar pão.

Texto grego

Καὶ ἐλθόντες οἱ μαθηταὶ εἰς τὸ πέραν ἐπελάθοντο ἄρτους λαβεῖν.

Transliteração

Kai elthontes hoi mathētai eis to peran epelathonto artous labein.

Uma nota textual

Parte da tradição manuscrita traz "os discípulos dele", com o pronome. Os manuscritos mais antigos trazem apenas "os discípulos". A diferença não muda coisa alguma no sentido e é registrada só por completude.

Análise palavra por palavra

ἐλθόντες — elthontes, "tendo vindo, tendo chegado". Particípio aoristo de erchomai, vir, ir.

O particípio aoristo indica ação anterior à do verbo principal: primeiro chegaram, depois se deu o que o verbo seguinte conta. É a construção que produz a leitura mais natural — chegaram e, ali, o esquecimento apareceu.

Repare no que a escolha economiza. Uma travessia inteira cabe em uma palavra, sem nenhuma descrição do percurso.

οἱ μαθηταὶ — hoi mathētai, "os discípulos". De manthanō, aprender.

A palavra significa literalmente "aprendiz", quem está sob instrução de um mestre. Não indica um cargo nem um grau: indica uma relação.

Mateus a usa cerca de setenta vezes, quase sempre para o grupo que acompanha Jesus. O termo aparece aqui como sujeito isolado, sem Jesus mencionado, o que é incomum e marca a mudança de foco da cena.

εἰς τὸ πέραν — eis to peran, "para a outra margem, para o lado de lá".

Peran é um advérbio de lugar, "além, do outro lado". Com o artigo neutro to à frente, vira substantivo: "o lado de lá".

É expressão de uso frequente em Mateus para o mar da Galileia — aparece em Mateus 8:18, 8:28 e 14:22, entre outros. Em Mateus 4:15, na citação de Isaías, a mesma palavra descreve a "Galileia dos gentios, além do Jordão".

A construção é relativa por natureza. "O lado de lá" só faz sentido para quem sabe onde é o lado de cá, e é por isso que o versículo não informa destino nenhum.

ἐπελάθοντο — epelathonto, "esqueceram-se". Aoristo da voz média de epilanthanomai.

Esta é a palavra do versículo, e a formação dela é interessante.

A base é lanthanō, "passar despercebido, escapar à atenção". Daí vem lēthē, o esquecimento — o nome do rio da mitologia grega cujas águas apagavam a memória. E daí vem, por negação, alētheia: a palavra grega para verdade é literalmente "não esquecimento", aquilo que não fica encoberto.

Vale a cautela de sempre com esse tipo de etimologia. Que a palavra tenha essa origem não significa que quem a usava pensasse nela assim, e construir teologia sobre a formação de um termo é procedimento arriscado.

A voz média indica que a ação envolve o próprio sujeito: não é que alguém os tenha feito esquecer, e sim que a coisa lhes escapou. O aoristo apresenta o fato sem duração, como um ponto.

No Novo Testamento o verbo aparece em contextos bem mais graves do que este. Lucas 12:6 o usa para dizer que nenhum pardal está esquecido diante de Deus; Hebreus 13:2 e 13:16 advertem para não esquecer a hospitalidade e a partilha; Filipenses 3:13 o emprega no único caso em que esquecer é bom.

ἄρτους — artous, "pães". Acusativo plural de artos.

O plural é literal: pães, não "pão" como substância. Cada artos é uma unidade assada, um disco, e por isso se contam — cinco pães, sete pães.

A palavra atravessa este capítulo inteiro, dos versículos 5 a 12, e é o fio que liga o esquecimento, o mal-entendido e a lembrança dos dois milagres.

Artos também significa, por extensão, alimento em geral, e é nesse sentido que aparece em Mateus 6:11.

λαβεῖν — labein, "tomar, pegar, levar". Aoristo infinitivo de lambanō.

O verbo é o do ato de pegar com a mão. Não é "comprar" nem "preparar": é apanhar o que estava ali e pôr junto de si.

Isso reforça o quadro. O pão provavelmente existia e estava disponível. O que faltou foi o gesto de pegá-lo antes de sair.

11. Conclusão

De um versículo quase todo de transição decorrem três coisas.

A primeira é sobre a escolha do que contar. Uma travessia inteira é resolvida num particípio, e um saco de comida esquecido ganha meia frase. A proporção informa o leitor sobre o que vem: nada do percurso importa, e a comida importa muito — não por si, mas pelo que será construído em cima dela.

A segunda é sobre o tipo de material que o evangelho conserva. Um esquecimento doméstico não engrandece ninguém, não prova nada e não seria sentido se estivesse ausente. Está ali porque a cena seguinte depende dele, e possivelmente porque quem escreveu não teve o cuidado de podar o que era pouco lisonjeiro. Disso não decorre garantia de exatidão histórica de tudo o que se conta; decorre apenas que a poda não foi feita.

A terceira é sobre o silêncio. O texto não repreende o esquecimento, não o explica e não o liga à pressa da partida — embora essa ligação seja a leitura mais provável. O que será criticado, dois versículos adiante, não é ter esquecido: é o que se faz com a lembrança do que faltou.

Fica de pé um encadeamento que vale notar. Um grupo sai apressado de uma discussão, atravessa um lago sem comida, e é dessa falta banal que nasce a advertência sobre o fermento, o mal-entendido, a repreensão e a recordação dos dois milagres. O capítulo inteiro, dos versículos 6 a 12, se apoia num descuido.

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