Ele lhes contou ainda outra parábola: “O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até tudo ficar fermentado.”
1. Introdução
Existe um tipo de força que não faz barulho. Não derruba portas, não desfila com bandeira, não anuncia a chegada. Ela entra, some dentro daquilo que encontrou e começa a trabalhar. Quando alguém percebe, já não há como separar o que era dela e o que era da massa. É essa a força que Jesus escolheu para descrever o Reino dos céus na menor de todas as suas parábolas.
São vinte e poucas palavras no grego. Uma mulher, um punhado de fermento, uma quantidade absurda de farinha e uma espera. E, ainda assim, essa parábola guarda uma das maiores incoerências aparentes do Novo Testamento: o fermento, na Bíblia inteira, é quase sempre imagem de corrupção. Jesus pegou o símbolo do que estraga e usou para descrever o que salva. Ou não usou, e é aí que começa um debate antigo, sério e mal contado nos púlpitos.
Neste estudo, vamos abrir a parábola por dentro: o pão que se fazia numa casa de aldeia da Galileia, a quantidade exata de farinha que a mulher amassou, o verbo grego que a maioria das traduções suaviza e as duas leituras rivais dessa história. Cada afirmação vem com o grau de certeza dela. No fim, sobra a pergunta que a parábola realmente faz, e ela não é sobre o mundo. É sobre você.
2. Contexto Histórico e Cultural
Mateus 13 é um bloco de sete parábolas contadas num único dia. Jesus está sentado num barco, à beira do lago da Galileia, e a multidão está na praia. Vêm em sequência o semeador, o joio, o grão de mostarda, o fermento, o tesouro escondido, a pérola e a rede. Nosso versículo fecha a segunda dupla: a mostarda e o fermento são duas versões da mesma ideia, uma no campo, outra na cozinha.
Para entender o fermento dessa parábola, é preciso esquecer o fermento de padaria vendido em pacote, que não existia. Na Palestina do primeiro século, fermentar era outra coisa. A dona da casa separava um pedaço da massa da fornada anterior e deixava azedar, e nele os fungos e as bactérias do ambiente se multiplicavam. Na fornada seguinte, ela pegava aquele naco escuro, azedo, de cheiro forte, e enfiava dentro da massa nova. O pedaço velho contaminava a massa nova, e a massa nova crescia. O fermento doméstico era literalmente um pedaço de coisa velha em decomposição controlada.
Isso explica por que o fermento virou símbolo religioso de impureza. Na Páscoa, Israel tinha ordem de eliminar todo fermento da casa e comer pão sem fermento por sete dias, em memória da saída apressada do Egito (Êxodo 12:15-20). Havia uma varredura ritual: a casa era vasculhada, e qualquer resto fermentado, queimado. Nas ofertas de cereal levadas ao altar, o fermento era proibido (Levítico 2:11). Ele era o velho, o que se infiltra, o que não se controla. Na literatura rabínica, o termo aparece como imagem daquilo que estraga por dentro.
Agora, o trabalho da mulher, diário e pesado. A farinha saía de duas pedras redondas que a mulher girava sentada no chão, som tão comum das casas habitadas que o profeta usa o silêncio das mós como imagem de terra desolada (Jeremias 25:10). Depois vinha a mistura da água, do sal e do fermento numa tigela de barro, o amassar com as mãos e o peso do corpo, a espera com a massa coberta por um pano num canto morno, e o forno, uma cúpula de barro aquecida com esterco seco e galhos. A mulher fazia isso enquanto o marido estava no campo. A dupla de parábolas reflete esse mundo: o homem semeia (versículo 31), a mulher assa (versículo 33). Jesus descreveu o Reino a partir das duas metades do dia comum de uma família camponesa.
Falta o detalhe que mais salta aos olhos de quem conhece a cozinha antiga: a quantidade. "Três medidas" traduz três sáta, o plural grego do hebraico seá. Três seás equivalem a uma efa, a medida-padrão de grãos de Israel. As estimativas modernas variam conforme o achado arqueológico usado como base, mas ficam numa faixa de 22 a 40 litros, algo entre 20 e 30 quilos de farinha. Isso rende pão para mais de cem pessoas. Nenhuma mulher de aldeia amassava tanto para o jantar; ela amassava dois ou três quilos. Trinta quilos é fornada de festa, de casamento, de banquete de aldeia inteira.
E o número tem eco. Quando três visitantes chegam à tenda de Abraão, ele corre e diz a Sara: "Amassa depressa três medidas de flor de farinha" (Gênesis 18:6). Quando Gideão prepara a oferta para o anjo, usa uma efa de farinha, exatamente as mesmas três medidas (Juízes 6:19). Grau de certeza de que os ouvintes reconheceriam a quantidade como excepcional: alto. Grau de certeza de que Jesus estivesse citando Gênesis 18 de propósito: médio — a medida coincide e o contexto de hospitalidade divina combina, mas o texto não faz a ligação explícita.
3. Análise Teológica
"Ele lhes contou ainda outra parábola:"
Jesus usava com frequência as parábolas como método de ensino, e elas eram histórias simples com verdades espirituais profundas. As parábolas eram uma ferramenta comum de ensino na cultura judaica, permitindo que os ouvintes se envolvessem com a mensagem em níveis diferentes. Esse método também cumpre a profecia do Salmo 78:2, onde se diz que o Messias falaria em parábolas.
"O Reino dos céus é como o fermento:"
O fermento é uma substância usada na panificação para fazer a massa crescer. Na tradição judaica, o fermento simbolizava com frequência o pecado ou a corrupção, como se vê na Páscoa, em que o pão sem fermento é usado para significar a pureza (Êxodo 12:15). Nesta parábola, porém, o fermento representa o poder transformador do Reino dos céus, indicando que a influência do Reino, ainda que pequena no início, penetra e transforma o todo.
"que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha:"
A menção de uma mulher é significativa, pois as mulheres eram normalmente as responsáveis pela panificação na cultura judaica antiga. As "três medidas de farinha" são uma quantidade grande, de aproximadamente vinte e dois quilos, sugerindo a abundância e o alcance extenso do Reino. Essa quantidade de farinha lembra a hospitalidade demonstrada por Abraão em Gênesis 18:6, onde ele prepara uma refeição para visitantes divinos, simbolizando a generosidade e o encontro divino.
"até tudo ficar fermentado:"
Essa frase enfatiza a influência penetrante e completa do Reino dos céus. Assim como o fermento abre caminho por toda a porção de massa, o Reino dos céus por fim transformará o mundo. Essa transformação é gradual, mas inevitável, e reflete a visão profética do Reino de Deus enchendo a terra, como se vê em Daniel 2:35, onde a pedra se torna um grande monte que enche toda a terra.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Jesus — Aquele que fala a parábola, ensinando a respeito do Reino dos céus.
2. A mulher — Representa aqueles que trabalham para espalhar a influência do Reino dos céus.
3. O fermento — Simboliza o poder transformador do Reino dos céus.
4. As três medidas de farinha — Representam o mundo, ou a sociedade, que está sendo influenciada pelo Reino.
5. O Reino dos céus — O tema central do ensino de Jesus, que representa o governo e a influência de Deus.
5. Pontos de Ensino
O poder dos começos pequenos — Assim como uma quantidade pequena de fermento pode levedar uma quantidade grande de farinha, o Reino dos céus começa pequeno, mas tem um impacto profundo.
A natureza transformadora do Reino — O Reino dos céus trabalha de dentro para fora, transformando as pessoas e as comunidades.
A participação ativa — Como a mulher que mistura o fermento na farinha, os que creem são chamados a participar ativamente da difusão da influência do Reino.
A paciência no crescimento — O processo de fermentação leva tempo, e isso pede paciência enquanto o Reino cresce e influencia o mundo.
A influência integral — O Reino dos céus afeta cada parte da vida, assim como o fermento penetra a massa inteira.
6. Aspectos Filosóficos
Chegamos ao ponto que os comentários costumam atravessar correndo. Se o fermento é imagem de corrupção em praticamente todo o resto da Bíblia, por que ele aparece aqui como imagem do Reino?
Vale medir o tamanho do problema. O próprio Jesus, três capítulos adiante, manda guardar-se "do fermento dos fariseus e dos saduceus" (Mateus 16:6), e Mateus explica que ele falava do ensino deles. Em Lucas 12:1, o fermento dos fariseus é a hipocrisia. Paulo escreve duas vezes a mesma advertência, "Um pouco de fermento leveda toda a massa" (1Coríntios 5:6 e Gálatas 5:9), sempre a respeito de algo ruim que se espalha. Some a isso a Páscoa e as regras do altar. O padrão é forte e consistente.
Diante disso, formou-se uma leitura minoritária, defendida sobretudo em certos círculos dispensacionalistas dos séculos dezenove e vinte: a parábola seria uma advertência, e não uma promessa. A mulher seria figura de falsa doutrina e o fermento seria a corrupção que se infiltra na cristandade até dominá-la. O apoio dessa leitura é o padrão simbólico do restante das Escrituras, mais o fato de que a parábola vizinha do joio (versículos 24 a 30) fala de corrupção infiltrada.
A leitura majoritária, e antiga, vai no sentido contrário: o fermento é a força escondida e penetrante do Reino, e a parábola é gêmea da mostarda, com pequeno começo e resultado desproporcional. Três argumentos pesados a sustentam. Primeiro, a fórmula de abertura. Jesus não diz "guardem-se do fermento", como faz em Mateus 16; ele diz "o Reino dos céus é como o fermento". Segundo, o paralelismo. A mostarda, no versículo anterior, é sem dúvida positiva, e as duas parábolas têm a mesma arquitetura: algo mínimo, um agente humano, um resultado enorme. Ler uma como promessa e a outra como ameaça quebra o par. Terceiro, o fim da frase: "até tudo ficar fermentado". Na leitura negativa, esse "tudo" seria a derrota completa da verdade, o que não combina com o restante do capítulo, onde o joio é separado e queimado, e não vence.
Grau de certeza: alto de que a leitura positiva é a correta, e alto também de que a tensão simbólica é real, e não inventada. A leitura minoritária acerta o diagnóstico e erra a conclusão. Jesus sabia que estava pegando um símbolo sujo, e fez isso de propósito. O fermento não é imagem do Reino apesar de ser símbolo de contaminação: é imagem do Reino porque é símbolo de contaminação. O Reino age como uma contaminação, só que ao contrário: entra pequeno, some e toma tudo por dentro. É a lógica de outras imagens escandalosas de Jesus, como Deus comparado a um juiz injusto (Lucas 18:1-8) ou a vinda do Filho do Homem comparada à de um ladrão (Mateus 24:43). A força da comparação está no incômodo dela.
Há uma segunda questão, mais silenciosa. O fermento não age em cima da massa: age dentro. Não há transformação sem mistura, e não há mistura sem que o fermento deixe de ser visível como coisa separada. Uma religião que só sabe existir em separado, defendendo as próprias fronteiras, contradiz a imagem escolhida por Jesus. Mas um fermento que se dissolve a ponto de perder a natureza não fermenta nada: vira farinha. A parábola vive nessa tensão e não a resolve para nós. E vive numa terceira, a da inevitabilidade. Quem coloca o fermento não controla a fermentação; apenas a inicia e espera. A mulher trabalha de verdade, mas o crescimento não é obra dela. Boa parte da ansiedade religiosa por resultados visíveis nasce da confusão entre esses dois papéis.
7. Aplicações Práticas
Meça o seu trabalho pela fidelidade, não pelo tamanho. Uma conversa honesta, um perdão em silêncio, uma escolha limpa quando ninguém está olhando: isso é fermento. Pare de esperar a oportunidade grande.
Aceite que o principal do seu trabalho não vai aparecer. A mulher escondeu o fermento, e durante a maior parte do processo a tigela parecia parada. Se a sua régua for o efeito visível imediato, você vai desistir cedo demais de coisas que estavam funcionando.
Não fique só entre os seus. Fermento fora da massa não faz nada. Estar no trabalho difícil, na família complicada, no bairro que ninguém quer não é perda de tempo espiritual: é a posição de trabalho.
Cuide da sua natureza, e não só da sua presença. Estar misturado sem ser diferente é ser farinha. Pergunte com honestidade se ainda há em você algo que fermente.
Não permita fermento errado. A mesma lei serve para os dois lados. Uma amargura pequena, uma mentira pequena, uma tolerância com o que corrói: elas também tomam a massa inteira. Trate o pequeno enquanto é pequeno.
Deixe a farinha ser bastante. Trinta quilos. A parábola não fala em salvar um pedacinho do mundo. Amplie o alvo das suas orações e dos seus planos.
Assuma a espera como parte do trabalho. Massa em descanso não é massa esquecida. Aprenda a diferença entre desistir e esperar.
8. Perguntas e Respostas
1. De que modo a parábola do fermento ilustra a natureza do Reino dos céus?
Ela mostra quatro traços. O Reino começa pequeno, a ponto de parecer irrelevante. Age escondido. Trabalha de dentro para fora, transformando a massa em vez de substituí-la. E não para pela metade: chega até que tudo fique fermentado. É o oposto da expectativa política que a maioria dos contemporâneos de Jesus tinha do Messias: um reino instalado de fora para dentro, por força.
2. De que maneiras podemos participar ativamente da difusão da influência do Reino nas nossas comunidades?
A mulher faz três coisas concretas: toma o fermento, esconde na massa e amassa. Toma: ninguém fermenta com o que não tem. Esconde: a difusão acontece por dentro das relações reais, e não por meio de anúncios sobre nós mesmos. Amassa: há trabalho envolvido, e não apenas intenção. Na prática, fazer bem-feito o trabalho comum, manter a palavra, cuidar de quem não pode retribuir e permanecer onde é difícil permanecer.
3. Como o entendimento do contexto cultural e histórico do fermento melhora a nossa interpretação dessa parábola?
Muda tudo. Sem o contexto, o fermento é apenas um pó branco de padaria e a parábola vira uma frase simpática sobre crescimento. Com o contexto, aparecem duas coisas. Primeira: o fermento era um pedaço de massa velha em decomposição, e a religião de Israel o tratava como imagem de impureza, com uma varredura ritual anual para eliminá-lo. Jesus escolheu uma imagem chocante. Segunda: a quantidade de farinha é de banquete, e não de refeição diária. Sem o contexto, a parábola perde o que tem de mais afiado.
4. Quais são algumas ações pequenas que podemos praticar e que talvez causem um impacto significativo nas pessoas ao nosso redor, do mesmo modo que o fermento na massa?
Ouvir alguém até o fim sem interromper. Pagar o que se deve no dia combinado. Assumir um erro em voz alta em vez de terceirizar a culpa. Defender quem não está presente na conversa. Escrever para uma pessoa que está sozinha. Nenhuma dessas ações rende manchete, e o ponto é justamente esse: o fermento nunca aparece no pão pronto, mas o pão pronto existe por causa dele.
5. Como podemos permanecer pacientes e fiéis quando não vemos de imediato os resultados da influência do Reino na nossa vida ou nas nossas comunidades?
Lembrando de quem é o crescimento. A mulher não faz a massa crescer; ela cria a condição e espera. O verbo final está na voz passiva: a massa foi fermentada. A sua parte é colocar o fermento e amassar, e a fermentação tem tempo próprio, que não obedece à ansiedade de ninguém. Ajuda também a memória: quase tudo que hoje é grande na sua vida passou por uma fase em que parecia não estar acontecendo nada.
9. Conexão com Outros Textos
Lucas 13:20-21 — Essa passagem contém uma parábola paralela, que reforça a mensagem da influência penetrante do Reino. "E disse outra vez: A que compararei o Reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até tudo ficar fermentado." Em Lucas, a dupla mostarda-fermento aparece num contexto de conflito com o chefe da sinagoga, fora do bloco de Mateus 13. O texto é praticamente idêntico, o que indica uma tradição antiga e bem fixada.
1Coríntios 5:6-8 — Paulo usa o fermento como metáfora de influência, num contexto diferente, destacando o poder das coisas pequenas para afetar o todo. "A vossa jactância não é boa. Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? Limpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais massa nova, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, a nossa Páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso, celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da maldade, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade."
Gálatas 5:9 — De modo semelhante ao que ocorre em 1Coríntios, Paulo fala do fermento em termos de influência, enfatizando a importância da pureza na comunidade. "Um pouco de fermento leveda toda a massa."
Êxodo 12:15 — O uso do fermento no contexto da Páscoa oferece o pano de fundo para entender o significado simbólico dele na tradição judaica. "Sete dias comereis pães sem fermento; logo no primeiro dia tirareis o fermento das vossas casas; porque qualquer que comer pão levedado, desde o primeiro dia até ao sétimo, essa alma será eliminada de Israel."
Dois textos a mais, fora da lista original, que este estudo levantou:
Gênesis 18:6 — A mesma medida de farinha, no episódio da hospitalidade de Abraão aos três visitantes. "E Abraão apressou-se em ir ter com Sara à tenda, e disse-lhe: Amassa depressa três medidas de flor de farinha, e faze bolos."
Mateus 16:6 — O mesmo símbolo, com sinal invertido, na boca do mesmo mestre. "E Jesus disse-lhes: Adverti, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus."
10. Original Grego e Análise
Versículo (ABC): "Ele lhes contou ainda outra parábola: 'O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até tudo ficar fermentado.'"
Grego (Textus Receptus, Stephanus 1550): Ἄλλην παραβολὴν ἐλάλησεν αὐτοῖς· Ὁμοία ἐστὶν ἡ βασιλεία τῶν οὐρανῶν ζύμῃ ἣν λαβοῦσα γυνὴ ἐνέκρυψεν εἰς ἀλεύρου σάτα τρία ἕως οὗ ἐζυμώθη ὅλον
Transliteração: Allēn parabolēn elalēsen autois; Homoia estin hē basileia tōn ouranōn zymē, hēn labousa gynē enekrypsen eis aleurou sata tria heōs hou ezymōthē holon.
Palavra por palavra:
Ἄλλην (allēn) — "outra". Vem de allos, que significa outra do mesmo tipo, e não outra de tipo diferente. É um argumento gramatical em favor da leitura positiva, porque marca as duas parábolas como parceiras.
παραβολὴν (parabolēn) — "parábola". Formada por pará, "ao lado", e bállō, "lançar": algo lançado ao lado de outra coisa para comparação. Parábola não é código secreto; é comparação.
ἐλάλησεν (elalēsen) — "falou", no aoristo, o tempo grego do fato pontual e concluído.
Ὁμοία ἐστὶν (homoia estin) — "é semelhante". A fórmula fixa das parábolas do Reino em Mateus 13. A comparação não é entre o Reino e o fermento apenas, mas entre o Reino e a cena inteira, do fermento até a massa pronta.
ἡ βασιλεία τῶν οὐρανῶν (hē basileia tōn ouranōn) — "o Reino dos céus". Mateus prefere essa forma, enquanto Marcos e Lucas dizem "Reino de Deus". A explicação mais aceita é a reverência judaica, que evitava pronunciar o nome divino e usava "céus" como substituto. Basileia é mais "reinado", ação de reinar, do que "reino", território.
ζύμῃ (zymē) — "fermento", no caso dativo, o caso da comparação. É a palavra usada em todos os textos citados neste estudo, inclusive nas advertências de Jesus e de Paulo. Não há dois vocábulos, um bom e outro ruim: é o mesmo.
λαβοῦσα (labousa) — "tendo tomado". Particípio feminino. O primeiro ato é pegar: ninguém espalha o que não recebeu antes.
γυνὴ (gynē) — "mulher", palavra que serve também para esposa. Numa cultura em que o testemunho feminino tinha valor legal reduzido, colocar uma mulher como figura da ação do Reino não era neutro.
ἐνέκρυψεν (enekrypsen) — a palavra mais interessante do versículo. Formada por en, "dentro", e krýptō, "esconder" — a mesma raiz de "cripta" e de "criptografia". Significa literalmente "escondeu dentro". A maioria das traduções escreve "misturou", que descreve bem a ação prática mas apaga o verbo escolhido. O tema do escondido percorre o capítulo 13 inteiro: o tesouro escondido no campo, as coisas "ocultas desde a fundação do mundo" no versículo 35. O texto bizantino majoritário traz aqui a forma simples ékrypsen, sem o prefixo. A diferença é mínima e não altera o sentido, mas mostra de forma concreta como o texto que temos passou por mãos de copistas ao longo dos séculos.
εἰς ἀλεύρου σάτα τρία (eis aleurou sata tria) — "em três medidas de farinha". Áleuron é a farinha de trigo já moída e peneirada. Sáton é a transcrição grega do hebraico seá, e três seás formam uma efa. É a quantidade de Gênesis 18:6 e de Juízes 6:19.
ἕως οὗ (heōs hou) — "até que". Marca o ponto de chegada, e não uma possibilidade.
ἐζυμώθη (ezymōthē) — "foi fermentada". Aoristo passivo. A massa não fermenta a si mesma, e a mulher não a fermenta: ela foi fermentada. Para a maior parte dos estudiosos, temos aqui uma passiva divina, recurso judaico de falar da ação de Deus sem nomear Deus. Grau de certeza: médio-alto.
ὅλον (holon) — "tudo, o todo". Última palavra da parábola, e a mais categórica. Não sobra farinha crua.
11. Conclusão
Jesus tinha imagens nobres à disposição: fogo, trono, exército, tempestade. Escolheu um pedaço de massa azeda que uma dona de casa enfia numa tigela e cobre com o pano. Escolheu a imagem que a própria religião do seu povo mandava queimar uma vez por ano.
Não foi descuido. Foi precisão. O Reino não chega pelo caminho que o poder costuma usar. Chega pequeno, entra escondido e trabalha durante o tempo em que parece que nada acontece. Quem procura o Reino nos lugares grandes vai continuar não encontrando. Ele está na tigela.
Fica também o incômodo, honesto de manter aceso. A mesma lei serve para os dois lados: o que estraga também começa pequeno, entra escondido e toma tudo. Por isso a parábola não é só consolo. É responsabilidade. Aquilo que você põe dentro da massa da sua casa, do seu trabalho e da sua cabeça vai crescer, seja o que for.
Resta a última palavra do grego: hólon, o todo. Nada fica de fora. E a pergunta que sobra é simples e desconfortável: o que exatamente foi escondido dentro de você, e o que ele já está transformando?













