Quando ele chegou ao outro lado, à região dos gadarenos, foram ao seu encontro dois endemoninhados, que vinham dos sepulcros. Eles eram tão violentos que ninguém podia passar por aquele caminho.
1. Introdução
Jesus atravessa o mar da Galileia e desce numa margem diferente de tudo o que vinha percorrendo: uma região de maioria gentia, com porcos pastando e sepulcros cavados na rocha. Mal põe o pé em terra, dois homens dominados por demônios vêm ao seu encontro, saídos dos túmulos, tão ferozes que ninguém ousava passar por aquele caminho. É a abertura de um dos episódios mais estranhos e mais discutidos dos evangelhos.
Este primeiro versículo já traz duas questões que a honestidade obriga a colocar logo de saída. A primeira é geográfica: os manuscritos não concordam sobre o nome do lugar — gadarenos, gerasenos ou gergesenos —, e cada nome aponta para uma cidade diferente. A segunda é numérica: Mateus fala em dois endemoninhados, enquanto os relatos paralelos de Marcos e Lucas falam em um só. Não são detalhes menores, e não vamos escondê-los. Ao longo do estudo eles serão tratados com o grau de certeza que cada um comporta.
Mas o coração da cena não depende de resolver esses pontos. O que se vê aqui é o encontro entre o poder que liberta e a força que destrói, num lugar de morte, longe do território sagrado. Jesus não recua diante do que é impuro, feroz e desesperado. Ele avança.
2. Contexto Histórico e Cultural
A margem oriental do mar da Galileia pertencia ao mundo da Decápolis, um conjunto de cidades de cultura grega e romana, de população majoritariamente gentia. Isso explica quase tudo o que vem a seguir: os porcos pastando ali, animais impuros para os judeus, só fazem sentido numa terra onde a lei de Moisés não regia a mesa. Jesus, ao cruzar o lago, cruza também uma fronteira cultural — sai do mundo judeu e entra em território pagão.
Os sepulcros da região eram cavernas e câmaras escavadas na rocha. Morar entre os túmulos significava viver no lugar mais impuro que a cultura judaica podia imaginar: o contato com a morte contaminava, e habitar ali era estar duplamente excluído — da sociedade dos vivos e da pureza ritual. Os dois homens estão no fundo do poço social e espiritual: sem casa, sem convívio, temidos por todos.
Aqui é preciso encarar de frente o problema geográfico, com o grau de certeza que ele merece. Os manuscritos gregos divergem entre três nomes. "Gadarenos" aponta para Gadara, cidade importante a cerca de dez quilômetros do lago. "Gerasenos" aponta para Gerasa, cidade ainda mais distante, a dezenas de quilômetros. "Gergesenos" aponta para Gergesa, hoje identificada com o sítio de Kursi, o único dos três situado bem à beira da água, num ponto onde há de fato uma encosta íngreme descendo ao mar — o que combina com a manada que se precipita no lago mais adiante. A tradição textual que está por trás desta tradução usa a forma "gadarenos"; o texto grego de Scrivener, base do Novo Testamento adotada neste estudo, traz "Gergesenos"; e há ainda manuscritos com "gerasenos", que é a leitura mais provável em Marcos e Lucas. O mais honesto é dizer: houve variação real entre os copistas, provavelmente porque escribas em séculos posteriores tentaram harmonizar ou corrigir um nome que lhes parecia geograficamente difícil. A cena aconteceu na margem oriental, numa área ligada a essas cidades; o nome exato do ponto permanece incerto, e fingir certeza aqui seria desonestidade.
Há ainda a divergência quanto ao número de endemoninhados, que também vem de comparar os evangelhos e que trataremos adiante. Nada disso apaga o quadro histórico básico: uma terra gentia, um lugar de morte, e dois homens que ninguém mais conseguia dominar.
3. Análise Teológica do Versículo
“Quando Jesus chegou à outra margem, à região dos gadarenos”
Jesus atravessou o mar da Galileia para alcançar aquela região, parte da Decápolis, de significativa população gentia. A travessia representa o ministério de Jesus se estendendo para além do território judeu e antecipa, de longe, o alcance universal que o evangelho teria depois. Deus não se detém na fronteira do que é conhecido e puro.
“dois endemoninhados lhe saíram ao encontro, vindos dos sepulcros”
A menção a dois homens sublinha a gravidade da situação. Na cultura judaica, os sepulcros eram lugares impuros; viver entre eles indicava uma contaminação espiritual extrema e um afastamento total do convívio humano. O encontro demonstra o poder de Jesus sobre os espíritos do mal e ecoa a promessa de libertação para os cativos.
“Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho”
A violência daqueles homens mostra como o mal opera de forma destrutiva e como espalha o medo pela comunidade ao redor. Esse detalhe deixa clara a situação sem saída antes de Jesus intervir, e faz sobressair a autoridade dele para restaurar a paz onde reinava o caos. A libertação que virá antecipa a vitória final de Cristo sobre o mal.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus — a figura central, aquele que demonstra a sua autoridade sobre o mundo espiritual ao chegar naquela terra estrangeira.
Os dois endemoninhados — dois homens dominados por forças demoníacas, morando entre os sepulcros, imagem viva do poder destrutivo do mal sobre a pessoa.
Lugares
A terra dos gadarenos — região na margem oriental do mar da Galileia, de população gentia, o que mostra o ministério de Jesus ultrapassando as fronteiras judaicas. É justamente o nome desse lugar que os manuscritos disputam.
Os sepulcros — moradia dos dois homens, símbolo da morte e da impureza, e retrato da separação em relação à sociedade e a Deus.
Eventos
A violência que fechava o caminho — o comportamento dos dois homens impedia a passagem de qualquer um, revelando o caráter perturbador da influência demoníaca sobre um lugar inteiro.
5. Pontos de Ensino
A autoridade de Cristo
O encontro com os endemoninhados demonstra a autoridade suprema de Jesus sobre o mundo espiritual. Diante do poder dele sobre o mal, há motivo real para descanso e confiança.
Compaixão pelo excluído
Jesus se dirige justamente àqueles que a sociedade havia expulsado. Isso é um chamado a não desviar o olhar de quem está isolado ou sofrendo.
A realidade do conflito espiritual
A cena lembra que existe uma dimensão de luta espiritual, e que a vigilância e a dependência de Deus não são exagero, mas prudência.
Transformação por Cristo
A libertação daqueles homens ilustra o poder transformador de Jesus e convida a buscar a intervenção dele nas áreas de escravidão e luta.
Missão para além das fronteiras
O ministério de Jesus em terra gentia sublinha o chamado a levar a mensagem para além das barreiras culturais e geográficas.
6. Aspectos Filosóficos
A cena obriga a encarar uma pergunta que a mente moderna prefere adiar: o mal é apenas uma doença, um distúrbio da mente, ou existe nele algo pessoal, com vontade própria? O texto não descreve os dois homens como simplesmente doentes; descreve neles uma presença que fala, que reconhece Jesus e que negocia. É honesto reconhecer que muito do que o mundo antigo chamava de possessão hoje seria diagnosticado como enfermidade — e que confundir doença com demônio já causou muito dano. Mas seria igualmente desonesto reduzir toda a experiência humana do mal a um problema clínico. O evangelho afirma que há, por trás de certas formas de destruição, uma vontade contrária ao bem.
Há também uma pergunta sobre a liberdade. Aqueles homens perderam o domínio de si; alguém falava por eles, alguém os movia. A cena expõe o quanto a autonomia humana é frágil — o quanto uma pessoa pode ser habitada e conduzida por forças que não escolheu. E, contra esse pano de fundo, a chegada de Jesus é a chegada de uma autoridade que devolve o homem a si mesmo.
Por fim, o cenário — os túmulos — não é gratuito. A filosofia sempre reconheceu na consciência da morte um traço próprio do humano. Aqui, o poder que destrói escolheu morar exatamente onde a morte mora. E é para esse lugar, e não para longe dele, que Jesus se dirige.
7. Aplicações Práticas
Não fugir do que é difícil. Jesus desembarcou de propósito numa terra impura, cheia de sepulcros e de perigo. Há pessoas e situações das quais todos se afastam; seguir a Cristo às vezes é ir na direção contrária à do medo.
Enxergar a pessoa por trás do comportamento. Os dois homens eram violentos e temidos, mas Jesus viu neles cativos a serem libertos, não monstros a serem evitados. Vale treinar esse olhar diante de quem só nos causa rejeição.
Levar a sério a dimensão espiritual — sem histeria. O texto reconhece a realidade do mal, mas sem espetáculo. Nem negar que ele exista, nem ver demônio em cada esquina: o equilíbrio é a postura mais sã.
Aceitar os limites do que sabemos. Nem o nome exato do lugar nem o número exato de homens são certezas fechadas. Conviver com essas margens de incerteza, sem que a fé se abale por isso, é sinal de maturidade.
Buscar libertação real. Há formas de escravidão — vícios, ódios, compulsões — que uma pessoa sozinha já não consegue dominar, como aqueles homens que ninguém prendia. Reconhecer isso e buscar ajuda, humana e divina, é o começo da saída.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual é o significado de Mateus 8:28?
É a abertura do encontro de Jesus com dois homens dominados por demônios, numa terra gentia à beira do mar da Galileia. O versículo mostra Jesus atravessando fronteiras para alcançar os mais excluídos e apresenta, de saída, a autoridade que enfrentará o mal.
2. Como Mateus 8:28 demonstra a autoridade de Jesus sobre as forças demoníacas?
De forma indireta, pela tensão: dois homens que ninguém conseguia dominar vêm ao encontro de Jesus. A ferocidade que fechava o caminho aos outros não fecha o caminho a ele. A autoridade se revela plenamente nos versículos seguintes, mas já se anuncia aqui.
3. O que podemos aprender sobre o conflito espiritual em Mateus 8:28?
Que o mal é destrutivo e isolador — leva à morada entre os túmulos, à violência, à exclusão — e que a resposta não está na força humana, que ali já havia fracassado, mas na presença de Cristo.
4. Como Mateus 8:28 se conecta com Efésios 6:12 sobre as batalhas espirituais?
Efésios 6:12 diz que a luta não é contra carne e sangue, mas contra forças espirituais. A cena dá rosto a essa afirmação: por trás da violência dos dois homens há algo mais do que um problema humano, e é esse algo que Jesus confronta.
5. Como o cristão deve responder à opressão espiritual, a partir de Mateus 8:28?
Não com pânico nem com fascínio pelo mal, mas voltando-se para Cristo, que é quem tem autoridade. A cena mostra que o poder de libertar não é nosso; recorrer a ele é o caminho.
6. Que passos práticos podemos dar para depender do poder de Jesus sobre o mal?
Reconhecer as próprias escravidões com honestidade, buscar a comunidade e a oração, e não tentar vencer sozinho aquilo que já se mostrou maior do que as próprias forças — como os que tentavam prender os homens e não conseguiam.
7. Por que Jesus permitiu que os demônios entrassem nos porcos, mais adiante na cena?
O versículo 28 apenas prepara o quadro; a resposta se desenvolve nos versículos 30 a 32. Ali se verá que Jesus concede o pedido dos demônios, e o resultado — a destruição da manada — expõe publicamente o caráter mortífero deles e confirma a libertação dos homens.
8. O que Mateus 8:28 revela sobre a autoridade de Jesus sobre os espíritos malignos?
Revela que essa autoridade não tem limite de território nem de gravidade: ela alcança a terra pagã e o caso mais extremo, aquele que ninguém mais conseguia conter.
9. De que modo Mateus 8:28 desafia a nossa compreensão do conflito espiritual?
Desafia tanto quem nega qualquer realidade espiritual quanto quem vê o sobrenatural em tudo. O texto pede sobriedade: reconhece o mal como real e pessoal, mas o coloca sob os pés de Cristo, sem sensacionalismo.
9. Conexão com Outros Textos
“Assim que Jesus saiu do barco, veio das sepulturas ao seu encontro um homem com um espírito imundo,” (Marcos 5:2)
O relato paralelo descreve a mesma cena, mas fala em um só homem. É aqui que nasce a diferença de número entre os evangelhos, tratada adiante na análise: Marcos concentra o foco no caso mais notório.
“E quando ele desceu à terra, veio da cidade ao seu encontro um homem, que tinha demônios, e que havia muito tempo que não andava vestido, nem habitava em casa nenhuma, mas sim, nos sepulcros.” (Lucas 8:27)
Lucas também narra um único endemoninhado e detalha o abandono em que vivia — nu, sem casa, entre os túmulos —, confirmando o quadro de exclusão total.
“que morava nas sepulturas, e nem mesmo com correntes conseguiam mais prendê-lo;” (Marcos 5:3)
Explica por que ninguém podia passar por aquele caminho: a força daquele homem quebrava até as correntes. Marcos torna concreto o que Mateus resume como “tão ferozes”.
“Sentando-se junto às sepulturas, e passando as noites em lugares secretos; comendo carne de porco, e tendo caldo de coisas abomináveis em suas vasilhas.” (Isaías 65:4)
Isaías descreve, séculos antes, o retrato do afastamento de Deus: viver entre túmulos e comer carne de porco. A cena dos gadarenos reúne exatamente esses dois sinais de impureza extrema.
“Sua fama corria por toda a Síria, e traziam-lhe todos que sofriam de algum mal... e os endemoninhados... e ele os curava.” (Mateus 4:24)
Mostra que a libertação de endemoninhados era parte constante do ministério de Jesus, e não um episódio isolado; o que muda aqui é o cenário gentio e a intensidade do caso.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: Quando chegou à outra margem, à terra dos gergesenos, vieram ao seu encontro dois endemoninhados que saíam dos sepulcros. Eram tão violentos que ninguém conseguia passar por aquele caminho.
Texto grego: Καὶ ἐλθόντι αὐτῷ εἰς τὸ πέραν εἰς τὴν χώραν τῶν Γεργεσηνῶν, ὑπήντησαν αὐτῷ δύο δαιμονιζόμενοι ἐκ τῶν μνημείων ἐξερχόμενοι, χαλεποὶ λίαν, ὥστε μὴ ἰσχύειν τινὰ παρελθεῖν διὰ τῆς ὁδοῦ ἐκείνης·
Transliteração: Kai elthonti autō eis to peran eis tēn chōran tōn Gergesēnōn, hypēntēsan autō dyo daimonizomenoi ek tōn mnēmeiōn exerchomenoi, chalepoi lian, hōste mē ischyein tina parelthein dia tēs hodou ekeinēs.
Análise palavra por palavra:
- eis to peran (para a outra margem): marca a travessia do lago e a passagem do território judeu para a terra gentia.
- tēn chōran tōn Gergesēnōn (a região dos gergesenos): ponto exato da divergência textual. O grego de Scrivener adotado aqui traz “gergesenos”; outros manuscritos trazem “gadarenos” (como esta tradução em português) ou “gerasenos”. A variação é real e antiga.
- dyo daimonizomenoi (dois endemoninhados): particípio de daimonizomai, “estar sob o domínio de demônio”. O número “dois” é próprio de Mateus; Marcos e Lucas mencionam um só.
- ek tōn mnēmeiōn exerchomenoi (saindo dos sepulcros): mnēmeion é o túmulo, o monumento fúnebre; morar ali era a impureza levada ao extremo.
- chalepoi lian (extremamente ferozes): chalepos indica algo perigoso, difícil de tratar; lian reforça — “em grau altíssimo”.
- mē ischyein tina parelthein (ninguém tinha força para passar): ischyō é ter força, ser capaz. A força humana ali estava esgotada.
Nota teológica: a própria letra do versículo carrega as duas honestidades deste estudo. Onde a tradução portuguesa diz “gadarenos”, o grego de Scrivener diz “gergesenos” — prova, na origem, de que os copistas divergiram sobre o nome do lugar. E onde Mateus diz “dois”, os evangelhos paralelos dizem “um”. Nenhuma dessas variações toca o essencial — o poder de Cristo sobre o mal, numa terra de morte —, mas reconhecê-las é mais fiel ao texto do que fingir uma uniformidade que ele não tem. O grau de certeza sobre o nome exato do lugar é baixo; sobre o que aconteceu ali, é alto.
11. Conclusão
Mateus 8:28 é apenas a porta de entrada de uma cena maior, mas já diz muito. Mostra Jesus indo de propósito ao lugar que todos evitavam, cruzando a fronteira do puro para alcançar dois homens que a morte e o mal haviam tomado por inteiro. Onde a força humana havia fracassado — ninguém os prendia, ninguém passava por ali —, ele chega sem hesitar.
O versículo também nos ensina a ler a Bíblia com os olhos abertos. O nome do lugar oscila entre os manuscritos; o número de endemoninhados varia entre os evangelhos. Encarar essas diferenças com serenidade, dizendo o que é certo e o que é incerto, não enfraquece o texto: torna a leitura mais verdadeira. A Palavra que Deus fala através destas páginas não depende de uma harmonia forçada, e sim da realidade que elas testemunham.
E a realidade é esta: diante do caso mais desesperado, no cenário mais impuro, chegou Aquele que tem autoridade. O que os versículos seguintes vão narrar já começa aqui, no gesto de descer do barco e caminhar em direção à dor que ninguém mais queria tocar.













