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Mateus 16:6

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✍️ Por Alberto Adriano·2 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 32 acessos
Jesus lhes disse: “Fiquem atentos e tenham cuidado com o fermento dos fariseus e dos saduceus.”
Mãos amassando pão sobre uma bancada de pedra, com uma pequena porção de massa velha ao lado e um forno de barro aceso ao fundo.

Estudo


Jesus lhes disse: “Fiquem atentos e tenham cuidado com o fermento dos fariseus e dos saduceus.”

1. Introdução

A advertência chega sem aviso e sem explicação.

Ninguém perguntou nada. O grupo acabou de desembarcar, e a primeira frase registrada é um alerta sobre fermento — palavra que, dita assim, no meio de uma conversa sobre comida que ainda nem começou, pede tradução.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é a dobradinha de verbos. Não é um imperativo, são dois: reparem e guardem-se. O primeiro manda olhar, o segundo manda afastar-se. A ordem entre eles importa.

O segundo é a imagem do fermento. Ela só funciona se o leitor souber o que era fermento naquele mundo — que não é o pó de padaria de hoje — e por que a palavra carregava, na cultura judaica, uma carga negativa que a nossa não tem.

O terceiro é o que fica em aberto. Jesus não diz do que está falando. A identificação só virá no versículo 12, e o mal-entendido que ocupa os versículos 7 a 11 existe porque aqui não houve explicação.

Quem eram fariseus e saduceus, e por que a aliança entre eles é estranha, está no versículo 1 e não se repete aqui.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que era fermento no primeiro século

A palavra engana o leitor moderno, e o engano estraga a imagem.

Não havia fermento biológico industrializado, vendido em envelope. O que se usava era outra coisa: guardava-se um pedaço da massa da fornada anterior, deixava-se azedar por alguns dias, e esse pedaço era amassado junto com a farinha nova. A massa velha contaminava a massa nova, e a nova crescia.

É o mesmo princípio da massa azeda que os padeiros artesanais usam hoje. Só que sem controle nenhum: o que fazia a massa crescer eram micro-organismos que ninguém sabia que existiam, e o processo era descrito pelo que se via — a massa inchava, mudava de cheiro, ficava ácida.

Duas características desse processo explicam a força da imagem.

A primeira é a desproporção. Um punhado de massa velha transforma um tanque inteiro de massa nova. A quantidade não guarda relação com o efeito.

A segunda é a invisibilidade. Depois de misturado, o fermento não se separa mais. Não há como olhar a massa e apontar onde ele está, nem como retirá-lo. Ele age por dentro, sem ser visto, e não tem volta.

Por que a associação era com corrupção

Na Antiguidade, fermentação e apodrecimento eram vistos como o mesmo fenômeno.

A explicação está formulada com clareza em Plutarco (escritor e sacerdote grego dos séculos I e II), nas Questões Romanas (obra em que ele investiga a origem de costumes religiosos de Roma). Ao perguntar por que o sacerdote de Júpiter não podia tocar em fermento, ele responde que o fermento nasce de corrupção e corrompe a massa em que é misturado, porque a fermentação é uma forma de putrefação.

Daí decorre que "fermento", como figura, não significasse crescimento nem vitalidade. Significava contaminação que se espalha.

A festa dos pães sem fermento

Nada tornou a palavra mais carregada, para um judeu, do que a Páscoa.

Êxodo 12:15-20 determina que, durante sete dias, não haja fermento nas casas — e a instrução é dura: quem comer pão fermentado nesse período será cortado de Israel. Êxodo 13:7 repete que não se veja fermento em todo o território. Deuteronômio 16:3 chama o pão sem fermento de "pão da aflição", porque saíram do Egito às pressas, sem tempo de deixar a massa crescer.

O motivo original, portanto, é histórico: a saída foi rápida demais para esperar a massa. Mas a prática produziu, com o tempo, uma associação moral — o fermento passou a ser o que precisa ser expulso.

A limpeza da casa antes da Páscoa

A obrigação de não ter fermento em casa gerou um ritual doméstico que existe até hoje.

Antes da festa, a casa é varrida inteira à procura de qualquer resto de massa fermentada. A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, organizada por volta do ano 200 d.C.) descreve a busca feita na noite anterior, com uma luz na mão, examinando fendas e cantos.

Convém marcar a cautela de sempre: a Mishná é posterior ao Novo Testamento, e usá-la para reconstruir o primeiro século exige cuidado. Ainda assim, a obrigação bíblica já existia, e alguma prática de limpeza certamente acompanhava a festa.

O que interessa aqui é a imagem que se forma na cabeça de quem ouve. Fermento não é algo de que se toma distância: é algo que se procura para eliminar, porque um resto esquecido num canto já basta.

O fermento que a lei manda usar

Este é o dado que quase nunca aparece na pregação, e sem ele a leitura fica torta.

O fermento não é sempre negativo na lei de Israel. Levítico 2:11 proíbe fermento e mel nas ofertas de cereais queimadas no altar. Mas Levítico 7:13 manda oferecer bolos de pão fermentado junto com o sacrifício de ação de graças, e Levítico 23:17 determina que os dois pães apresentados na festa das semanas sejam assados com fermento.

Ou seja: o mesmo texto que expulsa o fermento da Páscoa o exige em outras festas. A carga negativa é real, mas não é absoluta, e depende do contexto ritual.

Há ainda Amós 4:5, onde o profeta manda, com ironia evidente, que queimem oferta de ação de graças com fermento — usando a prática correta para escancarar que o culto deles está errado por dentro.

Registrar isso importa por dois motivos. Primeiro, porque impede tratar "fermento" como código fixo para pecado. Segundo, porque prepara o leitor para a inversão de Mateus 13:33, tratada no item 9.

3. Análise Teológica do Versículo

"Jesus lhes disse"

Vale reparar em quem fala e em que ninguém perguntou.

A advertência não responde a nada. Não há pergunta, não há situação que a peça, não há menção prévia a fariseus na conversa dos discípulos. Jesus abre o assunto sozinho.

Isso muda o peso da frase. Não é um comentário lateral sobre o episódio da margem anterior: é o que ele julgou necessário dizer assim que desembarcaram.

E o destinatário é interno. A discussão pública terminou no versículo 4, com a partida; agora ele fala ao próprio grupo, sobre quem ficou do outro lado.

"Fiquem atentos e tenham cuidado"

São dois verbos, e a duplicação não é enfeite.

O primeiro é o de olhar, ver, reparar. O segundo é o de guardar-se de alguma coisa, manter distância. Um manda perceber; o outro manda proteger-se.

A ordem entre eles diz algo sobre o tipo de perigo. Não se pode evitar o que não se percebeu — e o fermento, pela natureza da imagem, é justamente aquilo que age sem ser notado. Por isso o primeiro passo é enxergar.

Há também um detalhe de tempo verbal com efeito prático: os dois imperativos estão na forma que indica ação contínua, não pontual. Não é "reparem agora"; é "andem reparando". A advertência descreve um estado de atenção permanente, e não uma providência a tomar naquele dia.

Uma observação sobre o segundo verbo. Ele é o mesmo que Mateus usa em outras duas advertências: em Mateus 7:15, contra falsos profetas que vêm em pele de ovelha, e em Mateus 10:17, contra homens que entregarão os discípulos aos tribunais.

O padrão é revelador. Nos três casos, o perigo é de alguém que se aproxima parecendo outra coisa. Não se adverte contra o inimigo declarado — adverte-se contra o que chega disfarçado.

"com o fermento"

A imagem é escolhida, e escolher fermento em vez de veneno ou de espinho define exatamente o tipo de perigo.

Veneno mata quem o toma. Espinho fere quem o pisa. Fermento é diferente das duas coisas: ele não destrói, ele transforma. A massa continua sendo massa — só que agora é outra massa, com outro sabor, outro volume, outra textura.

Três características da imagem carregam o argumento.

A primeira é a desproporção entre causa e efeito. Pouco fermento basta para muita massa, e esse ponto será explicitado por Paulo, em duas cartas, na fórmula que virou provérbio: um pouco de fermento leveda toda a massa.

A segunda é a invisibilidade. Depois de misturado, não se acha mais. Não há como isolar a parte contaminada.

A terceira é o tempo. Fermento age devagar e sozinho, sem que ninguém precise fazer nada. Quem misturou não precisa continuar presente.

Juntas, essas três coisas descrevem um perigo específico: o que entra em pequena quantidade, não se deixa localizar depois e continua trabalhando sem supervisão.

"dos fariseus e dos saduceus"

A junção dos dois grupos aparece pela terceira vez no capítulo, e ela tem uma implicação que costuma passar despercebida.

Fariseus e saduceus discordavam quase inteiramente. Se o fermento fosse o conteúdo doutrinário de cada grupo, não haveria como falar de "o fermento" no singular — seriam dois fermentos opostos.

Mas o texto usa o singular e um único artigo para os dois nomes, apresentando-os como um bloco. O detalhe gramatical é o mesmo do versículo 1 e foi tratado ali.

Isso empurra a leitura numa direção: o que os dois têm em comum não são as teses, é o modo. Alguma coisa que atravessa as duas escolas apesar da divergência entre elas.

Vale marcar o limite. O texto não diz o que é. A identificação virá no versículo 12, e é dela que depende toda a discussão.

As três versões da advertência

Os evangelhos não dizem a mesma coisa aqui, e a diferença é informativa.

Mateus escreve "dos fariseus e dos saduceus". Marcos 8:15 escreve "o fermento dos fariseus e o fermento de Herodes" — dois fermentos, não um, e o segundo é político, não religioso. Lucas 12:1 traz a advertência em outro contexto e a resolve na hora: "o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia".

Três observações sobre isso.

Lucas é o único que explica na mesma frase. Nos outros dois, o ouvinte fica sem chave — e em Mateus a chave só vem seis versículos depois.

A troca de Herodes por saduceus, entre Marcos e Mateus, foi explicada de vários modos. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) registra a hipótese de que a corte de Herodes fosse saduceia em teologia, o que aproximaria os dois nomes. Outros veem escolhas editoriais diferentes. Não é possível decidir.

E a definição de Lucas — hipocrisia — não coincide com a de Mateus 16:12, que fala de ensino. As duas leituras convivem no Novo Testamento e não se reduzem uma à outra.

O que a advertência pressupõe

Há uma coisa que a frase supõe sem dizer, e que vale explicitar.

Adverte-se contra o que pode acontecer. Se o perigo fosse impossível, a frase seria inútil. Ou seja: o texto trata os discípulos como gente que pode, sim, ser contaminada por aquilo.

Não são apresentados como imunes por estarem do lado certo. É uma leitura que o versículo sustenta, embora não a enuncie.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem ouve

Os discípulos, recém-desembarcados na margem oriental. O versículo 5 não nomeia o lugar; Marcos 8:22 fala de Betsaida.

Eles são os destinatários exclusivos. Não há multidão, não há adversário presente. É a primeira conversa fechada do capítulo.

Os fariseus e os saduceus

Os mesmos do versículo 1, que ficaram na outra margem. O par aparece cinco vezes em Mateus, quatro delas neste capítulo.

O que interessa aqui não é quem eles eram — assunto do versículo 1 — mas o fato de continuarem em cena depois de terem saído dela. Jesus atravessou o lago e ainda está falando deles.

Herodes, na versão de Marcos

Marcos 8:15 põe Herodes onde Mateus põe os saduceus. Trata-se de Herodes Antipas, tetrarca da Galileia e da Pereia, o mesmo que mandou executar João Batista em Mateus 14:1-12.

Os chamados herodianos aparecem em Mateus 22:16, aliados aos fariseus na pergunta sobre o tributo. Não formavam uma escola religiosa: eram um grupo de apoio político à dinastia.

A festa dos pães sem fermento

Sete dias imediatamente após a Páscoa, em que era proibido ter fermento em casa. Com o tempo, o nome passou a designar o conjunto da celebração, e Lucas 22:1 chega a usar os dois nomes como equivalentes.

É a experiência que dá à palavra "fermento" o peso que ela tem na boca de um judeu.

5. Pontos de Ensino

O perigo que interessa é o que não se vê

A escolha da imagem define o tipo de ameaça. Fermento não ataca: mistura-se.

Um inimigo declarado dispensa advertência, porque já foi identificado. O que exige alerta é aquilo que entra sem ser percebido — e é por isso que o primeiro dos dois verbos manda olhar.

O mesmo padrão aparece nas outras advertências de Mateus com o mesmo verbo: falsos profetas em pele de ovelha, em Mateus 7:15, e homens que parecem inofensivos, em Mateus 10:17.

Quantidade pequena, efeito total

A desproporção é o coração da imagem, e ela contraria o cálculo comum.

Tendemos a avaliar o risco pelo tamanho: pouca coisa, pouco efeito. Fermento funciona ao contrário — a dose mínima transforma o todo, porque o que ele faz não é somar, é multiplicar-se.

Aplicado a ideias e a hábitos, o ponto é que não existe "um pouco" de certas coisas. A quantidade inicial não determina o resultado.

O que é diferente pode ter o mesmo defeito

Fariseus e saduceus divergiam em quase tudo, e a advertência é sobre um fermento no singular.

Isso ensina a olhar para além do conteúdo das posições. Dois grupos opostos podem compartilhar o modo de operar, e o modo pode ser o problema, não a tese.

É observação de utilidade ampla: em política, em igreja, em família, os adversários mais ferrenhos costumam ser parecidos em tudo, menos naquilo sobre o que discordam.

A advertência supõe que o discípulo é vulnerável

Não se avisa quem não corre risco.

O versículo trata os próprios seguidores como gente que pode absorver aquilo. Não há aqui nenhuma imunidade concedida por pertencimento — e essa é uma das leituras mais desconfortáveis da frase.

A imagem não é fixa

O mesmo fermento que aqui significa contaminação significa, em Mateus 13:33, o Reino que cresce escondido.

Disso decorre uma regra de leitura que vale para a Bíblia inteira: figuras não são códigos. O sentido vem do uso, não do objeto — e quem monta um dicionário de símbolos bíblicos vai errar em metade dos casos.

6. Aspectos Filosóficos

A questão que o versículo levanta

Diante de uma doutrina que se considera errada, o que se faz: afasta-se dela ou expõe-se a ela?

O versículo escolhe o afastamento. A instrução é guardar-se, manter distância, não deixar aquilo entrar. E a imagem reforça a escolha: com fermento não se negocia, porque uma vez misturado não sai mais.

É exatamente a posição contrária à que John Stuart Mill (filósofo e economista inglês do século XIX) defende no capítulo II de On Liberty ("Sobre a Liberdade", livro de 1859), intitulado "Da liberdade de pensamento e de discussão".

O que Mill sustenta

O argumento dele tem quatro passos, e vale expô-los inteiros porque a força está no encadeamento.

O primeiro: a opinião que se quer calar pode ser verdadeira. Negar isso é supor a própria infalibilidade — e a história está cheia de verdades que começaram como heresias.

O segundo: mesmo que seja falsa, ela pode conter uma parte da verdade. Opiniões correntes raramente têm razão inteira, e é do choque com as contrárias que a parte que falta costuma aparecer.

O terceiro, e é o que Mill considera decisivo: mesmo que a opinião corrente seja inteiramente verdadeira, se não for contestada, será mantida como preconceito. Quem nunca precisou defender o que pensa não sabe por que pensa aquilo.

O quarto: sem confronto, a própria doutrina perde sentido. Vira fórmula repetida, "dogma morto" na expressão dele, palavras que se dizem sem que produzam efeito nenhum sobre a vida de quem as diz.

Onde os dois se chocam

O choque é direto e não adianta suavizá-lo.

Mill diria que o remédio contra o ensino dos fariseus é examiná-lo em público, refutá-lo, e sair mais forte do exame. O versículo diz para não chegar perto.

Cada um tem um pressuposto diferente sobre como as ideias funcionam.

Para Mill, o contato com o erro é depurador: quem enfrenta a objeção compreende melhor a própria posição. Para a imagem do fermento, o contato é o próprio mecanismo do dano — não há exame que não contamine, porque o que se examina já entrou.

E há um segundo desacordo, sobre a natureza do risco. Mill trata de argumentos, que se avaliam pela razão. O fermento descreve influência que age sem passar pela avaliação consciente — devagar, por dentro, sem que a pessoa perceba que está mudando.

Onde a oposição é menor do que parece

Feita a exposição do choque, é preciso desfazer parte dele, porque a oposição frontal não se sustenta inteira.

Mill argumenta contra a proibição — contra o poder do Estado ou da maioria de impedir que algo seja dito. O versículo não proíbe nada. Não manda calar fariseu nenhum, não manda impedi-los de ensinar, não pede autoridade sobre eles. Fala a um grupo de doze pessoas sobre o que deixar entrar em si mesmas.

A diferença é grande. Uma coisa é dizer "isto não pode ser dito"; outra é dizer "cuidado com o efeito disso em você". Mill não tem objeção à segunda, e ele próprio adverte, ao longo do livro, contra a pressão da opinião corrente sobre o indivíduo.

Mais: o próprio capítulo que antecede este versículo mostra Jesus fazendo o que Mill recomenda. Nos versículos 1 a 4 há discussão pública com os adversários, com argumento e contra-argumento. A advertência do versículo 6 vem depois do debate, não no lugar dele.

Isso enfraquece a leitura de que o texto ensine a evitar o contraditório. O que ele desaconselha é a exposição sem defesa, não a exposição.

Onde a aproximação não vale

Convém marcar os limites da comparação, que é do comentarista e não do texto.

Mill escreve sobre a organização de uma sociedade livre, com o poder político no horizonte. Mateus registra um alerta particular de um mestre aos seus. Os dois não estão respondendo à mesma pergunta, e tratá-los como adversários diretos é forçar a mão.

Também é preciso dizer que o argumento de Mill tem críticos sérios, e não só entre religiosos. Discute-se se o confronto de ideias de fato favorece a verdade, ou se favorece o que é mais persuasivo; se todas as posições merecem igual espaço; se a metáfora do mercado de ideias descreve alguma coisa real. A discussão está longe de encerrada.

O que sobra

Sobra uma tensão que não se resolve, e é honesto deixá-la de pé.

Mill tem razão em que a convicção não examinada apodrece — e o próprio evangelho parece concordar, já que registra debate público em vez de silenciamento. O versículo tem razão em que existe influência que não passa pelo exame racional, e contra a qual argumentar não protege.

Nenhum dos dois cobre o caso do outro. Quem só aplicar Mill tratará como debate o que é contágio; quem só aplicar o versículo transformará prudência em recusa de pensar.

7. Aplicações Práticas

Reparar antes de evitar

A ordem dos dois verbos é a instrução prática mais direta do versículo.

Não se pode se guardar do que não se identificou. Quem tenta se proteger sem antes entender do que se protege acaba fugindo do que é inofensivo e absorvendo o que importa.

Na prática, isso significa nomear a coisa. Que exatamente incomoda naquele discurso, naquele ambiente, naquela amizade? Enquanto a resposta for um mal-estar difuso, não há como agir.

Cuidado com o que entra devagar

A imagem descreve influência lenta, contínua e imperceptível — não um evento.

É assim que funcionam os ambientes em que se passa muito tempo: o trabalho, o grupo de mensagens, o que se assiste todo dia. Nenhum deles muda alguém numa tarde, e todos mudam alguém em dois anos.

O sinal de alerta útil não é o desconforto, é a naturalização. Quando algo que incomodava há um ano já não incomoda, alguma coisa fermentou.

Não medir o risco pela quantidade

Pouco fermento, muita massa. O cálculo intuitivo — "é só um pouco" — é exatamente o que a imagem desmonta.

Isso vale para hábitos que se justificam pela pequenez: a mentira pequena de trabalho, o valor pequeno que não se registra, o pequeno desprezo por um tipo de gente. Nenhum deles é problema pelo tamanho.

Prudência não é recusa de pensar

Aqui é preciso cuidado, porque este versículo é usado para justificar o que ele não autoriza.

Ele não manda não ler, não ouvir e não conversar com quem discorda. Nos versículos anteriores há discussão pública e direta com os mesmos adversários de quem agora se manda guardar.

A diferença prática está entre examinar e absorver. Quem lê para entender está numa posição; quem se instala num ambiente e deixa que ele o forme está em outra.

Vale a honestidade de reconhecer que a linha entre as duas nem sempre é visível de dentro.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Jesus não explicou logo o que era o fermento?

O texto não diz.

O que se pode observar é o efeito: sem a explicação, houve mal-entendido, e do mal-entendido nasceram seis versículos de ensino. Lucas 12:1 mostra que a explicação podia ter vindo junto, porque lá ela vem.

Se a omissão é deliberada, se é traço da fonte que Mateus usou, ou se as duas coisas, é discutido e não se resolve.

Se fariseus e saduceus discordavam, como pode haver um só fermento?

Esta é a pergunta boa do versículo, e ela tem uma resposta provável.

O singular e o artigo único sugerem que o problema não está nas teses de cada grupo, mas em algo comum ao modo dos dois. Marcos 8:15, ao falar em dois fermentos, aponta noutra direção.

Nenhuma das duas leituras se impõe. O que se pode afirmar é que Mateus escolheu o singular.

Fermento é sempre símbolo de pecado na Bíblia?

Não, e essa é uma das confusões mais comuns.

Levítico 7:13 e Levítico 23:17 exigem pão fermentado em ofertas específicas. Mateus 13:33 compara o Reino a fermento escondido na farinha. A carga negativa é frequente, sobretudo por causa da Páscoa, mas não é regra sem exceção.

Este versículo autoriza evitar quem pensa diferente?

A pergunta merece resposta cuidadosa, porque o texto é usado assim.

O versículo é uma advertência sobre influência, dirigida a um grupo pequeno, sobre adversários com quem Jesus acabara de discutir publicamente. Não há nele ordem de separação social, nem proibição de contato, nem instrução sobre como tratar quem discorda.

Extensões são possíveis, e cada uma é responsabilidade de quem a faz.

9. Conexão com Outros Textos

O fermento como imagem no restante do Novo Testamento

1 Coríntios 5:6-8 — "Não sabem que um pouco de fermento leveda toda a massa? Limpem-se do fermento velho, para que sejam massa nova, assim como estão sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Portanto façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade."

É a passagem mais desenvolvida sobre o assunto no Novo Testamento, e ela faz três coisas de uma vez.

Primeiro, enuncia o princípio da desproporção como coisa sabida — "não sabem que". Segundo, aplica a imagem a um caso concreto de conduta tolerada dentro da comunidade, e não a doutrina. Terceiro, usa a limpeza doméstica da Páscoa como figura da limpeza da igreja, o que só funciona para quem conhece o ritual.

Repare na diferença em relação a este versículo. Em Mateus o fermento vem de fora e a instrução é guardar-se; em Paulo o fermento já está dentro e a instrução é expulsar.

Gálatas 5:9 — "Um pouco de fermento leveda toda a massa."

A mesma frase, agora sem desenvolvimento, aplicada a quem estava introduzindo a exigência da circuncisão entre os cristãos da Galácia. Aqui, sim, o alvo é ensino — o que aproxima o uso de Paulo do que Mateus 16:12 dirá.

Que a frase apareça idêntica em duas cartas, para públicos diferentes, sugere que já circulava como provérbio.

Lucas 12:1 — "Acautelem-se do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia."

A mesma advertência com a explicação embutida, e uma explicação que não coincide com a de Mateus 16:12.

Marcos 8:15 — "Olhem, guardem-se do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes."

Dois fermentos, e o segundo não é uma escola religiosa: é uma corte.

A inversão que merece ser notada

Mateus 13:33 — "O Reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo ficou levedado."

Esta é a mesma palavra, no mesmo evangelho, com o sinal trocado.

E o que se inverte não é a mecânica, é a avaliação. As três características continuam idênticas: quantidade pequena, ação escondida, efeito sobre a massa inteira. O que muda é se isso é bom ou ruim.

A observação tem consequência para o modo de ler. Uma figura bíblica não carrega um valor fixo; ela descreve um funcionamento, e o valor vem de quem está agindo. Fermento é aquilo que transforma tudo a partir de muito pouco — e essa descrição serve tanto para o Reino quanto para a corrupção.

Vale registrar que parte dos comentaristas resistiu a essa leitura de Mateus 13:33 justamente por não aceitar que o fermento pudesse ser positivo, e propôs entender a parábola como descrição de corrupção dentro da igreja. É leitura minoritária hoje, e o contexto das parábolas vizinhas — o grão de mostarda, que cresce de pequeno a grande — favorece o sentido positivo.

O fermento na lei

Êxodo 12:15 — "Sete dias comerão pães sem fermento; logo no primeiro dia tirarão o fermento das suas casas."

Levítico 2:11 — "Nenhuma oferta de cereais que oferecerem ao SENHOR será feita com fermento."

Levítico 7:13 — "Com os bolos oferecerá pão levedado pela sua oferta, com o sacrifício de ação de graças."

O contraponto indispensável, e o texto que impede tratar fermento como código para pecado.

Amós 4:5 — "E queimem oferta de ação de graças do que é levedado, e apregoem ofertas voluntárias, porque assim é que vocês gostam, ó filhos de Israel."

Ironia do profeta: cumprem o rito com exatidão, inclusive no detalhe do fermento, e é isso mesmo que ele está denunciando.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Jesus lhes disse: “Fiquem atentos e tenham cuidado com o fermento dos fariseus e dos saduceus.”

Texto grego

ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς· Ὁρᾶτε καὶ προσέχετε ἀπὸ τῆς ζύμης τῶν Φαρισαίων καὶ Σαδδουκαίων.

Transliteração

ho de Iēsous eipen autois: Horate kai prosechete apo tēs zymēs tōn Pharisaiōn kai Saddoukaiōn.

Análise palavra por palavra

Ὁρᾶτε — horate, "vejam, reparem". Presente do imperativo, segunda pessoa do plural, de horaō.

O verbo é o de ver com os olhos, mas também o de perceber, dar-se conta. Dele vem horama, visão, e o grupo de palavras ligadas à visão em geral.

Usado sozinho no imperativo, funciona como chamada de atenção, próximo de "olhem lá" ou "atenção". Mateus o emprega assim em outros pontos: em Mateus 8:4, quando manda que o leproso curado não conte a ninguém, e em Mateus 9:30, na mesma situação.

O presente do imperativo, em grego, indica ação continuada. Não é uma ordem para um momento; é para um estado que se mantém.

προσέχετε ἀπό — prosechete apo, "guardem-se de". Presente do imperativo de prosechō, com a preposição apo.

O verbo é composto de pros, "em direção a", com echō, "ter, segurar". Literalmente, é "voltar a mente para", prestar atenção. Sozinho, significa atentar, dedicar-se, ocupar-se de algo.

Com a preposição apo, que indica afastamento, o sentido muda: a atenção passa a ser defensiva. "Prestar atenção a partir de" quer dizer manter-se longe, precaver-se contra.

A construção é usada por Mateus em três advertências, e vale ver as três juntas. Em Mateus 7:15, contra falsos profetas; em Mateus 10:17, contra homens que perseguirão; e aqui, nos versículos 6 e 11, contra o fermento.

Também aparece em Mateus 6:1, na abertura do bloco sobre esmola, oração e jejum: "guardem-se de praticar a sua justiça diante dos homens para serem vistos por eles". Ali o perigo não vem de fora — vem da própria conduta religiosa, o que é uma coincidência de tema com este versículo que merece registro.

A repetição dos dois imperativos no presente, um atrás do outro, produz uma ênfase que a tradução em português tende a diluir.

ἀπὸ τῆς ζύμης — apo tēs zymēs, "do fermento".

Zymē designa a substância que faz a massa crescer — na prática do primeiro século, uma porção de massa velha e azeda guardada da fornada anterior. A palavra está aparentada com zeō, "ferver", e a ligação faz sentido: a massa que fermenta borbulha e incha como se estivesse ao fogo.

Nos dicionários gregos o termo carrega, por extensão, o sentido de influência que penetra e altera — e, especificamente na literatura judaica e cristã, o de corrupção moral que se propaga.

No Novo Testamento a palavra aparece treze vezes. Concentra-se neste episódio, nos versículos 6, 11 e 12 de Mateus 16, com os paralelos de Marcos 8:15 e Lucas 12:1. Fora daqui, está em Mateus 13:33 e Lucas 13:21, nas parábolas do Reino, e em 1 Coríntios 5:6-8 e Gálatas 5:9, em Paulo.

Note-se o singular. Não são os fermentos dos dois grupos: é um fermento só, atribuído aos dois.

O termo hebraico correspondente, na lei, é se'or ("massa levedada guardada para fermentar a próxima"), distinto de chametz ("aquilo que já está fermentado"). A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.) usa zymē para o primeiro, e é dessa família de textos que vem a carga da palavra.

τῶν Φαρισαίων καὶ Σαδδουκαίων — tōn Pharisaiōn kai Saddoukaiōn, "dos fariseus e saduceus".

Novamente um único artigo cobre os dois nomes, apresentando-os como bloco. O ponto gramatical foi tratado no versículo 1 deste capítulo e não se repete.

O que vale acrescentar aqui é a combinação com o singular de zymē. Um artigo, um fermento, dois grupos: a construção inteira empurra para a leitura de que se trata de algo comum aos dois, e não da soma de duas doutrinas.

Marcos 8:15 faz o contrário e repete a palavra: "o fermento dos fariseus e o fermento de Herodes". A diferença de construção acompanha a diferença de conteúdo.

11. Conclusão

Do versículo decorrem quatro conclusões.

A primeira é sobre o tipo de perigo que a imagem descreve. Fermento não fere nem destrói: transforma por dentro, a partir de quantidade mínima, sem ser visto e sem que ninguém precise continuar agindo. Disso decorre que a advertência não seja sobre ameaça externa e reconhecível, mas sobre influência que já está operando quando alguém a percebe.

A segunda é sobre a ordem dos verbos. Reparar vem antes de guardar-se, e a sequência é necessária, não estilística: o que age escondido não pode ser evitado enquanto não for identificado. A advertência, portanto, exige trabalho de percepção antes de qualquer providência.

A terceira é sobre o singular. Um só fermento para dois grupos que discordavam de quase tudo aponta para algo comum ao modo de operar dos dois, e não para a soma das teses de cada um. Mateus escolheu essa construção; Marcos 8:15 escolheu outra, com dois fermentos. A escolha de Mateus não é acidental, ainda que o texto não a explique.

A quarta é sobre o silêncio. A frase não diz do que fala, e é esse vazio que produz os cinco versículos seguintes. A explicação existe — virá no versículo 12 —, mas só depois do erro, e vale registrar que o evangelho não trata isso como defeito do ensino.

Resta o contrapeso que impede o exagero. O mesmo evangelho usa a mesma palavra, em Mateus 13:33, para o Reino que cresce escondido, e a mesma lei que expulsa o fermento na Páscoa o exige nas ofertas de ação de graças. A figura descreve um funcionamento, não um valor — e é por isso que a advertência precisou nomear de quem era o fermento.

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Mateus 16:6

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