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Mateus 22:32

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 3 acessos
‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’? Ele não é Deus de mortos, mas de vivos!”
Jesus fala diante de um grupo de homens calados no pátio do templo, enquanto ao fundo a multidão se aproxima para ouvir.

Estudo


‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’? Ele não é Deus de mortos, mas de vivos!”

1. Introdução

A prova é uma frase de apresentação que não fala de mortos, de ressurreição nem de futuro. Deus diz a Moisés quem ele é, nomeando três homens que já estavam sepultados havia séculos.

Da citação, Jesus tira uma conclusão em uma linha, e essa linha não está no Êxodo: é premissa dele. Há duas explicações concorrentes para o lugar onde está a força do argumento — o tempo do verbo ou a fórmula da aliança —, e a diferença entre elas decide se o raciocínio funciona em hebraico ou só em grego. Resta ainda uma pergunta que os comentaristas discutem com honestidade: o argumento prova que os patriarcas estão vivos, o que não é a mesma coisa que provar que os corpos deles vão se levantar.

2. Contexto Histórico e Cultural

A pergunta “a Torá ensina a ressurreição?” não foi inventada nesta cena nem resolvida nela. Ela atravessou séculos de discussão judaica, e o modo como os mestres a enfrentaram ajuda a ver o que Jesus está fazendo.

As tentativas rabínicas de achar a ressurreição na Lei

O Talmude Babilônico conserva uma sequência dessas tentativas no tratado Sanhedrin (90b-91a), e todas têm a mesma estrutura: alguém encontra, num versículo que fala de outra coisa, uma palavra que só faz sentido se os mortos voltarem.

Rabi Iohanan parte de Números 18:28, que manda dar a oferta a Arão — e Arão nunca entrou na terra prometida. Se a ordem vale para o futuro, Arão terá de estar lá para recebê-la. Rabi Simai parte de Êxodo 6:4, onde Deus diz ter estabelecido a sua aliança para dar a terra “a eles”, e não “a vocês”: se a promessa é para os patriarcas, os patriarcas voltarão para receber. Rabban Gamaliel usa Deuteronômio 11:21 pelo mesmo caminho — a terra jurada “a eles” — e, em outra versão da discussão, Deuteronômio 4:4, onde “vivos todos vocês hoje” é lido como anúncio de que viverão também depois.

O mesmo tratado registra o outro lado. Quando Gamaliel oferece provas tiradas da Lei, dos Profetas e dos Escritos, cada uma é rebatida: a de Deuteronômio 31:16 é desfeita por uma divisão diferente da frase; a de Isaías 26:19 é atribuída aos mortos que Ezequiel reanimou; a do Cântico dos Cânticos é explicada como movimento dos lábios de quem dorme.

Duas coisas saem disso. A primeira é que o argumento deste versículo pertence a um gênero conhecido: achar a ressurreição onde o texto fala de outra coisa, a partir de uma palavra pequena. A segunda é que o gênero tinha defesa conhecida, e a defesa era reinterpretar a palavra pequena. Aqui não há registro de contra-argumento — os saduceus não respondem.

O material é posterior aos evangelhos na forma em que chegou até nós, e por isso não serve como fonte do que Jesus disse. Serve como prova de que a discussão era essa, e de que ela continuou por séculos depois.

“Não morrem para Deus, mas vivem para Deus”

Existe um texto judaico anterior que usa quase as palavras desta cena. O quarto livro dos Macabeus, obra escrita em grego, provavelmente no primeiro século, trata do martírio e sustenta que os que morrem por Deus continuam vivos para ele. Num dos trechos a formulação é esta: eles creem que, como os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, não morrem para Deus, mas vivem para Deus (4 Macabeus 7:19); e mais adiante, em resumo: os que morrem por causa de Deus vivem para Deus (4 Macabeus 16:25).

A coincidência é grande, e sobretudo com Lucas, que fecha o episódio com “porque para ele todos vivem” (Lucas 20:38). Os três patriarcas aparecem no texto macabaico no mesmo papel que têm aqui: o de exemplo de quem morreu e permanece vivo diante de Deus. Não é possível decidir se há dependência de um texto em relação ao outro; o mais provável é que ambos usem uma formulação que já circulava.

O que os saduceus negavam, exatamente

Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, descreve a posição deles em termos que importam para medir o alcance deste argumento. Na Guerra dos Judeus (2.165) ele escreve que os saduceus suprimem a permanência da alma e as recompensas e punições depois da morte. Não é apenas a ressurreição dos corpos que eles negavam: era a sobrevivência da pessoa, em qualquer forma.

Isso muda o peso do que Jesus diz. Se o adversário negasse somente o levantar-se dos corpos, admitindo alma imortal, provar que os patriarcas vivem seria pouco. Negando as duas coisas, basta provar que eles vivem para que a posição inteira caia. É a diferença entre vencer metade da discussão e vencê-la toda, e ela depende de um dado histórico, não do texto.

3. Análise Teológica do Versículo

“Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”

A citação é de Êxodo 3:6, a fala na sarça, e ela chega aqui recortada: a primeira parte do versículo, “o Deus do seu pai”, fica de fora. Faz sentido dentro do argumento, porque a discussão é sobre os três patriarcas e não sobre o pai de Moisés.

O que a citação tem de próprio em Mateus é o começo. Marcos traz “Eu, o Deus de Abraão”; Lucas não cita em primeira pessoa, e fala do Senhor como “o Deus de Abraão”. Mateus é o único dos três que escreve “Eu sou”. O verbo que o argumento usa, portanto, está em Mateus e não está nos outros dois.

O segundo traço da citação é a repetição. Não se lê “o Deus de Abraão, Isaque e Jacó”, com um título e três nomes, mas “o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”, com o título repetido a cada um. Bengel, comentarista alemão do século XVIII, notou que a repetição corresponde a um fato da narrativa do Gênesis: cada um dos três recebeu a promessa diretamente, em cena própria. São três relações, e não uma relação com uma família.

Onde está a força do argumento

A pergunta é esta: por que uma frase de apresentação prova que os mortos vivem? Duas respostas foram dadas, e elas não são compatíveis.

Primeira leitura: a força está no tempo do verbo. Deus não diz “eu era” o Deus desses homens; diz “eu sou”. Como eles já estavam mortos quando a frase foi pronunciada, a relação que o presente afirma existe com alguém — logo, eles não estão simplesmente acabados. Barnes, comentarista norte-americano do século XIX, chegou a calcular os intervalos: Abraão havia morrido mais de três séculos antes da cena da sarça, Isaque e Jacó cerca de dois.

Essa leitura tem um problema sério, e ele é interno ao Novo Testamento. O verbo que a sustenta não aparece em Marcos nem em Lucas, e não existe na frase hebraica do Êxodo, cuja forma está examinada no estudo de Êxodo 3:6. Se a prova depende do presente, ela só funciona na versão de Mateus e na tradução grega do Antigo Testamento.

Segunda leitura: a força está na fórmula da aliança. Bengel sustentou expressamente que o peso “não consiste no verbo”, e o Expositor’s Greek Testament (“Testamento Grego do Expositor”, série inglesa de comentários sobre o original) diz o mesmo: a ênfase recai sobre a relação contida na expressão “Deus de Abraão”.

O raciocínio, nesta leitura, é sobre o que um título relacional exige. “Deus de alguém” não é uma descrição de Deus, como “eterno” ou “justo”: é o nome de um vínculo, e vínculo tem duas pontas. Dizer-se o Deus de Abraão quando não há mais Abraão nenhum seria dizer-se o Deus de nada. Bengel desenvolve o ponto pelo lado da promessa: ser o Deus de alguém é um dom, e um dom que não se esgota numa vida curta.

A segunda leitura é mais forte por dois motivos. Ela não depende de um verbo que dois dos três evangelhos não têm, e funciona igualmente em hebraico, em grego e em português. O preço dela é não ser gramatical: é um raciocínio sobre o significado de uma relação, e quem não aceitar que o título obriga a algo não é alcançado.

“Ele não é Deus de mortos, mas de vivos!”

Esta frase não está no Êxodo. Ela é de Jesus, e é a premissa que transforma a citação em prova.

Posto assim, o argumento tem três peças, e a Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) as enuncia na ordem: Deus é Deus de vivos; Deus é o Deus de Abraão; logo Abraão vive. A conclusão segue, e tudo depende da primeira peça — que não é citada de texto nenhum.

Por que ela deveria ser aceita? O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) responde que Deus não pode estar em relação pessoal de aliança com pó e cinza, porque relação pessoal exige alguém do outro lado. É um argumento sobre o tipo de Deus que a Lei descreve: um Deus que faz promessas, jura, se compromete e é chamado pelo nome dos parceiros. Nenhuma dessas coisas se faz com um cadáver.

E é aqui que se deve registrar o que o texto não diz. Os saduceus poderiam ter negado essa primeira peça — poderiam ter dito que “Deus de Abraão” significa apenas “o Deus que tratou com Abraão enquanto ele vivia”. Mateus não registra que tenham tentado. Se é porque não tinham resposta ou porque a cena está contada do ponto de vista de quem venceu, não é possível decidir.

Sem artigo nos dois substantivos

“Mortos” e “vivos”, no grego, vêm sem artigo. A frase não diz “os mortos” e “os vivos”, como grupos determinados, e sim mortos e vivos como classes. O sentido é de categoria: Deus não é de gente morta, é de gente viva. A diferença é pequena e evita um mal-entendido — não se está falando de um grupo específico de mortos, mas da condição.

O que o argumento prova, e o que não prova

Esta é a questão mais delicada do versículo, e os comentaristas clássicos a enfrentaram sem disfarce.

Barnes reconhece que a passagem não prova diretamente a ressurreição do corpo: ela prova que os patriarcas existiam, isto é, que estavam vivos de algum modo. Isso é sobrevivência, não ressurreição. O Pulpit Commentary e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) dão o passo seguinte por outro caminho: se o ser humano é corpo e alma, estar vivo em sentido pleno implica recuperar o corpo, e por isso a ressurreição decorre. A Cambridge Bible propõe uma solução intermediária, com os patriarcas vivos à espera da ressurreição.

O dado histórico resolve a dificuldade sem precisar escolher entre essas saídas. Os saduceus, segundo Josefo, negavam também a permanência da alma (item 2). Para quem nega as duas coisas, provar que Abraão vive é suficiente: a posição inteira cai. Jesus não precisava dar o passo que os comentaristas depois tentaram dar, porque o adversário dele não admitia o ponto intermediário.

Isso significa que o versículo, lido com rigor, prova menos do que se costuma dizer e exatamente o que a discussão exigia. Transformá-lo em demonstração da ressurreição dos corpos é acrescentar um passo que o texto não dá — e é um acréscimo tão antigo que quase nunca aparece como acréscimo.

O que Lucas acrescenta, e o que Marcos acrescenta

Lucas fecha com uma frase que os outros dois não têm: “porque para ele todos vivem” (Lucas 20:38). O alcance muda — não são os três patriarcas que vivem diante de Deus, são todos. O Expositor’s Greek Testament observa que, com esse acréscimo, a conclusão deixa de valer apenas para os grandes nomes do povo.

Marcos fecha de outro modo: depois de dizer que Deus não é de mortos, acrescenta “vocês, pois, muito se enganam” (Marcos 12:27). Ele repete a acusação do início e a reforça com “muito”. Mateus não a repete: a última palavra do discurso dele é sobre Deus, não sobre os adversários.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Abraão

O primeiro dos três, e o único que recebe o título duas vezes na frase da sarça — porque “o Deus do seu pai”, parte cortada na citação, já aponta para ele. Morreu em idade avançada e foi sepultado na caverna comprada em Hebrom. Entre a morte dele e a cena da sarça passaram-se mais de três séculos, pela cronologia que os comentaristas do século XIX calculavam a partir dos números do Gênesis.

Isaque

O filho da promessa, o único dos três patriarcas que não sai da terra, sepultado no mesmo lugar que o pai. A promessa foi repetida a ele em cena própria, e é isso que justifica a repetição do título na fórmula.

Jacó

O terceiro, que morre no Egito e é levado de volta para ser sepultado com os pais. Dos três, é o que está mais perto, no tempo, da cena da sarça — e mesmo assim já estava morto havia gerações quando as palavras foram ditas.

A fórmula dos três nomes

Mais que uma lista: uma identificação de Deus pela relação com pessoas determinadas. Ela aparece em Êxodo 2:24, 3:6, 3:15, 4:5 e em outros pontos do Pentateuco, e atravessa a Bíblia até o discurso de Estêvão em Atos 7:32. Nos evangelhos sinóticos, ela aparece uma vez em cada um, e sempre nesta discussão.

Mortos e vivos

Não são personagens, e sim as duas classes em que a frase final divide a humanidade. A divisão é usada para dizer de qual delas Deus é Deus — e, por consequência, em qual delas estão os três homens nomeados.

Os saduceus, calados

Com esta frase termina a resposta a eles, e eles não respondem. Lucas registra que escribas presentes aprovaram a resposta; Mateus registra o espanto das multidões. De réplica saducéia, nenhum dos três evangelhos traz notícia.

5. Pontos de Ensino

Deus se apresenta por quem ele conhece

Na frase citada, Deus não se identifica por poder, por atributos nem por obras: identifica-se por três nomes de pessoas. É uma maneira de dizer quem ele é que depende de outros existirem. Essa escolha de autoapresentação é o fundamento do argumento, e é também um ensino por si: o Deus da Lei é descrito por vínculos, não só por qualidades.

Um vínculo tem duas pontas

O raciocínio funciona porque “Deus de alguém” não é adjetivo, é relação. Relações exigem que os dois lados existam. Aplicado ao caso, isso significa que a promessa feita a uma pessoa não se extingue com o enterro dela sem que a palavra dada fique sem destinatário.

A prova mais forte pode estar no lugar menos óbvio

O texto citado não fala de ressurreição, de morte nem de futuro. É uma apresentação. A lição de método é que um argumento pode vir do que um texto pressupõe, e não do que ele enuncia — e que ler bem inclui perceber o que uma frase exige para ser verdadeira.

Diga o que a prova prova

O argumento estabelece que os patriarcas vivem. Daí até a ressurreição dos corpos há um passo, e o passo não está neste versículo. Reconhecer isso não enfraquece o texto: protege-o de ser usado para mais do que ele sustenta, o que é a maneira mais comum de desgastar um argumento bom.

Três relações, não um grupo

A repetição do título a cada nome impede a leitura coletiva. Não se trata do Deus de uma linhagem, trata-se do Deus de Abraão, e do Deus de Isaque, e do Deus de Jacó. Quem é contado pelo sobrenome não aparece nessa fórmula; quem aparece é nomeado.

A última palavra pode ser sobre Deus

Marcos termina o episódio voltando aos adversários — “vocês, pois, muito se enganam”. Mateus termina com uma frase sobre Deus. A diferença é de foco, e o foco de Mateus é o que faz o espanto das multidões, no versículo seguinte, recair sobre o ensino e não sobre a derrota de alguém.

6. Aspectos Filosóficos

O argumento deste versículo depende de uma suposição que ele não discute: que exista alguém para o nome “Abraão” nomear. Essa é uma das perguntas mais trabalhadas da filosofia moderna, e ela tem nome — o problema da identidade pessoal ao longo do tempo.

O problema

O que faz de alguém hoje a mesma pessoa de trinta anos atrás? O corpo não serve como critério simples, porque a matéria dele foi quase toda trocada. A memória também não, porque falha, tem lacunas e pode ser enganada. E, se nem corpo nem memória bastam, fica difícil dizer o que exatamente persiste.

No caso do versículo, o problema aparece em forma extrema. Entre o Abraão que morreu e o alguém de quem Deus diz ser o Deus passaram-se séculos, e não há corpo, continuidade física nem atividade registrada. A frase precisa que haja um alguém; não diz o que faz dele o mesmo.

Sydney Shoemaker e a continuidade psicológica

Sydney Shoemaker (1931-2022), filósofo norte-americano, é o nome mais associado à posição de que o que constitui uma pessoa ao longo do tempo não é o corpo, e sim a ligação entre os seus estados mentais. O livro em que ele firmou a tese é de 1963 — Autoconhecimento e identidade pessoal.

A contribuição dele começa por uma objeção que ele mesmo levou a sério. Se dizemos que alguém é a mesma pessoa de antes porque se lembra do que fez, o critério gira em falso: lembrar-se de ter feito algo já pressupõe ser quem o fez. A memória não pode fundar a identidade se depende dela. Shoemaker trabalhou anos nessa dificuldade e propôs sair dela trocando a memória por um conjunto mais largo de ligações causais entre estados mentais — intenções que continuam, crenças que persistem, caráter que se mantém —, de modo que a identidade não repouse sobre uma única lembrança.

E ele usou, para mostrar onde a intuição aponta, uma situação imaginária que ficou famosa. Suponha que os estados mentais de uma pessoa fossem transferidos para outro corpo. Para onde iria ela? A resposta que quase todo mundo dá, e que Shoemaker defendia, é que a pessoa acompanha os estados mentais, não a carne. Se isso está certo, a matéria do corpo não é o que decide quem é quem.

O terceiro critério, que é o do versículo

Posta a discussão ao lado do texto, aparece uma diferença que vale mais do que a semelhança. Shoemaker, como quase toda a filosofia que trata do assunto, procura um critério interno à pessoa: corpo, memória, ligações mentais. A frase de Jesus não oferece critério nenhum desse tipo. Ela identifica Abraão por uma relação externa: Abraão é aquele de quem Deus é o Deus.

É um deslocamento inteiro do problema. Em vez de perguntar o que, na pessoa, garante que ela continua a mesma, o argumento pergunta quem a reconhece como a mesma. A continuidade não está do lado do morto, está do lado de quem o nomeia — e isso explica por que a prova funciona sem dizer nada sobre corpo, alma, pó ou memória.

O limite dessa observação deve ser dito com clareza. O versículo não ensina uma teoria da identidade pessoal; ele faz um argumento e segue adiante. Dizer que o texto adota um “critério relacional de identidade” é leitura de comentarista, não afirmação de Mateus. O que se pode afirmar é mais modesto e ainda assim notável: o raciocínio dispensa tudo aquilo que a filosofia considera indispensável para o caso, e não deixa de concluir.

O preço de cada caminho

Nenhuma das saídas é gratuita. Pela matéria, não se sobrevive nem a esta vida, porque as células se renovam. Pela memória, o critério gira em falso, como Shoemaker mostrou. Pelas ligações mentais, é preciso aceitar que a mesma pessoa possa estar num corpo inteiramente outro — e quem acha isso inaceitável costuma achá-lo inaceitável justamente porque a palavra “ressurreição” tem “corpo” dentro. Pela relação, como no versículo, é preciso aceitar que a identidade de alguém possa estar garantida por fora dele, o que resolve a pergunta metafísica transferindo-a para a fidelidade de outro. Não é possível decidir entre essas opções por argumento; o que se pode fazer é saber qual delas se está usando.

7. Aplicações Práticas

O que a frase autoriza dizer num velório

Esta é a aplicação direta, e ela precisa de precisão. O versículo autoriza dizer que a relação de Deus com uma pessoa não termina no enterro dela. Não descreve onde essa pessoa está, não diz o que ela percebe, não promete reencontro. Dentro desse limite, é uma das afirmações mais fortes da Bíblia sobre os mortos — e ela se perde quando é inflada, porque o enlutado percebe o exagero.

Promessas feitas a alguém não caducam com ele

O raciocínio tem uma consequência que extrapola o tema da morte. Se uma promessa vale, ela vale enquanto houver a quem valer, e quem prometeu continua devedor. Aplicado à vida comum: compromissos assumidos com pessoas determinadas não se dissolvem porque as circunstâncias mudaram — e quem os assume fica preso a eles do modo como a frase da sarça mostra Deus preso aos três nomes.

Não use um argumento para além do que ele prova

O texto prova que os patriarcas vivem; não prova, por si, a ressurreição dos corpos. Quem o usa para a conclusão maior abre o flanco: basta o interlocutor notar o passo faltante para que o argumento inteiro pareça falso. A prática útil, em qualquer discussão, é dizer até onde a prova chega e trazer outra para o resto do caminho.

Ser conhecido por nome

Na fórmula, cada patriarca tem o título repetido para si. É uma observação que resiste ao sentimentalismo porque está na gramática da frase: a relação não é com um povo, com uma linhagem ou com uma média. Para quem se sente diluído em números — num cadastro, numa estatística, numa multidão —, o detalhe tem uso prático: é possível pertencer a um grupo e, dentro dele, ser nomeado.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O argumento depende do tempo do verbo?

Depende, se for lido do primeiro modo; não depende, se for lido do segundo. E há um dado que favorece a segunda leitura: o verbo “sou” não aparece em Marcos nem em Lucas, nem na frase hebraica do Êxodo. Bengel afirmava expressamente que a força não está no verbo, e sim na fórmula “Deus de Abraão”. A questão continua discutida.

Por que Deus não poderia ser chamado “Deus de mortos”?

O versículo não explica, e a frase é premissa, não conclusão. A justificativa que os comentaristas oferecem é sobre o tipo de relação em jogo: jurar, prometer, comprometer-se e ser chamado pelo nome de alguém são coisas que não se fazem com quem deixou de existir. Quem não aceitar essa justificativa não é alcançado pelo argumento, e os saduceus poderiam tê-la contestado. Não consta que tenham tentado.

Isso prova a ressurreição ou só que a alma sobrevive?

Prova, em rigor, que os patriarcas vivem. Barnes reconhecia isso e dizia que a ressurreição do corpo decorre com mais facilidade depois de estabelecido o primeiro ponto. O que resolve a objeção não é um passo lógico, e sim o adversário: segundo Josefo, os saduceus negavam também a sobrevivência da pessoa, de modo que provar o primeiro ponto derrubava a posição deles por inteiro.

Por que o título se repete três vezes?

Porque a promessa foi feita três vezes, a três pessoas, em cenas distintas do Gênesis. Bengel liga a repetição a esse fato. A consequência é que a fórmula identifica indivíduos, e não uma família — o que o argumento aproveita, porque é de indivíduos nomeados que ele precisa.

Os mortos, então, estão vivos agora?

O versículo afirma que Deus é Deus de vivos e que ele é o Deus de três homens mortos havia séculos. A conclusão de que esses três vivem é a do próprio texto. Como vivem, onde, com ou sem corpo, com ou sem consciência — nada disso é dito, e as respostas que a tradição deu a essas perguntas vieram de outros lugares. Lucas é quem amplia o alcance, com “para ele todos vivem”.

Por que Mateus não repete a acusação no fim, como Marcos?

Marcos fecha com “vocês, pois, muito se enganam”; Mateus fecha com a frase sobre Deus. Mateus não explica a escolha. O efeito é que o episódio termina num enunciado sobre quem Deus é, e não numa derrota de adversários — e é esse enunciado que as multidões ouvem.

Havia judeus que já faziam esse raciocínio?

Havia raciocínios do mesmo tipo, que buscavam a ressurreição em palavras pequenas da Lei, e o Talmude conserva vários. Havia também, no quarto livro dos Macabeus, a afirmação de que os patriarcas não morrem para Deus, mas vivem para ele — formulação muito próxima da de Lucas. A relação exata entre esses textos e o episódio permanece em aberto.

9. Conexão com Outros Textos

A frase citada, e as outras ocorrências da fórmula

Êxodo 2:24 — “E Deus ouviu o gemido deles, e Deus se lembrou da sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó.”

A ocorrência imediatamente anterior, e a que liga a fórmula à aliança — que é onde a segunda leitura do argumento localiza a sua força.

Atos 7:32 — “Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. E Moisés, todo trêmulo, não ousava olhar.”

A citação de Estêvão, com o plural “teus pais” onde o Êxodo traz o singular.

O mesmo argumento nos outros dois evangelhos

Marcos 12:26-27 — “Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. Deus não é dos mortos, mas Deus dos vivos; vocês, pois, muito se enganam.”

Sem o verbo “sou” no grego, e com a acusação repetida no fim.

Lucas 20:38 — “Ora, Deus não é Deus de mortos, e sim de vivos; porque para ele todos vivem.”

Com o acréscimo que estende a conclusão a todos, e não só aos três patriarcas.

Textos que chamam de vivos os que morreram

Hebreus 11:13 — “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas, vendo-as de longe, creram nelas e as saudaram.”

Hebreus 11:16 — “Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial. Por isso Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porque já lhes preparou uma cidade.”

A carta aos Hebreus usa a mesma expressão — ser chamado o Deus deles — e a liga a uma promessa não cumprida nesta vida. É o desenvolvimento mais próximo do raciocínio deste versículo em todo o Novo Testamento.

Lucas 16:22 — “Morreu também o rico, e foi sepultado. E o mendigo foi levado pelos anjos para o seio de Abraão.”

Numa parábola, Abraão aparece como alguém que recebe — isto é, como alguém que está ativo depois de morto. A imagem é do judaísmo do período e não está no Antigo Testamento.

As promessas feitas aos três, e não cumpridas na vida deles

Gênesis 13:15 — “porque toda a terra que você vê, eu a darei a você e à sua descendência para sempre.”

Gênesis 50:24 — “E José disse a seus irmãos: ‘Eu vou morrer, mas Deus certamente virá em socorro de vocês e os fará subir desta terra para a terra que jurou dar a Abraão, a Isaque e a Jacó.’”

A promessa de terra, feita a quem morreu sem a possuir. É dela que os mestres citados no item 2 tiravam o argumento da ressurreição: a promessa dada “a eles” exige que eles voltem para recebê-la.

O que a Bíblia hebraica diz dos mortos, do outro lado

Eclesiastes 9:5 — “Porque os vivos sabem que morrerão, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem têm eles recompensa; porque a sua memória é esquecida.”

Salmo 115:17 — “Os mortos não louvam ao SENHOR, nem os que descem ao silêncio.”

Os textos que a leitura deste versículo precisa levar em conta, e que descrevem os mortos como inativos. Eles não negam a ressurreição; descrevem a condição dos que morreram, e a tensão entre as duas linhas atravessa o Antigo Testamento.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’? Ele não é Deus de mortos, mas de vivos!”

Texto grego (Textus Receptus)

Ἐγώ εἰμι ὁ Θεὸς Ἀβραὰμ καὶ ὁ Θεὸς Ἰσαὰκ καὶ ὁ Θεὸς Ἰακώβ; οὐκ ἔστιν ὁ Θεὸς Θεὸς νεκρῶν, ἀλλὰ ζώντων.

Transliteração

Egō eimi ho Theos Abraam kai ho Theos Isaak kai ho Theos Iakōb? ouk estin ho Theos Theos nekrōn, alla zōntōn.

Análise palavra por palavra

Ἐγώ εἰμι — egō eimi, “eu sou”. Pronome de primeira pessoa somado ao presente do indicativo do verbo “ser”.

O pronome é dispensável em grego, porque a terminação do verbo já indica a pessoa; quando aparece, é por ênfase. E o verbo também poderia faltar: o grego constrói frases nominais sem ele, e é assim que Marcos cita a mesma passagem — “Ἐγὼ ὁ Θεὸς Ἀβραάμ”, “eu, o Deus de Abraão”, sem verbo nenhum. Mateus é o único dos três evangelhos em que ele está escrito.

A frase hebraica correspondente, em Êxodo 3:6, não tem verbo, e esse dado está examinado no estudo daquele versículo. A tradução grega do Antigo Testamento o acrescenta, porque é assim que o grego formula apresentações.

A expressão “eu sou” tem, no Novo Testamento, um uso teológico carregado, sobretudo no evangelho de João. Aqui ela não está nesse uso: é apresentação comum, do tipo que qualquer pessoa faria ao se identificar.

ὁ Θεὸς Ἀβραὰμ καὶ ὁ Θεὸς Ἰσαὰκ καὶ ὁ Θεὸς Ἰακώβ — ho Theos Abraam kai ho Theos Isaak kai ho Theos Iakōb, “o Deus de Abraão e o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”.

Os três nomes estão indeclinados, como é regra no grego da Septuaginta para nomes hebraicos: a relação de posse se faz pela posição, não por terminação. A tradução por “de Abraão” é a correta.

O artigo antes de cada “Deus” é o dado desta linha. O Expositor’s Greek Testament observa que a tradução grega do Antigo Testamento não traz o artigo repetido assim, e que Mateus o traz. Com ele, cada expressão vira um título fechado: o-Deus-de-Abraão, o-Deus-de-Isaque, o-Deus-de-Jacó. Sem ele, a leitura “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó” seria mais natural, e os três ficariam agrupados.

A repetição da conjunção “e” entre os três, em vez de uma lista com vírgulas, trabalha no mesmo sentido: separa em vez de reunir.

οὐκ ἔστιν ὁ Θεὸς Θεὸς νεκρῶν — ouk estin ho Theos Theos nekrōn, “Deus não é Deus de mortos”.

A construção tem dois “Θεός”, um com artigo e outro sem, e isso não é redundância. O que tem artigo é o sujeito — Deus, aquele de quem se fala —, e o que não tem é o predicado: “de mortos” o qualifica. O Expositor’s Greek Testament explica a diferença: com o artigo no sujeito, a frase diz que Deus não pertence aos mortos; sem ele, diria apenas que ele não é um deus de mortos.

Aqui está a variante textual do versículo. O segundo Θεός está no Textus Receptus e no texto bizantino; vários manuscritos antigos e a tradução latina o omitem, e as edições críticas em geral o deixam fora, resultando em “Deus não é de mortos”. Bengel registra os dois lados e observa que Orígenes, no terceiro século, conhecia a forma mais longa. A ABC segue o Textus Receptus, e traduz “Ele não é Deus de mortos”.

Marcos distribui as palavras de outro modo: no Textus Receptus, o segundo “Deus” aparece do lado dos vivos — “não é Deus de mortos, mas Deus de vivos”. O sentido é o mesmo; a simetria é diferente.

νεκρῶν … ζώντων — nekrōn … zōntōn, “de mortos … de vivos”. Dois genitivos plurais, e nenhum dos dois leva artigo.

Nekros é o adjetivo “morto”, aqui substantivado. Zōntōn é particípio presente ativo de zaō, “viver” — ao pé da letra, “dos que vivem”, e não “dos vivos” como classe fixa. O particípio presente põe a vida em curso.

A ausência de artigo nos dois é o que dá à frase o sentido de categoria em vez de grupo: não “os mortos” e “os vivos”, mas mortos e vivos.

ἀλλὰ — alla, “mas”. A adversativa forte, que não atenua o que foi negado: substitui.

A pontuação, que é decisão de editor

O grego antigo não tinha sinais de pontuação, e as edições modernas os acrescentam. Neste versículo a decisão importa: a citação do Êxodo pode ser fechada com interrogação, ligando-a à pergunta do versículo anterior — “vocês não leram…?” —, ou com ponto. A ABC fecha com interrogação, e isso mantém a citação dentro da pergunta, deixando a frase final como comentário de Jesus. É a leitura que as edições gregas em geral adotam, e ela deixa claro que a última frase não faz parte da citação.

11. Conclusão

O versículo é a prova e a conclusão do episódio, e dele saem quatro conclusões.

A primeira é sobre o lugar da força. Duas explicações disputam: o presente do verbo e a fórmula da relação. A segunda é mais robusta, porque o verbo não existe em Marcos, em Lucas nem no hebraico — se o argumento dependesse dele, dependeria da versão de um evangelho. O que sustenta a prova, portanto, é menos a gramática do que o significado de chamar-se “Deus de alguém”.

A segunda é sobre a peça que Jesus acrescenta. “Ele não é Deus de mortos, mas de vivos” não está no Êxodo. Sem ela, a citação não conclui nada; com ela, conclui. Isto é, a prova é feita de um texto antigo mais uma premissa fornecida por quem argumenta — e dizer isso não a enfraquece, porque toda prova a partir de citação funciona assim. O que seria errado é apresentar a premissa como se ela estivesse na Lei.

A terceira é sobre o alcance. O raciocínio estabelece que os três patriarcas vivem, e isso não é, por si, a ressurreição dos corpos. O passo adicional foi tentado pelos comentaristas, e não está no texto. Diante de adversários que negavam qualquer sobrevivência, provar o primeiro ponto bastava — e é por isso que Jesus não precisou do segundo.

A quarta é sobre o modo de identificar alguém. O argumento não diz o que resta de Abraão, não fala de corpo, de alma nem de memória. Identifica-o por quem o reconhece. A continuidade da pessoa fica do lado de quem a nomeia, e não do lado do que nela sobreviveu — e é essa transferência que permite à prova funcionar sem descrever nada do outro mundo.

Resta a nota sobre o que o episódio não resolve. A tensão com os textos que descrevem os mortos como inativos continua de pé; a questão de onde e como os patriarcas vivem não é tocada; e o silêncio dos saduceus pode ser derrota ou pode ser o modo como o evangelho conta uma vitória. Nada disso impede a conclusão que o versículo tira, e tudo isso limita o que se pode construir sobre ela.

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Mateus 22:32

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