Também estabeleci com eles a minha aliança, para lhes dar a terra de Canaã, a terra em que moraram como estrangeiros.
1. Introdução
O versículo é o segundo degrau da fala, e traz uma novidade que passa despercebida por ser uma subtração.
Deus está resumindo a Moisés a aliança feita com os patriarcas. E o resumo tem um conteúdo só: dar a terra de Canaã. Nada de descendência como as estrelas, nada de bênção para todas as famílias da terra, nada de reis, nada de sinal no corpo. A aliança do Gênesis era larga; a aliança lembrada aqui é um contrato de terra.
O segundo dado está no fim da frase, e é um detalhe de identificação. A terra é apresentada como aquela em que eles moraram como estrangeiros — no passado, fechado. Quem ouve o recado nunca viu esse lugar. Conhece-o de ouvir falar, e é por essa cláusula que vai reconhecê-lo.
O versículo começa com um “também”, e essa palavrinha faz mais do que parece: ela encadeia. Apareci, também estabeleci, também ouvi — três afirmações empilhadas que preparam o “portanto” de Êxodo 6:6.
A aliança com Abraão e a promessa da terra têm dono nos estudos de Gênesis 15 e Gênesis 17, e não se reabrem aqui. O que é deste versículo é o que acontece quando uma promessa antiga é recitada no momento de ser cumprida.
2. Contexto Histórico e Cultural
Havia dois tipos de acordo, e não faziam a mesma coisa
Para ler este versículo com precisão, vale conhecer uma distinção que os documentos do Antigo Oriente Próximo permitem traçar.
De um lado estava o tratado. Um rei grande impõe condições a um rei menor: você não fará aliança com meus inimigos, você comparecerá quando eu chamar, você pagará o tributo. Quem tem obrigações, nesse documento, é o vassalo. A estrutura desses textos — identificação do soberano, retrospecto dos benefícios já concedidos, cláusulas, sanções — está tratada no estudo de Gênesis 15:7.
Do outro estava a concessão. Um rei entrega terra, casa ou cargo a um servidor que lhe prestou serviço, e entrega em definitivo, a ele e aos descendentes. Aqui a lógica se inverte: quem fica obrigado é o rei, e o beneficiário não assume encargo nenhum. O documento existe justamente para proteger o servidor contra uma mudança de vontade do senhor ou dos sucessores dele.
Documentos desse segundo tipo existem em quantidade — concessões hititas de terra com selo real, doações assírias a funcionários, e as pedras de fronteira da Babilônia que registravam a entrega de campos, com a retórica do “para sempre” tratada no estudo de Gênesis 17:13.
Por que a distinção importa aqui
O biblista israelense Moshe Weinfeld chamou a atenção, num estudo de 1970, para o fato de que as duas formas aparecem na Bíblia com funções diferentes: o acordo do Sinai tem o feitio de tratado, com cláusulas a cumprir; o acordo com Abraão tem o feitio de concessão, sem contrapartida exigida.
A tese é influente e é discutida — há quem sustente que a separação entre os dois tipos é rígida demais e que os documentos antigos misturam as duas lógicas com frequência. Vale registrar a crítica junto com a tese.
Seja como for, a frase deste versículo cai do lado da concessão com nitidez. Quem estabeleceu foi ele; a finalidade declarada é dar; e não há uma sílaba sobre o que os patriarcas deveriam fazer em troca.
Um documento de concessão tinha de nomear os herdeiros
Há um detalhe de forma nesses textos que ilumina a lista de três nomes do versículo anterior.
Uma concessão que beneficiasse apenas a pessoa do beneficiário caducava com a morte dele. Para que a terra passasse adiante, o documento precisava dizer isso expressamente — a ele, aos seus filhos e aos filhos dos seus filhos. Era cláusula padrão, e não decoração: sem ela, os herdeiros ficavam sem título.
Êxodo 6:3 nomeou três gerações, uma a uma, com a preposição repetida diante de cada nome. Êxodo 6:8 vai nomeá-las outra vez, na mesma ordem, e acrescentar os ouvintes como destinatários finais. É a estrutura de quem está lendo a cadeia de um título.
Morar sem poder possuir
A última expressão do versículo descreve uma condição jurídica reconhecível: residir de modo estável num lugar sem pertencer a ele, sem terra própria e sem os direitos que a filiação local garantia. O que era essa posição, e por que a lei de Israel depois a protegeria expressamente, está tratado no estudo de Gênesis 17:8.
O que interessa aqui é só o contraste que a frase monta: o mesmo solo aparece, numa linha, como objeto de uma concessão e como o lugar onde os beneficiários não tinham nada.
3. Análise Teológica do Versículo
“Também estabeleci com eles a minha aliança”
Três observações, e a terceira é a que carrega o versículo.
A primeira é sobre o “também”. Ele não é enfeite: é articulação. A fala está sendo construída por acumulação — apareci, também estabeleci, e o versículo seguinte começará com também ouvi. São três afirmações empilhadas, e a quarta frase, em Êxodo 6:6, começa com “portanto”. O que se está montando é um raciocínio com premissas e conclusão, e este é o segundo item da lista.
A segunda é sobre o verbo. O hebraico usa aqui o verbo de fazer ficar de pé, e o sentido dele nesse tipo de frase é de confirmar, fazer durar — não de inaugurar. O estudo de Gênesis 17:7 trata da diferença, comparando os três verbos que o Gênesis emprega para a mesma aliança.
A terceira é sobre o possessivo. É “a minha aliança”. Quem tem obrigação na frase é quem fala, e o ponto já foi desenvolvido no estudo de Êxodo 2:24, a propósito da mesma expressão.
“para lhes dar a terra de Canaã”
Aqui está o achado deste versículo, e ele aparece por subtração — o que torna fácil não notá-lo.
Esta é uma oração de finalidade, e ela tem um conteúdo só. A aliança existe para dar a terra. Ponto.
Vale pôr ao lado o que o Gênesis diz que aquela aliança continha. Descendência numerosa como as estrelas, em Gênesis 15:5. Uma grande nação, em Gênesis 12:2. Bênção que alcançaria todas as famílias da terra, em Gênesis 12:3. Reis saídos dele, em Gênesis 17:6. Um sinal no corpo, em Gênesis 17:11. Um pacto perpétuo, em Gênesis 17:7.
Nada disso está aqui. O resumo que Deus faz da própria aliança guarda a cláusula da terra e não menciona as outras.
Convém dizer o que isso permite concluir e o que não permite.
Não permite concluir que as outras promessas tenham sido canceladas, esquecidas ou revogadas. O versículo não diz nada sobre elas — e não mencionar não é negar.
Permite observar uma coisa concreta sobre a forma da frase: quando uma promessa é recitada no momento em que vai ser executada, ela encolhe até a cláusula que está em execução. É o que acontece com qualquer documento lido na hora de cobrar: não se lê o preâmbulo, lê-se o item que interessa.
E há um dado que reforça essa leitura. A descendência numerosa, que o Gênesis prometeu, já se cumpriu — Êxodo 1:7 registra que o povo se multiplicou e encheu a terra. O item da lista que continua em aberto é justamente a terra. O resumo fica com o que falta.
“a terra de Canaã”
Repare que ela é nomeada, e vale comparar com o Gênesis.
Quando a promessa é feita a Abrão, em Gênesis 15:7, a expressão é “esta terra” — palavra de quem aponta, dita a um homem que está pisando nela. Em Gênesis 13:15 é o mesmo: “toda esta terra que você está vendo”.
Aqui não dá para apontar. Quem ouve está no Egito e nunca viu Canaã. Por isso o nome entra, e por isso entra também a cláusula seguinte.
“a terra em que moraram como estrangeiros”
Uma oração relativa que faz trabalho de identificação, e é isso que a distingue.
Ela não está ali para comentar nem para emocionar. Está ali para dizer qual terra. O único vínculo que o povo no Egito tem com aquele lugar é a memória de que os antepassados andaram por ele — e é exatamente esse vínculo que a frase usa como endereço.
Note-se o tempo verbal: moraram, no passado fechado. Em Gênesis 17:8 a mesma ideia aparece no presente — a terra das peregrinações de Abraão, dita a Abraão, que estava peregrinando nela naquele momento. O estudo daquele versículo trata do contraste entre ser forasteiro e receber posse, e é o dono do assunto.
O que muda aqui é a distância. Lá, a promessa era feita a quem estava no lugar. Aqui, a quem não está e nunca esteve. A terra deixou de ser um chão e virou uma referência de família: aquela por onde os nossos passaram.
Vale acrescentar uma dureza que o texto não disfarça. A cláusula descreve a condição real dos três: eles moraram ali sem possuir. O único pedaço de solo que o Gênesis registra em nome de Abraão foi comprado, e foi uma sepultura. Ou seja: o documento identifica a terra prometida pelo fato de que os beneficiários não a tiveram.
O que o versículo não diz
Duas ausências, e as duas serão preenchidas depois no livro.
Não há nada sobre quem está lá. Êxodo 3:8 tinha listado seis povos que ocupavam a terra; aqui não se menciona nenhum. A cláusula fala como se o lugar estivesse à disposição.
E não há nada sobre como. Nenhuma palavra sobre guerra, entrada, conquista ou tomada. O verbo é dar — e dar é o que alguém faz com o que é seu.
O texto não diz se essas ausências carregam sentido. O que se pode registrar é que a frase está construída inteiramente do lado de quem promete, e que a dificuldade prática de cumprir o que se promete não aparece nela.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Canaã
É a primeira vez que o nome aparece no Êxodo dentro de uma promessa direta. Designa a faixa entre o mar e o deserto, dos dois lados do Jordão em alguns usos, e era o nome corrente da região em documentos egípcios do segundo milênio — o Egito a administrava como área de influência, com cidades vassalas e correspondência regular.
Para quem ouvia o recado, o nome não era uma abstração religiosa: era o lugar de onde vinham caravanas e para onde se ia buscar pasto em ano ruim. Estava a semanas de caminhada.
Os três, como beneficiários
O versículo fala deles no plural sem os nomear — “com eles”, “lhes dar”, “moraram”. Os nomes ficaram no versículo anterior, e voltarão em Êxodo 6:8. Aqui eles são a parte contratante do lado que recebe.
O que cada um teve de fato naquela terra é matéria do Gênesis e vale a lembrança rápida. Abraão comprou uma caverna para sepultar Sara. Isaque cavou poços que lhe foram disputados. Jacó comprou um pedaço de campo junto a Siquém e morreu no Egito. Nenhum dos três possuiu a terra que este versículo diz ter sido prometida a eles.
A geração que está ouvindo
Convém situá-la, porque o versículo depende disso. Quem está no Egito nasceu no Egito, trabalha no Egito e nunca viu Canaã. Entre Jacó e essa geração há o intervalo que Êxodo 12:40 conta em quatrocentos e trinta anos — número discutido, e o problema tem lugar próprio no estudo de Êxodo 6:16.
A relação dessas pessoas com a terra prometida é inteiramente de segunda mão. Elas conhecem o lugar por narrativa de família, e é assim que o versículo o identifica.
5. Pontos de Ensino
1. O resumo da aliança tem um conteúdo só: a terra. Descendência, bênção, nações e sinal ficaram de fora. O dado é observável; o que ele significa é outra conversa, e o item 3 marca o limite.
2. Não mencionar não é revogar. O versículo silencia sobre as outras promessas, e silêncio não é negação. Quem tirar daqui que a aliança foi reduzida estará concluindo mais do que a frase dá.
3. A promessa que se recita é a que está por cumprir. A multiplicação do povo já aconteceu, segundo Êxodo 1:7. O que sobrou em aberto é a terra — e é justamente o que o resumo guarda.
4. A terra é identificada pela ausência dos donos. Ela é reconhecida como aquela em que os patriarcas moraram sem possuir. O endereço da promessa é a memória de uma condição precária.
5. Quem ouve nunca viu o lugar. Por isso a terra é nomeada aqui e apenas apontada no Gênesis. Uma promessa muda de forma quando muda a distância entre quem a recebe e o que ela promete.
6. A obrigação é de quem promete. A frase é toda do lado de quem dá: nenhuma condição, nenhuma contrapartida, nenhum requisito. O item 2 mostra que essa forma existia e tinha nome no direito da época.
7. A dificuldade prática não aparece. Não há uma palavra sobre quem mora na terra nem sobre como entrar nela. O livro tratará disso, e este versículo não.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma questão que o direito e a filosofia moral discutem há muito: o que torna obrigatória, para quem não a recebeu, uma promessa feita a outra pessoa.
A situação está inteira na frase. O acordo foi firmado com três homens mortos há séculos. Quem vai receber o benefício é uma geração que não estava lá, não participou de nada e nunca ouviu falar do assunto senão por narrativa de família.
Isso não é estranho no direito — títulos se transmitem, obrigações passam aos herdeiros, e o item 2 mostra que as concessões antigas nomeavam os descendentes justamente para isso. O que é filosoficamente interessante é a assimetria: o beneficiário herda o direito sem ter herdado o consentimento. Ninguém lhe perguntou se queria ser parte.
Há uma consequência incômoda e vale enunciá-la. Uma promessa herdada pode virar peso, e não só vantagem. Quem nasce dentro de um compromisso que não firmou recebe, junto com o direito, uma identidade já definida por outros — e o Êxodo vai mostrar, no versículo 9, que a primeira reação do povo a essa herança não é entusiasmo.
Marque-se o limite: o texto não discute nada disso. Ele afirma o vínculo e segue. A pergunta sobre o que autoriza esse vínculo é de quem lê, e a Bíblia não a formula.
7. Aplicações Práticas
Herdar um compromisso que não se firmou
A aplicação mais direta deste versículo é sobre a posição de quem recebe alguma coisa por causa de outro.
Acontece o tempo todo e fora de qualquer contexto religioso: o filho que herda um negócio e as dívidas dele, a geração que recebe um país com o que os anteriores construíram e com o que estragaram, a pessoa que entra numa família e passa a fazer parte de acordos antigos que ninguém lhe explicou.
O versículo descreve exatamente essa posição — e descreve, não recomenda. O que ele mostra é que o vínculo existe independentemente de quem o recebeu ter escolhido, e que ele vem com as duas mãos: o direito e o encargo.
O proveito prático disso é modesto e é real. Vale saber em que compromissos a pessoa já está antes de decidir o que fazer com eles. Muita gente descobre tarde demais que estava dentro de um acordo que nunca leu.
A promessa encolhe para o que falta
A segunda observação tem uso concreto em qualquer relação de longo prazo.
Quando se resume um compromisso antigo, o que sobra no resumo é a parte não cumprida. É assim que funciona a cobrança e é assim que funciona a memória: ninguém recita o que já foi entregue.
Isso é útil nos dois sentidos. De um lado, explica por que conversas sobre acordos velhos tendem a soar ingratas — o que está sendo discutido é sempre o resto, e o resto é o que dói. De outro, é um alerta: quem só fala do que falta acaba convencendo a si mesmo de que nada foi feito.
O versículo não ensina nenhuma dessas coisas. Ele apenas mostra um resumo de aliança feito pelo lado que deve — e o resumo é a cláusula pendente.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A aliança com Abraão era só sobre a terra?
Não, e o Gênesis mostra isso com clareza: havia descendência, bênção, nações, reis e um sinal no corpo. Este versículo é um resumo, e o resumo ficou com uma cláusula. Concluir que as outras deixaram de valer é ir além do texto — ele não fala delas, e não falar não é negar.
Por que a terra é nomeada aqui, e no Gênesis não?
Porque mudou a distância. No Gênesis a promessa é feita a quem está pisando no lugar, e o texto diz “esta terra”, apontando. Aqui quem ouve está no Egito e nunca esteve lá — logo, precisa do nome e de uma cláusula que identifique o endereço.
“Moraram como estrangeiros” é uma crítica à condição deles?
Não há sinal disso. A oração faz trabalho de identificação: diz qual é a terra, usando o único vínculo que os ouvintes têm com ela. O peso da situação — prometer posse a quem era forasteiro — está desenvolvido no estudo de Gênesis 17:8.
O versículo diz como Israel entraria na terra?
Nada. Não menciona os povos que a ocupavam, não menciona guerra, não menciona entrada. O verbo é dar. O livro tratará do resto muito depois, e este versículo não antecipa nenhuma parte disso.
Que diferença faz a aliança ser “dele”?
Faz a diferença de quem carrega a obrigação. Numa aliança do tipo que o item 2 descreve, quem fica devendo é quem concede. O ponto já está desenvolvido no estudo de Êxodo 2:24, e aqui ele apenas se confirma: não há uma linha sobre o que os patriarcas deveriam fazer em troca.
Por que o versículo começa com “também”?
Porque a fala está sendo construída por acumulação. Apareci, também estabeleci, também ouvi — e depois “portanto”. É a estrutura de um argumento, com três premissas e uma conclusão, e a palavra marca a passagem de uma para outra.
9. Conexão com Outros Textos
A aliança que este versículo resume
Gênesis 15:18 — “Naquele dia o SENHOR fez um pacto com Abrão, dizendo: ‘À sua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o rio Eufrates:”
É o texto do acordo, com rito e com fronteiras. Repare que ali a terra também é o conteúdo — mas ali ela vem com limites, e aqui vem com nome.
A promessa apontada com o dedo
Gênesis 13:15 — “porque toda a terra que você vê, eu a darei a você e à sua descendência para sempre.”
A diferença de forma salta à vista: lá, “esta terra que você está vendo”; aqui, o nome e uma cláusula de identificação. Quem ouve no Egito não vê nada.
O que o Gênesis põe na mesma aliança e este versículo não menciona
Gênesis 17:6 — “Eu o farei extremamente fecundo, farei de você nações, e reis sairão de você.”
Uma amostra do que ficou de fora do resumo. Não se diz que foi revogado; não se diz nada.
A promessa que já se cumpriu antes deste capítulo
Êxodo 1:7 — “Mas os filhos de Israel foram fecundos, fervilharam, multiplicaram-se e se tornaram fortes, muito fortes; e a terra se encheu deles.”
A descendência numerosa deixou de estar pendente. Isso explica, sem forçar nada, por que o resumo guarda a cláusula da terra.
A condição de forasteiro, dita ao próprio Abraão
Gênesis 17:8 — “E darei a você e à sua descendência depois de você a terra das suas peregrinações, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua; e serei o Deus deles.”
A mesma ideia, no presente e dita a quem estava lá. O estudo daquele versículo é o dono do contraste entre ser forasteiro e receber posse.
O único chão que um patriarca teve em Canaã
Gênesis 23:20 — “E assim o campo e a caverna que nele havia passaram dos filhos de Hete para Abraão, como propriedade para sepultura.”
Comprado, pago e para enterrar. É o comentário que o próprio Gênesis faz, sem comentar, sobre a cláusula “moraram como estrangeiros”.
A retomada da promessa no fecho deste bloco
Êxodo 6:8 — “E os levarei à terra sobre a qual levantei a minha mão, jurando dá-la a Abraão, a Isaque e a Jacó; e eu a darei a vocês como herança. Eu sou o SENHOR.”
Quatro versículos adiante, a mesma promessa volta com os três nomes e com um acréscimo decisivo: agora os destinatários são os que estão ouvindo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Também estabeleci com eles a minha aliança, para lhes dar a terra de Canaã, a terra em que moraram como estrangeiros.
Texto hebraico
וְגַ֨ם הֲקִמֹ֤תִי אֶת־בְּרִיתִי֙ אִתָּ֔ם לָתֵ֥ת לָהֶ֖ם אֶת־אֶ֣רֶץ כְּנָ֑עַן אֵ֛ת אֶ֥רֶץ מְגֻרֵיהֶ֖ם אֲשֶׁר־גָּ֥רוּ בָֽהּ׃
Transliteração
we-gám haqimóti et-beriti ittám, latét lahém et-érets Kena'án, et érets megureihém ashér gáru vah.
Análise palavra por palavra
וְגַם — we-gám, “e também”.
A conjunção we mais a partícula gam, que acrescenta: também, ainda, igualmente. Ela não liga por sequência de tempo — liga por soma. Em português a tradução natural seria “e mais uma coisa”.
A mesma sequência abre o versículo 5, com um pronome no meio. Os dois we-gam encadeiam a fala, e o lakhén (“portanto”) de Êxodo 6:6 fecha a conta.
הֲקִמֹתִי — haqimóti, “estabeleci”.
Raiz qum, levantar-se, ficar de pé. A forma é Hiphil — a conjugação causativa do hebraico —, perfeito de primeira pessoa do singular: literalmente “fiz ficar de pé”.
Aplicado a acordo, o verbo tem sentido de confirmar, manter de pé, fazer valer. O hebraico usa outro verbo para inaugurar um pacto — o de cortar, que descreve o rito de Gênesis 15. A distinção entre os dois está desenvolvida no estudo de Gênesis 17:7.
אֶת־בְּרִיתִי — et-beriti, “a minha aliança”.
A partícula et marca o objeto direto. Berit é o substantivo do acordo formal, com obrigações declaradas e normalmente com sinal, juramento ou rito; vem aqui com sufixo de primeira pessoa do singular.
O sufixo é o dado, e ele já foi trabalhado no estudo de Êxodo 2:24: a aliança é dele. Não se diz “a aliança entre nós”, nem “a aliança deles comigo”.
אִתָּם — ittám, “com eles”.
Preposição et no sentido de companhia — atenção, é homógrafa da partícula de objeto direto, escreve-se com as mesmas consoantes e não é a mesma palavra —, com sufixo de terceira pessoa masculina do plural.
Vale registrar a diferença de formulação em relação a Gênesis 17:7, onde a aliança é dita “entre mim e você”. Aqui é simplesmente “com eles”, sem a imagem do espaço entre duas partes.
לָתֵת לָהֶם — latét lahém, “para dar a eles”.
Latét é o infinitivo do verbo natan, dar, precedido da preposição de finalidade. A construção indica o propósito da ação anterior: a aliança foi confirmada a fim de dar.
Este é o verbo que domina a promessa da terra em toda a Bíblia — e é o mesmo que voltará duas vezes em Êxodo 6:8, no juramento e na entrega.
אֶת־אֶרֶץ כְּנָעַן — et-érets Kena'án, “a terra de Canaã”.
Érets é terra, país, região, e cobre desde o solo até o território político. Kena'án é o nome próprio, que aparece em documentos egípcios e em textos de Ugarite e de Mari designando a região.
אֵת אֶרֶץ מְגֻרֵיהֶם — et érets megureihém, “a terra das residências-como-forasteiro deles”.
Repare na construção: a partícula de objeto direto aparece de novo, sem conjunção, antes da segunda expressão. É o modo hebraico de pôr um termo ao lado de outro para explicá-lo — a terra de Canaã, ou seja, a terra onde eles moraram de fora.
Megurim é substantivo da raiz gur, residir num lugar como estrangeiro. A palavra e a categoria social que ela nomeia estão tratadas no estudo de Gênesis 17:8, e as ocorrências dela no Gênesis, nos de Gênesis 37:1 e 47:9.
אֲשֶׁר־גָּרוּ בָהּ — ashér gáru vah, “em que residiram como forasteiros”.
Oração relativa com o verbo gur no Qal, perfeito de terceira pessoa do plural, mais a preposição com sufixo feminino singular, remetendo à terra.
Duas notas.
A primeira: o substantivo e o verbo são da mesma raiz. Ao pé da letra, “a terra das residências deles, em que residiram” — a construção repete a raiz de propósito, e o hebraico faz isso com frequência para dar ênfase. O português não consegue reproduzir sem soar redundante.
A segunda: o verbo está no perfeito, que marca ação concluída. É passado fechado. Em Gênesis 17:8 a mesma ideia vem por substantivo, sem verbo, dita a quem ainda estava peregrinando. Aqui o hebraico fecha o tempo — eles residiram, e acabou.
11. Conclusão
Três conclusões saem deste versículo.
A primeira é sobre o que sobra num resumo. A aliança do Gênesis tinha muitas cláusulas; a que Deus recita aqui tem uma. Isso não revoga nada — o texto não fala das outras —, mas mostra como funciona uma promessa relembrada na hora de ser cumprida: ela encolhe até o item pendente. E o item pendente, neste ponto da história, é a terra, porque a multiplicação do povo já aconteceu.
A segunda é sobre a distância. A promessa deixou de ser um gesto — “esta terra que você está vendo” — e virou um nome com uma cláusula de identificação. Quem ouve nunca esteve lá, e o único vínculo disponível é a memória de que os antepassados andaram por ali. A frase usa esse vínculo como endereço, e é isso que ela faz de próprio.
A terceira é a mais dura e está na última linha. A terra prometida é reconhecida pela condição em que os beneficiários viveram nela: de fora, sem posse, sem direito. O documento que promete a propriedade identifica o imóvel pela falta dela. O texto não comenta o contraste, e ele fica de pé sozinho.













