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Êxodo 20:14

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 15 acessos
Não adulterarás.
A porta entreaberta de uma casa de pedra numa rua estreita ao anoitecer, com uma lamparina acesa no interior e, no chão da soleira, um manto masculino caído; ao fundo, os muros da cidade e o portão onde os anciãos se sentam.

Estudo


Não adulterarás.

1. Introdução

Duas palavras, como no versículo anterior, e o mesmo problema: o mandamento não define o que proíbe. Na lei de Israel, adultério era a relação de qualquer homem com uma mulher casada ou prometida em casamento; o estado civil do homem não entrava na conta, e daí nasce uma assimetria que os próprios rabinos acabaram reconhecendo. Os comentaristas se dividiram entre ler o mandamento de modo estrito, só a mulher casada, ou de modo amplo, toda união proibida — e as tradições cristãs fizeram dele o capítulo inteiro da moral sexual. A Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) o pôs diante de "Não terás outros deuses", e com isso ligou o adultério à idolatria.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem podia cometer adultério contra quem

A lei israelita define o adultério pela situação da mulher. "Se um homem for achado deitado com uma mulher casada com outro, morrerão ambos" (Deuteronômio 22:22). A mesma regra vale para a moça já prometida em casamento, que a lei trata como casada: se o fato acontece na cidade e ela não grita, morrem os dois (Deuteronômio 22:23-24). O homem pode ser casado ou solteiro — a lei não pergunta.

O caso inverso tem outra solução. Se um homem, casado ou não, se deita com uma moça virgem que não está prometida, a lei não fala em adultério nem em morte: ele paga o dote e a toma por mulher, ou paga o dote mesmo que o pai recuse o casamento (Êxodo 22:16-17; Deuteronômio 22:28-29). Como a lei permitia a um homem ter mais de uma esposa (Deuteronômio 21:15 supõe o caso), a relação de um homem casado com uma mulher livre não violava o casamento dele. Violava, quando violava, o direito do pai da moça.

O resultado é uma assimetria que o texto não esconde. A mulher casada comete adultério com qualquer homem; o homem casado só comete adultério com a mulher de outro. O que se protegia era o vínculo do marido com a sua esposa — e, através dele, a certeza sobre quem era pai de quem.

A prova que só existia para a esposa

A mesma assimetria aparece no procedimento de prova. Para o marido que suspeitava da mulher e não tinha testemunhas, a Torá previa um rito no santuário: a mulher bebia uma água misturada com o pó do chão e com a tinta de uma maldição escrita, e o efeito sobre o seu corpo decidia a questão (Números 5:11-31). Não existe rito equivalente para a mulher que suspeitasse do marido.

A Mishná registra o fim desse rito, e o motivo que dá é revelador. No tratado Sotá (9:9), lê-se que, "quando os adúlteros se multiplicaram, cessaram as águas amargas, e foi Rabi Yochanan ben Zakkai quem as suspendeu". O versículo que ele citou é de Oseias: "Não castigarei as suas filhas quando se prostituírem, nem as suas noras quando adulterarem, porque eles mesmos se retiram com as prostitutas" (Oseias 4:14). A tradição rabínica entendeu o argumento assim: a água só funcionava se o próprio marido estivesse livre de culpa. Quando os homens também adulteravam, o rito perdeu o sentido. É o reconhecimento, dentro da própria tradição, de que a assimetria da lei não podia ser sustentada sozinha.

A pena na lei e na prática

A pena de morte para os dois estava escrita, e a Mishná fixou até o modo: estrangulamento para o adultério com mulher casada (Sanhedrin 11:1), apedrejamento para o caso da moça prometida (Sanhedrin 7:4). Mas as exigências rabínicas de prova — duas testemunhas do próprio ato e advertência prévia — tornavam a condenação quase impossível. E os textos de sabedoria mostram outra realidade: o adúltero de Provérbios teme o marido, não o tribunal. "O ciúme enfurece o marido, e ele não terá compaixão no dia da vingança; não aceitará nenhum resgate, nem se aplacará, ainda que você multiplique os presentes" (Provérbios 6:34-35). O texto supõe uma situação resolvida entre famílias, por vingança, por divórcio ou por acordo, e não um processo público.

3. Análise Teológica do Versículo

"Não adulterarás."

A palavra hebraica era conhecida de todos, e o mandamento não a explica. Duas perguntas ficam abertas: o que exatamente se proíbe, e por quê.

O que é adultério?

Primeira leitura: só a relação com a mulher casada. É a de Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI): "não há adultério senão com a mulher casada". As provas dele são duas: Levítico 20:10, que aplica a palavra ao homem que se deita com "a mulher do seu próximo", e Ezequiel 16:32, que define a adúltera como "a mulher que, em lugar do marido, recebe estranhos". Nessa leitura, o mandamento tem alcance preciso, e as outras uniões proibidas estão em outras leis.

Segunda leitura: toda união proibida. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, poeta e comentarista nascido na Espanha, século XII) discorda expressamente de Rashi. Para ele, a palavra significa qualquer relação ilícita, e a prova é Jeremias 3:9, onde Israel "adulterou com a pedra e com a madeira" — ninguém comete adultério com uma pedra, e o verbo só pode ter ali o sentido largo. A repetição de Levítico 20:10 não define a palavra: só enfatiza que o pecado é maior quando a mulher é do próximo, a quem se deve amar como a si mesmo. Ibn Ezra cita ainda uma escala proposta por Saadia Gaon (rabino e filósofo do Egito e da Babilônia, século X), que ordenava os pecados sexuais do mais leve ao mais grave, e a critica: a Torá aplica a mesma pena a todas as uniões de Levítico 18, e a escala de Saadia esquecera a mãe, a irmã e a filha.

Terceira leitura: o caso mais comum nomeia o todo. Sforno (Obadias Sforno, médico e rabino italiano do século XVI) fica entre os dois: o mandamento fala da mulher casada porque é o caso mais frequente, mas se aplica a toda relação proibida.

As tradições cristãs seguiram, em geral, a segunda e a terceira leituras, e foram além. Os comentaristas protestantes clássicos — Matthew Poole (puritano inglês do século XVII), John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII), Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII) — incluíram no mandamento "toda impureza": prostituição, relações antes do casamento, pensamentos, palavras, imagens. Os catecismos católicos fizeram do sexto mandamento (na contagem deles) o lugar de toda a moral sexual, sob o nome de castidade. O mandamento curto virou um título de capítulo.

Há ainda uma leitura moderna que corrige a assimetria por dentro. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) definem o adultério como a relação "do marido com a mulher de outro, ou da mulher com o marido de outra" — uma definição simétrica que a lei de Israel não tinha. E Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) fala da "igualdade absoluta" entre homem e mulher na lei mosaica, porque os dois morrem. A igualdade existe na pena, não na definição: os dois morriam, mas só um deles era casado com alguém cuja fidelidade a lei protegia.

Por que é proibido?

O texto não dá razão, e as razões propostas dizem muito sobre quem as propôs.

Porque o adultério confunde a descendência. É a explicação de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII), que liga este mandamento ao de honrar pai e mãe. O filho do adultério não conhecerá o seu pai verdadeiro e dará a outro a honra que devia a ele, "como fazem os idólatras, que dizem a um pedaço de madeira: 'Tu és meu pai'" (Jeremias 2:27). Nessa leitura, o centro do mandamento não é o prazer proibido, e sim a verdade sobre a origem de uma pessoa.

Porque o adultério é a imagem humana da idolatria. É a leitura da Mekhilta, que lê as tábuas em colunas — cada mandamento da segunda diante de um da primeira, como se explica no versículo anterior. Diante de "Não adulterarás" está "Não terás outros deuses diante de mim", e o ensinamento é que a idolatria equivale ao adultério. As provas são proféticas: Ezequiel 16:32, a mulher que recebe estranhos em lugar do marido, e Oseias 3:1, a ordem de amar uma mulher adúltera "como o SENHOR ama os filhos de Israel, embora eles se voltem para outros deuses". A metáfora funciona nos dois sentidos. Os profetas descreveram a aliança como um casamento e a idolatria como traição conjugal; a Mekhilta inverte e lê a traição conjugal como uma idolatria em escala doméstica.

Porque destrói a casa do outro. Keil e Delitzsch recusam a explicação pela propriedade — a ofensa ao "bem mais caro do marido" —, lembrando que disso já trata o mandamento da cobiça, e preferem ver aqui a proteção do casamento como instituição. A recusa mostra que a explicação pela propriedade estava em circulação, e muitos críticos modernos a defendem: num mundo em que a mulher passava da casa do pai à do marido mediante pagamento, o adultério era também uma lesão de direito do marido. As duas coisas não se excluem, e o texto não escolhe.

O mandamento ampliado à cumplicidade

O Targum de Pseudo-Jônatas (tradução aramaica antiga, com acréscimos explicativos) dá a este mandamento a mesma forma que ao anterior: "Meu povo, filhos de Israel, não sejam adúlteros, nem companheiros nem sócios de adúlteros". E muda a consequência: se o homicídio traz a espada, o adultério traz a morte ao mundo. O acréscimo não explica por quê; registra a convicção de que a traição dentro da casa tem efeitos que ultrapassam a casa.

O limite

O versículo, sozinho, não diz se a palavra é estrita ou ampla, nem por que a coisa é proibida. A definição estrita tem a seu favor o uso jurídico de Levítico 20:10 e Deuteronômio 22:22; a ampla tem a seu favor o uso profético. Não é possível decidir qual das duas estava na cabeça de quem ouviu o Decálogo pela primeira vez — e é provável que a pergunta não se pusesse assim para eles.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

O "tu" do mandamento. A forma verbal é masculina, como em todo o Decálogo, mas a lei que fixa a pena nomeia os dois — o adúltero e a adúltera (Levítico 20:10). Quem ouve é o homem; quem responde são os dois.

A mulher casada, que define o crime, e o marido, que não aparece no mandamento e é a parte ofendida em todas as leis que o aplicam.

José. Antes de haver lei escrita, ele recusa a mulher do seu senhor com a pergunta: "Como, então, eu cometeria tamanha maldade e pecaria contra Deus?" (Gênesis 39:9). O pecado contra o marido é dito, ao mesmo tempo, pecado contra Deus — a mesma ligação que a Mekhilta faz ao pôr o adultério diante do primeiro mandamento.

Davi e Bate-Seba. O adultério mais conhecido da Bíblia (2 Samuel 11-12) termina num homicídio planejado, e a parábola de Natã acusa o rei com a imagem de um rico que toma a única ovelha do pobre. Davi não é executado; a pena vem na forma de desgraças na sua casa. O caso mostra quanto a lei escrita e o destino de um rei podiam ficar distantes.

Oseias e Gômer. O profeta recebe ordem de casar com uma mulher infiel e de amá-la de novo depois da traição, como imagem do amor de Deus por Israel (Oseias 1-3). É dele o versículo que Rabi Yochanan ben Zakkai usaria, séculos depois, para suspender o rito das águas amargas.

Rabi Yochanan ben Zakkai. O mestre que reorganizou o judaísmo depois da destruição do Templo, no ano 70, e a quem a Mishná atribui o fim do rito da mulher suspeita.

Lugares

A casa. Todo o vocabulário do adultério na Bíblia é doméstico: a mulher "do teu próximo", a casa que se arruína, o marido que volta. Provérbios 7 descreve a cena inteira — a janela, a rua, a porta da casa, a cama — como um percurso entre o espaço público e o privado.

5. Pontos de Ensino

1. Adultério, na lei de Israel, era definido pela mulher. Uma relação com mulher casada ou prometida era adultério, qualquer que fosse o estado civil do homem; uma relação de homem casado com mulher livre não era.

2. A palavra foi lida de modo estrito e de modo amplo. Rashi a restringe à mulher casada; Ibn Ezra a estende a toda união proibida; Sforno diz que o caso mais comum nomeia o todo.

3. A igualdade da lei estava na pena, não na definição. Os dois morriam; só o casamento de um deles era protegido.

4. A própria tradição reconheceu o problema. Rabi Yochanan ben Zakkai suspendeu o rito das águas amargas com base em Oseias 4:14: não se pode exigir da mulher a fidelidade que os homens não guardam.

5. As razões propostas são várias. A verdade sobre a origem (Nachmânides), a imagem da idolatria (Mekhilta), a proteção do casamento (Keil e Delitzsch), o direito do marido (críticos modernos).

6. A lei escrita e a prática eram distantes. A pena de morte estava na Torá; os textos de sabedoria mostram vingança, divórcio e acordo entre famílias, e a Mishná fixou exigências de prova que tornavam a execução quase impossível.

6. Aspectos Filosóficos

Adultério é assunto do Estado ou assunto da casa? A pergunta parece moderna, mas o Decálogo já tomou partido: pôs o adultério ao lado do homicídio e do furto, entre os crimes que a comunidade inteira tinha o dever de punir. Os Estados modernos, em sua maioria, fizeram o caminho inverso. No Brasil, o adultério foi crime até 2005, quando a Lei 11.106 revogou o artigo do Código Penal que o previa; desde então, é matéria do direito de família. O que mudou nessa passagem não foi só a pena, foi o lugar do assunto: do público para o privado.

Quem pensou com mais cuidado essa fronteira foi a filósofa política norte-americana Jean Bethke Elshtain (1941-2013), professora na Universidade de Chicago, no livro Public Man, Private Woman ("Homem público, mulher privada", 1981).

Contra os dois extremos

Elshtain faz duas críticas ao mesmo tempo. A primeira é à tradição do pensamento político ocidental, de Platão e Aristóteles em diante, que definiu a política como coisa de homens e relegou a casa — e com ela as mulheres — a um espaço sem voz nem dignidade pública. A segunda é à resposta mais radical a essa tradição, a que proclamou que "o pessoal é político" e propôs dissolver a fronteira entre o público e o privado. Para Elshtain, apagar a fronteira é tão perigoso quanto mantê-la injusta: quando tudo é político, nada fica a salvo do Estado, e os vínculos particulares — o amor de um casal, o cuidado com um filho, a lealdade a uma família — perdem o espaço em que podem existir.

A proposta dela é manter a distinção e redefini-la. A casa não é um lugar sem moral; tem bens próprios, que a política não produz e não deve absorver. Mas também não é um lugar sem significado público, porque os vínculos que se formam ali sustentam a vida comum.

O que isso ilumina no mandamento

O casamento é o exemplo mais claro da tese. Ele se faz diante de testemunhas, com registro público, e o que promete é a fidelidade num espaço que ninguém de fora vê. O adultério fere exatamente esse ponto de junção: é um ato privado que desfaz uma promessa pública.

Visto assim, o Decálogo e o direito moderno ficam, cada um, num dos lados da fronteira. A lei de Israel tratou o adultério como crime público e acabou com uma pena que quase nunca podia ser aplicada; a própria Mishná, ao suspender o rito das águas amargas, reconheceu que a ordem pública não conseguia sustentar uma fidelidade que os homens não guardavam. O direito moderno, ao retirar o assunto do Código Penal, corre o risco oposto: tratar a promessa conjugal como questão de gosto pessoal, sem consequência para ninguém além dos dois. A leitura de Elshtain sugere que nenhuma das duas soluções basta — e que o mandamento pode ser lido como afirmação de que a fidelidade é assunto de todos sem ser assunto da polícia.

O limite

Elshtain não escreveu sobre o Decálogo, e a aproximação é do comentarista. O texto bíblico não conhece a distinção moderna entre Estado e sociedade, e o "público" do antigo Israel era o portão da cidade e os anciãos, não um aparelho de governo. A filosofia serve aqui para nomear a tensão que o próprio texto deixa ver: uma lei pública sobre o que acontece dentro da casa.

7. Aplicações Práticas

A promessa diante de testemunhas. A relação mais direta do mandamento com a vida é a que o item 6 descreve: o casamento é promessa pública sobre vida privada. O adultério não fere só o cônjuge; desfaz o que foi dito diante de outros, e por isso costuma atingir filhos, famílias e amigos que não participaram dele.

A assimetria que persiste. A lei antiga cobrava a fidelidade da mulher com mais rigor que a do homem, e a Mishná registrou que um rabino suspendeu o rito por causa disso. Muitas culturas, inclusive cristãs, mantiveram a dupla medida por séculos — na tolerância com o marido e na vergonha da esposa. Ler o mandamento com honestidade inclui reconhecer essa história, e não atribuí-la ao texto como se ele a exigisse para sempre.

A verdade sobre a origem. O argumento de Nachmânides — o filho que não sabe quem é o pai — ganhou peso novo com os testes de paternidade e com a reprodução assistida. A pergunta sobre o direito de uma pessoa saber de onde veio não é deste versículo, mas é a mesma que ele levantou.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. A Bíblia narra alguma execução por adultério?

Não há, na Bíblia hebraica, nenhum relato de alguém executado por adultério segundo o procedimento da lei. Judá manda queimar Tamar, mas recua quando sabe que é o pai (Gênesis 38:24-26); Davi não é punido pelo tribunal; os textos de Ezequiel que descrevem o apedrejamento da adúltera (Ezequiel 16:40) são parte de uma metáfora sobre Jerusalém. Isso não prova que a pena nunca foi aplicada, mas mostra que o texto não oferece nenhum caso. É plausível que o adultério se resolvesse, na maior parte das vezes, por divórcio, vingança privada ou acordo.

2. Depois do adultério, o casamento podia continuar?

Na lei rabínica, não. A Mishná, no tratado Sotá (5:1), diz que a mulher que cometeu adultério fica proibida tanto ao marido quanto ao homem com quem adulterou. O vínculo não se restaurava por perdão do marido. O profeta Oseias, que recebe a ordem de amar de novo a mulher infiel, aparece justamente como exceção que serve de imagem do amor de Deus — a exceção é o que dá força à imagem.

3. O homem que se deitava com uma prostituta cometia adultério?

Pela definição da lei, não, desde que ela não fosse casada. A literatura de sabedoria condena a prática por outras razões — a ruína, a perda dos bens, a vergonha (Provérbios 5 e 29:3) —, e os profetas a usam como imagem de infidelidade religiosa. Mas a categoria jurídica do adultério não a alcançava, e é por isso que Ibn Ezra precisa ampliar o sentido da palavra para incluí-la.

4. Por que este mandamento vem antes do furto, e não depois?

A ordem hebraica põe a vida, depois o casamento, depois os bens. Nachmânides e Keil e Delitzsch leem nela uma hierarquia: o casamento vale mais que a propriedade. Em parte da tradição grega e em alguns textos do Novo Testamento a ordem é outra, com o adultério antes do homicídio, e essa variante tem a sua própria história.

9. Conexão com Outros Textos

A lei que aplica o mandamento

Levítico 20:10 — "Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher do seu próximo, o adúltero e a adúltera certamente serão mortos."

A palavra do mandamento usada duas vezes, com os dois sujeitos — base da leitura estrita de Rashi e da leitura enfática de Ibn Ezra.

Deuteronômio 22:22 — "Se um homem for achado deitado com uma mulher casada com outro, morrerão ambos, o homem que se deitou com a mulher e a mulher."

O adultério nos sábios

Provérbios 6:32-33 — "Quem adultera com uma mulher não tem juízo; quem faz isso destrói a si mesmo. Ferimentos e desonra ele achará, e a sua vergonha não se apagará."

Jó 31:9-11 — "Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher, e se fiquei espreitando à porta do meu próximo, que a minha mulher moa para outro, e que outros se encurvem sobre ela; porque isso seria um crime vergonhoso, delito que os juízes deveriam punir."

No juramento de inocência de Jó, o adultério é chamado de crime para os juízes — prova de que era matéria pública.

O adultério como imagem da idolatria

Jeremias 3:8-9 — "Por causa de todos os adultérios da infiel Israel, eu a despedi e lhe dei a carta de divórcio. (...) Com a sua prostituição leviana, ela contaminou a terra e adulterou com a pedra e com a madeira."

O versículo que Ibn Ezra usa para a leitura ampla.

Ezequiel 16:32 — "Você é a mulher adúltera, que em lugar do marido recebe estranhos."

Oseias 3:1 — "O SENHOR me disse: 'Vá outra vez, ame uma mulher amada por outro e adúltera, como o SENHOR ama os filhos de Israel, embora eles se voltem para outros deuses.'"

As duas provas da Mekhilta para pôr o adultério diante do primeiro mandamento.

Oseias 4:14 — "Não castigarei as suas filhas quando se prostituírem, nem as suas noras quando adulterarem, porque eles mesmos se retiram com as prostitutas e sacrificam com as prostitutas cultuais."

O versículo de Rabi Yochanan ben Zakkai.

A fidelidade do marido

Malaquias 2:14-15 — "O SENHOR foi testemunha entre você e a mulher da sua mocidade, com a qual você foi infiel, embora ela fosse a sua companheira e a mulher da sua aliança. (...) Guardem-se, portanto, e ninguém seja infiel à mulher da sua mocidade."

O texto mais próximo, na Bíblia hebraica, de cobrar a fidelidade do homem à própria esposa — sem usar a palavra do mandamento.

Gênesis 39:9 — "Ninguém nesta casa é maior do que eu, e ele nada me negou, a não ser você, porque é a mulher dele. Como, então, eu cometeria tamanha maldade e pecaria contra Deus?"

O Novo Testamento

Mateus 5:27-28 — "Vocês ouviram o que foi dito: 'Não adulterarás'. Eu, porém, lhes digo que todo aquele que olhar para uma mulher com desejo já cometeu adultério com ela no seu coração."

Jesus leva o mandamento do ato ao olhar — terreno que, no Decálogo, pertencia ao último mandamento, o da cobiça.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Não adulterarás.

Texto hebraico

לֹא תִּנְאָף׃

Transliteração

lo tin'af.

Análise palavra por palavra

לֹא — lo, "não". A negação das proibições permanentes, a mesma de todo o Decálogo.

תִּנְאָף — tin'af, "adulterarás".

Segunda pessoa do masculino singular do verbo na'af, "cometer adultério". O verbo aparece 31 vezes na Bíblia hebraica, e o seu uso confirma a assimetria descrita no item 2: o sujeito pode ser homem ou mulher — Levítico 20:10 usa o particípio masculino no'ef e o feminino no'efet lado a lado —, mas, nas leis e nos sábios, quando se nomeia a pessoa com quem se adultera, é a mulher de outro.

As ocorrências se dividem em dois campos. O jurídico, nas leis (Levítico 20:10) e nos sábios (Provérbios 6:32), designa a relação com a mulher casada. O profético, em Jeremias, Ezequiel e Oseias, aplica o verbo a Israel diante de Deus. Neste segundo campo aparece a forma intensiva do verbo, a chamada Piel — a forma que, no hebraico, reforça ou repete a ação: ha-isha ha-mena'afet, "a mulher que vive em adultério" (Ezequiel 16:32). A forma intensiva sugere hábito, não um ato isolado. Os profetas formaram também substantivos raros: ni'ufim, "adultérios" (Jeremias 13:27), e na'afufim, palavra que só aparece em Oseias 2:2 e designa os sinais do adultério no corpo da mulher.

O verbo é distinto de zanah, "prostituir-se", que descreve a mulher que se entrega fora do casamento, casada ou não, e que os profetas usam com mais frequência para a idolatria. Oseias 4:13-14 põe os dois verbos lado a lado — "as suas filhas se prostituem e as suas noras adulteram" —, e o paralelo mostra que eram próximos, mas não iguais: a filha solteira "se prostitui", a nora casada "adultera".

A posição na lista

No hebraico transmitido, este mandamento vem depois de "Não matarás". Em parte dos manuscritos da Septuaginta (a tradução grega feita no Egito nos séculos III-II a.C.) e no Papiro Nash, vem antes; a história dessa variante está no estudo de Mateus 19:18.

As traduções antigas

A Septuaginta traduz por ou moicheuseis, do verbo grego que designa especificamente o adultério com a mulher de outro, e não a imoralidade sexual em geral — uma escolha que acompanha a leitura estrita. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) não usa o verbo latino adulterare, e sim non moechaberis, um empréstimo do grego. O português ficou com a palavra latina que Jerônimo evitou, e ela carrega um segundo sentido que o hebraico não tem: "adulterar" é também falsificar — o vinho, a moeda, um documento.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o mandamento proíbe algo que a lei de Israel definia com precisão e de modo assimétrico: a relação com a mulher de outro. O que foi além disso — a extensão a toda a moral sexual — é leitura, defensável e antiga, mas leitura.

A segunda é que a própria tradição judaica percebeu o limite dessa assimetria. A suspensão das águas amargas por Rabi Yochanan ben Zakkai, com base em Oseias, é uma interpretação que corrige a prática a partir de um profeta, e não contra a Escritura.

A terceira é que as razões propostas para a proibição — a verdade sobre a origem, a imagem da idolatria, a proteção da casa — apontam todas para a mesma coisa: o adultério é tratado como ofensa a um vínculo que tem testemunhas, e não como assunto privado entre dois. É isso que o pôs no Decálogo, ao lado do homicídio e do furto, e não numa lista de conselhos.

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