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Mateus 22:14

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 4 acessos
Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos.”
Salão de banquete cheio de convidados reclinados, com uma única cadeira vazia junto à porta aberta para a noite

Estudo


Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos.”

1. Introdução

Esta é a casa da frase. O mesmo dito aparece em Mateus 20:16, onde ele falta nos manuscritos gregos mais antigos e a sua presença é discutida; aqui ninguém discute: todos os testemunhos o trazem, e é deste lugar que ele entrou na língua portuguesa e em todas as línguas da Europa. O que a ABC comenta, então, não é se a frase pertence ao texto, mas o que ela faz neste texto — e o que ela faz é desconcertante. A palavra que a liga ao que vem antes é "pois", isto é, ela se apresenta como a razão do versículo 13, não como a moral da parábola inteira. E a conta não fecha: na história, os chamados foram muitos, os que ficaram à mesa foram muitos, e o descartado foi um só.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Chamado" era a palavra do convite para jantar

No grego do primeiro século, o adjetivo que a ABC traduz por "chamados" tinha um uso social perfeitamente comum: designava o convidado de uma festa. A documentação disso não vem de livros religiosos, e sim de bilhetes. Entre os papiros achados em Oxirrinco, no Egito, há dezenas de convites curtos, escritos em uma ou duas linhas, do tipo "Tal convida você para jantar à mesa do senhor Serápis, no dia tal, a partir da nona hora". O verbo é sempre o mesmo que está na raiz desta palavra.

Isso muda a figura que o leitor forma. Fora de um banquete, "chamados" soa como convocação solene, quase militar. Dentro de um banquete, que é onde a parábola se passa, a palavra é a dos bilhetes de convite: os "muitos chamados" são nomes de uma lista de festa, e o próprio capítulo usa o mesmo verbo nos versículos 3, 4, 8 e 9.

A lista de convidados era um documento político

Numa corte, quem estava na lista e quem compareceu diziam, a quem soubesse ler, o estado das alianças. O segundo termo do versículo, "escolhidos", não pertence a esse vocabulário de festa: é palavra de seleção, de separação de um conjunto maior. O versículo põe lado a lado uma palavra de convite e uma palavra de triagem, e é dessa justaposição que vem toda a dificuldade. Não se escolhe um convidado; convida-se. A escolha é outro ato, com outro critério, e o texto não diz qual.

A fórmula "muitos… poucos…" já circulava

A forma da sentença — muitos de um lado, poucos do outro, sem verbo na segunda metade — era um molde conhecido, e não apenas em ambiente judaico. Platão, no Fédon, no trecho catalogado como 69c, cita um provérbio que atribui aos cultos de mistério: "muitos são os que levam a vara, poucos os bacantes". A vara era o bastão de funcho enfeitado que os participantes das procissões de Dioniso carregavam, e "bacante" era o iniciado de verdade. O provérbio diz exatamente o que esta frase diz: muita gente anda com o sinal externo, pouca gente é aquilo que o sinal declara.

A aproximação é de forma, não de conteúdo, e não indica dependência nenhuma. O que ela mostra é que o ouvinte antigo, judeu ou grego, reconhecia o molde: era a maneira corrente de dizer que o número dos participantes não é o número dos verdadeiros.

Um detalhe de língua que pode mudar a conta

Há uma hipótese a considerar, com todas as ressalvas. Se a frase foi dita originalmente em aramaico ou em hebraico, a palavra traduzida por "muitos" seria provavelmente a da raiz que dá rav ("muito, numeroso", em hebraico). E no uso do período essa palavra, no plural com artigo, podia significar não "um grande número entre outros", mas o conjunto todo: nos documentos do grupo que viveu junto ao mar Morto, "os Muitos" é o nome da assembleia inteira, de todos os membros reunidos. Se o sentido fosse esse, "muitos são chamados" diria "todos são chamados" — e a frase deixaria de comparar duas quantidades para comparar o universo dos convidados com uma parte dele.

Grau de certeza: baixo. Não há como saber se a frase circulou numa língua semítica antes do grego, e o Evangelho usa o adjetivo sem artigo, o que não favorece essa leitura. A hipótese serve para mostrar que a aritmética do versículo é menos firme do que parece.

Quem eram "os escolhidos" antes deste versículo

O segundo termo tem uma história longa na Bíblia grega, e ela é quase toda coletiva. Nos capítulos de Isaías que falam do servo, a palavra é título: "este é o meu escolhido", em Isaías 42:1; "Israel, meu escolhido", em Isaías 45:4. Em Isaías 65:9 os escolhidos são os que herdarão a terra. Em nenhum desses lugares se descreve um processo de triagem em andamento: a palavra nomeia um grupo já constituído e tratado como referência. Esse é o fundo sobre o qual o versículo cai — e é por isso que ele soa estranho. Ele usa um título de pertença coletiva como se fosse o resultado de uma peneira.

3. Análise Teológica do Versículo

"Pois"

A primeira palavra do versículo decide a que ele se refere, e costuma ser lida como se não decidisse nada. Em grego, a partícula que abre a frase é a explicativa: ela apresenta o que vem depois como a razão do que veio antes. Não é "além disso", não é "em resumo", não é "e assim". É "porque".

O que veio antes, imediatamente antes, é a expulsão de um homem. A frase, portanto, é dada como explicação daquela ordem — amarre, leve, lance — e não como moral da história desde o versículo 1. Isso estreita bastante o alcance dela, e contraria o uso corrente, que a trata como resumo da parábola inteira.

Há um argumento do outro lado, e ele é honesto: sentenças desse tipo, no ensino oral, costumavam ser fechos de unidade, e podiam valer para tudo o que a unidade continha. Nesse caso o "pois" seria ligação frouxa, do tipo que apenas encosta o provérbio na história. As duas leituras são defensáveis, e a diferença não é pequena: na primeira, a frase fala de alguém que entrou e foi posto fora; na segunda, fala também dos que nunca vieram.

"muitos são chamados"

A palavra tem referente dentro da própria história, e por isso é possível contar. Houve três chamados nesta parábola, com o mesmo verbo nos três: aos convidados originais, que já tinham aceitado e não vieram, no versículo 3; o recado detalhado, com os bois já abatidos, no versículo 4; e a ordem de recolher na estrada todos quantos fossem encontrados, no versículo 9. Somados, são de fato muitos — uma lista de corte inteira, mais tudo o que havia nas esquinas. Até aqui o versículo descreve a história com precisão.

"mas poucos são escolhidos"

Aqui a conta quebra. No salão, depois da expulsão, continuam reclinados todos os outros — o texto diz, no versículo 10, que a sala ficou cheia, e não registra nenhuma outra retirada. Dos chamados desta parábola, portanto, um foi posto fora e os demais ficaram. A proporção da história é "muitos chamados, muitos escolhidos, um descartado". A frase afirma o inverso.

Essa é a dificuldade central do versículo, e quatro respostas se apresentam. Elas não se excluem inteiramente, e nenhuma resolve tudo.

Primeira resposta: o provérbio não conta, enuncia. A frase seria um dito independente, de circulação própria, encostado no fim da história sem pretensão de descrever o que nela aconteceu. Provérbios não se verificam contra o caso em que são citados. A favor: a sentença é formalmente autônoma, com a forma fixa dos ditos. Contra: a partícula "pois" é justamente a que pede verificação, porque apresenta a frase como razão.

Segunda resposta: os "muitos chamados" são os primeiros convidados. A cidade inteira foi chamada, ninguém da lista original veio, e os poucos escolhidos seriam os que estão à mesa — a gente da estrada; o homem sem veste seria a exceção dentro do grupo pequeno, não o exemplo dele. A favor: a parábola tem um grupo grande que ficou fora e um pequeno que entrou. Contra: o salão ficou cheio, e "cheio" não é "poucos".

Terceira resposta: a frase olha para fora da história. O homem expulso seria amostra, e a proporção, afirmação sobre a realidade que a parábola figura. É a resposta da maioria, e o Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) a formula encarando a dificuldade de frente: se a frase se referisse apenas ao convidado sem veste, a história seria má ilustração, porque só um entre muitos foi recusado — e por isso ela expressa o sentido do conjunto da parábola, não daquele episódio. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) diz o mesmo. Contra: reconhece a quebra em vez de resolvê-la.

Quarta resposta: "escolhido" não é um subconjunto de "chamado". Nessa leitura, as duas palavras não medem a mesma coisa e por isso não há proporção a conferir. "Chamado" é um fato verificável: alguém recebeu o convite. "Escolhido" é um estado conferido por quem convida, que não se lê na pessoa. Dizer "muitos chamados, poucos escolhidos" seria dizer que receber o convite não é o mesmo que ter a condição — e não que exista um percentual. A favor: o grego não traz nenhum número, e a segunda palavra, pela sua formação, descreve uma relação, não uma propriedade. Contra: as duas palavras estão contrapostas por uma conjunção adversativa, o que sugere comparação de quantidade.

Não é possível decidir. O que se pode afirmar com segurança é o que o versículo não traz, e isso já é bastante.

O que falta na frase

Falta o agente. Em grego, os dois termos são adjetivos — "chamados" e "escolhidos" —, e não verbos na voz passiva. Não há, no versículo, nenhum "por Deus", nenhum sujeito que chame e nenhum sujeito que escolha. A frase registra duas condições, e cala sobre quem as atribui.

Falta o critério. Nada diz o que separa um grupo do outro. O único sinal visível que a parábola ofereceu foi uma peça de roupa, e o texto nunca explicou de onde ela vinha.

Falta o momento. Não se diz se a escolha acontece antes do chamado, durante a festa ou na inspeção. A sequência é uma decisão do intérprete, não um dado do texto.

E falta o número. "Muitos" e "poucos" não são quantidades; são palavras de comparação, sem referência fixa. Qualquer leitura que transforme este versículo em estatística está pondo nele uma precisão que ele não tem.

As duas palavras juntas, no resto do Novo Testamento

Há um único lugar fora de Mateus em que os dois adjetivos aparecem lado a lado, e ele vai na direção contrária. Em Apocalipse 17:14, os que acompanham o Cordeiro são descritos com três palavras somadas: chamados, escolhidos e fiéis. Ali os termos não se opõem — descrevem as mesmas pessoas, em acumulação. A mesma dupla de palavras serve, portanto, num livro para distinguir dois grupos e, no outro, para qualificar um só. O que faz a diferença aqui não é o vocabulário: é o par de quantidades, "muitos" contra "poucos", que não existe naquela passagem. É desse par, e não das duas palavras, que sai a doutrina costumeiramente extraída deste versículo.

A posição da frase

Esta é a última coisa que Jesus diz antes de os adversários passarem ao ataque: o versículo seguinte começa com os fariseus se retirando para armar uma pergunta. A parábola termina numa proporção sem critério declarado, e o capítulo segue para três debates em que o critério de cada questão será disputado palavra por palavra.

O que a história da interpretação fez com a frase

Esta é uma das sentenças mais usadas da Bíblia em discussões sobre a predestinação. Agostinho recorreu a ela repetidamente nos escritos contra Pelágio, lendo os "escolhidos" como os predestinados por decisão divina anterior a qualquer mérito. E, pela via da tradução latina, a frase virou provérbio nas línguas da Europa, aplicada a concursos e a vagas disputadas, longe de qualquer contexto religioso.

O limite a marcar vale contra os dois lados. O versículo não contém a palavra "predestinar", não contém nenhum verbo de decisão, não nomeia quem escolhe e não diz quando. Construir sobre ele uma doutrina de eleição exige acrescentar cada uma dessas peças — e recusar a doutrina a partir dele exige o mesmo trabalho em sentido contrário. O que está escrito é uma desproporção entre duas condições, encostada por um "pois" na expulsão de um homem que o texto não identificou.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os chamados — Dentro da história têm identidade e hora: a lista de convidados do rei, no versículo 3; os mesmos, procurados de novo no versículo 4; e os que foram recolhidos nas esquinas dos caminhos, no versículo 9. O verbo é o mesmo nos três chamados. Fora da história, o versículo não diz quem são.

Os escolhidos — Não identificados, e sem correspondência exata na cena. Na parábola não houve nenhuma seleção descrita: houve três convites e uma expulsão. Este é o único grupo do capítulo que o texto nomeia sem mostrar.

Quem chama e quem escolhe — Ninguém, no versículo. Os dois termos são adjetivos, sem verbo e sem agente. O rei da parábola convidou, mandou recolher e expulsou; a palavra "escolher" não é usada para nenhum dos atos dele.

Jesus — Quem fala. Esta é a última frase dele antes de o capítulo mudar de assunto, e Mateus não registra nenhuma reação dos ouvintes a ela.

O salão, ainda cheio — O cenário não desaparece com a expulsão. O texto deixou a sala cheia no versículo 10 e não a esvaziou. Quem lê a proporção do versículo tem essa sala diante dos olhos.

A vida da frase depois de Mateus — Pela tradução latina, ela se tornou ditado corrente nas línguas da Europa, usada fora de qualquer contexto religioso para falar de concursos e de vagas disputadas. É um dos poucos versículos do Novo Testamento que passaram ao provérbio popular sem perder a redação.

O que vem depois — Mateus 22:15: os fariseus se retiram e combinam um plano. A parábola é a última antes dos três debates do templo, e termina sem que ninguém responda nada.

5. Pontos de Ensino

A conta do versículo não é a conta da história. Na parábola, os chamados foram muitos e os que permaneceram à mesa também; o retirado foi um. Quem lê a frase como estatística da parábola está lendo uma coisa que não está lá. Reconhecer isso é a condição para usar o versículo sem forçá-lo.

"Pois" não é "em resumo". A palavra que abre a frase a apresenta como razão do que acabou de acontecer — a expulsão de um homem —, e não como moral dos quatorze versículos. Prestar atenção à conjunção muda o endereço do dito, e é o tipo de detalhe que se perde quando a frase é citada solta.

Receber o convite é verificável; ter a condição, não. "Chamado" descreve um fato que aconteceu com a pessoa: alguém a convidou. "Escolhido" não descreve nada que se possa examinar nela. A frase separa as duas coisas, e não ensina ninguém a passar de uma para a outra.

Não há critério no versículo. Nada diz o que distingue os dois grupos, quem faz a distinção nem quando. Toda pregação que forneça esse critério está fornecendo material próprio, e deve dizer que é próprio.

A frase não autoriza ninguém a se localizar. Não há no texto nem número, nem sinal, nem prova pela qual alguém possa concluir que está entre os poucos. O uso mais comum da sentença em púlpito — a maioria está fora, e quem fala está dentro — é exatamente o que ela não permite.

A mesma dupla de palavras pode não ser uma oposição. Em Apocalipse 17:14, "chamados" e "escolhidos" descrevem as mesmas pessoas, somados a "fiéis". Aqui elas se opõem porque vêm acompanhadas de um par de quantidades — muitos contra poucos. É o par que produz a doutrina, não o vocabulário.

6. Aspectos Filosóficos

"Escolhido" é uma propriedade da pessoa ou um estado que lhe foi conferido?

A pergunta parece sutil e decide o versículo inteiro. Se ser escolhido é uma propriedade, então em princípio ela se verifica: há algo na pessoa que a torna escolhida, e esse algo pode ser procurado. Se é um estado conferido, nada na pessoa muda, e nenhum exame dela revelaria coisa alguma — a diferença está numa relação com quem confere.

A filósofa que trabalhou esse tipo de coisa com mais cuidado foi Lynne Rudder Baker (1944-2017, norte-americana, professora na Universidade de Massachusetts em Amherst), e o conceito que ela construiu para isso é o de constituição.

O que Baker chama de constituição

O exemplo dela é uma estátua. O bloco de mármore e a estátua esculpida nele ocupam o mesmo espaço e são a mesma matéria, mas não são a mesma coisa: a estátua pode ser destruída sem que o mármore desapareça, e tem propriedades que o mármore não tem — vale uma fortuna, é obra de um artista, significa algo. Baker recusa tanto dizer que são dois objetos empilhados quanto dizer que são um só. A relação entre eles é de constituição: o mármore constitui a estátua, e só o faz em circunstâncias favoráveis — a existência de uma prática artística, de intenções, de um mundo em que esculturas significam algo.

Daí Baker tira uma classe de coisas que chama de dependentes de intenção: notas de dinheiro, passaportes, certidões de casamento, bandeiras. São objetos inteiramente reais, com efeitos reais — uma nota compra pão, um passaporte abre uma fronteira —, e nenhum existiria sem crenças, intenções e práticas humanas. O decisivo é que nenhuma análise química do papel diz se ele é dinheiro: a propriedade é real e não está na matéria.

Onde isso ilumina o versículo

"Chamado" é fácil de encaixar: é um fato sobre o passado da pessoa. Alguém lhe disse palavras, e o convite chegou. Pode-se perguntar quem convidou, quando e como.

"Escolhido", lido na chave de Baker, é objeto dependente de intenção. Não é algo que se descubra examinando o escolhido; é um estado que existe porque alguém o conferiu, e que por isso é invisível a qualquer inspeção da pessoa isolada. A gramática do versículo acompanha: os dois termos são adjetivos de relação, sem verbo e sem agente, e a parábola, quando precisou de um sinal, não examinou caráter nenhum — olhou uma peça de roupa, que é exterior por definição.

Isso explica, sem recurso à devoção, por que este versículo nunca produziu um teste: se o estado é conferido, não tem marca própria na pessoa, e a procura por sinais está mal formulada desde o início.

Os limites, e um deles é grave

O primeiro é o de sempre: Baker não está comentando Mateus. Ela está construindo uma metafísica dos objetos comuns, com o problema clássico da estátua e do barro no centro, e eleição divina não é assunto dela.

O segundo é mais sério. Os objetos dependentes de intenção, em Baker, dependem das intenções de comunidades humanas: o dinheiro é dinheiro porque um conjunto de pessoas o trata como tal, e as "circunstâncias favoráveis" são sociais e descritíveis. Um estado conferido por Deus não tem nada disso. Não há comunidade cujas práticas o sustentem, não há convenção a descrever, e as circunstâncias favoráveis, se existem, não estão à vista de ninguém. A analogia ilumina a estrutura e para na porta do caso.

O terceiro é um aviso contra o uso torto. Baker insiste que objetos dependentes de intenção são reais, e combate explicitamente a conclusão de que seriam meras convenções sem substância. Quem usar o argumento dela para dizer que ser escolhido é só um rótulo entendeu o contrário: na estrutura dela, o estado conferido é tão real quanto o que se vê, e é o que decide o que acontece com a pessoa. O que ele não é, nunca, é verificável por dentro.

Fica em aberto a pergunta que a parábola levanta e não resolve: se o estado é conferido e não é verificável, em que consistem as circunstâncias que o constituem? O texto não diz, e a honestidade do estudo está em registrar isso em vez de preencher.

7. Aplicações Práticas

Não se mede uma igreja com este versículo

O uso mais frequente da frase em pregação é uma conta sobre os outros: a maioria está fora, poucos se salvam, e quem ouve o sermão deve se perguntar se está entre os poucos. O texto não oferece nada para essa operação — não há número, não há sinal, não há critério e não há agente. Quem a faz está usando a autoridade do versículo para uma afirmação que não é dele. E há um efeito prático ruim: a conta produz ou presunção, em quem se coloca dentro, ou angústia permanente, em quem não consegue se colocar. Nenhum dos dois estados vem do versículo.

O convite recebido não é a posição alcançada

A aplicação que tem relação real com a frase é estreita, e serve para dentro. Há situações em que você foi convidado e isso é fato: um cargo, uma vaga, uma confiança, um lugar numa família que o recebeu. O convite é verificável e você pode mostrá-lo a qualquer um. Permanecer naquele lugar como quem pertence a ele é outra coisa, e não se prova com o convite na mão. O versículo não diz como se faz essa passagem — diz apenas que as duas coisas não são a mesma, e que a diferença entre elas pode aparecer tarde.

Cuidado com a frase como desculpa

Há um uso oposto ao anterior e igualmente comum: tratar a desproporção como fatalidade e concluir que não há o que fazer, porque a escolha não está nas mãos de ninguém. O versículo também não autoriza isso. Ele não diz que a condição é fixa, não diz quando é atribuída e não diz que é irrevogável. Quem o usa para justificar passividade está acrescentando ao texto as mesmas peças que acrescenta quem o usa para assustar — só na direção contrária.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A frase pertence a este versículo, ou foi acrescentada aqui também?

Pertence, e sem discussão. Todos os manuscritos gregos, todas as versões antigas e todas as edições críticas modernas a trazem neste lugar — não há variante a registrar. A disputa textual sobre esta sentença existe em Mateus 20:16, onde ela aparece outra vez e falta nos manuscritos mais antigos. Aqui não há nada em disputa.

Então por que a frase não combina com a parábola?

Porque a história não tem a proporção que a frase enuncia: o salão ficou cheio e um só foi retirado. A quebra é real. O que se discute é como lê-la — como provérbio independente, como afirmação sobre a realidade figurada e não sobre o enredo, ou como leitura em que os "muitos chamados" são os primeiros convidados. Não há consenso.

Quem chama e quem escolhe?

O versículo não diz. Os dois termos, em grego, são adjetivos — não verbos na voz passiva — e não há nenhum complemento de agente. Dentro da história quem convida é o rei; a palavra "escolher", porém, não é aplicada a nenhum ato dele. Supor Deus como agente é leitura razoável do conjunto do evangelho, e não é informação deste versículo.

"Chamados" e "escolhidos" são dois grupos ou dois nomes do mesmo grupo?

São dois, porque só há contraste se houver diferença de número — e o par "muitos… poucos" cria essa diferença. Em Apocalipse 17:14, porém, as mesmas duas palavras aparecem somadas a uma terceira para descrever um único grupo, sem par de quantidades. A dupla de palavras, por si, não decide nada.

Existe algum modo de saber se alguém está entre os escolhidos?

Não a partir deste versículo. Ele não dá sinal, prova, número nem critério, e o único indicador que a parábola usou foi uma peça de roupa cuja origem o texto nunca explicou. A pergunta, formulada assim, não tem resposta no texto — e a frequência com que ela é feita a partir daqui diz mais sobre a pregação do que sobre a passagem.

O versículo ensina predestinação?

Foi usado para isso durante séculos e continua sendo. O que se pode dizer com honestidade é que o versículo não contém verbo de decisão, não nomeia quem decide, não diz quando a decisão é tomada e não afirma que seja irrevogável. Quem defende a doutrina a partir daqui acrescenta essas peças; quem a nega a partir daqui também.

Por que a mesma frase aparece duas vezes em Mateus?

Não se sabe. Duas hipóteses circulam: que Jesus tenha usado um dito já corrente em mais de uma ocasião, o que é comum em ensino oral; ou que a frase, originária deste lugar, tenha sido levada por memória de copista ao fecho de Mateus 20:16, onde encaixa pior. As duas são plausíveis, e dizem respeito a processos diferentes — o modo de ensinar e o modo de copiar.

A frase é uma ameaça?

Lida no contexto imediato, ela explica a expulsão de um homem que estava dentro. Não contém imperativo, exortação nem apelo: é constatação encostada numa cena, e o evangelho não registra reação nenhuma de quem a ouviu.

9. Conexão com Outros Textos

A outra aparição da mesma frase, e o problema que ela tem lá

Mateus 20:16 — "Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos."

O grego é idêntico ao daqui, palavra por palavra. A diferença é de apoio nos manuscritos e de encaixe: lá a parábola não tem ninguém descartado, e o fecho fica sem a quem se aplicar.

Os chamados, dentro desta parábola

Mateus 22:3 — "Ele enviou seus servos para chamar os convidados ao banquete, mas eles não quiseram vir."

Mateus 22:9 — "Vão, então, às esquinas dos caminhos e convidem para o banquete todos os que encontrarem."

O verbo dos dois versículos é o mesmo da palavra "chamados" deste. É por isso que a primeira metade da frase pode ser verificada na história.

Mateus 22:10 — "Aqueles servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, tanto maus como bons; e o salão do banquete ficou cheio de convidados."

O salão cheio é o dado que torna difícil a segunda metade. Cheio não é poucos.

As duas palavras juntas, sem oposição entre elas

Apocalipse 17:14 — "Estes batalharão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque ele é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; e os que estão com ele são chamados, escolhidos e fiéis."

O único lugar do Novo Testamento em que os dois adjetivos aparecem lado a lado. Ali eles se somam para descrever um grupo só.

"Escolhido" como título, no Antigo Testamento grego

Isaías 42:1 — "Eis o meu servo, a quem sustento; o meu escolhido, em quem a minha alma se alegra."

Isaías 45:4 — "Por amor do meu servo Jacó e de Israel, meu escolhido, eu o chamei pelo seu nome."

Nos dois casos a palavra é título de pertença, não resultado de triagem. É esse o fundo sobre o qual a frase do versículo cai.

"Escolhidos" no resto de Mateus

Mateus 24:31 — "E ele enviará os seus anjos com um forte toque de trombeta, e eles reunirão os seus escolhidos dos quatro cantos do mundo, de uma extremidade à outra dos céus."

Nas outras três vezes em que Mateus usa a palavra — esta, Mateus 24:22 e Mateus 24:24 —, ela nomeia um grupo já constituído, protegido e reunido. Em nenhuma delas se descreve o ato de escolher.

A outra aritmética de Mateus

Mateus 7:14 — "Porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e são poucos os que o encontram."

A mesma desproporção, com uma diferença decisiva: lá o que separa é um caminho que se encontra ou não se encontra, e há um verbo com sujeito humano. Aqui não há verbo nenhum.

A cena que a frase explica

Mateus 22:13 — "Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrem-lhe os pés e as mãos e lancem-no nas trevas de fora; ali haverá choro e ranger de dentes.’"

A partícula que abre o versículo 14 liga a sentença a esta ordem, e não ao conjunto da parábola.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos.”

Texto grego (Textus Receptus)

πολλοὶ γάρ εἰσι κλητοί, ὀλίγοι δὲ ἐκλεκτοί.

Transliteração

polloi gar eisi klētoi, oligoi de eklektoi.

Análise palavra por palavra

πολλοὶ (polloi) — "muitos". Adjetivo no nominativo masculino plural, e a primeira palavra da frase, posição de destaque em grego. Está sem artigo, e isso tem consequência: o grego dispunha da forma com artigo, hoi polloi, "os muitos", que designa a massa, o conjunto. Aqui não é essa a forma. A ausência do artigo pesa contra a leitura, apresentada no item 2, que faria de "muitos" um sinônimo de "todos".

γάρ (gar) — "pois", "porque". Partícula explicativa, sempre em segunda posição na frase. Ela não introduz observação lateral: apresenta o que vem depois como razão do que veio antes. O que vem antes, neste caso, é uma ordem narrada — amarrar, levar, lançar.

εἰσι (eisi) — "são". Presente do indicativo, terceira pessoa do plural, do verbo ser. A segunda metade da frase não o repete, e em português o acréscimo é obrigatório. O Textus Receptus traz eisi e as edições críticas eisin, diferença apenas de grafia.

κλητοί (klētoi) — "chamados". Adjetivo verbal formado sobre kaleō, "chamar", usado aqui como substantivo. A terminação grega desse tipo de adjetivo descreve um estado já alcançado: não "os que chamam", nem "os chamáveis", mas "os que foram chamados" — a condição de quem recebeu o chamado. No Novo Testamento a palavra aparece cerca de dez vezes, e quase todas em Paulo, onde ela funciona quase como título: "chamados de Jesus Cristo", em Romanos 1:6; "chamados para ser santos", em Romanos 1:7. Em Mateus, ela só existe neste versículo e na outra aparição da mesma frase.

ὀλίγοι (oligoi) — "poucos". Adjetivo no nominativo masculino plural, também sem artigo. Em Mateus a palavra tem dois registros. Um é de contagem de pessoas, e o exemplo mais próximo é Mateus 9:37, "os trabalhadores são poucos". O outro é de quantidade de bens: em Mateus 25:21, "você foi fiel no pouco". O segundo registro mostra que o termo não traz, por si, nenhum juízo de valor — diz tamanho, não qualidade.

δὲ (de) — "mas". Esta partícula é mais fraca do que a tradução sugere, e é importante saber disso. De é, no grego do período, a partícula de ligação mais comum que existe; ela marca passagem para o item seguinte e pode ser adversativa ou meramente aditiva, conforme o contexto. Traduzi-la por "e" seria gramaticalmente possível: "muitos são chamados, e poucos escolhidos". A razão pela qual "mas" está certo aqui não é a partícula: é o par "muitos… poucos", que opõe quantidades por si mesmo. Quem quiser medir o peso adversativo da frase deve medir o par, e não o de.

ἐκλεκτοί (eklektoi) — "escolhidos". Adjetivo verbal formado de ek, "de dentro de, para fora de", mais o verbo de escolher, igualmente usado como substantivo. A palavra tem dois sentidos no grego, e eles levam a leituras diferentes do versículo.

O primeiro é relacional: o retirado de um conjunto, o apartado dos demais. É o sentido que domina na Bíblia grega, onde a palavra traduz o hebraico bachir ("escolhido"), aplicado a Israel, ao servo e ao rei.

O segundo é qualitativo, e é o uso comum do grego fora da Bíblia: eklektos dito de grão, de pedra ou de soldados significa "de primeira", "o melhor do lote". O sentido aparece na própria Bíblia grega — na versão grega de Gênesis 23:6 os filhos de Hete oferecem a Abraão "o mais escolhido" dos seus sepulcros, isto é, o melhor. Se fosse esse o sentido aqui, a frase diria "poucos são de primeira qualidade", afirmação sobre a condição das pessoas e não sobre uma seleção feita por alguém. O sentido relacional é o mais provável, porque é o do uso bíblico e porque a palavra está em contraste com "chamados"; o outro não pode ser descartado, e o grego sozinho não decide.

Em Mateus, eklektos aparece quatro vezes: aqui, em Mateus 24:22, 24:24 e 24:31.

Variantes

Não há nenhuma, e isso é o dado mais importante deste item. O versículo é transmitido sem variação em todos os testemunhos de peso: está nos manuscritos gregos mais antigos, inclusive no Códice Sinaítico e no Códice Vaticano, está na grande maioria dos manuscritos medievais, e é trazido por todas as edições — Stephanus, Beza, Scrivener, o texto bizantino, Westcott e Hort, Tischendorf, Nestle-Aland e a edição da Sociedade de Literatura Bíblica. Nenhum editor o coloca entre colchetes, nenhum aparato registra omissão.

Esse é o contraste que organiza a leitura deste versículo. A mesma sentença, em Mateus 20:16, falta nos dois manuscritos gregos mais antigos e é considerada acréscimo pela maioria dos editores críticos — a discussão inteira está no estudo daquele versículo. Aqui ela está em casa. E foi daqui que ela atravessou a história: a tradução latina de Jerônimo verte "multi enim sunt vocati, pauci vero electi", e é dessa forma latina que a sentença passou às línguas europeias como provérbio de uso comum.

11. Conclusão

Do que foi examinado saem quatro conclusões.

A primeira é sobre o lugar da frase. Ela não tem, aqui, problema de manuscrito nenhum: todos os testemunhos a trazem, todos os editores a imprimem, nenhum aparato registra omissão. Conclui-se que qualquer discussão sobre eleição feita a partir de Mateus tem de ser feita neste versículo, e não no outro em que a mesma sentença aparece com apoio textual mais fraco.

A segunda é sobre o endereço. A partícula que abre a frase apresenta-a como razão do que vem imediatamente antes, e o que vem antes é a expulsão de um homem que já estava à mesa. Daí decorre que a sentença, no seu uso mais estrito, não fala de quem recusou o convite nem de quem nunca o recebeu: fala de quem entrou. Quem a aplica aos de fora está estendendo o alcance dela, e deve dizer que está.

A terceira é sobre a conta. Ela não fecha, e o reconhecimento disso é o resultado mais sólido do estudo: na história, os chamados foram muitos, o salão ficou cheio e o descartado foi um só. Quatro explicações disputam a quebra, nenhuma a resolve, e não é possível decidir entre elas. O que se conclui é modesto e firme: a frase afirma uma desproporção que a parábola que ela fecha não exibe.

A quarta é sobre o que não está escrito. Não há no versículo verbo de escolher, agente que escolha, critério que distinga, momento em que a distinção ocorra, nem número que a meça. Os dois termos são adjetivos de condição, e o único sinal visível que a parábola usou foi uma peça de roupa de origem não explicada. Conclui-se que o versículo é incapaz de sustentar, sozinho, tanto a doutrina que dele se extrai quanto a recusa dessa doutrina — e que a sua força não está em informar quem está dentro, mas em retirar a tranquilidade de quem já se sentou.

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Mateus 22:14

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