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Mateus 22:10

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 3 acessos
Aqueles servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, tanto maus como bons; e o salão do banquete ficou cheio de convidados.
Salão de banquete cheio de convidados reclinados em divãs, trazidos das estradas, com servos circulando entre as mesas

Estudo


Aqueles servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, tanto maus como bons; e o salão do banquete ficou cheio de convidados.

1. Introdução

Maus primeiro.

O texto podia ter escrito "bons e maus", que é a ordem natural de quem quer suavizar. Escreveu o contrário. Os servos reuniram todos os que encontraram, tanto maus como bons, e a parábola não explica, não se desculpa e não volta ao assunto.

A segunda informação é ainda mais incômoda para a leitura piedosa: o salão ficou cheio. A festa que a lista não encheu foi enchida pelo acaso da estrada, e com gente cuja qualidade moral o texto classifica em duas palavras e deixa para trás.

E há um detalhe de postura que o português apaga. Os convidados não estão sentados: estão reclinados, na posição do banquete formal. Gente apanhada nas portas da cidade entra no palácio e se recosta como aristocrata.

2. Contexto Histórico e Cultural

Reclinar-se era um gesto de classe. No mundo greco-romano, comer deitado de lado sobre divãs era a postura do banquete formal, reservada a homens livres em ocasiões solenes. Trabalhadores comiam sentados ou de pé; escravos serviam. A pose exigia móveis próprios — o triclinium, com três divãs dispostos em torno de uma mesa baixa — e um aprendizado: apoiar-se no cotovelo esquerdo, comer com a direita, saber a ordem dos lugares. O verbo que Mateus usa no fim do versículo é exatamente o dessa postura.

O judaísmo adotou o costume. A ceia pascal, na forma que a literatura rabínica descreve, prescreve que se coma reclinado, e justifica o gesto: é a postura dos homens livres, e na Páscoa todos são livres. A Mishná discute inclusive se o pobre e a mulher devem reclinar-se. O detalhe importa para o versículo: a postura não é luxo, é declaração de estatuto.

O salão e o seu tamanho. As casas aristocráticas da Judeia herodiana, escavadas no bairro alto de Jerusalém, mostram salas de recepção amplas, com pisos de mosaico e bancos corridos, capazes de acomodar dezenas de convivas reclinados. Encher um salão desses exigia um número grande de pessoas — o que torna plausível que os servos tenham de recolher todos quantos encontrassem, sem escolher.

A fórmula "maus e bons". O par aparece na literatura judaica do período como expressão de totalidade, do mesmo tipo de "do maior ao menor" ou "homens e mulheres". A ordem, porém, costuma ser a inversa — bons antes de maus. A inversão de Mateus não é obrigatória pela fórmula, e foi notada desde cedo pelos comentaristas.

A mistura à mesa tinha regras. A sociedade do período regulava com rigor com quem se podia comer, e a partilha da mesa implicava reconhecimento mútuo. Os conflitos que os Evangelhos registram sobre Jesus comer com publicanos e pecadores não são sobre gentileza: são sobre o que a mesa comum declara. Um salão em que maus e bons se reclinam juntos é, nesse código, uma afirmação forte.

O que se comia reclinado. A postura condicionava o cardápio: alimentos que exigissem as duas mãos eram impraticáveis, e por isso a carne chegava à mesa já trinchada, o pão servia de utensílio e os molhos ficavam em tigelas comuns ao alcance do braço direito. A arqueologia doméstica do período mostra conjuntos de louça compatíveis com esse arranjo. O detalhe importa porque confirma que o salão descrito não foi improvisado para receber os novos convidados — estava montado, desde o versículo 4, para uma refeição formal.

A ordem dos lugares. Nos banquetes formais, a posição de cada conviva no divã indicava a sua importância, e havia um lugar de honra reconhecido. Lucas conserva um ensinamento de Jesus justamente sobre isso — a recomendação de ocupar o último lugar. No salão deste versículo, com gente trazida da estrada sem nenhuma hierarquia prévia, a questão de quem se reclina onde fica inteiramente em aberto, e o texto não a menciona.

3. Análise Teológica do Versículo

"Aqueles servos saíram pelos caminhos"

A obediência é imediata e o texto não a comenta. Entre a ordem do versículo 9 e a execução deste não há deliberação, pergunta ou demora — os servos saem.

Pese o que já aconteceu com servos nesta história. Os da primeira remessa foram recusados; os da segunda foram agarrados, humilhados e mortos. Estes saem assim mesmo, e saem para a estrada, que é precisamente onde se está mais desprotegido. O evangelista não transforma isso em tema, e talvez por isso o detalhe fique mais forte.

"e reuniram todos os que encontraram"

O verbo grego é o de ajuntar, congregar, e é da mesma raiz da palavra "sinagoga" — a assembleia, o que se reúne. A escolha é significativa: não se diz que os servos convidaram, embora a ordem tenha sido convidar. Diz-se que reuniram.

A diferença entre convidar e reunir é toda a distância entre uma proposta e um resultado. O versículo 9 descrevia a tarefa; este descreve o que ela produziu. E o que produziu foi uma assembleia — um corpo de gente junta, formado sem seleção.

O "todos os que encontraram" retoma a indeterminação da ordem e a cumpre literalmente. Não houve triagem na estrada. O que o rei mandou fazer foi feito.

"tanto maus como bons"

Aqui está o ponto de maior resistência do versículo, e convém não contorná-lo.

Primeiro, a ordem das palavras. A fórmula de totalidade existia e era corrente, mas vinha normalmente com os bons antes. Mateus inverte. Os comentaristas notaram a inversão desde a Antiguidade, e as explicações se dividem: para uns, é apenas variação estilística sem peso; para outros, é deliberada, e serve para que o leitor sinta o incômodo antes de ser consolado pela segunda palavra.

Segundo, o que os termos significam aqui. Não se trata de juízo moral individualizado — ninguém é examinado, ninguém confessa, ninguém se converte na estrada. "Maus e bons" é descrição sumária de uma população apanhada ao acaso, e o texto a aplica de fora, sem acesso ao interior de ninguém.

Terceiro, e mais importante: a maldade não impediu a entrada. O rei mandara convidar todos os que fossem encontrados, e os servos não aplicaram filtro algum. Quem era mau entrou do mesmo modo que quem era bom, e se reclinou na mesma sala.

É uma afirmação forte demais para passar sem resistência, e a história da interpretação mostra isso. Houve quem a amenizasse supondo conversão implícita no caminho; houve quem a lesse como prova de que a Igreja terrena é mista, corpo em que o joio cresce com o trigo até a colheita; houve ainda quem visse no versículo 11, com o homem sem veste, a correção necessária a este — como se a parábola abrisse a porta aqui para fechá-la ali.

A leitura mais honesta é a que resiste a resolver depressa. O texto diz que maus entraram. Não diz que deixaram de ser maus ao entrar, e não diz que serão todos expulsos. Diz que entraram, e segue adiante.

"e o salão do banquete ficou cheio"

O verbo está na voz passiva e no aoristo: foi enchido. Não se diz que os servos o encheram, embora tenham sido eles a trazer gente. A construção deixa o agente fora de foco e põe o resultado no centro.

E o resultado é exatamente o contrário de tudo o que a parábola vinha narrando. Desde o versículo 3, a história acumulava ausências: não quiseram vir, foram embora, mataram os servos, o salão vazio. Em cinco palavras isso se inverte. A festa que a lista não encheu foi enchida sem lista.

Convém medir o que essa frase faz com o veredito do versículo 8. Lá, o rei dissera que os convidados não eram dignos. Aqui, o lugar deles é ocupado por gente que ninguém afirmou ser digna — e a questão da dignidade simplesmente não é levantada. Não se diz que os novos eram melhores. Diz-se que vieram.

"de convidados"

A palavra final do versículo não é "pessoas" nem "gente": é um particípio que significa, literalmente, "os que estão reclinados à mesa". Designa a postura do banquete formal.

O detalhe fecha o versículo com precisão. Os que foram apanhados nas saídas da cidade não entraram para comer em pé, num canto, à margem da festa. Entraram e se recostaram, na posição reservada aos homens livres em ocasião solene. A mudança de lista não produziu convidados de segunda classe — produziu convidados.

E é essa dignidade concedida que torna possível o episódio seguinte. Quem está reclinado à mesa de um rei está sujeito ao escrutínio que se faz à mesa de um rei. A parábola deu estatuto aos encontrados, e com o estatuto vem o que o estatuto exige.

O que a interpretação fez com "maus e bons"

Esta é uma das linhas mais citadas do Evangelho nas controvérsias sobre a natureza da Igreja, e convém registrar por quê.

No século IV, o conflito donatista na África romana girou em torno de uma pergunta prática: a comunidade dos fiéis deve ser pura, excluindo os que falharam sob perseguição, ou mista, acolhendo-os? Os que defenderam a segunda posição recorreram repetidamente a este versículo e ao do joio e do trigo. A tese que se firmou a partir daí descreve a Igreja terrena como corpo misto — assembleia em que bons e maus coexistem até uma separação que não cabe a ninguém antecipar.

A leitura tem apoio sólido no texto, mas também um limite que raramente se menciona. O versículo não diz que a mistura é permanente, nem que é boa, nem que deve ser preservada. Diz apenas que foi assim que o salão encheu. Transformar uma constatação narrativa em doutrina eclesiológica é um salto — legítimo, talvez, mas salto.

Há ainda uma terceira leitura, menos citada e que merece registro. Ela observa que o par "maus e bons" descreve a população da estrada no momento do encontro, e que o texto não acompanha ninguém depois disso. O que acontece com quem entrou não é narrado — exceto no caso de um homem, três versículos adiante. A parábola, nessa leitura, não está fazendo afirmação alguma sobre a composição permanente da assembleia: está registrando como ela se formou.

A passiva e o seu efeito

Vale deter-se um instante na construção do fim. O texto não diz que os servos encheram o salão, embora tenham sido eles a trazer todo mundo. Diz que o salão foi enchido.

A voz passiva, no uso bíblico, costuma deixar implícito um agente que não se quer nomear, e os comentaristas chamam esse recurso de passiva divina. Não é obrigatório lê-la assim aqui — a construção pode ser apenas estilística, pondo o resultado em foco. Mas o efeito é o mesmo nos dois casos: no instante em que a festa se realiza, quem a realizou sai de cena. Nem os servos, nem o rei, nem os convidados são sujeitos da frase. Só o salão, e o fato de estar cheio.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os servos — A terceira remessa, a mesma do versículo 8. Saem para a estrada depois de os da segunda terem sido mortos, e o texto não comenta o risco.

Os encontrados — População das saídas da cidade: viajantes, carregadores, retardatários barrados pelo fechamento das portas. Entram sem triagem.

"Maus e bons" — Fórmula de totalidade, corrente na literatura do período, mas normalmente com os bons primeiro. Mateus inverte a ordem.

O salão do banquete — Nas casas aristocráticas da Judeia herodiana, sala ampla de recepção, com piso de mosaico e capacidade para dezenas de convivas reclinados.

Reclinar-se — Postura do banquete formal no mundo greco-romano, sobre divãs dispostos em torno de mesa baixa. Reservada a homens livres em ocasião solene; a ceia pascal judaica a prescrevia como sinal de liberdade.

5. Pontos de Ensino

A entrada não dependeu da qualidade de ninguém. O texto diz que maus entraram, e não diz que deixaram de ser maus ao entrar. Qualquer leitura que resolva isso depressa está acrescentando ao versículo o que ele deliberadamente não tem.

Quem foi trazido recebeu estatuto, não esmola. Os encontrados não comeram em pé, num canto. Reclinaram-se na posição dos homens livres, no salão do rei, com a comida preparada para outros. A mudança de lista não criou convidados de segunda classe.

O lugar vazio não fica vazio. O veredito sobre os primeiros não encerrou a festa; abriu vaga. É a consequência mais prática do versículo, e também a mais dura para quem foi chamado e não veio.

Obedecer custa, e o texto não aplaude. Os servos saem para a estrada depois de outros servos terem sido mortos por fazer o mesmo. O evangelista registra a saída numa oração subordinada, sem elogio nem comentário — e o silêncio diz mais do que o elogio diria.

Dignidade concedida traz exigência junto. Quem se reclina à mesa de um rei fica sujeito ao que se espera à mesa de um rei. O versículo seguinte mostrará o rei entrando para olhar, e a conta dessa escolha recairá sobre um homem.

6. Aspectos Filosóficos

É possível pertencer a um lugar antes de estar à altura dele?

O teólogo holandês Henri Nouwen, escrevendo sobre comunidades que acolhem pessoas em situação de grande fragilidade, descreveu uma inversão que lhe parecia decisiva: nos arranjos comuns, primeiro a pessoa se qualifica, depois é aceita; nas comunidades que ele descrevia, a aceitação vinha antes, e a transformação, se vinha, vinha depois — como consequência de pertencer, não como condição para pertencer.

Esse é exatamente o movimento do versículo. Ninguém foi examinado na estrada. Maus e bons entraram juntos, e entraram na mesma posição, reclinados no mesmo salão. O estatuto foi concedido antes de qualquer mudança, e o texto não insinua que tenha havido mudança nenhuma no caminho.

A consequência é desconfortável nos dois sentidos. De um lado, desfaz a ideia de que o acesso se conquista: os que tinham lugar reservado não estão à mesa, e os que não tinham estão. De outro, impede a leitura sentimental, porque o pertencimento concedido de graça não é inconsequente — Nouwen insistia que viver em comunidade cobra, e cobra mais de quem foi acolhido sem mérito, porque não há desculpa a invocar.

A parábola fará essa cobrança dois versículos adiante, e é por isso que este versículo não pode ser lido isoladamente. Quem toma o "maus e bons" como ponto final transforma a história num elogio da indiferença moral; quem toma o episódio da veste como correção desta linha transforma a entrada livre em pegadinha. As duas leituras simplificam.

Fica a pergunta que Nouwen deixou aberta, e que o texto torna concreta: se o pertencimento não foi ganho, com que direito se exige alguma coisa de quem pertence? A resposta da parábola não é argumentada — é encenada, e o encenado é que o rei entra no salão e olha.

7. Aplicações Práticas

Este versículo é difícil de aplicar porque corta nos dois sentidos.

Para quem organiza alguma coisa — uma igreja, uma equipe, uma casa —, ele desmonta o impulso de filtrar antes. A ordem foi reunir todos os que fossem encontrados, e os servos não aplicaram critério nenhum. O salão encheu porque ninguém ficou na porta decidindo quem servia.

Para quem entra, ele desmonta a ideia de que a entrada livre não cobra nada. Os encontrados não foram postos num canto: foram reclinados à mesa do rei. E quem se reclina à mesa de um rei fica sujeito ao que ali se espera.

A armadilha, nos dois casos, é usar o versículo pela metade. Quem só vê "maus e bons" conclui que nada importa. Quem só vê o que vem depois conclui que a porta aberta era falsa. O texto não permite nenhuma das duas.

Fica uma aplicação concreta e pequena, que é a que o versículo suporta: quando couber a você decidir quem entra, lembre que a lista não encheu o salão e o acaso encheu. E quando couber a você entrar sem ter feito nada para merecer, lembre que o lugar à mesa não é o fim da história.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que "maus" vem antes de "bons"?

A fórmula de totalidade existia e normalmente trazia os bons primeiro. Mateus inverte, e os comentaristas notaram a inversão desde a Antiguidade. Para uns é variação sem peso; para outros é deliberada, e serve para que o leitor sinta o incômodo antes de ser aliviado pela segunda palavra. O texto não explica.

Os maus se converteram no caminho?

O texto não diz isso, e supô-lo é acrescentar. Ninguém é examinado, ninguém confessa, ninguém muda na estrada. Diz-se que maus entraram — não que deixaram de ser maus ao entrar, e tampouco que todos serão expulsos. A leitura honesta é a que resiste a resolver depressa.

O que significa "ficou cheio de convidados"?

A palavra final é um particípio que significa, literalmente, "os que estão reclinados à mesa" — a postura do banquete formal, reservada a homens livres em ocasião solene. Gente apanhada nas portas da cidade entrou e se recostou como aristocrata. Não houve versão reduzida da festa.

Então a entrada é livre e nada é exigido?

A entrada foi livre, e isso é o que o versículo afirma. O que vem a seguir mostrará que estatuto concedido traz exigência junto — quem se reclina à mesa de um rei fica sujeito ao que ali se espera. Ler só esta linha produz um elogio da indiferença moral; ler só a seguinte transforma a porta aberta em armadilha. As duas leituras simplificam.

Por que o verbo é "reunir" e não "convidar"?

Porque o versículo 9 descreveu a tarefa e este descreve o resultado. O verbo grego é o de congregar, da mesma raiz de "sinagoga": o que se formou no salão foi uma assembleia, um corpo de gente junta — e formada sem seleção.

Este versículo diz que a Igreja é mista?

É a leitura que prevaleceu a partir das controvérsias do século IV, e tem apoio sólido no texto e no paralelo do joio e do trigo. Vale, porém, marcar o limite: o versículo não diz que a mistura é permanente, nem que é boa, nem que deve ser preservada. Diz como o salão encheu. Transformar a constatação em doutrina é um salto — talvez legítimo, mas salto.

Por que a frase final está na voz passiva?

Porque põe o resultado no centro e deixa o agente fora. Não se diz que os servos encheram o salão, embora tenham sido eles a trazer todos. Diz-se que ele foi enchido. No instante em que a festa se realiza, ninguém é sujeito da frase — só o salão, e o fato de estar cheio.

9. Conexão com Outros Textos

A rede que recolhe de toda espécie

Mateus 13:47-48 — "O reino dos céus é como uma rede lançada ao mar, que recolhe peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia; então se assentam e juntam os bons em cestos, mas os ruins jogam fora."

A mesma estrutura: recolhe-se tudo primeiro, separa-se depois. Também ali a triagem não acontece no momento de recolher.

O joio que cresce junto até a colheita

Mateus 13:30 — "Deixem que cresçam juntos até a colheita. Então direi aos encarregados da colheita: Juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado."

A mesa partilhada que gerou conflito

Mateus 9:11 — "Vendo isso, os fariseus perguntaram aos discípulos dele: 'Por que o mestre de vocês come com publicanos e pecadores?'"

A objeção não era sobre gentileza: a mesa comum declarava reconhecimento mútuo, e era isso que estava em causa.

O sol que nasce sobre maus e bons

Mateus 5:45 — "Ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos."

O mesmo par, na mesma ordem invertida, aplicado ao modo de agir de Deus.

O convite da Sabedoria aos que não têm discernimento

Provérbios 9:4 — "Venham para cá todos os inexperientes! Aos que não têm juízo ela diz..."

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Aqueles servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, tanto maus como bons; e o salão do banquete ficou cheio de convidados.

Texto grego (Textus Receptus)

καὶ ἐξελθόντες οἱ δοῦλοι ἐκεῖνοι εἰς τὰς ὁδοὺς συνήγαγον πάντας ὅσους εὗρον, πονηρούς τε καὶ ἀγαθούς· καὶ ἐπλήσθη ὁ γάμος ἀνακειμένων.

Transliteração

kai exelthontes hoi douloi ekeinoi eis tas hodous synēgagon pantas hosous heuron, ponērous te kai agathous; kai eplēsthē ho gamos anakeimenōn.

Análise palavra por palavra

ἐξελθόντες (exelthontes) — particípio aoristo de exerchomai, "sair". O prefixo marca saída de dentro para fora: deixaram o palácio e foram à estrada.

οἱ δοῦλοι ἐκεῖνοι (hoi douloi ekeinoi) — "aqueles servos". O demonstrativo os liga aos do versículo 8, distinguindo-os dos que foram mortos. É a terceira remessa.

εἰς τὰς ὁδούς (eis tas hodous) — "pelos caminhos". Simplifica a expressão do versículo 9, que falava das saídas das vias. A narração resume o que a ordem detalhara.

συνήγαγον (synēgagon) — aoristo de synagō, "reunir", "congregar". Da mesma raiz vem synagōgē, assembleia. O verbo chama a atenção porque a ordem fora convidar: o texto passa da proposta ao resultado, e o resultado é uma reunião de gente.

πάντας ὅσους εὗρον (pantas hosous heuron) — "todos quantos encontraram". Retoma literalmente a indeterminação da ordem do versículo 9, com o mesmo verbo de achar. Não houve triagem.

πονηρούς τε καὶ ἀγαθούς (ponērous te kai agathous) — "tanto maus como bons". A construção com te kai é de coordenação estreita: não "uns e outros", mas um conjunto tomado junto. Ponēros é o termo de Mateus para o mal moral — é a palavra do "livra-nos do mal" na oração do Senhor. A ordem inverte o uso corrente das fórmulas de totalidade, que trazem o termo positivo primeiro.

ἐπλήσθη (eplēsthē) — aoristo passivo de pimplēmi, "encher". A voz passiva deixa o agente fora de foco: não se diz que os servos encheram o salão, diz-se que ele foi enchido. O resultado ocupa o lugar da causa.

ὁ γάμος (ho gamos) — aqui no singular, designando o espaço da festa, e não a festa inteira como nos versículos anteriores. O grego usa a mesma palavra para o casamento e para o lugar em que ele se celebra.

ἀνακειμένων (anakeimenōn) — particípio presente de anakeimai, "estar reclinado à mesa". Designa a postura do banquete formal, sobre divãs. O genitivo plural completa o verbo de encher: o salão ficou cheio de reclinados. A ABC traduz "convidados", que é correto no sentido e apaga a postura — e a postura é o dado social do versículo.

Variantes

Alguns testemunhos trazem numphōn, "sala nupcial", em lugar de gamos — leitura que esclarece o sentido espacial e é, por isso, provavelmente secundária. Outros invertem a ordem para agathous te kai ponērous, harmonizando com a fórmula corrente; a inversão é um indício indireto de que a ordem difícil é a original. O Textus Receptus, seguido pela ABC, traz gamos e os maus primeiro.

11. Conclusão

O salão encheu, e encheu de quem ninguém escolheu.

Os servos saíram para a estrada — depois de outros servos terem morrido fazendo o mesmo — e trouxeram todos quantos encontraram. Nenhuma triagem na porta, nenhum exame, nenhuma pergunta. Maus e bons, nessa ordem.

A inversão das palavras não passou despercebida a ninguém que lesse grego, e Mateus não a explica. Também não diz que os maus mudaram no caminho. Diz que entraram, e segue.

E entraram reclinados. A última palavra do versículo é a da postura do banquete formal, reservada a homens livres em ocasião solene — a mesma que a ceia pascal prescrevia como sinal de liberdade. Gente apanhada nas portas da cidade recostou-se no salão do rei, com os bois que haviam sido abatidos para outros.

É a inversão completa do que a parábola vinha narrando. Desde o versículo 3 só havia ausência; aqui há sala cheia. O lugar dos que tinham lugar foi ocupado por quem não tinha nenhum, e a questão da dignidade — que no versículo 8 condenara os primeiros — simplesmente não é levantada sobre os segundos.

Não porque tenha deixado de existir. Dois versículos adiante o rei entrará para olhar os convidados, um por um.

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