Vão, então, às esquinas dos caminhos e convidem para o banquete todos os que encontrarem.’
1. Introdução
A ordem não tem critério nenhum.
Não diz quem chamar, nem quantos, nem de que condição. Diz onde ir — às saídas dos caminhos — e manda convidar todos os que forem encontrados. Pela primeira vez na parábola, não há lista.
O lugar indicado também não é aleatório. A expressão grega designa os pontos em que as ruas da cidade desembocam nas estradas, e ali se concentrava quem estava de passagem: viajantes, carregadores, gente sem casa fixa naquele lugar. O rei manda os servos justamente para a fronteira entre a cidade e o resto do mundo.
E manda convidar para as bodas — a mesma palavra usada desde o versículo 2. Não é refeição de emergência nem distribuição de sobras: é o casamento do filho, com o mesmo cardápio que fora preparado para os convidados de antes.
2. Contexto Histórico e Cultural
Onde as ruas encontram as estradas. A expressão grega do versículo é técnica e designa o ponto de saída de uma via — o lugar em que a rua da cidade se transforma em estrada. Em cidades amuralhadas, isso coincidia com as portas, e as portas eram o espaço público por excelência: ali se faziam negócios, ali se julgavam causas, ali se esperava quem chegava. O Antigo Testamento está cheio dessa geografia, dos anciãos sentados à porta ao Boaz que resolve uma questão de herança no mesmo lugar.
Quem estava ali. A população das saídas de estrada não era a dos mendigos das esquinas internas, e a distinção importa. Eram viajantes, tropeiros, carregadores, trabalhadores sazonais à espera de contratação, gente que chegara tarde demais para entrar antes do fechamento das portas. Pessoas em trânsito, portanto, e não necessariamente pobres — o que torna a ordem do rei mais larga do que a leitura caritativa costuma supor.
O convite de última hora tinha nome ruim. Nos tratados sobre banquetes do mundo greco-romano, convidar alguém à última hora era ofensa, e havia inclusive um termo depreciativo para quem comparecia a convite assim — o convidado de segunda linha, chamado para preencher lugar. O que o rei manda fazer é, pelo código social da época, algo que um anfitrião de prestígio não faria. A parábola conhece a regra e a quebra deliberadamente.
As refeições abertas na tradição judaica. Havia, por outro lado, um precedente religioso: as festas de peregrinação e certos sacrifícios de ação de graças exigiam que se partilhasse a refeição com o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva. Deuteronômio repete essa lista com insistência. O gesto do rei não é, portanto, sem lastro na própria Lei — ele apenas aplica a uma festa real o princípio que a Lei reservava às refeições sagradas.
O que acontecia nas portas ao anoitecer. As portas das cidades fechavam ao pôr do sol e só reabriam de manhã. Quem chegava tarde ficava do lado de fora até o dia seguinte, e formava-se ali, todas as noites, uma população involuntária de retardatários. Josué 2:5 registra o costume ao descrever o fechamento das portas de Jericó, e Neemias 13:19 mostra o governador mandando fechá-las antes do sábado. Se a cena da parábola se passa no fim do dia — e o banquete era a refeição do meio-dia, já atrasada —, os servos encontram exatamente esse grupo: gente parada por força do horário.
A estrutura física do lugar. As escavações de portas monumentais em sítios da Idade do Ferro revelam câmaras laterais com bancos de pedra corridos, pensados para que se sentasse e se esperasse. Não era passagem apenas: era sala. É por isso que a porta aparece no Antigo Testamento como tribunal, mercado e assembleia ao mesmo tempo, e é por isso que mandar servos até lá é mandá-los ao ponto de maior concentração de gente disponível.
Quem se convidava e quem não se convidava. Os tratados greco-romanos sobre o banquete discutem com minúcia a composição da mesa, e o critério declarado é a conveniência: convidar quem honra o anfitrião e quem convém aos demais convivas. Plutarco dedica páginas à questão de quantos e quais. A ordem do rei suprime a pergunta inteira — não há deliberação sobre composição, não há cálculo de conveniência, não há quem seja consultado.
3. Análise Teológica do Versículo
"Vão, então"
O advérbio liga esta ordem ao veredito anterior. Porque os convidados não eram dignos, vão. A conclusão que se tira da indignidade não é o cancelamento da festa, e sim a ampliação do convite — e essa inversão é o movimento central da parábola.
Repare no que não acontece. O rei não procura outra lista de notáveis, não convoca a corte, não manda chamar os aliados que lhe restaram. A ofensa dos primeiros convidados não é respondida com a busca de convidados melhores: é respondida com a supressão do critério.
"às esquinas dos caminhos"
A tradução enfrenta aqui uma expressão difícil, e as versões se dividem. O termo grego significa, literalmente, as saídas ou desembocaduras das vias, e foi lido de três maneiras ao longo da história.
A primeira entende os cruzamentos dentro da cidade, onde o movimento é maior. A segunda entende as portas, pontos em que as ruas desembocam nas estradas. A terceira, mais rara, entende as estradas principais para além dos muros, isto é, o campo aberto.
A segunda é a mais provável pela composição da palavra, e é também a mais significativa. As portas da cidade eram o limite entre o dentro e o fora, o lugar onde se decidia quem entrava. Mandar buscar convidados exatamente ali é ir ao ponto em que a pertença é verificada — e trazer de lá quem ainda não pertencia.
"e convidem"
O verbo é o mesmo dos versículos 3 e 4, o mesmo que gerou o particípio "os chamados". Não há mudança de vocabulário entre os primeiros convidados e estes: recebem o mesmo chamado, com a mesma palavra.
Isso tem peso. O texto podia ter usado um verbo de recrutamento, de arrebanhamento, de condução. Usa o verbo do convite, que pressupõe liberdade de resposta. Os que forem encontrados nas saídas serão convidados do mesmo modo que os primeiros, e com a mesma possibilidade de recusar.
"para o banquete"
A mesma palavra do versículo 2 — as bodas, no plural. Não há rebaixamento da festa para acomodar os novos convidados. Eles não vão a uma refeição improvisada: vão ao casamento do filho do rei, com os bois e os cevados que haviam sido abatidos para outros.
É um dos pontos em que a parábola é mais radical, e a radicalidade está no que ela se abstém de fazer. Teria sido natural que a festa se adaptasse ao novo público — menos solene, menos cara, mais compatível com quem foi apanhado na estrada. Nada disso acontece. O que muda é a lista; o banquete permanece idêntico.
"todos os que encontrarem"
Aqui está o fim de todo critério.
A construção grega é enfática e indefinida ao mesmo tempo: quantos quer que encontrardes. Não há filtro de condição social, de conduta, de origem ou de pertença. O único requisito é estar lá e ser encontrado.
A palavra é "encontrar". Não é "escolher", não é "selecionar", não é "convocar". Encontrar supõe acaso: os servos não sabem quem acharão, e o rei tampouco. A composição da festa, a partir daqui, é determinada por quem por acaso estiver passando nas saídas da cidade naquela tarde.
O versículo seguinte mostrará o que isso produz — e a descrição, "tanto maus como bons", confirmará que a ausência de critério era para valer.
O que a história da interpretação fez com este versículo
A leitura tradicional identificou os primeiros convidados com Israel e os das estradas com os gentios, e tem apoio no contexto: a parábola anterior terminara com o Reino sendo dado "a um povo que dê os seus frutos". A identificação é antiga e não pode ser descartada.
Ela encontra, porém, um obstáculo no próprio enredo. Os servos vão às saídas daquela cidade, que acabou de ser incendiada, e trazem quem está passando por ali. Geograficamente, não há viagem a terra estrangeira, não há missão a outros povos, não há cruzamento de fronteira. A ampliação é local.
A leitura mais contida observa que a oposição do texto não é entre povos, e sim entre convidados e não convidados — entre quem tinha lugar reservado e quem não tinha nenhum. Essa oposição funciona dentro de qualquer povo, e é por isso que a parábola continua acusando os seus leitores dezenove séculos depois: ela não fala de um grupo distante, fala de quem está na lista.
O que "encontrar" implica, e o que exclui
O verbo merece um parágrafo próprio, porque ele carrega a lógica inteira da nova chamada. Encontrar supõe que não se sabia de antemão. Distingue-se de escolher, que supõe comparação, e de convocar, que supõe lista.
Isso produz uma consequência que a parábola assume sem hesitar: o rei perdeu o controle sobre a composição da própria festa. Ele não sabe quem virá. Não pode saber. A lista que organizava o banquete foi substituída pelo acaso de quem estivesse passando.
E há uma assimetria interessante entre os dois momentos. Os primeiros convidados foram escolhidos e recusaram; estes não serão escolhidos e virão. A parábola não comenta a ironia, mas a monta com cuidado — o critério não produziu presença, e a ausência de critério produziu.
A ordem na estrutura do capítulo
Vale situar este versículo no desenho maior, porque ele é a dobradiça entre duas metades que se espelham. Nos versículos 2 a 8, tudo se organiza por lista: convidados nomeados, remessas de servos, veredito sobre quem estava na relação. Dos versículos 9 a 14, tudo se organiza por encontro: ninguém é nomeado, ninguém é escolhido, e o único que receberá atenção individual será um homem que o rei notará no salão.
A simetria é deliberada. A primeira metade termina com um grupo que tinha lugar e não veio; a segunda terminará com um homem que veio e não tinha a veste. O versículo 9, no meio, é o ponto em que a parábola troca de regime — e é também o único lugar em que ela respira, antes de endurecer de novo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
As saídas dos caminhos — Em grego, expressão técnica para os pontos em que as ruas da cidade desembocam nas estradas. Em cidades amuralhadas coincidiam com as portas, que eram o principal espaço público: ali se negociava, se julgava e se esperava quem chegava.
Os que estavam ali — Viajantes, tropeiros, carregadores, trabalhadores à espera de contratação, gente que chegara tarde para entrar antes do fechamento das portas. População em trânsito, não necessariamente pobre.
Os servos — A terceira remessa, a mesma do versículo anterior. Saem agora sem lista e sem instrução sobre quem escolher.
O banquete — As mesmas bodas do versículo 2, com a mesma comida preparada para os primeiros convidados. Não há redução nem adaptação da festa ao novo público.
O convite de última hora — Nos tratados sobre banquetes do mundo greco-romano, chamar alguém à última hora era ofensa, e havia termo depreciativo para quem comparecia assim. A parábola conhece a regra e a quebra.
5. Pontos de Ensino
A recusa de uns não reduz a festa. O rei poderia ter diminuído o banquete ao tamanho do público disponível. Manda buscar público do tamanho do banquete. É a inversão que governa o versículo, e ela vale para qualquer coisa boa que se tenha preparado e que ninguém tenha querido.
Suprimir o critério é diferente de baixar o critério. O rei não procura convidados piores: deixa de haver requisito. A diferença é grande. Baixar a régua supõe que ainda se está medindo; suprimi-la significa que a entrada deixou de depender de qualquer medida.
O convite continua sendo convite. O verbo é o mesmo usado com os primeiros. Ninguém é arrebanhado nem levado à força — são chamados, e podem recusar como os outros recusaram. A ampliação não suprimiu a liberdade de dizer não.
Ir onde as pessoas estão. Os servos não esperam que alguém apareça no palácio: vão às saídas da cidade. O movimento é de quem convida, não de quem é convidado, e é o terceiro movimento do rei na mesma direção.
Quem convida perde o controle de quem vem. Ao trocar a lista pelo encontro, o rei abriu mão de saber quem sentaria à sua mesa. É o preço do convite sem critério, e ele o paga sem discutir — o que não significa que não haja consequência, como o versículo 11 mostrará.
6. Aspectos Filosóficos
O que acontece com a hospitalidade quando ela deixa de ter critério?
A pesquisadora americana Christine Pohl, reconstruindo a história das práticas de acolhimento, identificou um padrão que se repete em contextos muito diferentes: a hospitalidade tende a se profissionalizar e, ao fazê-lo, a perder justamente o que a definia. O anfitrião vira administrador, o hóspede vira caso atendido, e a refeição comum vira serviço prestado. O que desaparece nesse deslizamento não é a eficiência — é a mesa, isto é, a situação em que os dois lados comem a mesma comida sentados no mesmo lugar.
A observação ilumina o que o rei não faz. Diante do salão vazio e da comida pronta, a solução administrativa estava à mão e era previsível: distribuir as sobras, mandar a carne para quem precisasse, resolver o problema prático sem que ninguém de fora entrasse no palácio. A documentação do período mostra que era assim que se fazia.
O rei faz outra coisa. Manda que os encontrados venham, sentem e comam a festa do filho dele. A diferença entre as duas soluções não é de generosidade — a primeira pode até ser mais eficiente — mas de estatuto: numa, os de fora recebem comida; na outra, tornam-se convidados.
Daí a consequência que a parábola vai cobrar. Convidado tem lugar, e tem também obrigações de convidado; quem apenas recebe não tem nenhuma. Ao transformar os encontrados em convidados, o rei lhes deu dignidade e, junto com ela, exigência. O episódio do homem sem veste, três versículos adiante, é a conta dessa escolha.
Fica a pergunta que Pohl deixa aberta e que o texto torna aguda: é possível acolher sem critério e ao mesmo tempo esperar alguma coisa de quem foi acolhido? A parábola responde que sim, e a resposta custará caro a alguém.
7. Aplicações Práticas
Este versículo tem uma aplicação prática e uma armadilha, e convém separar as duas.
A aplicação é simples: quando o que você preparou é recusado, a saída não é encolher o que foi preparado. É alargar quem pode recebê-lo. Vale para a casa cheia de comida depois que os convidados desmarcaram, e vale para coisas maiores — o projeto que ninguém quis, o trabalho que ninguém reconheceu.
A armadilha é tratar os segundos convidados como prêmio de consolação. O texto é cuidadoso nesse ponto e não deixa margem: a festa é a mesma, a comida é a mesma, o verbo do convite é o mesmo. Quem é chamado da estrada não entra numa versão reduzida do banquete.
Há ainda um aviso embutido para quem convida. O rei manda os servos às saídas da cidade — isto é, manda que saiam. Quem quer casa cheia e espera no sofá que alguém bata à porta está fazendo o contrário do que a parábola descreve.
E um limite, para que a aplicação não vire ingenuidade: convidar sem critério não é o mesmo que abrir mão de tudo. O versículo 11 mostrará o rei entrando no salão para olhar os convidados, e um deles será posto fora. A ausência de critério na entrada não significou ausência de expectativa.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O que são exatamente as "esquinas dos caminhos"?
A expressão grega designa as saídas das vias — o ponto em que a rua da cidade vira estrada. Em cidade amuralhada, isso coincide com as portas. As traduções se dividem entre "cruzamentos", "portas" e "estradas principais"; a composição da palavra favorece a segunda, que é também a mais carregada de sentido: as portas eram onde se verificava quem entrava.
Os novos convidados são os pobres?
Não necessariamente, e vale corrigir a leitura automática. Quem ficava nas saídas de estrada eram viajantes, carregadores, trabalhadores à espera de contratação, gente que chegara tarde. População em trânsito. Lucas, na sua versão, menciona expressamente pobres, aleijados, cegos e coxos; Mateus não menciona nenhum deles. O critério aqui não é a pobreza — é não ter sido convidado.
A festa foi reduzida para o novo público?
Não. O texto usa a mesma palavra do versículo 2 — as bodas — e a mesma comida do versículo 4. Nenhuma adaptação, nenhum rebaixamento. Os encontrados na estrada vão ao casamento do filho do rei, com os bois e os cevados abatidos para outros.
Isso significa que Israel foi substituído pelos gentios?
É a leitura tradicional, e tem apoio no contexto. Mas esbarra no enredo: os servos vão às saídas daquela cidade e trazem quem está passando por ali. Não há viagem a terra estrangeira nem cruzamento de fronteira. A oposição que o texto monta é entre convidados e não convidados, e essa oposição existe dentro de qualquer povo.
Por que o rei não distribuiu a comida, como se fazia?
Porque distribuir sobras e convidar à mesa são coisas diferentes. Na primeira, os de fora recebem comida; na segunda, tornam-se convidados — com lugar, com dignidade e, como o versículo 11 mostrará, com expectativas a cumprir.
O rei perdeu o controle sobre a própria festa?
Sobre a composição dela, sim, e deliberadamente. "Encontrar" é verbo de acaso: distingue-se de escolher, que supõe comparação, e de convocar, que supõe lista. A partir desta ordem, o rei não sabe quem virá — e a parábola monta a ironia com cuidado: o critério não produziu presença, e a ausência de critério produzirá.
Por que este versículo é o meio da parábola?
Porque é onde ela troca de regime. Dos versículos 2 a 8, tudo se organiza por lista; dos 9 a 14, por encontro. A primeira metade termina com gente que tinha lugar e não veio; a segunda terminará com um homem que veio e não tinha a veste. O versículo 9 é a dobradiça entre as duas.
9. Conexão com Outros Textos
A ordem equivalente na versão de Lucas, com a lista explícita
Lucas 14:21 — "Vá depressa para as ruas e becos da cidade e traga os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos."
Lucas nomeia quem deve ser trazido; Mateus não nomeia ninguém e diz apenas "todos os que encontrarem". A diferença é de método, não de alcance.
A porta da cidade como lugar público
Rute 4:1 — "Boaz subiu à porta da cidade e sentou-se ali. E eis que o resgatador de quem Boaz havia falado vinha passando."
A Lei manda partilhar a refeição com quem não tem lugar
Deuteronômio 16:14 — "Alegre-se na sua festa: você, seu filho e sua filha, seu servo e sua serva, o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva que vivem na sua cidade."
O banquete preparado para todos os povos
Isaías 25:6 — "O SENHOR dos Exércitos preparará neste monte um banquete de coisas gordurosas para todos os povos."
A ordem de sair, no fim do evangelho
Mateus 28:19 — "Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações."
O mesmo verbo de partida, a mesma ausência de restrição quanto a quem será encontrado.
As portas que se fechavam ao anoitecer
Josué 2:5 — "E aconteceu que, havendo-se de fechar a porta, sendo já escuro, aqueles homens saíram."
Quem chegasse depois ficava do lado de fora até a manhã seguinte — e é entre esses que os servos vão procurar.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Vão, então, às esquinas dos caminhos e convidem para o banquete todos os que encontrarem.'
Texto grego (Textus Receptus)
πορεύεσθε οὖν ἐπὶ τὰς διεξόδους τῶν ὁδῶν, καὶ ὅσους ἂν εὕρητε, καλέσατε εἰς τοὺς γάμους.
Transliteração
poreuesthe oun epi tas diexodous tōn hodōn, kai hosous an heurēte, kalesate eis tous gamous.
Análise palavra por palavra
πορεύεσθε (poreuesthe) — imperativo presente de poreuomai, "ir", "pôr-se a caminho". O presente, em imperativo, tende a indicar ação a ser mantida, e não ato único: ponham-se a caminho e sigam. É o mesmo verbo da ordem final do evangelho, em Mateus 28:19.
οὖν (oun) — "portanto", "então". Partícula ilativa: tira consequência do que acabou de ser dito. A consequência da indignidade dos convidados é a ampliação do convite, e é esta partícula que amarra as duas coisas.
ἐπὶ τὰς διεξόδους τῶν ὁδῶν (epi tas diexodous tōn hodōn) — "às saídas dos caminhos". Diexodos compõe-se de dia (através) e exodos (saída): o lugar por onde se sai atravessando. Designa a desembocadura de uma via, e em contexto urbano aponta para as portas da cidade. O termo é raro no Novo Testamento — esta é a sua única ocorrência — e aparece na Septuaginta para nascentes de água e saídas de caminhos.
ὅσους ἄν (hosous an) — "quantos quer que". Construção indefinida com a partícula modal, que torna a referência totalmente aberta: não um número, não um tipo, não uma condição. É a formulação grega da ausência de critério.
εὕρητε (heurēte) — aoristo subjuntivo de heuriskō, "encontrar", "achar". O verbo supõe que não se sabe de antemão o que se achará — distingue-se de eklegomai, "escolher", e de kaleō no sentido de convocar nominalmente. A composição da festa passa a depender do acaso do encontro.
καλέσατε (kalesate) — aoristo imperativo de kaleō, "convidar". É o mesmo verbo dos versículos 3 e 4, e o mesmo de que deriva o particípio "os chamados". O texto não muda de vocabulário ao mudar de público: os encontrados recebem exatamente o mesmo convite.
εἰς τοὺς γάμους (eis tous gamous) — "para as bodas". Repete a expressão do versículo 2, no mesmo plural. A festa não sofreu redução.
Variantes
Parte dos testemunhos traz hosous ean em lugar de hosous an, variação ortográfica sem efeito. Outros acrescentam um objeto explícito a kalesate, harmonização menor. A tradição é estável no essencial, e o Textus Receptus, seguido pela ABC, traz a forma acima.
11. Conclusão
Uma ordem sem critério, dada por quem acabou de ser humilhado.
Não diz quem, não diz quantos, não diz de que condição. Diz onde ir e manda convidar quem for encontrado — e "encontrar" é palavra de acaso, não de escolha. A partir desta linha, a composição da festa depende de quem por acaso estiver passando pelas portas da cidade naquela tarde.
E não houve rebaixamento. A palavra para a festa é a mesma do versículo 2; a comida é a do versículo 4; o verbo do convite é o mesmo usado com os primeiros. Os encontrados na estrada não vão a uma versão reduzida do banquete — vão ao casamento do filho do rei.
O movimento inteiro cabe numa inversão. Diante da recusa, o rei não encolhe a festa ao tamanho do público disponível: manda buscar público do tamanho da festa. E não procura convidados melhores — deixa de haver requisito.
Convém guardar o que isso vai custar. Convidado tem lugar e tem obrigações; quem apenas recebe comida não tem nenhuma. Ao transformar os encontrados em convidados, o rei lhes deu dignidade e, com ela, exigência — e dois versículos adiante entrará no salão para olhar, um por um, os que vieram.













