Tudo o que vocês pedirem em oração, se crerem, receberão.”
1. Introdução
Jesus fecha a resposta sobre a figueira com uma promessa sem moldura: tudo o que os discípulos pedirem em oração, crendo, receberão.
A frase não traz exceção, prazo nem cláusula sobre a vontade de Deus, e por isso abriga o problema mais antigo de quem ora: o pedido que não é atendido.
As leituras se dividiram cedo. Há quem veja exagero proposital, quem veja uma condição de fé, quem restrinja a promessa aos apóstolos e quem a leia dentro do juízo sobre o templo.
E o lugar da frase pesa: ela é dita na manhã seguinte à cena em que Jesus chamou o templo de "casa de oração" e o declarou profanado.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que os mestres judeus diziam sobre a oração de pedido
Ninguém, no judaísmo do primeiro século, duvidava de que se devia pedir a Deus. A discussão era outra: o que se pode pedir, e o que esperar depois de pedir. Os textos dos mestres judeus, escritos mais tarde mas com tradições desse tempo, guardam três respostas que medem o tamanho da frase de Jesus.
A oração vã
A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) põe uma fronteira no tratado Berakhot, 9:3: quem clama a Deus sobre o que já aconteceu faz uma "oração vã". Os exemplos são muito humanos. O homem cuja mulher já está grávida e reza para que nasça um menino. O homem que volta para casa, ouve um grito na cidade e reza para que não venha da sua casa. O fato já está decidido, e o pedido não muda nada.
O ouvinte judeu tinha na cabeça uma ideia de oração com bordas. A frase de Mateus 21:22 não traz nenhuma.
Honi, o homem que desenhou o círculo
A mesma Mishná, no tratado Taanit (3:8), conta a história de Honi, homem piedoso do século I antes de Cristo, famoso por conseguir chuva. Num ano de seca, orou, e não choveu. Então desenhou um círculo no chão, entrou nele e jurou que não sairia dali até que Deus tivesse misericórdia dos seus filhos. Veio um chuvisco; ele reclamou. Veio uma tempestade; reclamou de novo. Veio a chuva normal, e não parou mais.
No desfecho, Shimon ben Shetach, o chefe dos sábios naquele tempo, mandou-lhe dizer: "Se você não fosse Honi, eu decretaria a sua excomunhão. Mas o que posso fazer? Você insiste com Deus e ele faz a sua vontade, como um filho que insiste com o pai". A tradição guardou a memória de um homem que recebia tudo o que pedia — e a guardou com desconforto.
Esperar o atendimento como risco
O Talmude da Babilônia (a grande compilação de discussões dos mestres judeus, fechada por volta do século VI), no tratado Berakhot (55a), diz que quem prolonga a oração calculando se ela será atendida acaba com o coração doente, e cita Provérbios 13:12: "a esperança que demora adoece o coração". Rabi Yitzchak põe essa expectativa entre as três coisas que fazem Deus lembrar os pecados de alguém: quem espera ser atendido convida Deus a examinar se merece.
É quase o avesso da frase de Jesus. Lá, a confiança no resultado acompanha o pedido; aqui, a expectativa do resultado é risco. O Talmude não está respondendo aos evangelhos. Mostra que, no próprio judaísmo, havia uma corrente que desconfiava justamente da certeza.
Depois do templo
No mesmo tratado (Berakhot 32b), Rabi Elazar diz que, desde que o templo foi destruído, as portas da oração se fecharam — mas as portas das lágrimas não. A frase nasce da perda do ano 70 e liga a força da oração à existência do santuário. Mateus foi escrito, pela maioria das propostas, depois da mesma perda, e põe a promessa de oração mais ampla do evangelho na manhã seguinte à cena em que o templo é chamado de "covil de ladrões". As duas tradições olharam para o mesmo vazio e tiraram conclusões opostas.
O medo grego de ser atendido
No mundo grego, a desconfiança vinha de outro lado. O diálogo Alcibíades II (atribuído a Platão, mas provavelmente escrito depois dele) é inteiro sobre a oração. Sócrates adverte o jovem Alcibíades: as pessoas pedem aos deuses coisas que, concedidas, as destroem. O exemplo é Édipo, que pediu que os filhos repartissem a herança pela espada — e foi atendido. A oração que o diálogo aprova é a de um poeta antigo: "Zeus rei, dá-nos o que é bom, quer o peçamos, quer não; e afasta de nós o que é mau, ainda que o peçamos".
Para o grego educado, a pior coisa que podia acontecer a quem ora era receber exatamente o que pediu. Jesus promete exatamente isso.
3. Análise Teológica do Versículo
"Tudo o que vocês pedirem"
A promessa começa pela palavra mais larga que a língua oferece, e o grego ainda a reforça com um segundo termo de totalidade (item 10). Não é "muitas coisas", nem "o que for bom". É tudo.
Os destinatários são os discípulos que acabaram de perguntar como a figueira secou — um grupo pequeno, a caminho da cidade. Isso limita o "vocês". Não limita o "tudo".
O problema que essa palavra cria é conhecido de todos que oram. Pais pedem a cura de filhos que morrem. Comunidades inteiras pedem o fim de guerras que continuam. Lida como está, a frase é desmentida todos os dias. E o versículo não oferece saída: todo limite que os leitores põem nele vem de outro lugar da Bíblia ou da experiência — nunca da frase.
O Evangelho de Mateus, porém, não ignora o problema. Ele o encena, em três cenas da paixão.
No Getsêmani, Jesus pede que o cálice passe e não é atendido no que pede (Mateus 26:39). O próprio autor da promessa recebe um "não".
Na prisão, ele diz que poderia pedir ao Pai mais de doze legiões de anjos, e que elas viriam (Mateus 26:53). O "tudo" está disponível — e ele não pede. A promessa aparece verdadeira justamente quando o seu portador escolhe não usá-la.
Na cruz, os chefes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos zombam: "Confiou em Deus; que Deus o livre agora, se lhe quer bem" (Mateus 27:43), eco do Salmo 22:8. Lida depois de Mateus 21:22, a frase é a lógica da promessa virada em escárnio: quem crê, recebe; se não recebeu, não cria, ou Deus não o queria. Mateus põe na boca dos zombadores a leitura mecânica do versículo.
E há um dado que raramente se nota. Mateus conhece outra promessa sem limite: a de Herodes, que jurou dar à filha de Herodias "tudo o que pedisse" (Mateus 14:7). O pedido foi a cabeça de João Batista. Não há sinal de que Mateus quisesse a comparação, mas quem tem as duas cenas no mesmo livro sabe que um cheque em branco depende de quem o assina e de quem o preenche. Jesus diria aos irmãos que pediam tronos: "Vocês não sabem o que estão pedindo" (Mateus 20:22).
"em oração"
A palavra aparece no capítulo duas vezes: em Mateus 21:13, na citação "a minha casa será chamada casa de oração", e aqui. Na véspera, a oração tinha endereço: o templo. Agora ela é posta na boca de discípulos parados na estrada, ao lado de uma árvore morta. Mateus não diz que a oração dos discípulos substitui o templo, e seria excessivo pôr isso no texto. Mas a ordem das cenas aproxima as duas coisas.
Há também uma ausência. Em Marcos 11:25, logo depois da mesma promessa, Jesus acrescenta: quando estiverem orando, perdoem. Mateus não traz essa frase aqui; já a tinha posto depois do Pai Nosso (Mateus 6:14). O efeito é que, neste capítulo, a única condição da promessa é a fé. Mateus a deixou mais nua do que Marcos.
"se crerem"
O grego não usa "se". Usa uma forma que descreve o estado de quem pede no momento em que pede: "crendo" (item 10). A ABC traduz por "se crerem", o que é legítimo, mas transforma uma descrição numa condição.
A diferença importa, porque a leitura condicional gerou o uso mais danoso da frase. Se receber depende de crer, quem não recebeu não creu o bastante. Doentes que não sararam ouviram que faltou fé; pais enlutados ouviram o mesmo. No século XX, o movimento norte-americano "Palavra da Fé", ligado a Kenneth Hagin, fez do paralelo de Marcos 11:23-24 um texto central: a pessoa declara com fé o que quer e o recebe — a chamada "confissão positiva". A teologia da prosperidade, espalhada pelo Brasil, herdou essa leitura.
Mateus resiste a ela em dois pontos. A fé que ele elogia nunca é técnica: a mulher cananeia de Mateus 15:28 recebe o que pede, mas a cena é construída sobre a insistência de quem não tinha direito, não sobre a força interior de quem pede. E quando os milagres não acontecem em Nazaré, a incredulidade é "deles", da cidade, não de quem precisava da cura (Mateus 13:58). A fé, em Mateus, é relação com quem pode dar, não a força que garante o resultado.
"receberão"
O verbo está no futuro e não tem data: não diz "na hora", nem "do jeito que pediram". Mas o objeto do receber é o mesmo do pedir. O texto não autoriza a leitura que troca o objeto — a ideia de que a pessoa recebe "outra coisa melhor" no lugar do que pediu. Essa ideia pode ser verdadeira, mas é teologia construída depois.
Como ler uma promessa sem limite?
A história da interpretação oferece cinco respostas.
Primeira leitura: o "tudo" é exagero proposital, como "corte a mão" (Mateus 5:30) ou "mover montes". A favor, o estilo de Jesus é cheio de imagens extremas. Contra, esta frase não tem imagem nenhuma: "tudo o que pedirem" é afirmação plana.
Segunda leitura: a promessa tem uma condição dura, a fé sem dúvida. É a leitura do Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX), que exige confiança sem nenhuma dúvida escondida. A favor, o versículo anterior diz "se tiverem fé e não duvidarem". Contra, a condição é impossível de verificar, e o seu peso cai sobre quem sofre.
Terceira leitura: há uma condição implícita, a vontade de Deus. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) diz que toda oração verdadeira submete o pedido ao juízo divino; Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) exige que o pedido concorde com as promessas. A favor, 1 João 5:14 e o "seja feita a tua vontade" do Pai Nosso (Mateus 6:10). Contra, a condição não está aqui; quem a acrescenta está juntando textos, e precisa admitir que junta.
Quarta leitura: a promessa é só para os apóstolos, e só para milagres. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) a chama de promessa especial para quem fazia milagres; Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) distingue a "fé de milagres", dada a poucos, da fé comum. A favor, o contexto é um milagre. Contra, nada no texto separa os discípulos daquela manhã dos leitores para quem Mateus escreve.
Quinta leitura: a frase pertence ao juízo sobre o templo. A figueira sem fruto figura o templo sem fruto, e "este monte" seria o monte do templo — leitura que o estudo de Mateus 21:21 discute. Na linha de William Telford, que leu a figueira de Marcos como figura do templo, a promessa de oração posta logo depois garantiria à comunidade cristã que ela pode orar sem o santuário. A favor, a ordem das cenas. Contra, a frase é geral, e ler "tudo" como "tudo o que diz respeito ao fim do templo" também é acrescentar.
Não é possível decidir entre as cinco, e nenhuma esgota a frase. O que se pode afirmar é mais modesto: o versículo, sozinho, promete tudo a quem pede crendo; o evangelho em volta dele mostra o Filho de Deus pedindo e não recebendo, podendo pedir e não pedindo, e sendo zombado por quem aplicou a promessa ao pé da letra. Mateus guardou a frase e essas cenas lado a lado, sem conciliá-las.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os discípulos
O "vocês" da promessa são os discípulos que viram a figueira secar e perguntaram como aquilo acontecera tão depressa (Mateus 21:20). Mateus não nomeia nenhum. Marcos dá a fala a Pedro, que se lembra da árvore no dia seguinte (Marcos 11:21). Em Mateus, a pergunta é do grupo, e a promessa também.
É o mesmo grupo que, poucos dias depois, vai dormir enquanto Jesus ora no Getsêmani (Mateus 26:40-45). A promessa de receber tudo em oração é dita a homens que, na hora decisiva, não conseguiram orar uma hora.
O caminho entre Betânia e Jerusalém
A cena se passa de manhã cedo, na volta de Betânia, onde Jesus passara a noite (Mateus 21:17-18). Betânia ficava na encosta leste do Monte das Oliveiras, a uns três quilômetros de Jerusalém, e o caminho atravessava o monte antes de descer para a cidade. A conversa não acontece num lugar de culto nem numa casa: acontece em trânsito, entre o lugar onde se dorme e o templo onde se vai ensinar.
O segundo dia em Jerusalém
Na ordem de Mateus, a entrada, a expulsão dos vendedores e as curas acontecem no mesmo dia; a figueira e esta promessa, na manhã seguinte; e a pergunta sobre a autoridade, logo depois, no templo (Mateus 21:23). A frase sobre pedir e receber fica entre duas cenas de confronto com o templo.
5. Pontos de Ensino
Ensinar a promessa como ela está
O versículo não traz restrição. Quem ensina a partir dele precisa dizer isso antes de acrescentar qualquer limite, e dizer de onde o limite vem. Ensinar a frase com "se for da vontade de Deus" embutido é ensinar outro versículo.
Ensinar a promessa junto com a paixão
Mateus não esconde o Getsêmani nem o escárnio da cruz. Um ensino honesto põe a promessa ao lado dessas cenas, como o próprio evangelho faz.
A oração sem lugar sagrado
Seja qual for a leitura do "tudo", a frase é dita na estrada, depois da cena do templo. A oração dos discípulos não depende de santuário.
Crer não é preço
A fé descreve quem pede; não é taxa cobrada antes do atendimento, nem régua para medir quem não foi atendido.
6. Aspectos Filosóficos
Se Deus é bom e sabe tudo, por que pedir?
O versículo levanta uma das perguntas mais velhas da filosofia da religião. Se Deus sabe do que você precisa antes que você peça (Mateus 6:8), e se é bom, ele daria o bem de qualquer modo. Se o pedido muda alguma coisa, Deus parece depender da vontade humana. Se não muda nada, pedir é teatro. A promessa de Mateus 21:22 afirma que o pedido feito com fé tem efeito — e é aí que a pergunta morde.
Ratzinger: a oração como escola do desejo
Joseph Ratzinger (teólogo alemão, 1927-2022, papa com o nome de Bento XVI entre 2005 e 2013) tratou do assunto na encíclica Spe Salvi ("Salvos pela esperança", 2007). No parágrafo 33, ele chama a oração de "exercício do desejo", retomando um sermão de Agostinho sobre a Primeira Carta de João.
O argumento é este. O ser humano foi feito para uma realidade enorme, Deus mesmo, mas o seu coração é estreito demais para recebê-la. A oração dilata o coração. Ratzinger cita Agostinho: "Deus, diferindo a sua promessa, faz aumentar o desejo; e com o desejo, dilata a alma". E acrescenta a imagem do mel: se Deus quer encher você de mel e você está cheio de vinagre, onde ele vai pôr o mel? O vaso precisa ser alargado e depois limpo.
Daí sai a consequência que toca o versículo diretamente. Na oração, escreve Ratzinger, a pessoa "deve aprender o que verdadeiramente pode pedir a Deus". Deve aprender que não pode rezar contra o outro. Deve aprender que não pode pedir "as coisas superficiais e cômodas que de momento deseja — a pequena esperança equivocada que o leva para longe de Deus". A oração, nessa leitura, não é o meio de conseguir o que se quer: é o lugar onde o querer é corrigido.
Crer como ter onde ficar de pé
A segunda contribuição de Ratzinger vem de um livro anterior, Introdução ao Cristianismo (1968), e diz respeito ao "crendo" do versículo. Ele parte de Isaías 7:9, onde o hebraico joga com a mesma raiz para dizer "se não crerem, não permanecerão firmes" — o jogo de palavras é examinado no estudo de Gênesis 15:6. Para Ratzinger, crer não é, em primeiro lugar, aceitar proposições nem produzir dentro de si uma certeza intensa. É encontrar um chão: apoiar a própria existência em algo que não é você e que sustenta.
Aplicado a Mateus 21:22, isso desloca o peso da condição. "Crendo" não seria o esforço de convencer-se de que o pedido será atendido. Seria o lugar onde quem pede está apoiado enquanto pede. A fé descrita assim não é força que dobra o resultado; é a posição de quem confia em outro.
O contraponto
A filósofa norte-americana Eleonore Stump, no artigo "Petitionary Prayer" ("A oração de pedido", 1979), respondeu de outro modo: Deus espera ser pedido para proteger quem pede, porque um benfeitor infinito que desse tudo sem pedido esmagaria ou mimaria a pessoa, e a relação deixaria de ser amizade. Nas duas respostas o pedido não é alavanca; em Stump ele protege a liberdade de quem pede, em Ratzinger transforma o desejo de quem pede.
O limite da aproximação
Ratzinger não comenta este versículo na encíclica, e a leitura acima aplica o pensamento dele ao texto. Há, porém, uma tensão. A "escola do desejo" responde bem ao problema da oração não atendida: o pedido não atendido educa. Mas ela faz isso deslocando o objeto da promessa — de "tudo o que pedirem" para "o que vocês aprenderem a pedir". O versículo diz a primeira coisa. A leitura de Ratzinger é uma forma de viver com a frase, não uma tradução dela.
7. Aplicações Práticas
Não use este versículo contra quem sofre
A aplicação mais urgente é negativa. Diante de alguém cujo pedido não foi atendido — uma cura que não veio, um filho que não voltou —, a frase "faltou fé" não tem apoio no texto. O grego descreve quem pede; não oferece um teste para descobrir quem pediu errado. E o evangelho põe essa cobrança na boca dos que zombavam de Jesus na cruz. Se você precisar dizer alguma coisa a quem não recebeu, diga que o próprio Jesus pediu e não recebeu.
Ore sem esperar o lugar certo
A promessa foi feita na estrada, entre uma casa emprestada e um templo em conflito. Quem adia a oração até estar no lugar adequado, na igreja certa ou no estado de espírito ideal está esperando uma condição que o texto não põe.
Peça de verdade
O "tudo" autoriza pedidos concretos. Muita gente, por medo de ser desmentida, só ora em termos vagos, para não correr o risco de não ser atendida. O versículo empurra na direção contrária: peça o que você quer, com nome, e deixe a frase com o peso que ela tem.
E examine o que pede
No mesmo evangelho, quem pediu tronos ouviu "vocês não sabem o que estão pedindo". Pedir com franqueza e examinar o pedido não se excluem. A pergunta "isto que eu peço me aproxima ou me afasta das pessoas?" é um bom filtro, e não diminui a confiança de quem ora.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o Pai já sabe do que preciso, por que pedir?
Mateus traz as duas afirmações e não as reconcilia. Em Mateus 6:8, Jesus diz que o Pai sabe do que você precisa antes que você peça — e logo em seguida ensina um pedido, o Pai Nosso. O saber de Deus, no evangelho, não torna o pedido inútil; torna inútil a tagarelice, a ideia de que se é ouvido por falar muito (Mateus 6:7). O pedido continua; muda o tom. Pede-se como um filho fala com um pai que já sabe, e não como um cliente que precisa convencer.
O "tudo" inclui coisas materiais?
Sim. O Pai Nosso, que é o modelo de oração do próprio Mateus, pede pão (Mateus 6:11). A promessa não está restrita a bens espirituais, e as leituras que a restringem assim — como a de Gill, que fala em "bem espiritual e avanço do evangelho" — estão acrescentando. O que o evangelho não faz é pôr o pão no centro: ele vem depois do nome, do reino e da vontade.
Jesus orava pedindo coisas?
Em Mateus, pouco se vê do conteúdo das orações de Jesus. Ele sobe ao monte para orar sozinho (Mateus 14:23), mas o texto não diz o que pediu. Agradece ao Pai em Mateus 11:25. Pedem-lhe que ore sobre crianças em Mateus 19:13. O único pedido dele registrado palavra por palavra é o do Getsêmani — e é o que não foi atendido. O evangelho mostra mais Jesus atendendo pedidos do que fazendo-os.
Repetir o mesmo pedido é sinal de que falta fé?
Se a fé fosse certeza de já ter recebido, pedir de novo seria duvidar. Mas o próprio Jesus, no Getsêmani, ora três vezes, e da terceira vez "repetindo as mesmas palavras" (Mateus 26:44). O que Mateus condena em Mateus 6:7 é a repetição usada como técnica, para ser ouvido "por muito falar". A volta ao mesmo pedido, feita por quem está angustiado, aparece no evangelho na boca de Jesus, e não é tratada como fraqueza.
9. Conexão com Outros Textos
O paralelo de Marcos
Marcos 11:24-25 — "Por isso eu digo a vocês: tudo o que pedirem orando, creiam que recebem, e assim será para vocês. E, quando estiverem orando, perdoem, se tiverem alguma coisa contra alguém, para que também o Pai de vocês, que está nos céus, perdoe as ofensas de vocês."
Tradução livre a partir do Textus Receptus. Duas diferenças em relação a Mateus: a fé tem um conteúdo ("creiam que recebem"), e o perdão vem junto. Mateus fica só com a fé.
As outras promessas de pedido em Mateus
Mateus 7:7-8 — "Peçam, e será dado a vocês; busquem, e vão encontrar; batam, e a porta será aberta para vocês. Pois todo aquele que pede recebe; quem busca encontra; e a quem bate, a porta será aberta."
O mesmo verbo "receber" e a mesma ausência de limite. Mas aqui a imagem que se segue é a do pai que dá boas coisas aos filhos: a promessa vem com o retrato de quem dá.
Mateus 18:19 — "E também digo a vocês: se dois de vocês concordarem na terra sobre qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito pelo meu Pai, que está nos céus."
A outra condição do evangelho: o acordo, em vez da fé.
As cenas que põem a promessa à prova
Mateus 26:53 — "Você pensa que eu não posso pedir a meu Pai, e ele me mandaria agora mais de doze legiões de anjos?"
O pedido possível que não é feito.
Mateus 27:43 — "Confiou em Deus; que Deus o livre agora, se lhe quer bem, pois disse: 'Sou Filho de Deus.'"
A lógica do "quem crê, recebe" na boca dos zombadores.
Mateus 14:7 — "Por isso ele prometeu, com juramento, dar a ela tudo o que pedisse."
A outra promessa ilimitada do evangelho, feita por um rei, e o que ela produziu.
O pedido que não foi atendido em Paulo
2 Coríntios 12:8-9 — "Três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Mas ele me disse: 'A minha graça basta a você, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza.'"
Paulo pede, insiste, e recebe uma resposta em lugar do que pediu. É o caso mais claro, no Novo Testamento, de um pedido de fé que não foi concedido.
As cláusulas que outros textos acrescentam
1 João 5:14 — "E esta é a confiança que temos nele: se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve."
A cláusula da vontade divina, explícita. É daqui, e não de Mateus 21:22, que vem o limite que muitos leem no versículo.
Tiago 4:3 — "Pedem e não recebem, porque pedem mal, para gastar nos seus prazeres."
A única passagem do Novo Testamento que dá, com todas as letras, uma razão para o pedido não atendido — e a razão é o conteúdo do pedido, não a falta de fé.
A oração voltada para o templo
1 Reis 8:29-30 — "Que os teus olhos estejam abertos noite e dia sobre esta casa... Ouve a súplica do teu servo e do teu povo Israel quando orarem voltados para este lugar."
Na dedicação do templo, Salomão liga a oração atendida ao santuário. A promessa de Mateus 21:22 é feita sem nenhuma referência a lugar, um dia depois da cena no templo.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Tudo o que vocês pedirem em oração, se crerem, receberão.”
Texto grego (Textus Receptus)
Καὶ πάντα ὅσα ἂν αἰτήσητε ἐν τῇ προσευχῇ, πιστεύοντες, λήψεσθε.
Transliteração
kai panta hosa an aitēsēte en tē proseuchē, pisteuontes, lēpsesthe.
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas modernas trazem a mesma frase. A única diferença é de grafia: as edições críticas escrevem lēmpsesthe, com um "m" que a pronúncia popular do grego da época inseria nas formas do verbo "receber"; o Textus Receptus escreve lēpsesthe, na forma clássica. É a mesma palavra. Conferido no Bible Hub e na edição do Textus Receptus de Scrivener publicada pelo eBible.
Análise palavra por palavra
Καὶ — kai, "e". A conjunção liga a frase ao versículo anterior: a promessa do monte e a promessa da oração são uma fala só. A ABC não a traduz, porque começa nova frase em português, mas no grego não há pausa entre o dito do monte e o dito da oração.
πάντα ὅσα — panta hosa, "tudo quanto". Panta é o neutro plural de pas, "todo"; hosa é o relativo de quantidade, "quanto, quantas coisas". Juntos, fazem uma totalidade dupla: "todas as coisas, quantas forem". O grego tinha formas mais simples de dizer "o que vocês pedirem"; esta é a mais enfática.
A mesma combinação aparece em Mateus 7:12 e 28:20, sempre para um conjunto sem exceção.
ἂν αἰτήσητε — an aitēsēte, "que pedirem". A partícula an com o subjuntivo aoristo é a construção grega da generalidade indefinida: qualquer pedido, em qualquer ocasião. O aoristo apresenta cada pedido como um ato, não como um processo.
Aiteō é o verbo comum de pedir, e cobre do pedido humilde à exigência. Em Mateus ele aparece no Sermão do Monte (Mateus 6:8 e 7:7-11, seis vezes), no pedido da mãe dos filhos de Zebedeu e na resposta de Jesus, "vocês não sabem o que estão pedindo" (Mateus 20:20-22), no juramento de Herodes, "tudo o que pedisse" (Mateus 14:7), no pedido de Barrabás feito pela multidão (Mateus 27:20) e no pedido do corpo de Jesus feito por José de Arimateia (Mateus 27:58). O verbo da promessa é o mesmo do pedido que matou João Batista e do pedido que soltou Barrabás.
ἐν τῇ προσευχῇ — en tē proseuchē, "na oração". A preposição com o dativo indica a circunstância: o pedido feito dentro da oração. O artigo é genérico, como em português "na oração" — não aponta para uma oração específica. A formação e a distribuição de proseuchē estão no estudo de Mateus 17:21.
πιστεύοντες — pisteuontes, "crendo". Particípio presente ativo, nominativo masculino plural, de pisteuō, "crer, confiar".
É o ponto gramatical decisivo do versículo. O particípio concorda com o sujeito de "pedirem" e descreve o estado em que os sujeitos estão enquanto pedem. O presente indica simultaneidade: crer acontece ao mesmo tempo que pedir. O grego permite ler o particípio com sentido de condição ("se crerem"), e a ABC fez essa escolha; mas a forma não é a de uma oração condicional, que o grego construiria com ean e o subjuntivo, como no versículo anterior ("se tiverem fé", ean echēte pistin). Mateus usou a condicional explícita em Mateus 21:21 e o particípio em Mateus 21:22. O primeiro versículo põe uma condição; o segundo descreve quem pede.
O verbo volta em Mateus 27:42, na boca dos zombadores: "desça agora da cruz, e creremos nele". O evangelho termina com um grupo que promete crer se receber o sinal que pede.
λήψεσθε — lēpsesthe, "receberão". Futuro do indicativo, voz média, segunda pessoa do plural, de lambanō, "tomar, receber". O verbo tem futuro médio por regra da língua, sem sentido especial de "receber para si".
O futuro do indicativo é a forma da afirmação simples, sem nuance de possibilidade: não é "poderão receber", é "receberão". É o mesmo verbo de Mateus 7:8, "todo aquele que pede recebe", lá no presente.
No paralelo de Marcos 11:24 a forma do verbo varia entre os manuscritos: o Textus Receptus traz o presente, lambanete, "creiam que recebem"; as edições críticas, o aoristo, elabete, "creiam que receberam", como se a coisa pedida já estivesse dada. Em Mateus não há essa questão: todas as edições trazem o futuro.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a promessa é maior do que qualquer das leituras que tentaram contê-la. Hipérbole, condição de fé, vontade de Deus, restrição aos apóstolos, juízo sobre o templo — cada uma explica parte da frase, e todas precisam acrescentar algo que ela não diz. Conclui-se que o leitor honesto tem de manter duas coisas ao mesmo tempo: o que o versículo afirma e o que a experiência mostra. Mateus não deu a fórmula que as concilia, e quem a apresenta como se estivesse no texto está pregando, não lendo.
A segunda: o evangelho fornece o contexto que a frase sozinha não tem. O mesmo livro que promete tudo a quem pede crendo registra o Filho pedindo e não recebendo, podendo pedir e calando, e sendo zombado com a lógica da promessa. Daí se conclui que, dentro de Mateus, a fé não é um mecanismo de obtenção. Quem usa o versículo para julgar a fé de quem sofre está do lado dos zombadores da cruz, e não do lado do texto.
A terceira: o lugar da frase diz algo que a frase não diz. Uma promessa sem endereço, feita na estrada, um dia depois de o santuário ser declarado profanado, desloca a oração do lugar para as pessoas. Se o "tudo" deve ou não ser lido em função do templo, permanece em aberto; que a oração dos discípulos não depende do templo é o que a sequência das cenas deixa estabelecido.













