O residente e o assalariado não comerão dela.
1. Introdução
Duas figuras ficam de fora, e as duas são livres. O morador que se instalou ali e o trabalhador que recebe salário não comem da Páscoa — enquanto o escravo comprado, mencionado na linha anterior, come.
Três coisas ficam para o estudo: por que essas duas categorias andam sempre juntas na lei bíblica, por que os rabinos concluíram que nem a circuncisão bastava para admitir quem está nelas, e a leitura de Ibn Ezra, que vai contra todos os outros e entende que o versículo fala de israelitas.
2. Contexto Histórico e Cultural
Duas categorias jurídicas, não dois adjetivos
"Residente" e "assalariado" não são descrições soltas no texto bíblico: são termos de direito, e andam juntos como um par fixo. A dupla reaparece em Levítico 22:10, na regra sobre quem come da porção sagrada do sacerdote; em Levítico 25:6, na lista de quem se alimenta do que a terra produz no ano sabático; em Levítico 25:40, no tratamento devido ao israelita empobrecido; e em Levítico 25:47, no caso do israelita que se vende a um estrangeiro. Sempre lado a lado, sempre nessa ordem.
O residente é quem mora na terra sem ser dela. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) o descreve como alguém mais permanentemente instalado do que um estrangeiro de passagem, mas sem direitos civis. Barnes acrescenta o traço decisivo: reside no país sem ter lar permanente nem estar ligado a uma casa israelita.
O assalariado é quem trabalha por preço combinado. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) detalha: contratado por dia, por semana ou por ano. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) resumem o que os dois têm em comum e que os separa do escravo do versículo anterior — eles mantêm com a casa uma relação puramente externa, que pode ser desfeita a qualquer momento.
O trabalhador de diária no mundo bíblico
O assalariado da Bíblia não é um empregado com carteira: é o homem que se apresenta de manhã e recebe no fim do dia. Essa condição está documentada nas próprias leis que o protegem, e elas dizem muito sobre a vida dele.
Levítico 19:13 proíbe reter o salário do trabalhador "até a manhã". Deuteronômio 24:14-15 explica por quê, com uma frase dura: paga-se no mesmo dia, antes do pôr do sol, "porque é pobre e é disso que depende a vida dele". Quem precisa receber antes de escurecer não tem reserva para o dia seguinte.
Jó 7:1-2 descreve a experiência do lado de dentro: o assalariado "suspira pela sombra" e "espera pelo seu salário". E Isaías usa a categoria como unidade de medida temporal exata — "dentro de três anos, como os anos de um assalariado", em Isaías 16:14, e a mesma fórmula em Isaías 21:16. A expressão funciona porque o assalariado conta os dias com precisão: ninguém cumpre prazo com mais rigor do que quem é pago por ele.
Malaquias 3:5 põe quem oprime o assalariado no salário ao lado dos feiticeiros, dos adúlteros e dos que exploram a viúva e o órfão. O trabalho por diária era, naquele mundo, uma das posições mais frágeis que uma pessoa livre podia ocupar.
O Antigo Oriente Próximo em volta funcionava do mesmo jeito. O código do rei babilônico Hamurabi traz uma tabela de diárias por ofício, paga em grãos ou em prata, e o mecanismo de acerto ao fim da jornada é o mesmo que a lei israelita pressupõe.
A inversão que o corpo de leis produz
Aqui está o ponto que costuma passar despercebido. Essas duas categorias, excluídas do rito neste versículo, são exatamente as que a lei usa como modelo de bom tratamento em outro lugar.
Levítico 25:39-40 diz que o israelita que empobreceu e se vendeu não deve ser tratado como escravo, e sim "como assalariado e como residente". A condição que este versículo põe do lado de fora da mesa é a mesma que aquele texto põe como a proteção devida a um irmão em dificuldade.
Não há contradição, e é isso que revela o critério. Ser assalariado e residente é uma posição jurídica respeitável — melhor do que a escravidão, em direitos e em liberdade. O que ela não é, e nunca foi, é pertença a uma casa. A Páscoa não pergunta pela dignidade de quem está ali; pergunta por vínculo.
3. Análise Teológica do Versículo
"O residente e o assalariado"
O versículo é o mais curto do bloco — cinco palavras em hebraico — e é o que mais deu trabalho aos comentaristas. A dificuldade é esta: se essas duas pessoas não são circuncidadas, o versículo é redundante, porque três linhas adiante o texto dirá que nenhum incircunciso come da Páscoa. Por que gastar um versículo com o que já estaria dito?
Os rabinos encararam a pergunta de frente, e a resposta que deram é surpreendente.
Primeira leitura: o versículo existe para o caso do estrangeiro que já é circuncidado. Rabi Isaac, na Mekhilta, formula o problema exatamente como acima e responde: se um homem fosse um árabe circuncidado ou um gibeonita circuncidado, e vivesse ali como residente ou trabalhasse ali por salário, alguém poderia concluir que ele estava apto a comer da Páscoa. Para fechar essa porta é que o versículo foi escrito. Rashi (rabino francês do século XI) recolhe essa explicação.
O alcance disso é grande. Significa que a circuncisão, sozinha, não bastava. Havia povos vizinhos que praticavam o corte por motivos próprios, sem nenhuma relação com a aliança de Israel, e a marca física neles não valia como credencial. O critério do bloco não é anatômico: é de pertença, e a circuncisão só funciona como porta quando acompanha a entrada numa casa — que é exatamente o que acontece com o escravo do versículo anterior.
Segunda leitura: o "residente" é o estrangeiro que aderiu parcialmente. Rashi define o primeiro termo como o morador estrangeiro que se comprometeu a observar os preceitos básicos exigidos de qualquer ser humano, sem se tornar israelita. É a figura que a tradição judaica chamará de residente tolerado: pessoa aceita, protegida, com lugar reconhecido — e fora do rito. O segundo termo, para ele, designa simplesmente o não israelita contratado.
Terceira leitura, contra todas as anteriores: o versículo fala de israelitas. Ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) discorda abertamente dos rabinos e propõe outra coisa. Para ele, o residente e o assalariado deste versículo são israelitas, e a razão da exclusão é outra: eles não comem do cordeiro se nenhuma porção lhes tiver sido atribuída, como a lei manda fazer para toda a congregação.
A leitura de Ibn Ezra é minoritária e tem a seu favor um argumento de coerência — o capítulo mandou, em Êxodo 12:4, contar as pessoas e calcular a porção de cada uma, e quem ficou fora dessa conta fica fora da refeição, seja quem for. Tem contra si o uso das duas palavras no resto da Torá, onde elas designam quase sempre não israelitas. Não é possível decidir, e o registro da discordância é mais honesto do que apresentar a leitura rabínica como se fosse consenso.
"não comerão dela"
O verbo está no singular, com dois sujeitos. Em hebraico isso é comum e produz um efeito: as duas figuras são tratadas como um bloco só, um caso jurídico único, e não como duas exclusões separadas.
A fórmula é idêntica à de Êxodo 12:43 — a mesma negação, o mesmo verbo, a mesma preposição. Três versículos seguidos usam exatamente as mesmas duas palavras finais: no primeiro, negando ao estrangeiro; no segundo, concedendo ao escravo circuncidado; no terceiro, negando outra vez. A repetição fecha a unidade e deixa ver o critério pela alternância.
O quadro completo do bloco, e o que ele revela
Postos lado a lado, os três versículos desenham um arranjo que nenhuma lógica de status explica.
Fora: o estrangeiro. Dentro: o escravo comprado, depois de circuncidado. Fora: o residente e o assalariado.
Numa escala de liberdade, de dignidade jurídica ou de poder econômico, o escravo está abaixo dos outros dois — e é ele que entra. O residente é livre, tem casa, tem bens, pode ir embora quando quiser; o assalariado é livre, negocia o seu preço e pode recusar trabalho. Nada disso conta.
O que conta é uma coisa só: estar dentro de uma casa sem prazo para sair. O escravo pertence à casa no sentido mais cru do termo — é propriedade dela, e por isso é dela. O assalariado tem um contrato que termina; o residente tem um domicílio que não é vínculo. Os dois estão ali e não são de lá.
Esse critério é coerente com tudo o que o capítulo montou. A Páscoa foi construída em torno da casa, não do templo: um cordeiro por casa, comido em casa, com o sangue na porta da casa. Uma refeição assim não tem como perguntar por cidadania nem por fé — ela pergunta por quem dorme ali todo dia e vai continuar dormindo.
O desconforto que isso produz no leitor moderno é legítimo e não deve ser dissolvido. O sistema recompensa com lugar à mesa exatamente a forma mais extrema de dependência, e deixa de fora quem conserva a liberdade de partir. O texto não comenta o paradoxo, e a via de entrada que ele oferece a quem quiser mudar de condição está no fim do mesmo bloco, em Êxodo 12:48.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O residente
Figura jurídica de quem mora na terra sem pertencer a ela e sem estar ligado a uma casa israelita. A tradição judaica posterior desenvolveu a partir daqui a categoria do estrangeiro tolerado — pessoa aceita e protegida, que assume os deveres morais básicos exigidos de qualquer ser humano sem se tornar parte do povo. É figura que a lei bíblica menciona com frequência e quase sempre em companhia da seguinte.
O assalariado
O trabalhador contratado por prazo — dia, semana ou ano — e pago em dinheiro ou em espécie. A lei o protege com regras específicas sobre o pagamento imediato, o que indica tanto a fragilidade da posição quanto a frequência dela. É uma das poucas figuras da sociedade israelita cuja experiência subjetiva a Bíblia registra, no lamento de Jó 7:2.
Os árabes e os gibeonitas circuncidados
Exemplos escolhidos pelos rabinos para explicar por que o versículo não é redundante. Os gibeonitas são o povo de Josué 9, que obteve de Israel um tratado por engano e ficou vivendo entre os israelitas numa condição subordinada e permanente — o caso perfeito de gente de dentro que não é de dentro. A menção a árabes circuncidados registra o conhecimento de que a prática do corte existia entre povos vizinhos por motivos próprios.
Rabi Isaac
Mestre citado na Mekhilta, o comentário antigo ao Êxodo, e autor da explicação que se tornou padrão para este versículo. É a ele que Rashi segue.
Ibn Ezra
Abraão ibn Ezra, comentarista, gramático e poeta judeu nascido em Tudela por volta de 1089, que passou a vida adulta viajando pela Europa depois de deixar a península Ibérica. O seu comentário ao Pentateuco é conhecido pela atenção ao sentido literal e pela disposição de discordar da tradição rabínica quando o texto, na leitura dele, pede outra coisa. Este versículo é um caso claro disso.
5. Pontos de Ensino
O critério não é a marca, é o vínculo. Segundo a explicação rabínica, nem um homem circuncidado entraria, se o que o ligasse à comunidade fosse um contrato ou um endereço. Isso desmonta qualquer leitura da circuncisão como senha automática de acesso.
Categorias excluídas não são categorias desprezadas. As duas figuras deste versículo são, em outro texto da mesma lei, o padrão de tratamento digno devido a um irmão empobrecido. Ficar de fora de um rito e ser respeitado na convivência são coisas distintas, e o corpo de leis mantém as duas ao mesmo tempo.
O versículo mais curto é o que mais exige do leitor. Cinco palavras que parecem repetir o que o texto já disse, e que os comentaristas precisaram de séculos para explicar. Textos legais raramente desperdiçam espaço — quando parecem fazê-lo, em geral é sinal de que o caso previsto é mais específico do que parece.
Quem pode ir embora fica de fora. A liberdade de partir, que é um bem, funciona aqui como impedimento. É um arranjo incômodo e o texto não o resolve — e reconhecer o incômodo é melhor do que explicá-lo com argumentos que o versículo não oferece.
A discordância de Ibn Ezra tem lição de método. Ele leu o mesmo texto que os rabinos, conhecia as explicações deles e propôs outra, apoiada no capítulo. Discordar da tradição a partir do próprio texto é prática antiga dentro do judaísmo, e não invenção moderna.
6. Aspectos Filosóficos
Existe diferença entre estar num lugar e pertencer a ele? O versículo responde que sim, e paga o preço da resposta: exclui do rito duas pessoas que moram ali e trabalham ali, e admite uma terceira que não escolheu estar.
A necessidade de raiz
Simone Weil (1909-1943, filósofa francesa) escreveu no último ano de vida, a pedido da resistência francesa em Londres, o texto que foi publicado depois com o título O Enraizamento ("L'Enracinement", 1949). Ele começa por uma tese seca: o enraizamento é a necessidade mais importante e a mais ignorada da alma humana.
O que ela entende por isso não é nostalgia de aldeia. Uma pessoa tem raiz, na definição dela, quando participa de modo real, ativo e natural da existência de uma coletividade que guarda vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro. Três palavras carregam a definição: real, porque não basta estar presente; ativo, porque não basta ser tolerado; natural, porque não basta ter sido admitido por decisão administrativa.
Weil falava com conhecimento direto do contrário disso. Em 1934 e 1935 ela deixou o magistério e foi trabalhar como operária em fábricas de metalurgia, e o diário que manteve nesse período descreve com precisão a condição de quem está num lugar sem ser dele: a presença medida em horas pagas, o corpo no galpão e a vida em outro lugar, a impossibilidade de dizer "nós" sobre o que se faz o dia inteiro. Ela chamou de desenraizamento essa forma de existir, e a considerou a doença central do mundo moderno.
Onde a ideia ilumina o texto
As duas figuras do versículo são, na linguagem de Weil, pessoas presentes sem raiz — e por razões diferentes.
O assalariado tem com a casa uma relação medida em tempo e preço. Ele está lá, e o "lá" acaba no fim do prazo. É exatamente a descrição que Keil e Delitzsch dão da posição dele: relação puramente externa, que pode ser desfeita a qualquer dia.
O residente tem domicílio e não tem vínculo. Mora, e morar não é o mesmo que pertencer — a Cambridge Bible registra que ele estava instalado de modo estável e sem direitos civis, que é a combinação exata que Weil descreve.
E o escravo comprado, que o versículo anterior admite, tem a coisa toda ao contrário: não tem liberdade nenhuma e tem raiz completa. Está na casa sem prazo, sem contrato e sem alternativa. Pela definição de Weil, ele participa realmente da existência daquela coletividade, e é isso que o versículo reconhece ao dar-lhe lugar à mesa.
A distinção ajuda a ver por que a lei não é incoerente. Ela não distribui o rito segundo liberdade, riqueza ou mérito; distribui segundo enraizamento. É um critério estranho ao direito moderno e perfeitamente inteligível numa sociedade organizada em casas.
Onde a ideia não serve
Weil provavelmente tomaria partido contra o versículo, e é preciso dizê-lo.
Para ela, o desenraizamento é um mal a ser curado, e a coletividade tem obrigação de dar raízes a quem não as tem — não de excluir quem não as tem. O assalariado sem vínculo, no diagnóstico dela, é vítima de uma situação, e a resposta correta seria oferecer-lhe participação, não negar-lhe a refeição. O versículo faz o contrário: usa a falta de raiz como critério de exclusão.
Há ainda uma diferença de objeto. Weil escrevia sobre a França de 1943 e sobre a fábrica moderna, onde o desenraizamento é produzido por um sistema econômico. O texto bíblico não diagnostica nada: legisla sobre quem come, numa sociedade em que a casa era a unidade de tudo. Aplicar a ela uma categoria criada para explicar a indústria é útil como lente e enganoso como julgamento.
Fica de pé a observação que interessa: o versículo trata pertencimento como algo distinto de liberdade, de dignidade e de presença física. Os três podem existir sem ele. É uma constatação incômoda, e nem o texto antigo nem a filósofa a desmentem.
7. Aplicações Práticas
Presença não é pertencimento. Muita gente trabalha anos num lugar sem nunca ter sido incluída nele, e a diferença aparece exatamente nos momentos de celebração — quem é convidado para a confraternização, quem é lembrado na hora da foto, quem recebe o aviso da reunião. O versículo descreve esse mecanismo com uma clareza que hoje ninguém escreveria.
O contrato tem limite, e isso é uma proteção. O assalariado pode ir embora; o escravo não. A mesma liberdade que o deixa de fora da mesa é a que lhe permite recusar o serviço. Trocar vínculo por segurança é uma escolha real, e o versículo mostra os dois lados dela sem recomendar nenhum.
Pagar no mesmo dia. As leis que cercam a figura do assalariado na Bíblia são das mais concretas do corpo legal: o salário sai antes do pôr do sol, porque quem trabalha por diária não tem reserva. Continua sendo o teste mais simples de honestidade de quem contrata.
Um cuidado. O versículo não diz que o residente e o assalariado valem menos, nem autoriza tratá-los mal — o mesmo corpo de leis os usa como padrão do tratamento devido a um israelita empobrecido e ameaça quem retém o salário deles. Exclusão de rito e desprezo de pessoa são coisas diferentes no texto, e confundi-las é o erro mais fácil de cometer aqui.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se três versículos adiante o texto já proíbe o incircunciso de comer, por que gastar este versículo?
A pergunta é da Mekhilta, e a resposta que ela dá é o achado do versículo: para cobrir o caso de quem já é circuncidado e mesmo assim não entra — um árabe ou um gibeonita circuncidado, vivendo ali como morador ou como contratado. A norma existe justamente para os casos que a regra geral deixaria passar.
O que faziam os gibeonitas circuncidados no raciocínio dos rabinos?
Josué 9 conta que os gibeonitas obtiveram de Israel um tratado apresentando-se como vindos de longe, e que, descoberto o engano, foram mantidos vivos numa condição subordinada e permanente dentro do território. Eram, portanto, o exemplo perfeito do problema: gente de dentro que não é de dentro. Os rabinos usaram o caso para testar o limite da regra.
Ibn Ezra está errado?
Não há como afirmar isso. Ele lê as duas palavras como designando israelitas, e apoia a exclusão na regra de contagem de porções do começo do capítulo. Contra ele está o uso dominante dos dois termos no Pentateuco, que quase sempre designam não israelitas. A favor dele está a coerência interna: o capítulo realmente manda contar quem come, e quem não foi contado não come. A discussão permanece em aberto.
O versículo exclui para sempre essas pessoas?
Não. Três versículos adiante o texto abre uma via: o estrangeiro que quiser celebrar a Páscoa circuncida a casa e passa a ser "como o natural da terra". A exclusão deste versículo alcança quem permanece na condição descrita, não quem decide mudá-la. A discussão de como essa porta funciona é de Êxodo 12:48.
Por que o verbo está no singular, se há dois sujeitos?
O hebraico admite essa concordância e a usa com frequência quando os sujeitos formam uma unidade. O efeito, aqui, é tratar as duas figuras como um caso jurídico único — e é coerente com o modo como elas aparecem no resto do Pentateuco, sempre em par.
9. Conexão com Outros Textos
O par que este versículo usa, nas outras leis
Levítico 22:10 — "Nenhum estranho comerá da coisa santa; o residente do sacerdote e o assalariado não comerão da coisa santa."
Levítico 25:6 — "O que a terra produzir no descanso servirá de alimento para vocês: para você, para o seu servo, para a sua serva, para o seu assalariado e para o residente que mora com você."
A mesma dupla, na mesma ordem. No primeiro texto ela é excluída de um alimento sagrado, exatamente como aqui; no segundo, é incluída na partilha do que a terra dá por si. O par é uma categoria fixa do direito israelita, e o tratamento dela varia conforme o que está em jogo.
A inversão: as mesmas categorias como padrão de bom tratamento
Levítico 25:39-40 — "Se o seu irmão empobrecer ao seu lado e se vender a você, não o fará servir como escravo; estará com você como assalariado e como residente, e servirá a você até o ano do jubileu."
O que este versículo exclui do rito, aquele estabelece como a condição digna a ser dada a um israelita em dificuldade. As duas coisas não se contradizem: uma trata de pertencimento, a outra de dignidade.
As leis que protegem o assalariado
Deuteronômio 24:14-15 — "Não oprimirás o assalariado pobre e necessitado, seja ele teu irmão ou o estrangeiro que está na tua terra, dentro das tuas portas. No seu dia lhe darás o seu salário, antes que o sol se ponha, porque é pobre e disso depende a sua vida."
Malaquias 3:5 — "E chegarei a vocês para o juízo, e serei testemunha veloz contra os feiticeiros, contra os adúlteros, contra os que juram falsamente e contra os que defraudam o assalariado no seu salário, a viúva e o órfão."
A posição que este versículo exclui da mesa é a mesma que a lei cerca de proteções específicas, e o profeta põe a fraude contra ela entre os pecados mais graves.
A experiência do assalariado, por dentro
Jó 7:2 — "Como o servo que suspira pela sombra e como o assalariado que espera pelo seu salário."
Uma das poucas vezes em que a Bíblia registra o ponto de vista dessa figura, e não apenas o estatuto jurídico dela.
O contraste imediato
Êxodo 12:44 — "mas todo escravo comprado por dinheiro, depois que você o circuncidar, comerá dela."
Ler os dois versículos seguidos é o que revela o critério: entra quem pertence à casa sem prazo, e não quem é livre.
A porta que o bloco deixa aberta
Êxodo 12:48 — "E, quando um estrangeiro morar com você e quiser celebrar a Páscoa ao SENHOR, seja circuncidado todo macho da sua casa; então ele se aproximará para celebrá-la e será como o natural da terra. Mas nenhum incircunciso comerá dela."
A exclusão deste versículo não é destino: alcança quem permanece na condição descrita.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
O residente e o assalariado não comerão dela.
Texto hebraico
תּוֹשָׁב וְשָׂכִיר לֹא־יֹאכַל בּוֹ׃
Transliteração
toshav ve-sakhir lo yokhal bo.
Análise palavra por palavra
תּוֹשָׁב — toshav, "residente, morador, aquele que se assentou".
A palavra vem da raiz yashav, "sentar-se, habitar, permanecer" — uma das mais frequentes do hebraico bíblico, e a mesma que produz "habitante", "morada" e "assento". A forma usada aqui é um substantivo de agente, e o sentido literal é "aquele que se sentou", isto é, quem se fixou num lugar.
A palavra ocorre cerca de catorze vezes na Bíblia hebraica, quase sempre em textos legais e quase sempre emparelhada com outro termo. É importante distingui-la de ger, o estrangeiro residente, que aparece no fim deste mesmo capítulo e recebe um tratamento oposto. Os dois se sobrepõem e não são sinônimos: a lei chega a usar a expressão composta "ger toshav" para designar uma figura específica, e é dessa combinação que a tradição judaica tira a categoria do estrangeiro tolerado.
O que caracteriza o toshav, na leitura dos comentaristas, é a combinação de permanência com ausência de vínculo: mora, e mora há tempo, e não é de lá.
וְשָׂכִיר — ve-sakhir, "e assalariado".
Da raiz sakhar, "contratar, alugar, pagar salário". Da mesma família vem sakhar, "salário, recompensa", palavra que aparece em Gênesis 15:1, quando Deus diz a Abrão que o seu galardão será muito grande — o mesmo termo que designa o pagamento do diarista.
A forma é adjetiva e substantivada: "o contratado". O que ela nomeia é uma relação, não uma condição pessoal — ninguém é sakhir por natureza, é sakhir enquanto dura o contrato. É essa característica que Keil e Delitzsch apontam ao dizer que a relação dele com a casa é externa e desfazível a qualquer momento.
A palavra aparece cerca de dezoito vezes, e o seu contexto típico é a proteção: as leis que exigem o pagamento no mesmo dia usam sempre esse termo. Uma exceção notável está em Isaías 16:14, onde a expressão "como os anos de um assalariado" funciona como medida de tempo rigorosamente contada.
לֹא־יֹאכַל — lo yokhal, "não comerá".
O advérbio de negação lo seguido do imperfeito, forma padrão da proibição permanente na lei bíblica. O verbo está no singular, embora os sujeitos sejam dois. O hebraico permite essa concordância quando os sujeitos formam uma unidade, e o efeito é agrupá-los num caso único.
בּוֹ — bo, "nele".
Preposição be com sufixo de terceira pessoa. O referente é o cordeiro pascal, mencionado por último em Êxodo 12:44. Como nos dois versículos anteriores, o hebraico diz "comer nele", construção que Ibn Ezra comentou ao tratar de Êxodo 12:43.
As duas últimas palavras deste versículo são idênticas às duas últimas de Êxodo 12:43 e de Êxodo 12:44 — a mesma preposição e o mesmo verbo, alternando negativa, afirmativa e negativa. O bloco inteiro se articula por essa repetição.
O versículo nas versões antigas
A Septuaginta traduziu o par por pároikos e misthōtós. O primeiro termo significa, ao pé da letra, "aquele que mora ao lado" — era a palavra técnica do mundo grego para o estrangeiro estabelecido numa cidade sem direitos de cidadão, figura bem conhecida das cidades helenísticas. O segundo, misthōtós, é simplesmente "o que recebe salário", da palavra grega para pagamento.
A escolha do primeiro termo é interessante porque ele tinha, no grego da época, um conteúdo jurídico preciso e muito parecido com o hebraico: pessoa instalada, tolerada, protegida e sem participação na vida política da cidade. O tradutor encontrou na sua própria sociedade uma categoria equivalente, e a usou.
O Targum de Ônquelos, a tradução aramaica lida na sinagoga, manteve a dupla sem acrescentar interpretação, deixando a ambiguidade do hebraico intacta — o que é coerente com o silêncio dele sobre a identidade exata das duas figuras.
11. Conclusão
Do que foi exposto decorrem quatro conclusões.
A marca física não bastava. A explicação rabínica para a existência deste versículo é que ele cobre o caso de quem já é circuncidado e ainda assim fica de fora. Isso significa que a circuncisão nunca funcionou como senha automática: ela vale como porta quando acompanha a entrada numa casa, e não por si.
O critério do bloco é enraizamento, não status. Postos lado a lado, os três versículos deixam ver o que decide: entra quem está na casa sem prazo para sair. O escravo comprado entra porque pertence; o residente e o assalariado ficam de fora porque a relação deles com a casa tem data de término ou nunca começou. Liberdade, bens e dignidade jurídica não contam.
Ficar de fora do rito não é ser desprezado. O mesmo corpo de leis que exclui estas duas figuras da Páscoa as toma como modelo de tratamento digno para um israelita empobrecido, exige que o salário delas seja pago antes do pôr do sol e põe a fraude contra elas entre os pecados que o profeta denuncia. Quem lê o versículo como condenação das pessoas está lendo outra coisa.
A leitura rabínica não é a única possível. Ibn Ezra entendeu as duas palavras como designando israelitas que não foram incluídos na contagem das porções, e sustentou isso contra a tradição, apoiado no próprio capítulo. A discussão continua aberta, e apresentar apenas a leitura dominante seria esconder que um dos maiores comentaristas judeus medievais pensava de outro modo.













