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Mateus 22:20

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 4 acessos
Ele então lhes perguntou: “De quem é esta imagem e esta inscrição?”
Uma moeda de prata romana com o perfil laureado do imperador e letras gravadas em volta, erguida diante de Jesus no pátio do templo de Jerusalém.

Estudo


Ele então lhes perguntou: “De quem é esta imagem e esta inscrição?”

1. Introdução

Com a moeda erguida no pátio, Jesus faz a única pergunta do episódio, e ela é sobre duas coisas gravadas no metal: um rosto e umas letras. Pergunta de quem são, e a resposta vem com uma palavra só — o que deixa sem resposta qual das duas se estava identificando. O rosto era problema para judeus observantes, e as letras eram pior do que o rosto: diziam que o homem retratado era filho de um deus e sumo sacerdote de Roma. Nenhum dos quatro evangelistas nomeia o imperador; o texto diz "esta imagem", apontando para um objeto que o leitor não vê. E a palavra grega escolhida para "imagem" é a mesma com que a Bíblia grega diz que o homem foi feito à imagem de Deus.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que estava escrito num denário daquela época

A pergunta de Jesus trata de dois objetos concretos, e é possível dizer com boa precisão o que eles eram.

O tipo de denário que os colecionadores apelidaram de "moeda do tributo" é o de Tibério, cunhado em Lugduno — a atual Lyon, na Gália, que era a casa de moeda de prata e ouro do império no período. De um lado, a cabeça do imperador com coroa de louros, voltada para a direita, e em volta a legenda TI CAESAR DIVI AVG F AVGVSTVS. Do outro, uma figura feminina sentada, com uma haste e um ramo, e a legenda PONTIF MAXIM.

Traduzidas, as duas legendas dizem o seguinte. A primeira: "Tibério César, filho do Divino Augusto, Augusto". A segunda: "Pontífice Máximo", o título do chefe do sacerdócio público romano.

É aqui que o problema fica maior do que a questão do retrato. Um judeu que lesse latim tinha na mão uma peça que afirmava duas coisas: que aquele homem era filho de um deus — Augusto havia sido declarado divino pelo senado depois de morto, e DIVI F quer dizer "filho do divinizado" — e que era sumo sacerdote de um culto estrangeiro. Não é imagem apenas: é declaração teológica em metal, circulando como dinheiro.

Uma ressalva honesta: não se pode afirmar que a peça erguida naquele pátio fosse desse tipo exato — denários de Augusto continuaram circulando por décadas, e Mateus não nomeia o imperador. O que se pode afirmar é o que qualquer denário do período trazia: cabeça de imperador e legenda com nome e títulos.

Por que os judeus não punham rostos nas suas moedas

Há um contraste material que a cena pressupõe e não enuncia.

As moedas cunhadas por autoridades judaicas evitavam a figura humana. Os Hasmoneus cunhavam bronze com inscrições, cornucópias, palmas, âncoras, estrelas — nunca um rosto. Herodes, o Grande, manteve a regra, apesar de tudo o que fez contra a sensibilidade religiosa do seu povo em outros campos. Os prefeitos romanos da Judeia, que cunhavam bronze local, também a respeitaram: as peças de Pôncio Pilatos trazem objetos do culto romano — um bastão curvo de augúrio, um vaso de libação — e nenhuma cabeça. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) conclui daí que a moeda da cena era romana e não judaica, porque os judeus punham inscrições nas suas moedas, mas não imagens.

Houve duas exceções na própria família de Herodes, e elas confirmam a regra pelo escândalo que produziram. Herodes Filipe, tetrarca de territórios de população mista no nordeste, foi o único dos seus a estampar em moeda o retrato do imperador, gesto que os comentaristas, seguindo Edersheim, explicam como adulação; mais tarde, Herodes Agripa I pôs a própria efígie em algumas emissões.

O episódio dos estandartes, que todos ali lembravam

Que a imagem do imperador em Jerusalém era assunto de vida ou morte não é dedução: está documentado, e aconteceu sob o governador que condenaria Jesus.

Flávio Josefo (historiador judeu do século I) conta o caso nas Antiguidades Judaicas e na Guerra Judaica. Pilatos mudou tropas de Cesareia para os quartéis de inverno em Jerusalém e levou, afixados nos estandartes militares, bustos do imperador — coisa que, segundo ele, os governadores anteriores tinham evitado. Entraram de noite. Quando a cidade descobriu, uma multidão foi até Cesareia pedir a retirada; Pilatos recusou, e eles se prostraram em volta da residência e ficaram ali, imóveis, cinco dias e cinco noites. No dia seguinte Pilatos convocou o povo ao estádio, cercou-o de soldados e ameaçou matar quem não aceitasse as imagens; a resposta foi que esticaram o pescoço e disseram que preferiam morrer. Pilatos mandou retirar os estandartes.

Os dois relatos diferem em detalhes, e há discussão acadêmica sobre o que exatamente estava afixado nos estandartes, já que as tropas de Pilatos eram auxiliares. Mas o episódio é aceito como histórico, e é anterior a esta cena.

Guarde o contraste. A geração que se deitou no chão durante cinco dias para tirar a cara do imperador de Jerusalém é a mesma que, no pátio do templo, produz a cara do imperador do próprio cinto, a pedido, em poucos segundos. O evangelho não comenta isso. O leitor que conhece o episódio não tem como não ver.

Moeda que circula, rei que manda: uma regra do direito judaico

Há um princípio jurídico judaico que liga exatamente as duas coisas da pergunta, e é por ele que vários comentaristas leem a cena.

Maimônides (jurista e filósofo judeu do século XII), no seu código de leis, estabelece a regra no tratado sobre roubo e objetos achados: o rei cujas moedas circulam numa terra é reconhecido como senhor por aqueles que as usam, pois o uso da moeda dele é prova de que o aceitaram; e o rei cuja moeda não circula é tratado como salteador armado, e seus funcionários do mesmo modo. Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) usam o princípio para explicar o argumento da cena: a moeda que circula é a prova visível do governo de fato.

A ressalva cronológica é grande: Maimônides escreve doze séculos depois, e não se pode afirmar que os homens do pátio pensassem nesses termos. O que a regra mostra é que a equação entre moeda corrente e soberania aceita foi formulada dentro do próprio direito judaico, e não é invenção de comentarista cristão.

3. Análise Teológica do Versículo

“Ele então lhes perguntou”

Mateus marca a mudança de atitude: até aqui Jesus havia acusado e ordenado, e agora pergunta — é a única pergunta que ele faz nesta disputa. E ela não pede informação, porque qualquer pessoa no pátio sabia de quem era o rosto no denário. O que ela faz é obrigar o outro a dizer em voz alta uma coisa que preferia não dizer ali.

“De quem”

Esta é a primeira palavra da pergunta no grego, e a posição importa. Antes de nomear o rosto, antes de nomear as letras, antes de qualquer coisa, pergunta-se pelo dono.

O grego usa o caso da posse. Não é "quem está retratado aqui?", que seria pergunta de identificação; é "de quem é isto?", que é pergunta de propriedade. A diferença decide o versículo seguinte: o que se estabelece aqui não é a identidade do retratado, é o título de alguém sobre o objeto.

E repare no que isso pressupõe. A pergunta trata como óbvio que uma imagem gravada em algo indica de quem é a coisa. Essa premissa não é discutida por ninguém na cena — nem por Jesus, nem pelos adversários. Ela é o fundamento silencioso de toda a sentença que vem a seguir, e será também o fundamento da metade da sentença que fala de Deus.

“esta imagem”

Duas coisas no pronome e uma na palavra.

No pronome: "esta" é demonstrativo de proximidade, e a cena exige que a moeda esteja à vista. Gill imagina Jesus com a peça numa das mãos, apontando para ela com a outra; o Pulpit Commentary também o faz apontar. O texto não descreve o gesto, mas o demonstrativo o pressupõe. E isso cria uma situação curiosa para quem lê: o leitor é posto diante de um objeto que não pode ver, identificado apenas por um "esta". Qual imagem era não está no evangelho — vem da arqueologia e da história.

Na palavra: "imagem" traduz um termo grego que não é neutro na Bíblia. É a palavra com que a Bíblia grega diz que Deus fez o homem à sua imagem; é a palavra da estátua de ouro que Nabucodonosor ergueu e que três judeus se recusaram a adorar; é a palavra que Paulo usará para dizer que Cristo é a imagem do Deus invisível. O campo da palavra está no item 10.

A tensão que isso produz é preciso não antecipar: a mesma palavra cobre o retrato de um homem numa moeda e a marca de Deus no ser humano, e Mateus não diz nada sobre isso aqui. A consequência será tirada por leitores antigos, não pelo evangelista, a partir do versículo 21.

“e esta inscrição”

A segunda metade da pergunta é a esquecida, e é a mais dura.

A palavra grega significa literalmente "o escrito sobre", isto é, as letras gravadas em volta do retrato. Ellicott (Charles Ellicott, bispo inglês do século XIX) e a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) insistem que a tradução correta é "inscrição", e não "sobrescrito", que não quer dizer nada em português moderno.

Por que isso é mais grave do que o rosto? Porque o rosto só diz "este homem governa". As letras dizem o que ele é. Como o item 2 mostra, a legenda do denário de Tibério o declarava filho do divinizado Augusto e sumo sacerdote do culto romano. O rosto ofendia o segundo mandamento; a inscrição ofendia o primeiro.

E a pergunta de Jesus inclui as duas coisas. Ele não pergunta só pela figura: pergunta pela figura e pelo que está escrito. Quem respondeu respondeu pelas duas.

O Expositor's Greek Testament ("Comentário Grego do Expositor", série inglesa do fim do século XIX) corrige um exagero comum: moedas com a imagem de César eram abundantes em Jerusalém na Páscoa, inclusive entre os mais zelosos. O escândalo não estava na existência da peça, e sim em alguém ser obrigado a dizer, no pátio do templo, o que havia nela.

O que a pergunta deixa de fora

Não se pergunta quanto vale a moeda, não se pergunta se é lícito possuí-la, e não se pergunta se é lícito pagar com ela — que era, afinal, a pergunta original.

A discussão foi deslocada de um problema de licitude para um problema de propriedade. Isso não é evasiva: é a construção de uma premissa. Para dizer o que se deve a quem, primeiro se estabelece de quem é o quê — e a prova disso é a marca gravada na coisa.

Marcos tem um eco que Mateus não tem

Há um detalhe de comparação entre evangelhos que merece registro cuidadoso, porque é fácil atribuí-lo ao texto errado.

A palavra grega de "inscrição" aparece em Marcos duas vezes. Uma é aqui, na moeda. A outra é na cruz: Marcos escreve que havia a inscrição da acusação, "O Rei dos Judeus". Em Marcos, portanto, a mesma palavra liga a moeda que declara quem é César ao letreiro que declara quem é o condenado.

Mateus não faz esse eco. No relato dele da crucificação, o letreiro não é chamado de "inscrição": o texto diz que puseram por escrito a acusação. A palavra deste versículo não reaparece em Mateus em lugar nenhum.

O eco é real e é de Marcos. Atribuí-lo a Mateus seria erro, e vale dizê-lo porque a ligação é bonita e por isso mesmo migra de um evangelho para outro nas pregações.

O imperador que o texto não nomeia

Nenhum dos três evangelhos escreve "Tibério": todos escrevem "César", que é título e não nome. Um nome próprio prenderia a cena a um governo; o título a mantém geral, e por isso a sentença do versículo 21 não fala sobre o que se deve a Tibério, mas sobre o que se deve a quem ocupa aquele lugar. O limite tem de ficar marcado: título genérico não transforma a frase em doutrina geral sobre o Estado. Esta pergunta trata de um objeto específico, na mão de um homem específico, num dia específico.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A imagem

O rosto de um imperador romano, de perfil, com coroa de louros, gravado em prata. É o único objeto do evangelho de Mateus que traz o retrato de uma pessoa, e a única vez em que o império aparece em cena como coisa que se pode segurar. O texto não diz de quem é o rosto: diz "esta", apontando, e deixa a identificação para a resposta do versículo seguinte, que também não dá nome, só título.

A inscrição

As letras em volta do retrato, com o nome e os títulos do imperador. Num denário de Tibério, elas o declaravam filho do Augusto divinizado e pontífice máximo do culto romano. São duas afirmações religiosas, gravadas no dinheiro de uso diário, em latim, numa província onde quase ninguém lia latim.

Esse último detalhe tem peso: a maioria de quem manuseava a peça não conseguia ler o que ela dizia. Quem perguntou e quem respondeu, no pátio, sabiam.

Onde isso acontece

No pátio do templo de Jerusalém, durante a semana da Páscoa, num recinto onde a prata imperial não era aceita como pagamento religioso e precisava ser trocada. O lugar é parte do que a pergunta faz: a imagem do imperador é exibida exatamente onde ela não valia.

O que aconteceu antes, e logo antes

Uma pergunta sobre o tributo, uma acusação de hipocrisia e um pedido de moeda. Três versículos, e nada mais. Entre o pedido e esta pergunta houve apenas o tempo de alguém procurar a peça e erguê-la.

No fundo mais amplo está um episódio que a geração presente havia vivido: a entrada dos bustos imperiais em Jerusalém sob Pilatos e o protesto que os fez sair. O pátio em que esta pergunta é feita fica na cidade de onde aquelas imagens foram retiradas.

5. Pontos de Ensino

A marca diz de quem é a coisa

O versículo trabalha com um princípio que ninguém na cena contesta: o que traz a marca de alguém pertence a alguém. É assim que funcionava o selo num documento, o sinal no gado, o monograma na propriedade — e é assim que funciona o rosto numa moeda.

Esse princípio é o eixo de todo o episódio. Sem ele, a sentença do versículo seguinte não tem apoio em nada. Com ele, a sentença é quase uma dedução.

Pergunte pelo que está escrito, não só pela figura

Jesus pergunta por duas coisas. A pregação costuma repetir só a primeira, porque a imagem é visual e a inscrição é chata.

Mas é na inscrição que está o conteúdo. O rosto informa quem governa; as letras informam o que ele reivindica ser. Quem para no rosto perde a parte em que o objeto faz uma afirmação religiosa.

Há aqui um critério transferível. Diante de qualquer coisa que carregue a marca de um poder — documento, contrato, propaganda, símbolo —, a pergunta útil não é só "de quem é isso?", mas "o que está escrito aqui, com todas as letras, sobre quem é o dono?".

Obrigar o outro a dizer o que ele sabe

Em qualquer discussão há fatos que as duas partes conhecem e que só uma delas tem interesse em enunciar. Fazer o adversário enunciá-lo muda a conversa, porque o que ele mesmo disse não pode depois ser negado. É o que acontece aqui com uma palavra: "De César."

Viver com objetos que afirmam o que você nega

Este é o ponto de ensino mais incômodo, e ele não se resolve em conselho.

Um judeu fiel do primeiro século carregava no cinto uma peça que dizia, em latim, que um homem era filho de um deus. Ele não fabricou a peça, não escolheu a legenda e não tinha alternativa — e, no entanto, ela estava lá, todos os dias, no bolso.

O evangelho não manda jogá-la fora. Também não finge que o problema não existe: faz com que o problema seja dito em voz alta, no templo, pelos próprios interessados. O que se aprende é menos consolador e mais honesto do que uma regra: o primeiro passo diante de uma contradição em que se vive é nomeá-la.

6. Aspectos Filosóficos

O que a marca faz

A pergunta do versículo supõe que uma marca gravada num objeto estabelece de quem ele é. É suposição forte: por que um rosto estampado em prata cria direito sobre a prata? Uma resposta diz que não cria nada — a marca registra um fato que já existe, como a etiqueta registra o preço. Outra diz que a marca é o próprio ato pelo qual a coisa passa a ser o que é. A segunda tem nome na história do pensamento econômico, e tem autor.

Knapp e a moeda que vale pela marca, não pelo metal

Georg Friedrich Knapp (1842-1926, economista alemão, professor em Estrasburgo) publicou em 1905 a Staatliche Theorie des Geldes ("Teoria Estatal do Dinheiro"), traduzida ao inglês em 1924. A tese está na primeira linha do livro, e é célebre pela brevidade: o dinheiro é uma criatura da lei.

O raciocínio parte de uma distinção concreta. Um pedaço de metal pode valer pelo que é — pela prata que contém, pesada em balança — ou pelo que está declarado nele, pela marca que uma autoridade apôs dizendo "esta peça conta como tanto". Knapp chamou as peças do segundo tipo de chartais, do latim charta, a folha, o bilhete, o documento: a validade delas vem do sinal, não da substância. A marca não descreve, institui.

E Knapp propôs um critério prático para saber se algo é dinheiro: é dinheiro o que o Estado aceita nos seus próprios caixas de recebimento. Se o tesouro recebe a peça em pagamento de imposto, ela é dinheiro; se não recebe, não é — seja de que metal for.

O que isso ilumina na pergunta de Jesus

A pergunta é feita sobre duas coisas, e as duas são exatamente marcas: um rosto e umas letras. Não se pergunta pelo peso da peça, nem pela pureza da prata, nem pela origem do metal. Pergunta-se pelo sinal.

Lido com a distinção de Knapp, o argumento fica nítido. Se a prata valesse por si, o rosto gravado seria enfeite, e ninguém poderia deduzir propriedade dele: a prata seria de quem a tivesse, como um pedaço de pão é de quem o segura. Mas a peça não circula como prata — circula como denário, isto é, como a coisa que o fisco do império recebe, e o que a faz ser isso é a marca pela qual Jesus pergunta. Daí a força de "De César": a resposta não informa quem posou para o gravador, informa quem instituiu aquela peça como dinheiro.

E há uma consequência desconfortável nisso: se a marca institui, quem marca tem poder sobre o que é marcado. É inofensivo com metal, e deixa de ser quando se pergunta o que mais no mundo carrega marca de alguém — pergunta que a sentença seguinte vai levantar sem responder.

O que pesa contra

A tese de Knapp é minoritária na história da economia, e a objeção clássica é simples: se a marca bastasse, nenhuma desvalorização seria possível. Bastaria declarar.

A história romana dá a objeção de presente. Do segundo ao terceiro século, imperadores reduziram progressivamente a prata do denário mantendo o nome e a marca. O resultado não foi a continuidade do valor: foi a alta de preços, o acúmulo das peças antigas e, no fim, a preferência do próprio tesouro por ouro e por cobrança em espécie. A marca sozinha não sustentou nada. O metal importava.

A conclusão razoável é que as duas coisas operavam juntas, com pesos variáveis — e a cena deixa isso visível: a peça era de prata boa, de um império solvente, e o rosto nela era de um governo que tinha exércitos. A marca valia porque havia força atrás dela.

O limite desta leitura

Knapp escreve em 1905, sobre padrão-ouro e bancos centrais, e o objeto dele é o Estado moderno; Roma não entra na discussão, e a aplicação feita aqui é deste comentário, não dele. Mateus, por sua vez, não tem teoria nenhuma sobre o que é dinheiro: tem uma pergunta de seis palavras sobre uma coisa na mão de alguém. A filosofia do dinheiro mostra que essa pergunta é mais profunda do que parece, e não acrescenta conteúdo ao evangelho.

7. Aplicações Práticas

Ler o que está escrito nas coisas que você usa

A aplicação mais direta é também a mais simples de executar e a menos praticada.

O versículo pergunta pela inscrição, e a inscrição é a parte que ninguém lê. Vale para contratos, termos de serviço, apólices, estatutos, letra miúda de financiamento: em todos eles está escrito, com todas as letras, de quem é o que e quem pode o quê — e em todos eles a maioria se contenta com a figura, isto é, com a marca, a reputação e o que o vendedor disse.

A moeda daquele pátio dizia, em latim, que um homem era filho de um deus. Quem não lia latim carregava a afirmação sem saber. Isso continua acontecendo, em outras línguas.

O limite

Este versículo não dá regra sobre dinheiro, sobre consumo nem sobre posse de objetos problemáticos. É uma pergunta dentro de um argumento, e a parte prescritiva do episódio vem depois.

Quem o usar para condenar o uso de bens produzidos por sistemas injustos estará forçando o texto. Quem o usar para tranquilizar consciências estará forçando na direção oposta. O versículo faz uma coisa só: põe um objeto à vista e pergunta de quem é.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Carregar a imagem do imperador violava o segundo mandamento?

A proibição do Decálogo é de fabricar imagem esculpida e de prostrar-se diante dela. Possuir uma moeda estrangeira não é nenhuma das duas coisas, e não há indício de que a lei judaica do período proibisse isso.

Mas a resposta curta esconde uma gradação real: tolerável no bolso, intolerável no santuário e na cidade. Onde exatamente ficava a linha para cada pessoa não é possível decidir.

Por que Jesus perguntou pela inscrição, e não só pela imagem?

O texto não explica, e há duas leituras. Uma sustenta que "imagem e inscrição" é apenas o modo completo de descrever uma moeda cunhada, como se dissesse "frente e verso", sem ênfase na segunda palavra. A outra sustenta que a inscrição é a parte mais pesada, porque carrega as reivindicações religiosas do imperador, e que Jesus põe diante dos adversários não só o rosto que eles toleravam, mas a frase que não podiam aprovar. As duas são defensáveis. O texto garante que ele perguntou pelas duas coisas e recebeu uma resposta só.

De quem era o rosto, exatamente?

Provavelmente de Tibério, que reinava, e cujo denário é o candidato mais citado pelos especialistas. Mas o evangelho não o nomeia, e denários de Augusto continuaram em circulação por muito tempo. Quem afirmar com certeza que era um denário de Tibério está indo além do texto e além do que a numismática permite.

Eles podiam ter se recusado a responder?

Podiam, e teria sido pior: recusar-se a dizer de quem era o rosto, com a moeda na mão e diante da multidão, seria admitir que a resposta os prejudicava — numa disputa pública, o silêncio é confissão. Também poderiam ter tentado dizer "é a imagem de um usurpador", e não tentaram: responderam com o título, "de César", que é reconhecimento de autoridade.

O que a cena diz sobre a soberania de Roma?

Pela regra jurídica que o item 2 apresenta, a moeda corrente é prova de governo aceito. Mas os comentaristas fazem aqui uma distinção importante: o Expositor's Greek Testament observa que a moeda prova governo de fato, e não necessariamente de direito.

A diferença não é acadêmica. Quem lê a cena como reconhecimento de que Roma governava legitimamente está afirmando mais do que o texto. Quem a lê como simples constatação de que Roma governava, de fato, está dentro do que a pergunta estabelece. O versículo seguinte vai usar o fato, não a legitimidade.

Mateus liga esta imagem à imagem de Deus no homem?

Não. Nem Mateus, nem Marcos, nem Lucas: a palavra grega é a mesma que a Bíblia grega usa no relato da criação, mas nenhum dos três faz a ligação por escrito. Leitores antigos fizeram, e isso está examinado no estudo do versículo seguinte.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma pergunta, em Marcos

Marcos 12:16 — "E trouxeram. E perguntou-lhes: De quem é esta imagem, e a inscrição? E eles lhe disseram: De César."

Marcos junta num só versículo a entrega da moeda, a pergunta e a resposta. Mateus divide a cena em dois versículos, e com isso dá à pergunta um lugar próprio. As palavras gregas de "imagem" e "inscrição" são as mesmas nos dois.

E em Lucas

Lucas 20:24 — "Mostrai-me uma moeda; ela tem a imagem e a inscrição de quem? E eles, respondendo, disseram: De César."

Lucas comprime ainda mais: o pedido de moeda e a pergunta vêm na mesma frase. Nos três, as duas coisas gravadas são nomeadas, e nos três a resposta é uma palavra.

A palavra “imagem”, no começo da Bíblia

Gênesis 1:27 — "Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."

Na Bíblia grega, o termo usado aqui é o mesmo deste versículo. É o dado lexical que faz a pergunta sobre o denário tocar, sem dizê-lo, o relato da criação. Mateus não faz a ligação; ela é tratada no estudo do versículo seguinte.

A proibição que torna o rosto um problema

Êxodo 20:4 — "Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra."

O mandamento proíbe fabricar e, no versículo seguinte, prostrar-se. Não proíbe possuir moeda estrangeira — mas é dele que vem o desconforto que explica por que nenhuma autoridade judaica do período punha rosto nas suas peças.

A imagem que um judeu se recusou a adorar

Daniel 3:5 — "Que quando ouvirdes o som da trombeta, do pífano, da cítara, da harpa, do saltério, da flauta, e de todo instrumento musical, vos prostrareis e adorareis a estátua de ouro que o rei Nabucodonosor ergueu."

Daniel 3:18 — "E se não, sabe tu, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a estátua que ergueste."

Na versão grega de Daniel, a "estátua" é designada pela mesma palavra deste versículo. A cena do denário e a cena da planície de Dura usam o mesmo termo para coisas muito diferentes: ali, um objeto de culto obrigatório; aqui, dinheiro de bolso. A distância entre os dois usos é o que mede o problema.

Uma imagem e uma marca, no Apocalipse

Apocalipse 13:15 — "E foi-lhe concedido dar espírito à imagem da besta, para que a imagem da besta também falasse, e fizesse que todos os que não adorassem à imagem da besta fossem mortos."

Apocalipse 13:17 — "E que ninguém possa comprar ou vender, a não ser aquele que tenha a marca ou o nome da besta, ou o número do nome dela."

O último livro do Novo Testamento junta exatamente os três elementos da pergunta do denário: uma imagem, um nome escrito e a possibilidade de comprar e vender. Não há como demonstrar dependência literária entre as passagens, e seria imprudente afirmá-la. O que se pode dizer é que o Apocalipse trata como problema religioso central a combinação de imagem, inscrição e circulação econômica — exatamente o que está na mão de alguém no pátio do templo.

A inscrição que Marcos põe na cruz

Marcos 15:26 — "E a descrição de sua acusação estava acima escrita: O REI DOS JUDEUS."

Marcos usa aqui a mesma palavra de "inscrição" que usou na moeda. Mateus, no lugar correspondente, escreve de outro modo: "Sobre a sua cabeça, puseram por escrito a acusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS" (Mateus 27:37). O eco entre a legenda do imperador e o letreiro do crucificado existe em Marcos e não existe em Mateus.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Ele então lhes perguntou: “De quem é esta imagem e esta inscrição?”

Texto grego (Textus Receptus)

καὶ λέγει αὐτοῖς, Τίνος ἡ εἰκὼν αὕτη καὶ ἡ ἐπιγραφή;

Transliteração

kai legei autois, Tinos hē eikōn hautē kai hē epigraphē?

As diferenças entre as edições

O texto é estável: o Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue) coincide palavra por palavra com as edições críticas modernas. A única variante digna de nota é a de Tischendorf, que acrescenta “Jesus” depois do verbo, explicitando o sujeito que o contexto já dá.

Análise palavra por palavra

καὶ λέγει — kai legei, “e diz”. Presente do indicativo de legō dentro de narrativa passada.

É o presente que os gramáticos chamam de histórico: o escritor passa ao presente para aproximar a cena do leitor, como quem conta um caso. Mateus o usa muito nos diálogos de conflito, e o efeito é de imediatez — a fala acontece agora, na leitura.

O sujeito não está escrito. O grego o dispensa, porque o verbo no singular, depois de um plural (“eles trouxeram”), só pode ter um sujeito possível.

αὐτοῖς — autois, “a eles”, dativo plural. Dirige-se ao grupo, não a quem trouxe a moeda. Quem responderá no versículo seguinte também é o grupo.

Τίνος — Tinos, “de quem”. Pronome interrogativo no genitivo, singular.

Esta é a palavra mais importante da frase, e a posição dela — primeira — é o que o grego faz para dar ênfase. O genitivo é o caso da posse: a pergunta não é “quem é este?”, que pediria o nominativo, nem “a quem pertence?”, que pediria o dativo. É “de quem é isto?”.

A diferença tem consequência. Uma pergunta de identificação (“quem está aqui retratado?”) seria respondida com um nome e terminaria ali. Uma pergunta de posse estabelece um vínculo jurídico entre a marca e um dono — e é esse vínculo que a sentença seguinte vai usar duas vezes.

ἡ εἰκὼν αὕτη — hē eikōn hautē, “esta imagem”.

Eikōn significa imagem, retrato, representação. A raiz é a do verbo eikō, “ser semelhante, parecer-se com”, e disso vem o traço decisivo: a palavra não designa qualquer figura, mas uma figura que se parece com um original. Uma palma, uma âncora não seriam eikōn; o rosto de um homem é. No grego comum ela servia ao retrato pintado, à estátua, ao reflexo no espelho e à efígie em moeda — este último uso é frequente em documentos, e é tecnicamente o correto aqui.

Na Bíblia grega a palavra tem dois empregos que não se encontram. No primeiro, é a palavra do relato da criação: o homem é feito kat’ eikona, “conforme a imagem” de Deus, em Gênesis 1:26-27, e a expressão volta em Gênesis 5:1 e 9:6. No segundo, é a palavra da estátua de culto: é eikōn a figura de ouro que Nabucodonosor ergue em Daniel 3, e que três judeus se recusam a adorar sob pena de morte.

No Novo Testamento, as cerca de vinte ocorrências se dividem em três grupos: o uso material, que é o deste versículo e dos paralelos; o cristológico, em Colossenses 1:15 e Romanos 8:29; e o negativo do Apocalipse, onde a imagem da besta é objeto de adoração forçada.

Que o mesmo substantivo cubra o retrato de Tibério e a marca de Deus no ser humano é fato da língua, não construção de comentarista. O que se faz com esse fato é a questão do versículo 21, onde ele é tratado.

O demonstrativo

Hautē, “esta”, é demonstrativo de proximidade, posposto ao substantivo. Ele exige que o objeto esteja presente e visível: sem a moeda na cena, a frase não se sustenta gramaticalmente. E ele não acompanha “inscrição” — o grego diz “esta imagem e a inscrição”, com um só demonstrativo, porque as duas coisas estão no mesmo objeto.

ἡ ἐπιγραφή — hē epigraphē, “a inscrição”.

Composto transparente: epi (“sobre”) mais graphē (“escrita”, da raiz de graphō, escrever). Literalmente, “o escrito por cima” — as letras gravadas na superfície.

No grego dos documentos, epigraphē é o termo técnico para a inscrição em pedra, em estátua, em marco, em moeda. Dele vem a palavra portuguesa “epígrafe”.

No Novo Testamento, a palavra aparece em cinco lugares, e todos eles são destes dois tipos. Três são as cenas do denário nos primeiros evangelhos. Os outros dois estão em Marcos e em Lucas, para o letreiro afixado na cruz. Em Mateus, portanto, a palavra ocorre uma única vez: aqui.

Sobre a tradução: “sobrescrito”, que figura em versões antigas, traduz o grego ao pé da letra e não comunica nada em português moderno — a Cambridge Bible e Ellicott já pediam, no século XIX, que se traduzisse por “inscrição”.

Os dois artigos, e a ausência de verbo

Dois detalhes gramaticais fecham a análise. O grego repete o artigo definido — “a imagem esta e a inscrição” —, e o artigo repetido diante do segundo termo de um par tende a apresentar os dois como coisas distintas, não como bloco único. A regra não é absoluta e o peso que se pode pôr nela é discutido, mas a alternativa de um artigo só para os dois substantivos existia e não foi usada.

E a pergunta não tem verbo: literalmente, “de quem a imagem esta e a inscrição?”. O verbo “ser” é dispensado, como é normal em grego. O resultado, no original, é uma pergunta de seis palavras, sem ação nenhuma dentro dela — aponta-se para um objeto e pergunta-se de quem é.

11. Conclusão

Quatro conclusões se tiram do que foi examinado.

A primeira é que a pergunta não é de identificação, é de propriedade. O grego põe "de quem" em primeiro lugar e no caso da posse; ninguém na cena duvidava de quem era o rosto. O que se estabelece aqui, portanto, não é um nome: é a regra de que a marca gravada numa coisa indica a quem ela pertence. Essa regra não é discutida por nenhuma das partes, e é sobre ela que a sentença seguinte vai se apoiar inteira.

A segunda é que a metade esquecida da pergunta é a mais grave. Um denário do período declarava, em latim, que o imperador era filho de um deus e sumo sacerdote de um culto estrangeiro. O rosto incomodava o mandamento sobre imagens; as letras incomodavam o mandamento anterior a ele. Jesus pergunta pelas duas coisas, e o grego as mantém separadas com dois artigos — mas a resposta que vem é uma palavra só.

A terceira é sobre o que o texto não diz e a história diz. Mateus não nomeia o imperador, não descreve a peça, não informa a legenda e não comenta o incômodo. Tudo o que torna este versículo pesado precisa ser trazido de fora dele.

A quarta é sobre a palavra escolhida para "imagem": é a mesma com que a Bíblia grega diz que o homem foi feito à imagem de Deus, e a mesma com que designa a estátua que três judeus preferiram a fornalha a adorar. Mateus não tira consequência disso, e seria desonesto fazê-lo tirar. A porta fica aberta, e quem a empurrou foi o leitor antigo, não o evangelista.

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Mateus 22:20

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