Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei;
1. Introdução
Jesus continua a desmontar, uma a uma, as fórmulas evasivas de juramento do seu tempo. Depois do céu, vêm a terra e Jerusalém: não jureis "nem pela terra, porque é o suporte de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei". O raciocínio é o mesmo do versículo anterior — não existe objeto de juramento que esteja fora do alcance de Deus, porque tudo, no fim, pertence a ele e o envolve.
O ensino fecha o cerco à astúcia religiosa. Quem jurava pela terra ou pela cidade santa imaginava ter encontrado uma fórmula "menor", que impressionava sem comprometer diretamente com o nome divino. Jesus mostra que a saída não existe: a terra é o escabelo dos pés de Deus, e Jerusalém é a cidade do grande Rei. Jurar por elas é, ainda assim, jurar por Deus.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como no versículo anterior, o pano de fundo é o costume de jurar por coisas diversas para evitar pronunciar o nome de Deus e, ao mesmo tempo, dar peso à palavra. Havia toda uma gradação de juramentos, e alguns eram considerados menos obrigatórios conforme aquilo por que se jurava. Jurar pela terra ou por Jerusalém parecia uma alternativa reverente e, para os mais astutos, uma forma de comprometer-se menos. Jesus expõe a falha desse cálculo.
As imagens que ele usa vêm do Antigo Testamento. A terra como "escabelo dos pés" de Deus ecoa Isaías 66:1, onde o Senhor declara: "O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés". E Jerusalém como "cidade do grande Rei" ecoa o Salmo 48:2, que assim descreve a cidade. Ao invocar essas imagens, Jesus lembra ao ouvinte que a terra e a cidade santa não são coisas neutras: pertencem a Deus, estão ligadas à sua presença e ao seu reinado. Não há, portanto, como usá-las num juramento e depois alegar que Deus ficou de fora. A crítica, mais uma vez, mira a desonestidade dos juramentos evasivos, e não a reverência sincera.
3. Análise Teológica do Versículo
"Nem pela terra, porque é o suporte de seus pés"
Nesta frase, Jesus realça a sacralidade e a importância da terra na criação de Deus. A terra chamada de "escabelo" de Deus é uma metáfora que sublinha a sua soberania e majestade. Essa imagem tem raízes no Antigo Testamento, como em Isaías 66:1, em que Deus declara: "O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés". Isso indica que a terra está sob o domínio de Deus e não deve ser usada de forma leviana nos juramentos. No contexto cultural da época, a terra era vista como parte significativa da criação de Deus, merecedora de respeito. A frase reforça ainda que toda a criação está sob a autoridade de Deus, e por isso invocá-la em juramentos é impróprio.
"Nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei"
Jerusalém ocupa lugar central na história e na profecia bíblicas. É muitas vezes chamada "cidade do grande Rei", o que pode ser lido como referência tanto ao rei Davi, que estabeleceu Jerusalém como capital de Israel, quanto ao próprio Deus, o Rei supremo. O Salmo 48:2 descreve Jerusalém como "a cidade do grande Rei", ressaltando a sua importância espiritual e histórica. No tempo de Jesus, Jerusalém era o centro do culto judaico e o lugar do Templo, foco da vida religiosa. Ao referir-se a Jerusalém desse modo, Jesus recorda o seu caráter sagrado e a impropriedade de usá-la em juramentos. A frase aponta ainda para a expectativa messiânica de um Rei futuro, que a fé cristã reconhece cumprida em Cristo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus Cristo — quem pronuncia o ensino, no Sermão do Monte, dando continuidade à sua palavra sobre os juramentos.
O grande Rei — título que se refere a Deus, o que realça a sua autoridade suprema e o seu reinado sobre toda a criação, inclusive Jerusalém.
Lugares
A terra — descrita como o escabelo dos pés de Deus, o que ressalta a sua soberania e a sacralidade da criação.
Jerusalém — a "cidade do grande Rei", de grande importância religiosa e histórica, centro do culto judaico e lugar do Templo.
Eventos
O Sermão do Monte — o discurso em que Jesus continua a expor a ética do Reino, marcada pela honestidade e pela integridade.
5. Pontos de Ensino
Reverência pela criação de Deus
Reconhecer a terra como o escabelo dos pés de Deus convida a um cuidado respeitoso e responsável com a criação.
Compreender a soberania de Deus
Admitir a autoridade suprema de Deus sobre todas as coisas, inclusive a terra e Jerusalém, inspira confiança e obediência ao seu plano.
O significado espiritual de Jerusalém
Apreciar a importância histórica e espiritual de Jerusalém como foco da história redentora de Deus e símbolo do seu reino eterno.
Evitar juramentos apressados
O ensino de Jesus desestimula jurar por coisas criadas, lembrando que o "sim" deve ser sim e o "não", não, o que promove honestidade e integridade na fala.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo completa uma demonstração que Jesus vinha fazendo passo a passo, quase como um argumento lógico. Se cada objeto por que se jura — o céu, a terra, Jerusalém — pertence a Deus e o envolve, então a tentativa de encontrar um juramento "neutro" está condenada desde o início. Não há elemento da criação que se possa isolar de Deus para usá-lo como garantia inofensiva. A conclusão é inevitável: todo juramento, examinado até o fim, é um juramento por Deus.
Por trás disso está uma afirmação profunda sobre a realidade: nada é autônomo, nada existe por si, à parte de Deus. A terra é o seu escabelo, a cidade é sua. Essa visão retira o chão da manipulação religiosa, que sempre busca um espaço sagrado "de segunda categoria", útil para impressionar sem obrigar. Jesus fecha esse espaço. E, ao fechá-lo, redireciona a questão: o problema nunca foi por que jurar, mas por que precisamos jurar. A resposta a que ele conduz é a integridade — uma palavra tão verdadeira que dispensa qualquer objeto como fiador. Vale reafirmar, para não distorcer o texto, que o alvo é a evasão desonesta, e não a reverência ou a solenidade sincera; sobre isso o grau de certeza é alto.
7. Aplicações Práticas
Renunciar às fórmulas que enganam. Jurar por coisas "menores" para impressionar sem comprometer é o alvo de Jesus. Vale abandonar toda astúcia que use o sagrado para dar peso falso à palavra.
Reconhecer que tudo é de Deus. Terra e cidade pertencem a ele. Viver com essa consciência retira a ilusão de que exista algum terreno neutro onde a verdade possa afrouxar.
Cuidar da criação com reverência. Se a terra é o escabelo dos pés de Deus, tratá-la com respeito e responsabilidade é uma forma concreta de honrar o seu Dono.
Deixar o "sim" bastar. O ensino conduz sempre ao mesmo ponto: uma palavra confiável não precisa de reforço. Cultivar essa confiabilidade é o objetivo prático.
Honrar o que é sagrado. Não usar o nome de Deus, nem coisas ligadas a ele, para interesses próprios preserva a reverência que lhes é devida.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Como entender a terra como o escabelo dos pés de Deus influencia a sua visão sobre o cuidado com a criação?
Se a terra está sob os pés de Deus, ela não é uma coisa qualquer nem propriedade nossa para desperdiçar. Vê-la assim desperta um cuidado reverente: tratar bem a criação é respeitar o seu Dono, e não apenas gerir um recurso.
2. De que modos reconhecer a soberania de Deus sobre Jerusalém e sobre a terra afeta a sua confiança e obediência diárias?
Saber que tudo pertence a Deus e está sob o seu reinado dá firmeza para confiar no seu plano e obedecer com serenidade. Se nem a terra nem a cidade santa escapam ao seu domínio, também a nossa vida está segura nas suas mãos.
3. Como a importância histórica e espiritual de Jerusalém enriquece a sua compreensão do plano redentor de Deus?
Jerusalém foi o centro do culto, palco de promessas e da própria obra de Cristo, e imagem do reino eterno de Deus. Vê-la como "cidade do grande Rei" liga a história passada à esperança futura, mostrando que o plano de Deus tem um alvo e uma direção.
4. Que passos práticos você pode dar para que a sua fala reflita honestidade e integridade, conforme o ensino de Jesus sobre os juramentos?
Falando a verdade sem reforços artificiais, cumprindo o que promete, abandonando fórmulas que criem falsas impressões e assumindo apenas o que pode honrar. A cada palavra cumprida, a confiança se consolida e a jura se torna dispensável.
5. Como as ligações entre Mateus 5:35 e textos como Isaías 66:1 e Salmo 48:2 aprofundam a sua compreensão da majestade e da autoridade de Deus?
Isaías mostra a terra como escabelo de Deus e o Salmo apresenta Jerusalém como a cidade do grande Rei. Juntos, revelam um Deus soberano sobre a criação e a história, diante de quem nada é neutro — nem mesmo a nossa palavra, que por isso deve ser sempre verdadeira.
9. Conexão com Outros Textos
"Assim diz o SENHOR: Os céus são meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés..." (Isaías 66:1)
A fonte direta da imagem da terra como escabelo de Deus. Por isso jurar por ela não escapa de envolver o próprio Deus.
"Belo de se ver e alegria de toda a terra é o monte de Sião, nas terras do norte; a cidade do grande Rei." (Salmo 48:2)
A origem do título "cidade do grande Rei" aplicado a Jerusalém, que Jesus retoma para mostrar que ela pertence a Deus.
"E quem jurar pelo Céu, jura pelo trono de Deus, e por aquele que sobre ele está sentado." (Mateus 23:22)
O próprio Jesus, em outro momento, explica a lógica destes versículos: quem jura por algo ligado a Deus não escapa de jurar por Deus.
"Exaltai ao SENHOR nosso Deus, e prostrai-vos perante o suporte dos seus pés, porque ele é santo." (Salmo 99:5)
Reforça a imagem do escabelo como lugar ligado à santidade de Deus, digno de reverência, e não de uso leviano.
"Mas vós chegastes ao monte Sião, à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos." (Hebreus 12:22)
Amplia o sentido de Jerusalém para além da cidade terrena, apontando para a Jerusalém celestial, a cidade definitiva do grande Rei.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: nem pela terra, porque é o estrado dos seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei.
Texto grego: μήτε ἐν τῇ γῇ, ὅτι ὑποπόδιόν ἐστι τῶν ποδῶν αὐτοῦ· μήτε εἰς Ἱεροσόλυμα, ὅτι πόλις ἐστὶ τοῦ μεγάλου βασιλέως·
Transliteração: mḗte en têi gêi, hóti hypopódión esti tôn podôn autoû; mḗte eis Hierosólyma, hóti pólis estì toû megálou basiléōs.
Análise palavra por palavra:
mḗte en têi gêi (μήτε ἐν τῇ γῇ) — "nem pela terra": mḗte, "nem", continua a lista iniciada no versículo anterior; en têi gêi, "pela terra". É o segundo objeto de juramento que Jesus desqualifica.
hypopódión tôn podôn autoû (ὑποπόδιόν τῶν ποδῶν αὐτοῦ) — "o escabelo dos seus pés": hypopódion é literalmente aquilo que fica "sob os pés", o banquinho onde um rei apoia os pés ao sentar-se no trono. A imagem é de domínio: a terra inteira está sob os pés de Deus. Nossa tradução diz "suporte de seus pés"; o sentido é o mesmo do escabelo real.
mḗte eis Hierosólyma (μήτε εἰς Ἱεροσόλυμα) — "nem por Jerusalém": o terceiro objeto. Note-se a mudança de preposição (eis, "para/por"), um traço do costume de jurar "em direção a" Jerusalém, voltando-se para a cidade santa.
pólis toû megálou basiléōs (πόλις τοῦ μεγάλου βασιλέως) — "a cidade do grande Rei": pólis, "cidade"; megálou basiléōs, "do grande Rei". O título vem do Salmo 48:2. O "grande Rei" é, em última instância, Deus — de novo, o objeto do juramento remete a ele.
Nota teológica: os três exemplos — céu, terra, Jerusalém — formam um argumento único e crescente. Cada suposto juramento "neutro" é desmontado pela mesma razão: aquilo por que se jura pertence a Deus e o envolve. O céu é o seu trono, a terra o seu escabelo, a cidade é do grande Rei. Não sobra nenhum canto da realidade fora do seu alcance, e portanto não existe a fórmula "segura" que a casuística procurava. A conclusão para onde Jesus conduz — que virá logo depois, no "seja o vosso falar: sim, sim; não, não" — é que o problema não é escolher bem o objeto do juramento, mas viver com uma verdade que não precise de nenhum. O grau de certeza sobre esse alvo é alto: a crítica é à evasão, não à reverência.
11. Conclusão
Mateus 5:35 completa o argumento que Jesus vinha construindo contra os juramentos evasivos. Depois do céu, ele desqualifica a terra e Jerusalém pela mesma razão: tudo pertence a Deus. A terra é o escabelo dos seus pés, a cidade santa é a cidade do grande Rei. Não há objeto neutro por onde jurar, porque não há canto da realidade fora do alcance de Deus.
Com isso, cai por terra a astúcia religiosa que buscava uma fórmula para parecer honesto sem se comprometer. O ensino não condena a reverência sincera, mas a mentira disfarçada de piedade — e conduz o ouvinte a uma conclusão libertadora: quem vive na verdade não precisa de juramentos. Basta que o seu sim seja sim. Toda a criação, do céu à cidade santa, testemunha a favor de um só chamado: falar diante de Deus como quem sabe que tudo é dele.













