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Gênesis 49:24

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 46 acessos
mas o seu arco permaneceu firme, e os seus braços foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó — pelo nome do Pastor, a Rocha de Israel —
Mãos de um arqueiro segurando um arco retesado, com a luz vinda de trás, num campo de pedras da região montanhosa de Canaã.

Estudo


mas o seu arco permaneceu firme, e os seus braços foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó — pelo nome do Pastor, a Rocha de Israel —

1. Introdução

Este é o versículo em que o oráculo de José responde ao ataque — e a resposta não é a que se espera.

Não há revide. O arco de José se mantém firme, os braços dele ficam fortes, e o versículo imediatamente credita essa firmeza a outro: as mãos que sustentaram José são as mãos do Poderoso de Jacó. A frase que descreve resistência termina tirando o mérito de quem resistiu.

Depois disso vem a parte mais densa do capítulo em matéria de linguagem sobre Deus. Em meia linha, três designações se acumulam: o Poderoso de Jacó, o Pastor, a Rocha de Israel. Nenhuma delas é o nome próprio de Deus, e todas são maneiras de dizer quem ele é para alguém.

Há ainda um ponto de tradução que o leitor precisa conhecer: onde a nossa versão traz "Rocha de Israel", o hebraico diz literalmente pedra de Israel. A troca é defensável e quase universal nas traduções, mas é uma troca.

Os itens seguintes tratam de quais desses títulos têm paralelo fora da Bíblia e onde (item 2), do que a acumulação de nomes faz dentro do oráculo (item 3), e das dificuldades do hebraico, que neste versículo são várias (item 10).

2. Contexto Histórico e Cultural

A pergunta deste item

Três designações de Deus se acumulam aqui. A pergunta que este item responde é simples e verificável: alguma delas aparece fora da Bíblia? Onde, em quê, e com que grau de segurança se pode dizer isso?

A resposta é diferente para cada uma, e é útil separá-las.

"O Poderoso de Jacó" — e a suspeita do touro

A palavra traduzida por "Poderoso" tem uma particularidade que os copistas judeus deixaram registrada no próprio texto.

Em hebraico há duas formas quase iguais. Uma delas, com uma consoante reforçada na pronúncia, significa "touro", "garanhão", "o forte" no sentido do animal grande — e aparece dezessete vezes na Bíblia, sempre em contexto comum: touros de Basã, cavalos, os fortes do povo. A outra, sem esse reforço, aparece seis vezes, e as seis são designações de Deus: "o Poderoso de Jacó", "o Poderoso de Israel".

A separação é exata demais para ser acaso. Os massoretas — os copistas que fixaram a pronúncia do texto hebraico entre os séculos VI e X — marcaram uma diferença mínima de som para impedir que o título divino se confundisse com a palavra do touro.

Daí vem a hipótese que corre entre hebraístas: a de que a forma antiga seria a mesma, e que o título teria sido, na origem, "o Touro de Jacó". Ela não é demonstrável — a vocalização do texto é muito posterior às consoantes, e sobre a pronúncia original não há registro. Mas ela tem um apoio de fora.

Nos textos poéticos achados em Ugarite (cidade da costa da Síria, destruída por volta de 1200 a.C., cujos tabletes trouxeram a mitologia cananeia em primeira mão), o deus supremo El recebe com frequência o epíteto de "Touro". Ali a palavra é comum, e ninguém a lê como insulto: o touro é o animal da força e da fecundidade, e chamar um deus assim é elogio corrente na região.

Registre-se o que isso permite e o que não permite afirmar. Permite dizer que a imagem do touro aplicada a divindade era conhecida no ambiente cultural de Canaã, e que essa é a razão pela qual a hipótese sobre a forma antiga do título é levada a sério. Não permite afirmar que o Gênesis chamou Deus de touro: o texto hebraico que temos não diz isso, e a separação feita pelos copistas é justamente o contrário disso.

"O Pastor"

Este título é o mais amplamente atestado dos três fora da Bíblia, e ele já foi tratado neste comentário: o estudo de Gênesis 48:15 reúne o material — o rei mesopotâmico que se apresenta como pastor do povo, as divindades assim chamadas em hinos, e o cajado curvo que o faraó segura. Não há por que repetir aqui.

O que pertence a este versículo é outra coisa, e é um detalhe pequeno com consequência. Em Gênesis 48:15 a palavra é verbo: Deus é "aquele que me pastoreia". Aqui ela é substantivo isolado, precedido de artigo: o Pastor. A distância entre as duas construções é de nove versículos, e é a distância entre descrever uma ação e dar um nome.

"A Rocha de Israel" — que no hebraico é "pedra"

Aqui a resposta se divide em duas, porque as duas palavras têm sortes diferentes.

A palavra que a Bíblia usa normalmente para Deus como rocha aparece dezenas de vezes, sobretudo em Deuteronômio 32 e nos salmos, e ela tem sinal claro de uso corrente entre israelitas: entra na formação de nomes de pessoa. Números 1 e 2 trazem Elizur ("meu Deus é rocha"), Zurisadai ("minha rocha é Sadai") e Pedazur ("a rocha resgatou"), todos como nomes de chefes de tribo.

E o elemento não é exclusivo de Israel. Obras de referência registram um nome sabeu — do sul da Arábia — formado com o mesmo elemento, e um nome com a partícula aramaica de filiação mais "rocha" numa inscrição de Zincirli, na atual Turquia, atribuída ao século VIII a.C. Convém tratar esses dois dados com a cautela devida: são leituras de inscrições e nomes próprios, com margem de discussão. Tomados em conjunto, porém, apontam para o mesmo lado — chamar a divindade de rocha era uso do noroeste semítico, e não invenção israelita.

A outra palavra é a que está de fato neste versículo, e com ela a resposta é negativa. O hebraico daqui diz pedra de Israel, e essa expressão não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia nem tem paralelo conhecido como título de divindade fora dela. É um caso único.

Duas explicações circulam. Uma diz que a expressão é antiga e ficou isolada porque caiu de uso. Outra diz que o texto se corrompeu na transmissão, e que ali estaria originalmente a palavra corrente para rocha. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) considera o trecho provavelmente corrompido. Não há como decidir, e é honesto dizer ao leitor que a tradução "Rocha", que a nossa versão adota junto com quase todas as outras, resolve por suavização um problema que continua de pé.

O que fica

Somando: o "Pastor" tem paralelo abundante em toda a região; a "rocha" tem paralelo no vocabulário religioso do noroeste semítico e nos nomes de pessoa; o "Poderoso" tem um parentesco discutido com o touro divino de Canaã; e a "pedra" não tem paralelo nenhum. Três títulos que o mundo ao redor reconheceria, e um que ninguém mais usou.

3. Análise Teológica do Versículo

"mas o seu arco permaneceu firme"

A resposta ao ataque do versículo anterior vem em cinco palavras, e a primeira coisa a notar é o que ela não contém.

Não há contra-ataque. Não se diz que José atirou de volta, nem que os arqueiros foram atingidos, nem que houve troco. O que se diz é que o arco dele continuou firme. A resposta ao ataque é a permanência do atacado.

A palavra escolhida para essa firmeza merece atenção, porque ela não é a palavra comum de força. Em hebraico, esse adjetivo se usa do curso de água que corre o ano inteiro sem secar — o riacho perene, em oposição ao leito que só tem água depois da chuva. É a mesma ideia de permanência que o versículo 22 pôs na imagem da fonte, agora aplicada a um homem sob ataque.

Vale medir o efeito disso. Um arco "firme" pode ser um arco forte; um arco que é como o riacho que não seca é um arco que não desiste com o tempo. A qualidade em jogo não é potência, é duração.

"e os seus braços foram fortalecidos"

Esta frase tem um problema de tradução que vale expor, porque as versões divergem e a maioria dos leitores nunca soube.

O verbo hebraico aparece pouquíssimas vezes na Bíblia e a sua raiz é a do ouro fino, do ouro refinado. Traduzir por "foram fortalecidos" é uma leitura possível. Outra, defendida por comentaristas ingleses do século XIX e adotada em várias traduções modernas, é "tornaram-se ágeis, flexíveis" — a qualidade do braço do arqueiro, que precisa ser solto e não rígido. E há ainda quem leia "foram revestidos de ouro", tomando a raiz no sentido literal.

A diferença não é decorativa. Na primeira leitura, o que Deus dá a José é força. Na segunda, é destreza. Na terceira, é honra. Não é possível decidir, e este comentário não decide; registre-se apenas que a leitura da agilidade é a que melhor combina com a imagem do arco, porque quem atira precisa de braço solto, e não de braço duro.

"pelas mãos do Poderoso de Jacó"

Aqui está o ponto central do versículo, e ele é feito com uma repetição de palavra que a tradução conserva: os braços das mãos de José foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó.

Mãos de um lado, mãos do outro. A construção estabelece a origem da força num lugar fora do sujeito, e o faz sem qualquer suavização: não se diz que Deus ajudou José, nem que o abençoou, nem que esteve com ele. Diz-se que as mãos dele foram fortalecidas pelas mãos de outro.

Esse é o modo do poema de responder a uma pergunta que o Gênesis vinha deixando em aberto havia dez capítulos. José se saiu bem na casa de Potifar, na prisão e no palácio; o livro atribuiu isso, em Gênesis 39:2-3 e 39:21-23, à presença do SENHOR com ele. Aqui, no leito de morte, o pai diz a mesma coisa em linguagem poética e mais forte: não é presença, é mão.

Note-se ainda de quem é essa mão. Não é "o Poderoso de José": é o Poderoso de Jacó. O pai credita a força do filho ao Deus que ele próprio conheceu, e não a um Deus que José teria encontrado no Egito. É reivindicação de continuidade, feita por um homem que está morrendo em terra estrangeira.

"pelo nome do Pastor, a Rocha de Israel"

A frase é a mais difícil do versículo em hebraico — o item 10 mostra por quê — e é a mais carregada em conteúdo.

Três observações se sustentam sobre ela.

A primeira é a acumulação. Em meia linha, Deus recebe três designações seguidas. Nenhum outro versículo do Gênesis faz isso. É preciso resistir à leitura devocional fácil, que trata o acúmulo como entusiasmo de um velho; ele pode ser isso, e o texto não diz. O que se pode registrar é o efeito: um homem que vai morrer nomeia Deus três vezes de três maneiras diferentes, e nenhuma delas é o nome próprio dele.

A segunda é a escolha dos dois nomes do próprio Jacó. Repare que os títulos não usam o mesmo nome: é o Poderoso de Jacó e a Rocha de Israel. Os dois nomes pertencem ao homem que está falando — o de nascimento e o recebido em Gênesis 32:28. Ele se refere a si mesmo de duas maneiras dentro da mesma frase, e nas duas ele aparece como o povo que virá dele, não como indivíduo.

A terceira é a diferença entre pastor e pedra. São imagens de naturezas opostas. Pastor é quem conduz, decide o caminho, procura pasto e responde pelo que se perde — imagem de movimento e de cuidado. Pedra é o que não sai do lugar. Uma diz que Deus vai à frente; a outra, que ele não se move. Postas lado a lado, sem ligação explicativa, as duas dizem coisas que só se sustentam juntas: quem conduz precisa ser confiável, e quem é firme precisa ir junto para servir de alguma coisa.

O Gênesis não faz essa síntese. Ele põe os dois nomes um ao lado do outro e segue. A síntese é do leitor, e é honesto apresentá-la assim.

De quem se está falando: de Deus ou de José?

Há uma leitura minoritária que precisa ser registrada, porque o hebraico a admite.

A expressão traduzida por "pelo nome do Pastor, a Rocha de Israel" começa, em hebraico, com uma palavra que significa "dali", ou "de lá". Alguns comentaristas — Benson (Joseph Benson, pregador metodista inglês do século XVIII) e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) entre eles — entenderam que o sujeito muda ali: seria José quem se torna, dali em diante, o pastor e a pedra de Israel, no sentido de que foi ele quem alimentou e sustentou a família na fome.

A leitura tem a seu favor a palavra "dali", que sugere transição, e o fato de que o Gênesis realmente descreve José alimentando a casa do pai. Tem contra si o resto do versículo, que acabou de atribuir a força de José a Deus, e o versículo seguinte, que continua falando de Deus.

A maioria dos comentaristas entende que os três títulos são de Deus, e este estudo segue essa leitura no restante da análise. Mas o hebraico deste trecho é reconhecidamente difícil, e a leitura alternativa não pode ser descartada como leitura de fantasia — ela responde a um problema real do texto.

O que a resposta ao ataque não é

Vale fechar com o que o versículo evita.

Não há vitória descrita, não há inimigo derrotado, não há restituição. José aparece de pé com o arco na mão, e o crédito por isso vai para outro. Um oráculo que quisesse consolar poderia dizer que os agressores pagaram; um oráculo que quisesse exaltar poderia dizer que José venceu. Este diz que ele permaneceu, e que a permanência não foi obra dele.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O Poderoso de Jacó

Designação de Deus, e não de pessoa. Aparece aqui pela primeira vez na Bíblia e reaparece cinco vezes: no Salmo 132:2 e 132:5, na promessa de Davi de achar lugar para o SENHOR; e em Isaías 1:24, 49:26 e 60:16, onde a forma é "o Poderoso de Israel" ou "o teu Poderoso".

Note-se onde essas ocorrências se concentram: todas são poesia, todas são de contexto de força e de resgate, e nenhuma é de prosa narrativa.

O Pastor

Também designação de Deus. Aqui ela aparece como substantivo com artigo; nove versículos antes, em Gênesis 48:15, Jacó havia usado a mesma raiz como verbo, dizendo que Deus o pastoreou a vida inteira. O material sobre essa imagem está naquele estudo.

A Rocha — no hebraico, a Pedra — de Israel

Terceira designação, e a única sem paralelo. A expressão exata do hebraico não volta a aparecer em nenhum lugar da Bíblia.

A expressão equivalente com a palavra corrente para rocha, essa sim, tem história. Ela é usada de Deus em 2 Samuel 23:3, nas últimas palavras de Davi, e domina o poema de Deuteronômio 32, onde reaparece nos versículos 4, 15, 18, 30 e 31 — inclusive na frase que compara "a rocha deles" com "a nossa Rocha".

Jacó e Israel, na mesma frase

Os dois nomes do homem que está falando aparecem aqui como qualificação de Deus. "Jacó" é o nome de nascimento, explicado em Gênesis 25:26; "Israel" é o nome recebido na luta noturna de Gênesis 32:28 e reafirmado em Gênesis 35:10. O uso dos dois na mesma linha é traço da poesia hebraica, e este versículo mostra a alternância já funcionando como recurso.

José

Continua sendo o objeto do oráculo, e continua sem falar. Vale registrar que este versículo é o único do bloco em que ele aparece fazendo alguma coisa — segurando um arco — e que mesmo aí a ação verdadeira é de outro.

Um acontecimento pressuposto: os anos do Egito

O versículo credita a firmeza de José a Deus, e o leitor que chega aqui pelo livro inteiro sabe a que período isso se aplica: os treze anos entre a venda e a soltura, contados em Gênesis 37 a 41. Este versículo é a versão poética do que o Gênesis 39:2, 39:21 e 39:23 já haviam dito em prosa, agora na boca do pai.

5. Pontos de Ensino

1. A resposta ao ataque é permanência, não revanche

Depois de três verbos de agressão no versículo anterior, o oráculo não anuncia castigo para ninguém. Anuncia que o arco continuou firme. É uma escolha do texto, e ela desautoriza usar este trecho como promessa de troco.

2. A firmeza descrita é de duração, não de potência

A palavra empregada é a do curso de água que não seca no verão. O que se elogia em José não é a força de um momento: é o que continuou funcionando depois de muitos anos de pressão.

3. O crédito da resistência vai para fora do sujeito

A frase é construída para isso: mãos fortalecidas por mãos. O versículo poderia ter dito que José era forte. Disse que ele foi fortalecido, e nomeou por quem.

4. Jacó reivindica o Deus dele para a história do filho

O título é "o Poderoso de Jacó", e não "o Poderoso de José". O pai não está reconhecendo que o filho encontrou Deus no Egito: está dizendo que foi o mesmo Deus, o dele, quem esteve lá.

5. Deus é nomeado por relação, e não por definição

Nenhum dos três títulos descreve Deus em si mesmo. Todos dizem o que ele é para alguém. E as imagens não coincidem: pastor é movimento e cuidado, pedra é imobilidade. Postas lado a lado sem explicação, elas se corrigem — conduzir sem firmeza não sustenta, e firmeza sem condução não leva a lugar nenhum.

6. Traduções conservadoras às vezes escondem um problema

Onde se lê "Rocha", o hebraico diz "pedra", e essa expressão não existe em mais nenhum lugar. A tradução usual é razoável, mas ela dá ao leitor uma frase mais tranquila do que a original.

6. Aspectos Filosóficos

Este versículo põe, sem discutir, uma das perguntas mais difíceis que existem sobre uma vida bem-sucedida: de quem é o mérito?

José resistiu. Isso é fato dentro da história: ele não se quebrou na cisterna, não se quebrou na casa de Potifar, não se quebrou na prisão. Um relato que quisesse elogiá-lo teria material de sobra. O poema, em vez disso, descreve a resistência e imediatamente a atribui a mãos que não são as dele.

Há duas maneiras ruins de lidar com isso. Uma é fingir que a pessoa não fez nada, o que é falso e apaga o esforço real de quem aguentou. A outra é fingir que fez tudo, o que também é falso, porque ninguém escolhe a própria constituição, o próprio tempo, as pessoas que apareceram na hora certa nem a saúde que permitiu continuar.

O que a frase deste versículo faz é mais interessante do que qualquer das duas: ela mantém as duas coisas na mesma linha. Os braços são de José e a força que os move vem de fora. Nenhuma das duas partes é apagada para que a outra caiba.

Vale reparar no que isso produz na prática, e é uma consequência que se pode observar sem nenhum compromisso religioso. Quem se atribui tudo tende a desabar quando falha, porque não sobra explicação. Quem não se atribui nada tende a não tentar. A posição do versículo — trabalhei, e não foi só meu — é a única das três que sobrevive tanto ao êxito quanto ao fracasso.

7. Aplicações Práticas

Resistir não é o mesmo que vencer, e o texto não confunde os dois

A aplicação mais direta deste versículo vem do que ele oferece como desfecho. Não há derrota dos agressores, não há reparação, não há justiça feita. Há um homem ainda de pé.

Isso importa porque boa parte do sofrimento real não termina em desfecho: termina em continuar. Quem passou por perseguição no trabalho, por processo injusto, por doença longa ou por hostilidade dentro de casa raramente ganha uma cena de vitória. O que se pode ter é a firmeza que dura mais que o ataque — e este versículo trata isso como resultado suficiente para ser dito num testamento.

Duração vale mais que intensidade

A palavra da firmeza é a do riacho que não seca. Em quase tudo o que importa — trabalho, estudo, tratamento, relação —, o que decide não é o pico de esforço, é o que se mantém quando o entusiasmo acaba. A pergunta útil, diante de qualquer compromisso novo, é a do verão: isto continua funcionando no mês em que eu não estiver com vontade nenhuma?

Saber a quem creditar

O versículo credita a resistência de José a mãos que não são dele. Para quem tem fé, esse é o ponto teológico do trecho. Mas há uma versão do princípio que serve a qualquer leitor: fazer o inventário honesto do que, na própria história, não foi mérito — quem ensinou, quem emprestou, quem ficou, o que simplesmente calhou. Reconhecê-lo não diminui o que se fez; corrige a conta.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Jacó usa três nomes para Deus num espaço tão curto?

O texto não explica. Registre-se apenas que o acúmulo é único no Gênesis e que os três nomes não são sinônimos: um fala de força, um de condução, um de firmeza. Quem quiser ver aí a linguagem de um homem à beira da morte pode fazê-lo, mas como leitura, e não como conteúdo do versículo.

"Rocha de Israel" está errado na minha Bíblia?

Não está errado; está suavizado. O hebraico traz "pedra", numa expressão que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia. Quase todas as traduções vertem por "rocha", porque essa é a palavra que a Bíblia usa em outros lugares para a mesma ideia. É uma decisão razoável de tradutor, e o leitor tem direito de saber que ela foi tomada.

Chamar Deus de "Poderoso" tem mesmo relação com touro?

Há uma discussão real entre hebraístas, apoiada em duas coisas: a semelhança quase total entre o título divino e a palavra hebraica de "touro", e o fato de que o deus El, nos textos de Ugarite, era chamado de Touro. Mas o texto hebraico que temos distingue as duas palavras de propósito, e não chama Deus de touro em lugar nenhum. É hipótese sobre a forma antiga da palavra, e não leitura do versículo.

Por que não há castigo para os arqueiros?

O texto não diz. Vale notar que o poema, em toda a bênção de José, não menciona os inimigos uma segunda vez. Depois deste versículo, o assunto é fertilidade e abundância. A hostilidade é registrada e abandonada.

9. Conexão com Outros Textos

Deus como origem da força de José, dito antes em prosa

Gênesis 39:2-3 — "E o SENHOR estava com José, e foi homem próspero; e estava na casa de seu senhor egípcio. Vendo, pois, o seu senhor que o SENHOR estava com ele, e que tudo o que fazia o SENHOR prosperava em sua mão."

Gênesis 39:21 — "O SENHOR, porém, estava com José, e estendeu sobre ele a sua benignidade, e deu-lhe graça aos olhos do carcereiro-mor."

As outras ocorrências de "o Poderoso de Jacó"

Salmo 132:2 — "O qual jurou ao SENHOR, e fez votos ao Poderoso de Jacó, dizendo."

Isaías 1:24 — "Portanto diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, o Forte de Israel: Ah! consolar-me-ei acerca dos meus adversários, e vingar-me-ei dos meus inimigos."

Deus como rocha, com a palavra corrente

Deuteronômio 32:4 — "Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é."

Deuteronômio 32:18 — "Esqueceste-te da Rocha que te gerou; e em esquecimento puseste o Deus que te formou."

2 Samuel 23:3 — "Disse o Deus de Israel, a Rocha de Israel a mim me falou: Haverá um justo que domine sobre os homens, que domine no temor de Deus."

O braço fortalecido, na mesma linguagem

Salmo 18:34 — "Ensina as minhas mãos para a guerra, de sorte que os meus braços quebraram um arco de cobre."

Oseias 7:15 — "Eu os ensinei, e fortaleci os seus braços, mas eles pensam mal contra mim."

A bênção paralela de Moisés, no mesmo ponto

Onde o Gênesis diz que a força de José veio das mãos do Poderoso de Jacó, o poema de Deuteronômio 33 atribui a bênção de José à benevolência daquele que habitava na sarça.

Deuteronômio 33:16 — "E com o mais excelente da terra, e com a sua plenitude, e com a benevolência daquele que habitava na sarça, a bênção venha sobre a cabeça de José."

A pedra que Jacó levantou, para quem liga o título a ela

Gênesis 28:18 — "Então levantou-se Jacó pela manhã de madrugada, e tomou a pedra que tinha posto por seu travesseiro, e a pôs por coluna, e derramou azeite em cima dela."

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

mas o seu arco permaneceu firme, e os seus braços foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó — pelo nome do Pastor, a Rocha de Israel —

Texto hebraico

וַתֵּ֤שֶׁב בְּאֵיתָן֙ קַשְׁתּ֔וֹ וַיָּפֹ֖זּוּ זְרֹעֵ֣י יָדָ֑יו מִידֵי֙ אֲבִ֣יר יַעֲקֹ֔ב מִשָּׁ֥ם רֹעֶ֖ה אֶ֥בֶן יִשְׂרָאֵֽל׃

Transliteração

vatéshev be-eitán kashtó, vaiyafózzu zeroê yadáv, midê avír Ya'akóv, mishám roêh éven Yisraél

Análise palavra por palavra

וַתֵּשֶׁב · vatéshev — "e permaneceu"

Raiz ישב (yashav), no Qal, a forma simples do verbo hebraico, terceira pessoa do feminino singular. O sujeito é "o arco", que em hebraico é palavra feminina.

O verbo é o de sentar-se, habitar, ficar. Não é verbo de resistência nem de combate: é o verbo de quem se instala e não sai. Aplicado ao arco, ele diz que a arma continuou onde estava.

בְּאֵיתָן · be-eitán — "em firmeza, em perenidade"

Preposição be mais o substantivo אֵיתָן (eitan).

Esta é a palavra que dá o sabor da frase. O seu uso mais característico na Bíblia é com "riacho": o nachal eitan é o curso de água que corre o ano inteiro, em oposição ao leito sazonal que seca no verão. Aparece assim em Deuteronômio 21:4 e, memoravelmente, em Amós 5:24, "corra o juízo como as águas, e a justiça como ribeiro perene".

Aplicada a coisas que não são água, a palavra guarda o sentido de firmeza duradoura: em Jeremias 5:15 qualifica uma nação antiga, em Jó 33:19 e no Salmo 74:15 aparece em contextos de solidez. O que ela nunca significa é força explosiva.

Note-se a ligação interna do oráculo: no versículo 22, José está junto de uma fonte de água permanente; aqui, o arco dele é firme com a firmeza do curso de água que não seca. Não se pode afirmar que a repetição da ideia seja proposital, mas ela existe, e é do tipo que a poesia hebraica costuma fazer.

קַשְׁתּוֹ · kashtó — "o seu arco"

Substantivo קֶשֶׁת (keshet), arco, com sufixo de terceira pessoa masculina singular. É a palavra corrente para a arma, a mesma de Gênesis 27:3 e a mesma que designa o arco-íris em Gênesis 9:13.

וַיָּפֹזּוּ · vaiyafózzu — o verbo obscuro

Raiz פזז (pazaz), aqui na terceira pessoa do plural, com o sujeito "braços". A forma verbal é rara e o sentido é discutido.

A dificuldade é que a raiz aparece pouquíssimas vezes na Bíblia e em dois campos diferentes. Um é o do ouro: o substantivo paz designa o ouro refinado, e em 1 Reis 10:18 um verbo dessa raiz descreve o revestimento de ouro do trono de Salomão. O outro é o do movimento: em 2 Samuel 6:16 a mesma raiz descreve Davi saltando diante da arca.

Daí as três traduções em circulação. "Foram fortalecidos", que é a nossa e a mais tradicional, apoia-se no sentido geral de vigor. "Tornaram-se ágeis, flexíveis", preferida por Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) e pela Cambridge Bible, apoia-se no campo do movimento e na necessidade prática do arqueiro, cujo braço tem de ser solto. "Foram revestidos de ouro" apoia-se no campo do metal e é a mais literal, ainda que a mais estranha em português.

Não é possível decidir. Vale registrar que as três descrevem coisas diferentes — força, destreza e honra — e que o versículo é lido de modo um pouco diverso conforme a escolha.

זְרֹעֵי יָדָיו · zeroê yadáv — "os braços das suas mãos"

Construção redundante em português e comum em hebraico poético: literalmente "os braços das mãos dele". A expressão designa o antebraço, a parte que trabalha no disparo.

A redundância tem função no verso, e ela é preparar a palavra seguinte.

מִידֵי · midê — "das mãos de"

Preposição min ("de, a partir de") mais o plural construto de יָד (yad), mão. A mesma palavra "mão" que acabou de aparecer no lado de José reaparece imediatamente no lado de Deus. É a articulação do versículo: mãos ali, mãos aqui.

אֲבִיר יַעֲקֹב · avír Ya'akóv — "o Poderoso de Jacó"

Substantivo אָבִיר (avir) em estado construto, ligado ao nome próprio.

Aqui está a distinção que o item 2 apresentou, e vale mostrá-la com precisão. O texto hebraico traz duas formas próximas:

אַבִּיר (abbir), com a segunda consoante reforçada, significa touro, garanhão, o forte. Ocorre dezessete vezes, sempre em contexto comum — os touros de Basã do Salmo 22:12, os cavalos de Juízes 5:22, os "fortes" de Jó 24:22.

אָבִיר (avir), sem o reforço, ocorre seis vezes e as seis designam Deus: aqui, no Salmo 132:2 e 132:5, e em Isaías 1:24, 49:26 e 60:16.

Como as consoantes escritas são as mesmas e só a vocalização separa as duas, e como a vocalização foi fixada muito depois, há quem sustente que a forma antiga seria uma só e que o título teria sido "o Touro de Jacó". A hipótese é discutida e não é demonstrável; o item 2 trata do que a sustenta e do que a limita.

Primeira ocorrência: a verificação

A afirmação de que este é o primeiro lugar da Bíblia em que Deus é chamado assim é repetida com frequência, e vale conferi-la em vez de repeti-la.

Rastreando as seis ocorrências do título na Bíblia hebraica, elas são: Gênesis 49:24, Salmo 132:2, Salmo 132:5, Isaías 1:24, Isaías 49:26 e Isaías 60:16. Como o Gênesis é o primeiro livro, esta é a primeira na ordem em que os livros estão dispostos.

Duas ressalvas honestas. Ordem do cânon não é ordem de composição, e sobre a data deste poema não há consenso — de modo que não se pode afirmar que o título tenha nascido aqui. E "primeira ocorrência" vale para esta forma exata: designações de Deus com ideia de força existem antes, com outras palavras.

מִשָּׁם · mishám — "dali, de lá"

Preposição min mais o advérbio sham, "lá". Literalmente, "de lá".

É a palavra que cria o principal problema de sintaxe do versículo, porque não está claro a que "lá" ela se refere nem o que ela liga ao que vem antes. As saídas propostas são várias: "de lá vem o Pastor", "por causa do nome do Pastor", "dali ele se tornou o pastor". A nossa tradução resolve com "pelo nome do", que é uma leitura possível e não a única.

רֹעֶה · roêh — "pastor"

Particípio da raiz רעה (ra'ah), pastorear. Como substantivo, "aquele que pastoreia", isto é, pastor.

A mesma forma foi analisada no estudo de Gênesis 48:15, onde Jacó diz que Deus o pastoreou; ali ela é verbo, com objeto expresso. Aqui ela aparece sozinha, sem objeto e sem sufixo, funcionando como designação. É a diferença entre "aquele que me pastoreia" e "o Pastor".

אֶבֶן יִשְׂרָאֵל · éven Yisraél — "pedra de Israel"

Substantivo אֶבֶן (even), pedra, em estado construto com o nome Israel.

Esta é a expressão sem paralelo. A palavra even designa a pedra comum — a de construção, a de tropeço, a do altar, a que Jacó põe como coluna em Gênesis 28:18 e 35:14. Ela nunca é usada como designação de Deus em nenhum outro lugar da Bíblia.

A palavra que a Bíblia usa para isso é outra: צוּר (tsur), rochedo, penhasco. É a de Deuteronômio 32 e a de 2 Samuel 23:3, "a Rocha de Israel". Ela também não aparece aqui.

Diante disso, há três posições entre estudiosos. A primeira aceita o texto como está e entende que even foi usada com o valor de tsur, num uso antigo que não se repetiu. A segunda considera o trecho corrompido na transmissão. A terceira propõe que a frase se leia de outro modo, com "pastor" e "pedra" ligados de maneira diferente.

Não há consenso, e este comentário não escolhe. Registre-se apenas, para o leitor da nossa versão, que "Rocha de Israel" traduz uma palavra que significa "pedra", e que a troca — presente em quase todas as traduções — resolve em português uma estranheza que continua de pé no hebraico.

11. Conclusão

Três conclusões decorrem do que foi exposto.

A primeira é sobre a natureza da resposta que o poema dá ao ataque. Ela não é vitória nem punição: é permanência, e permanência de um tipo específico — a do curso de água que não seca. O versículo poderia ter anunciado troco e não anunciou; poderia ter anunciado triunfo e não anunciou. Conclui-se que, neste oráculo, aguentar é o resultado que vale a pena registrar num testamento.

A segunda é sobre a atribuição. A construção do versículo põe mãos de um lado e mãos do outro, e o crédito da firmeza sai do sujeito. Como os braços continuam sendo de José, conclui-se que o texto não elimina nem o esforço dele nem a origem externa da força: mantém os dois, na mesma linha, sem hierarquizá-los. É uma posição mais difícil de sustentar do que qualquer das duas alternativas simples, e é a que está escrita.

A terceira é sobre a linguagem a respeito de Deus. Os três títulos são relacionais — de Jacó, de Israel, pastor de alguém — e nenhum define Deus em si mesmo. Duas das imagens são incompatíveis à primeira vista, porque uma é de movimento e a outra de imobilidade, e o Gênesis as põe lado a lado sem reconciliá-las. Conclui-se que a fala de Jacó aqui não é definição, é acúmulo de experiência nomeada; e que a maneira honesta de a comentar é mostrar o acúmulo, e não harmonizá-lo.

Fica ainda um ganho de método: a afirmação corrente de que a Bíblia chama Deus de rocha aqui não sobreviveu à conferência na forma em que costuma ser dita. A palavra deste versículo é "pedra", e ela é única.

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Gênesis 49:24

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