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Gênesis 49:25

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 39 acessos
pelo Deus de seu pai, que o ajuda, e pelo Todo-Poderoso, que o abençoa com bênçãos dos céus lá do alto, com bênçãos do abismo que jaz embaixo, com bênçãos dos seios e do ventre.
Nascente brotando entre pedras sob um céu carregado de chuva, na região montanhosa de Canaã.

Estudo


pelo Deus de seu pai, que o ajuda, e pelo Todo-Poderoso, que o abençoa com bênçãos dos céus lá do alto, com bênçãos do abismo que jaz embaixo, com bênçãos dos seios e do ventre.

1. Introdução

Este é o versículo mais concreto da bênção de José, e o mais direto do capítulo inteiro em matéria de corpo.

Ele repete a palavra "bênção" quatro vezes e organiza o que se pede em três andares: o que vem de cima, o que vem de baixo e o que vem do corpo humano. Céus, abismo, seios e ventre. Nessa ordem.

Duas coisas chamam atenção.

A primeira é a descida. O versículo começa no alto, desce ao que está debaixo da terra e termina numa mulher amamentando. Nada nele é abstrato: as três fontes de bênção são água, água e leite.

A segunda é a franqueza. "Bênçãos dos seios e do ventre" é a expressão como está escrita, e não uma tradução dura de alguma coisa mais discreta no original. É um homem à beira da morte pedindo que os filhos do filho nasçam e sobrevivam, e dizendo isso com as palavras do corpo.

Há também um ponto de texto: o modo como o versículo nomeia Deus aqui é discutido, e as versões antigas divergem. O item 10 trata disso.

Os itens seguintes tratam do que a linguagem de fertilidade fazia nas fórmulas de bênção do mundo antigo (item 2), do que ela faz dentro de um testamento (item 3) e das dificuldades do hebraico (item 10).

2. Contexto Histórico e Cultural

As duas águas que um agricultor de Canaã conhecia

O versículo divide o mundo em dois andares de água, e essa divisão não é poética: é técnica.

De cima vinha a chuva, concentrada entre outubro e abril, com dois períodos que a Bíblia nomeia — a chuva temporã, que amolece o solo para a semeadura, e a serôdia, que enche o grão antes da colheita. De baixo vinha o lençol: as nascentes, os poços, a água que aflora no vale quando não chove mais. Um agricultor daquela região dependia das duas, e o fracasso de qualquer uma delas custava a safra.

Deuteronômio 8:7 descreve a terra prometida com exatamente essas duas fontes, e é a mesma contabilidade deste versículo feita em prosa. Quando Jacó pede bênçãos "dos céus lá do alto" e "do abismo que jaz embaixo", ele está pedindo as duas coisas de que a terra dependia, e não fazendo cosmologia.

O que entrava numa fórmula de bênção antiga

Documentos importantes do antigo Oriente Próximo — tratados, doações, marcos de propriedade — costumavam terminar com listas de bênçãos para quem cumprisse e maldições para quem violasse. A forma desses documentos já foi tratada neste comentário, no estudo de Gênesis 15:7. O que interessa aqui é o conteúdo das listas.

Ele é notavelmente estável, em textos de línguas e séculos diferentes: chuva na hora certa, colheita farta, rebanho que pare, e filhos. Sempre nessa vizinhança. A prosperidade não era imaginada como acúmulo de bens, e sim como reprodução que dá certo — na terra, no curral e na casa.

A Bíblia usa a mesma gramática: Deuteronômio 28:4 lista, na mesma frase, "o fruto do teu ventre, o fruto da tua terra e o fruto dos teus animais", tratando os três como um único tipo de bem. Visto assim, este versículo não tem nada de excêntrico — é uma fórmula de bênção de tipo corrente, com a diferença de nomear a parte do corpo em vez de dizer "descendência".

Por que os seios entram na conta

Um detalhe da vida material explica a última linha do versículo melhor do que qualquer comentário.

Não havia alternativa ao leite materno. Uma criança que não mamasse morria, e por isso o período de amamentação era longo — este comentário tratou disso no estudo de Gênesis 21:7, sobre Sara amamentando Isaque. Contratos de ama de leite achados na Mesopotâmia fixam prazos de dois a três anos, com pagamento e cláusula de responsabilidade, o que mostra o peso econômico e jurídico da coisa.

Some-se a isso o que os estudos de sepultamento indicam sobre a mortalidade nos primeiros anos de vida, tratada nos estudos de Gênesis 21:8 e 30:24. Nascer não bastava: abençoar o ventre garantia a concepção, abençoar os seios garantia que a criança chegasse ao desmame. São duas bênçãos, e não uma dita duas vezes.

3. Análise Teológica do Versículo

"pelo Deus de seu pai, que o ajuda"

A frase continua a de cima: as mãos que fortaleceram José são as do Poderoso de Jacó, e agora se diz de quem se trata.

Jacó identifica Deus pela linhagem, e não por um lugar de culto nem por um atributo. É o modo de nomear que atravessa todo o Gênesis, tratado neste comentário no estudo de Gênesis 43:23. O que pertence a este versículo é a mudança de tom que vem junto: até aqui os títulos eram de força — poderoso, pastor, rocha. O primeiro verbo desta frase é "ajudar".

É uma palavra doméstica: não descreve conquista, descreve socorro prestado a quem não dá conta sozinho. Jacó passa, em meia linha, do Deus que fortalece braços de arqueiro para o Deus que dá uma mão.

"e pelo Todo-Poderoso, que o abençoa"

O nome usado aqui é o mesmo com que Deus se apresentou a Abraão em Gênesis 17:1 e o mesmo que Jacó invocou sobre os filhos em Gênesis 28:3 e 35:11; o material sobre ele está naqueles estudos.

Duas observações são próprias deste versículo.

A primeira é textual. A forma do hebraico neste ponto é irregular, e várias versões antigas trazem uma leitura diferente da recebida; o item 10 apresenta as duas. Nenhuma muda o sentido geral, mas é o tipo de irregularidade que a poesia antiga acumula e que as traduções alisam sem avisar.

A segunda é de som, e ela liga o começo do versículo ao fim. O nome divino usado aqui e a palavra "seios", que aparecerá na última linha, soam parecidos em hebraico. É provável que a escolha do nome tenha a ver com isso — poesia trabalha assim, e este capítulo faz trocadilho com nomes do começo ao fim. Não se pode afirmar que seja deliberado, e comentaristas divergem; mas a semelhança existe e é audível para quem lê o original.

"com bênçãos dos céus lá do alto, com bênçãos do abismo que jaz embaixo"

Aqui o versículo constrói um eixo vertical, e vale segui-lo devagar.

Em cima, o céu. Embaixo, o abismo — a massa de água subterrânea de onde se acreditava vir tudo o que brota do chão. As duas fontes de água que o item 2 descreveu, agora postas como as duas pontas do mundo.

A palavra usada para o que está embaixo é a mesma que abre a Bíblia: em Gênesis 1:2, o espírito de Deus se move sobre a face do abismo. E é essa coincidência que dá ao versículo o seu ponto mais interessante.

Nas culturas ao redor, as águas profundas eram poder hostil, a ser vencido antes que o mundo pudesse existir. A Bíblia conhece essa linguagem e a usa em textos poéticos. Aqui, não: o abismo aparece como fonte de bênção, arrolado ao lado do céu, sem uma palavra de ameaça.

E há um detalhe na expressão portuguesa que traduz o original. "Que jaz embaixo" traduz um verbo que descreve animal deitado, agachado — o boi que se deita no curral, a fera que se abaixa. É o mesmo verbo que, em Gênesis 4:7, descreve o pecado à porta de Caim. O abismo, aqui, é descrito como um bicho deitado debaixo da terra — e o que se pede dele é bênção.

Convém não exagerar: o texto não comenta a escolha da palavra. O que se registra é que a imagem é de potência enorme e adormecida, tratada como reserva e não como perigo.

"com bênçãos dos seios e do ventre"

Depois do céu e do abismo, o corpo. É a terceira e última fonte de bênção do versículo, e é a mais franca de todo o capítulo.

Três observações se sustentam.

A primeira é sobre a descida. Em três passos, o versículo vai do alto do céu ao subsolo e daí a uma mulher amamentando. A escala encolhe a cada linha e a bênção se aproxima. Não termina em cosmos, termina em anatomia — e o último termo é o mais concreto de todos.

A segunda é sobre a ordem. O texto diz seios e depois ventre, o que inverte a sequência natural: primeiro se concebe, depois se amamenta. Não é possível decidir por que a ordem é essa. Uma explicação plausível é sonora, pela proximidade com o nome divino usado no começo do versículo, e nesse caso a inversão seria efeito do trocadilho. Outra é que a poesia hebraica não se prende à cronologia. O texto não diz.

A terceira é sobre o que essa linguagem faz num testamento, e é o ponto central do versículo.

Um homem está morrendo. As últimas palavras dele ao filho preferido poderiam ser sobre memória, sobre honra, sobre o nome da família, sobre a terra. Ele fala de leite.

Não é sentimentalismo, e ler assim é perder o versículo. No mundo em que a cena se passa, a maneira de uma casa deixar de existir não era a derrota militar: era a sucessão de gerações que não se completa. Filho que não nasce, criança que não passa dos três anos, e em duas gerações o nome acabou. Abençoar seios e ventre é abençoar a única coisa que impede isso — e, ao pedir bênção sobre o corpo, o versículo trata a fertilidade como dádiva, e não como capacidade de quem a recebe. É a posição que o Gênesis assume em toda a história das mulheres estéreis do livro, de Sara a Raquel.

E há um limite a registrar. O versículo não promete filhos a ninguém, não estabelece condição e não explica por que uns têm e outros não. Ele pede. Transformar o pedido em promessa geral é ir além do texto, e nesse assunto o custo de ir além do texto é alto, porque as pessoas atingidas são as que mais sofrem com ele.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O Deus do pai

A designação identifica Deus pela relação com um antepassado, e o assunto foi tratado no estudo de Gênesis 43:23. Aqui a fórmula está no ponto mais tardio possível dentro do livro: quem a diz é o último dos três patriarcas, dirigindo-se ao filho. Depois deste capítulo, o Gênesis não a repete na boca de Jacó.

O Todo-Poderoso

É a tradução tradicional do nome que aparece pela primeira vez em Gênesis 17:1; o sentido dele é discutido e não há consenso, e o material está no estudo daquele versículo. Vale registrar a insistência do próprio Jacó: ele o usou em Gênesis 28:3, recebeu-o em Gênesis 35:11, usou-o em Gênesis 43:14 e o usa aqui. É o nome divino que ele mais emprega.

O abismo

Não é lugar do mapa, e sim a massa de água que se imaginava debaixo da terra, de onde vinham nascentes e poços. Vale notar as três aparições dela no livro: na criação, em Gênesis 1:2, é o caos sobre o qual Deus se move; no dilúvio, em Gênesis 7:11, é a água que arrasa; aqui, é fonte de bênção. O Gênesis usa a mesma palavra nos três papéis e não comenta a diferença.

Um acontecimento pressuposto

A bênção pedida sobre a descendência tem, na história do livro, um dado já registrado: em Gênesis 41:50-52, José teve dois filhos no Egito, Manassés e Efraim, e em Gênesis 48 esses dois foram adotados por Jacó como filhos dele. A bênção de fertilidade, aqui, cai sobre um homem que já tem filhos e cujos filhos já foram contados entre as tribos.

5. Pontos de Ensino

1. A bênção desce do céu ao corpo em três passos

Céu, abismo, seios e ventre. A escala diminui a cada linha e termina no mais concreto. Não é a linguagem que se espera de um texto religioso solene, e é exatamente a que está escrita.

2. Prosperidade, no mundo antigo, era reprodução que dá certo

Chuva no tempo, rebanho que pare, filhos que nascem e vivem. As listas de bênção da região dizem sempre isso, e a Bíblia usa a mesma gramática em Deuteronômio 28:4. Não se pedia acúmulo, pedia-se continuidade.

3. São duas bênçãos, e não uma repetida

O ventre garante a concepção; os seios garantem que a criança chegue ao desmame. Numa época sem alternativa ao leite materno, a segunda não era detalhe.

4. O abismo aparece como reserva, e não como ameaça

A mesma palavra que descreve o caos em Gênesis 1:2 e a água destruidora em Gênesis 7:11 aparece aqui do lado do céu, na lista do que se pede. O Gênesis não explica a diferença de tratamento, e ela merece ser notada.

5. O versículo pede, não promete

Nada aqui garante filhos a ninguém nem estabelece condição para tê-los. Usar este versículo como promessa geral de fecundidade é ir além do que ele diz — e é o tipo de excesso que fere quem já está ferido.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma pergunta antiga por trás deste versículo: o que uma pessoa quer, de verdade, quando está no fim?

Uma resposta muito repetida consiste em olhar para cima: no fim, o que importa é o que dura, o que não se corrompe, o que fica depois do corpo. É resposta séria e tem argumentos fortes. O versículo faz o contrário — começa no céu, passa pelo abismo e termina em leite. A cada linha, desce. Se quisesse dizer que no fim o que importa é o eterno, teria organizado a lista na ordem inversa.

O que se pede na última linha é a coisa mais frágil da lista: uma criança que nasça e uma mãe que consiga alimentá-la. Não é a bênção mais grandiosa; é a única cuja falta apaga todas as outras.

Talvez esteja aí o ponto, e ele não depende de nenhuma doutrina para funcionar. A continuidade da vida não se resolve no plano das ideias, e nenhuma quantidade de bênção cósmica compensa a geração que não veio. Um homem que passou a vida com rebanhos sabia disso por experiência de curral, e é essa experiência que fala aqui — não uma tese sobre o que importa, mas a constatação de quem já viu casas inteiras acabarem por falta de gente.

7. Aplicações Práticas

Pedir o concreto

A bênção deste versículo é específica. Não se pede felicidade, nem proteção em geral, nem que tudo dê certo: pede-se chuva, água de baixo e filhos que sobrevivam. Cada item é verificável.

A aplicação vale para quem reza e para quem não reza: o pedido vago não pode ser atendido nem frustrado, porque não tem forma. O pedido concreto obriga quem pede a saber do que precisa, e essa clareza já é parte do trabalho.

O que a geração seguinte precisa não é abstrato

O versículo põe o cuidado com quem vem depois em termos materiais: nascer, mamar, chegar aos três anos. É um bom corretivo para a tendência de tratar a herança que se deixa aos filhos como se fosse feita só de valores e exemplos.

Valores contam. Mas a lista deste versículo lembra que, antes deles, há coisas sem as quais nada mais se aplica: comida, saúde, presença física de alguém que cuide.

Um limite grande

Este versículo não deve ser usado com quem não consegue ter filhos. Ele não promete fertilidade, não a condiciona a nada e não explica a ausência dela. Transformar um pedido de bênção numa garantia é, aqui, transformar um texto de consolo em instrumento de culpa — e não há no versículo nada que autorize isso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a Bíblia fala de seios e ventre num texto solene?

Porque a linguagem de bênção do mundo antigo era material, específica e sem constrangimento com o corpo. O pudor diante dessas palavras é nosso, e não do texto.

O "abismo" é o inferno?

Não. É a água subterrânea, de onde se acreditava virem fontes e poços. A mesma palavra aparece em Gênesis 1:2 e em Gênesis 7:11. Não tem relação com lugar de castigo, ideia que aparece muito depois e com outro vocabulário.

Este versículo promete que quem for abençoado terá filhos?

Não. Ele é um pedido feito por um pai sobre um filho específico, dentro de um poema sobre as doze tribos. Ler nele uma promessa universal de fecundidade é extrapolar, e o próprio Gênesis não sustenta essa leitura: o livro está cheio de gente abençoada que passou décadas sem conseguir ter filhos.

Por que os seios vêm antes do ventre, se a ordem natural é a inversa?

O texto não diz. A explicação mais citada é sonora, pela semelhança com o nome divino que abre o versículo. Também é possível que a poesia simplesmente não esteja seguindo a cronologia. Não é possível decidir.

9. Conexão com Outros Textos

A bênção paralela de Moisés, com as mesmas duas águas

Deuteronômio 33:13 — "E de José disse: Bendita do SENHOR seja a sua terra, com o mais excelente dos céus, com o orvalho, e com o abismo que jaz abaixo."

O abismo que jaz abaixo aparece nos dois poemas, com a mesma construção.

As duas águas da terra prometida

Deuteronômio 8:7 — "Porque o SENHOR teu Deus te põe numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, e de abismos, que saem dos vales e das montanhas."

Fertilidade como conteúdo padrão da bênção

Deuteronômio 28:4 — "Bendito o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus animais; a criação das tuas vacas e os rebanhos das tuas ovelhas."

O abismo nos outros dois papéis que o Gênesis lhe dá

Gênesis 1:2 — "E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas."

Gênesis 7:11 — "Naquele dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram."

O nome divino deste versículo na boca de Jacó

Gênesis 28:3 — "E Deus Todo-Poderoso te abençoe, e te faça frutificar, e te multiplique, para que sejas uma multidão de povos."

Seios e ventre em outro lugar da Bíblia

A mesma dupla de palavras reaparece numa maldição, e a inversão vale ser vista.

Oseias 9:14 — "Dá-lhes, ó SENHOR; que lhes darás? Dá-lhes uma madre que aborte e seios secos."

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

pelo Deus de seu pai, que o ajuda, e pelo Todo-Poderoso, que o abençoa com bênçãos dos céus lá do alto, com bênçãos do abismo que jaz embaixo, com bênçãos dos seios e do ventre.

Texto hebraico

מֵאֵ֨ל אָבִ֜יךָ וְיַעְזְרֶ֗ךָּ וְאֵ֤ת שַׁדַּי֙ וִיבָ֣רְכֶ֔ךָּ בִּרְכֹ֤ת שָׁמַ֙יִם֙ מֵעָ֔ל בִּרְכֹ֥ת תְּה֖וֹם רֹבֶ֣צֶת תָּ֑חַת בִּרְכֹ֥ת שָׁדַ֖יִם וָרָֽחַם׃

Transliteração

me-El avícha ve-ya'azrécca ve-ét Shadái viváreccha, birchót shamáyim me'ál, birchót tehóm rovétset táchat, birchót shadáyim va-rácham

Análise palavra por palavra

מֵאֵל אָבִיךָ · me-El avícha — "do Deus de teu pai"

Preposição min mais El, a palavra semítica mais antiga para "deus", em construto com "teu pai".

Note-se a mudança de pessoa: o versículo anterior falava de José em terceira pessoa e aqui o texto passa a falar com ele, "teu pai". As traduções em português costumam manter a terceira pessoa por fluência, e a nossa faz isso.

וְיַעְזְרֶךָּ · ve-ya'azrécca — "e ele te ajude"

Raiz עזר (azar), ajudar, socorrer, no imperfeito com sufixo de objeto de segunda pessoa. A forma pode ser lida como afirmação ("e ele te ajuda") ou como desejo ("e que ele te ajude"), e as traduções se dividem; a diferença é pequena e o contexto de bênção favorece o desejo.

A raiz é conhecida por dois nomes próprios: Eliézer, "meu Deus é ajuda", o servo de Abraão em Gênesis 15:2, e Ebenézer, "pedra de ajuda", o marco erguido por Samuel em 1 Samuel 7:12. É também a palavra usada em Gênesis 2:18 para a "ajudadora" de Adão — e como aqui o sujeito é Deus, ela não implica inferioridade de quem ajuda.

וְאֵת שַׁדַּי · ve-ét Shadái — o ponto textual do versículo

Aqui está a irregularidade. A palavra et, no hebraico, tem dois empregos: marca o objeto direto ou funciona como preposição, "com". Nenhum dos dois se encaixa bem neste lugar, onde se esperaria a preposição min, "de", em paralelo com a frase anterior.

As saídas propostas são duas. A primeira aceita o texto e lê "e com o Todo-Poderoso". A segunda supõe troca de letras na cópia e lê ve-El Shaddai, "e o Deus Todo-Poderoso" — leitura apoiada pelo Pentateuco Samaritano e por versões antigas, e adotada por parte das traduções modernas. Não é possível decidir, e o sentido geral não muda. Vale registrar o caso porque ele é típico da poesia mais antiga da Bíblia: formas que já não obedecem à gramática corrente do hebraico em prosa.

Sobre o nome Shaddai em si — o significado, as etimologias propostas, a ausência de consenso —, o material está nos estudos de Gênesis 17:1 e 35:11.

בִּרְכֹת · birchót — "bênçãos de"

Plural construto de בְּרָכָה (berakhah), bênção. A palavra se repete três vezes seguidas neste versículo, sempre em construto, encabeçando cada uma das três fontes. É repetição de estrutura, e ela é o esqueleto da segunda metade do verso.

שָׁמַיִם מֵעָל · shamáyim me'ál — "céus, de cima"

Shamayim é sempre plural em hebraico, mesmo com sentido singular. Me'al é a preposição min com al, "sobre": literalmente "de sobre".

A redundância é proposital e faz par com a linha seguinte: céus de cima, abismo de baixo.

תְּהוֹם · tehóm — "abismo"

Substantivo que designa a massa de água profunda: o oceano, e sobretudo o lençol subterrâneo de onde se acreditava virem as fontes.

Aparece cerca de trinta e cinco vezes na Bíblia hebraica, com forte concentração em textos poéticos. Existe uma discussão antiga sobre o parentesco desta palavra com o nome de Tiamat, a divindade das águas primordiais na poesia babilônica. A posição que hoje predomina entre semitistas é que não há empréstimo de uma para a outra, e sim origem comum numa raiz semítica antiga — a forma hebraica não traz as marcas que um empréstimo direto deixaria. Não há consenso pleno, e o versículo não depende disso.

רֹבֶצֶת תָּחַת · rovétset táchat — "que jaz embaixo"

Particípio feminino da raiz רבץ (ravats), deitar-se, agachar-se, repousar. O verbo é usado sobretudo de animais: o rebanho que se deita em Gênesis 29:2, o jumento deitado em Êxodo 23:5, o leão agachado em Gênesis 49:9, poucos versículos antes deste.

É também o verbo de Gênesis 4:7, onde o pecado está "à porta, deitado", à espera de Caim.

Aplicado ao abismo, ele produz uma imagem forte: a água profunda descrita como bicho grande deitado debaixo do chão. Táchat é simplesmente "debaixo".

שָׁדַיִם וָרָחַם · shadáyim va-rácham — "seios e ventre"

Shadayim é o dual de שַׁד (shad), seio — o hebraico tem forma própria para o que vem aos pares. A palavra é a corrente e não é eufemismo.

A semelhança sonora com o nome divino Shaddai, no começo do versículo, é evidente no original. Se a escolha do nome foi feita por causa dela, não é possível saber; comentaristas divergem, e a etimologia do nome divino continua discutida.

Rácham é o ventre materno, o útero. A relação dessa palavra com a família de termos que dá "compaixão" e "misericórdia" em hebraico já foi tratada neste comentário, nos estudos de Gênesis 43:14 e 43:30; aqui ela aparece no sentido físico, sem qualquer extensão moral.

Registre-se um detalhe de forma: as duas palavras estão ligadas pela conjunção simples, sem preposição, e ambas dependem do "bênçãos de" que abre a linha. Literalmente: "bênçãos de seios e ventre".

11. Conclusão

Três conclusões decorrem do exposto.

A primeira é sobre a direção do versículo. Ele desce. Começa no céu, passa pelo lençol de água subterrânea e termina no corpo de uma mulher que amamenta. A cada linha, a escala encolhe e a bênção se aproxima. Conclui-se que o texto não trata o concreto como degrau inferior do espiritual: ele o põe no fim da lista, que na poesia hebraica é a posição de destaque.

A segunda é sobre o que se pede. Chuva, água de baixo, concepção e leite. Nada aqui é acúmulo de riqueza, honra ou poder. Conclui-se que a bênção, tal como este versículo a entende, é continuidade — a possibilidade de que a vida se transmita e chegue à geração seguinte. Numa cultura em que casas inteiras acabavam por falta de filhos que sobrevivessem, essa era a menos abstrata das preocupações.

A terceira é sobre o limite. O versículo pede e não promete. Ele não garante fertilidade, não a condiciona a comportamento e não explica a esterilidade. Conclui-se que usá-lo como garantia inverte a natureza do texto — e que a leitura fiel é a que preserva o caráter de pedido, feito por um homem que estava morrendo e que, como qualquer pai, não tinha o poder de assegurar nada do que estava pedindo.

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