As bênçãos de seu pai superam as bênçãos dos montes antigos, a generosidade das colinas eternas. Que elas repousem sobre a cabeça de José, sobre a fronte daquele que foi separado entre os seus irmãos.
1. Introdução
O oráculo de José termina com uma comparação ousada e com uma palavra que terá futuro.
A comparação é esta: as bênçãos que Jacó está dando valem mais que as dos montes antigos e das colinas eternas. Um homem prestes a morrer diz que a palavra dele supera o que as montanhas mais velhas do mundo produzem.
A palavra é a última do versículo. José é chamado de "aquele que foi separado entre os seus irmãos", e o termo hebraico ali é o que dará origem, na legislação posterior, ao nazireu — aquele que se consagra por voto. Ele admite pelo menos três leituras, e o item 10 as apresenta.
Há ainda um problema de texto que muda a primeira frase inteira. Onde a nossa versão traz "montes antigos", o texto hebraico recebido traz "meus progenitores". As duas leituras são antigas, e a escolha está feita na Bíblia que o leitor tem na mão sem que ele saiba.
E há um detalhe raro: a última expressão deste versículo reaparece, palavra por palavra, no poema de Deuteronômio 33. É praticamente o único trecho que os dois poemas repetem de forma idêntica.
Os itens seguintes tratam do que se marcava na cabeça de alguém no mundo antigo e do que era um nazireu (item 2), das frases do versículo e do problema textual (item 3), e da palavra final (item 10).
2. Contexto Histórico e Cultural
A cabeça era onde se marcava a condição de uma pessoa
O versículo pede que a bênção repouse sobre a cabeça e sobre o alto da cabeça de José. Não é figura vaga: naquela cultura, a cabeça era o lugar onde a mudança de estatuto ficava visível.
Três práticas se juntam nisso.
A primeira é o óleo. Derramar azeite perfumado sobre a cabeça de alguém era o ato que instalava a pessoa num cargo. O sacerdote em Êxodo 29:7 e o rei em 1 Samuel 10:1 e 16:13 recebem o óleo assim, e o gesto é rápido, público e irreversível — a partir dali a pessoa é outra coisa. A palavra que a Bíblia usa para quem passou por isso é a que, em português, virou "messias" e, pelo grego, "cristo": simplesmente "ungido".
A segunda é a faixa de metal ou tecido presa na cabeça. Êxodo 29:6 manda pôr sobre a mitra do sumo sacerdote uma lâmina de ouro, chamada no hebraico de nezer. A mesma palavra designa o que a rainha Atalia vê na cabeça do menino Joás em 2 Reis 11:12, e o que é tirado da cabeça de Saul morto em 2 Samuel 1:10. É o objeto que os dicionários traduzem por "diadema" ou "coroa" — e ele é da mesma raiz da palavra que fecha este versículo.
A terceira é o cabelo. Deixá-lo crescer ou rapá-lo eram sinais lidos por todo mundo. Este comentário tratou do assunto no estudo de Gênesis 41:14, quando José se barbeia para ir ao faraó.
Ou seja: pôr a bênção sobre a cabeça é falar a mesma língua do óleo e do diadema. É a linguagem da instalação em posição.
O que era um nazireu, na prática
A palavra final do versículo é a mesma raiz de que vem, na legislação de Israel, a figura do nazireu. Vale saber o que ela designava de fato, porque a expressão é usada hoje sem conteúdo.
Números 6:1-21 descreve a coisa como um voto temporário, aberto a homens e mulheres, com três abstenções: nada que venha da videira — nem vinho, nem uva, nem semente nem casca —, navalha nenhuma no cabelo enquanto durar o voto, e nenhuma aproximação de cadáver, mesmo de pai ou mãe. No fim do prazo havia sacrifício, o cabelo era cortado e queimado no fogo da oferta.
Não era, portanto, ordem religiosa nem carreira. Era um período delimitado em que uma pessoa comum ficava separada para Deus, com sinais visíveis — a cabeleira e a sobriedade — que qualquer vizinho reconhecia na rua.
Havia também os casos de voto para a vida inteira, feitos pelos pais antes do nascimento: Sansão em Juízes 13:5 e Samuel em 1 Samuel 1:11. Nesses, a marca é o cabelo que nunca foi cortado.
E há um testemunho que mostra a instituição viva e em conflito. Amós 2:11-12 diz que Deus levantou nazireus entre os filhos de Israel e acusa: "aos nazireus destes a beber vinho". É a prova de que não se trata de figura de linguagem — havia gente assim, era possível reconhecê-la, e era possível estragar o voto dela.
Uma advertência sobre datas
Nada disso existia como lei na época em que a cena do Gênesis se passa, e o versículo não invoca instituição nenhuma. A relação é de vocabulário: a palavra usada aqui é a que a legislação posterior empregou para nomear o consagrado.
Convém dizer isso com clareza, porque o caminho contrário — ler o José do Gênesis como se ele fosse um nazireu de Números 6 — é comum em pregação e não se sustenta. O que se pode afirmar é que o termo já existia e já significava alguma coisa como "separado", e que a legislação depois o especializou.
3. Análise Teológica do Versículo
"As bênçãos de seu pai superam as bênçãos dos montes antigos"
Antes de qualquer análise, é preciso avisar o leitor: esta frase não é o que o texto hebraico recebido traz.
O texto massorético — o texto hebraico padrão, fixado pelos copistas judeus — diz, palavra por palavra, algo como "as bênçãos de teu pai prevaleceram sobre as bênçãos dos meus progenitores". Não há montes ali. Há os antepassados de Jacó, isto é, Abraão e Isaque.
A leitura com montes vem do Pentateuco Samaritano e da tradução grega antiga, que trazem uma palavra parecida, "montes". A diferença no hebraico é de duas letras.
Por que quase todas as traduções modernas, inclusive a nossa, seguem os montes? Por dois motivos declarados. O primeiro é o paralelismo: a segunda metade da frase fala de "colinas eternas", e "montes antigos" faz par com colinas, ao passo que "progenitores" não faz. O segundo é o poema paralelo: Deuteronômio 33:15 abençoa José com "o mais excelente dos montes antigos e o mais excelente dos outeiros eternos" — a mesma dupla, montes e colinas.
É uma decisão bem fundamentada. Mas ela tem um custo, e ele merece ser dito: a regra mais usada na crítica de textos manda desconfiar da leitura mais fácil, porque copistas tendem a alisar o difícil, e não a complicá-lo. Aqui, a leitura escolhida é justamente a que resolve o problema.
Este comentário não decide. Registre-se apenas o que muda conforme a escolha. Com "progenitores", Jacó está dizendo que a bênção dele supera a que ele próprio recebeu de Abraão e Isaque — afirmação forte, quase incômoda, de um homem que se põe acima do avô. Com "montes", ele está comparando a bênção ao que a terra mais antiga produz. São coisas bem diferentes, e a Bíblia que o leitor tem na mão já escolheu uma delas por ele.
"a generosidade das colinas eternas"
A segunda metade também é difícil, e por outra razão: a palavra central admite sentidos distantes entre si.
Ela vem da raiz do desejo, do querer. Daí saem três traduções em circulação. "A generosidade", ou "o que há de mais desejável" — o que as colinas dão de melhor, e é a leitura da nossa versão. "O limite extremo" — até onde chegam as colinas, entendendo a palavra como fronteira. E, mais raramente, "o desejo" das colinas, num uso poético.
A primeira é a mais aceita hoje e a que combina com o paralelo de Deuteronômio 33:15. A segunda tem tradição antiga e aparece em traduções mais literais. Não é possível decidir.
O que sobrevive às três é a ideia central: as colinas são chamadas de eternas. Não porque alguém pensasse que elas não tiveram começo, mas porque, na experiência humana, montanha é o que estava lá antes de todo mundo e continuará depois. É a medida de antiguidade disponível a quem não tem relógio geológico.
E é contra essa medida que a bênção é posta. O que Jacó diz é que a palavra que ele está pronunciando naquele quarto vale mais do que aquilo. Um moribundo comparando a própria fala à produção das montanhas mais velhas — e dizendo que ganha.
Vale marcar o que isso pressupõe. Só faz sentido comparar bênção com montanha se a bênção for entendida como coisa real, que produz efeito no mundo, e não como voto de bom augúrio. O capítulo inteiro trabalha com esse pressuposto; este versículo é onde ele fica mais visível.
"Que elas repousem sobre a cabeça de José"
A bênção é tratada como algo que se põe, e que fica.
O verbo não é de chegada nem de descida: é de assentar-se e permanecer. E o lugar é físico — a cabeça, e em seguida o alto da cabeça, dito com uma segunda palavra. A repetição das duas palavras para a mesma parte do corpo é típica da poesia hebraica, que gosta de dizer a coisa duas vezes com termos diferentes.
O gesto pressuposto é conhecido do capítulo anterior, quando Jacó pôs as mãos sobre as cabeças de Efraim e Manassés em Gênesis 48:14. Aqui não se diz que houve gesto; diz-se que a bênção repouse ali, como se ela mesma fosse a mão.
"sobre a fronte daquele que foi separado entre os seus irmãos"
A última expressão do oráculo é a mais carregada, e ela admite pelo menos três leituras. O item 10 as detalha; aqui interessa o que cada uma faz com a frase.
Separado no sentido de afastado. José esteve longe dos irmãos por vinte e dois anos. A separação, nessa leitura, é a que o próprio livro contou: a cisterna, a venda, o Egito. É a leitura mais óbvia para quem vem lendo a história.
Separado no sentido de consagrado. A palavra é a que dará o nazireu, aquele que se aparta para Deus. Nessa leitura, José não foi apartado por acaso nem por crime alheio: foi posto à parte, e o afastamento tem outro sinal.
Separado no sentido de coroado. A mesma raiz forma a palavra do diadema do sumo sacerdote e da coroa real. Nessa leitura, a frase diz "o príncipe entre os seus irmãos" — é assim que várias traduções antigas a entenderam.
Este comentário não escolhe, e há uma razão para isso que vai além da prudência: as três leituras cabem na história de José, e cabem ao mesmo tempo. Ele foi afastado pelos irmãos, ficou separado deles no Egito, e acabou acima deles. Uma palavra que significa apartar serve às três coisas, e não há como saber se o poema explora essa amplitude de propósito.
O que se pode dizer com segurança é isto: o mesmo fato — José longe dos irmãos — recebe aqui um nome que pode ser lido como desgraça ou como distinção, e o texto não informa qual dos dois quis dizer.
Um detalhe que os dois poemas compartilham
Convém registrar um dado verificável e pouco notado. Esta última expressão — "sobre a fronte daquele que foi separado entre os seus irmãos" — aparece igual, palavra por palavra, em Deuteronômio 33:16, no fecho da bênção de Moisés sobre José.
Os dois poemas tratam das mesmas doze tribos e têm muito vocabulário em comum, mas quase nada idêntico; este é um dos raros trechos em que a coincidência é literal.
O que isso significa é discutido. Pode indicar dependência de um poema em relação ao outro, em qualquer das duas direções; pode indicar que os dois recolheram uma fórmula fixa que já circulava sobre José. Não há como decidir com o material disponível, e a datação dos dois textos é ela própria assunto sem consenso.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os progenitores de Jacó — se a leitura for essa
Caso o texto hebraico recebido esteja certo, os "progenitores" mencionados são Abraão e Isaque, e a frase compara a bênção de Jacó com as que eles receberam e transmitiram: a promessa de Gênesis 12:2-3, repetida a Isaque em Gênesis 26:3-4 e ao próprio Jacó em Gênesis 28:13-14.
Nessa leitura, o versículo contém uma afirmação que a tradição costuma passar em branco: o neto declarando que a bênção dele supera a do avô.
Os montes antigos e as colinas eternas
Não são lugares identificáveis. São as montanhas em geral, tomadas como a coisa mais velha e mais estável que uma pessoa via.
A Bíblia usa a expressão em outros lugares com o mesmo valor. Habacuque 3:6 fala dos "montes eternos" que se espalham e dos "outeiros antigos" que se abatem, num quadro de teofania. Deuteronômio 33:15 traz a mesma dupla, dentro da bênção de Moisés sobre José.
O nazireu
Não é personagem deste versículo, e sim a instituição que a palavra final dele originará. O item 2 descreve o que era. Cabe aqui apenas registrar os dois casos mais conhecidos: Sansão, consagrado antes do nascimento em Juízes 13:5, e Samuel, prometido por Ana em 1 Samuel 1:11.
José
Este é o último versículo do oráculo dele — o quinto de cinco. Ele foi comparado a uma planta ou a um animal, foi descrito sob ataque, foi dito firme, recebeu bênçãos de céu, abismo e corpo, e termina designado por uma palavra que pode significar excluído, consagrado ou coroado.
Em nenhum dos cinco versículos ele fala.
Um acontecimento pressuposto: a separação
A última palavra do versículo só funciona porque o leitor sabe o que aconteceu. A separação de José dos irmãos é contada em Gênesis 37: o afastamento em Dotã, a cisterna, a venda aos mercadores e os vinte e dois anos de ausência que Gênesis 45 encerra.
Note-se que o versículo não conta nada disso e não julga nada disso. Ele apenas nomeia o resultado com uma palavra que serve tanto para desgraça quanto para honra.
5. Pontos de Ensino
1. A Bíblia que você tem na mão já escolheu por você
Onde se lê "montes antigos", o texto hebraico padrão diz "meus progenitores". A escolha é bem fundamentada, mas é escolha, e as duas frases resultantes dizem coisas diferentes. Saber disso é parte de ler o versículo.
2. Bênção é comparada à produção das montanhas
Só se compara o que é da mesma espécie. Ao medir a própria palavra contra o que as colinas eternas dão, o versículo trata bênção como coisa que produz efeito real, e não como desejo simpático.
3. A cabeça era o lugar em que a condição de uma pessoa ficava visível
Óleo, diadema, cabelo. Pedir que a bênção repouse sobre a cabeça é falar a língua da instalação em posição, e não usar uma imagem decorativa.
4. A palavra final admite três leituras que a história de José confirma todas
Afastado, consagrado, coroado. José foi as três coisas. O texto usa um termo que serve às três e não diz qual pretendia.
5. O mesmo fato pode receber dois nomes opostos
José longe dos irmãos é, na prosa do capítulo 37, uma desgraça. Aqui, é uma designação que pode ser de honra. O acontecimento é o mesmo; o nome dado a ele, não.
6. O nazireu era instituição real, e não metáfora
Havia regras, prazo, sinais visíveis e sacrifício de encerramento. Amós 2:11-12 mostra a coisa funcionando e sendo sabotada. Usar a palavra hoje como sinônimo vago de "consagrado" perde tudo isso.
6. Aspectos Filosóficos
Este versículo põe uma pergunta que qualquer pessoa reconhece: quando alguém fica de fora, isso é exclusão ou é distinção?
A palavra final do oráculo serve às duas respostas, e é isso que a torna interessante. Ela diz apenas que houve separação. Não diz se foi castigo, acidente ou honra.
Vale reparar que o fato não muda conforme o nome. José passou vinte e dois anos longe da família — isso é dado, e é o mesmo dado nas três leituras. O que muda é a descrição, e a descrição não é neutra: quem é chamado de excluído se organiza de um jeito, quem é chamado de consagrado se organiza de outro.
Há uma tentação a evitar aqui, e ela é comum em leituras devocionais: a de concluir que basta trocar o nome para que o sofrimento vire propósito. Não basta, e o Gênesis não diz isso. A cisterna continua sendo a cisterna; o versículo 23 deste mesmo capítulo registra o ataque sem suavizá-lo.
O que se pode observar, sem forçar, é mais modesto e mais sólido. Um mesmo acontecimento suporta mais de uma descrição verdadeira. Escolher entre elas não altera o que houve, mas altera o que se faz depois — e essa escolha, ao contrário do acontecimento, está ao alcance de quem a faz.
7. Aplicações Práticas
Sobre a palavra que se dá a alguém
O versículo trata a bênção do pai como algo que vale mais que o que as montanhas produzem. É uma avaliação alta, e ela contrasta com o peso que se costuma dar hoje ao que um pai ou uma mãe diz a um filho.
Há uma aplicação prática nisso, e ela não depende de crença: as frases ditas por quem tem autoridade afetiva sobre alguém ficam. Não é preciso acreditar em bênção transmissível para observar que uma pessoa carrega, décadas depois, o que ouviu de um pai — para bem e para mal.
Quem tem filhos ou netos pode tirar daí uma pergunta útil: o que eles vão repetir de memória sobre o que eu disse a respeito deles?
Sobre estar de fora
A última palavra do versículo descreve alguém apartado dos seus. É a condição de muita gente por muitos motivos — mudança, doença, divergência, escolha, injustiça.
O que o texto oferece a essa situação não é consolo barato. Ele não diz que o afastamento foi bom, não diz que valeu a pena e não explica. Ele apenas mostra que a separação, no caso de José, não foi a última palavra sobre ele — e que o mesmo fato coube, no fim, numa frase de bênção.
Isso é menos do que uma promessa e mais do que nada. Serve como precedente, não como garantia.
Um limite
Não se deve usar este versículo para dizer a alguém que o sofrimento tinha um plano. O Gênesis, sobre José, chega perto disso em Gênesis 50:20, e é lá que a discussão pertence. Aqui há apenas uma palavra ambígua, e transformá-la em doutrina é ir além do que ela sustenta.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que a minha Bíblia diz "montes antigos" e outra diz "meus progenitores"?
Porque as testemunhas antigas divergem. O texto hebraico padrão traz "meus progenitores"; o Pentateuco Samaritano e a tradução grega trazem "montes". A diferença é de duas letras. A maioria das traduções modernas segue os montes, por causa do paralelo com "colinas eternas" e com Deuteronômio 33:15. As duas versões são defensáveis.
José era um nazireu?
Não. A instituição descrita em Números 6 não existia na época da cena, e o Gênesis não diz que José tenha feito voto nenhum — ele bebe vinho com os irmãos em Gênesis 43:34, o que seria incompatível. O que há é a mesma raiz de palavra, com o sentido geral de "separado".
O que significa a bênção "repousar sobre a cabeça"?
É a linguagem da instalação em posição. Óleo, diadema e imposição de mãos eram gestos feitos sobre a cabeça, e todos mudavam o estatuto de quem os recebia. A bênção é descrita como se fosse um desses objetos: alguma coisa que se põe ali e fica.
Jacó está dizendo que a bênção dele é maior que a de Abraão?
Na leitura do texto hebraico padrão, sim — e é justamente o que torna essa leitura desconfortável. Na leitura seguida pela nossa versão, a comparação é com as montanhas, e o problema desaparece. Não é possível decidir, e vale registrar que a leitura mais tranquila é sempre a que merece mais desconfiança em crítica de textos.
Por que este trecho é igual em Deuteronômio 33:16?
O texto não explica. Pode ser dependência de um poema em relação ao outro, em qualquer direção, ou uso comum de uma fórmula já corrente sobre José. Como a data dos dois poemas é discutida, a questão permanece em aberto.
9. Conexão com Outros Textos
A frase idêntica no poema de Moisés
Deuteronômio 33:15-16 — "E com o mais excelente dos montes antigos, e com o mais excelente dos outeiros eternos; e com o mais excelente da terra, e com a sua plenitude, e com a benevolência daquele que habitava na sarça: a bênção venha sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça do que foi separado de seus irmãos."
As montanhas como medida de antiguidade
Habacuque 3:6 — "Parou, e mediu a terra; olhou, e separou as nações; e os montes perpétuos foram esmiuçados, os outeiros eternos se encurvaram; os caminhos eternos são seus."
Salmo 90:2 — "Antes que os montes nascessem, ou que tivesses formado a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus."
A bênção posta sobre a cabeça
Gênesis 48:14 — "Mas Israel estendeu a sua mão direita e a pôs sobre a cabeça de Efraim, que era o menor, e a sua esquerda sobre a cabeça de Manassés, dirigindo as suas mãos avisadamente."
Provérbios 10:6 — "Bênçãos há sobre a cabeça do justo, mas a violência cobre a boca dos ímpios."
A raiz da palavra final, no diadema
Êxodo 29:6 — "E a mitra porás sobre a sua cabeça; a coroa da santidade porás sobre a mitra."
2 Reis 11:12 — "E tirou o filho do rei, e lhe pôs a coroa, e lhe deu o testemunho; e o fizeram rei, e o ungiram."
A raiz da palavra final, no voto
Números 6:2 — "Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando um homem ou mulher se tiver separado, fazendo voto de nazireu, para se separar ao SENHOR."
Juízes 13:5 — "Porque eis que tu conceberás e darás à luz um filho, sobre cuja cabeça não passará navalha; porquanto o menino será nazireu de Deus desde o ventre."
Amós 2:11-12 — "E dos vossos filhos suscitei profetas, e dos vossos jovens nazireus. Não é isto assim, filhos de Israel? diz o SENHOR. Mas vós aos nazireus destes a beber vinho, e aos profetas ordenastes, dizendo: Não profetizeis."
A separação de José, contada em prosa
Gênesis 37:28 — "E passando os mercadores midianitas, tiraram e alçaram a José da cova, e venderam José por vinte moedas de prata aos ismaelitas, os quais levaram José ao Egito."
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
As bênçãos de seu pai superam as bênçãos dos montes antigos, a generosidade das colinas eternas. Que elas repousem sobre a cabeça de José, sobre a fronte daquele que foi separado entre os seus irmãos.
Texto hebraico
בִּרְכֹ֣ת אָבִ֗יךָ גָּֽבְרוּ֙ עַל־בִּרְכֹ֣ת הוֹרַ֔י עַֽד־תַּאֲוַ֖ת גִּבְעֹ֣ת עוֹלָ֑ם תִּֽהְיֶ֙יןָ֙ לְרֹ֣אשׁ יוֹסֵ֔ף וּלְקָדְקֹ֖ד נְזִ֥יר אֶחָֽיו׃
Transliteração
birchót avícha gaverú al-birchót horái, ad-ta'avát giv'ót olám; tihiêna le-rósh Yosséf u-le-kodkód nezír echáv
Análise palavra por palavra
בִּרְכֹת אָבִיךָ · birchót avícha — "as bênçãos de teu pai"
Plural construto de "bênção", ligado a "teu pai". Note-se que o texto fala em segunda pessoa — "teu pai" —, embora a nossa tradução mantenha a terceira por fluência. Jacó se refere a si mesmo na terceira pessoa e na função: não "as minhas bênçãos", mas "as bênçãos de teu pai".
גָּבְרוּ · gaverú — "prevaleceram, foram mais fortes"
Raiz גבר (gavar), no Qal, perfeito, terceira pessoa do plural. É o verbo da superioridade em força, o mesmo que descreve as águas do dilúvio prevalecendo sobre a terra em Gênesis 7:18-20. Dele vem gibbor, o herói, o valente.
Não é "são melhores": é "venceram", "levaram vantagem". A comparação é de força.
הוֹרַי · horái — o problema textual do versículo
Esta é a palavra em disputa, e vale expor os dados com cuidado.
O texto massorético — o texto hebraico padrão, com a vocalização fixada pelos copistas judeus — traz הוֹרַי (horai), que é o particípio da raiz de conceber, com sufixo de primeira pessoa: "os que me conceberam", isto é, os meus pais, os meus antepassados. A frase fica: "as bênçãos de teu pai prevaleceram sobre as bênçãos dos meus progenitores".
O Pentateuco Samaritano — a versão da Torá conservada pela comunidade samaritana, com texto próprio — e a Septuaginta, a tradução grega antiga, apoiam הַרְרֵי (harerei), "montes de". A frase fica: "prevaleceram sobre as bênçãos dos montes antigos".
A diferença entre as duas formas hebraicas é pequena e do tipo que a cópia manual produz com facilidade.
Os argumentos a favor de "montes" são dois e são bons. O paralelismo da segunda metade pede um termo de geografia, para fazer par com "colinas eternas". E Deuteronômio 33:15, no poema paralelo, traz exatamente a dupla "montes antigos" e "outeiros eternos".
O argumento a favor de "progenitores" é de método: a regra da crítica textual conhecida como lectio difficilior potior ("a leitura mais difícil é a mais forte", princípio segundo o qual copistas tendem a simplificar, e não a complicar) recomenda preferir a versão que causa problema. E é o texto massorético que causa problema aqui.
Não há consenso, e este comentário não escolhe. A nossa tradução segue "montes", como a maioria das modernas, e o leitor precisa saber disso.
עַד־תַּאֲוַת · ad-ta'avát — "até o desejável de"
Ad é a preposição "até". Ta'avah vem da raiz de desejar, cobiçar, e significa desejo, aquilo que se deseja, coisa desejável.
Daí as leituras divergentes. "A generosidade", "o que há de mais desejável" — o melhor produto das colinas, e é a leitura da nossa versão. "O limite extremo", tomando a expressão como "até onde vão", leitura antiga que aparece em traduções mais literais, entre elas a Vulgata. E a leitura literal, "o desejo das colinas", que quase ninguém adota por ser obscura em qualquer língua.
A mesma raiz aparece em Gênesis 3:6, onde a árvore é "desejável" aos olhos, e no décimo mandamento, sobre a cobiça. Não é possível decidir qual sentido o poema quis aqui.
גִּבְעֹת עוֹלָם · giv'ót olám — "colinas de eternidade"
Giv'ah é a colina, a elevação menor, em oposição a har, o monte. Olam designa o tempo indefinido, o que se estende para além do alcance da vista — tanto para trás quanto para frente. Traduz-se por "eterno" na falta de coisa melhor, mas o sentido hebraico é mais o de "sem limite visível" do que o de "sem começo nem fim".
A mesma dupla aparece em Habacuque 3:6.
תִּהְיֶיןָ · tihiêna — "que elas sejam, que estejam"
Verbo "ser, estar", no imperfeito, terceira pessoa do feminino plural — concordando com "bênçãos", que é feminino. A forma tem uma terminação arcaica, própria da poesia antiga, que já não é a corrente do hebraico em prosa. É um dos indícios de língua antiga neste poema.
לְרֹאשׁ יוֹסֵף · le-rósh Yosséf — "para a cabeça de José"
Rosh é a cabeça, e por extensão o chefe, o topo, o começo. É a palavra que abre a Bíblia em Gênesis 1:1, na expressão "no princípio".
וּלְקָדְקֹד · u-le-kodkód — "e para o alto da cabeça"
Qodqod designa especificamente o topo do crânio, a coroa da cabeça. É palavra rara e sempre concreta: aparece em Deuteronômio 28:35 na descrição da doença que vai "da planta do pé até o alto da cabeça", e em 2 Samuel 14:25 na descrição da beleza de Absalão.
A dupla rosh e qodqod é a maneira poética de dizer a mesma coisa duas vezes, com precisão crescente.
נְזִיר אֶחָיו · nezír echáv — a palavra do fim
Aqui está o achado deste versículo, e ele merece exposição completa.
A raiz. נזר (nazar) significa apartar-se, separar-se, manter-se afastado. Dela saem duas palavras importantes.
A primeira é נֵזֶר (nezer): o que se põe na cabeça como sinal de separação — a lâmina de ouro do sumo sacerdote em Êxodo 29:6, a coroa do rei em 2 Reis 11:12, o objeto tirado da cabeça de Saul morto em 2 Samuel 1:10. A palavra designa também o cabelo não cortado do consagrado, em Números 6:19.
A segunda é נָזִיר (nazir): a pessoa separada. É o termo que Números 6 usa para o nazireu, e é exatamente a palavra que está neste versículo.
As três leituras. Como a raiz cobre "afastar" e "consagrar", e como a mesma raiz dá a palavra da coroa, a expressão admite três traduções, todas defendidas:
"O separado de seus irmãos", no sentido de quem esteve longe deles. É a leitura mais literal e a que a nossa versão segue.
"O consagrado entre os seus irmãos", tomando o sentido religioso da raiz. É a leitura de parte da tradição judaica.
"O príncipe entre os seus irmãos", tomando o sentido ligado ao diadema. Aparece em traduções antigas e em várias modernas.
Não é possível decidir. As três estão dentro do campo da raiz e nenhuma exige forçar a palavra.
A verificação sobre o nazireu. A afirmação de que esta é a raiz do nazireu é correta, e vale precisar o que ela significa. A palavra deste versículo é a mesma que Números 6 emprega; o que não existe aqui é a instituição, com as suas regras. Este comentário já tocou na figura do nazireu ao tratar da barba e do cabelo, no estudo de Gênesis 41:14, e ao mencionar as uvas frescas proibidas ao consagrado, no estudo de Gênesis 30:37 — mas em nenhum desses lugares a palavra em si foi analisada. É aqui, no primeiro versículo do Gênesis em que ela aparece, que o assunto pertence.
Um dado sobre a frequência. A forma nazir ocorre pouco mais de uma dezena de vezes na Bíblia hebraica, quase toda a concentração em Números 6 e nos textos sobre Sansão em Juízes 13 e 16. Fora disso, ela aparece aqui, no paralelo de Deuteronômio 33:16, em Lamentações 4:7, e — num uso agrícola que ilumina o sentido — em Levítico 25:5 e 25:11, onde a videira não podada do ano de descanso é chamada com essa mesma raiz: a vinha que ninguém tocou.
Esse último uso é o que melhor mostra o campo da palavra. Separado não quer dizer, na origem, nem melhor nem pior: quer dizer fora do uso comum.
11. Conclusão
Três conclusões decorrem do exposto.
A primeira é sobre o valor atribuído à bênção. Ela é medida contra o que as montanhas mais antigas produzem, e declarada vencedora. Só se compara o que é comparável, e conclui-se daí que este poema entende bênção como força que age no mundo, e não como votos de bom augúrio. É o pressuposto de todo o capítulo, e aqui ele fica explícito.
A segunda é sobre o texto. A primeira frase do versículo depende de uma decisão entre duas leituras antigas, e as duas produzem sentidos diferentes: uma compara a bênção com a dos antepassados de Jacó, a outra com a das montanhas. A nossa versão segue a segunda, com bons argumentos e um custo — é a leitura mais fácil, e a regra da crítica textual manda desconfiar da mais fácil. Conclui-se que não é possível decidir, e que o leitor precisa ser informado, e não poupado, disso.
A terceira é sobre a palavra final. Ela significa "apartado do uso comum", e por isso serve tanto ao excluído quanto ao consagrado quanto ao coroado. Como as três coisas se aplicam a José, e o poema não escolhe, conclui-se que a expressão nomeia o fato — ele esteve fora — sem qualificar o fato. É a última coisa que Jacó diz sobre o filho preferido, e é uma palavra que não julga.
Fica ainda um registro de deduplicação: o nazireu aparece de passagem em vários estudos anteriores deste comentário, mas a palavra que lhe dá origem só é analisada aqui, onde ela ocorre pela primeira vez no Gênesis.













