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Gênesis 28:3

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✍️ Por Alberto Adriano·2 de setembro de 2026·⏱️ 19 min de leitura·👁 39 acessos
Que o Deus Todo-Poderoso o abençoe, o faça frutífero e o multiplique, até que você se torne uma multidão de povos.
Ancião de vestes brancas erguendo a mão sobre o filho em pé diante da tenda, o sol da manhã atravessando os panos e iluminando a cabeça do jovem.

Estudo


Que o Deus Todo-Poderoso o abençoe, o faça frutífero e o multiplique, até que você se torne uma multidão de povos.

1. Introdução

Depois de proibir e de ordenar, Isaque abençoa. Este é o versículo em que a bênção deixa de ser genérica e se torna expressamente a bênção de Abraão — retoma o nome divino da revelação de Gênesis 17 e as fórmulas centrais daquele pacto.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é o nome divino invocado. Isaque não diz apenas “Deus”: diz “Deus Todo-Poderoso”, o nome pelo qual Deus se apresentou a Abraão em Gênesis 17:1 e que voltará nos momentos decisivos do ciclo de Jacó.

O segundo é a bênção de fecundidade. Abençoar, tornar frutífero, multiplicar: a mesma fórmula da criação em Gênesis 1:28 e da saída da arca em Gênesis 9:1. Bênção patriarcal, aqui, é sobretudo promessa de descendência.

O terceiro é a “multidão de povos”. Não se promete apenas muitos descendentes, mas uma pluralidade de povos vindos dele — a promessa que redefiniu a identidade de Abraão em Gênesis 17:5-6, agora dita sobre o neto.

E há um detalhe de forma que atravessa tudo: Isaque não declara a bênção, pede-a.

2. Contexto Histórico e Cultural

El Shaddai: o nome divino dos patriarcas

“Deus Todo-Poderoso” traduz uma expressão que, no mundo do texto, funcionava como nome próprio. Ela entra no livro em Gênesis 17:1: “Sendo Abraão da idade de noventa e nove anos, apareceu-lhe o SENHOR, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda em minha presença e sê perfeito”.

O uso é seletivo. Não é o nome corrente de Deus na narrativa patriarcal — esse é YHWH, que aparecerá na revelação a Jacó no versículo 13 deste capítulo. É o nome reservado aos momentos de renovação do pacto e de transmissão da bênção: Gênesis 17:1, aqui, Gênesis 35:11, 43:14, 48:3 e 49:25. Quase todas essas ocorrências trazem junto uma promessa de descendência, o que muitos hebraístas leem como pista sobre o próprio sentido do nome.

Êxodo 6:3 formaliza a distinção: “Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como El Shaddai; mas pelo meu nome YHWH não lhes fui conhecido”. Os patriarcas caminham diante de um nome; o povo do êxodo receberá outro. Como conciliar isso com o uso de YHWH ao longo do próprio Gênesis é questão em disputa, e há mais de uma explicação defensável.

A tradição rabínica leu Shaddai como “aquele que basta”, imaginando Deus a dizer ao universo em expansão: chega. É leitura devocional bonita e etimologicamente frágil; vale citá-la como uso da tradição, não como análise do vocábulo.

Fecundidade como forma primeira da bênção

Frutificar e multiplicar é fórmula fixa no Gênesis. Aparece na criação (Gênesis 1:28), na saída da arca (Gênesis 9:1), na promessa sobre Ismael (Gênesis 17:20), na bênção a Jacó no retorno (Gênesis 35:11). Sempre com o mesmo assunto: descendência.

Isso não é ênfase acidental, e sim a estrutura de valores do livro. A bênção divina se manifesta primeiro na fertilidade — do casal, do rebanho, da terra. Não é conforto interior; é continuidade concreta da vida.

O pano de fundo é uma sociedade agrária com mortalidade infantil alta e vidas curtas, em que ter muitos filhos e netos era ao mesmo tempo sobrevivência prática — mão de obra, amparo na velhice — e sinal visível de favor divino. Nessa moldura, bênção sem fecundidade seria promessa sem cumprimento, e fecundidade sem bênção seria acaso biológico.

Daí também a angústia com que a esterilidade é vivida no restante do livro — Sara, Rebeca, Raquel, e depois Ana em 1 Samuel 1. Não é apenas frustração de expectativa social: é ficar de fora daquilo que a cultura define como o cerne de uma vida cumprida.

3. Análise Teológica do Versículo

“Que o Deus Todo-Poderoso o abençoe”

Repare em quem abençoa. Em Gênesis 27:27-29, Isaque falou em primeira pessoa, como quem dispõe: “Deus te dê do orvalho do céu... sirvam-te povos”. Aqui ele pede que outro abençoe. O pai se coloca como intermediário, não como fonte.

A diferença de tom entre as duas bênçãos é o achado central deste versículo. No capítulo anterior, Isaque agiu como se tivesse a bênção sob controle; aqui, roga por ela.

Cabe ler nisso um aprendizado. Ter abençoado sem saber quem, ter descoberto o engano e ter reconhecido que o ato era irrevogável são experiências que ensinam algo sobre o limite do próprio poder. O que ele deu por engano teve efeito; o que dá agora, ele pede. As duas coisas juntas sugerem uma conclusão que o texto não formula: a bênção patriarcal funciona sozinha, mas o conteúdo dela depende de quem a autoriza.

É leitura possível, não demonstrável. O Gênesis não diz que Isaque mudou — apenas o mostra falando de outro jeito.

“o faça frutífero e o multiplique”

Os dois verbos aparecem juntos tantas vezes que quase formam uma expressão única. E ambos põem Deus como quem age e Jacó como quem recebe: não é Jacó que frutifica, é Deus que o faz frutificar.

A duplicação não é enfeite. Não se promete apenas fertilidade — ter alguns filhos —, mas multiplicação sustentada: que os muitos também tenham muitos.

E note-se o que a bênção deixa de fora. Não fala em riqueza, poder, sabedoria ou honra. Fala em descendência. A vida bem-sucedida, nesse horizonte, é a que produz continuidade; o resto vem depois.

“até que você se torne uma multidão de povos”

A multiplicação tem um destino, e o destino é plural: não um povo grande, mas uma assembleia de povos.

A expressão é rara. Aparece na revelação do pacto a Abraão, em Gênesis 17:4, aqui, e ecoa em Gênesis 35:11, quando Deus disser a Jacó em pessoa: “uma nação, sim, uma multidão de nações sairá de ti”. As três ocorrências estão ligadas de propósito, e ligam três momentos — Abraão, Jacó abençoado pelo pai, Jacó abençoado por Deus.

O termo escolhido para “povos” não é o que o hebraico usa para nações estrangeiras. Designa unidades com identidade coletiva própria, e é isso que torna a promessa ambiciosa: Jacó não fundará uma família nem uma tribo, mas algo que se divide em muitos e continua sendo um.

O tom da fala inteira

Os quatro verbos estão no mesmo registro de desejo, todos com Deus por agente. Não é a bênção que afirma um fato, nem a que realiza pelo próprio dizer, como a de Gênesis 27:27-29. É bênção que pede.

E o pedido será atendido no mesmo capítulo. No versículo 13, o Deus invocado aparece a Jacó e promete diretamente aquilo que o pai acabou de rogar — sem que Jacó tenha dito uma palavra a respeito.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

El Shaddai (Deus Todo-Poderoso)

O nome divino próprio da tradição patriarcal. Aparece pela primeira vez em Gênesis 17:1, quando Deus se revela a Abraão, e volta neste versículo e em outros três (Gênesis 35:11, quando Jacó está em Betel no retorno; Gênesis 43:14, quando Israel envia os filhos ao Egito; e Gênesis 48:3, no leito de morte dele).

Segundo a distinção que Êxodo 6:3 explicita, é o nome sob o qual os patriarcas conheceram Deus, enquanto o nome YHWH só se tornou plenamente conhecido a partir de Moisés. A explicação disso é discutida. A crítica documentária clássica atribui os dois nomes a fontes literárias distintas; a leitura tradicional os toma como faces do mesmo Deus, uma acentuando a potência, outra a presença no pacto. Não há consenso, e cada leitura ilumina algo que a outra deixa na sombra.

Isaque

Invoca sobre o filho o Deus do próprio pai. Aos cerca de 137 anos, transmite a bênção que ele mesmo recebeu — Gênesis 25:11 registra que “depois da morte de Abraão, Deus abençoou seu filho Isaque”. O ancião que fala aqui é elo, não origem.

Jacó

Recebe em silêncio. Não fala, não responde, não pergunta o que a promessa significa. Os doze filhos que terá serão o primeiro cumprimento concreto do que está sendo dito sobre ele agora.

Abraão

Não é nomeado, e está em cada palavra. O nome divino é o que se revelou a ele; a fórmula da fecundidade é a que ele recebeu; a multidão de povos é a promessa que lhe trocou o nome, de Abrão para Abraão, em Gênesis 17:5. Isaque não inventa nada: repassa.

A multidão de povos

Ainda não existe. É a única personagem do versículo que está inteiramente no futuro, e o restante do Gênesis começará a produzi-la de imediato — os doze filhos de Jacó, que se tornarão as doze tribos.

5. Pontos de Ensino

Abençoar em nome de quem abençoou antes

Isaque invoca sobre Jacó o nome divino pelo qual Abraão foi alcançado. A bênção não se apresenta como nova: apresenta-se como a mesma, chegando à terceira geração.

Bênção, aqui, quer dizer descendência

Não riqueza, não poder, não paz interior. O que se pede é que a vida de Jacó produza vida além dele. É a definição de vida bem-sucedida que o Gênesis pressupõe do começo ao fim.

Pedir vale mais que declarar

Depois do que aconteceu no capítulo anterior, Isaque fala de um jeito diferente: em vez de dispor da bênção, roga por ela. Quem pede reconhece que não é dono do que entrega.

A promessa é de pluralidade, não de uniformidade

O que se anuncia é uma assembleia de povos — muitos, com identidades próprias, saídos de um. A continuidade prometida não é repetição do mesmo homem em cópias.

Quem transmite também recebeu

Isaque foi abençoado depois da morte de Abraão, e agora abençoa. Cada elo da cadeia esteve, um dia, no lugar de Jacó — calado, recebendo.

6. Aspectos Filosóficos

O que segue é leitura do comentarista. O Gênesis narra sem teorizar.

Por que gerar é tratado como a bênção maior

A ênfase do versículo pode estranhar quem lê hoje, acostumado a entender bênção como realização pessoal, paz interior ou sentido de vida. Aqui a bênção fundamental é ter filhos, e muitos.

Hannah Arendt, filósofa alemã radicada nos Estados Unidos, deu a isso um nome em The Human Condition (“A Condição Humana”, 1958): natalidade. Para ela, o fato de que seres humanos nascem — e não apenas morrem — é a condição do agir. Cada nascimento traz ao mundo alguém capaz de começar algo que não estava previsto, e é essa capacidade de iniciar que impede a história de ser mera repetição.

Lida por essa lente, a promessa sobre Jacó não é quantitativa. Não é “tenha muitos filhos” como quem acumula. É participação naquilo que, segundo Arendt, faz do mundo humano um lugar em que algo novo ainda pode acontecer.

Isso ajuda a entender a angústia da esterilidade nas narrativas do livro. Não é só frustração de expectativa social: é ficar fora daquilo que a cultura entende por futuro.

Continuidade que não é repetição

“Multidão de povos” anuncia pluralidade a partir de um homem só. Um vira muitos — e a questão que isso levanta é antiga: o que os muitos conservam do um, e o que trazem de próprio?

Emmanuel Levinas, filósofo francês nascido na Lituânia, tratou exatamente disso em Totalité et infini (“Totalidade e Infinito”, 1961), na parte em que discute a fecundidade. O argumento dele é que o filho não é obra do pai nem prolongamento dele: é outro. O pai não se continua no filho como quem estende a própria vida; encontra nele alguém que lhe escapa.

Levinas via nisso uma forma de transcendência disponível na experiência comum. Quem gera não vence a morte nem se duplica: entra numa relação com um futuro que não vai controlar.

Aplicado à promessa, o ponto é preciso. Os povos que virão de Jacó não serão réplicas dele. Serão outros, com identidades próprias e histórias que ele não veria nem aprovaria inteiramente — e é justamente isso que faz da promessa promessa de continuidade, e não de eco.

O restante do Gênesis dá razão à leitura de um modo quase brutal. Os doze filhos serão profundamente diferentes entre si, vários deles em conflito aberto, e um será vendido pelos outros. A multidão prometida não é uma família harmoniosa: é uma pluralidade real, com tudo o que isso custa.

Onde a leitura precisa de freio

Arendt e Levinas escrevem sobre o valor de cada nascimento e sobre a alteridade de cada filho. O texto patriarcal fala em número, em multiplicação, em povos — e não demonstra interesse pelo indivíduo enquanto tal. Usar essas categorias para iluminar a promessa é legítimo; dizer que o Gênesis as sustenta é ir além do que ele traz.

Há ainda um limite mais concreto. A bênção é dita a um homem, sobre a descendência dele, e não faz caso nenhum de quem vai gerá-la. Léa e Raquel ainda não existem no texto, e quando existirem serão elas que carregarão o peso da promessa. Isso o versículo não diz, e a omissão faz parte da leitura.

7. Aplicações Práticas

Pedir em vez de dispor

Isaque não diz “eu te abençoo”; diz “que Deus te abençoe”. Quem age apenas por autoridade própria tende a superestimar o alcance do que pode entregar. Situar a própria ação dentro do que a fundamenta — um princípio, uma tradição, Deus, conforme a crença de cada um — não anula a iniciativa: dá a ela o tamanho certo.

Transmitir sem reinventar

A fórmula não é criação de Isaque; é a mesma que Abraão recebeu. A força dela está justamente em ser a mesma. Em muitas práticas — profissionais, familiares, religiosas — repetir com fidelidade o que se recebeu tem valor próprio, e a novidade que se desliga do que veio antes costuma esvaziar-se rápido.

Investir no que dura além de si

A bênção não fala em felicidade: fala em continuidade concreta. Sem transpor isso mecanicamente para hoje — a natalidade não é escolha universalmente celebrada, e nem toda vida se realiza em filhos —, resta uma observação que atravessa culturas: construir algo que sobreviva à própria presença é uma necessidade que poucos conseguem ignorar sem custo.

Aceitar o que ainda não se entende

Jacó recebe em silêncio. Não pergunta o que “multidão de povos” quer dizer na prática, nem pede um cronograma. Algumas promessas são grandes demais para caber na imaginação de quem as recebe, e exigir compreensão completa antes de agir costuma ser a melhor maneira de não sair do lugar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Esta bênção repete a de Gênesis 27:27-29?

Não. As duas tratam de coisas diferentes.

A de Gênesis 27 trata de domínio: prosperidade material, senhorio sobre os irmãos, poder político — “sirvam-te povos, e nações se te curvem, sê senhor de teus irmãos”. É bênção de tom quase real.

Esta, ampliada no versículo seguinte, trata de fecundidade e de posse da terra prometida. São exatamente as duas promessas do pacto com Abraão. Somadas, as duas bênçãos dão a Jacó a herança completa: a primeira transferiu a primazia sobre Esaú, ainda que por engano; a segunda transfere o pacto.

“Multidão de povos” significa só Israel, ou mais que isso?

A leitura tradicional judaica costuma restringir a promessa a Israel: as doze tribos são a multidão de povos que sai de Jacó, unidades dentro de uma nação só.

Uma leitura mais ampla observa que a bênção original a Abraão, em Gênesis 12:3, prometia que “em ti serão benditas todas as famílias da terra” — e essa promessa reaparece no versículo 14 deste mesmo capítulo. Se o horizonte é esse, a multidão de povos aponta para além da linhagem étnica.

O Gênesis não decide. Registra a promessa aberta, e as tradições posteriores — rabínicas, cristãs, modernas — a preencheram de maneiras diferentes.

A promessa se cumpre?

Em camadas. De imediato, Jacó terá doze filhos, que darão nome às doze tribos. Em prazo médio, essas tribos formarão um povo que se multiplica no Egito — Êxodo 1:7 registra que “os filhos de Israel se fecundaram, e aumentaram muito, e se multiplicaram, e foram fortalecidos grandemente”. Em prazo longo, o povo se expande, se dispersa, e as promessas de alcance universal voltam pela boca dos profetas.

Como todas as promessas do Gênesis, o cumprimento é progressivo e nunca chega inteiro de uma vez. Quem espera realização imediata lê o livro contra a própria estrutura dele.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 17:1 — “Eu sou o Deus Todo-Poderoso.” A revelação original do nome a Abraão, que Isaque agora invoca sobre Jacó.

Gênesis 17:4-6 — “Serás pai de multidão de nações... te farei pai de muitas nações.” A promessa que este versículo retoma quase palavra por palavra.

Gênesis 1:28 — “Frutificai e multiplicai-vos.” A bênção da criação, que fixou a linguagem bíblica da bênção como fecundidade.

Gênesis 9:1 — “Sede fecundos, e multiplicai-vos.” A mesma fórmula sobre a humanidade recomeçada depois do dilúvio.

Gênesis 25:11 — “Depois da morte de Abraão, Deus abençoou seu filho Isaque.” O momento em que quem abençoa aqui foi ele mesmo abençoado.

Gênesis 35:11 — “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; frutifica e multiplica-te; uma nação, sim, uma multidão de nações sairá de ti.” Deus, no retorno a Betel, ratifica pessoalmente o que Isaque aqui apenas pede.

Gênesis 48:3-4 — Jacó, no leito de morte, conta a José: “Deus Todo-Poderoso me apareceu em Luz... e disse-me: Eis que te farei frutificar e te multiplicarei, e te tornarei em multidão de povos.” A promessa recontada em primeira pessoa, no fim da vida.

Êxodo 6:3 — “Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como El Shaddai; mas pelo meu nome YHWH não lhes fui conhecido.” A distinção explícita entre os dois nomes divinos e as duas fases da revelação.

Êxodo 1:7 — “Os filhos de Israel se fecundaram, e aumentaram muito... de maneira que a terra se encheu deles.” O primeiro grande cumprimento do que se pede aqui.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Que o Deus Todo-Poderoso o abençoe, o faça frutífero e o multiplique, até que você se torne uma multidão de povos.

Texto hebraico

וְאֵל שַׁדַּי יְבָרֵךְ אֹתְךָ וְיַפְרְךָ וְיַרְבֶּךָ וְהָיִיתָ לִקְהַל עַמִּים

Transliteração

we-El Shaddai yevarekh otkha we-yafrekha we-yarbekha, we-hayita li-qehal ammim.

Análise palavra por palavra

וְאֵל שַׁדַּי — we-El Shaddai, “e El Shaddai” (“Deus Todo-Poderoso”).

Conjunção we-, “e”, ligando esta fala ao imperativo anterior do versículo 2 (“toma... e que El Shaddai”).

El: nome semítico geral para “Deus”. Aparece em toda a região do antigo Oriente Próximo, e também no panteão cananeu como nome do deus supremo. No hebraico bíblico, é usado tanto como nome genérico quanto em construções compostas (El Elyon = Deus Altíssimo em Gênesis 14:18-22; El Roi = Deus que vê em Gênesis 16:13; El Olam = Deus Eterno em Gênesis 21:33; e El Shaddai aqui).

Shaddai: epíteto de etimologia discutida. As três hipóteses principais: de shadad (“ser forte, dominar”, dando “Todo-Poderoso”); de shad (“peito, seio”, dando “Deus da Fecundidade”); do acadiano šadu (“montanha”, dando “Deus da Montanha”). A tradução tradicional segue a primeira, a Septuaginta traduziu por Pantokrator (“Onipotente”).

יְבָרֵךְ אֹתְךָ — yevarekh otkha, “te abençoe”.

Yevarekh: verbo barakh, “abençoar”, na forma Piel (intensiva) do imperfeito. Terceira pessoa masculina singular. Em contexto votivo, o imperfeito tem valor de desejo — “que te abençoe”.

Otkha: pronome objeto direto (marcador et + sufixo pronominal), “te” (a ti).

וְיַפְרְךָ — we-yafrekha, “e te faça frutificar”.

Verbo parah, “ser frutífero, produzir fruto”, na forma Hiphil (causativa) do imperfeito com sufixo pronominal. Terceira pessoa masculina singular. Valor votivo.

A raiz parah é etimologicamente ligada a peri, “fruto”. Na forma causativa, significa “fazer frutificar, fazer produzir fruto” — em contexto humano, “dar descendência”.

Aparece na fórmula original da bênção da criação em Gênesis 1:28 (peru ur-vu, “sede fecundos e multiplicai-vos”). É verbo central da linguagem bíblica da fecundidade.

וְיַרְבֶּךָ — we-yarbekha, “e te multiplique”.

Verbo rabah, “multiplicar-se, tornar-se muito”, na forma Hiphil (causativa) do imperfeito com sufixo pronominal. Terceira pessoa masculina singular. Valor votivo.

Também aparece na fórmula de Gênesis 1:28 (revu, “multiplicai-vos”). O par parah + rabah é quase idiomático em contextos de bênção de fecundidade — os dois verbos frequentemente aparecem juntos.

וְהָיִיתָ לִקְהַל עַמִּים — we-hayita li-qehal ammim, “e sejas para assembleia de povos”.

We-hayita: conjunção we- + verbo hayah (“ser, tornar-se”), no perfeito com valor de consecutivo (segunda pessoa masculina singular). Construção comum em hebraico para expressar consequência ou finalidade — “e assim sejas”, “e por isso te tornes”.

Li-qehal: preposição le- (“para”) + qehal, forma construta de qahal (“assembleia, congregação”). A preposição le- aqui indica finalidade ou destino — “para [tornar-se] assembleia”.

Qahal: substantivo importante no vocabulário religioso do hebraico bíblico. Designa reunião formal do povo, especialmente em contextos cúlticos (a “assembleia de Israel” diante de Deus). A Septuaginta traduziu qahal geralmente por ekklesia — palavra que passará ao Novo Testamento (e ao português “igreja”) com sentido específico. Aqui, aplicada em plural (“assembleia de povos”), designa reunião de múltiplas unidades étnicas.

Ammim: plural de am, “povo”. Diferente de goyim (“nações”, mais frequentemente aplicado a povos estrangeiros), am designa unidade étnica com identidade coletiva — povo no sentido de coletivo com raízes comuns.

A fórmula “assembleia de povos” (qehal ammim) é rara. Aparece em Gênesis 17:4 (na revelação a Abraão), aqui, e ecoa em Gênesis 35:11. As três ocorrências estão deliberadamente conectadas — a fórmula liga Abraão ao Jacó abençoado pelo pai (aqui) e ao Jacó abençoado diretamente por Deus (em 35).

Estrutura da bênção

Quatro verbos votivos encadeados: abençoar, fazer frutificar, multiplicar, sejas (para). Todos com Deus como agente e Jacó como beneficiário. A construção é escalonada — começa com bênção geral, especifica em fecundidade e multiplicação, culmina com o destino (“tornar-se assembleia de povos”).

É construção retórica cuidadosa. Cada verbo intensifica ou especifica o anterior. Bênção genérica > fecundidade concreta > multiplicação sustentada > pluralidade de povos como resultado. A progressão do abstrato (bênção) ao concreto (povos) é característica das bênçãos patriarcais formais.

11. Conclusão

Com base no que foi exposto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é sobre o que muda quando o nome é invocado. Isaque poderia ter dito apenas “Deus”. Ao dizer o nome sob o qual Deus se apresentou a Abraão, transforma um desejo paterno em continuação de um pacto que já existia antes dele. A bênção deixa de ser o que um velho quer para o filho e passa a ser o que uma linhagem carrega. Segue-se daí que o conteúdo dela não é negociável por quem a pronuncia: Isaque só pode pedir o que já foi prometido.

A segunda é sobre o que o versículo entende por bênção. Não há aqui riqueza, poder, honra nem sossego. Há descendência, e só. Isso não é limitação do vocabulário: é a definição de vida cumprida que sustenta o livro inteiro, e explica por que a esterilidade é vivida em Gênesis como catástrofe e não como contratempo. Uma vida que não continua, nessa moldura, é uma vida interrompida — por mais que tenha sido próspera.

A terceira é sobre a forma do pedido. Isaque não declara a bênção: roga por ela, e todos os verbos ficam com Deus por agente. É o contrário do que ele fez no capítulo anterior, quando falou como quem dispunha. Não é possível decidir se a mudança vem de arrependimento, de aprendizado ou apenas do registro próprio das bênçãos de despedida — o texto não comenta. O que se pode observar é o resultado: a bênção que ele pede é atendida dez versículos adiante, e por quem ele invocou, não por ele.

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