Você já não se chamará Abrão; o seu nome será Abraão, porque eu o constituí pai de muitas nações.
1. Introdução
O texto dá uma explicação para o nome novo: porque eu o constituí pai de muitas nações.
E aqui é preciso ser honesto, porque o ponto é delicado: "Abraão" não deriva linguisticamente de "pai de multidão".
A explicação do texto é um jogo com o som das palavras, não uma derivação. E isso não é defeito — é como funcionam praticamente todas as explicações de nome no Antigo Testamento.
2. Contexto Histórico e Cultural
Os dois nomes
Abram significa, com boa segurança, algo como "pai exaltado" ou "o pai é exaltado".
Abraham é a forma nova. O texto a explica por "pai de multidão".
O problema
A explicação não fecha do ponto de vista linguístico.
Falta explicar de onde viria uma sílaba, e a palavra hebraica para multidão não entra na formação do nome do modo que a explicação sugere.
O que a maioria dos estudiosos propõe
Que as duas formas sejam variantes do mesmo nome — uma dialetal ou arcaica, outra expandida.
Nesse caso, o texto não estaria dando etimologia, e sim aproximando sons.
Isso é problema?
Não, e convém dizer por quê: praticamente todas as explicações de nome no Antigo Testamento funcionam assim.
Quem troca o nome
No mundo antigo, renomear era ato de autoridade. Faraó renomeia José; o rei da Babilônia renomeia Daniel e os companheiros.
3. Análise Teológica do Versículo
"Você já não se chamará Abrão"
Convém começar pelo que se perde, porque o texto trata a troca como substituição e não como acréscimo.
O nome antigo é Avram.
A sua composição é razoavelmente clara e há bom acordo a respeito: junta o substantivo que significa pai e um elemento ligado à ideia de altura, elevação. O sentido seria algo como "pai exaltado" ou, mais provavelmente, "o pai é exaltado" — sendo "o pai", nesse tipo de nome, uma referência à divindade.
Nomes assim são comuns no ambiente semita, e o padrão é conhecido: uma afirmação curta sobre a divindade, usada como nome próprio.
Vale registrar que o nome, portanto, não falava originalmente sobre a paternidade humana de quem o carregava. Falava sobre uma divindade exaltada.
A ironia é considerável e o texto não a comenta: o homem chamado "pai exaltado" chegou aos noventa e nove anos com um filho só, de escrava.
"o seu nome será Abraão"
A forma nova é Avraham.
A diferença entre as duas, no hebraico, é a inserção de uma consoante e a vocalização correspondente.
Do ponto de vista do som, é uma alteração pequena. Do ponto de vista do texto, é uma mudança de identidade.
"porque eu o constituí pai de muitas nações"
Aqui está o ponto delicado do versículo, e convém tratá-lo com franqueza, porque a maioria das exposições populares o atravessa sem notar.
O texto oferece uma explicação, introduzida por uma conjunção causal: porque.
E a explicação retoma exatamente as duas palavras do versículo 4: pai, e multidão.
A sugestão é evidente: Avraham viria de av hamon, pai de multidão.
O problema é que a derivação não funciona linguisticamente.
Convém explicar por quê, sem tecnicismo excessivo.
Primeiro: a palavra hebraica para multidão tem uma consoante que não aparece no nome. Se o nome viesse dela, essa consoante deveria estar lá, e não está.
Segundo: sobra no nome uma sílaba que a explicação não dá conta de justificar.
Ou seja: a explicação aproxima sons, e não deriva uma palavra da outra.
O que se propõe no lugar
A explicação mais aceita entre estudiosos é que Avram e Avraham sejam duas formas do mesmo nome.
Línguas semitas próximas ao hebraico conhecem elementos que permitiriam a forma expandida, e há quem veja em Avraham uma variante dialetal, ou arcaica, ou simplesmente uma forma alongada — sem mudança de sentido.
Nesse caso, o nome novo significaria o mesmo que o antigo, e a mudança seria de forma, não de conteúdo.
Não é possível decidir com segurança, e convém registrar que a questão é discutida.
Por que isso não é um problema
Convém agora dizer o que essa constatação significa e o que ela não significa, porque a confusão aqui é frequente e faz estrago.
Não significa que o texto esteja errado.
Significa que o texto não está fazendo o que um dicionário faria.
As explicações de nome no Antigo Testamento são, quase sem exceção, jogos de som — o que os estudiosos chamam de etimologia popular. Elas ligam um nome a um evento ou a um significado por semelhança sonora, e não por derivação técnica.
Os exemplos são muitos e vale conhecê-los, porque mostram que se trata de um procedimento, e não de um deslize isolado.
Isaque é explicado a partir do verbo rir, e a ligação sonora é boa — mas a forma do nome sugere construção com elemento divino, algo como "Deus sorriu".
Moisés recebe explicação a partir de um verbo hebraico que significa tirar, retirar das águas — sendo que o nome é, com grande probabilidade, egípcio, e significa "filho", elemento que aparece em nomes como Tutmés e Ramsés. E a explicação é posta na boca de uma princesa egípcia, falando hebraico.
Babel é explicada pelo verbo hebraico de confundir, quando o nome, em acádico, significa "porta do deus".
Caim, Sete, Noé, Jacó, os doze filhos de Jacó — todos recebem explicações por semelhança de som.
Ou seja: o Antigo Testamento explica nomes assim o tempo todo. Não é falha; é o modo como aqueles textos operam.
E vale acrescentar uma coisa: o jogo sonoro não era visto, naquele mundo, como recurso menor. A semelhança entre um nome e uma palavra era considerada significativa em si — sinal de correspondência entre a coisa e o seu nome.
Quem exige do texto uma etimologia técnica está cobrando dele uma operação que só faria sentido muitos séculos depois.
Renomear é ato de autoridade
Vale registrar o que o gesto significa no mundo daquela cena.
Dar nome, e sobretudo trocar nome, é ato de quem tem poder sobre o outro.
O Gênesis mostrará o faraó trocando o nome de José. O livro de Daniel mostrará o chefe dos eunucos babilônios trocando os nomes de Daniel e dos seus companheiros — e os nomes novos, note-se, contêm nomes de divindades babilônicas.
Nos livros dos Reis, monarcas estrangeiros trocam os nomes de reis vassalos que colocam no trono.
O padrão é constante: quem renomeia manda.
Aqui, portanto, a troca de nome não é apenas simbólica de uma nova etapa. É afirmação de autoridade sobre aquele homem.
E convém notar que Abrão não responde nada. Recebe o nome novo em silêncio, como recebeu tudo o mais desde o versículo 3.
O tempo do verbo
Uma observação final, que retoma o que ficou anotado no versículo 4.
Lá, a construção era de passagem de estado: virás a ser pai de muitas nações. Algo por vir.
Aqui, o verbo está no passado: eu constituí, eu fiz de você pai de muitas nações.
A diferença é notável, e o texto não a comenta.
Num versículo, a paternidade é futuro. No seguinte, é fato consumado — dito a um homem de noventa e nove anos que ainda não tem o filho da promessa.
Vale registrar as leituras possíveis sem escolher entre elas.
Há quem veja aí o chamado perfeito profético, construção em que algo futuro é enunciado no passado por ser tido como certo. O recurso existe no hebraico e é reconhecido.
Há quem entenda que a constituição já ocorreu no plano da decisão divina, ainda que não na realidade observável.
E há quem note simplesmente que o hebraico não organiza os tempos verbais como as nossas línguas, e que extrair disso conclusão teológica é arriscado.
Não é possível decidir. Registro a mudança porque ela está no texto e porque, uma vez notada, não se desfaz: entre o versículo 4 e o 5, uma promessa vira um fato.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Abrão — nome que significa, provavelmente, "o pai é exaltado", com referência a uma divindade.
Abraão — a forma nova; o texto a explica por "pai de multidão".
A explicação do texto — jogo de som, e não derivação linguística; procedimento comum no Antigo Testamento.
Deus — quem renomeia, e renomear é ato de autoridade.
José e Daniel — outros casos bíblicos de renomeação por quem detém poder.
Isaque, Moisés, Babel — exemplos de explicações de nome por semelhança sonora.
5. Pontos de Ensino
"Abrão" quer dizer "o pai é exaltado". E o "pai" ali é a divindade.
A ironia não é comentada. O homem chamado assim tinha um filho só, de escrava.
"Abraão" não deriva de "pai de multidão". Falta uma consoante e sobra uma sílaba.
A explicação é jogo de som. Não derivação técnica.
Isso não é defeito do texto. É como o Antigo Testamento explica nomes.
Moisés, Babel e Isaque funcionam igual. Todos por semelhança sonora.
Provavelmente as duas formas são variantes. Dialetal ou arcaica; é discutido.
Renomear é ato de autoridade. Faraó com José, Babilônia com Daniel.
Ele recebe o nome em silêncio. Como tudo desde o versículo 3.
O verbo muda de tempo. No versículo 4 é futuro; aqui é passado.
6. Aspectos Filosóficos
O que o nome antigo dizia
Convém começar pelo que se perde, já que o texto trata a troca como substituição.
A composição de Avram é razoavelmente clara e há bom acordo a respeito: reúne o substantivo que significa pai e um elemento ligado a altura, elevação. O sentido seria algo como "pai exaltado" ou, mais provavelmente, "o pai é exaltado" — sendo "o pai", nesse tipo de nome, referência à divindade.
Nomes assim são comuns no ambiente semita: uma afirmação curta sobre a divindade, usada como nome próprio.
Vale reter, portanto, que o nome não falava originalmente da paternidade humana de quem o carregava.
E vale registrar a ironia que o texto não comenta: o homem chamado "pai exaltado" chegou aos noventa e nove anos com um filho só, nascido de escrava.
A explicação que o texto dá
O versículo oferece uma razão, introduzida por conjunção causal, e a razão retoma exatamente as duas palavras do versículo anterior: pai, e multidão.
A sugestão é transparente — Avraham viria de av hamon, pai de multidão.
E aqui é preciso ser franco, porque a maioria das exposições populares atravessa o ponto sem notar: a derivação não funciona linguisticamente.
Duas razões, sem tecnicismo.
A palavra hebraica para multidão tem uma consoante que não aparece no nome. Se o nome viesse dela, essa consoante estaria lá.
E sobra no nome uma sílaba que a explicação não justifica.
Ou seja: aproximam-se sons, não se deriva uma palavra da outra.
O que se propõe no lugar
A explicação mais aceita entre estudiosos é que as duas formas sejam variantes do mesmo nome.
Idiomas semitas aparentados dispõem de recursos que tornariam possível a forma mais longa, e daí a proposta de que se trate de variação de dialeto, de arcaísmo ou de mero alongamento, sem alteração no que o nome diz.
Nesse caso, o nome novo significaria o mesmo que o antigo, e a mudança seria de forma e não de conteúdo.
Segurança para decidir não existe, e o assunto permanece em debate.
Por que isso não derruba nada
Convém agora dizer o que a constatação significa e o que não significa, porque a confusão aqui faz estrago.
Erro não há. O que há é um texto ocupado com outra coisa que não a tarefa de um verbete.
As explicações de nome no Antigo Testamento são, quase sem exceção, jogos de som — o que se chama de etimologia popular. Ligam um nome a um evento ou a um sentido por semelhança sonora, e não por derivação técnica.
Os exemplos são muitos, e conhecê-los mostra que se trata de um procedimento, e não de deslize isolado.
Ao nome de Isaque associa-se o verbo de rir, e a semelhança sonora é boa, ainda que a estrutura da palavra aponte para composição com termo divino — algo na linha de "Deus sorriu".
Moisés recebe explicação a partir de um verbo hebraico que significa tirar das águas, sendo que o nome é, com grande probabilidade, egípcio, e significa "filho" — elemento que aparece em Tutmés e Ramsés. E a explicação é posta na boca de uma princesa egípcia, falando hebraico.
Quanto a Babel, invoca-se o verbo hebraico de confundir, embora em acádico a palavra queira dizer "porta do deus".
Caim, Sete, Noé, Jacó e os doze filhos de Jacó recebem todos explicações por semelhança de som.
Convém acrescentar algo que muda a leitura: naquele mundo, o jogo sonoro não era recurso menor. A semelhança entre um nome e uma palavra era tida como significativa em si, sinal de correspondência entre a coisa e o seu nome.
Quem exige do texto uma etimologia técnica cobra dele uma operação que só faria sentido muitos séculos depois.
Quem renomeia manda
Vale registrar o que o gesto significa naquele mundo.
Dar nome, e sobretudo trocar nome, é ato de quem tem poder sobre o outro.
O Gênesis mostrará o faraó trocando o nome de José. O livro de Daniel mostrará o chefe dos eunucos babilônios trocando os nomes de Daniel e dos companheiros — e os nomes novos contêm nomes de divindades babilônicas. Nos livros dos Reis, monarcas estrangeiros trocam os nomes de vassalos que põem no trono.
O padrão é constante.
A troca de nome aqui não é, portanto, apenas símbolo de nova etapa. É afirmação de autoridade sobre aquele homem.
E convém notar que ele não responde nada — recebe o nome novo em silêncio, como recebeu tudo o mais desde o versículo 3.
A promessa que vira fato
Uma observação final, que retoma o que ficou anotado no versículo anterior.
No versículo anterior a paternidade vinha projetada adiante, como quem ainda há de tornar-se aquilo.
Agora o verbo recua para o pretérito: eu te constituí.
Num versículo a paternidade é futuro; no seguinte é fato consumado — dito a um homem de noventa e nove anos que ainda não tem o filho da promessa.
As leituras possíveis são três, e nenhuma se impõe.
Uma corrente invoca o perfeito profético, recurso reconhecido da língua, em que se enuncia como passado aquilo que se tem por certo no futuro.
Outra entende que a coisa já se consumou onde as decisões divinas se tomam, ainda que nada disso se veja no mundo.
E há quem apenas lembre que a distribuição dos tempos verbais em hebraico não corresponde à das nossas línguas, de sorte que tirar dali teologia é temerário.
Não é possível decidir. Registro porque, uma vez notada, a mudança não se desfaz.
7. Aplicações Práticas
O texto não está fazendo o trabalho de um dicionário
A explicação oferecida — que o nome novo venha de "pai de multidão" — não funciona linguisticamente: falta no nome uma consoante que a palavra hebraica para multidão tem, e sobra uma sílaba que a explicação não justifica. Aproximam-se sons, não se deriva uma palavra da outra.
Isso não significa que o texto esteja errado. Significa que ele opera de outro modo.
Vale para toda leitura: antes de acusar um texto de imprecisão, verifique que tipo de precisão ele estava buscando. Cobrar de um relato antigo o rigor de um verbete é erro de quem lê, não de quem escreveu.
Isso é procedimento, não deslize
As explicações de nome no Antigo Testamento são quase todas jogos de som. Isaque é ligado ao verbo rir, embora a forma do nome sugira "Deus sorriu". Moisés é explicado por um verbo hebraico de tirar das águas, sendo o nome provavelmente egípcio e significando "filho" — e a explicação é posta na boca de uma princesa egípcia falando hebraico. Babel é explicada pelo verbo hebraico de confundir, quando em acádico significa "porta do deus".
Caim, Sete, Noé, Jacó e os doze filhos seguem o mesmo padrão.
Saber disso protege de dois erros opostos: o de quem descarta o texto ao descobrir um caso, e o de quem defende cada etimologia como se fosse técnica. Nenhum dos dois leu o suficiente para ver o padrão.
Semelhança de som era significativa naquele mundo
O jogo sonoro não era, ali, recurso menor de retórica. A correspondência entre um nome e uma palavra era tida como reveladora em si mesma — sinal de que havia relação entre a coisa e o modo de nomeá-la.
Exigir etimologia técnica é cobrar do texto uma operação que só faria sentido muitos séculos depois.
Vale ao ler qualquer cultura distante da sua: antes de julgar um raciocínio estranho, pergunte o que aquele povo considerava uma boa razão. Muita coisa que nos parece ingênua era, no contexto, argumento sério.
Quem troca o seu nome tem poder sobre você
Dar nome, e sobretudo trocar nome, é ato de autoridade. O faraó troca o nome de José; o chefe dos eunucos babilônios troca os de Daniel e dos companheiros, e os novos contêm nomes de divindades babilônicas; nos Reis, monarcas estrangeiros renomeiam os vassalos que põem no trono.
O padrão é constante, e aqui a troca não é só símbolo de nova etapa: é afirmação de autoridade sobre aquele homem, que a recebe em silêncio.
Repare em quem tem permissão para lhe atribuir rótulos — apelido, cargo, diagnóstico, reputação. Nomear é sempre exercício de poder, e vale saber a quem você concedeu esse poder e se pretendia concedê-lo.
A ironia que o texto não comenta
"Abrão" significa provavelmente "o pai é exaltado", com "o pai" sendo referência à divindade. Ou seja, o nome nunca falou da paternidade humana de quem o carregava.
E o homem chamado assim chegou aos noventa e nove anos com um filho só, nascido de escrava. O narrador não sublinha isso em momento algum.
Textos que não explicam as próprias ironias confiam no leitor. Vale desconfiar do contrário: quando um relato insiste em apontar o próprio significado, costuma ser porque não confia que ele se sustente sozinho.
Uma promessa que muda de tempo verbal
No versículo anterior a construção era de passagem de estado — virás a ser pai de muitas nações, algo por vir. Aqui o verbo está no passado: eu te constituí. Num versículo a paternidade é futuro; no seguinte é fato consumado, dito a um homem que ainda não tem o filho da promessa.
As leituras possíveis são três — perfeito profético, decisão já tomada no plano divino, ou simples diferença de como o hebraico organiza os tempos — e nenhuma se impõe.
Ainda assim, o efeito é digno de nota. Há coisas que se tornam verdadeiras primeiro na decisão de alguém e só depois nos fatos, e viver no intervalo entre as duas é o que este capítulo inteiro descreve.
Silêncio diante de uma mudança grande
Abraão recebe o nome novo e não responde nada — como não respondeu a nada desde o versículo 3, e como não responderá até o versículo 18.
O narrador não qualifica esse silêncio, e é possível que a economia da prosa simplesmente não registre réplicas que teriam ocorrido.
Mesmo assim, vale a pergunta pessoal: quando algo grande lhe é dito, você responde na hora ou fica calado? As duas coisas podem ser reverência e podem ser fuga, e a diferença raramente aparece para quem está de fora.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O que significa "Abrão"?
Provavelmente "pai exaltado" ou, mais exatamente, "o pai é exaltado" — reunindo o substantivo que significa pai e um elemento ligado a altura. Nesse tipo de nome, "o pai" costuma ser referência à divindade, e nomes assim são comuns no ambiente semita. Ou seja, o nome não falava originalmente da paternidade humana de quem o carregava.
E "Abraão"?
O texto o explica por "pai de multidão", retomando as duas palavras do versículo anterior. A diferença entre as duas formas, no hebraico, é a inserção de uma consoante e a vocalização correspondente.
Essa explicação está correta?
Como jogo de som, funciona. Como derivação linguística, não. A palavra hebraica para multidão tem uma consoante que não aparece no nome, e sobra no nome uma sílaba que a explicação não justifica. O texto aproxima sons; não deriva uma palavra da outra.
Então de onde vem o nome?
A explicação mais aceita entre estudiosos é que as duas formas sejam variantes do mesmo nome — uma dialetal, arcaica, ou simplesmente alongada, sem mudança de sentido. Línguas semitas próximas ao hebraico conhecem elementos que permitiriam a forma expandida. Não é possível decidir com segurança, e a questão é discutida.
Isso significa que o texto está errado?
Não. Significa que ele não está fazendo o que um dicionário faria. As explicações de nome no Antigo Testamento são quase todas etimologias populares — ligações por semelhança sonora, e não derivações técnicas.
Há outros casos assim?
Muitos, e eles mostram que se trata de procedimento. Isaque é explicado pelo verbo rir, embora a forma sugira "Deus sorriu". Moisés recebe explicação por um verbo hebraico de tirar das águas, sendo o nome provavelmente egípcio e significando "filho" — e a explicação é posta na boca de uma princesa egípcia falando hebraico. Babel é explicada pelo verbo hebraico de confundir, quando em acádico significa "porta do deus". Caim, Sete, Noé, Jacó e os doze filhos seguem o mesmo padrão.
Por que faziam assim?
Porque naquele mundo o jogo sonoro não era recurso menor. A semelhança entre um nome e uma palavra era tida como significativa em si, sinal de correspondência entre a coisa e o seu nome. Exigir etimologia técnica é cobrar do texto uma operação que só faria sentido muitos séculos depois.
Trocar o nome de alguém tinha algum significado especial?
Tinha: era ato de autoridade. O faraó troca o nome de José; o chefe dos eunucos babilônios troca os de Daniel e dos companheiros, com nomes que contêm divindades babilônicas; nos Reis, monarcas estrangeiros renomeiam os vassalos que colocam no trono. Quem renomeia manda.
Abraão respondeu alguma coisa?
Nada. Recebe o nome novo em silêncio, como recebeu tudo o mais desde o versículo 3 — e assim seguirá até o versículo 18.
Por que aqui o verbo está no passado?
O versículo anterior usava construção de passagem de estado, "virás a ser"; aqui se diz "eu te constituí". Num versículo a paternidade é futuro, no seguinte é fato consumado — dito a um homem que ainda não tem o filho da promessa. Há quem veja aí o perfeito profético, quem entenda que a decisão já foi tomada no plano divino, e quem note que o hebraico não organiza os tempos como as nossas línguas. Não é possível decidir.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 17:4 — Você será pai de muitas nações.
As duas palavras que a explicação do nome retoma.
Gênesis 17:15 — Quanto a Sarai, sua mulher... Sara será o seu nome.
A outra troca de nome do capítulo — esta sem explicação alguma.
Gênesis 32:28 — Não te chamarás mais Jacó, mas Israel.
Outra renomeação, com explicação por semelhança sonora.
Gênesis 41:45 — E chamou faraó o nome de José Zafenate-Paneia.
Renomeação como ato de autoridade.
Daniel 1:7 — E o chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes.
O mesmo gesto, com nomes de divindades babilônicas.
Êxodo 2:10 — E chamou o seu nome Moisés, e disse: Porque das águas o tenho tirado.
Explicação hebraica para um nome provavelmente egípcio.
Gênesis 11:9 — Por isso se chamou o seu nome Babel.
Explicação pelo verbo hebraico de confundir.
Gênesis 21:6 — Deus me tem feito riso.
A explicação do nome de Isaque, por semelhança sonora.
2 Reis 23:34 — E faraó Neco... mudou-lhe o nome em Jeoaquim.
Renomeação de vassalo por soberano estrangeiro.
Gênesis 17:17 — Poderá nascer um filho a um homem de cem anos?
A objeção do homem que acaba de receber o nome novo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Você já não se chamará Abrão; o seu nome será Abraão, porque eu o constituí pai de muitas nações.
Texto hebraico
וְלֹא־יִקָּרֵא עוֹד אֶת־שִׁמְךָ אַבְרָם וְהָיָה שִׁמְךָ אַבְרָהָם כִּי אַב־הֲמוֹן גּוֹיִם נְתַתִּיךָ
Transliteração
welo-yiqqare ʿod et-shimkha Avram wehayah shimkha Avraham ki av-hamon goyim netattikha
Palavra por palavra
וְלֹא־יִקָּרֵא עוֹד (welo-yiqqare ʿod) — "e não se chamará mais"
Forma passiva do verbo chamar, com o advérbio que significa "mais", "ainda".
A construção é de substituição, e não de acréscimo: o nome antigo deixa de ser usado.
אַבְרָם (Avram) — "Abrão"
Composto de av, pai, com um elemento ligado à raiz de altura, elevação.
Sentido provável: "o pai é exaltado", sendo "o pai" referência à divindade — padrão comum em nomes semitas.
אַבְרָהָם (Avraham) — "Abraão"
A forma nova. A diferença em relação à anterior é a presença de uma consoante adicional e a vocalização correspondente.
כִּי (ki) — "porque"
Conjunção causal. É ela que apresenta o que vem a seguir como explicação do nome.
אַב־הֲמוֹן גּוֹיִם (av-hamon goyim) — "pai de multidão de nações"
Aqui está a explicação, e aqui está a dificuldade.
As duas primeiras palavras são as mesmas do versículo 4.
A sugestão é que Avraham venha de av hamon.
Duas objeções, e são técnicas.
Primeira: hamon tem a consoante nun no fim, que não aparece no nome.
Segunda: o nome traz a consoante he, que a explicação não deriva de nada.
A explicação, portanto, aproxima sons — não deriva morfologicamente uma forma da outra.
נְתַתִּיךָ (netattikha) — "eu te constituí"
Do verbo natan, dar, pôr, constituir, com sufixo de segunda pessoa.
É o mesmo verbo do versículo 2, onde se disse "darei a minha aliança".
E está no passado — ao contrário do versículo 4, que usara construção de passagem de estado, voltada para o futuro.
Nota — como o Antigo Testamento explica nomes
Vale fechar generalizando, porque a observação vale para o livro inteiro e evita muito susto desnecessário.
O Antigo Testamento explica nomes o tempo todo, e quase sempre por semelhança sonora.
Isaque é ligado ao verbo rir, embora a forma do nome sugira construção com elemento divino. Moisés recebe explicação hebraica para um nome que é, com grande probabilidade, egípcio — e a explicação é posta na boca de uma princesa egípcia. Babel é explicada pelo verbo hebraico de confundir, quando o nome, em acádico, significa "porta do deus". Caim, Sete, Noé, Jacó e os doze filhos de Jacó recebem todos o mesmo tratamento.
É procedimento, e não deslize.
Convém acrescentar o que isso significava para quem escrevia. A correspondência entre um nome e uma palavra era tida como reveladora em si mesma — não como curiosidade fonética, e sim como sinal de que havia relação entre a coisa e o modo de nomeá-la.
Cobrar desses textos uma etimologia científica é cobrar uma operação que só faria sentido muitos séculos depois, e cujo instrumental não existia.
Registro isto uma vez, com clareza, porque é dos assuntos que mais abalam quem os descobre por acaso — e porque conhecer o padrão desde o começo transforma o que pareceria erro naquilo que de fato é: um modo antigo, e coerente consigo mesmo, de dizer que um nome e um destino se correspondem.
11. Conclusão
Duas identidades estão em jogo neste versículo, e convém tomar primeiro a que se abandona. A forma antiga reúne o substantivo que designa pai a um elemento associado a altura, produzindo algo como "o pai é exaltado" — e, nesse tipo de composição, corrente entre os semitas, o "pai" mencionado é a divindade, não quem carrega o nome. Segue-se daí uma ironia que o narrador não sublinha em momento algum: aquele que se chamava assim alcançou os noventa e nove anos com um único filho, havido de uma escrava.
Sobre a forma nova, o texto oferece justificativa expressa, introduzida por conjunção causal, e essa justificativa recupera exatamente os dois termos empregados no versículo precedente — pai, e multidão. A insinuação é clara. E é aqui que convém falar sem rodeios, porque as exposições populares costumam passar direto: a derivação não se sustenta do ponto de vista da língua. Falta no nome uma consoante que o vocábulo hebraico para multidão possui, e sobra nele outra que a explicação não deriva de coisa alguma. O que existe é aproximação sonora; não há passagem morfológica de uma palavra à outra. Entre estudiosos, a proposta mais aceita é que as duas formas sejam variantes de um mesmo nome — uma delas dialetal, arcaica ou simplesmente alongada, sem alteração de sentido —, hipótese que línguas semitas vizinhas tornam plausível sem que se possa decidir a questão.
Nada disso deve ser lido como falha, e é preciso dizer por quê. Aquelas páginas explicam nomes assim o tempo inteiro: Isaque é vinculado ao verbo de rir, embora a forma do nome aponte para composição com elemento divino; Moisés recebe explicação a partir de um verbo hebraico de retirar das águas, quando o nome é com grande probabilidade egípcio e significa "filho" — e a explicação sai da boca de uma princesa egípcia, em hebraico; Babel é justificada pelo verbo hebraico de confundir, sendo que em acádico o nome quer dizer "porta do deus". Caim, Sete, Noé, Jacó e os doze filhos passam pelo mesmo tratamento. Trata-se, portanto, de procedimento, e de um procedimento que naquele mundo não era tido por menor: a semelhança entre nome e palavra valia como sinal de correspondência entre a coisa e a maneira de nomeá-la. Reclamar rigor etimológico é exigir uma operação cujo instrumental só existiria muitos séculos adiante.
Resta o que a troca de nome significa como gesto, e o registro é constante em toda a Bíblia: quem renomeia exerce poder. O faraó rebatiza José; o responsável pelos eunucos babilônios rebatiza Daniel e seus companheiros, atribuindo-lhes nomes que carregam divindades da Babilônia; nos livros dos Reis, soberanos estrangeiros trocam os nomes dos vassalos que entronizam. A mudança aqui, portanto, não se esgota em simbolizar etapa nova — afirma autoridade sobre aquele homem, que a recebe sem dizer palavra, como vem fazendo desde o versículo 3.
Um último detalhe merece nota, e passa despercebido na leitura corrida. O versículo anterior projetava a paternidade para diante, com construção de quem vem a tornar-se algo; este a enuncia no passado — "eu te constituí". De um versículo para o outro, o que era promessa converte-se em fato consumado, e isso é dito a alguém que ainda não tem o filho prometido. Três explicações circulam: o chamado perfeito profético, em que o futuro certo se enuncia como passado; a ideia de que a constituição já se deu no plano da decisão divina; e a observação de que o hebraico não distribui os tempos verbais como as nossas línguas, tornando arriscada qualquer conclusão teológica extraída daí. Nenhuma se impõe sobre as demais.













