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Gênesis 21:33

✍️ Por Alberto Adriano·23 de agosto de 2026·⏱️ 42 min de leitura·👁 9 acessos
Abraão plantou uma tamargueira em Berseba e ali invocou o nome do SENHOR, o Deus eterno.
Homem idoso sozinho plantando uma muda de árvore de folhas finas em solo seco, ao pôr do sol, com um poço de pedra ao fundo.

Estudo


Abraão plantou uma tamargueira em Berseba e ali invocou o nome do SENHOR, o Deus eterno.

1. Introdução

Os visitantes vão embora e o homem planta uma árvore. É um gesto pequeno, e ele diz duas coisas grandes.

A primeira é sobre tempo. Quem planta árvore não colhe sombra no mesmo ano — e menos ainda uma tamargueira, que cresce devagar e vive muito. Plantar é o gesto de quem pretende ficar, ou de quem pretende que alguém fique. Um versículo adiante, o capítulo dirá que Abraão continuava estrangeiro naquela terra.

A segunda é sobre linguagem religiosa, e é mais desconfortável. O nome que ele invoca é o SENHOR, o nome próprio da aliança, ausente de todo o bloco enquanto os estrangeiros estiveram em cena. Mas o título que acompanha esse nome é El Olam — "Deus eterno" nas traduções, e literalmente algo como "El de sempre". El é o nome do deus supremo do panteão cananeu, conhecido por textos encontrados em Ugarit, e é também a palavra semítica comum para "deus". O texto junta as duas coisas numa linha e não explica.

Não é caso isolado. Antes disso houve El Elyon na boca de um sacerdote de Salém (14:18-22), El Roi na boca de uma escrava egípcia (16:13) e El Shadai numa aparição divina (17:1). A série é grande e é conhecida — e o próprio Êxodo 6:3 reconhece que os patriarcas conheceram Deus por um desses nomes, e não pelo tetragrama.

Este estudo trata da árvore, do que ela significa num mundo em que árvores marcavam santuários, do fato de que não há altar neste versículo, e da série de epítetos que o ciclo de Abraão acumula — com o que se pode afirmar sobre ela e o que não se pode.

2. Contexto Histórico e Cultural

Árvores e culto no mundo de Canaã

Para entender por que uma árvore plantada merece um versículo, é preciso saber o que árvores significavam.

Em regiões semiáridas, uma árvore grande é uma marca visível a distância, um ponto de referência, uma sombra e frequentemente um sinal de água. Isso já bastaria para torná-la importante. Mas o mundo do Antigo Oriente Próximo foi além disso: árvores singulares eram lugares de encontro, de julgamento e de culto.

A própria Bíblia registra o padrão em profusão. Abraão para junto do carvalho de Moré ao entrar na terra (12:6) e depois se estabelece junto aos carvalhos de Manre, onde constrói altar (13:18) e onde recebe os visitantes (18:1). Débora julga Israel debaixo de uma palmeira (Juízes 4:5). Josué põe uma grande pedra "debaixo do carvalho que estava junto ao santuário do SENHOR" (Josué 24:26). Saul se senta debaixo de uma tamargueira, com a lança na mão, despachando com os seus servos (1 Samuel 22:6). Gideão encontra o anjo debaixo de um carvalho (Juízes 6:11).

Esse mesmo padrão será depois combatido. A legislação de Deuteronômio proíbe plantar árvore como poste sagrado junto ao altar do SENHOR (16:21), e os livros dos Reis e os profetas denunciam repetidamente o culto "sobre todo outeiro alto e debaixo de toda árvore verde" (1 Reis 14:23; 2 Reis 17:10; Jeremias 2:20; Oseias 4:13).

Ou seja: existe uma prática religiosa ligada a árvores, ela é antiga, ela aparece nas narrativas patriarcais sem qualquer censura, e ela é atacada em textos posteriores. Guardar esse dado é indispensável para ler o versículo com honestidade.

El, o deus e a palavra

O segundo pano de fundo é o vocabulário divino, e ele exige um pouco de cuidado técnico.

A palavra el é o termo semítico comum para "deus", e existe em várias línguas da família — em acádio, em ugarítico, em fenício, em árabe. Em hebraico ela funciona tanto como substantivo comum quanto dentro de nomes próprios, e é a base de Elohim, a forma que a Bíblia usa com mais frequência.

Ao mesmo tempo, El é o nome próprio do deus supremo do panteão da região, conhecido sobretudo pelos textos encontrados a partir de 1929 em Ras Shamra, a antiga Ugarit, na costa da Síria. Nesses textos, El aparece como divindade anciã e paternal, chamada por epítetos como "pai dos anos" e "criador das criaturas", num panteão em que Baal é a divindade jovem e ativa.

A dificuldade é que as duas coisas coexistem: el é substantivo comum e é nome próprio, e nem sempre é possível decidir qual dos dois está em jogo numa ocorrência isolada. Essa ambiguidade é real e não deve ser dissolvida em nenhuma das duas direções por conveniência.

Onde está Abraão e o que ele acabou de fazer

A cena é em Berseba, lugar que recebeu esse nome dois versículos atrás. Abraão acaba de firmar tratado com o soberano da região, entregar animais em duas ocasiões, constituir prova pública sobre a autoria de um poço e ver a comitiva partir.

É a primeira vez em Gênesis 21 que ele aparece sozinho, sem Sara, sem Isaque, sem estrangeiros. E é a primeira vez em todo o capítulo que ele pratica um ato religioso registrado.

Vale notar o que não aconteceu antes. No nascimento de Isaque, não há altar. Na circuncisão ao oitavo dia, cumprindo a ordem de 17:12, não há oração registrada. No banquete do desmame, não há invocação. Na expulsão de Agar, nada. O capítulo chega ao versículo 33 sem um único gesto de culto por parte de Abraão.

A cronologia do vocabulário divino no capítulo

Uma última observação de contexto, e ela é de contagem.

Os versículos 1 e 2 usam YHWH, o nome próprio, no relato do nascimento de Isaque. Do versículo 2 em diante, o capítulo passa a Elohim: é Elohim que fala com Abraão sobre Ismael (v.12), é o anjo de Elohim que chama Agar (v.17), é Elohim que abre os olhos dela (v.19) e que está com o menino (v.20). E é Elohim que Abimeleque invoca ao dizer que Deus acompanha Abraão (v.22) e ao pedir juramento (v.23).

O nome próprio só reaparece aqui, no versículo 33, depois que os visitantes se levantaram e voltaram para a terra deles.

O peso a atribuir a essas alternâncias é objeto de um debate acadêmico antigo sobre as fontes do Pentateuco, e não há consenso. O padrão de distribuição, porém, é observável independentemente da explicação que se adote.

3. Análise Teológica do Versículo

"Abraão plantou"

Vale começar por um detalhe que as traduções resolvem silenciosamente: no texto hebraico, o nome de Abraão não está neste versículo.

O original diz apenas wa-yitta, "e plantou", com o sujeito implícito na flexão verbal. As versões portuguesas acrescentam o nome, e acrescentam bem — o sentido é inequívoco pelo contexto, e algumas testemunhas textuais antigas também o explicitam.

O detalhe merece nota porque produz um pequeno efeito. O último sujeito explícito da narrativa foram Abimeleque e Ficol, no versículo anterior, levantando-se e voltando para casa. O leitor precisa fazer sozinho a troca: quem planta não é quem partiu, é quem ficou. O texto muda de personagem sem avisar, o que é comum no hebraico e reforça a impressão de que a cena esvaziou.

O verbo é nata, o verbo comum de plantar. É o mesmo empregado em Gênesis 2:8, quando Deus planta um jardim no Éden, e em 9:20, quando Noé planta uma vinha. Ele descreve o ato de fixar uma muda no solo para que ali cresça — o que pressupõe, por definição, um horizonte de tempo maior que o do plantador.

"uma tamargueira"

A palavra hebraica é eshel, e ela é rara: aparece três vezes em toda a Bíblia hebraica.

Está aqui. Está em 1 Samuel 22:6, onde Saul se acha sentado em Gibeá "debaixo da tamargueira, sobre o outeiro, com a sua lança na mão", cercado dos seus servos — cena de corte, de despacho e de julgamento. E está em 1 Samuel 31:13, onde os homens de Jabes-Gileade sepultam os ossos de Saul e dos filhos dele "debaixo da tamargueira".

Três ocorrências, e nas três a árvore está associada a alguma coisa solene: um santuário improvisado, uma corte real, uma sepultura. É uma amostra pequena demais para sustentar conclusões fortes, e é o suficiente para notar que a palavra não aparece em contextos triviais.

A árvore que os tradutores não reconheceram

Há um dado curioso e revelador: as versões antigas não sabiam com segurança o que era eshel.

A Septuaginta, tradução grega feita a partir do século III antes da era comum, verte aqui por uma palavra que significa terra lavrada, campo cultivado — o tradutor entendeu que Abraão plantou uma lavoura, não uma árvore. A tradução latina de Jerônimo traz "bosque". Um dos targuns aramaicos entende como plantação ou pomar.

Ou seja: já na Antiguidade o termo era obscuro. A identificação com a tamargueira, hoje amplamente aceita, apoia-se sobretudo na comparação com outras línguas semíticas, em que a raiz correspondente designa essa árvore.

A tradição judaica posterior produziu ainda uma leitura própria, midráshica, que lê as consoantes de eshel como iniciais de três palavras — comida, bebida e acompanhamento — e entende que Abraão instalou ali uma hospedaria para viajantes. É leitura homilética, criada muito depois do texto, e não pretende ser filologia; vale conhecê-la como parte da história da interpretação, não como sentido do versículo.

A árvore certa para aquele lugar

Se a identificação estiver correta, e ela provavelmente está, a escolha faz sentido botânico perfeito.

A tamargueira é árvore de região árida e salina. Tem raízes profundas que alcançam lençóis inacessíveis a outras espécies, folhas minúsculas que reduzem a perda de água, e capacidade de excretar sal pelas folhas — o que lhe permite viver onde poucas plantas vivem. Resiste a vento, a seca e a solo pobre.

Cresce devagar e vive muito. Uma tamargueira plantada por um homem de mais de cem anos não será desfrutada por ele em nenhum sentido significativo.

Some-se a isso a lógica do lugar. Berseba está na borda do deserto, e Abraão acaba de brigar por um poço ali. Plantar uma árvore que sobrevive naquele solo, ao lado da água pela qual se litigou, é um gesto coerente com quem pretende que aquele ponto continue habitável e reconhecível.

Uma árvore, e nenhum altar

Aqui está uma ausência que costuma passar batida e que é significativa.

Abraão constrói altares. Constrói em Siquém, quando o SENHOR lhe aparece (12:7). Constrói entre Betel e Ai, e ali invoca o nome do SENHOR (12:8). Volta a esse mesmo lugar e invoca o nome outra vez (13:4). Constrói em Manre, junto aos carvalhos (13:18). Construirá no monte, no capítulo seguinte, para o episódio mais duro da vida dele (22:9).

Neste versículo, não há altar. Há uma árvore plantada e uma invocação.

Duas leituras se apresentam. A primeira é que um altar esteja pressuposto e não descrito — narrativas resumem, e a invocação do nome aparece associada a altares em outras passagens. A segunda é que o gesto seja realmente de outro tipo: não a construção de um lugar de sacrifício, mas a marcação de um lugar com uma árvore.

Não é possível decidir. O que se pode registrar é o dado: o texto menciona o plantio e não menciona o altar, num livro que menciona os altares de Abraão sempre que eles existem.

"e ali invocou o nome do SENHOR"

A expressão hebraica é wa-yiqra be-shem YHWH, e ela é uma fórmula fixa na Bíblia hebraica, com um problema de tradução embutido.

Literalmente, é "chamou no nome do SENHOR". Duas leituras são possíveis e ambas têm defensores antigos.

A primeira entende como invocação: dirigir-se a Deus, orar, prestar culto usando o nome. Nessa leitura, o gesto é vertical — Abraão fala com Deus.

A segunda entende como proclamação: anunciar o nome, tornar público, chamar outros por meio dele. Nessa leitura, o gesto é horizontal — Abraão fala de Deus a quem passa. A tradição interpretativa judaica desenvolveu bastante essa segunda leitura, ligando-a à imagem de Abraão como quem convidava viajantes e lhes falava do Deus dele.

A construção gramatical não decide entre as duas, e é razoável supor que os antigos não separassem tanto as coisas: cultuar publicamente é, ao mesmo tempo, dirigir-se à divindade e torná-la conhecida. As duas leituras permanecem em aberto.

A fórmula tem história. Ela aparece pela primeira vez em 4:26, depois do nascimento de Enos: "foi então que se começou a invocar o nome do SENHOR". Reaparece com Abraão em 12:8 e 13:4, e depois com Isaque em 26:25 — que, aliás, faz isso exatamente em Berseba, no episódio paralelo a este.

O nome que volta quando os estrangeiros vão embora

Este é o ponto de composição do versículo, e ele é observável por contagem.

Do versículo 22 ao 32, o capítulo usa exclusivamente Elohim, o termo genérico. Abimeleque diz que Elohim está com Abraão; pede juramento por Elohim; e o narrador não emprega o tetragrama uma única vez enquanto a comitiva está em cena.

No versículo 32, os visitantes se levantam e voltam para a terra deles. No versículo 33, aparece YHWH.

Uma leitura possível é que o texto distinga registros: Elohim é o vocabulário que funciona entre povos distintos, porque designa a divindade sem exigir que os dois lados partilhem o mesmo culto; YHWH é o nome de dentro, o da aliança específica. Enquanto há estrangeiro presente, fala-se a língua comum; quando ele parte, volta-se ao nome próprio.

Essa leitura é elegante e vale marcar que ela é leitura. A explicação alternativa, e antiga, atribui a alternância a fontes distintas combinadas na composição do Pentateuco. As duas não são incompatíveis, já que um redator poderia distribuir materiais conforme a adequação ao contexto. Não há consenso sobre o peso a dar a esses padrões.

"o Deus eterno"

Chegamos ao ponto mais delicado, e ele precisa ser desmontado devagar.

O hebraico é El Olam. Duas palavras, e as duas merecem exame.

Olam é traduzido por "eterno" e o termo português puxa para um sentido que o hebraico não tem exatamente. Olam designa duração indefinida, o horizonte distante do tempo, aquilo que se estende para além do que se enxerga — tanto para a frente quanto para trás. Fala-se dos "dias de olam" para dizer tempos antigos (Isaías 63:9; Amós 9:11), e de servidão "para olam" para dizer pelo resto da vida (Êxodo 21:6).

A eternidade filosófica grega, entendida como existência fora do tempo, é outra coisa, e ela não está aqui. "Deus eterno" é tradução aceitável, desde que se saiba que o hebraico diz algo mais próximo de "o Deus de sempre", "o Deus do tempo sem fim visível".

El é a parte incômoda. Como já visto, a palavra é o termo semítico comum para deus e é também o nome próprio do deus supremo do panteão da região.

A série de epítetos no ciclo de Abraão

É preciso pôr as ocorrências lado a lado, porque isoladamente cada uma parece banal e em conjunto elas formam um padrão.

El Elyon, "Deus Altíssimo" (14:18-22). Aparece na boca de Melquisedeque, rei de Salém, apresentado como "sacerdote do Deus Altíssimo" — sacerdote de uma cidade cananeia, não da família de Abraão. Ele abençoa Abraão em nome de El Elyon, "criador dos céus e da terra". Abraão responde adotando o título e acrescentando o tetragrama: "levanto a minha mão ao SENHOR, El Elyon, criador dos céus e da terra".

Esse episódio é notável por si só. A fórmula "criador dos céus e da terra" tem paralelo em inscrições fenícias posteriores, que trazem a expressão "El criador da terra" — o que indica vocabulário religioso regional partilhado, e não invenção do texto bíblico.

El Roi, "Deus que me vê" (16:13). Quem nomeia é Agar, escrava egípcia, sozinha no deserto. É a única vez em toda a Bíblia hebraica em que uma pessoa dá um nome a Deus, e quem faz isso é uma mulher estrangeira e escrava.

El Shadai (17:1). Deus se apresenta assim a Abraão ao instituir a circuncisão. O sentido do termo é discutido: propôs-se "Deus da montanha", a partir de uma palavra acádia para monte; "Deus todo-poderoso", que é a tradução tradicional e vem da Septuaginta e da Vulgata; e outras derivações. Não há consenso, e a incerteza é reconhecida em praticamente toda a bibliografia.

El Olam (21:33), o nosso versículo.

A série continua depois: El Elohe Israel, o altar erguido por Jacó em Siquém (33:20); El Betel (35:7); e as bênçãos de Jacó, que invocam "o El de teu pai" e Shadai (49:25).

O texto que reconhece isso

Aqui está o dado que impede tratar essa observação como invenção de críticos modernos: a própria Bíblia diz.

Êxodo 6:2-3 registra Deus falando a Moisés: "Eu sou o SENHOR. Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como El Shadai; mas pelo meu nome, o SENHOR, não lhes fui conhecido."

A frase é explícita. Ela afirma que os patriarcas conheceram Deus por um dos epítetos com El, e que o nome próprio foi revelado depois, a Moisés. Não é preciso nenhuma teoria elaborada para chegar a essa observação — basta ler Êxodo.

Há uma dificuldade evidente nisso, e ela é interna ao texto: Gênesis usa o tetragrama o tempo todo, inclusive neste versículo, em que Abraão invoca o nome do SENHOR. As soluções propostas são várias: a de que Êxodo 6:3 trate de conhecer o significado do nome, e não de ignorar as letras dele; a de que o narrador de Gênesis use antecipadamente um nome que os personagens não usavam; e a da crítica das fontes, que atribui os usos a tradições distintas. Nenhuma dessas soluções é consensual, e a tensão permanece.

O que se pode afirmar

Convém separar com muito cuidado o que é dado, o que é leitura amplamente aceita e o que é reconstrução.

É dado que o ciclo de Abraão acumula epítetos formados com El, que El é o nome do deus supremo do panteão regional, e que fórmulas como "criador dos céus e da terra" têm paralelo em inscrições da região. É dado que Êxodo 6:3 afirma que os patriarcas não conheceram o tetragrama.

É leitura amplamente aceita, e a mais econômica, que o texto absorve vocabulário religioso corrente na região e o aplica ao Deus da aliança — identificando, e não apenas tomando emprestado.

É reconstrução, e não é demonstrável a partir destes textos, dizer o que os patriarcas efetivamente cultuavam, se El Olam era o numen local do santuário de Berseba, ou como exatamente se deu a passagem entre uma coisa e outra. Essas propostas existem, são discutidas seriamente, e permanecem em aberto.

A contraprova obrigatória

Sem isto, a leitura acima vira militância, e não estudo. Há argumentos sérios que puxam na direção contrária e precisam ser postos.

O primeiro é semântico: el é a palavra comum para "deus" em toda a família semítica. Um epíteto formado com el pode ser apenas "Deus tal", sem qualquer referência à divindade específica do panteão de Ugarit — do mesmo modo como dizer "deus" em português não invoca nenhum panteão greco-romano, apesar da origem da palavra.

O segundo é de comportamento do texto. A Bíblia hebraica polemiza abertamente com Baal, com Asera, com Moloque, com Dagom. Não há, em lugar nenhum, polêmica contra El. Isso é compatível com a hipótese da identificação pacífica — a de que El foi entendido, desde cedo, como sendo o mesmo Deus — e é difícil de conciliar com uma leitura que veja aí um culto rival absorvido às escondidas.

O terceiro é cronológico e metodológico. Os textos de Ugarit datam do segundo milênio e vêm da costa norte da Síria; aplicá-los diretamente ao sul de Canaã e ao mundo dos patriarcas exige cautela, e a bibliografia séria reconhece essa distância.

O fecho honesto

Não é possível decidir. O que se pode afirmar é o seguinte, e é bastante.

O texto bíblico não esconde que os antepassados de Israel usavam vocabulário religioso partilhado com os povos vizinhos. Ele registra uma bênção recebida de um sacerdote cananeu, um nome divino dado por uma escrava egípcia, uma série de epítetos com El, e diz em Êxodo 6:3 que o nome próprio veio depois.

Uma leitura que afirme que a religião de Israel nasceu isolada de tudo à sua volta não sobrevive à leitura do próprio texto. E uma leitura que reduza a fé bíblica a um recorte do panteão cananeu vai além do que a evidência autoriza e ignora o fato de que a Bíblia, que polemiza com todas as outras divindades da região, nunca polemizou com esta.

O que fica, e é o mais interessante, é que o versículo não explica nada disso. Um homem plantou uma árvore, invocou o nome do SENHOR e chamou-o pelo título de sempre. O narrador não comenta, não justifica e não se defende.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A tamargueira

Árvore de região árida, com raiz profunda, folhagem miúda e capacidade de excretar sal, o que lhe permite sobreviver em solos onde poucas espécies vivem. Cresce devagar e é longeva.

A palavra hebraica eshel aparece três vezes na Bíblia: aqui, em 1 Samuel 22:6 — onde Saul despacha sentado debaixo de uma — e em 1 Samuel 31:13, onde os ossos de Saul são sepultados sob outra. As versões antigas não a reconheciam com segurança: a Septuaginta traduziu por campo lavrado e a Vulgata por bosque.

Berseba

Lugar batizado dois versículos antes, na borda sul da região habitável de Canaã. É a partir daqui que se torna a base geográfica de Abraão: em 22:19 ele volta para lá depois do episódio do monte.

Berseba será também o lugar onde Isaque, na geração seguinte, constrói um altar, invoca o nome do SENHOR, arma a tenda e manda cavar um poço (26:25). A repetição de gestos é notável e é um dos elementos que alimentam a discussão sobre relatos paralelos.

O SENHOR — YHWH

O nome próprio de Deus, grafado com quatro consoantes hebraicas e representado nas traduções portuguesas por SENHOR em versalete. Aparece aqui pela primeira vez desde o versículo 2 deste capítulo.

Todo o bloco do tratado com Abimeleque, do versículo 22 ao 32, usa exclusivamente Elohim, o termo genérico — inclusive nas falas do rei. O nome próprio retorna assim que os estrangeiros deixam a cena.

El Olam

Título divino traduzido por "Deus eterno". Olam designa duração indefinida, o horizonte remoto do tempo, e não a atemporalidade da filosofia grega. El é a palavra semítica comum para deus e é também o nome do deus supremo do panteão regional, conhecido pelos textos de Ugarit.

Integra uma série de epítetos que atravessa o ciclo patriarcal: El Elyon (14:18-22), El Roi (16:13), El Shadai (17:1), El Olam (21:33), El Elohe Israel (33:20) e El Betel (35:7).

Abraão, sozinho pela primeira vez no capítulo

Não há Sara, não há Isaque, não há Agar, não há rei nem comandante. Este é o único versículo de Gênesis 21 em que Abraão aparece isolado e praticando um ato religioso.

É também o penúltimo versículo do capítulo. Depois dele, resta apenas a nota sobre quanto tempo ele morou naquela terra — e a informação de que continuava estrangeiro nela.

5. Pontos de Ensino

1. O nome de Abraão não está no versículo hebraico. O original traz apenas "e plantou", com o sujeito implícito. Como o último sujeito explícito foram os visitantes que partiram, o leitor precisa fazer sozinho a troca de personagem. As traduções acrescentam o nome, e acrescentam bem.

2. Plantar é gesto de horizonte longo. Uma tamargueira cresce devagar e vive muito. Um homem de mais de cem anos que planta uma árvore não a planta para si — e o versículo seguinte dirá que ele continuava estrangeiro naquela terra.

3. A palavra eshel é rara e era obscura já na Antiguidade. Aparece três vezes na Bíblia hebraica, todas em contextos solenes. A Septuaginta traduziu por campo lavrado e a Vulgata por bosque — sinal de que os tradutores antigos não a reconheciam com segurança.

4. Não há altar neste versículo. Abraão constrói altares em 12:7, 12:8, 13:18 e 22:9, e o narrador sempre os menciona. Aqui há uma árvore e uma invocação. Se um altar está pressuposto e não descrito, ou se o gesto é de outro tipo, o texto não permite decidir.

5. O nome próprio de Deus volta quando os estrangeiros vão embora. Do versículo 22 ao 32, o capítulo usa exclusivamente Elohim. YHWH reaparece exatamente depois da partida da comitiva. O padrão é observável; o peso a dar a ele é discutido há muito tempo.

6. "Eterno" traduz uma palavra que significa duração indefinida. Olam é o horizonte remoto do tempo, para trás e para a frente, e não a atemporalidade da filosofia grega. "O Deus de sempre" está mais perto do hebraico do que "o Deus eterno".

7. El Olam pertence a uma série que o próprio Êxodo reconhece. El Elyon veio da boca de um sacerdote cananeu, El Roi da boca de uma escrava egípcia, El Shadai de uma aparição divina. E Êxodo 6:3 afirma que os patriarcas conheceram Deus como El Shadai, e não pelo tetragrama. O dado é do texto, não de reconstrução externa.

6. Aspectos Filosóficos

Um homem planta uma árvore num lugar que não é dele, pelo qual acabou de brigar, e a que continuará ligado como estrangeiro. Não há discurso, não há cerimônia descrita, não há testemunha. É o gesto mais silencioso do capítulo e o mais carregado.

O que uma árvore afirma sem dizer

Existe uma diferença de natureza entre construir e plantar, e ela é sobre tempo.

Uma tenda se arma numa tarde e se desmonta noutra. Um altar de pedras se ergue em algumas horas. Uma árvore não obedece a esse ritmo: ela exige anos, e ninguém pode acelerar o processo com esforço adicional. Quem planta aceita, no ato, uma escala de tempo que não controla.

E há mais. Uma árvore, ao contrário de uma pedra empilhada, não pode ser levada junto na mudança. Plantar é escolher um ponto do mapa e investir nele uma coisa que só rende ficando.

Some-se a idade do personagem. Abraão passou dos cem anos. A muda que ele fixa no solo de Berseba dará sombra a quem vier depois. O texto não comenta isso, e não precisa: quem já plantou uma árvore sabe.

Um homem que fala com Deus depois de tudo terminado

Vale reparar em quando o gesto religioso acontece.

Não acontece quando o filho prometido nasce, depois de vinte e cinco anos de espera. Não acontece na circuncisão, cumprindo a ordem recebida. Não acontece no banquete. Não acontece na madrugada em que ele entrega pão e um odre a uma mulher e a manda embora com uma criança. Não acontece diante do rei, nem durante o juramento, nem na entrega das cordeiras.

Acontece depois. Quando o barulho passou, a comitiva sumiu no horizonte e o lugar ficou vazio.

Convém não moralizar o dado. O texto não critica Abraão por não ter orado antes, não sugere negligência, não explica o silêncio. É perfeitamente possível que o narrador simplesmente não tenha registrado atos de culto que aconteceram — narrativas resumem.

O que se pode observar é a colocação. O único ato religioso registrado de Abraão neste capítulo está depois de todos os acontecimentos e é feito sozinho. Quem lê o capítulo inteiro percebe a diferença de temperatura entre o silêncio das cenas difíceis e esta invocação tardia.

A língua de dentro e a língua de fora

O padrão de nomes divinos neste bloco merece um comentário próprio, porque descreve uma situação humana muito reconhecível.

Enquanto o rei e o comandante estão presentes, o texto usa o termo genérico. É o vocabulário que funciona entre gente que não partilha o mesmo culto: designa a divindade sem exigir concordância sobre qual é. Um rei de Gerar pode dizer "Deus está com você" sem confessar o Deus de Abraão, e Abraão pode jurar por "Deus" sem que ninguém tenha de ceder.

Quando eles vão embora, aparece o nome próprio.

Isso descreve a dupla competência linguística de quem vive entre mundos. Existe o modo de falar que permite tratar com quem pensa diferente, e existe o modo de falar de dentro de casa. As duas coisas são legítimas e nenhuma é hipocrisia — mudar de registro conforme o interlocutor é adequação, não fingimento.

A leitura tem limite, e vale marcá-lo: o narrador não comenta a alternância, e a explicação por fontes distintas do Pentateuco é antiga e séria. O padrão de distribuição, porém, está lá para quem quiser contar.

Vocabulário emprestado, ou vocabulário partilhado

A parte teologicamente séria do versículo é o título divino, e ela merece um raciocínio calmo.

Toda religião fala a língua do lugar onde nasce. Não há alternativa a isso: quem precisa comunicar alguma coisa sobre o sagrado usa as palavras disponíveis, e as palavras disponíveis vêm carregadas de história.

O cristianismo fez exatamente isso ao adotar termos gregos com longa carreira filosófica anterior. As traduções da Bíblia para línguas africanas, asiáticas e ameríndias fizeram o mesmo, escolhendo, para nomear Deus, palavras que já designavam divindades locais — decisão que gerou e ainda gera discussão em cada campo missionário.

O que Gênesis mostra é esse processo em curso, no seu estágio mais antigo. Um patriarca invoca o SENHOR e o chama pelo título que a região usava. O texto não se desculpa e não explica.

Isso pode ser lido de duas maneiras, e as duas são teologicamente respeitáveis. Como identificação: aquele que os povos ao redor chamavam de El é o mesmo que se revelou a Abraão, e por isso não há polêmica. Ou como registro de um processo histórico em que a fé de Israel se destacou lentamente de um fundo religioso comum. Não é possível decidir entre elas com os dados do versículo, e vale notar que a primeira leitura tem apoio num fato observável: a Bíblia polemiza com Baal, com Asera, com Dagom, e nunca com El.

Por que dizer isso em voz alta

Uma última consideração, sobre o modo de tratar o assunto.

Há uma tentação compreensível de não mencionar a origem cananeia do vocabulário divino em material destinado a leitores religiosos, sob a suposição de que a informação corrói alguma coisa.

Ela corrói, de fato, uma versão específica da fé — a que precisa acreditar que a religião de Israel surgiu sem contato com nada ao redor. Essa versão não sobrevive nem à leitura de Gênesis, que registra a bênção de um sacerdote cananeu e o nome dado por uma escrava egípcia, nem à leitura de Êxodo, que afirma expressamente que os patriarcas não conheceram o tetragrama.

A fé que sobrevive é outra, e ela é mais antiga do que a versão que se pretende proteger: a de que Deus se comunica dentro da história, com a língua e as categorias de quem o ouve, e não à margem delas. Essa é, aliás, a lógica de todo o livro — um Deus que fala em hebraico, com vocabulário do segundo milênio, a pastores que negociavam poços.

7. Aplicações Práticas

Plantar o que não se vai colher

Um homem de mais de cem anos fixa no solo uma muda de árvore que cresce devagar e vive séculos. Ele não verá aquilo grande. Quem vier depois verá.

Esse é o gesto mais contraintuitivo que uma pessoa pode fazer num mundo organizado por resultados mensuráveis no trimestre. Tudo o que rende depressa é visível e recompensado; o que rende em vinte anos costuma parecer perda de tempo enquanto está sendo feito.

Vale identificar quais são as próprias tamargueiras: uma poupança que só faz sentido daqui a décadas, uma criança educada num hábito cujo efeito só aparece na vida adulta dela, uma habilidade estudada sem aplicação imediata, uma árvore literal no quintal. Nenhuma delas dá satisfação no ano em que é plantada, e é por isso que quase ninguém planta.

Marcar um lugar em terra que não é sua

A árvore é plantada num território sobre o qual Abraão não tem título, do qual ele acaba de reconhecer a soberania alheia por juramento, e onde continuará sendo tratado como forasteiro.

Há uma decisão embutida nisso que vale examinar. É possível viver de mala pronta em qualquer lugar em que a permanência não esteja garantida — sem pendurar quadro, sem fazer amizade profunda, sem se envolver com a vizinhança, porque afinal isto aqui é provisório.

Muita gente passa anos assim: no emprego que é temporário há oito anos, na cidade em que ainda não decidiu ficar, na casa alugada em que nada foi consertado. A alternativa que o versículo mostra é outra: plantar mesmo sem certeza, cuidar do lugar em que se está enquanto se está nele. A garantia de permanência nunca chega, e a vida acontece no intervalo.

Depois que o barulho passa

O único ato religioso de Abraão neste capítulo acontece quando todos foram embora. Não durante o nascimento, não durante o banquete, não durante a negociação — depois.

Isso descreve uma dinâmica que quase todo mundo reconhece. Durante a crise, durante a festa, durante a negociação, não há espaço interior para mais nada: a atenção está tomada. A elaboração vem depois, quando a poeira assenta e a pessoa fica sozinha.

A aplicação prática é proteger esse depois, em vez de preenchê-lo imediatamente com o assunto seguinte. Terminada uma etapa difícil, a tendência é emendar na próxima; e o resultado é uma sequência de acontecimentos que nunca chegam a ser digeridos. O intervalo silencioso não é tempo perdido — é onde o que aconteceu vira alguma coisa.

Falar a língua de quem está ouvindo

Enquanto os estrangeiros estiveram presentes, o texto usou o termo genérico para Deus; assim que partem, aparece o nome próprio. Não há nenhuma sugestão de que uma coisa seja falsa e a outra verdadeira.

Isso desfaz um mal-entendido comum em ambiente religioso, o de que adequar a linguagem ao interlocutor seja covardia ou dissimulação. Não é. Usar vocabulário compartilhado com quem não partilha as mesmas convicções é condição de qualquer conversa possível.

O cuidado necessário é de proporção. Quem passa a vida inteira apenas no registro diplomático acaba sem lugar nenhum em que fale a própria língua; quem só sabe falar de dentro não consegue tratar com ninguém de fora. A cena mostra as duas competências em sequência e não hierarquiza nenhuma.

Saber a origem das próprias palavras

O título divino deste versículo carrega história: El é palavra semítica comum para deus e é também o nome do deus supremo do panteão da região. O texto usa o termo e não explica.

Descobrir a origem das palavras que se usa em contexto religioso é um exercício desconcertante e saudável. Quase todo vocabulário de fé tem história anterior, empréstimos, deslocamentos de sentido, e muita coisa que hoje soa exclusivamente cristã veio da filosofia grega, do direito romano ou do latim eclesiástico medieval.

Saber disso não esvazia a palavra. Muda a relação com ela: em vez de tratá-la como se tivesse caído do céu pronta, passa-se a entendê-la como instrumento com procedência — e instrumentos com procedência conhecida são usados com mais precisão do que os que se supõem eternos.

Não proteger a fé de quem se pretende ajudar

Um bom pedaço deste versículo é material que raramente aparece em pregação: a série de epítetos, a origem regional do vocabulário, a afirmação explícita de Êxodo 6:3.

Omitir isso protege uma versão específica da fé — a de que a religião de Israel nasceu isolada de tudo ao redor. Essa versão não resiste nem à leitura da própria Bíblia, e quem a sustenta está construindo sobre alicerce que o texto não fornece.

Vale examinar quais convicções, na própria vida religiosa, dependem de não olhar para determinado dado. Toda vez que a resposta for "esta aqui", há trabalho a fazer — não necessariamente para abandonar a convicção, mas para reconstruí-la sobre alguma coisa que não exija desviar os olhos.

Deixar marca em vez de deixar discurso

Abraão não faz sermão em Berseba. Planta uma árvore e invoca um nome. O que fica no lugar, depois que ele se for, é uma árvore.

Isso sugere um critério prático sobre o que se deixa por onde se passa. Discursos duram enquanto quem ouviu se lembra. Coisas plantadas, construídas, escritas e transmitidas duram por conta própria e continuam operando sem a presença de quem as fez.

A pergunta que vale carregar é simples e é incômoda: o que exatamente ficaria nos lugares por onde passei se eu saísse deles hoje? Se a resposta for apenas impressões e lembranças, provavelmente há alguma coisa a plantar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Abraão plantou uma árvore e não construiu um altar?

O texto não explica, e a ausência é notável, porque o narrador menciona os altares de Abraão sempre que eles existem — em 12:7, 12:8, 13:18 e 22:9. Duas leituras são possíveis: um altar pode estar pressuposto e não descrito, já que narrativas resumem e a invocação do nome aparece ligada a altares em outras passagens; ou o gesto pode ser realmente de outro tipo, a marcação de um lugar por uma árvore. Não é possível decidir.

O que é exatamente uma tamargueira?

Uma árvore de região árida, com raízes profundas, folhagem minúscula e capacidade de excretar sal pelas folhas, o que lhe permite viver em solos onde poucas plantas sobrevivem. Cresce devagar e é longeva. A identificação da palavra hebraica eshel com essa espécie apoia-se na comparação com outras línguas semíticas; as versões antigas não a reconheciam, e a Septuaginta chegou a traduzir por campo lavrado.

Plantar árvore junto a lugar de culto não era proibido?

Passou a ser. Deuteronômio 16:21 proíbe plantar árvore como poste sagrado junto ao altar do SENHOR, e os profetas denunciam repetidamente o culto "debaixo de toda árvore verde". Mas essa legislação é posterior à cena, e o narrador de Gênesis não emite nenhuma censura ao gesto de Abraão. Registrar a tensão entre os dois conjuntos de texto é mais honesto do que harmonizá-los à força.

"Invocar o nome do SENHOR" é orar ou pregar?

A expressão hebraica comporta as duas leituras, e ambas têm defensores antigos. Como invocação, é dirigir-se a Deus em culto. Como proclamação, é anunciar o nome dele a quem esteja por perto — leitura que a tradição judaica desenvolveu bastante. A gramática não decide, e é plausível que os antigos não separassem as coisas tanto quanto se separa hoje. A fórmula aparece pela primeira vez em 4:26 e reaparece em 12:8, 13:4 e 26:25.

El Olam significa mesmo "Deus eterno"?

É tradução aceitável, com uma ressalva importante. Olam designa duração indefinida, o horizonte remoto do tempo — para trás e para a frente —, e não a atemporalidade da filosofia grega. "O Deus de sempre" está mais perto do hebraico. E El, além de ser a palavra semítica comum para deus, é o nome do deus supremo do panteão da região, conhecido pelos textos de Ugarit.

Isso significa que Abraão cultuava um deus cananeu?

Não é possível afirmar isso, e há bons argumentos em sentido contrário. El é a palavra ordinária para "deus" em toda a família semítica, e um epíteto formado com ela pode ser apenas "Deus tal". Além disso, a Bíblia hebraica polemiza abertamente com Baal, com Asera e com Dagom, e nunca com El — o que é compatível com a hipótese de que El tenha sido entendido, desde cedo, como o mesmo Deus. O que se pode afirmar é que o vocabulário religioso é partilhado com a região, e isso o próprio texto reconhece.

A Bíblia admite em algum lugar que os patriarcas não conheciam o nome YHWH?

Admite, e de forma explícita. Êxodo 6:2-3 registra: "Eu sou o SENHOR. Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como El Shadai; mas pelo meu nome, o SENHOR, não lhes fui conhecido." Isso cria uma tensão evidente com Gênesis, que usa o tetragrama o tempo todo, inclusive neste versículo. As soluções propostas incluem entender Êxodo 6:3 como referente ao significado do nome e não às letras dele, ou atribuir os usos a tradições distintas. Nenhuma é consensual.

Que outros epítetos com El aparecem no ciclo de Abraão?

El Elyon, "Deus Altíssimo", na boca de Melquisedeque, sacerdote de Salém (14:18-22), com a fórmula "criador dos céus e da terra", que tem paralelo em inscrições fenícias. El Roi, "Deus que me vê", dado por Agar (16:13) — a única vez em toda a Bíblia hebraica em que alguém dá um nome a Deus. El Shadai, na aparição de 17:1, com sentido discutido. E, depois de Abraão, El Elohe Israel (33:20) e El Betel (35:7).

Por que o nome do SENHOR só aparece agora, e não durante o tratado?

Do versículo 22 ao 32 o capítulo usa exclusivamente Elohim, inclusive nas falas de Abimeleque, e o tetragrama reaparece imediatamente após a partida da comitiva. Uma leitura possível é que o termo genérico funcione como registro diplomático, adequado entre povos de cultos diferentes, e o nome próprio como língua interna. A explicação alternativa, antiga, atribui a alternância a fontes distintas do Pentateuco. Não há consenso sobre o peso a dar ao padrão, que é, ele sim, observável.

9. Conexão com Outros Textos

Árvores como lugar de encontro e de culto

Gênesis 12:6 — "Passou Abrão pela terra até o lugar de Siquém, até o carvalho de Moré." A primeira árvore nomeada do ciclo.

Gênesis 13:18 — "Veio Abrão e habitou junto aos carvalhais de Manre, e edificou ali um altar ao SENHOR."

Gênesis 35:8 — "Débora foi sepultada ao pé de Betel, debaixo do carvalho, ao qual chamou Alom-Bacute." A árvore que recebe nome próprio.

Josué 24:26 — "Tomou uma grande pedra e a erigiu ali debaixo do carvalho que estava junto ao santuário do SENHOR."

Juízes 4:5 — "Ela se assentava debaixo da palmeira de Débora... e os filhos de Israel subiam a ela a juízo."

As três tamargueiras da Bíblia

1 Samuel 22:6 — "Saul estava em Gibeá, debaixo da tamargueira, no alto, com a sua lança na mão." Corte real ao ar livre.

1 Samuel 31:13 — "Tomaram os seus ossos e os sepultaram debaixo da tamargueira, em Jabes." A mesma árvore, no fim da mesma história.

Invocar o nome do SENHOR

Gênesis 4:26 — "Então se começou a invocar o nome do SENHOR." A primeira ocorrência da fórmula.

Gênesis 12:8 — "Ali edificou um altar ao SENHOR e invocou o nome do SENHOR."

Gênesis 13:4 — "Ao lugar do altar que dantes ali tinha feito; e Abrão invocou ali o nome do SENHOR."

Gênesis 26:25 — "Edificou ali um altar e invocou o nome do SENHOR, e armou ali a sua tenda; e os servos de Isaque cavaram ali um poço." Em Berseba, na geração seguinte.

A série dos epítetos com El

Gênesis 14:18-20 — "Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo... Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, criador dos céus e da terra."

Gênesis 14:22 — "Levanto a minha mão ao SENHOR, o Deus Altíssimo, criador dos céus e da terra." Abraão adota o título do sacerdote e lhe acrescenta o tetragrama.

Gênesis 16:13 — "Chamou o nome do SENHOR que com ela falava: Tu és o Deus que me vê." O nome dado por uma escrava egípcia.

Gênesis 17:1 — "Apareceu o SENHOR a Abrão e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso." O epíteto da instituição da circuncisão.

Gênesis 33:20 — "Levantou ali um altar e chamou-lhe El-Elohe-Israel." Jacó, em Siquém.

Gênesis 35:7 — "Edificou ali um altar e chamou aquele lugar El-Betel."

O texto que reconhece a série

Êxodo 6:2-3 — "Eu sou o SENHOR. Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome, o SENHOR, não lhes fui conhecido." A afirmação explícita de que o nome próprio veio depois.

A legislação posterior sobre árvores

Deuteronômio 16:21 — "Não plantarás nenhuma árvore como poste sagrado junto ao altar do SENHOR teu Deus."

1 Reis 14:23 — "Edificaram altares, colunas e postes sagrados sobre todo alto outeiro e debaixo de toda árvore verde."

Jeremias 2:20 — "Sobre todo outeiro alto e debaixo de toda árvore verde te andas prostituindo." A polêmica profética contra a prática.

A duração indefinida de olam

Êxodo 21:6 — "E ele o servirá para sempre." A mesma palavra designando o resto de uma vida humana.

Isaías 63:9 — "Ele os tomou e os trouxe todos os dias da antiguidade." O horizonte remoto no passado.

Salmo 90:2 — "De eternidade a eternidade tu és Deus." O termo aplicado a Deus nas duas direções do tempo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Abraão plantou uma tamargueira em Berseba e ali invocou o nome do SENHOR, o Deus eterno.

Texto hebraico

וַיִּטַּע אֶשֶׁל בִּבְאֵר שָׁבַע וַיִּקְרָא־שָׁם בְּשֵׁם יְהוָה אֵל עוֹלָם

Transliteração

wa-yitta eshel bi-Ve'er Shava, wa-yiqra-sham be-shem YHWH El Olam

Análise palavra por palavra

וַיִּטַּעwa-yitta, "e plantou". Imperfeito consecutivo de nata, verbo comum de plantar, o mesmo de Gênesis 2:8, onde Deus planta um jardim, e de 9:20, onde Noé planta uma vinha. Note que o sujeito não é expresso no hebraico: o nome de Abraão não aparece neste versículo, e as traduções o acrescentam a partir do contexto.

אֶשֶׁלeshel, "tamargueira". Substantivo raro, com apenas três ocorrências na Bíblia hebraica. A identificação apoia-se na comparação com outras línguas semíticas; as versões antigas divergiram, com a Septuaginta traduzindo por campo lavrado e a Vulgata por bosque. Aparece aqui sem artigo, o que é normal para o objeto de um verbo de plantar.

בִּבְאֵר שָׁבַעbi-Ve'er Shava, "em Berseba". O topônimo explicado dois versículos antes, agora em uso corrente.

וַיִּקְרָא־שָׁםwa-yiqra-sham, "e chamou ali". Qara é o verbo de chamar, clamar, proclamar e também de dar nome. O advérbio sham localiza o ato no lugar recém-nomeado, ligando o plantio e a invocação ao mesmo ponto do espaço.

בְּשֵׁם יְהוָהbe-shem YHWH, "no nome do SENHOR". A preposição be com shem ("nome") forma a expressão fixa que as traduções vertem por "invocou o nome". Literalmente é "chamou no nome", construção que comporta tanto dirigir-se a Deus quanto proclamar o nome dele — ambiguidade antiga e não resolvida. YHWH é o tetragrama, o nome próprio, ausente do capítulo desde o versículo 2.

אֵל עוֹלָםEl Olam, "Deus eterno". El é o termo semítico comum para deus e também o nome do deus supremo do panteão regional. Olam designa duração indefinida, o horizonte remoto do tempo em qualquer das duas direções — não a atemporalidade da filosofia grega. A construção é de aposto: o título qualifica o nome que acabou de ser mencionado.

A estrutura da frase

O versículo tem dois verbos e uma simetria simples. Primeiro um ato material — plantar —, depois um ato verbal — invocar. Os dois estão ancorados no mesmo lugar, e o advérbio "ali" faz a costura.

Essa combinação de gesto e palavra é característica dos episódios de fundação de lugares sagrados na Bíblia hebraica. Jacó, em Betel, levanta uma pedra e dá nome ao lugar (28:18-19). Em Siquém, ergue um altar e o nomeia (33:20). O padrão é o mesmo: alguma coisa é fixada no chão, e alguma coisa é dita.

Uma observação sobre a ordem das palavras no título

Vale notar que o texto não diz "YHWH, que é El Olam", nem introduz o título com qualquer partícula explicativa. Ele simplesmente justapõe: YHWH El Olam.

A justaposição é o que produz o efeito discutido no item três. Um nome próprio e um epíteto de sabor regional são postos lado a lado, sem conjunção, sem explicação e sem defesa — como se a identificação entre os dois fosse óbvia demais para merecer comentário.

Isso é frequente na Bíblia hebraica, e é o mesmo procedimento de 14:22, onde Abraão diz "YHWH El Elyon, criador dos céus e da terra", adotando sem ressalva o título que um sacerdote cananeu acabara de usar.

11. Conclusão

Passada a comitiva, sobra um homem e um pedaço de terra que não é dele. O que ele faz ali cabe em dois verbos.

Planta. E o verbo tem, embutida, uma escala de tempo que nenhum esforço acelera: a espécie escolhida cresce devagar, vive muito e não pode ser levada na mudança. Um homem de mais de cem anos que fixa uma muda no solo está trabalhando para depois de si — num capítulo cujo último versículo dirá que ele continuava forasteiro naquele lugar.

A palavra da árvore é rara e já era obscura na Antiguidade: os tradutores gregos entenderam campo lavrado, os latinos entenderam bosque, e a identificação com a tamargueira vem sobretudo da comparação entre línguas semíticas. Nas outras duas vezes em que aparece na Bíblia, marca uma corte real e uma sepultura.

E não há altar. Abraão os constrói em Siquém, entre Betel e Ai, em Manre, e construirá no monte do capítulo seguinte, e o narrador nunca deixa de mencioná-los. Aqui, apenas o plantio e uma invocação. Se o altar está pressuposto ou se o gesto é de outra natureza, o texto não permite decidir.

O segundo verbo traz de volta o nome próprio de Deus, ausente desde o começo do capítulo. Enquanto o rei e o comandante estiveram presentes, o vocabulário foi o genérico — o que serve entre povos de cultos diferentes, sem exigir concordância. Eles partem, e o tetragrama reaparece na linha seguinte. O padrão é observável; a explicação dele é discutida há muito tempo e não está resolvida.

Resta o título, e ele é o que faz deste versículo material sério. Olam não é a eternidade sem tempo da filosofia grega: é o horizonte remoto, para trás e para a frente. E El é ao mesmo tempo a palavra comum para deus e o nome do deus supremo dos povos vizinhos. O ciclo de Abraão está cheio disso — um título recebido de um sacerdote cananeu, um nome dado por uma escrava egípcia, um epíteto de sentido incerto na instituição da circuncisão —, e Êxodo 6:3 diz sem rodeios que os patriarcas conheceram Deus assim, e não pelo nome próprio.

O que se pode afirmar é que a linguagem religiosa é partilhada com a região, e que o texto bíblico não esconde isso. O que não se pode afirmar é o que essa partilha significa quanto à origem da fé de Israel: a hipótese da identificação pacífica tem a seu favor o fato de a Bíblia polemizar com Baal, com Asera e com Dagom, e nunca com El; e a reconstrução histórica de um destacamento gradual permanece em aberto. O versículo, de sua parte, não explica coisa nenhuma. Planta uma árvore, invoca um nome e segue.

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