📖 Navegar na Bíblia:
‹

Gênesis 49:23

›
✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 36 acessos
Os arqueiros o atacaram com amargura, atiraram contra ele e o perseguiram com ódio;
Grupo de arqueiros antigos com arcos retesados, atirando a distância contra um alvo fora do quadro, ao entardecer.

Estudo


Os arqueiros o atacaram com amargura, atiraram contra ele e o perseguiram com ódio;

1. Introdução

Depois da imagem de crescimento, o oráculo de José muda de assunto sem aviso: alguém atirou nele.

O versículo tem uma linha e três verbos. Amarguraram, atiraram, guardaram ódio. Só no fim aparece quem fez isso, e a designação é indireta: "os donos das flechas". Ninguém é nomeado.

Três coisas merecem atenção aqui.

A primeira é a anonimidade. O capítulo inteiro nomeia doze filhos, mas não nomeia um único inimigo. O leitor que quiser saber quem atirou terá de decidir por conta própria, e as candidaturas são muitas — os irmãos, a casa de Potifar, os egípcios, os inimigos posteriores da tribo. O texto não escolhe.

A segunda é o vocabulário. Os dois verbos das pontas — o da amargura e o do ódio guardado — não são palavras neutras no Gênesis. Um deles reaparecerá no capítulo seguinte, na boca dos próprios irmãos de José, com ele como sujeito temido.

A terceira é a posição do versículo. Ele vem depois da bênção e antes da resposta: no versículo 24, o arco de José continuará firme. Este versículo é a metade escura de uma frase que termina bem. Lido sozinho, ele é só ataque.

2. Contexto Histórico e Cultural

Arqueiro era categoria, não improviso

Quando o poema diz "os donos das flechas", ele não está descrevendo brigões que pegaram um arco. Está nomeando uma função reconhecida.

O testemunho mais vistoso disso está numa tumba egípcia de Assiut, no médio Egito. Do enterro de Mesehti, governador local por volta de 2000 a.C., saíram conjuntos de soldados de madeira pintada, dispostos em fileiras sobre uma base. Um deles é uma companhia de quarenta arqueiros núbios, de saiote vermelho, arco na mão esquerda e flechas na direita, todos com a perna esquerda adiantada, como quem marcha junto.

O detalhe que interessa é o número e o alinhamento. Quarenta homens iguais, com o mesmo equipamento, em ordem de marcha: isso é tropa, não caçada. E são núbios — estrangeiros contratados, especialistas reconhecidos naquilo. A arquearia era ofício, com gente treinada e recrutada para ele.

Por que o arqueiro era o inimigo mais difícil

O arco composto — o de camadas de madeira, chifre e tendão — já foi descrito neste comentário, no estudo de Gênesis 27:3, quando Isaque pede a Esaú que pegue a aljava. Aqui interessa outra coisa: quem atira de longe não precisa se aproximar. Não há corpo a corpo, não há força a medir, não há como revidar antes de ser atingido. Contra lança e espada existe defesa recíproca; contra flecha, a distância trabalha só para um lado.

O ódio que se guarda

O terceiro verbo do versículo não é de agressão física, e sim de sentimento conservado. O hebraico tem uma palavra específica para a hostilidade que fica de pé depois do episódio, esperando ocasião. É a palavra que descreve Esaú em Gênesis 27:41, depois de perder a bênção.

Vale saber que essa era uma categoria séria naquela cultura, e não um estado de ânimo particular. Onde não havia polícia nem tribunal permanente, a inimizade guardada era um estado jurídico de fato entre casas: enquanto durasse, ninguém viajava sozinho pelo território do outro. Encerrar uma inimizade exigia ato formal — este comentário já tratou desses ritos nos estudos de Gênesis 26:28-31 e 31:44-54. O que o verbo do versículo descreve é justamente o contrário disso: a inimizade que ninguém encerrou.

3. Análise Teológica do Versículo

"Os arqueiros o atacaram com amargura"

A tradução em português organiza a frase para o leitor; o hebraico não é tão organizado assim. Nele, os três verbos vêm primeiro, um atrás do outro, e o sujeito só aparece na última palavra.

Literalmente, a ordem é: amarguraram-no, atiraram, odiaram-no — os donos das flechas. O leitor ouve três ataques antes de saber quem ataca. É construção de suspense, e o efeito é o mesmo em qualquer língua: o golpe chega antes da identificação do agressor.

O primeiro verbo merece atenção. Ele não descreve o ferimento, descreve o gosto que ficou. A raiz é a da amargura — a mesma das ervas amargas, a mesma que faz Noemi pedir para ser chamada de Mara em Rute 1:20. Aplicada a uma pessoa como objeto, ela significa tornar amarga a vida de alguém. É o verbo de Êxodo 1:14, onde os egípcios amarguraram a vida dos filhos de Israel com trabalho duro.

Convém marcar o limite antes de tirar conclusão. O paralelo é de vocabulário, não de citação: o Gênesis não remete ao Êxodo e o Êxodo não remete a este versículo. O que se pode dizer é que a língua tinha uma palavra para o sofrimento prolongado imposto por outro, e que ela é usada nos dois lugares.

"atiraram contra ele"

Este é o verbo mais curto e o mais discutido do versículo. Em hebraico ele tem duas letras repetidas e admite mais de uma derivação — o item 10 apresenta as opções.

Na leitura corrente, é o verbo de disparar flecha, e ele fecha a imagem: os arqueiros atiraram. Na leitura alternativa, é o verbo de contender, de mover disputa contra alguém, e a frase vira "contenderam com ele". Há ainda quem o ligue à raiz de "ser muitos" e leia "tornaram-se muitos contra ele".

Não é possível decidir entre as três com segurança, e a diferença prática é menor do que parece: nas três, alguém se voltou contra José de modo sustentado. O que muda é se a agressão descrita é de arma, de processo ou de número.

"e o perseguiram com ódio"

Aqui está a palavra mais carregada do versículo, e ela tem história dentro do próprio Gênesis.

O verbo não descreve raiva momentânea. Descreve a hostilidade que se conserva — guardar rancor, manter-se inimigo, esperar a hora. É o verbo de Gênesis 27:41: "e Esaú odiou a Jacó por causa da bênção com que seu pai o abençoara". Não é a explosão do momento em que Esaú descobre o engano; é o que ficou depois dela.

E ele aparece uma terceira vez no livro, um capítulo adiante deste, com uma inversão que vale registrar. Em Gênesis 50:15, morto o pai, os irmãos dizem entre si: "porventura José nos odiará" — o mesmo verbo, com José como sujeito e eles como objeto. O Gênesis usa a palavra do rancor guardado três vezes: para Esaú contra Jacó, para quem atacou José, e para o medo que os irmãos têm de José depois da morte do pai.

O texto não estabelece ligação entre as três ocorrências, e seria forçar a mão dizer que ele o faz. Mas o vocabulário é o mesmo, o livro é o mesmo, e as três estão a poucos capítulos umas das outras.

"os arqueiros" — quem?

O versículo termina sem responder à pergunta que ele mesmo levanta, e é preciso encarar isso de frente.

A leitura mais antiga e mais comum identifica os arqueiros com os irmãos. Ela se apoia no que o próprio livro contou: eles o odiaram, não lhe podiam falar pacificamente, e o venderam. Tem a favor a economia — o leitor já conhece esses agressores. Tem contra um dado incômodo: os irmãos estão presentes, ouvindo, e Jacó estaria acusando dez dos doze homens à frente dele sem nomeá-los, num poema em que ele nomeia com todas as letras o crime de Rúben e a violência de Simeão e Levi. Quando quis acusar, ele acusou.

A segunda leitura pensa no Egito: a mulher de Potifar, a acusação falsa, os anos de prisão. Tem a favor que ali houve, de fato, ataque por palavra e não por arma, e que o segundo verbo admite o sentido de contender.

A terceira lê tribo, e não pessoa. Como todos os outros oráculos do capítulo falam do futuro das tribos, este também falaria — e os arqueiros seriam os inimigos que Efraim e Manassés enfrentariam na região montanhosa. Tem a favor a coerência com o gênero do poema. Tem contra o fato de que os verbos estão no passado.

A quarta possibilidade é que a indeterminação seja proposital: um modo de dizer "todos os que se voltaram contra ele", sem recortar. Poesia funciona assim com frequência, e a Bíblia tem muitos inimigos anônimos no plural, sobretudo nos salmos.

Este comentário não escolhe entre as quatro. Nenhuma se impõe, e a que parece mais natural — os irmãos — é justamente a que tem contra si o silêncio deliberado de um pai que, em outros oráculos, não teve nenhum pudor de nomear.

O que o versículo deixa em aberto de propósito

Note-se que ele também não diz o que aconteceu com os atiradores.

Não há castigo anunciado, não há maldição, não há promessa de troco. O versículo seguinte não fala do destino deles: fala do arco de José, que se manteve firme. A resposta ao ataque, no poema, é a resistência do atacado — e não a punição de quem atirou.

É um dado de conteúdo, não de estilo, e ele muda o tom do oráculo inteiro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os arqueiros

Não são identificados. Este é o dado principal deste item, e é preciso resistir à tentação de preenchê-lo.

Os candidatos que a tradição interpretativa propôs, com o que sustenta cada um:

Os irmãos. Gênesis 37:4 diz que eles o odiavam e não lhe podiam falar pacificamente; 37:24 o põe na cisterna; 37:28 registra a venda. É a leitura de boa parte dos comentaristas judaicos e cristãos. O obstáculo é a presença deles na cena e o silêncio de Jacó quanto ao nome.

A mulher de Potifar e a casa dele. Gênesis 39:14-20 traz a acusação e a prisão. O que favorece essa leitura é o segundo verbo, que admite sentido de disputa e acusação; o que a limita é que ali houve uma acusadora, no singular, e o versículo fala no plural.

Os inimigos posteriores das tribos de José. A leitura que trata o oráculo como fala sobre o futuro tribal, no mesmo registro dos outros onze. Nesse caso, os arqueiros seriam os povos que Efraim e Manassés enfrentaram na região montanhosa central: cananeus com carro de ferro, segundo Josué 17:16, e depois midianitas, amonitas e filisteus.

José

Ele é o alvo, e vale notar a passividade dele neste versículo. Nas três orações, José é objeto: amarguraram-no, atiraram contra ele, odiaram-no. Ele não faz nada. Só no versículo seguinte ele aparece com um arco na mão, e mesmo ali quem fortalece os braços dele é outro.

Um evento que este versículo pressupõe sem contar

O ataque é dado como conhecido: Jacó não explica o que houve, não data, não descreve. Se os ouvintes são os onze filhos, isso tem uma consequência desconfortável — a única coisa que todos eles sabem, e que o livro contou, é o que eles próprios fizeram. Trata-se de inferência do leitor, e não de afirmação do texto.

5. Pontos de Ensino

1. O poema não nomeia o agressor, e essa lacuna é parte da mensagem

Um pai que acabou de acusar Rúben com todas as letras e de amaldiçoar a ira de Simeão e Levi escolhe, aqui, não dizer quem atirou. Seja qual for o motivo, a escolha é dele e está no texto. Ler o versículo é ler também esse silêncio.

2. O rancor tem palavra própria em hebraico, e ela reaparece na boca dos irmãos

O verbo do ódio guardado é o de Esaú em Gênesis 27:41 e o do medo dos irmãos em Gênesis 50:15. É a mesma palavra descrevendo o que se conserva depois que o episódio acabou. O Gênesis conhece bem esse estado e o nomeia.

3. Amargurar alguém é uma ação, não um sentimento

O primeiro verbo tem José como objeto: fizeram dele um amargurado. A língua trata a amargura como coisa que se causa em outro, e não apenas como estado interno de quem sofre. Isso muda a responsabilidade de lugar.

4. A resposta ao ataque, no poema, não é vingança

O versículo seguinte não anuncia castigo para os atiradores. Anuncia que o arco de José permaneceu firme. Quem procurar troco neste oráculo não vai encontrar.

5. O ataque está dentro da bênção, não fora dela

Este versículo não é um parêntese. Ele integra os cinco versículos que compõem o oráculo mais elogioso do capítulo. O poema não trata o ataque como acidente na história de José: trata como parte dela.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma pergunta simples escondida no anonimato deste versículo: é possível descrever um dano sem nomear quem o causou?

A prática corrente diz que não. Quem foi ferido quer o nome, e há boas razões para isso: sem nome não há responsabilidade, sem responsabilidade não há reparação, e o que não se nomeia costuma voltar. Nomear é, entre outras coisas, uma medida de segurança.

Mas o versículo mostra o outro lado da conta, e vale considerá-lo. Nomear também fixa. A partir do momento em que a pessoa ferida é definida por quem a feriu, a biografia dela passa a girar em torno disso; o agressor entra na história para ficar, com papel garantido em cada recontagem.

Este versículo faz o contrário. Ele registra o ataque com três verbos fortes, não o minimiza, não o transforma em mal-entendido — e simplesmente não dá nome a ninguém. O golpe fica; o agressor não recebe estatuto.

Não se pode afirmar que o texto tenha essa intenção; ele não explica a omissão. O que se pode dizer é que o resultado é esse, e que ele é diferente tanto do esquecimento quanto da acusação.

7. Aplicações Práticas

Registrar o dano sem transformá-lo em identidade

A aplicação mais direta deste versículo vem do modo como ele fala do ataque: com três verbos duros e nenhum nome. O sofrimento é dito por inteiro, e mesmo assim não vira o assunto principal — dois versículos depois, o oráculo já está falando de bênção e de fertilidade.

Há uma diferença prática entre reconhecer o que aconteceu e organizar a vida em torno disso. A primeira coisa é necessária; a segunda entrega ao agressor um poder que ele já não tem.

O ódio que fica é diferente da briga que houve

O terceiro verbo do versículo separa duas coisas que a linguagem comum mistura. Uma é o conflito; outra é o que sobra dele depois. O conflito acaba sozinho; o rancor, não — ele precisa de um ato para terminar.

Vale a pergunta concreta: existe alguém com quem a briga acabou há anos e a inimizade continua de pé? Se existe, ela não vai cair sozinha. O Gênesis mostra, em outros episódios, que encerrar inimizade era ato formal, com gesto e testemunha. O princípio permanece útil mesmo sem o rito.

Um limite

O versículo não manda perdoar, não descreve reconciliação e não diz o que José sentiu. Ele registra um ataque. Qualquer aplicação sobre perdão apoiada só nele estaria indo além do texto — o material sobre isso está no capítulo 50, e é lá que ele deve ser buscado.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o versículo não diz quem atirou, por que quase todo mundo entende que foram os irmãos?

Porque é a hipótese mais econômica para quem leu o livro inteiro: os irmãos são os únicos agressores de José que o Gênesis descreveu com detalhe. A leitura é razoável. O que não é razoável é apresentá-la como conteúdo do versículo, quando ela é conclusão do leitor.

Jacó sabia o que os filhos tinham feito com José?

O Gênesis não diz. Ele registra o engano da túnica ensanguentada em Gênesis 37:31-33 e nunca conta que a verdade tenha chegado ao pai. Em Gênesis 50:16-17 os irmãos alegam uma ordem deixada por Jacó sobre o perdão, o que sugeriria que ele soubesse; mas o texto apresenta isso como fala deles, e não como fato narrado. Não é possível decidir.

Por que a tradução muda tanto no segundo verbo?

Porque a forma hebraica admite mais de uma origem. Uma raiz dá "atirar flechas", outra dá "contender, mover disputa", outra dá "ser muitos". Cada tradutor escolhe, e a escolha muda a cena de guerra para tribunal. O item 10 detalha as opções.

O que significa "donos das flechas"?

É a construção hebraica que descreve uma pessoa pela característica que a define — o mesmo molde do apelido que os irmãos deram a José em Gênesis 37:19, tratado no estudo daquele versículo. Aqui ela produz simplesmente "arqueiros", mas com uma nuance: não são pessoas que por acaso atiraram, são pessoas cuja identidade é atirar.

9. Conexão com Outros Textos

O ódio dos irmãos, contado em prosa

Gênesis 37:4 — "Vendo, pois, seus irmãos que seu pai o amava mais do que a todos os seus irmãos, aborreceram-no e não podiam falar com ele pacificamente."

Gênesis 37:24 — "E tomaram-no e lançaram-no na cova; porém a cova estava vazia, não havia água nela."

O verbo do rancor guardado, nas outras duas vezes em que o Gênesis o usa

Gênesis 27:41 — "E Esaú odiou a Jacó por causa daquela bênção com que seu pai o tinha abençoado; e Esaú disse no seu coração: Chegar-se-ão os dias de luto de meu pai, e matarei a Jacó, meu irmão."

Gênesis 50:15 — "Vendo então os irmãos de José que seu pai já estava morto, disseram: Porventura nos odiará José e nos pagará certamente todo o mal que lhe fizemos."

Amargurar a vida de alguém

Êxodo 1:14 — "E amargaram-lhes a vida com dura servidão, em barro e em tijolos, e com todo o trabalho no campo."

Rute 1:20 — "Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso."

Inimigos anônimos armados de flecha, nos salmos

Salmo 11:2 — "Porque eis que os ímpios armam o arco, põem a sua flecha na corda, para com ela atirarem, às ocultas, aos retos de coração."

Salmo 64:3-4 — "Que afiaram a sua língua como espada; e armaram por suas flechas palavras amargas, para atirarem às ocultas ao íntegro."

Note-se, no Salmo 64, que a flecha é palavra e que ela é chamada de amarga — as duas imagens deste versículo aparecem juntas, e ali explicadas.

Os inimigos que a tribo de José enfrentou

Josué 17:16 — "Então disseram os filhos de José: A montanha não nos bastaria; também carros de ferro há entre todos os cananeus que habitam na terra do vale."

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Os arqueiros o atacaram com amargura, atiraram contra ele e o perseguiram com ódio;

Texto hebraico

וַֽיְמָרֲרֻ֖הוּ וָרֹ֑בּוּ וַֽיִּשְׂטְמֻ֖הוּ בַּעֲלֵ֥י חִצִּֽים׃

Transliteração

vaymareruhú va-róbbu vayistemuhú ba'alê chitsím

Análise palavra por palavra

וַיְמָרֲרֻהוּ · vaymareruhú — "e o amarguraram"

Raiz מרר (marar), no Piel — a forma intensiva do verbo hebraico —, terceira pessoa do plural, com sufixo de objeto na terceira pessoa masculina singular.

No Qal, a forma simples, a raiz significa "ser amargo". No Piel, ela ganha sentido causativo: tornar amargo, amargurar alguém. O objeto do verbo, aqui, é uma pessoa.

O campo da raiz é largo e coerente. Dela vêm as ervas amargas de Êxodo 12:8, as águas de Mara em Êxodo 15:23, e o nome que Noemi pede para si em Rute 1:20. Dela vem também o substantivo que designa a mirra.

A ocorrência mais próxima desta, em construção e em sentido, é Êxodo 1:14: os egípcios amarguraram a vida dos israelitas com trabalho pesado. Ali o Piel tem "vida" como objeto; aqui tem a pessoa inteira.

וָרֹבּוּ · va-róbbu — "e atiraram" (leitura corrente)

Esta é a palavra difícil do versículo, e há três derivações possíveis.

Primeira: da raiz רבב (rabab) com o sentido de atirar, disparar flecha. É a leitura adotada pela maioria das traduções, inclusive a nossa, e é a que produz "atiraram". O sentido combina com o sujeito que vem no fim do versículo — os donos das flechas.

Segunda: da raiz ריב (riv), contender, mover pleito, brigar em juízo. Ela produziria "e contenderam com ele". É a raiz do nome de Meribá em Êxodo 17:7, o lugar da contenda. Alguns comentaristas a preferem, e ela abre a possibilidade de que o ataque descrito seja de acusação, e não de arma.

Terceira: da raiz רבב no seu sentido mais comum, "ser muitos, ser numeroso", o que daria "e tornaram-se muitos contra ele".

A forma hebraica, tal como vocalizada no texto recebido, não decide entre as três, e a repetição de consoante que a raiz apresenta é justamente o que torna a análise incerta. Não é possível decidir. Vale registrar que a diferença de sentido entre as três é menor do que a diferença de origem: em todas, um grupo se voltou contra José.

וַיִּשְׂטְמֻהוּ · vayistemuhú — "e o odiaram"

Raiz שׂטם (satam), no Qal, terceira pessoa do plural, com sufixo de objeto.

A palavra não é o termo comum para odiar. Ela designa a hostilidade conservada, o rancor mantido em espera — guardar inimizade contra alguém, ficar de tocaia com o sentimento.

Ela aparece pouquíssimas vezes na Bíblia hebraica, e três delas estão no Gênesis: em Gênesis 27:41, para Esaú depois da bênção roubada; aqui; e em Gênesis 50:15, quando os irmãos temem que José os odeie agora que o pai morreu. Fora do Gênesis, ela reaparece em Jó 16:9 e no Salmo 55:3.

Convém notar a diferença em relação ao verbo usado em Gênesis 37:4 para o ódio dos irmãos, que é outra raiz — a de "aborrecer", muito mais frequente. O poema, aqui, escolheu a palavra mais rara e mais específica: não o desafeto, o rancor que espera.

בַּעֲלֵי חִצִּים · ba'alê chitsím — "donos de flechas"

Ba'alê é o plural construto de ba'al, "senhor, dono, possuidor". A construção "senhor de" mais um substantivo forma, em hebraico, a designação de uma pessoa pela característica que a define; ela já foi apresentada neste comentário no estudo de Gênesis 37:19, onde os irmãos chamam José de "o senhor dos sonhos".

Fica aqui só o que é próprio deste versículo. A expressão não diz "os que atiraram": diz "os das flechas", isto é, aqueles cuja marca é a flecha. E há uma simetria que o hebraico deixa ver e a tradução esconde — o mesmo molde de palavra que os irmãos usaram para apelidar José em Gênesis 37:19 é o que o poema usa, doze capítulos depois, para designar quem atirou nele. O texto não comenta a simetria, e não se pode afirmar que ela seja proposital.

Chitsím é o plural de חֵץ (chets), flecha, seta. A palavra é usada literalmente para o projétil e figuradamente para a palavra que fere, como no Salmo 64:3, onde as flechas são "palavras amargas" — combinando, nesse versículo dos salmos, as duas imagens que aparecem aqui.

Sobre a ordem das palavras

Cabe registrar um traço de estilo com consequência de sentido. Os três verbos vêm em sequência e o sujeito aparece só no fim, depois de tudo. Em hebraico, o efeito é de acumulação: três golpes, e então o nome de quem golpeia.

Esse nome, porém, não é um nome. É uma descrição de função. O versículo constrói toda a expectativa de identificação e entrega, no lugar dela, uma categoria.

11. Conclusão

Do exposto, três conclusões se sustentam.

A primeira diz respeito ao anonimato. O poema descreve o ataque com precisão e o agressor com vaguidade. Num capítulo em que o pai nomeia o crime de Rúben e a violência de Simeão e Levi, essa omissão não pode ser tratada como descuido. Conclui-se que o versículo registra o dano sem constituir um acusado — e que qualquer identificação dos arqueiros, por razoável que seja, é do leitor e não do texto.

A segunda diz respeito ao vocabulário. O verbo escolhido para o ódio é o do rancor que se conserva, e não o do desafeto comum. Ele liga este versículo a Esaú em Gênesis 27:41 e ao medo dos irmãos em Gênesis 50:15. Conclui-se que o Gênesis reconhece a inimizade guardada como um estado próprio, distinto da briga que a originou, e que ele tem palavra específica para isso.

A terceira diz respeito ao lugar do versículo dentro do oráculo. O ataque não está fora da bênção: está no meio dela, entre a imagem de crescimento e a afirmação de que o arco de José permaneceu firme. Conclui-se que o poema não trata a hostilidade sofrida como interrupção da história de José, e sim como parte do que se diz sobre ele. E que a resposta oferecida não é castigo para quem atirou — é firmeza para quem levou o tiro.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Gênesis 49:23

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%