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Êxodo 15:23

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 15 acessos
Chegaram a Mara, mas não podiam beber as águas de Mara, porque eram amargas; por isso o lugar foi chamado Mara.
Pequena fonte de água num terreno pedregoso e esbranquiçado de sal, no deserto, com pessoas cansadas ajoelhadas à beira provando a água e fazendo careta, e uma multidão com animais esperando atrás.

Estudo


Chegaram a Mara, mas não podiam beber as águas de Mara, porque eram amargas; por isso o lugar foi chamado Mara.

1. Introdução

Depois de três dias sem água, o povo acha água — e ela não se pode beber. A frase repete, quase palavra por palavra, o que o Êxodo tinha dito dos egípcios diante do Nilo transformado em sangue. O motivo vem numa expressão de três palavras que o hebraico deixa ambígua: "porque eram amargas" pode referir-se às águas ou às pessoas, e a tradição judaica explorou as duas leituras. O lugar recebeu o nome da decepção, e o manteve mesmo depois que a água ficou doce. Onde fica esse lugar é pergunta antiga, e a resposta clássica é um poço salgado no oeste do Sinai, Ain Hawara.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde ficava Mara

Nenhuma inscrição, nenhum resto de acampamento, nenhuma tradição local contínua liga um lugar do Sinai a Mara. O que existe são propostas, e cada uma depende de uma decisão anterior: por onde o povo atravessou o mar. Se a travessia foi no golfo de Suez ou perto dele, Mara fica na costa ocidental da península; se foi mais ao norte, nos lagos do istmo, Mara fica em outro lugar. A discussão sobre o ponto da travessia não é deste versículo. As propostas para Mara são estas.

Primeira proposta: Ain Hawara

É a identificação clássica. Quem a propôs primeiro foi Johann Ludwig Burckhardt, o viajante suíço que percorreu o Sinai em 1816 e a registrou no seu livro de viagens publicado em 1822. Ele descreveu um poço chamado Hawara (ou Huwara), a sudeste das fontes de Moisés, e propôs que fosse a Mara do Êxodo. Edward Robinson, que passou por ali em 1838, considerou a proposta plausível, e a proposta entrou nos comentários do século XIX: Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães), Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano), Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano) e Shadal (Samuel David Luzzatto, rabino e erudito italiano) a adotam.

A descrição de Keil e Delitzsch é a de uma bacia de dois a dois metros e meio de diâmetro, com uns sessenta centímetros de água, "tão desagradavelmente amarga e salgada que os beduínos a consideram a pior água de toda a vizinhança". Barnes diz o mesmo com outras palavras: para os árabes, a pior do distrito inteiro.

O argumento a favor é duplo. A distância das fontes de Moisés até Hawara corresponde a três dias de marcha de uma multidão, e não há água no meio do caminho. E o que se acha ali é exatamente o que o texto descreve: água que existe e não se pode beber. O argumento contra também é duplo. Ellicott observa que Hawara é a mais abundante das fontes amargas daquele trecho, mas não a mais amarga — havia outras candidatas. E a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa, no volume de S. R. Driver, 1911) lembra que a proposta inteira depende da rota do sul; se o povo não atravessou perto de Suez, Hawara não serve.

Segunda proposta: as próprias fontes de Moisés

As nascentes perto de Suez também são amargas, mas ficam a meia hora do mar, e o texto põe três dias de caminho antes de Mara — a objeção de Shadal, registrada no estudo de Êxodo 15:22.

Terceira proposta: os vales mais ao sul

Outros procuraram Mara nos vales ao sul de Hawara. Keil e Delitzsch recusam os dois mais citados: num deles não há água, e no outro, o de Gharandel, a água é boa demais para ser a de Mara — e é ali, aliás, que a maioria põe Elim, o oásis de Êxodo 15:27.

Quarta proposta: a rota do norte

Quem coloca a travessia nos lagos do istmo procura Mara junto às lagoas salgadas daquela região. Adin Steinsaltz (talmudista israelense do século XX) fica com essa possibilidade, de modo vago: Mara estaria "talvez junto a um dos lagos de água salgada perto do Nilo". Troca-se a precisão de um poço por uma região inteira de águas salobras.

Nenhuma das quatro se impõe. Ain Hawara é a mais detalhada e a mais repetida, e continua sendo uma hipótese.

Por que uma fonte do deserto é amarga

A água que brota no deserto quase nunca é pura. Ela percorre por baixo da terra camadas de rocha e de sedimento, e dissolve os sais que encontra. Quando esses sais são sobretudo sulfatos — de magnésio, de sódio, de cálcio —, o gosto é amargo, e não apenas salgado: é o mesmo amargor do sal que a farmácia vende como purgante. Bebida em quantidade, uma água assim pode provocar diarreia e piorar a desidratação de quem já está com sede. Para um povo que vinha de três dias sem beber, uma fonte dessas era pior do que nenhuma: a água estava ali, e beber dela era perigoso.

3. Análise Teológica do Versículo

"Chegaram a Mara"

O versículo usa o nome antes de explicá-lo. O povo "chega a Mara", não pode beber "das águas de Mara", e só no fim se diz que o lugar "foi chamado Mara". O lugar já tinha esse nome, ou o recebeu ali? Três respostas.

Primeira: o texto usa o nome que o lugar teria depois, "por antecipação", diz Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII). Segunda: o oásis já se chamava assim, e só a fonte recebeu o nome ali, pelo gosto da água — é a sugestão do Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII).

Terceira: a água era doce até aquele dia. É a de Malbim (Meir Leibush Weisser, rabino e comentarista da Europa oriental, século XIX), apoiado numa opinião de Rabi Josué na Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III): as águas "ficaram amargas por um momento" e depois foram adoçadas. Se é assim, a amargura foi um acontecimento, não uma propriedade do lugar, e o nome registra o que aconteceu ali. Rabi Eleazar de Modiim, na mesma Mekhilta, discorda: as águas eram amargas desde sempre.

O texto não decide. A primeira resposta é a mais simples. A terceira transforma o episódio inteiro em prova deliberada, e combina com o "ali o pôs à prova" de Êxodo 15:25.

Há ainda um detalhe que os escribas anotaram. Na margem do texto hebraico, a tradição dos massoretas (os copistas que fixaram o texto e as suas anotações, entre os séculos VII e X) registra que a forma usada aqui para "a Mara" aparece só duas vezes na Bíblia: neste versículo e em Jeremias 4:17, onde não é nome de lugar, e sim verbo — "porque ela se rebelou contra mim", diz o SENHOR sobre Jerusalém. Em hebraico, "amarga" e "rebelou-se" soam quase iguais. O comentário conhecido como Baal HaTurim (de Jacó ben Asher, rabino alemão radicado na Espanha, século XIV) tira a conclusão: assim como lá se rebelaram contra Deus, aqui também. A aproximação é de ouvido, mas o ouvido hebraico a faz sozinho, e ela antecipa o versículo seguinte.

"mas não podiam beber as águas de Mara"

A frase já foi lida neste livro. Na primeira praga, o Nilo vira sangue, e o Êxodo diz duas vezes que "os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo" (Êxodo 7:21) e que "não podiam beber da água do rio" (Êxodo 7:24). O hebraico usa nos dois lugares, e aqui, a mesma construção: "não podiam beber água". Três dias depois de cantar a morte do Egito, Israel está na situação do Egito na primeira praga: diante de água que existe e não serve.

O Êxodo não comenta a coincidência, mas o leitor que acabou de ouvir o cântico não precisa de comentário: a primeira coisa que acontece a Israel no deserto é a primeira coisa que aconteceu ao Egito no Egito. Ibn Ezra, citado por Nachmânides, já pôs as duas águas lado a lado — a do Nilo, boa e estragada; a de Mara, amarga e curada —, e tira daí uma lição sobre o Deus que cura, que é assunto da promessa de Êxodo 15:26.

"porque eram amargas"

Quem era amargo? O português da ABC fixa o sujeito nas águas, e é a leitura simples. Mas o hebraico diz, ao pé da letra, "porque amargos eles", e "eles" pode ser as águas ou as pessoas — as duas palavras pedem o mesmo plural masculino (item 10). A pergunta recebeu pelo menos quatro respostas.

Primeira leitura: as águas eram amargas. É a de quase todas as traduções, e a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) a fixa pela gramática: escreve "porque eram amargas" no feminino, concordando com "as águas". O contexto a sustenta: o lenho é lançado nas águas, e são elas que "ficaram doces" (Êxodo 15:25). A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) faz uma escolha ligeiramente diferente — "porque era amargo", no singular neutro —, que põe o amargor no lugar ou na fonte, e também elimina a dúvida.

Segunda leitura: a geração era amarga. Está no Êxodo Rabbá (coleção rabínica de comentários ao Êxodo, de redação medieval com material antigo), no capítulo 50: Rabi Levi diz que "aquela geração era amarga nas suas ações". O amargor passa da água para o povo.

Terceira leitura: eles mesmos eram amargos, e por isso a água lhes parecia amarga. É a leitura hassídica (do movimento de renovação religiosa judaica nascido na Europa oriental no século XVIII). O Degel Machaneh Ephraim (de Moshe Chaim Ephraim de Sudilkov, neto do fundador do movimento, publicado em 1810) a diz assim: "eles mesmos eram amargos", porque tinham caído do seu nível, e por isso a Torá e os justos lhes pareciam amargos — e daí "o povo murmurou contra Moisés", isto é, começaram a falar mal do justo. A tradição de Lubavitch, num discurso do rabino Menachem Mendel Schneerson de 1960, a resumiu numa frase: quando alguém está amargo, tudo tem gosto amargo; só quando o povo foi adoçado a água também ficou doce.

Quarta leitura: as águas eram uma prova, como a água amarga do ciúme. É a do Tsror HaMor (de Abraão Saba, rabino expulso da Espanha em 1492 e de Portugal em 1497). Ele lembra que a Torá chama de "água amarga" o líquido que a mulher suspeita de adultério devia beber, e que revelava a culpa (Números 5:18-24). As águas de Mara teriam sido um teste desse tipo: verificar se o amargor do Egito ainda estava na boca do povo.

O limite deve ficar claro. A gramática permite as duas referências, mas o contexto pede as águas, e é assim que todas as versões antigas leram. A segunda e a terceira leituras são sermão; a quarta é analogia. Nenhuma está escrita. O que elas mostram é uma intuição que o próprio texto alimenta: o versículo seguinte é a primeira murmuração do povo, e o leitor que lê "porque eram amargos" e logo depois "o povo murmurou" sente a palavra escorregar da água para as pessoas.

"por isso o lugar foi chamado Mara"

No hebraico, o verbo é ativo e não tem sujeito: "por isso chamou o nome dele Mara". Quem chamou? Ibn Ezra responde que a frase é abreviada e quer dizer "alguém o chamou". A Septuaginta escreve "ele deu o nome", sem dizer quem. A Vulgata acrescenta um adjetivo que o hebraico não tem: o lugar recebeu "um nome adequado".

O que o nome guarda é a decepção, não o milagre. O lenho vem no versículo 25 e adoça a água; ainda assim, o lugar não passou a se chamar "a água doce" nem "o lenho". Na lista das etapas, anos depois, ele continua sendo Mara (Números 33:8-9). O primeiro nome dado no deserto, depois do mar, é o nome de uma frustração, e ele ficou.

O Ha-Ketav ve-ha-Kabbalah (comentário de Jacob Tsvi Mecklenburg, rabino alemão do século XIX) faz uma observação fina sobre essa frase. Mais adiante, o livro dará a outro lugar de água o nome da briga do povo — Massá e Meribá, "prova" e "contenda" (Êxodo 17:7). Aqui o leitor poderia supor que Mara também fosse nome de rebeldia, pelo som. O versículo fecha essa porta: o nome vem da água, "porque eram amargas". Em Mara, diz ele, o texto não quis gravar a queixa do povo no nome do lugar.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Mara

O nome quer dizer "amarga". Como lugar, aparece só neste episódio e na lista das etapas do deserto (Números 33:8-9), onde vem entre o deserto de Etã e Elim, sem nenhuma palavra sobre a água. Fora disso, a Bíblia conhece "Mara" como nome que uma pessoa pede para si: Noemi, ao voltar de Moabe viúva e sem os filhos, diz "chamem-me Mara" (Rute 1:20) — a ligação entre os dois usos do nome já foi notada no estudo de Gênesis 26:35.

Sobre a localização, ver o item 2: a proposta clássica é Ain Hawara, no oeste do Sinai, e ela depende da rota da travessia.

Os que chegaram

O versículo não tem sujeito expresso: "chegaram", "não podiam beber". São os mesmos que "andaram três dias" no versículo anterior. O texto não diz se havia gado, crianças, idosos entre os que provaram a água, mas o capítulo 12 já disse que a multidão levava "rebanhos e gado, muitíssimo numerosos" (Êxodo 12:38). A sede de Mara era também a sede dos animais.

Quem deu o nome

Ninguém nomeado (item 3). Pode ter sido Moisés, pode ter sido o povo, pode ter sido o uso. No Gênesis, quem nomeia um lugar costuma ser dito — Jacó em Betel, em Maanaim e em Peniel. Aqui o texto registra o nome sem o autor.

Os que vieram depois

Os viajantes que, a partir do século XIX, procuraram o lugar no Sinai: Burckhardt (1816), Robinson (1838) e os que os seguiram. Foram eles, e não uma tradição antiga, que deram a Mara um endereço no mapa.

O evento

A primeira água achada depois do mar, e a primeira recusada. O episódio continua sem pausa: a queixa (Êxodo 15:24), o clamor de Moisés, o lenho e a água adoçada (Êxodo 15:25).

5. Pontos de Ensino

1. Achar água não é o mesmo que poder beber. A situação de Mara é pior do que a do deserto. Depois de três dias de falta, o que aparece é uma promessa que não se cumpre. O texto descreve com precisão essa forma de sofrimento: o recurso existe, está à vista, e não serve.

2. Israel passa pelo que o Egito passou. A frase de Mara é a frase da primeira praga. O povo que cantou a ruína do Egito descobre, três dias depois, que a sede não escolhe lado. O Êxodo não faz disso uma lição explícita; deixa a repetição de palavras falar.

3. Um lugar pode ficar com o nome do pior momento. A água ficou doce no versículo 25, e o nome não mudou. O texto não apaga a decepção depois que ela foi resolvida; registra as duas coisas, e a primeira é a que fica no mapa.

4. A ambiguidade de uma frase pode ser fértil. "Porque eram amargas" diz, no sentido simples, que a água era ruim. A tradição percebeu que a mesma frase cabia nas pessoas, e tirou disso uma pergunta que o leitor pode fazer a si mesmo: o amargo estava na água ou em quem bebia? O texto não obriga a resposta; permite a pergunta.

5. O texto não acusa ninguém neste versículo. Não há queixa, nem pecado, nem castigo em Mara até aqui. Há só uma constatação. A acusação, se houver, começa na frase seguinte.

6. Aspectos Filosóficos

Um nome que guarda o momento ruim

Um lugar recebe o nome do que aconteceu ali, e o nome continua depois que o acontecimento passou. Em Mara, ele continua até depois de o acontecimento ter sido revertido: a água ficou doce, e o lugar seguiu chamado "amarga". Por que uma comunidade guarda num nome justamente o momento de frustração, e o que esse nome faz com a lembrança?

Pierre Nora (historiador francês nascido em 1931) organizou, entre 1984 e 1992, uma obra coletiva em sete volumes sobre essa pergunta aplicada à França: Les Lieux de mémoire ("Os lugares de memória"). A expressão que deu título à obra entrou no vocabulário das ciências humanas.

Lugares de memória

Na introdução, Nora faz uma distinção entre memória e história. Memória é a lembrança vivida, carregada por grupos, transmitida sem esforço, afetiva, sempre no presente. História é a reconstrução crítica do passado, feita de fora, com documentos. E a frase mais citada do texto diz que existem lugares de memória porque já não existem "meios de memória": quando a lembrança deixa de ser vivida no dia a dia, ela se refugia em pontos fixos — um monumento, uma data, uma bandeira, um nome de rua, um arquivo.

Para Nora, um lugar de memória tem três dimensões ao mesmo tempo. É material, porque existe como coisa ou como palavra. É simbólico, porque carrega um sentido além de si. E é funcional, porque serve para alguma coisa na vida do grupo. Um minuto de silêncio é um lugar de memória; um feriado também; um nome de lugar também.

Mara como lugar de memória

O versículo mostra o nascimento de um desses pontos fixos. A frase "por isso o lugar foi chamado Mara" amarra um acontecimento a uma palavra, e a palavra a um lugar. Quem passar ali depois, ou quem ouvir o nome, carrega o acontecimento sem precisar contá-lo.

E o próprio Pentateuco mostra a segunda parte do que Nora descreve. Em Números 33:8-9, a lista das etapas do deserto diz apenas: "acamparam em Mara. Partiram de Mara e chegaram a Elim". Não há sede, não há água amarga, não há lenho. O nome sobreviveu e a história saiu da lista. É exatamente o que Nora chama de lugar de memória: o ponto em que a lembrança vivida se desprende e fica um resíduo — uma palavra que só faz sentido para quem ainda conhece o resto.

Nora insiste também que os lugares de memória não guardam só glórias. A memória de um grupo se fixa igualmente em derrotas, humilhações e perdas, e às vezes com mais força. O primeiro nome que Israel deixa no deserto não celebra o mar; registra uma decepção. Um povo que acabou de compor um cântico de vitória batiza o lugar seguinte com o gosto da água ruim.

Onde a comparação falha

Nora descreve um fenômeno moderno: lugares de memória aparecem, na sua tese, quando a sociedade perde a memória vivida, e a França que ele estuda é a do século XX, em que as tradições camponesas e religiosas se desfaziam. Mara é o contrário. O nome é dado no próprio instante, por gente que acabou de viver o que o nome lembra. Não é sintoma de esquecimento; é registro imediato.

E há uma diferença mais funda. Para Nora, o lugar de memória é construído por uma vontade de lembrar. Em Mara, o texto nem diz quem deu o nome. A lembrança fica no lugar sem que ninguém, no relato, tenha decidido guardá-la. Talvez seja essa a força particular do nome: ninguém o escolheu como monumento, e ele virou um assim mesmo.

7. Aplicações Práticas

Quando a esperança falsa pesa mais do que a falta

A cena de Mara descreve uma experiência comum: depois de muito tempo esperando, aparece o que parecia ser a solução, e ela não serve. O emprego que não se confirma, o tratamento que não funciona, a reconciliação que não acontece. O texto não romantiza essa situação: o povo não podia beber, e ponto. Reconhecer que uma decepção depois da espera dói mais do que a espera é simplesmente descrever com exatidão o que se sente.

Perguntar onde está o amargo

A leitura hassídica sugere uma pergunta útil, sem precisar negar o sentido simples. Às vezes a água é ruim de fato; às vezes quem prova chega tão cansado que tudo lhe parece ruim. Nem sempre é possível saber qual dos dois casos é o nosso, mas a pergunta vale a pena antes de dar nome definitivo a um lugar, a uma pessoa ou a uma fase da vida.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

As águas eram amargas por natureza ou por milagre?

O texto não diz. A explicação natural — sais dissolvidos, comuns nas fontes do Sinai — dá conta do gosto. A leitura de Rabi Josué e de Malbim, de que a água era doce até aquele dia, faz da amargura um acontecimento. As duas são compatíveis com o hebraico, e nenhuma é provável só pelo versículo.

Por que a Septuaginta traduziu o nome do lugar?

Ela transcreveu "Mara" nas duas primeiras menções, mas, na frase que explica o nome, escreveu "Amargura". Para um leitor grego, a explicação "chamou-se Mara porque eram amargas" não faria sentido sem saber hebraico; traduzir o nome era a única forma de manter o jogo de palavras. A Vulgata resolveu de outro modo: manteve "Mara" e acrescentou "isto é, amargura".

Existe relação entre Mara e o nome Miriã?

Algumas análises ligam o nome Miriã à mesma raiz de "amargo", mas a etimologia de Miriã é discutida e há outras propostas. O texto não aproxima as duas palavras, e Miriã acabou de aparecer poucos versículos antes (Êxodo 15:20). Qualquer ligação é jogo de leitor.

O texto culpa o povo por não beber?

Não. "Não podiam beber" é constatação, não acusação. O verbo diz incapacidade, não recusa. O povo não é repreendido em Mara por não beber; a reação dele é que será examinada, no versículo seguinte.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma frase, diante do Nilo

Êxodo 7:21 — "Os peixes do Nilo morreram, o rio fedeu, e os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo; e houve sangue em toda a terra do Egito."

Êxodo 7:24 — "E todos os egípcios cavaram ao redor do Nilo em busca de água para beber, porque não podiam beber da água do rio."

A construção hebraica de Mara é a destes dois versículos. Lá, os egípcios cavaram em volta do rio; aqui, Israel não tem onde cavar e se volta contra Moisés.

Mara na lista das etapas

Números 33:8-9 — "Andaram três dias de caminho no deserto de Etã e acamparam em Mara. Partiram de Mara e chegaram a Elim; em Elim havia doze fontes de água e setenta palmeiras, e acamparam ali."

A lista guarda o nome e esquece a água amarga. De Elim, ao contrário, guarda as fontes e as palmeiras.

A forma rara que a tradição massorética anotou

Jeremias 4:17 — "Como guardas de um campo, cercaram-na por todos os lados, porque ela se rebelou contra mim, diz o SENHOR."

A outra ocorrência da forma de "a Mara", agora como verbo: rebelar-se. É o elo entre o amargo e a rebeldia que o Baal HaTurim aproveita.

Lugares de água batizados pelo que aconteceu

Êxodo 17:7 — "E deu àquele lugar o nome de Massá e Meribá, por causa da briga dos filhos de Israel e porque puseram o SENHOR à prova, dizendo: ‘Está o SENHOR no meio de nós, ou não?’"

Outro lugar de sede, outro nome dado pelo episódio. Lá o nome guarda a briga do povo; aqui, só o gosto da água.

A fórmula do nome

Gênesis 50:11 — "Os moradores da terra, os cananeus, ao verem o luto na eira de Atade, disseram: 'Este é um luto profundo dos egípcios.' Por isso o lugar, que fica do outro lado do Jordão, recebeu o nome de Abel-Mizraim."

A mesma construção — um acontecimento, "por isso", o nome que fica —, já comentada naquele estudo.

A água amarga da prova

Números 5:18 — "O sacerdote porá a mulher diante do SENHOR, soltará o cabelo dela e porá nas mãos dela a oferta de memorial, que é a oferta de ciúme; e o sacerdote terá na mão a água amarga que traz a maldição."

A "água amarga" do ritual de suspeita de adultério, que o Tsror HaMor aproxima de Mara.

O nome que uma mulher pede para si

Rute 1:20 — "Não me chamem Noemi; chamem-me Mara, porque o Todo-Poderoso me encheu de amargura."

O mesmo nome, agora dado a uma pessoa pela própria boca. Em Mara do Êxodo, o nome fica no lugar; em Rute, na mulher, até que a história a devolva ao nome antigo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Chegaram a Mara, mas não podiam beber as águas de Mara, porque eram amargas; por isso o lugar foi chamado Mara.

Texto hebraico

וַיָּבֹאוּ מָרָתָה וְלֹא יָכְלוּ לִשְׁתֹּת מַיִם מִמָּרָה כִּי מָרִים הֵם עַל־כֵּן קָרָא־שְׁמָהּ מָרָה׃

Transliteração

vayyavo'u Maratah, velo yakhlu lishtot mayim mimMarah, ki marim hem; al-ken qara-shemah Marah.

Análise palavra por palavra

וַיָּבֹאוּ — vayyavo'u, "e chegaram".

Raiz bo, "vir, entrar, chegar", no Qal (a forma simples do verbo hebraico), forma narrativa, terceira pessoa do plural.

מָרָתָה — Maratah, "a Mara", "para Mara".

O nome Marah com a terminação -ah que indica direção, "para". Rashi (Salomão ben Isaac, França, século XI) explica a troca de letras: quando o nome que termina em -ah recebe outra terminação, o seu he final vira tav, como em Ramah, que vira haRamatah, "para Ramá" (1 Samuel 7:17). A tradição massorética anotou que esta forma escrita aparece só duas vezes na Bíblia: aqui e em Jeremias 4:17, onde é verbo — ki oti maratah, "porque se rebelou contra mim", da raiz m-r-h, "rebelar-se". As duas raízes, m-r-r ("ser amargo") e m-r-h ("rebelar-se"), são diferentes, mas soam quase iguais, e as formas se confundem com facilidade.

וְלֹא יָכְלוּ — velo yakhlu, "mas não podiam".

Conjunção ve- (aqui com valor de "mas"), negação lo e o perfeito de yakhol, "poder", terceira pessoa do plural. O verbo diz incapacidade, não recusa.

לִשְׁתֹּת מַיִם — lishtot mayim, "beber água".

Infinitivo de shatah, "beber", com a preposição le-. A sequência lo yakhlu lishtot mayim é a mesma de Êxodo 7:21, sobre o Nilo, e quase a mesma de Êxodo 7:24.

מִמָּרָה — mimMarah, "de Mara".

Preposição min, "de", com o nome. A tradução da ABC ("as águas de Mara") lê a preposição como origem: a água que vinha dali.

כִּי מָרִים הֵם — ki marim hem, "porque eram amargas" (ao pé da letra, "porque amargos eles").

Ki, "porque". Marim é o adjetivo mar, "amargo", no masculino plural. Hem é o pronome "eles", também masculino plural. A frase não tem verbo: em hebraico, o "ser" no presente e no passado fica subentendido.

A ambiguidade vem daqui. Mayim, "água", é palavra masculina e só existe no plural; o povo também é tratado no plural masculino nos verbos do versículo ("chegaram", "não podiam"). O adjetivo e o pronome servem para os dois. A Vulgata desfaz a dúvida com o feminino amarae, concordando com aquas; a Septuaginta, com o neutro singular pikron, "amargo", que se refere ao lugar ou à fonte. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) mantém o plural, e a dúvida com ele.

O campo da raiz m-r-r — as ervas amargas, a vida amargurada no Egito, a amargura de espírito — está no estudo de Gênesis 49:23.

עַל־כֵּן — al-ken, "por isso".

A expressão que, nas explicações de nomes, liga o acontecimento ao nome que ficou.

קָרָא־שְׁמָהּ — qara-shemah, "chamou o nome dele".

Qara, "chamar", Qal perfeito, terceira pessoa do masculino singular, sem sujeito expresso. A ABC traduz pela passiva, "foi chamado", que é o efeito em português de um verbo ativo sem sujeito. Shemah é "o nome" com o sufixo feminino singular, "dele" — referido ao lugar, que em hebraico pode ser tratado como feminino.

מָרָה — Marah, "Mara".

Forma feminina de mar, "amarga". Última palavra do versículo, depois de duas aparições do mesmo nome e do adjetivo da mesma raiz no meio: o versículo diz "amargo" quatro vezes.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o Êxodo põe Israel, logo depois da vitória, na mesma posição do Egito na primeira praga. A frase é a mesma, e o texto não precisa comentá-la: a sede não respeita o lado vencedor, e a libertação não protege de nada que o deserto tenha a oferecer.

A segunda é que o versículo deixa, por uma frase de três palavras, uma porta aberta entre a água e as pessoas. No sentido simples, a água é que era amarga, e assim todas as versões antigas leram. Mas o versículo seguinte é a primeira queixa do povo, e a tradição tinha razão em perceber que a palavra estava a um passo de mudar de sujeito.

A terceira é que o primeiro nome que Israel deixa no deserto é o de uma decepção, e não o de um socorro. O socorro vem dois versículos depois, e não muda o nome. O texto escolhe lembrar o lugar pelo que ele era antes do lenho — e assim ensina o leitor a não confundir o nome de um lugar com o fim da sua história.

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