Então Miriã, a profetisa, irmã de Arão, tomou o tamborim na mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças.
1. Introdução
Depois do canto de Moisés e dos homens, uma mulher pega um tamborim e todas as mulheres saem atrás dela, dançando.
É a primeira vez que a irmã de Moisés tem nome no livro, e o nome vem com um título que nenhuma mulher tinha recebido antes na Bíblia: "a profetisa".
Ela é apresentada como irmã de Arão, e não de Moisés, e a tradição judaica deu a isso mais de uma explicação.
O versículo não traz nenhuma palavra profética dela; traz um instrumento, uma saída e uma dança — e a pergunta é o que o título quer dizer numa cena assim.
2. Contexto Histórico e Cultural
Mulheres que falavam em nome dos deuses
Chamar uma mulher de profetisa não era estranho no mundo em que Israel nasceu. Os dois maiores conjuntos de textos proféticos do Oriente antigo fora da Bíblia — as cartas de Mari, no Eufrates, do século XVIII antes de Cristo, e os oráculos da corte assíria, do século VII antes de Cristo — mostram mulheres exercendo a função com regularidade, e às vezes em maioria.
Mari: os títulos e as intermediárias
Em Mari, os profetas aparecem com dois títulos principais, e os dois têm forma feminina. O āpilum, no feminino āpiltum, é "aquele que responde", palavra do verbo acádio que significa responder: o profeta é quem dá a resposta do deus. O muḫḫûm, no feminino muḫḫūtum, é "o que entra em transe", o extático, ligado sobretudo ao culto do deus Dagan. Há ainda figuras sem título fixo, como "a qammatum de Dagan de Terqa", uma mulher cuja palavra chegou ao rei por mais de uma carta.
Esse caso mostra como uma profecia circulava. A mensagem da qammatum alertava o rei Zimri-Lim contra as propostas de paz do rei de Eshnunna, com uma imagem que ficou famosa: "debaixo da palha corre a água" — a paz oferecida esconde outra coisa. A frase chegou ao rei escrita por Inib-shina, sacerdotisa e irmã dele, e por altos funcionários. Jack Sasson (assiriólogo norte-americano) dedicou um estudo de 1995 a acompanhar como a mesma frase muda de forma de uma carta para outra.
As mulheres da corte tinham papel próprio nesse circuito. A rainha Shibtu escreve ao marido que, sobre a campanha planejada, "deu de beber a homens e mulheres" e os interrogou sobre os sinais.
Mari: profetisas e músicos no mesmo rito
Dois textos rituais de Mari, publicados por Jean-Marie Durand e Michaël Guichard em 1997, descrevem a festa de Ishtar, a mais importante do calendário da cidade. Neles, profetas e músicos atuam juntos diante da deusa. Um dos textos prevê o que os músicos devem cantar se as profetisas não conseguirem entrar no estado de profecia. O transe das profetisas e o canto dos músicos eram partes da mesma cerimônia, e um podia substituir o outro.
Assíria: a maioria eram mulheres
Mil anos depois, nos arquivos de Nínive, sobreviveram onze tabuinhas com oráculos dirigidos aos reis Esarhaddon e Assurbanipal. Cada oráculo traz o nome e o sexo de quem o transmitiu. Martti Nissinen (estudioso finlandês, autor da coletânea de referência sobre profecia no Oriente antigo, de 2003) faz a conta: dos treze profetas cujos dados se conservaram, oito são mulheres, e outros documentos assírios acrescentam mais profetisas. Os títulos eram raggimu, "o que proclama", e o feminino raggintu.
Os nomes dessas mulheres já são pequenas confissões, como Issar-la-tashiyat, "Não negligencie Ishtar!", e a maioria estava ligada ao templo de Ishtar em Arbela. A forma das mensagens dessas profetisas — "Não tema, eu sou Ishtar de Arbela" — é estudada em Gênesis 46:3.
O que muda com Miriã
O paralelo mostra que o título de Miriã pertence a uma instituição conhecida, e que a ligação entre profecia e música não é invenção do Êxodo. Mas as diferenças são grandes. Em Mari e na Assíria a profetisa fala dentro de um templo, para um rei, e a sua palavra chega por carta, filtrada por funcionários. Miriã não tem templo, não fala a rei nenhum e não transmite recado: sai à frente das mulheres, em público, na beira do mar, com um instrumento na mão.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então Miriã"
A menina que vigiou a arca de papiro no Nilo, falou com a filha de Faraó e foi buscar a própria mãe para amamentar o irmão nunca teve nome no capítulo 2. Ela o recebe aqui, quinze capítulos depois, e já adulta — o modo como o livro adia os nomes da família de Moisés é assunto do estudo de Êxodo 2:1.
"a profetisa"
Nenhuma mulher tinha sido chamada assim antes na Bíblia. Abraão é o primeiro chamado "profeta", em Gênesis 20:7; Arão é chamado "profeta" de Moisés em Êxodo 7:1. Miriã é a terceira pessoa a receber o título, e a primeira mulher. O problema é que o versículo não mostra nenhuma profecia: não há oráculo, não há "assim diz o SENHOR", não há anúncio. O que o título quer dizer aqui? Há três respostas.
Primeira resposta: o título vem de uma profecia anterior, feita na infância. É a leitura do Talmude, no tratado Sotá 12b-13a, repetida em Meguilá 14a. Ainda menina, antes do nascimento de Moisés, Miriã dizia: "A minha mãe vai dar à luz um filho que salvará Israel." Quando Moisés nasceu, a casa se encheu de luz, e o pai a beijou na cabeça: "Minha filha, a sua profecia se cumpriu." Quando o menino foi posto no rio, o pai lhe bateu na cabeça: "Minha filha, onde está a sua profecia?" E por isso, diz o Talmude, Êxodo 2:4 diz que a irmã ficou de longe "para saber o que lhe aconteceria" — para saber o fim da sua própria profecia. A Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III) traz a mesma história e a apoia lendo cada palavra de Êxodo 2:4 como vocabulário de profecia. É lenda, e não está no texto. Mas resolve a dificuldade de um título sem conteúdo: a profecia de Miriã, nessa leitura, é a própria história do Êxodo, anunciada antes de começar.
Segunda resposta: profeta é quem fala bem e corrige os outros. Rashbam (Shmuel ben Meir, rabino francês do século XII, neto de Rashi) diz que o título se dá a quem é estimado pela eloquência ou pela capacidade de repreender o povo, e Chizkuni (compilação de comentário judaico do século XIII) o segue, lembrando que Arão é chamado "profeta" de Moisés em Êxodo 7:1 no sentido de porta-voz, não de vidente. Nessa leitura, o título descreve uma liderança pela palavra, e o canto do versículo seguinte é a prova dela.
Terceira resposta: a profecia, em Israel antigo, andava junto com a música. O grupo de profetas que Saul encontra em 1 Samuel 10:5 desce do santuário tocando alaúde, tamborim, flauta e harpa, "e eles estarão profetizando". Em 2 Reis 3:15, Eliseu pede um músico, e "enquanto o tocador tocava, a mão do SENHOR veio sobre ele". Em 1 Crônicas 25:1, os cantores do templo "profetizavam com harpas, alaúdes e címbalos". Nessa leitura, Miriã é chamada profetisa no exato momento em que pega o instrumento, porque o canto inspirado era uma forma de profecia.
As três não se excluem, e o próprio Pentateuco sugere que o título não era só honorífico. Em Números 12:2, Miriã e Arão perguntam: "Será que o SENHOR falou somente por meio de Moisés? Não falou também por meio de nós?" A pergunta só faz sentido se Miriã fosse conhecida como alguém por meio de quem Deus falava. E Miqueias 6:4 a põe ao lado dos irmãos entre os enviados que conduziram o povo para fora do Egito. O que o Êxodo não diz é qual foi a palavra profética dela.
"irmã de Arão"
Ela era irmã dos dois. Por que o texto escolhe só Arão, e justamente no capítulo em que Moisés canta? A tradição deu quatro respostas.
Primeira: porque profetizou quando era irmã só de Arão. É a continuação da leitura do Talmude em Sotá 12b: o título "irmã de Arão" data a profecia — ela já profetizava quando Moisés ainda não tinha nascido. Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) a dá em primeiro lugar.
Segunda: porque Arão arriscou a vida por ela. A Mekhilta lembra Números 12:11-12, quando Miriã fica leprosa e é Arão quem implora a Moisés por ela. E dá dois paralelos de pessoa chamada pelo nome de quem se arriscou por ela: em Gênesis 34:25, Simeão e Levi são chamados "irmãos de Diná", embora todos os filhos de Jacó o fossem, porque foram eles que a vingaram; em Números 25:18, Cosbi é chamada "irmã" dos midianitas porque se entregou pelo seu povo.
Terceira: porque Arão era o irmão mais velho, e o costume era situar a mulher pelo primogênito. É a de Rashbam, com os seus próprios paralelos: Maalate, "irmã de Nebaiote", o primogênito de Ismael (Gênesis 28:9), e Timna, "irmã de Lotã" (Gênesis 36:22). O próprio Êxodo faz o mesmo três capítulos antes, ao apresentar a mulher de Arão como "Eliseba, filha de Aminadabe e irmã de Naassom" (Êxodo 6:23).
Quarta: para dar a Arão um lugar na cena. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) observa que o cântico mencionou Moisés e agora menciona Miriã, e Arão ficaria de fora; a irmã que é profetisa se liga a ele, que também era profeta.
"tomou o tamborim na mão"
De onde vinham tamborins no deserto? A Mekhilta, seguida por Rashi, responde que as mulheres justas daquela geração, certas de que Deus faria milagres, os trouxeram do Egito. A lenda faz do instrumento um ato de fé anterior à travessia; o texto só diz que havia instrumentos à mão.
"e todas as mulheres saíram atrás dela"
"Saíram" é o verbo do êxodo, o mesmo que o livro usa para a saída do Egito. Aqui as mulheres fazem a sua própria saída.
E "atrás dela" pesa depois do capítulo 14. Ali "atrás deles" era a posição do exército egípcio, sempre na perseguição, até morrer atrás de Israel no mar. A mesma preposição, agora, descreve mulheres que seguem uma mulher. Do lado de cá do mar, quem vem atrás não persegue; acompanha.
Há outra diferença. Nas cenas bíblicas em que as mulheres saem com tamborins e danças, elas saem ao encontro de um homem vitorioso: a filha de Jefté sai ao encontro do pai (Juízes 11:34); as mulheres das cidades saem ao encontro de Saul e Davi (1 Samuel 18:6). Aqui não há guerreiro voltando. Elas não saem ao encontro de ninguém: saem atrás de Miriã, e o canto, no versículo seguinte, vai para o SENHOR.
"com tamborins e com danças"
As danças são de roda, como a palavra hebraica sugere (item 10). E a mesma palavra reaparece no Êxodo uma única vez, em Êxodo 32:19, quando Moisés desce do monte e vê "o bezerro e as danças". O livro conhece as duas danças do povo recém-libertado: uma atrás de Miriã, cantando ao SENHOR, e outra em volta de uma imagem de ouro. O texto não comenta a semelhança; deixa a palavra repetida fazer o contraste.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Miriã
Filha de Anrão e Joquebede, da tribo de Levi, irmã de Arão e de Moisés.
Sem nome, vigia a arca de papiro e negocia com a filha de Faraó (Êxodo 2:4-8). Com nome e título, conduz as mulheres na beira do mar (Êxodo 15:20-21). Em Números 12, ao lado de Arão, questiona a autoridade exclusiva de Moisés, é atingida por uma doença de pele e fica sete dias fora do acampamento; o povo não parte enquanto ela não volta (Números 12:15). Morre em Cades, no deserto de Zim, e é sepultada ali, num versículo de uma linha só (Números 20:1) — e logo em seguida o texto diz que não havia água para o povo. Deuteronômio 24:9 manda lembrar "o que o SENHOR, seu Deus, fez a Miriã no caminho". Miqueias 6:4 a inclui entre os três enviados de Deus na saída do Egito. Números 26:59 e 1 Crônicas 6:3 a registram na genealogia, ao lado dos dois irmãos — a única mulher nessa lista de filhos de Anrão.
A idade dela não é dada. Se for a irmã de Êxodo 2:4, é mais velha que Moisés, que tinha oitenta anos ao falar com Faraó (Êxodo 7:7).
Arão
Irmão de Moisés, três anos mais velho (Êxodo 7:7), porta-voz dele diante de Faraó. Está no versículo só como referência para identificar a irmã.
Todas as mulheres
O texto não as conta nem as nomeia. "Todas" é o mesmo exagero de totalidade que o capítulo usa para os egípcios. São as mulheres do povo que saiu do Egito, mães e filhas das famílias contadas em Êxodo 12:37. Na leitura da Mekhilta, eram "as justas daquela geração".
5. Pontos de Ensino
1. Uma mulher recebe o título de profeta antes de quase todos os homens da Bíblia. Antes dela, só Abraão e Arão. O texto dá o título sem explicação e sem ressalva.
2. O título não vem acompanhado de oráculo. A cena mostra canto, instrumento e dança. Isso obriga a ler "profecia" de modo mais largo do que "prever o futuro": em Israel antigo, ela incluía o canto inspirado e a liderança da comunidade.
3. As mulheres têm o seu próprio momento no culto. Elas não apenas acompanham o canto dos homens; saem atrás de uma líder, com instrumento e dança próprios, e cantam.
4. A mesma palavra serve para a dança santa e para a dança idólatra. O Êxodo usa "danças" aqui e diante do bezerro de ouro. O que distingue as duas não é o gesto; é a quem ele se dirige.
6. Aspectos Filosóficos
A alegria que só existe em grupo
Todas as mulheres de um povo saem ao mesmo tempo, com o mesmo instrumento, numa dança. Essa alegria não é sentimento privado de cada uma; só existe porque estão juntas. Como ela funciona, e por que costuma ser vigiada?
Barbara Ehrenreich e a história da alegria coletiva
Barbara Ehrenreich (1941-2022), ensaísta e crítica social norte-americana, dedicou a essa pergunta o livro Dancing in the Streets: A History of Collective Joy ("Dançando nas ruas: uma história da alegria coletiva", 2006).
A tese tem três partes. A primeira: a capacidade humana de entrar em êxtase coletivo — dançar em grupo, no mesmo ritmo, até perder a sensação de estar separado dos outros — é antiquíssima e universal. Aparece nas pinturas em rocha da pré-história, que mostram figuras dançando em roda, e em quase todas as culturas de que se tem registro.
A segunda: essa capacidade foi, repetidamente, reprimida pelos que estavam no poder. Ehrenreich acompanha a perseguição romana aos ritos de Baco em 186 antes de Cristo, a supressão das festas populares pelos reformadores dos séculos XVI e XVII e a proibição das danças rituais dos povos colonizados. Para ela, as elites temem a festa coletiva porque, enquanto dura, ela dissolve as hierarquias: na roda, todos estão no mesmo nível.
A terceira, mais polêmica: a supressão teve custo — ela liga o fim das festas populares na Inglaterra do século XVII à onda de melancolia que os escritores da época registram. E observa que, em muitos cultos de êxtase antigos, as mulheres tinham lugar de destaque, como as seguidoras de Dioniso.
O versículo lido com Ehrenreich
Êxodo 15:20 é um caso da alegria que ela descreve. Um povo recém-saído da escravidão — o mais baixo de todos os níveis — dança em roda, em público, liderado por uma mulher, sem rei e sem sacerdote presentes. Na margem do mar, a hierarquia do Egito acabou de afundar, e a nova ainda não existe. A roda das mulheres ocupa esse intervalo.
E a Bíblia, como Ehrenreich esperaria, registra também o olhar do poder sobre a dança. Quando Davi dança diante da arca, "com toda a sua força", Mical o vê da janela e o despreza no coração (2 Samuel 6:14-16), e depois o acusa de se expor diante das servas como um homem qualquer. A objeção é exatamente a de classe: um rei não devia dançar como o povo.
Onde a leitura de Ehrenreich não alcança o texto
O primeiro limite é que a dança de Miriã não é êxtase sem forma. Tem líder com nome, instrumento definido e uma letra, cantada no versículo seguinte, dirigida a Deus. O que Ehrenreich valoriza é a perda dos limites do eu na massa; o que o texto mostra é uma alegria ordenada, que tem destinatário. As mulheres não se perdem na roda; seguem alguém e dizem alguma coisa.
O segundo limite é que a própria Bíblia desconfia da festa coletiva, e não por interesse de elite. A mesma palavra "danças" volta em Êxodo 32:19, em volta do bezerro de ouro, e ali a festa é o problema. O texto não opõe festa a ordem, como Ehrenreich tende a fazer; opõe uma festa a outra, pelo objeto. A alegria coletiva, para o Êxodo, não é boa nem má em si mesma: depende de para onde a roda está virada.
7. Aplicações Práticas
Dar lugar a quem tem dom. O texto chama Miriã de profetisa sem explicar nem pedir desculpa, e as mulheres a seguem. Em comunidades que ainda discutem se mulheres podem conduzir o louvor ou falar em nome de Deus, o versículo não resolve a discussão de hoje, mas mostra que a Torá começou a lista de profetas de Israel com uma mulher entre os três primeiros.
Celebrar com o corpo. A resposta das mulheres ao livramento não foi só cantada: foi tocada e dançada. Há tradições religiosas que desconfiam de toda expressão física da alegria. O versículo registra a dança como resposta legítima a Deus, e o capítulo 32 mostra que o problema não está em dançar, mas em diante de quê.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Miriã é a mesma menina de Êxodo 2:4?
O Êxodo nunca diz isso com todas as letras. A identificação vem de juntar dois dados: Moisés tinha uma irmã mais velha no capítulo 2, e Números 26:59 diz que Anrão e Joquebede tiveram Arão, Moisés e Miriã. Como não há notícia de outra irmã, a identificação é razoável e é a leitura corrente.
As mulheres dançaram separadas dos homens?
O versículo mostra as mulheres saindo atrás de Miriã, e o anterior mostrou Moisés e os filhos de Israel cantando. A Mekhilta e Rashi tiram daí dois grupos: Moisés com os homens, Miriã com as mulheres. É provável, mas o texto não diz que os grupos estavam separados no espaço, nem que os homens não dançaram. Quem respondeu a quem é a pergunta do versículo seguinte.
Por que Miriã é chamada profetisa e nunca aparece profetizando?
Porque o Êxodo não registra oráculos dela. O único texto que lhe atribui uma fala inspirada é o próprio canto de Êxodo 15:21. Números 12:2 confirma que ela se considerava alguém por meio de quem Deus falava, e o texto de Números não nega isso: nega apenas que ela estivesse no mesmo nível de Moisés (Números 12:6-8).
9. Conexão com Outros Textos
As outras profetisas da Bíblia hebraica
Juízes 4:4 — "Débora, profetisa, mulher de Lapidote, julgava Israel naquele tempo."
2 Reis 22:14 — "Então o sacerdote Hilquias, Aicam, Acbor, Safã e Asaías foram à profetisa Hulda, mulher de Salum… ela morava em Jerusalém, no bairro novo; e falaram com ela."
Débora, a segunda mulher com o título, também canta uma vitória (Juízes 5); Hulda é consultada pelos homens do rei. O título feminino é raro, mas não isolado.
Música e profecia
1 Samuel 10:5 — "Você encontrará um grupo de profetas descendo do lugar alto, tendo à frente alaúde, tamborim, flauta e harpa; e eles estarão profetizando."
O tamborim de Miriã volta na mão dos profetas de Samuel, e a música acompanha a inspiração.
A pretensão de Miriã e o lugar que Deus lhe dá
Números 12:2 — "E disseram: 'Será que o SENHOR falou somente por meio de Moisés? Não falou também por meio de nós?' E o SENHOR ouviu isso."
Miqueias 6:4 — "Pois eu o fiz subir da terra do Egito e o resgatei da casa da servidão; e enviei diante de você Moisés, Arão e Miriã."
Números mostra que Miriã se via como porta-voz de Deus; Miqueias, séculos depois, lhe dá razão em parte, pondo-a entre os enviados do êxodo.
A morte de Miriã e a falta de água
Números 20:1-2 — "Os filhos de Israel, toda a congregação, chegaram ao deserto de Zim no primeiro mês, e o povo ficou em Cades. Ali morreu Miriã e ali foi sepultada. E não havia água para a congregação."
A notícia da morte é seca, e a frase seguinte é a da falta de água. O Talmude, no tratado Taanit 9a, tira daí que o poço que acompanhava Israel no deserto era dado por mérito de Miriã e secou quando ela morreu. É leitura que liga dois versículos vizinhos; o texto de Números não estabelece a causa.
Tamborins e danças na promessa da volta
Jeremias 31:4 — "De novo eu a edificarei, e você será edificada, virgem de Israel; de novo você se enfeitará com os seus tamborins e sairá nas danças dos que se alegram."
Jeremias usa as mesmas três palavras do Êxodo — tamborins, sair, danças — para prometer a volta do exílio. A cena de Miriã virou imagem de libertação futura.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então Miriã, a profetisa, irmã de Arão, tomou o tamborim na mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças.
Texto hebraico
וַתִּקַּח מִרְיָם הַנְּבִיאָה אֲחוֹת אַהֲרֹן אֶת־הַתֹּף בְּיָדָהּ וַתֵּצֶאןָ כָל־הַנָּשִׁים אַחֲרֶיהָ בְּתֻפִּים וּבִמְחֹלֹת׃
Transliteração
va-tiqqach Miryam ha-nevi'ah achot Aharon et-ha-tof be-yadah, va-tetse'na khol-ha-nashim achareiha be-tuppim u-vimcholot.
Análise palavra por palavra
וַתִּקַּח — va-tiqqach, "então tomou".
Raiz laqach, tomar, pegar, na forma verbal que encadeia a narrativa, terceira pessoa feminina do singular. A ABC traduz o "e" inicial por "então", porque a frase abre uma cena nova depois do cântico. O verbo é o mesmo com que a mãe de Moisés "tomou" a arca de papiro em Êxodo 2:3: nos dois capítulos, a iniciativa da família começa com uma mulher pegando um objeto.
מִרְיָם — Miryam, "Miriã".
Primeira ocorrência do nome na Bíblia. A origem é discutida, e há três propostas principais. A primeira o deriva do egípcio mry, "amar": "amada". Ela tem a seu favor que vários nomes da tribo de Levi são egípcios — o de Moisés e, mais tarde, os de Hofni e Fineias. A segunda o liga à raiz hebraica m-r-h, "ser rebelde", e a terceira, de leitura midráxica tardia, à amargura da escravidão, como se o nome guardasse o tempo em que a menina nasceu. Nenhuma se impõe. O nome passou ao grego como Mariam e daí ao português como Maria; em hebraico, a Maria dos evangelhos se chamava Miriã.
הַנְּבִיאָה — ha-nevi'ah, "a profetisa".
Feminino de navi, profeta, com artigo. A forma feminina aparece só seis vezes na Bíblia hebraica, para cinco mulheres: Miriã (aqui), Débora (Juízes 4:4), Hulda (2 Reis 22:14 e 2 Crônicas 34:22), a mulher de Isaías (Isaías 8:3) e Noadia, uma adversária de Neemias (Neemias 6:14). O artigo, "a profetisa", trata o título como conhecido, não como novidade: o texto não diz "que era profetisa", mas apresenta Miriã já com ele.
אֲחוֹת אַהֲרֹן — achot Aharon, "irmã de Arão".
Achot, irmã, na forma ligada ao nome seguinte. A fórmula "irmã de X", usando um irmão homem como ponto de referência, é a mesma de Gênesis 28:9, Gênesis 36:22 e Êxodo 6:23 (item 3).
אֶת־הַתֹּף — et-ha-tof, "o tamborim".
Tof, com artigo e a marca de objeto direto. O instrumento — aro com pele de um lado só, segurado numa mão e batido com a outra, quase sempre tocado por mulheres — está descrito no estudo de Gênesis 31:27.
בְּיָדָהּ — be-yadah, "na mão" (ao pé da letra, "na mão dela").
וַתֵּצֶאןָ — va-tetse'na, "e saíram".
Raiz yatsa, sair, na forma que encadeia a narrativa, terceira pessoa feminina do plural, com a terminação -na, própria do feminino plural e relativamente rara na prosa. O verbo concorda com "as mulheres", e a gramática deixa claro que o grupo que sai é só de mulheres. É o verbo de Êxodo 12:41, em que "todos os exércitos do SENHOR saíram da terra do Egito".
כָל־הַנָּשִׁים — khol-ha-nashim, "todas as mulheres".
Kol, todo, na forma ligada, e o plural de ishah, mulher, com artigo.
אַחֲרֶיהָ — achareiha, "atrás dela".
Preposição achar, atrás, depois, com sufixo de terceira pessoa feminina do singular. Com verbos de movimento, "ir atrás de" é seguir alguém como líder; é a expressão de "seguir a outros deuses" em Deuteronômio e de Eliseu indo atrás de Elias (1 Reis 19:21).
בְּתֻפִּים — be-tuppim, "com tamborins".
Plural de tof, com a preposição be no sentido de instrumento, "com". Miriã pega "o tamborim", no singular, e as mulheres saem "com tamborins": a líder começa, o grupo multiplica.
וּבִמְחֹלֹת — u-vimcholot, "e com danças".
Plural de mecholah, dança, com a conjunção e a preposição. Os léxicos ligam a palavra à raiz ch-w-l, que significa girar, rodopiar, e daí a ideia de dança em roda. A mesma raiz tem um segundo uso, contorcer-se de dor, e é dela que vem a palavra das "dores de parto" que tomam os habitantes da Filístia em Êxodo 15:14. As nações se contorcem; as mulheres de Israel giram. O cântico e a cena das mulheres usam a mesma raiz em dois sentidos opostos.
Mecholah aparece poucas vezes, sempre em festa — Juízes 11:34 e 21:21, 1 Samuel 18:6, 21:11 e 29:5, Cântico dos Cânticos 6:13 — e, no Êxodo, só mais uma vez: em volta do bezerro de ouro (Êxodo 32:19). A forma masculina, machol, é a dos salmos de louvor: "louvem o seu nome com danças" (Salmo 149:3; 150:4) e "transformaste o meu pranto em dança" (Salmo 30:11).
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que o Êxodo reconhece em Miriã uma autoridade religiosa própria, e não derivada de Moisés. O título vem antes de qualquer outra informação, o parentesco que a identifica é o de Arão, e as mulheres a seguem sem que ninguém a autorize. Profetisas eram conhecidas no Oriente antigo; o que o versículo acrescenta é uma profetisa sem templo e sem rei, à frente do seu povo.
A segunda é que, nesta cena, profetizar e cantar estão muito próximos. O versículo dá o título e mostra um instrumento, e o resto da Bíblia confirma que a música era um dos caminhos da inspiração. O que se pode dizer com segurança é que o texto chama de profetisa a mulher que conduz o louvor; o que ela profetizou além disso, ele não diz.
A terceira é que a festa das mulheres é um ato de culto, e não um costume de vitória militar. Elas não saem ao encontro de um guerreiro; saem atrás de uma líder, rumo a um canto dirigido a Deus. E o livro mostra, com a mesma palavra, que a dança de um povo libertado pode virar outra coisa quando muda de destinatário.













