por isso foi a Ismael e, além das mulheres que já tinha, tomou por mulher Maalate, filha de Ismael, filho de Abraão, irmã de Nebaiote.
1. Introdução
Fecho do bloco que começou no versículo 6. Esaú, tendo compreendido o desagrado do pai, age: vai à parentela de Ismael e toma como esposa uma prima, Maalate.
Três pontos organizam a leitura.
O primeiro é a linhagem escolhida. Para agradar aos pais, Esaú procura dentro da família de Abraão — mas no ramo que foi posto para fora. Ismael é o filho de Agar, expulso em Gênesis 21, o que ficou sem o pacto. É a parte menos prestigiada da parentela, e ainda assim é parentela.
O segundo é o acréscimo. “Além das mulheres que já tinha”: o texto faz questão de dizer que nada foi desfeito. As duas hititas continuam em casa.
O terceiro é a precisão genealógica. Maalate é filha de Ismael, filho de Abraão, irmã de Nebaiote. Três camadas para dizer exatamente de que ramo ela vem — e o ramo é o do primogênito.
O que o versículo não traz é qualquer reação dos pais. O bloco termina sem que ninguém diga se o gesto adiantou alguma coisa.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem é Ismael
Primeiro filho de Abraão, nascido de Agar, a serva egípcia de Sara (Gênesis 16). Veio ao mundo quando o pai tinha oitenta e seis anos, catorze antes de Isaque. Foi circuncidado junto com Abraão (Gênesis 17:23-27), o que o inclui no sinal do pacto — mas o pacto em si, com a terra e a linhagem, foi expressamente reservado a Isaque em Gênesis 17:19-21.
A separação se consumou em Gênesis 21:9-14, quando Sara exigiu que “o filho desta serva não herdará com meu filho, com Isaque”. Deus mandou Abraão atender, e ao mesmo tempo prometeu: “dele farei uma grande nação, porque é tua descendência”.
A promessa se cumpriu. Gênesis 25:12-18 registra doze filhos de Ismael, cada um cabeça de uma tribo, e a morte dele aos 137 anos. Os descendentes ocupavam a faixa entre Havilá e Sur, na direção da península arábica, e as tribos árabes antigas se reconheciam como vindas dele.
É figura de posição estranha, portanto. Fora da linhagem do pacto e dentro da bênção divina; excluído da herança principal e prometido como grande nação. Não é o filho da promessa, e também não é um qualquer.
É a esse ramo que Esaú vai buscar mulher. Não à linhagem central, para onde Jacó acaba de ser mandado; à outra, à que sobrou.
Poligamia e o que significa acrescentar
Ter mais de uma esposa não era, em si, problema naquela cultura. Abraão teve Sara, Agar e Quetura; Jacó terá Léa, Raquel e duas servas. O arranjo era corrente e não carregava reprovação.
O problema, na régua da família de Abraão, era outro: casar fora do clã. E é exatamente aí que a escolha de Esaú fica no meio do caminho — ele corrige a origem da esposa nova sem tocar nas antigas.
Vale dizer que a alternativa existia. O repúdio era possível na cultura da época, e a lei posterior chegará a regulamentá-lo (Deuteronômio 24). Se Esaú tivesse mandado embora Judite e Basemate e ficado só com Maalate, o recado seria inequívoco: reconhecimento do erro e retorno à norma.
Ele não faz isso, e as razões que se podem imaginar não são desprezíveis. São mulheres com quem vive há anos, provavelmente mães de filhos dele; repudiá-las teria custo para elas e para as crianças, além de significar uma admissão pública. O gesto que ele escolhe custa menos — e resolve menos.
3. Análise Teológica do Versículo
“Por isso foi a Ismael”
O verbo é o mesmo da partida de Jacó, nos versículos 5 e 7, e o paralelo é deliberado. Um irmão vai para o norte, à parentela da mãe, dentro da linhagem do pacto; o outro vai para o sul, à parentela do pai, no ramo que ficou de fora. Duas viagens, duas genealogias, e entre elas toda a distância que separa os dois destinos na história da família.
“A Ismael” é abreviação. Designa a linhagem, não necessariamente a pessoa: pela cronologia tradicional, Ismael já teria morrido a esta altura, e o que Esaú procura é a comunidade dos descendentes dele. Alguns comentadores propõem contas diferentes que o manteriam vivo, e a questão não tem resposta firme — nem faz diferença para o sentido do gesto.
“e, além das mulheres que já tinha”
Aqui está a chave do versículo, e o texto poderia ter passado sem ela.
Se a frase não existisse, o leitor poderia supor que Esaú, ao casar com Maalate, tinha deixado as hititas. A especificação fecha essa porta: elas continuam. O que se faz é somar, não trocar.
É o que dá ao gesto o seu tamanho exato. Esaú faz o mínimo que sinaliza reconhecimento do problema, e não faz o que seria preciso para resolvê-lo. Meio caminho — e o texto se dá ao trabalho de garantir que o leitor perceba que é meio caminho.
“tomou por mulher Maalate”
O nome aparece só aqui e, com uma variação que os comentadores discutem, na lista de esposas de Esaú em Gênesis 36:3. As três passagens que tratam dos casamentos dele — Gênesis 26, 28 e 36 — não coincidem inteiramente nos nomes, e as explicações propostas vão de nomes duplos a problemas de transmissão do texto. Não há consenso.
O que importa aqui não é o nome, é a posição dela na família. Maalate é filha de Ismael, portanto sobrinha de Isaque e prima em primeiro grau de Esaú. Casamento entre primos era, naquele mundo, a forma prestigiada — o mesmo formato que Isaque teve com Rebeca e que Jacó terá com as filhas de Labão.
A forma, portanto, está certa. O que muda é o ramo.
“filha de Ismael, filho de Abraão”
A dupla identificação não é enfeite: é ancoragem. Ismael poderia ter sido nomeado sozinho — a linhagem dele já se identificava por si nas gerações seguintes. Chamá-lo de filho de Abraão lembra ao leitor que aquele ramo, ainda que apartado do pacto, continua sendo família.
É o que salva o gesto de Esaú de ser mais do mesmo. Ele não repetiu o erro das hititas: não foi a estrangeiros, foi a parentes. Só que aos parentes errados, do ponto de vista da promessa.
“irmã de Nebaiote”
Detalhe aparentemente supérfluo, e não é. Nebaiote encabeça a lista dos doze filhos de Ismael em Gênesis 25:13: é o primogênito.
Ismael teve doze filhos, e portanto muitas filhas possíveis. Dizer que Maalate é irmã de Nebaiote é dizer que ela vem do topo daquela linhagem, e não de um ramo lateral qualquer.
Há aí uma coerência inesperada. Isaque casou com o ramo principal da parentela; Jacó vai casar com o ramo principal da parentela; e Esaú, sem acesso a essa parentela, casa com o ramo principal da outra. Dentro do que ainda lhe cabe, ele se posiciona o mais alto que pode.
O que o texto não diz
Nenhuma reação dos pais. Nada sobre Isaque ter ficado satisfeito, nada sobre Rebeca ter mudado de ideia, nada.
O silêncio pesa porque o texto não foi silencioso da outra vez. Quando Esaú casou com as hititas, Gênesis 26:35 registrou na hora que elas “foram amargura de espírito para Isaque e Rebeca”. A simetria falha: se este casamento tivesse melhorado alguma coisa, é razoável esperar que o texto dissesse.
É leitura por ausência, e por isso mesmo não é demonstrável. Mas o efeito sobre quem lê é inequívoco: Esaú fez o que conseguiu, e o bloco termina sem que ninguém lhe responda.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Esaú
Depois de três versículos apenas observando, age. Vai, casa, acrescenta — e não diz uma palavra sobre por quê.
É o personagem inteiro nisso: responde com gestos, nunca com explicações. Se o que o move é arrependimento, cálculo ou desespero, o texto não informa, e o leitor terá de decidir a partir do que ele fez.
Está com cerca de setenta e sete anos, a mesma idade de Jacó, e casado há bastante tempo com duas mulheres hititas.
Ismael
Meio-irmão de Isaque, filho de Abraão com Agar. Aqui é linhagem, não pessoa — pela cronologia mais comum, já teria morrido.
Sua posição no livro é ambígua: circuncidado com o pai, incluído no sinal do pacto, e excluído da herança dele; expulso de casa, e prometido como grande nação. Ao se ligar a ele, Esaú se aproxima de alguém cuja história tem a mesma forma da sua — o primogênito que perdeu a primazia para o irmão mais novo.
Abraão
Morto havia muito (Gênesis 25:8), e nomeado aqui só para ancorar a linhagem. É a menção dele que garante que Esaú não foi buscar mulher fora da família.
Maalate
A nova esposa, filha de Ismael e prima em primeiro grau de Esaú. Aparece na Bíblia apenas aqui e, com outro nome, na lista de Gênesis 36:3.
Como acontece com quase todas as mulheres deste bloco, ela existe no texto pela posição que ocupa entre homens: filha de um, irmã de outro, esposa de um terceiro. Não fala, não escolhe e não é consultada.
Nebaiote
Primogênito de Ismael, nomeado em Gênesis 25:13. Sua menção serve para situar a irmã no ramo principal daquela linhagem. Reaparecerá séculos depois na profecia de Isaías 60:7, e alguns o associam à origem dos nabateus — ligação culturalmente plausível e historicamente discutida.
Judite e Basemate
As esposas hititas de Gênesis 26:34. Não são nomeadas, e estão presentes na frase inteira: são elas “as mulheres que já tinha”. Nada muda para elas, e é justamente isso que define o que Esaú fez.
Isaque e Rebeca
Destinatários do gesto, e ausentes da cena. O versículo é uma tentativa de agradá-los, e o texto não registra se funcionou.
5. Pontos de Ensino
Dentro da família, mas no ramo que sobrou
Esaú corrige a direção sem alcançar o alvo: procura entre parentes, e escolhe justamente o ramo que a família tinha posto de lado.
Somar não é corrigir
O texto faz questão de registrar que as esposas anteriores continuam. O gesto sinaliza reconhecimento e deixa intacto aquilo que causou o problema.
A forma certa não garante o conteúdo certo
Casar com prima, do ramo primogênito, dentro da parentela: no formato, é exatamente o que a tradição prescrevia. E ainda assim não é o que se pedia.
Quem perdeu o centro pode ainda escolher onde ficar
Esaú não tenta recuperar a posição de herdeiro, que já está tomada. Posiciona-se o mais alto possível no que ainda lhe é acessível.
O silêncio também responde
Quando ele casou errado, o texto registrou a amargura dos pais na mesma hora. Agora não registra nada — e a ausência diz o que nenhuma frase diria.
6. Aspectos Filosóficos
O que segue é leitura do comentarista. O Gênesis narra sem teorizar.
Ficar perto sem estar no centro
Esaú escolhe Ismael. Não vai a estrangeiros, o que repetiria o erro; não vai à linhagem principal, à qual já não pertence. Fica numa posição intermediária: dentro da família, fora do eixo.
Georg Simmel, sociólogo alemão que escreveu na virada do século XIX para o XX, dedicou boa parte da sua Soziologie (“Sociologia”, 1908) às posições sociais que não são nem de dentro nem de fora. O caso mais célebre dele é o do estrangeiro — aquele que chegou e ficou, e cuja condição não é a do forasteiro que passa nem a do membro pleno. Simmel observou que essa posição não é falta de posição: tem função própria, e às vezes vantagens que nenhum dos dois extremos oferece.
A escolha de Esaú tem essa forma. Ele não está reivindicando a centralidade — sabe, depois de tudo o que viu nos versículos anteriores, que ela está fechada. Está estabelecendo uma proximidade que se sustente: reconhecível pela família, sem competir com o irmão.
Lida assim, a decisão tem uma lucidez que costuma passar despercebida. Esaú não é o personagem impulsivo do prato de lentilhas neste versículo. Está calculando o que ainda lhe cabe, e escolhendo bem dentro desse resto — inclusive ao casar com filha do primogênito, e não de qualquer um dos doze.
Contra essa leitura pesa uma objeção simples: nada no texto diz que ele calculou. Pode ter ido a Ismael porque era perto, porque conhecia alguém, porque era o que estava ao alcance. A sofisticação pode ser toda do leitor.
Dois primogênitos do lado de fora
Há uma simetria no versículo que o texto não comenta e que é difícil não ver. Ismael foi o primeiro filho e perdeu a herança para o segundo. Esaú foi o primeiro filho e perdeu a herança para o segundo. E agora um casa na família do outro.
Søren Kierkegaard, em Frygt og Bæven (“Temor e Tremor”, 1843), trabalhou a distância entre o que a razão universal prescreve e o que a eleição divina faz. O universal é a regra que vale para todos e que qualquer um pode entender e defender — e no mundo patriarcal a regra é clara: herda o mais velho. A eleição não segue essa regra, não se explica por ela e não se justifica diante dela.
A lista do Gênesis é constante nesse ponto. Isaque, não Ismael. Jacó, não Esaú. Depois José entre doze, e mais tarde Davi entre oito irmãos. O esperado é sistematicamente contornado.
O que sobra para os contornados é o que este versículo mostra. Não são amaldiçoados nem apagados: Ismael vira doze príncipes, Esaú virá a ser Edom. São abençoados de outro jeito, e ficam do mesmo lado de uma divisão que ninguém lhes explicou.
A aliança matrimonial entre os dois ramos é, nessa chave, mais do que um arranjo de conveniência. Alinha genealogicamente os dois casos do mesmo padrão — e a história posterior manterá edomitas e ismaelitas juntos no mesmo lugar do mapa e da narrativa, sempre ao lado de Israel e sempre fora dele.
Onde a leitura precisa de freio
Kierkegaard escreve sobre a fé de quem é escolhido, não sobre a situação de quem não é. Aplicar a categoria a Esaú é usá-la pelo avesso, e é preciso dizer que o Gênesis não oferece nenhuma consolação a quem ficou de fora — não explica, não se desculpa, não trata o assunto como problema.
E há um limite ainda mais duro. Nada disso é dito por Esaú. Ele não formula paralelo nenhum, não reclama da lógica da eleição, não protesta contra nada. Vai, casa e o capítulo muda de assunto. A ironia inteira é vista pelo leitor, e é possível que o personagem nunca a tenha percebido.
7. Aplicações Práticas
Fazer o reparo possível quando o reparo completo não é
Esaú não desfaz o que fez; acrescenta algo que sinaliza reconhecimento. Muita coisa na vida chega a esse ponto — o erro está lá, com pessoas e consequências em cima dele, e reverter causaria mais dano do que reparo. O gesto parcial não resolve, e ainda assim vale mais que a inércia.
Não confundir formato correto com mudança real
O casamento de Esaú é impecável no formato: prima, dentro da parentela, do ramo principal. E nada na vida dele muda. A distinção vale nos dois sentidos — ao avaliar gestos alheios e, principalmente, ao avaliar os próprios. O formato sinaliza; só a substância transforma.
Buscar a proximidade que ainda existe, em vez da posição perdida
Insistir em recuperar o lugar que já foi ocupado por outro costuma não dar em nada. Aceitar a nova configuração e construir sobre o que resta é menos glorioso e mais produtivo — e é o que Esaú faz, provavelmente sem perceber que está fazendo.
Contar com a possibilidade de não receber resposta
O gesto foi feito e ninguém respondeu. Acontece: tentativas de aproximação não vêm com garantia de acolhimento, sobretudo quando a distância se formou ao longo de anos e por muitas decisões. Quem faz o gesto precisa poder sustentá-lo mesmo que o silêncio seja tudo o que volte.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Esaú escolhe Ismael, e não a parentela principal, para onde Jacó foi mandado?
Várias razões se somam. Padã-Arã fica a semanas de viagem, e o compromisso seria enorme. Jacó acabou de partir para lá, e repetir o destino do irmão pareceria imitação. A parentela de lá é da mãe, e é a mãe que orquestrou a partida de Jacó — dificilmente faria o mesmo por Esaú. E a linhagem de Ismael, embora secundária, fica ao alcance, na direção do sul, sem exigir travessia continental.
O resultado é uma escolha realista: proximidade possível, em vez da rota que não é dele.
Por que não repudiou as hititas antes de casar com Maalate?
Repudiar mulheres com quem convive há anos, provavelmente mães de filhos dele, teria custo para elas e para as crianças — e significaria admitir em público que errou. Acrescentar evita a decisão binária e mantém tudo de pé.
Vale lembrar que ter várias esposas não era o problema: Abraão teve três, Jacó terá quatro. O que a família reprovava era a origem delas. Esaú corrige a origem da esposa nova e deixa intacta a das antigas — o que atenua sem reverter.
O casamento com Maalate agradou aos pais?
O texto não diz, e o silêncio é o dado. Quando ele casou com as hititas, a reação foi registrada de imediato em Gênesis 26:35; aqui, nada. A assimetria sugere que o gesto foi insuficiente, embora a leitura seja por ausência e não se possa provar.
Fica uma pergunta desconfortável: um gesto maior — repudiar as hititas, casar só com Maalate — teria resolvido? Provavelmente não por inteiro. A distância entre Esaú e a linhagem do pacto veio de muitas decisões ao longo de décadas, e não há ato único que desfaça uma coisa dessas.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 16:1-16 — A história de Agar e o nascimento de Ismael. A origem da linhagem a que Esaú se une aqui.
Gênesis 17:19-21 — Deus reserva o pacto a Isaque e promete a Ismael descendência numerosa. A distinção que faz do ramo ismaelita um ramo secundário e ainda assim abençoado.
Gênesis 21:9-14 — A expulsão de Agar e Ismael por exigência de Sara, com anuência divina. O momento em que a separação se consuma.
Gênesis 25:12-18 — A genealogia dos doze filhos de Ismael, com Nebaiote em primeiro lugar, e a morte dele aos 137 anos.
Gênesis 26:34-35 — O casamento anterior de Esaú com as duas hititas e a amargura que causou. As esposas “que já tinha”, e que continuam.
Gênesis 36:1-5 — A genealogia de Esaú, com a lista das esposas dele. Ali a filha de Ismael aparece com outro nome, o que gera a discussão de harmonização com esta passagem.
Gênesis 36:8-9 — “Assim habitou Esaú no monte Seir; Esaú é Edom.” O destino final da linhagem que este casamento ajuda a formar.
Isaías 60:7 — “Os carneiros de Nebaiote te servirão.” O irmão de Maalate reaparece séculos depois, como povo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
por isso foi a Ismael e, além das mulheres que já tinha, tomou por mulher Maalate, filha de Ismael, filho de Abraão, irmã de Nebaiote.
Texto hebraico
וַיֵּלֶךְ עֵשָׂו אֶל־יִשְׁמָעֵאל וַיִּקַּח אֶת־מָחֲלַת בַּת־יִשְׁמָעֵאל בֶּן־אַבְרָהָם אֲחוֹת נְבָיוֹת עַל־נָשָׁיו לוֹ לְאִשָּׁה
Transliteração
wa-yelekh Esav el-Yishma'el, wa-yiqach et-Machalat bat-Yishma'el ben-Avraham achot Nevaiot al-nashav lo le-ishah.
Análise palavra por palavra
וַיֵּלֶךְ עֵשָׂו אֶל־יִשְׁמָעֵאל — wa-yelekh Esav el-Yishma'el, “e foi Esaú a Ismael”.
Wa-yelekh: verbo halakh (“ir”) no imperfeito consecutivo. Terceira ocorrência do verbo no capítulo — antes aplicado à partida de Jacó (versículos 5 e 7), agora aplicado à ida de Esaú.
O paralelismo verbal marca o paralelismo estrutural. Ambos os irmãos “vão” — cumprindo movimentos distintos, mas nomeados pelo mesmo verbo. Jacó vai à parentela materna, na linhagem principal; Esaú vai a Ismael, à linhagem alternativa.
El-Yishma'el: preposição el (“a, para”) + Ismael. Como discutido no item 3, “Ismael” aqui provavelmente designa a linhagem, não a pessoa (que, na cronologia tradicional, provavelmente já estava morta).
Yishma'el: nome que significa “Deus ouve” (El = Deus, shema = ouve). O nome foi dado por Deus através do anjo à Agar em Gênesis 16:11, com explicação — “porque o Senhor ouviu a tua aflição”. Nome que carrega memória da experiência de Agar de ser ouvida por Deus em situação de opressão.
וַיִּקַּח אֶת־מָחֲלַת — wa-yiqach et-Machalat, “e tomou Maalate”.
Wa-yiqach: verbo laqach (“tomar”) no imperfeito consecutivo. Terceira pessoa masculina singular.
Na construção laqach ishah (que virá completa mais adiante no versículo com le-ishah), é a fórmula padrão para “casar-se”. Aqui, o verbo está antes da fórmula completa, mas a construção sintática toda expressa o casamento.
Et-Machalat: marcador de objeto direto et + Maalate. Nome discutido no item 3 (aparece só duas vezes na Bíblia hebraica; etimologia debatida).
בַּת־יִשְׁמָעֵאל בֶּן־אַבְרָהָם — bat-Yishma'el ben-Avraham, “filha de Ismael, filho de Abraão”.
Bat-Yishma'el: bat (“filha”, forma construta) + Ismael. Identifica Maalate pela paternidade.
Ben-Avraham: ben (“filho”, forma construta) + Abraão. Identifica Ismael pela paternidade — “filho de Abraão”.
A dupla identificação genealógica é significativa. Marca Maalate como neta de Abraão, portanto dentro da parentela abrahâmica ampliada. Sem a identificação de Ismael como “filho de Abraão”, a menção seria neutra — poderia ser qualquer Ismael. Com a identificação, o texto ancora a escolha de Esaú dentro dos limites amplos da família abrahâmica.
אֲחוֹת נְבָיוֹת — achot Nevaiot, “irmã de Nebaiote”.
Achot: achot (“irmã”, forma construta) — “irmã de”.
Nevaiot: Nebaiote, primogênito de Ismael, mencionado em Gênesis 25:13. A menção específica dele localiza Maalate no ramo primogênito da linhagem ismaelita — subgrupo mais importante genealogicamente.
Como discutido no item 3, essa especificação marca que Esaú, na escolha da esposa alternativa, foi ao topo estrutural da linhagem ismaelita — não a ramo secundário. É posicionamento que confere ao gesto compensatório maior peso genealógico.
עַל־נָשָׁיו — al-nashav, “sobre suas mulheres”.
Preposição al (“sobre”) + nashav, plural de ishah (“mulher”) com sufixo pronominal — “suas mulheres”.
Al aqui tem sentido aditivo — “em adição a”, “além de”. É a construção que marca a poligamia — a nova esposa acrescida às anteriores.
Nashav: as esposas que Esaú já tinha, isto é, Judite e Basemate (Gênesis 26:34). A construção plural confirma que ele tinha duas ou mais esposas antes desta.
לוֹ לְאִשָּׁה — lo le-ishah, “para si por mulher”.
Lo: preposição le- + sufixo pronominal, “para si”. Dativo ético, indica que o casamento é para benefício próprio.
Le-ishah: preposição le- + ishah (“mulher, esposa”). A construção le-ishah completa a fórmula matrimonial — laqach... le-ishah, “tomar por esposa”. É a formulação padrão do casamento no hebraico bíblico.
Estrutura sintática
O versículo é oração complexa com muitos elementos coordenados. A ordem sintática hebraica difere ligeiramente da portuguesa — o essencial em hebraico é: verbo (ir) + sujeito (Esaú) + destino (a Ismael); verbo (tomar) + objeto (Maalate) com múltiplas apostas genealógicas + condição (sobre suas mulheres) + finalidade (para si por mulher).
A densidade da frase reflete a densidade do gesto — não é ação simples, é ato com múltiplas dimensões que o texto marca ao acrescentar cada especificação genealógica e cada qualificador aditivo.
Notas sobre a construção “sobre suas mulheres”
A expressão al-nashav merece atenção especial. Em português traduziu-se “além das mulheres que já tinha”. É construção que aparece em outros contextos de poligamia bíblica.
Levítico 18:18, por exemplo, tem construção semelhante ao proibir tomar mulher como rival de sua irmã ainda em vida — al-achotah, “sobre sua irmã”. A construção com al aqui indica adição rival, esposa que se acrescenta a outra ainda existente.
O uso de al-nashav no versículo, portanto, marca com precisão o caráter aditivo do gesto de Esaú. Ele não substitui; adiciona. E o texto usa a mesma preposição que aparece em contextos legais posteriores para descrever exatamente esse padrão — nova esposa em adição às existentes.
11. Conclusão
Com base no que foi exposto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é sobre o tamanho exato do gesto. O texto podia ter dito apenas que Esaú casou com a filha de Ismael, e fez questão de acrescentar que foi além das mulheres que já tinha. Essa cláusula define tudo: o que se corrige é a origem da esposa nova, não a das antigas. Segue-se daí que o problema apontado no versículo anterior continua inteiro depois deste — e que Esaú fez o mínimo capaz de sinalizar que entendeu.
A segunda é sobre o alvo errado. No formato, a escolha é irrepreensível: prima em primeiro grau, dentro da parentela de Abraão, filha do ramo primogênito. É exatamente a forma de casamento que Isaque fez e que Jacó fará. Só que o ramo é o de Ismael, isto é, o ramo que a própria família tinha posto de lado. Esaú acerta a forma e erra o conteúdo, o que é uma maneira precisa de descrever a vida inteira dele neste capítulo.
A terceira é sobre o silêncio que fecha o bloco. Quando ele casou com as hititas, o texto registrou a amargura dos pais na frase seguinte. Agora não há frase nenhuma: nem aprovação, nem recusa, nem comentário. O capítulo simplesmente muda de assunto e volta para Jacó, a caminho de Betel. É leitura por ausência, e não se pode provar — mas quem lê fica com a impressão de que o gesto se perdeu no ar.
Fica em aberto a simetria que o versículo produz sem nomear. Ismael foi o primogênito preterido em favor de Isaque; Esaú foi o primogênito preterido em favor de Jacó; e um casa na família do outro. Se Esaú percebeu isso, o texto não diz. É possível que a ironia seja toda do leitor, e que ele tenha ido a Ismael simplesmente porque era o que estava ao alcance.













