E o anjo do SENHOR lhe disse: “Eis que você está grávida e dará à luz um filho. Você lhe porá o nome de Ismael, porque o SENHOR ouviu a sua aflição.
1. Introdução
O nome da criança é dado antes de ela nascer, e o motivo vem junto.
Ismael — que significa "Deus ouve".
E a razão declarada: porque o SENHOR ouviu a sua aflição.
A palavra usada para aflição é a mesma que descreveu, cinco versículos antes, o que Sarai fez com ela.
Aquilo não passou despercebido. E ficou registrado no nome de uma criança que atravessaria a história.
2. Contexto Histórico e Cultural
Um anúncio de nascimento
Este versículo pertence a um tipo raro de cena bíblica.
São os anúncios em que uma criança é prometida antes da concepção ou do nascimento, com o nome e o destino declarados de antemão.
Acontece com Isaque, com Sansão, com João Batista, com Jesus.
São poucas ocorrências em toda a Escritura, e todas envolvem figuras centrais.
Esta é a primeira delas.
E a pessoa que a recebe é uma escrava egípcia fugitiva.
O nome
Ismael é formado por duas partes: o verbo ouvir e o nome de Deus.
"Deus ouve" ou "Deus ouvirá".
É um nome comum no mundo semítico antigo, e aparece em outros textos e em inscrições. Não é invenção literária.
O que o versículo faz é explicar o nome com uma frase que usa o mesmo verbo: porque o SENHOR ouviu a tua aflição.
A criança carregaria, no nome, o registro do que a mãe sofreu.
Quem dá o nome
Um detalhe importante: a instrução é dirigida a ela.
"Você lhe porá o nome de Ismael."
No mundo bíblico, nomear era ato de autoridade. Quem nomeia estabelece relação com o nomeado.
A mãe nomeia os filhos em vários textos do Gênesis, e não é anomalia. Mas convém notar quem não é instruído aqui: Abrão, o pai, e Sarai, a senhora que juridicamente seria mãe da criança.
A instrução vai para Agar.
A palavra que retorna
A raiz 'anáh aparece pela terceira vez neste capítulo.
No versículo 6, foi o que Sarai fez com Agar.
No versículo 9, foi o que se mandou que Agar fizesse.
Aqui, é o que o SENHOR ouviu.
Essa terceira ocorrência muda o conjunto: impede a leitura de que a aflição fosse considerada normal.
3. Análise Teológica do Versículo
"Eis que você está grávida e dará à luz um filho"
A fórmula é a dos anúncios de nascimento bíblicos, e reaparecerá quase idêntica em Juízes 13 e em Isaías 7.
Note-se que ele menciona a gravidez — que Agar não havia mencionado ao responder no versículo 8.
"Você lhe porá o nome de Ismael"
O imperativo é feminino singular. A instrução é para ela.
Nomear, no mundo bíblico, é ato de quem tem autoridade sobre o nomeado.
"porque o SENHOR ouviu a sua aflição"
Aqui está a explicação do nome, construída com o mesmo verbo que o compõe.
E aqui está também a terceira ocorrência da raiz 'anáh no capítulo.
Note-se o que é dito: não que o SENHOR ouviu a oração dela — o texto não registra oração nenhuma. Ouviu a aflição.
O que foi ouvido não foi um pedido. Foi uma situação.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O anjo do SENHOR — anuncia o nascimento, dá o nome e declara o motivo.
Agar — recebe a instrução de nomear o filho; a autoridade de nomear é dada a ela.
Ismael — nome que significa "Deus ouve", comum no mundo semítico antigo.
A aflição — terceira ocorrência da raiz 'anáh no capítulo, agora como aquilo que foi ouvido.
A fórmula do anúncio — reaparecerá quase idêntica em Juízes 13 e em Isaías 7.
O evento — o primeiro anúncio de nascimento da Bíblia, feito a uma escrava estrangeira.
5. Pontos de Ensino
É o primeiro anúncio de nascimento da Bíblia. E vai para uma escrava fugitiva.
Ismael significa "Deus ouve". O nome carrega o registro do que a mãe sofreu.
Quem nomeia é ela. Não o pai, não a senhora que juridicamente seria mãe.
Não foi a oração que foi ouvida. Foi a aflição — o texto não registra oração nenhuma.
A palavra retorna pela terceira vez. O que foi feito, o que se mandou fazer, e o que foi ouvido.
A aflição não foi considerada normal. Se fosse, não haveria por que dizer que foi ouvida.
6. Aspectos Filosóficos
O primeiro anúncio
Vale situar este versículo no seu tipo, porque isso muda a leitura.
A Bíblia tem poucas cenas em que uma criança é anunciada antes do nascimento, com nome e destino declarados de antemão.
Isaque será anunciado assim. Sansão também. Séculos depois, João Batista e Jesus.
São ocorrências raras, e todas envolvem figuras decisivas.
Esta é a primeira de todas.
E a pessoa que a recebe é uma escrava egípcia fugitiva, sentada perto de uma fonte no deserto, sem nada.
Convém deixar o dado dizer o que diz, sem enfeitar: o modelo literário que a Escritura reserva para os nascimentos mais importantes estreia aqui.
Um nome que guarda o que aconteceu
Ismael é composto do verbo ouvir e do nome de Deus: Deus ouve.
É nome comum no mundo semítico antigo, atestado fora da Bíblia. Não é criação literária.
O que o versículo faz é explicá-lo com uma frase construída sobre o mesmo verbo: porque o SENHOR ouviu a tua aflição.
Vale pensar no que isso significa na prática.
Aquela criança seria chamada pelo nome todos os dias, pela vida inteira. Cada chamado repetiria, sem que ninguém precisasse explicar, que houve uma aflição e que ela foi ouvida.
O sofrimento de uma escrava estrangeira — que não foi registrado em nenhum documento, que não gerou processo, que ninguém na casa reconheceu — ficou inscrito no nome de uma pessoa.
É uma forma de memória bastante econômica, e bastante eficaz.
Ouviu a aflição, não a oração
Há um detalhe no versículo que costuma passar despercebido e que merece atenção.
O texto não diz que o SENHOR ouviu a oração de Agar.
E não poderia dizer: não há oração registrada. Ela não clamou, não pediu, não invocou o nome de Deus. Em nenhum momento do capítulo o texto sugere que ela soubesse a quem recorrer.
O que foi ouvido foi a aflição.
Ou seja, uma situação — e não um pedido.
Isso vale ser registrado com clareza, porque contraria um pressuposto comum: o de que Deus responde ao que é formulado corretamente, por quem sabe formular.
Aqui, o que chegou não foi um texto. Foi um estado.
E convém não construir sobre isso uma teologia mecânica, do tipo "todo sofrimento é automaticamente ouvido e resolvido" — o próprio capítulo desmente, já que Agar é mandada de volta à mesma situação.
O que o texto afirma é mais contido e mais difícil: aquilo foi ouvido. Não que tenha sido consertado.
A palavra pela terceira vez
A raiz 'anáh completa aqui o seu percurso no capítulo, e vale reunir as três ocorrências.
No versículo 6, Sarai afligiu Agar. É o que foi feito com ela.
No versículo 9, a ordem foi submete-te. É o que se mandou que ela fizesse.
Aqui, o SENHOR ouviu a aflição dela. É o reconhecimento de que aquilo existiu.
A terceira ocorrência é a que muda o conjunto.
Porque ela impede duas leituras ruins do versículo 9.
Impede a leitura de que a opressão era considerada normal — se fosse, não haveria por que registrar que foi ouvida.
E impede a leitura de que o retorno significava indiferença — porque o mesmo texto que manda voltar afirma que aquilo de que ela fugiu tem nome, e o nome é aflição.
O narrador não harmoniza as três ocorrências. Coloca-as no mesmo capítulo, a poucos versículos umas das outras, e segue.
Quem tem autoridade para nomear
Uma observação final, sobre quem recebe a instrução.
"Você lhe porá o nome de Ismael." O imperativo é feminino, dirigido a Agar.
No mundo bíblico, nomear é ato de autoridade. Adão nomeia os animais; os pais nomeiam os filhos; Deus muda o nome de Abrão e de Jacó.
Mães nomeiam filhos em vários textos do Gênesis — não é anomalia.
O que merece nota é quem não recebe a instrução: nem Abrão, o pai, nem Sarai, que pelo arranjo do versículo 2 seria juridicamente a mãe da criança.
A autoridade de nomear é dada à mulher que, no versículo 2, era apenas o meio.
Vale antecipar, porém, um dado que complica isso, e que trataremos no versículo 15: quando a criança nascer, o texto dirá que Abrão pôs nele o nome de Ismael.
O narrador não explica a diferença. Registro-a aqui para que ela não passe batida — e voltaremos a ela.
A criança que carrega o nome de um acontecimento
Vale observar um padrão que este versículo inaugura.
Nomes que registram circunstâncias são comuns na Bíblia hebraica.
Isaque será chamado assim porque houve riso. Os filhos de Jacó receberão nomes que registram as disputas entre Lia e Raquel. Os filhos de Oseias carregarão nomes que anunciam juízo sobre o povo.
A prática tem uma consequência que costuma escapar: a pessoa carrega, por toda a vida, a memória de algo que aconteceu antes de ela existir.
Ismael carregaria o registro da aflição da mãe.
Convém não idealizar isso. Há peso em ser nomeado por uma circunstância difícil — e o texto não diz como ele lidou com o próprio nome.
O que se pode afirmar é mais simples: o que aconteceu com Agar não desapareceu. Ficou dito, todos os dias, por quem chamasse aquele menino.
Uma promessa de longo alcance
Uma última observação sobre o alcance do que é dito aqui.
Este versículo trata do filho que vai nascer. O anterior tratou da descendência incontável.
Entre as duas coisas há uma distância enorme de tempo, e o texto as coloca lado a lado sem transição.
Vale registrar que Agar receberia uma confirmação disso muitos anos depois. Em Gênesis 21, expulsa da casa com o menino já crescido, ouvirá de novo que Deus faria dele uma grande nação.
Duas vezes, com um intervalo longo, e nas duas ela estava no deserto sem nada.
O narrador não comenta a repetição. Registro-a porque ela mostra que a promessa deste versículo não foi episódio isolado.
7. Aplicações Práticas
Guarde a memória do que foi sofrido
O nome da criança inscreve, para sempre, que houve uma aflição e que ela foi ouvida. Cada vez que aquele menino fosse chamado, a frase se repetiria sem que ninguém precisasse explicá-la.
O sofrimento de uma escrava estrangeira — que não gerou documento, processo nem reconhecimento na casa — ficou registrado no nome de uma pessoa. É uma forma de memória econômica e eficaz.
Quando algo difícil acontecer com você ou com alguém próximo, registre de alguma forma: uma data marcada, uma anotação, um objeto guardado. O que não é registrado tende a ser negado depois — inclusive por quem viveu.
Não condicione a escuta à formulação correta
O texto não diz que o SENHOR ouviu a oração de Agar — e não poderia, porque não há oração registrada. Ela não clamou, não pediu e não invocou ninguém. O que foi ouvido foi a aflição: uma situação, não um pedido.
Isso contraria o pressuposto de que se é atendido por saber formular, com as palavras certas, na forma certa, por quem tem prática.
Se você está numa fase em que não consegue orar, ou não sabe o que pedir, ou acha que não tem direito de pedir, este versículo desmonta a exigência. O que chegou aqui não foi um texto bem construído. Foi um estado.
Ser ouvido não é o mesmo que ser retirado
O mesmo capítulo que afirma que a aflição foi ouvida manda Agar voltar para a mesma situação. Não convém, portanto, construir uma teologia mecânica em que todo sofrimento ouvido é imediatamente resolvido.
O texto afirma algo mais contido e mais difícil: aquilo foi ouvido. Não que tenha sido consertado.
Se a sua circunstância não mudou, isso não prova que ninguém ouviu. Procure o que mudou — e frequentemente o que muda primeiro não é a situação, mas a companhia dentro dela. É pouco, e para quem está lá dentro não é nada pouco.
Nomeie o que foi feito com as pessoas
A raiz que descreve a aflição aparece três vezes: o que Sarai fez, o que se mandou que Agar fizesse, e o que o SENHOR ouviu. A terceira ocorrência impede tratar a opressão como normal — se fosse normal, não haveria por que registrar que foi ouvida.
Nós fazemos o contrário: suavizamos o nome do que aconteceu para tornar a convivência possível. Foi só um desentendimento. Ele é assim mesmo. Ninguém fez por mal.
Chame as coisas pelo nome, ao menos para si mesmo. Não para alimentar mágoa, mas porque quem nunca nomeia o que sofreu passa a vida achando que exagerou — e essa dúvida é mais corrosiva do que a lembrança.
Dê autoridade a quem foi tratado como meio
A instrução de nomear é dada a Agar. Nem a Abrão, que era o pai, nem a Sarai, que pelo arranjo do versículo 2 seria juridicamente a mãe. Nomear, no mundo bíblico, é ato de autoridade — e ela é dada a quem, dois versículos antes, era apenas o meio.
Nas nossas estruturas, quem executa raramente decide, e quem decide raramente executa. É eficiente e produz um efeito colateral pesado: as pessoas param de se responsabilizar por aquilo que fazem com as próprias mãos.
Se você lidera, transfira alguma decisão real para quem faz o trabalho — não a opinião, a decisão. É desconfortável, e é o que transforma alguém de instrumento em responsável.
Repare no que é anunciado antes de acontecer
Este é o primeiro anúncio de nascimento da Bíblia — o modelo que a Escritura reservará a Isaque, a Sansão, a João Batista e a Jesus estreia aqui, com uma escrava egípcia sentada perto de uma fonte no deserto.
Quando algo importante começa, raramente parece importante. Começa em lugar errado, com a pessoa errada, sem testemunha.
Não descarte o que está começando pequeno na sua vida — o projeto sem estrutura, a conversa que ninguém levou a sério, a amizade improvável. Você não tem como saber, agora, qual delas era a que importava; só saberá depois. Trate todas com um pouco mais de cuidado do que o tamanho aparente sugere.
Cuidado com o que você inscreve em alguém
Nomes que registram circunstâncias são comuns na Bíblia — Isaque pelo riso, os filhos de Jacó pelas disputas entre as mães. A pessoa carrega, por toda a vida, a memória de algo que aconteceu antes de ela existir.
Nós fazemos o mesmo sem nomes: o filho que nasceu na crise, o que veio para salvar o casamento, o que chegou fora de hora. A criança não escolheu nada disso e cresce ouvindo.
Repare no que você conta às pessoas sobre a chegada delas — filhos, funcionários, parceiros. A história de origem que alguém ouve sobre si mesmo vira, com o tempo, parte de como essa pessoa se explica. Escolha o que vale a pena inscrever.
Espere que a mesma palavra volte
Agar receberia confirmação disso muitos anos depois. Em Gênesis 21, expulsa da casa com o menino já crescido, ouvirá de novo que Deus faria dele uma grande nação. Duas vezes, com intervalo longo, e nas duas ela estava no deserto sem nada.
Coisas importantes raramente são ditas uma vez só. E nós tendemos a tratar a primeira ocorrência como se fosse a única chance de entender.
Se algo que você ouviu ou leu não fez sentido agora, anote e siga. O que é verdadeiro tende a voltar por outro caminho, em outra fase, e frequentemente é na segunda vez que se entende — porque a pessoa mudou, não o texto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O que significa o nome Ismael?
"Deus ouve" ou "Deus ouvirá" — é composto do verbo ouvir e do nome de Deus. É nome comum no mundo semítico antigo, atestado fora da Bíblia, e não uma criação literária. O versículo o explica com uma frase construída sobre o mesmo verbo.
O que exatamente foi ouvido?
A aflição, e não uma oração — o texto não registra oração nenhuma. Agar não clamou, não pediu e não invocou o nome de Deus; em nenhum momento o capítulo sugere que ela soubesse a quem recorrer. O que chegou foi uma situação, não um pedido.
Isso significa que todo sofrimento é ouvido e resolvido?
O próprio capítulo desmente a segunda parte: Agar é mandada de volta à mesma situação. O texto afirma algo mais contido e mais difícil — aquilo foi ouvido, não que tenha sido consertado.
Por que a palavra "aflição" importa tanto aqui?
Porque é a terceira ocorrência da mesma raiz no capítulo: o que Sarai fez a Agar, o que se mandou que Agar fizesse, e o que o SENHOR ouviu. A terceira impede duas leituras ruins do versículo 9 — que a opressão fosse considerada normal, e que o retorno significasse indiferença.
Quem devia dar o nome à criança?
A instrução é dirigida a Agar, com imperativo feminino. Nem Abrão, o pai, nem Sarai, que pelo arranjo do versículo 2 seria juridicamente a mãe. Nomear, no mundo bíblico, é ato de autoridade — e ela é dada a quem era apenas o meio.
Este anúncio é comum na Bíblia?
Ao contrário: são poucas as cenas em que uma criança é anunciada antes do nascimento, com nome e destino declarados. Acontece com Isaque, Sansão, João Batista e Jesus. Esta é a primeira de todas.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 16:6 — Então Sarai a afligiu.
A primeira ocorrência da raiz que este versículo retoma como aquilo que foi ouvido.
Gênesis 16:9 — Torna-te à tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos.
A segunda ocorrência, entre o que foi feito e o que foi ouvido.
Juízes 13:3-5 — Eis que agora és estéril, e não tens dado à luz; porém conceberás, e darás à luz um filho.
A mesma fórmula de anúncio, séculos depois, também dita a uma mulher.
Isaías 7:14 — Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
A fórmula quase idêntica, com o nome explicado pelo significado.
Êxodo 3:7 — Tenho visto atentamente a aflição do meu povo... e tenho ouvido o seu clamor.
O mesmo vocabulário de aflição ouvida, agora sobre os descendentes de Abrão.
Gênesis 21:17 — Porque Deus ouviu a voz do menino onde está.
Anos depois, o nome do menino é reafirmado pelo próprio acontecimento.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E o anjo do SENHOR lhe disse: "Eis que você está grávida e dará à luz um filho. Você lhe porá o nome de Ismael, porque o SENHOR ouviu a sua aflição."
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר לָהּ מַלְאַךְ יְהוָה הִנָּךְ הָרָה וְיֹלַדְתְּ בֵּן וְקָרָאת שְׁמוֹ יִשְׁמָעֵאל כִּי־שָׁמַע יְהוָה אֶל־עָנְיֵךְ
Transliteração
wa-yómer lah mal'akh YHWH hinnákh hará we-yolad'te ben we-qarat shemó Yishma'el ki-shamá' YHWH el-'onyékh
Palavra por palavra
הִנָּךְ הָרָה (hinnákh hará) — "eis que tu estás grávida"
A partícula de apontamento com sufixo de segunda pessoa feminina, seguida do adjetivo.
Esta construção é a marca do gênero literário do anúncio de nascimento. Ela reaparecerá quase idêntica em Juízes 13, dita à mãe de Sansão, e em Isaías 7.
Vale notar que ele menciona a gravidez — que Agar, ao responder no versículo 8, não havia mencionado.
וְיֹלַדְתְּ בֵּן (we-yolad’te ben) — "e darás à luz um filho"
O verbo de dar à luz, no feminino. O anúncio inclui o sexo da criança.
וְקָרָאת שְׁמוֹ (we-qarat shemó) — "e chamarás o nome dele"
A forma verbal é de segunda pessoa feminina singular. A instrução é para Agar.
A expressão "chamar o nome" é a fórmula hebraica padrão para nomear.
Nomear, na Escritura, é ato de quem tem autoridade sobre o nomeado — Adão nomeia os animais, os pais nomeiam os filhos, Deus muda o nome de Abrão.
יִשְׁמָעֵאל (Yishma’el) — "Ismael"
Nome composto: o verbo shamá, ouvir, na forma de terceira pessoa, mais El, Deus.
Literalmente: Deus ouve, ou Deus ouvirá.
É um dos muitos nomes teofóricos do hebraico — nomes que contêm um elemento divino —, e está atestado em inscrições e documentos do mundo semítico antigo. Não é criação do texto.
כִּי־שָׁמַע יְהוָה (ki-shamá’ YHWH) — "porque ouviu o SENHOR"
A conjunção causal introduz a explicação do nome, e o verbo é exatamente o que compõe o nome.
Esse tipo de etimologia explicativa é comum no Gênesis. Ela não pretende ser análise linguística: é um jogo entre o som do nome e o acontecimento que o motivou.
Note-se que quem ouve é nomeado com o tetragrama, YHWH, e não com El, que compõe o nome. O texto associa os dois sem discutir a diferença.
אֶל־עָנְיֵךְ (el-’onyékh) — "à tua aflição"
O substantivo 'onî vem da raiz 'anáh — a mesma dos versículos 6 e 9.
Designa miséria, opressão, sofrimento imposto. É a palavra que o Êxodo usará para a condição do povo no Egito.
A preposição indica direção: ouviu para a tua aflição, no sentido de ter-lhe dado atenção.
Vale registrar com precisão o que o texto diz e o que não diz. Não diz que ouviu a oração dela, nem o clamor dela, nem a voz dela. Diz que ouviu a aflição — um estado, e não uma fala.
Nota — a raiz que fecha o círculo
Vale reunir, ao fim, o percurso completo da raiz 'anáh neste capítulo, porque ele é uma das construções mais precisas do Gênesis.
Versículo 6: wa-te'annéha — e a afligiu. Sarai é o sujeito.
Versículo 9: we-hit'anní — e submete-te. Agar é o sujeito.
Versículo 11: 'onyékh — a tua aflição. Agar é a portadora, e o SENHOR é quem ouve.
A mesma raiz atravessa as três posições possíveis: o que se faz a alguém, o que se pede a alguém, e o que se reconhece em alguém.
E há um quarto uso, um capítulo antes. Em Gênesis 15:13, a descendência de Abrão seria afligida — mesma raiz — durante quatrocentos anos no Egito.
De modo que a palavra circula assim: anunciada sobre os hebreus, praticada contra uma egípcia, exigida dela como submissão, e finalmente ouvida por Deus.
O narrador nunca comenta. Escolhe a palavra e repete.
Quem lê em hebraico ouve as quatro cenas ao mesmo tempo — e é essa, provavelmente, a intenção.
11. Conclusão
Vale situar este versículo no seu tipo, porque isso muda a leitura.
A Bíblia tem poucas cenas em que uma criança é anunciada antes do nascimento, com nome e destino declarados de antemão. Isaque será anunciado assim; Sansão também; séculos depois, João Batista e Jesus. São ocorrências raras, e todas envolvem figuras decisivas.
Esta é a primeira de todas — e a pessoa que a recebe é uma escrava egípcia fugitiva, sentada perto de uma fonte no deserto.
O nome anunciado é composto do verbo ouvir e do nome de Deus: Deus ouve. É nome comum no mundo semítico antigo, atestado fora da Bíblia. E o versículo o explica com uma frase construída sobre o mesmo verbo — porque o SENHOR ouviu a tua aflição.
Vale pensar no que isso significa na prática. Aquela criança seria chamada pelo nome todos os dias, pela vida inteira, e cada chamado repetiria que houve uma aflição e que ela foi ouvida. O sofrimento de uma escrava estrangeira, que não gerou documento nem processo e que ninguém na casa reconheceu, ficou inscrito no nome de uma pessoa.
Há um detalhe que costuma passar despercebido. O texto não diz que o SENHOR ouviu a oração de Agar — e não poderia dizer, porque não há oração registrada. Ela não clamou, não pediu, não invocou o nome de Deus; em nenhum momento o capítulo sugere que soubesse a quem recorrer. O que foi ouvido foi a aflição: uma situação, e não um pedido.
Isso contraria um pressuposto comum, o de que se é atendido por saber formular. Aqui, o que chegou não foi um texto. Foi um estado. E convém não construir sobre isso uma teologia mecânica do tipo "todo sofrimento é ouvido e resolvido" — o próprio capítulo desmente, já que Agar é mandada de volta. O texto afirma algo mais contido e mais difícil: aquilo foi ouvido. Não que tenha sido consertado.
A raiz que descreve a aflição completa aqui o seu percurso. No versículo 6 foi o que Sarai fez com ela; no 9, o que se mandou que ela fizesse; aqui, o que o SENHOR ouviu. A terceira ocorrência é a que muda o conjunto, porque impede duas leituras ruins do versículo 9 — a de que a opressão era considerada normal, e a de que o retorno significava indiferença. Se fosse normal, não haveria por que registrar que foi ouvida.
Uma observação final, sobre quem recebe a instrução de nomear. O imperativo é feminino, dirigido a Agar. Nem Abrão, o pai, nem Sarai, que pelo arranjo do versículo 2 seria juridicamente a mãe da criança. Nomear é ato de autoridade — e ela é dada à mulher que, no versículo 2, era apenas o meio. Vale antecipar, porém, um dado que complica isso: quando a criança nascer, o texto dirá que Abrão pôs nele o nome de Ismael. O narrador não explica a diferença, e voltaremos a ela no versículo 15.













