Disse-lhe ainda o anjo do SENHOR: “Multiplicarei tanto a sua descendência, que não se poderá contá-la, de tão numerosa.”
1. Introdução
"Multiplicarei tanto a sua descendência, que não se poderá contá-la, de tão numerosa."
Essa é, palavra por palavra, a promessa feita a Abrão.
Está sendo dita a uma escrava egípcia, no deserto, sem nenhuma condição atrelada.
Agar é a única mulher em toda a Bíblia a receber diretamente uma promessa de descendência incontável.
2. Contexto Histórico e Cultural
A mesma promessa
Vale colocar os textos lado a lado.
Em Gênesis 15:5, Deus levou Abrão para fora e mandou contar as estrelas, se pudesse: assim seria a sua descendência.
Em Gênesis 13:16, Deus dissera que a descendência dele seria como o pó da terra, que ninguém pode contar.
Aqui, ao lado de uma fonte no deserto, a mesma ideia é dita a Agar: descendência tão numerosa que não se poderá contar.
O vocabulário é o mesmo. A estrutura é a mesma. E não há condição alguma associada.
Quem recebe
Convém dizer com clareza o que este versículo tem de excepcional.
Promessas de descendência numerosa são feitas, no Gênesis, a Abraão, a Isaque e a Jacó. São os três patriarcas da linhagem.
Aqui é feita a uma mulher.
Estrangeira. Escrava. Fora da linhagem da promessa. Fugitiva.
E é feita diretamente a ela — não ao pai da criança, não ao dono da casa, não por intermédio de ninguém.
Rebeca receberá uma palavra sobre os filhos que carrega, em Gênesis 25, e isso é próximo. Mas a promessa de descendência incontável, na formulação que os patriarcas receberam, é dita a uma única mulher em toda a Escritura: esta.
Quem fala
O verbo está na primeira pessoa: multiplicarei.
Não é "o SENHOR multiplicará". É "eu multiplicarei".
É aqui que a questão sobre a identidade do anjo do SENHOR fica mais aguda. Um mensageiro estaria falando com a voz de quem o enviou — prática comum no mundo antigo — ou trata-se de uma manifestação do próprio Deus?
O texto mantém a ambiguidade, e o versículo 13 vai aumentá-la.
Sem condição
Vale notar o que não acompanha a promessa.
Não há exigência de conduta. Não há aliança a firmar. Não há sinal a cumprir, como haverá em Gênesis 17.
Nem sequer há relação com a ordem do versículo anterior — a promessa não é apresentada como recompensa por voltar.
Simplesmente é dada.
3. Análise Teológica do Versículo
"Disse-lhe ainda o anjo do SENHOR"
A fórmula se repete. É a segunda de três falas seguidas, cada uma introduzida do mesmo modo.
Essa repetição é característica da narrativa hebraica e marca as falas como blocos distintos: ordem, promessa, anúncio.
"Multiplicarei tanto a sua descendência"
O verbo aparece em construção enfática no hebraico, que dobra a raiz para intensificar: multiplicando multiplicarei.
É a mesma construção usada em promessas centrais do Gênesis.
"que não se poderá contá-la, de tão numerosa"
O verbo de contar, numerar. A mesma ideia das estrelas de Gênesis 15 e do pó da terra de Gênesis 13.
Note-se que a promessa é sobre a descendência dela — o texto diz "a tua semente", dirigindo-se a Agar, e não ao filho de Abrão.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O anjo do SENHOR — fala em primeira pessoa e faz uma promessa que só Deus poderia fazer.
Agar — recebe diretamente a promessa de descendência incontável, sem intermediário.
A construção enfática — o hebraico dobra a raiz do verbo: multiplicando multiplicarei.
A ausência de condição — nenhuma exigência de conduta, aliança ou sinal acompanha a promessa.
O paralelo com Abrão — mesma formulação de Gênesis 13:16 e 15:5.
O evento — a única vez em toda a Bíblia em que essa promessa é dita a uma mulher.
5. Pontos de Ensino
É a promessa dos patriarcas. Mesma formulação, mesmo vocabulário.
Dita a uma escrava estrangeira. Fora da linhagem, no deserto, em fuga.
Diretamente a ela. Sem intermediário, sem passar pelo pai da criança.
Em primeira pessoa. "Eu multiplicarei" — não "o SENHOR multiplicará".
Sem nenhuma condição. Não é recompensa por voltar nem exige conduta.
Única em toda a Escritura. Nenhuma outra mulher recebe essa promessa assim.
6. Aspectos Filosóficos
Palavra por palavra, a promessa de Abrão
Vale colocar os textos lado a lado, porque a coincidência é o ponto.
Em Gênesis 13:16, Deus disse a Abrão que faria a sua descendência como o pó da terra, de modo que, se alguém pudesse contar o pó, poderia contar também a descendência.
Em Gênesis 15:5, levou-o para fora e mandou contar as estrelas, se conseguisse — assim seria a sua descendência.
Aqui, junto a uma fonte no deserto, a mesma coisa é dita a Agar: multiplicarei a tua descendência, e não se poderá contá-la.
Mesmo verbo enfático. Mesma imagem da impossibilidade de contar. Mesma estrutura.
O narrador não sublinha a coincidência. Escreve as duas cenas com o mesmo vocabulário e deixa quem lê perceber.
A única mulher
Convém dizer com precisão o que este versículo tem de excepcional, porque é um daqueles dados que passam despercebidos justamente por serem grandes demais.
No Gênesis, a promessa de descendência incontável é feita a Abraão, a Isaque e a Jacó — os três patriarcas.
Aqui é feita a uma quarta pessoa, e essa pessoa é uma mulher.
É preciso somar as condições dela: estrangeira, egípcia, escrava, grávida de um filho que não era considerado dela mas da senhora, fugitiva sem destino.
Não há nada em sua situação que a aproxime dos patriarcas.
E há um detalhe ainda mais notável: a promessa é feita diretamente a ela.
Não ao pai da criança. Não ao dono da casa. Não a Abrão, para que transmitisse.
Naquele mundo, tudo o que dizia respeito a Agar passava por outra pessoa. Ela foi dada, foi entregue, foi disposta, foi afligida — sempre com terceiros decidindo.
Esta é a primeira vez que alguém trata diretamente com ela.
Vale registrar, para não exagerar, que Rebeca receberá em Gênesis 25 uma palavra sobre os gêmeos que carrega. É um caso próximo. Mas a promessa de descendência incontável, na formulação exata dos patriarcas, é dita a uma única mulher em toda a Escritura.
Uma promessa sem contrato
Vale reparar no que não acompanha esta promessa.
Não há exigência de conduta. Não se pede fé, obediência prévia ou mudança de comportamento.
Não há aliança a firmar, como no capítulo 15, nem sinal a cumprir, como será a circuncisão no capítulo 17.
Não há sequer ligação explícita com a ordem do versículo anterior. O texto não diz "volte, e então eu multiplicarei". As duas falas são apresentadas como blocos separados, cada uma com a sua própria fórmula de introdução.
A promessa simplesmente é dada.
Isso merece nota, porque contraria o instinto de leitura que quase todos temos: procurar o mérito, o motivo, a condição preenchida. Aqui não há.
Uma mulher que não orou, não clamou, não fez voto e não prometeu nada recebe a promessa central do livro.
Quem está falando
Este versículo é o ponto em que a questão da identidade do anjo do SENHOR fica mais difícil de contornar.
Ele diz: eu multiplicarei.
Multiplicar descendência de modo incontável não é ação que um mensageiro possa realizar. É promessa que só Deus faz — e nas outras três ocorrências no Gênesis, quem a faz é Deus, sem intermediário.
As leituras já mencionadas no versículo 7 se aplicam aqui, e é este versículo que as torna necessárias.
A primeira: no mundo antigo, um emissário falava na primeira pessoa de quem o enviava. Um mensageiro do rei dizia "eu darei" querendo dizer que o rei daria. Nessa leitura, não há problema algum.
A segunda: trata-se de uma manifestação visível do próprio Deus, e a designação "mensageiro" descreve a função, não uma entidade separada.
A terceira, cristã e posterior, vê aqui uma aparição do Filho antes da encarnação.
As três continuam disponíveis, nenhuma se impõe, e o texto não ajuda a decidir — o versículo 13 vai embaralhar ainda mais, ao dizer que Agar deu nome ao SENHOR que lhe falara.
Prefiro registrar a ambiguidade a resolvê-la. E vale sublinhar que a terceira leitura é construção teológica posterior, e não algo que o Gênesis afirme.
O que aconteceu com essa promessa
Uma observação final, sobre cumprimento.
Ismael terá doze filhos, listados nominalmente em Gênesis 25 — número que evoca o das tribos de Israel.
Deles descenderiam povos do deserto, e a tradição árabe posterior reivindicaria essa linhagem, fazendo de Ismael um ancestral.
Convém, aqui, dizer o que se sabe e o que não se sabe.
O que o texto bíblico afirma é que Ismael teve doze filhos e que a sua descendência foi numerosa. Isso está registrado.
A identificação dessa descendência com povos históricos específicos é questão bem mais complicada, envolve tradições de vários séculos depois, e não pode ser tratada como dado simples.
Registro a promessa e o que o Gênesis diz sobre ela. O resto é assunto que exige cuidado maior do que um comentário de versículo permite.
Três falas, três blocos
Vale observar a construção das falas do anjo, porque ela é deliberada.
São três, e cada uma começa com a mesma fórmula: e disse-lhe o anjo do SENHOR.
Essa repetição não é descuido de estilo. A narrativa hebraica a usa para marcar blocos distintos, como se cada fala fosse um documento separado.
O conteúdo confirma a divisão.
A primeira fala é a ordem: volte e submeta-se.
A segunda é a promessa: multiplicarei a tua descendência.
A terceira é o anúncio: você terá um filho, e o nome dele será Ismael.
Ordem, promessa, anúncio.
Vale reparar no que a separação produz. Se fosse uma fala só, seria natural ler a promessa como consequência da obediência — volte, e então eu multiplicarei.
Separadas, elas não se condicionam. A promessa não é paga pela volta.
Registro isso como leitura da construção, e não como afirmação do texto. O narrador não explica por que dividiu.
O que Abrão não soube
Uma observação que só se percebe lendo adiante.
Esta promessa foi feita a Agar, no deserto, sem testemunhas.
O texto não registra que ela a tenha contado a alguém.
E, em Gênesis 17 — treze anos depois —, Abraão pedirá a Deus que Ismael viva diante dele, como se não soubesse que já havia promessa sobre o menino. Deus então responderá que já ouviu a respeito de Ismael, e repetirá a bênção.
Não é possível afirmar que Abraão desconhecesse. O texto simplesmente não conta o que Agar disse ou deixou de dizer ao voltar.
Mas vale registrar o silêncio: entre este versículo e o capítulo 17, ninguém na casa é informado de nada, ao menos no que o relato registra.
A maior promessa que aquela mulher recebeu ficou, até onde o texto permite ver, entre ela e quem falou com ela.
7. Aplicações Práticas
Dê o melhor que você tem a quem não tem como retribuir
A promessa feita aqui é, palavra por palavra, a que Abrão recebeu. Está sendo dita a uma escrava egípcia em fuga, sem nenhuma condição atrelada — não é recompensa por voltar nem exige conduta.
Nós reservamos o melhor do que temos para quem pode devolver: atenção, tempo, oportunidade, recomendação. É econômico e quase automático.
Escolha uma coisa boa que você costuma reservar para quem lhe é útil — uma indicação, uma hora de conversa, um contato — e ofereça a alguém que não tem como retribuir nada. Repare no seu próprio desconforto ao fazer isso: ele mede exatamente quanto da sua generosidade era troca.
Trate diretamente com a pessoa
Tudo o que dizia respeito a Agar passava por terceiros: ela foi dada, entregue, disposta, afligida, sempre com outros decidindo. Esta é a primeira vez que alguém trata diretamente com ela — e é justamente quando a promessa mais importante é dita.
Fazemos isso o tempo todo: falamos com o chefe sobre o funcionário, com o pai sobre o filho, com o intermediário sobre quem realmente executa.
Da próxima vez que precisar resolver algo que envolva alguém em posição subordinada, fale com essa pessoa. Não sobre ela, não através de quem a comanda. A conversa direta muda a informação que você recebe e muda o que a pessoa se torna capaz de fazer.
Pare de procurar o mérito antes de reconhecer o bem
Não há exigência de conduta aqui, não há aliança a firmar, não há sinal a cumprir. Uma mulher que não orou, não clamou e não prometeu nada recebe a promessa central do livro.
Isso contraria o instinto de leitura que quase todos temos: procurar o motivo, a condição preenchida, a explicação de por que aquela pessoa merecia.
Repare em quantas vezes, ao ver algo bom acontecer a alguém, a sua primeira reação é avaliar se a pessoa merecia. Essa contabilidade é exaustiva, é quase sempre injusta e não muda nada — e a maior parte do que temos também não foi merecida.
Não meça uma pessoa pela posição em que a encontrou
Nada na situação de Agar a aproxima dos patriarcas: estrangeira, escrava, grávida de um filho considerado de outra, fugitiva sem destino. E ela recebe o que só Abraão, Isaque e Jacó receberiam.
A posição em que encontramos alguém é a informação mais disponível e a menos confiável sobre quem essa pessoa é ou virá a ser.
Pense em alguém que você catalogou pela função ou pela fase em que a conheceu — o estagiário, o parente que deu errado, o vizinho sem estudo. Procure saber o que essa pessoa está fazendo agora. O exercício corrige a sua régua mais rápido do que qualquer princípio.
Aceite não saber quem fala
A promessa é feita em primeira pessoa: eu multiplicarei. Multiplicar descendência de modo incontável não é ação que um mensageiro realize — e a figura é chamada de mensageiro do SENHOR. Há três leituras sérias e nenhuma se impõe.
A tentação, ao ensinar, é escolher uma e apresentá-la como certa, porque assim o assunto fica limpo.
Ao explicar algo genuinamente em aberto, apresente as opções e diga que está em aberto. Quem nunca diz "não se sabe" acaba não sendo acreditado nem quando sabe — e as pessoas percebem a diferença mais do que imaginamos.
Diga o que se sabe e pare onde o conhecimento para
O texto afirma que Ismael teve doze filhos e que a sua descendência foi numerosa. A identificação dessa descendência com povos históricos específicos envolve tradições de muitos séculos depois e é questão bem mais complicada.
Boa parte dos conflitos em torno de textos antigos nasce exatamente aí: alguém estende uma afirmação simples até onde ela não alcança, e a discussão passa a ser sobre a extensão, não sobre o texto.
Ao usar qualquer informação para sustentar um argumento, marque onde ela termina. "Isto o documento diz; daqui em diante é interpretação" é uma frase que custa pouco e evita que você acabe defendendo uma construção sua achando que defende uma fonte.
Separe a exigência da promessa
São três falas, cada uma com a mesma fórmula de abertura: ordem, promessa, anúncio. Se fosse uma fala só, seria natural ler a promessa como pagamento pela obediência — volte, e então eu multiplicarei. Separadas, elas não se condicionam.
Nós misturamos as duas coisas com facilidade, sobretudo com quem depende de nós: o afeto vem embutido na exigência, e a criança, o funcionário ou o parceiro aprende que uma coisa compra a outra.
Ao pedir algo difícil a alguém próximo, diga o que você espera e diga separadamente o que não depende disso. Duas frases, e a pessoa passa a saber o que está em jogo e o que não está.
Nem tudo que você recebeu precisa ser contado
Esta promessa foi feita no deserto, sem testemunhas, e o texto não registra que Agar a tenha contado a alguém. Entre este versículo e o capítulo 17, ninguém na casa é informado de nada — ao menos no que o relato mostra.
Nós temos o impulso contrário: o que é significativo precisa ser dito, publicado, validado por alguém.
Algumas coisas se preservam melhor caladas. Se algo importante aconteceu com você e você sente que contar vai transformá-lo em assunto de conversa, guarde. O que é seu não precisa de plateia para ter acontecido.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Essa promessa é a mesma feita a Abrão?
É a mesma formulação. Em Gênesis 13:16 a descendência é como o pó da terra, em 15:5 como as estrelas — sempre com a ideia de que não se pode contar. Aqui, o mesmo verbo enfático e a mesma imagem, ditos a Agar.
Outras mulheres recebem promessa parecida na Bíblia?
Rebeca receberá em Gênesis 25 uma palavra sobre os gêmeos que carrega, e é um caso próximo. Mas a promessa de descendência incontável, na formulação exata dos patriarcas, é dita a uma única mulher em toda a Escritura: Agar.
A promessa foi feita a ela ou ao filho de Abrão?
A ela, diretamente e sem intermediário. O texto diz "a tua semente", dirigindo-se a Agar. Naquele mundo, tudo o que lhe dizia respeito passava por terceiros — esta é a primeira vez que alguém trata diretamente com ela.
A promessa é recompensa por ter voltado?
O texto não faz essa ligação. As falas são apresentadas como blocos separados, cada uma com a sua fórmula de introdução, e não há "volte, e então eu multiplicarei". Não há exigência de conduta, aliança a firmar nem sinal a cumprir.
Por que o anjo fala em primeira pessoa?
É aqui que a questão da identidade fica mais aguda, porque multiplicar descendência incontável é promessa que só Deus faz. As leituras são três: um emissário falando com a voz de quem o enviou, prática comum no mundo antigo; uma manifestação visível do próprio Deus; ou, em leitura cristã posterior, o Filho antes da encarnação. Nenhuma se impõe.
Essa promessa se cumpriu?
Ismael terá doze filhos, listados nominalmente em Gênesis 25 — número que evoca o das tribos de Israel —, e o texto registra descendência numerosa. A identificação dessa descendência com povos históricos específicos envolve tradições de séculos depois e é questão bem mais complicada, que não cabe tratar como dado simples.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 13:16 — E farei a tua semente como o pó da terra; de maneira que se alguém puder contar o pó da terra, também a tua semente será contada.
A mesma promessa a Abrão, com a mesma imagem de impossibilidade de contagem.
Gênesis 15:5 — Conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua semente.
A promessa do capítulo anterior, formulada do mesmo modo.
Gênesis 17:20 — E quanto a Ismael, também te tenho ouvido: eis que o tenho abençoado... e doze príncipes gerará.
A confirmação posterior da promessa, agora dita a Abraão.
Gênesis 25:12-16 — Estas são as gerações de Ismael... doze príncipes segundo as suas famílias.
O registro do cumprimento, com os doze filhos nomeados.
Gênesis 22:17 — Que multiplicando multiplicarei a tua semente.
A mesma construção verbal enfática, dita a Abraão no monte.
Gênesis 21:18 — Levanta-te, ergue o menino... porque dele farei uma grande nação.
A promessa repetida a Agar, anos depois, no segundo encontro.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Disse-lhe ainda o anjo do SENHOR: "Multiplicarei tanto a sua descendência, que não se poderá contá-la, de tão numerosa."
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר לָהּ מַלְאַךְ יְהוָה הַרְבָּה אַרְבֶּה אֶת־זַרְעֵךְ וְלֹא יִסָּפֵר מֵרֹב
Transliteração
wa-yómer lah mal'akh YHWH harbá arbé et-zar'ékh we-lo yissafer me-rov
Palavra por palavra
הַרְבָּה אַרְבֶּה (harbá arbé) — "multiplicando multiplicarei"
Aqui está a construção mais característica do versículo.
O hebraico dobra a raiz do verbo — infinitivo absoluto seguido do verbo conjugado — para intensificar. É um recurso de ênfase sem equivalente direto em português, e as traduções costumam resolvê-lo com advérbios: multiplicarei grandemente, multiplicarei sobremaneira.
Vale registrar onde mais essa exata construção aparece: em Gênesis 22:17, quando Deus jura a Abraão no monte Moriá, e em Gênesis 3:16, num contexto bem diferente.
Não é fórmula banal. É linguagem de juramento.
אֶת־זַרְעֵךְ (et-zar’ékh) — "a tua semente"
O substantivo zéra significa semente, e por extensão descendência. É a palavra que atravessa o Gênesis inteiro, desde a promessa de Gênesis 3:15.
O sufixo é de segunda pessoa feminina. É a descendência dela.
Isso merece atenção. Nas ocorrências anteriores, a palavra vinha com sufixo masculino, dirigida a Abrão.
Aqui a promessa é formulada sobre a descendência de uma mulher — e de uma mulher que, pelo arranjo do versículo 2, deveria ser apenas o meio pelo qual outra teria filhos.
Sarai dissera: talvez eu seja edificada a partir dela.
O anjo diz: a tua semente.
וְלֹא יִסָּפֵר (we-lo yissafer) — "e não será contada"
O verbo é o de contar, numerar, e está na voz passiva.
É a mesma raiz usada em Gênesis 15:5 sobre as estrelas — conta as estrelas, se as podes contar — e em Gênesis 13:16 sobre o pó da terra.
מֵרֹב (me-rov) — "de tanta abundância"
O substantivo significa multidão, abundância, grande quantidade. A preposição indica causa: não poderá ser contada por causa da quantidade.
A construção é econômica e forte: a impossibilidade de contar não vem de dificuldade técnica, mas do próprio tamanho.
Nota — a semente dela
Vale fechar insistindo no sufixo feminino, porque ele é o detalhe mais silencioso e mais radical do versículo.
Todo o arranjo do capítulo 16 se baseia numa premissa jurídica: o filho de Agar não seria de Agar.
Era esse o sentido do costume registrado no código de Hamurabi e nos contratos da época. A serva gerava; a criança era contada como da esposa.
Sarai formulou isso com exatidão no versículo 2: talvez eu seja edificada a partir dela. A construção seria de Sarai; Agar era o material.
Aqui, junto a uma fonte no deserto, alguém diz a essa mulher: a tua semente.
Não a de Sarai. Não a de Abrão. A dela.
O texto não discute a validade do costume, não declara nulo o arranjo, não critica ninguém.
Apenas usa um sufixo — e, com ele, atribui a Agar aquilo que a lei da época atribuía a outra pessoa.
Quem lê em hebraico ouve. Quem lê em tradução, quase sempre, não.
11. Conclusão
Vale colocar os textos lado a lado, porque a coincidência é o ponto.
Em Gênesis 13:16, Deus disse a Abrão que faria a sua descendência como o pó da terra, impossível de contar. Em Gênesis 15:5, mandou-o contar as estrelas, se conseguisse. Aqui, junto a uma fonte no deserto, a mesma coisa é dita a Agar — mesmo verbo enfático, mesma imagem, mesma estrutura. O narrador não sublinha a coincidência: escreve as duas cenas com o mesmo vocabulário e deixa quem lê perceber.
Convém dizer com precisão o que isso tem de excepcional. No Gênesis, a promessa de descendência incontável é feita a Abraão, a Isaque e a Jacó — os três patriarcas. Aqui é feita a uma quarta pessoa, e essa pessoa é uma mulher estrangeira, egípcia, escrava, grávida de um filho que não era considerado dela, fugitiva sem destino.
E é feita diretamente a ela. Não ao pai da criança, não ao dono da casa, não a Abrão para que transmitisse. Naquele mundo, tudo o que dizia respeito a Agar passava por terceiros: ela foi dada, entregue, disposta, afligida. Esta é a primeira vez que alguém trata diretamente com ela.
Vale também reparar no que não acompanha a promessa. Não há exigência de conduta, aliança a firmar nem sinal a cumprir. Não há sequer ligação explícita com a ordem do versículo anterior — o texto não diz "volte, e então eu multiplicarei". As falas são blocos separados. A promessa simplesmente é dada, a alguém que não orou, não clamou e não prometeu nada.
Este é também o ponto em que a questão da identidade do anjo fica mais difícil de contornar: ele diz eu multiplicarei, e multiplicar descendência de modo incontável é promessa que só Deus faz. As três leituras seguem disponíveis — emissário falando com a voz de quem o enviou, manifestação visível do próprio Deus, ou, em leitura cristã posterior, o Filho antes da encarnação. Nenhuma se impõe, e o versículo 13 vai embaralhar ainda mais.
Há, por fim, um detalhe silencioso e radical no hebraico. O sufixo de "semente" é feminino: a semente dela. Todo o arranjo do capítulo se baseava na premissa jurídica de que o filho de Agar não seria de Agar — era esse o sentido do costume registrado no código de Hamurabi. Sarai formulou isso com exatidão: talvez eu seja edificada a partir dela. A construção seria de Sarai; Agar era o material.
Aqui, alguém diz a essa mulher: a tua semente. O texto não discute a validade do costume nem declara nulo o arranjo. Apenas usa um sufixo — e, com ele, atribui a Agar aquilo que a lei da época atribuía a outra pessoa.













