Aos quarenta anos, Esaú tomou por mulheres Judite, filha de Beeri, o heteu, e Basemate, filha de Elom, o heteu.
1. Introdução
Com quarenta anos, Esaú tomou duas mulheres de uma vez. Os nomes são Judite e Basemate. As duas eram filhas de homens heteus — cananeias autóctones, da gente que a família havia sido instruída a evitar.
Três detalhes do versículo carregam peso que a leitura rápida não capta: a idade de quarenta anos é a mesma que Isaque tinha quando casou com Rebeca; as duas mulheres são tomadas simultaneamente, o que é novo na linha patriarcal; e os pais delas são heteus, que não são os hititas históricos da Anatólia, mas o nome que o Gênesis usa para cananeias locais. Cada um desses detalhes aponta para uma diferença entre Esaú e a linha dos patriarcas que o texto não comenta, mas espera que o leitor veja.
O versículo não conecta essas escolhas ao que virá no capítulo seguinte. Mas coloca o material necessário para que o leitor, ao chegar ao capítulo 27, entenda parte do que está acontecendo.
2. Contexto Histórico e Cultural
Os "heteus" do Gênesis e os hititas históricos
O termo "heteu" no Gênesis não designa os hititas históricos da Anatólia — o poderoso império do Bronze Tardio cujos vestígulos foram descobertos em Hatusa (Turquia moderna) e cujos tratados em cuneiforme são dos mais estudados na arqueologia do Oriente Próximo. Os hititas históricos estavam sediados na Anatólia central e raramente penetraram até a região de Berseba ou Hebron.
Os "heteus" do Gênesis são um dos grupos cananeios autóctones da lista de povos que habitavam a terra antes de Israel (Gênesis 15:20; Êxodo 3:8). Na estrutura do Gênesis, "heteu" funciona como designação genérica para populações locais estabelecidas — o tipo de gente de que a família de Abraão deveria se distanciar para preservar a identidade da linhagem. Efrom, que vende Macpela a Abraão em Gênesis 23, é heteu — habitante de Hebron, não imigrante da Anatólia.
A distinção é importante porque leituras que identificam esses heteus com o Império Hitita enfrentam dificuldades cronológicas e geográficas significativas. A sobreposição dos nomes provavelmente resultou de um uso ampliado — quem organizou o texto usou "heteu" como o nome de povo que o leitor de sua época associava a cananeios, independentemente da relação com os hititas históricos.
O padrão patriarcal de casamento endogâmico
O Gênesis estabelece, desde Abraão, uma preferência clara por casamentos dentro da linhagem — ou ao menos fora dos cananeios locais. Abraão obrigou o servo a jurar que não tomaria mulher cananeia para Isaque (Gênesis 24:3). Quando chegasse a hora de Jacó casar, Isaque e Rebeca o enviariam a Padã-Arã, para a família de Labão (Gênesis 28:1-2). O motivo declarado é explicitamente a reprovação das mulheres locais.
Esaú viola esse padrão duplamente: casa com cananeias (as heteias) e casa com duas ao mesmo tempo. Ismael, filho de Abraão por Agar, havia casado com uma egípcia — fora da linha, mas não com cananeia local. Esaú é o primeiro da linha direta dos patriarcas a fazer o que Abraão proibiu expressamente.
Poligamia na linha patriarcal: o que havia antes
Abraão teve Sara e depois Quetura, além de Agar (filha de escravo com função de esposa secundária). Mas Sara morreu antes de Quetura entrar na história — não houve poligamia simultânea documentada, a menos que o casamento com Quetura seja anterior à morte de Sara, o que o texto deixa em aberto. Isaque teve apenas Rebeca. Esaú é o primeiro da linha direta a tomar duas mulheres simultaneamente — e o texto registra os dois nomes na mesma frase, como se fossem um único ato.
3. Análise Teológica do Versículo
"Aos quarenta anos"
A idade de Esaú ao casar é a mesma de Isaque ao casar com Rebeca (Gênesis 25:20). O paralelismo é intencional — o Gênesis não é impreciso com números quando eles têm função narrativa. Os quarenta anos colocam Esaú na mesma posição etária que o pai, mas com resultado oposto: onde Isaque tomou uma mulher da família estendida, Esaú tomou duas mulheres da terra proibida.
A comparação implícita não precisa ser verbalizada pelo texto para funcionar. O leitor que lembra Gênesis 25:20 vê a inversão. Quem não lembra, vê apenas um número de idade. O texto pressupõe o leitor atento.
"Esaú tomou por mulheres"
O verbo "tomar" é o mesmo da fórmula padrão de casamento no hebraico bíblico, usado nos versículos patriarcais anteriores. O que é novo é o plural: Esaú "tomou mulheres" — não uma mulher. O texto lista as duas na mesma frase, sob o mesmo verbo, como um único ato. Isso é diferente de Abraão, que tomou Sara como esposa principal e depois teve Agar em circunstâncias distintas. Esaú inaugura o casamento simultâneo com duas mulheres dentro da linha de Isaque.
"Judite, filha de Beeri, o heteu, e Basemate, filha de Elom, o heteu"
As duas mulheres têm pais heteus. A estrutura das apresentações é paralela: nome da mulher, nome do pai, identificação étnica do pai. Isso é diferente do modo como o Gênesis apresenta as mulheres das quais aprova — Rebeca vem com genealogia de quatro gerações (Gênesis 22:23-24) e um capítulo inteiro de busca. Judite e Basemate vêm apenas com o nome do pai e a marca "heteu".
O nome Judite é ironicamente próximo de "Judá", que ainda não existe como nome de tribo no tempo da narrativa. A ironia, se é intencional, seria de quem organizou o texto sabendo o que viria depois. Não é possível afirmar que o nome foi escolhido por esse jogo.
Basemate significa provavelmente "perfumada" — nome da mesma família de sentido que Quetura, a mãe de seis filhos de Abraão, cujo nome remete ao incenso. O nome não é raro; aparece também em Gênesis 36:3 para outra mulher de Esaú — diferente desta. Em Gênesis 36, a lista de mulheres de Esaú tem outras duas nomeadas, o que cria um problema de harmonização interno que o texto também não resolve.
A marca "heteu" sobre os pais não é detalhe decorativo. No contexto de Gênesis 24:3 — onde Abraão obrigou o servo a jurar que não tomaria mulher "das filhas dos cananeios" para Isaque — os heteus são exatamente o tipo de gente que a família havia sido instruída a evitar. Esaú fez o que o avô expressamente proibiu para o pai. E fez duas vezes, no mesmo ato.
O texto não diz que Esaú errou, não o condena, não oferece avaliação. Registra os fatos e passa ao versículo seguinte. A avaliação está implícita no contraste com o padrão estabelecido — e o versículo seguinte a tornará impossível de ignorar.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Esaú
Primogênito de Isaque e Rebeca, gêmeo de Jacó. O capítulo 25 já havia narrado a venda da primogenitura por um prato de lentilhas (Gênesis 25:29-34) — o texto diz explicitamente que Esaú "desprezou a primogenitura". Aqui, ele toma mulheres heteias. No capítulo 27 ele perderá a bênção do pai para Jacó, por articulação de Rebeca. A trajetória de Esaú no Gênesis é a de escolhas que o afastam da linha da promessa, e o texto regista cada uma sem julgamento explícito.
Judite, filha de Beeri
Aparece apenas aqui no Gênesis. Beeri é seu pai, identificado como heteu. O nome Beeri significa "meu poço" ou "pertencente ao poço" — um nome comum no mundo semítico antigo. Um profeta chamado Beeri é mencionado em Oseias 1:1 como pai do próprio Oseias, mas não há relação com este personagem.
Basemate, filha de Elom
Aparece aqui e em Gênesis 36:2, onde uma Basemate é listada como mulher de Esaú com pai diferente — ali é filha de Ismail (Ismael). A discrepância entre as listas de Gênesis 26-28 e Gênesis 36 é notada pelos estudiosos e não tem harmonização simples. Elom, pai desta Basemate, é heteu. Em Gênesis 36:2 a mesma posição na lista é ocupada por Ada, filha de Elom, o que adiciona outra variação. Provavelmente as listas derivam de tradições diferentes sobre as mulheres de Esaú.
Os heteus do Gênesis
Um dos sete povos listados como habitantes de Canaã antes de Israel (Gênesis 15:20; Deuteronômio 7:1). Na narrativa patriarcal, os heteus aparecem em Hebron (Efrom, vendedor da caverna de Macpela, em Gênesis 23) e aqui em Berseba ou arredores. São cananeios locais na terminologia do Gênesis, sem relação necessária com o Império Hitita da Anatólia.
5. Pontos de Ensino
1. A idade de quarenta anos é paralelo intencional com Isaque em Gênesis 25:20. Mesmo número, resultado oposto: onde Isaque casou com Rebeca da família estendida, Esaú casou com duas mulheres heteias locais.
2. Esaú inaugura o casamento simultâneo com duas mulheres na linha direta. Abraão e Isaque não tiveram esposas simultâneas no sentido estrito. Esaú é o primeiro da linha a tomar duas em um único ato. Isso não é comentado, mas registrado.
3. Os "heteus" do Gênesis não são os hititas históricos da Anatólia. São cananeios locais, parte dos povos que habitavam Canaã. A confusão com o Império Hitita é anacronismo geográfico — similar ao uso de "filisteus" no versículo 1 para populações do sul de Canaã antes da chegada histórica dos filisteus.
4. Esaú faz o que Abraão proibiu para Isaque. Gênesis 24:3 é o juramento que proíbe mulher cananeia para a linha de Isaque. Judite e Basemate são filhas de heteus — cananeias. A violação é direta, e o texto não a sinaliza com palavras de reprovação.
5. Os nomes das mulheres de Esaú diferem entre Gênesis 26 e Gênesis 36. As listas provavelmente derivam de tradições distintas. O texto não harmoniza.
6. O versículo prepara, mas não desenvolve, o que vem no capítulo seguinte. A amargura dos sogros (versículo 35) e a conspiração de Rebeca para redirecionar a bênção (capítulo 27) têm raiz no que Esaú fez aqui. O versículo planta, o capítulo 27 colhe.
6. Aspectos Filosóficos
Kierkegaard descreveu dois tipos de repetição em sua obra A Repetição (1843): a repetição que é mera imitação mecânica do passado e a repetição que é recuperação autêntica de algo essencial. O que Esaú faz no versículo 34 é, sob esse ângulo, uma anti-repetição: ele tem a mesma idade que Isaque tinha ao casar, mas faz algo radicalmente diferente.
O paralelismo dos quarenta anos coloca a questão com precisão: na mesma fase da vida, diante da mesma decisão fundamental do casamento, o pai escolheu dentro do padrão da linhagem e o filho escolheu fora. A repetição do número denuncia a diferença das escolhas. Kierkegaard diria que Isaque repetiu a tradição no sentido autêntico — assumiu o compromisso que a linhagem exigia. Esaú, na mesma posição, rompeu com ela.
Há uma questão mais ampla que o versículo coloca e que Kierkegaard não teria negado: o que legitima a tradição que se transmite? A exogamia dos patriarcas — casamento fora dos cananeios locais — era prática com função de preservação de identidade. Mas do ponto de vista do próprio Esaú, que havia crescido em Canaã, caçava em Canaã, vendia sua primogenitura por comida cananeia — por que Judite e Basemate seriam escolhas piores do que mulheres de Padã-Arã, a quem ele nunca foi?
O texto não responde essa pergunta pelo ângulo de Esaú. Responde pelo ângulo da linhagem — e pelo ângulo da linhagem, as escolhas de Esaú são disruptivas. Mas registrar que o texto responde só de um lado não é deslealdade ao texto: é o que o texto de fato faz.
Platão, na República, discutiu como o caráter é formado pela educação e pelos hábitos desde cedo — a ideia de que o jovem que cresce num ambiente não se torna filósofo-rei facilmente. Esaú cresceu como caçador, em relação com o campo e com os habitantes locais. O casamento com mulheres heteias é, nessa leitura, menos uma escolha moral e mais o resultado de quem ele se tornou pelo modo de vida que desenvolveu. O texto já havia sinalizado isso em Gênesis 25:27: "Esaú era hábil na caça, homem do campo."
O que o versículo não autoriza é nem a condenação rápida de Esaú nem a sua absoluta justificativa. O texto registra o ato, registra a perturbação que ele causou nos pais, e passa adiante.
7. Aplicações Práticas
O filho que faz o oposto do que os pais ensinaram
Isaque cresceu vendo o avô — ou ouvindo a história de como o avô — obrigou um servo a jurar que não tomaria mulher cananeia para seu filho. O próprio Isaque recebeu Rebeca de Padã-Arã com toda a cerimônia de um capítulo inteiro. E ainda assim, seu filho primogênito casou duas vezes com mulheres do tipo que o avô proibiu.
Isso acontece. O padrão transmitido pela família nem sempre sobrevive à geração seguinte, especialmente quando o filho viveu de modo diferente do pai. Esaú era homem do campo, caçador, integrado ao ambiente cananeu de uma forma que Isaque não era. O casamento com heteias não veio do nada — foi o resultado natural de uma vida inteira de imersão no contexto que a família tentava manter à distância.
A aplicação direta é incômoda: transmissão de valores não é garantida pela intenção de quem transmite. Depende também do ambiente em que o filho viveu, das relações que ele formou e das escolhas que ele fez ao longo do caminho. A decisão de Esaú aos quarenta anos foi preparada por décadas de vida como caçador, não por uma única escolha autônoma.
Quando as escolhas do filho afetam a família inteira
O versículo 35 dirá que as noras foram "amargura de espírito" para Isaque e Rebeca. As consequências das escolhas matrimoniais de Esaú não ficaram confinadas a ele — transbordaram para a dinâmica da família ampliada, onde todos habitavam juntos ou em proximidade imediata. Isso é diferente do modelo contemporâneo de família nuclear, onde os sogros têm papel mais periférico.
No contexto patriarcal, trazer uma esposa para a família significava trazer alguém para dentro da tenda ampliada — com tudo o que isso implica em termos de convivência diária, de afiliação religiosa e de costumes. Duas mulheres de costumes heteus na estrutura familiar de Isaque e Rebeca não era algo que se ignorava facilmente.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Esaú casou com mulheres heteias se sabia que a família desaprovava esse tipo de casamento?
O texto não oferece razão. Não descreve o estado interior de Esaú, não relata se ele sabia da proibição de Abraão, não conta como conheceu Judite e Basemate. O Gênesis habitualmente não explica as motivações dos personagens — registra o que fizeram e os resultados. O que se pode dizer é que Esaú era "homem do campo" (Gênesis 25:27), vivia de caça no território cananeu, e estava completamente integrado ao ambiente que a família tentava manter à distância. O casamento com mulheres heteias é o resultado natural dessa integração, não necessariamente uma decisão deliberada de contradizer os pais.
Os nomes das mulheres de Esaú são diferentes em Gênesis 26 e em Gênesis 36. Qual está certo?
Provavelmente derivam de tradições distintas que o Gênesis preservou sem harmonizar. Gênesis 36 é uma lista genealógica elaborada dos descendentes de Esaú, e listas genealógicas antigas frequentemente refletem tradições diferentes de um mesmo material. Não há erro de cópia óbvio — as variações são substanciais o suficiente para sugerir fontes diferentes. O texto final preservou as duas sem explicar a discrepância.
Esaú tinha o direito de escolher com quem casar?
No mundo patriarcal do segundo milênio a.C., o casamento era negociado pelas famílias, não decidido unilateralmente pelo noivo — em geral o pai tinha papel determinante. O fato de que Esaú casou sem que o texto mencione a aprovação de Isaque sugere que ele agiu por conta própria, o que também é incomum para o padrão descrito no Gênesis. Rebeca foi consultada (Gênesis 24:58); Jacó será enviado com instruções de Isaque (Gênesis 28:1-2). Esaú simplesmente casou. O contraste com os cuidados do capítulo 24 é notável, e o texto não o comenta.
O nome Judite em Gênesis 26:34 tem alguma relação com Judá ou com a tribo de Judá?
O nome Judite (Yehudith) vem da mesma raiz que Judá (Yehudah), mas Judá como nome de tribo ainda não existia na época da narrativa — Judá era bisneto de Isaque. A coincidência de nomes é provavelmente irônica do ponto de vista do compositor do texto, que sabia o que viria, mas não pode ser afirmada como jogo de palavras intencional com certeza. O texto não faz a ligação.
9. Conexão com Outros Textos
A proibição do casamento com cananeia, na voz de Abraão
Gênesis 24:3 — "E te conjuro pelo SENHOR, Deus dos céus e Deus da terra, que não tomarás mulher para meu filho das filhas dos cananeios, no meio dos quais habito." O juramento que Esaú ignora.
Isaque com quarenta anos ao casar com Rebeca
Gênesis 25:20 — "E Isaque tinha quarenta anos quando tomou Rebeca por mulher." O paralelo dos quarenta anos que o versículo 34 retoma com resultado oposto.
Esaú como homem do campo, antes desta cena
Gênesis 25:27 — "E cresceram os meninos, e Esaú foi homem entendido na caça, homem do campo; e Jacó era homem simples, que habitava em tendas." O personagem que faz escolhas heteias foi formado por décadas de vida integrada ao campo cananeu.
Os heteus na lista de povos de Canaã
Gênesis 15:20 — "E os heteus, e os ferezeus, e os refains." Um dos sete povos listados que habitavam Canaã — a terra que Israel deveria tomar.
Êxodo 3:8 — "E vim para livrá-los da mão dos egípcios, para os fazer subir daquela terra a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel, ao lugar dos cananeios, e dos heteus." Confirmação de que "heteu" é nome de povo cananeu na perspectiva do Antigo Testamento.
Efrom, o heteu de Hebron — heteus em Canaã, não na Anatólia
Gênesis 23:10 — "E Efrom estava assentado entre os filhos de Hete." Efrom é heteu de Hebron — filho de Hete, como os filhos de Beeri e Elom seriam. Os heteus do Gênesis habitam Canaã.
Jacó enviado para não repetir o erro de Esaú
Gênesis 28:1-2 — "E chamou Isaque a Jacó, e o abençoou, e lhe mandou, e disse: Não tomes mulher das filhas de Canaã. Levanta-te, vai a Padã-Arã." A instrução explícita que o próprio Esaú nunca recebeu — ou recebeu e ignorou.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Aos quarenta anos, Esaú tomou por mulheres Judite, filha de Beeri, o heteu, e Basemate, filha de Elom, o heteu.
Texto hebraico
וַיְהִי עֵשָׂו בֶּן־אַרְבָּעִים שָׁנָה וַיִּקַּח אִשָּׁה אֶת־יְהוּדִית בַּת בְּאֵרִי הַחִתִּי וְאֶת־בָּשְׂמַת בַּת אֵילֹן הַחִתִּי
Transliteração
wa-yehi Esav ben-arba'im shanah wa-yiqqach ishah et-Yehudith bat Be'eri ha-Chitti we-et-Basemat bat Eilon ha-Chitti
Análise palavra por palavra
וַיְהִי עֵשָׂו — wa-yehi Esav, "e foi Esaú" ou "e tinha Esaú". Verbo hayah na forma consecutiva, com Esaú como sujeito. A construção introduz uma circunstância de estado — "e Esaú era" ou "e quando Esaú tinha".
בֶּן־אַרְבָּעִים שָׁנָה — ben-arba'im shanah, "filho de quarenta anos". Ben ("filho") em estado construto com a expressão de idade é a fórmula hebraica para "com X anos de idade". Arba'im é "quarenta"; shanah é "ano". A mesma fórmula usada em Gênesis 25:20 para Isaque ao casar com Rebeca — a coincidência dos quarenta anos é marcada pela mesma construção gramatical.
וַיִּקַּח אִשָּׁה — wa-yiqqach ishah, "e tomou mulher". O verbo padrão do casamento no hebraico bíblico — o mesmo de Gênesis 24:67 (Isaque toma Rebeca) e de Gênesis 25:1 (Abraão toma Quetura). A diferença aqui é que ishah está no singular, mas vêm dois nomes a seguir — o versículo descreve dois casamentos como um único ato.
אֶת־יְהוּדִית — et-Yehudith, Judite. A partícula et marca o objeto direto definido. Yehudith é nome feminino derivado da raiz y-h-d, que mais tarde fundamentará o nome Yehudah ("Judá") e o nome pelo qual o povo será designado. Na época da narrativa, o nome não teria esse peso — mas quem organizou o texto sabendo da tribu de Judá pode ter visto a ironia.
בַּת בְּאֵרִי — bat Be'eri, "filha de Beeri". Bat ("filha") em estado construto com o nome do pai. Be'eri significa "meu poço" — nome comum no mundo semítico.
הַחִתִּי — ha-Chitti, "o heteu". Adjetivo de origem, formado de Chet (Hete), o antepassado que dá nome aos heteus no Gênesis (Gênesis 10:15; 23:3). O artigo definido o qualifica como membro do grupo. Chitti é a forma hebraica que aparece em toda a Bíblia para esse grupo — e que foi equivocadamente identificado com os hititas históricos da Anatólia quando as descobertas de Hatusa se tornaram conhecidas no século XIX.
וְאֶת־בָּשְׂמַת — we-et-Basemat, "e a Basemate". A conjunção we ("e") introduz a segunda mulher. Basemate — Basemat — vem da raiz b-s-m, "aromatizar, perfumar". O nome significa algo como "perfumada" ou "aromática".
בַּת אֵילֹן הַחִתִּי — bat Eilon ha-Chitti, "filha de Elom, o heteu". A mesma estrutura da apresentação de Judite. Eilon significa "árvore robusta, carvalho, terebinto" — nome comum no mundo cananeu. Tanto Beeri quanto Elom são heteus — cananeios locais, da categoria que Abraão havia proibido para a linha de Isaque.
A estrutura do versículo e o que ela faz
O versículo coloca dois casamentos numa única frase, com estrutura paralela. A simetria formal sugere simultaneidade ou proximidade imediata: Esaú tomou Judite e Basemate como um único gesto. Essa justaposição num só versículo não é equivalente ao modo como Abraão e Sara foram apresentados (capítulos inteiros), nem ao modo como Isaque e Rebeca foram (um capítulo inteiro). Os dois casamentos de Esaú cabem numa linha, e isso é dado narrativo: não é vida que o texto quer narrar.
11. Conclusão
O versículo encerra a cena de Berseba e abre a que causará a crise do capítulo seguinte — mas o faz em silêncio. Sem julgamento, sem avaliação, sem explicação. Dois casamentos proibidos pela prática da linhagem, com duas mulheres do tipo que o avô havia expressamente excluído do escopo permitido para seu filho. Registrados em paralelo, numa frase.
O paralelo dos quarenta anos com Isaque é o dado mais carregado. Mesma idade, decisão oposta. Onde Isaque recebeu Rebeca de Padã-Arã, precedida por um capítulo inteiro de negociação e viagem, Esaú tomou Judite e Basemate de onde estava — da gente do campo cananeu em que havia passado a vida. A escolha não veio do nada: veio de décadas de vida como homem do campo, integrado ao ambiente que a família tentava manter à distância.
Os heteus aqui não são os hititas históricos da Anatólia — são cananeios locais, o tipo de povo que a lista de Gênesis 15:20 classifica como habitantes da terra a ser tomada. A confusão entre os dois grupos é anacronismo geográfico, semelhante ao uso de "filisteus" no versículo 1 deste mesmo capítulo. O que o texto marca com "heteu" é pertencimento local — Esaú casou dentro do ambiente que proibira o avô.
O texto não desenvolve as consequências aqui. Mas o versículo seguinte dará a consequência imediata, e o capítulo 27 dará a consequência de longo prazo. O versículo 34 planta; o resto colhe.













