Esaú tomou as suas mulheres dentre as filhas de Canaã: Ada, filha de Elom, o heteu, e Oolibama, filha de Aná, filha de Zibeão, o heveu;
1. Introdução
A lista começa pelas mulheres, e começa com um problema.
Gênesis já havia informado, em dois lugares diferentes, com quem Esaú se casou. Aqui informa de novo — e os nomes não coincidem. Nem os das mulheres, nem os dos pais delas.
Não é detalhe escondido em nota de rodapé de especialista. É uma das divergências internas mais conhecidas do livro, discutida por comentaristas judeus e cristãos há mais de mil anos, e este versículo é onde ela aparece. O item 3 trata dela por inteiro.
Antes disso, o versículo traz três informações que valem por si.
A primeira é "dentre as filhas de Canaã". A frase resume, em quatro palavras, tudo o que a família achava errado nos casamentos de Esaú. Abraão tinha feito o servo jurar que não tomaria mulher cananeia para Isaque, em Gênesis 24:3. Rebeca dissera que a vida lhe seria insuportável se Jacó fizesse o mesmo, em Gênesis 27:46.
A segunda é a filiação de cada mulher. Não basta o nome: vem o pai, e vem o povo. Numa genealogia, essa é a informação que dá validade ao registro.
A terceira é a menção a dois povos de Canaã, os heteus e os heveus — e, no caso dos heveus, uma dúvida de leitura que atravessa o capítulo inteiro.
2. Contexto Histórico e Cultural
Com quem se casava um filho de patriarca
A família de Abraão tinha uma regra de casamento, e ela é dita em voz alta duas vezes.
Em Gênesis 24:3-4, Abraão faz o servo jurar: não tomarás mulher para meu filho das filhas dos cananeus, mas irás à minha terra e à minha parentela. Em Gênesis 28:1-2, Isaque repete a instrução a Jacó, com as mesmas palavras, e o manda a Padã-Arã, à casa de Betuel.
O princípio é o de casar dentro do grupo. Não é invenção dessa família: sociedades organizadas por clã costumam preferir o casamento com parente, e por razões práticas. A mulher entra na casa do marido, e com ela entram os deuses, os costumes e as alianças da casa de origem. Casar fora é misturar patrimônios e lealdades.
Vale notar o que o texto não diz. Gênesis não apresenta a proibição como regra religiosa formulada — isso só vem depois, em Deuteronômio 7:3-4, com a razão explícita de que a mulher estrangeira desviaria o filho para outros deuses. Aqui é decisão de família, não lei.
O que Esaú fez
Ele casou fora, e o texto registra a reação.
Gênesis 26:34-35 diz que ele tomou duas mulheres heteias aos quarenta anos, e acrescenta uma frase seca: "elas foram amargura de espírito para Isaque e para Rebeca". É uma das poucas vezes em Gênesis em que o texto informa o estado emocional dos pais diante de uma escolha do filho.
Depois disso, em Gênesis 28:6-9, Esaú percebe que Jacó foi mandado buscar mulher na parentela justamente para não casar com cananeia — e reage. Vai a Ismael e toma mais uma mulher, filha do tio, "além das mulheres que já tinha". É um gesto de correção parcial: ele casa dentro da família de Abraão, mas pelo ramo que também tinha sido posto de lado.
O resultado é que Esaú fica com mulheres de dois mundos ao mesmo tempo — o de Canaã e o de Ismael. Este versículo e o seguinte registram exatamente isso.
Ter mais de uma mulher
Gênesis não trata a poligamia como assunto. Registra e segue.
Lameque, em Gênesis 4:19, tem duas. Abraão tem Sara e Agar. Jacó tem Lia e Raquel, mais Bila e Zilpa. Esaú tem três. Em nenhum desses casos o texto emite juízo — o que faz é mostrar as consequências, sempre: Sara e Agar terminam em expulsão, Lia e Raquel vivem em disputa aberta ao longo de Gênesis 29 e 30.
No mundo daquele tempo, várias mulheres era coisa de quem podia sustentá-las. Casamento múltiplo era sinal de posição e, muitas vezes, instrumento de aliança: cada mulher trazia consigo um vínculo com outra casa. As três mulheres de Esaú ligam-no aos heteus, aos heveus e à casa de Ismael.
Quem eram os heteus de Canaã
Aqui é preciso desfazer uma confusão comum.
O nome que as traduções vertem por "heteu" designa, nos textos assírios e egípcios, o grande império da Anatólia — a atual Turquia —, que rivalizou com o Egito e desapareceu por volta de 1200 a.C. Não é disso que Gênesis fala.
Os heteus de Gênesis são um grupo local, morador de Canaã, e o livro os apresenta em Gênesis 23, quando Abraão compra deles o campo de Macpela para sepultar Sara. São gente com quem se negocia, se discute preço e se fecha contrato diante de testemunhas.
Como os dois usos do nome se relacionam é assunto em aberto. Pode haver um grupo aparentado que descia para o sul, pode ser coincidência de nome, pode ser uso amplo do termo para populações do norte. Não há consenso, e a arqueologia não fechou a questão.
Quem eram os heveus
Menos se sabe deles, e o pouco que se sabe vem de aparições espalhadas.
Os heveus figuram nas listas de povos de Canaã, como em Êxodo 3:8 e Deuteronômio 7:1. Aparecem em Siquém, em Gênesis 34:2, onde Hamor é chamado de heveu. Aparecem em Gibeão, em Josué 9:7, onde os habitantes enganam Josué para conseguir tratado de paz. E aparecem no norte, ao pé do Hermom, em Josué 11:3.
Neste versículo, porém, o nome levanta um problema de leitura. Zibeão é chamado de heveu aqui; mas o versículo 20 deste mesmo capítulo apresenta a família de Seir como horeus, e o versículo 24 põe Aná e Zibeão dentro dela. Ou seja: o mesmo homem aparece como heveu num versículo e como horeu em outro, a poucas linhas de distância.
Em hebraico os dois nomes se parecem muito, e Ellicott (comentário bíblico inglês do século XIX, dirigido por Charles Ellicott) observa que confusão de letras em nomes próprios é das coisas mais frequentes na cópia de textos antigos. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) considera que se deve ler "horeu". É a explicação mais econômica, mas não é demonstrável — e alguns preferem supor que os dois nomes designavam grupos que de fato se sobrepunham na região.
3. Análise Teológica do Versículo
"Esaú tomou as suas mulheres dentre as filhas de Canaã"
A frase é um resumo com juízo embutido, e o juízo não está em nenhuma palavra isolada.
Está na escolha de dizer de onde elas vinham. A genealogia poderia simplesmente nomeá-las e dar o pai de cada uma — é o que faz depois. Antes disso, porém, ela agrupa as duas primeiras sob uma etiqueta: filhas de Canaã.
Qualquer leitor de Gênesis sabe o que essa etiqueta carrega. Foi contra ela que Abraão fez o servo jurar, em Gênesis 24:3. Foi por causa dela que Rebeca disse a Isaque que estava enjoada da vida, em Gênesis 27:46. E é ela que explica por que Jacó viajou centenas de quilômetros para buscar mulher, enquanto Esaú se casou com as vizinhas.
Repare no que o texto não faz. Não repete a reprovação, não relembra a amargura dos pais, não comenta. Põe a etiqueta e segue para os nomes.
Há um detalhe de contagem que merece registro: a etiqueta cobre duas mulheres, não três. A terceira, no versículo seguinte, é filha de Ismael — não é filha de Canaã. O texto separa os casos com precisão.
"Ada, filha de Elom, o heteu"
Três informações em cinco palavras: o nome, o pai, o povo.
Essa é a forma completa de um registro genealógico, e ela existe porque a filiação é o que dá validade ao dado. Numa cultura sem sobrenome, dizer "filha de Elom" é o equivalente ao documento de identidade.
E é justamente por isso que a divergência com o restante do livro pesa. O registro está em forma de documento, com todos os campos preenchidos — e não bate com o outro documento, também completo, dado dez capítulos antes.
"e Oolibama, filha de Aná, filha de Zibeão, o heveu"
Aqui há duas dificuldades, uma pequena e uma grande.
A pequena é a segunda palavra "filha". O texto hebraico traz "filha de Aná, filha de Zibeão", o que faria de Aná uma mulher. Só que o versículo 24 deste mesmo capítulo apresenta Aná como filho de Zibeão, homem, e o versículo 25 diz que Oolibama era filha dele. As versões antigas — o Pentateuco Samaritano, a Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.) e a versão siríaca — leem "filho de Zibeão", resolvendo o problema.
Provavelmente é isso mesmo: Oolibama é filha de Aná, que é filho de Zibeão. Três gerações numa linha. O que se pode afirmar com segurança é que as versões antigas já viam ali uma dificuldade e a corrigiram.
A dificuldade grande é outra, e ocupa o resto deste item.
O problema: os nomes não batem
Gênesis informa três vezes com quem Esaú se casou, e as três informações não coincidem.
Em Gênesis 26:34: "tomou por mulher a Judite, filha de Beeri, o heteu, e a Basemate, filha de Elom, o heteu".
Em Gênesis 28:9: "tomou para si por mulher a Maalate, filha de Ismael, filho de Abraão, irmã de Nebaiote".
Aqui e no versículo seguinte: Ada, filha de Elom, o heteu; Oolibama, filha de Aná, filho de Zibeão; e Basemate, filha de Ismael, irmã de Nebaiote.
Postas lado a lado, as três listas divergem em quase tudo.
As três divergências, uma a uma
Vale destrinchar, porque o problema não é um só.
Primeira: Judite desaparece. A mulher que Gênesis 26:34 nomeia em primeiro lugar, filha de Beeri, o heteu, não consta desta lista. Nem o nome dela nem o do pai.
Segunda: a filha de Elom muda de nome. Gênesis 26:34 a chama de Basemate; aqui ela é Ada. O pai é o mesmo, o povo é o mesmo, o nome não.
Terceira: a filha de Ismael muda de nome. Gênesis 28:9 a chama de Maalate; o versículo 3 daqui a chama de Basemate. O pai é o mesmo, o irmão nomeado é o mesmo — Nebaiote —, o nome não.
E há um agravante, que é o dado mais desconfortável do conjunto: o nome Basemate aparece nas duas listas, aplicado a mulheres diferentes. Em Gênesis 26:34 é a heteia, filha de Elom. Aqui é a ismaelita, filha de Ismael. Não é apenas cada mulher ter dois nomes; é um nome trocar de dona.
Primeira explicação: cada pessoa tinha dois nomes
É a saída mais antiga e a mais repetida. Sustentam-na, entre outros, Rosenmüller, Hengstenberg, Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX), Kalisch, Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e o comentário de Jamieson, Fausset e Brown.
O argumento tem base real. Nomes duplos são comuns na Bíblia: Jacó é Israel, Gideão é Jerubaal, Salomão é Jedidias, Daniel é Beltessazar, Simão é Pedro. E o próprio homem deste capítulo é Esaú e Edom, coisa que o versículo 1 acabou de registrar.
Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) formula o princípio: é muito usual que as mesmas pessoas sejam chamadas por vários nomes. Havia ainda, em várias culturas do Oriente, o costume de a mulher receber nome novo ao entrar na casa do marido.
A objeção é forte. Se o objetivo do capítulo é servir de registro, mudar os nomes de todas as mulheres derrota a finalidade do documento. E a troca de dona do nome Basemate não se explica por costume nenhum: seria preciso supor que a heteia se chamava Basemate e a ismaelita também passou a se chamar assim, o que é possível mas fica sem apoio.
Segunda explicação: Beeri é Aná
Esta é mais engenhosa, e vem de Hengstenberg e de Keil.
Se Judite é a mesma pessoa que Oolibama, então Beeri é a mesma pessoa que Aná. E há um detalhe que sustenta a ideia: o versículo 24 deste capítulo diz que Aná achou fontes de água no deserto enquanto apascentava os jumentos do pai. Ora, "Beeri" é formado sobre a palavra hebraica para poço. Homem-do-poço seria o apelido ganho depois do achado, e ele teria substituído o nome antigo nos registros.
É elegante, e explica de uma vez o sumiço de Judite e o de Beeri.
Mas apoia-se em duas suposições encadeadas, e nenhuma delas é verificável. O texto não diz que Beeri é Aná, e não diz que Judite é Oolibama. Além disso, sobra a questão do povo: Beeri é chamado de heteu, e Aná é apresentado como heveu ou horeu.
Terceira explicação: listas de documentos diferentes
Esta é a que mais comentaristas aceitam hoje, inclusive muitos que não têm compromisso com nenhuma teoria de fontes.
A ideia é simples. Quem organizou Gênesis dispunha de materiais diversos: narrativas e documentos de família. Gênesis 26 e 28 vêm da narrativa; Gênesis 36 vem de um registro genealógico, provavelmente antigo e provavelmente de origem edomita. Os dois materiais tinham os nomes em formas diferentes, e quem os reuniu copiou cada um como estava, sem uniformizar.
O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) diz isso quase com essas palavras: os documentos genealógicos foram usados sem alteração.
Essa explicação tem uma virtude e um custo. A virtude é que ela não precisa inventar nada — apenas descreve um procedimento de compilação que os textos antigos praticavam o tempo todo. O custo é que ela admite, sem rodeios, que o livro guarda informações que não se harmonizam.
Quarta explicação: erro de transmissão
Nomes próprios são o material mais frágil de um texto copiado à mão.
A razão é técnica. Numa frase comum, o contexto corrige a leitura: se uma palavra sai errada, o sentido denuncia. Num nome próprio, não há contexto que corrija — qualquer sequência de letras é um nome possível. Por isso listas de nomes acumulam variantes com muito mais frequência do que qualquer outro tipo de texto.
E este capítulo dá a prova dentro de si mesmo. O "filha de Zibeão" que as versões antigas leem como "filho de Zibeão" mostra que o texto de fato variou na transmissão. Se variou ali, pode ter variado nos nomes das mulheres.
O limite dessa explicação é que ela é indemonstrável no caso concreto: não há manuscrito que traga a lista de Gênesis 36 com os nomes de Gênesis 26. É hipótese sobre o que pode ter acontecido, não constatação.
Quinta explicação: Esaú teve mais mulheres do que três
Murphy e Jacobus, entre outros, propuseram que Judite morreu sem deixar filho homem, e por isso saiu da lista.
A explicação é razoável para o sumiço dela, e tem lógica: uma genealogia registra quem gerou. Mulher sem descendência não entra.
Mas resolve só uma das três divergências. Continua sem explicar por que a filha de Elom tem dois nomes, por que a filha de Ismael tem dois, e por que o nome Basemate troca de pessoa.
O que se pode afirmar, e o que não
Nenhuma das cinco explicações fecha o caso. Todas são possíveis, várias são plausíveis, e não é possível decidir entre elas.
O que se pode afirmar é mais limitado, e talvez mais interessante.
Primeiro: a divergência é real. Não é impressão de leitor desatento, não some com tradução melhor, e os comentaristas antigos já a viam — Ellicott registra que Jarchi e Aben Ezra, mestres judeus da Idade Média, discutiam a identificação de Ada com Basemate.
Segundo: quem montou o livro não a escondeu. As duas listas estão no mesmo rolo, a dez capítulos de distância. Quem tivesse querido harmonizar teria harmonizado — bastava mudar um nome. Não mudou.
Terceiro: isso diz algo sobre como esses textos foram guardados. O material recebido foi conservado como estava, mesmo quando não fechava. É um procedimento de arquivo, não de redação.
Fechar aqui, sem veredito, é o único caminho honesto. E vale dizer com clareza qual é a alternativa: forçar uma das cinco explicações como solução definitiva seria escolher a mais confortável e apresentá-la como certeza — que é exatamente o que o texto não autoriza.
O que o problema não é
Uma nota de cautela, na outra direção.
A divergência não é sinal de descuido nem de texto mal cuidado. Um texto descuidado teria sido harmonizado sem esforço, porque a correção é fácil. A permanência das duas listas indica o contrário: indica que havia respeito pelo material recebido, forte o bastante para preservar uma dificuldade em vez de apagá-la.
E ela não afeta o que o capítulo se propõe a informar. A lista serve para dizer de onde vieram os edomitas, e essa informação está inteira: três mulheres, cinco filhos, dois ramos que se desdobram no restante do capítulo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Ada
Primeira mulher nomeada na lista. Filha de Elom, o heteu, e mãe de Elifaz, segundo o versículo 4.
Por Elifaz ela é a avó de cinco netos, entre eles Temã, cujo nome ficará ligado à sabedoria de Edom, e Amaleque, nascido de uma concubina — os dois assuntos são dos versículos 11 e 12.
O nome Ada aparece uma vez antes em Gênesis: é o de uma das duas mulheres de Lameque, em Gênesis 4:19. Não há relação entre as duas; é apenas um nome que circulava.
Elom
Pai de Ada, identificado como heteu. Nada mais se sabe dele.
Ele é o único ponto de contato firme entre esta lista e a de Gênesis 26:34, onde o mesmo nome aparece com o mesmo povo — só que como pai de uma mulher chamada Basemate.
Oolibama
Segunda mulher da lista, e a única cuja ascendência é dada em duas gerações — filha de Aná, neta de Zibeão.
É mãe de três filhos, Jeús, Jalão e Corá, conforme o versículo 5. E é a única das três mulheres cujo nome reaparece adiante como nome de chefe edomita, no versículo 41 — o que sugere que virou nome de clã ou de território.
Aná
Pai de Oolibama. Reaparece no versículo 24 deste capítulo, com o único fato narrado de todo o capítulo — o achado das fontes no deserto —, e no versículo 25, como pai de Oolibama.
Naqueles versículos ele figura entre os horeus, descendência de Seir, e não entre os heveus. É a base da dúvida de leitura tratada no item 2.
Zibeão
Avô de Oolibama. Aparece também no versículo 20, entre os filhos de Seir, o horeu, e no versículo 29, entre os chefes horeus.
A presença dele nas duas genealogias — a de Esaú e a dos horeus — é um dos indícios de que os dois povos se misturaram na região, assunto do versículo 20.
Judite, Beeri e Maalate
São os três nomes que Gênesis dá em outros lugares e que não aparecem aqui.
Judite e Beeri vêm de Gênesis 26:34: ela, a primeira mulher que Esaú tomou; ele, o pai dela, heteu. Maalate vem de Gênesis 28:9: filha de Ismael, irmã de Nebaiote, tomada depois das outras duas. Se são as mesmas pessoas desta lista com outros nomes, é o problema tratado no item 3.
Os heteus e os heveus
Dois dos povos que Gênesis situa em Canaã antes da chegada de Israel.
Os heteus aparecem em Gênesis 23 como donos do campo de Macpela, negociando com Abraão diante de testemunhas. Os heveus aparecem em Siquém, em Gênesis 34:2, e em Gibeão, em Josué 9.
Quem eram, de onde vieram e como se relacionam com os povos conhecidos por esses nomes fora da Bíblia está tratado no item 2.
5. Pontos de Ensino
Um registro pode conservar o que não fecha
Este é o ponto mais instrutivo do versículo, e ele é sobre método, não sobre moral.
Gênesis dá três listas de mulheres de Esaú e não as harmoniza, embora quem montou o livro tivesse o material na mão e a possibilidade de uniformizar. Isso revela o tipo de trabalho que ali se fez: conservação de documentos, não redação de uma versão única.
Para o leitor, a consequência prática é uma só: a Bíblia é um arquivo antes de ser um tratado, e ler um arquivo exige aceitar que nem tudo dentro dele foi alinhado.
A filiação é o que valida o nome
Cada mulher entra na lista com pai e povo. Nenhuma entra só com o nome.
Numa cultura sem sobrenome e sem cartório, essa era a forma de identificar alguém sem ambiguidade. Dizer "Ada" não bastava; "Ada, filha de Elom, o heteu" bastava.
É a mesma lógica que Esdras 2:62 mostra em funcionamento séculos depois, quando sacerdotes sem registro comprovado são afastados do altar.
Escolhas de casamento carregam mais do que afeto
A insistência da família de Abraão em casar dentro do grupo não era preconceito privado. Era cálculo sobre lealdades: cada mulher trazia consigo uma casa, uma rede de alianças e um conjunto de cultos.
Esaú, com três mulheres de origens distintas, ligou-se a três mundos ao mesmo tempo. O texto não diz que ele errou. Registra a amargura dos pais, em Gênesis 26:35, e deixa o leitor com o dado.
Um problema conhecido não precisa ser escondido
Comentaristas judeus e cristãos discutem esta passagem há séculos, e nenhum deles fingiu que ela não existia.
A postura vale como orientação de leitura. Quando um texto apresenta dificuldade real, o caminho é expor a dificuldade, expor as soluções propostas e dizer honestamente que nenhuma se impõe.
O contrário — escolher a explicação mais confortável e apresentá-la como resposta fechada — não fortalece a confiança no texto. Enfraquece, porque o leitor que descobrir sozinho o problema descobrirá também que lhe deram uma resposta apressada.
6. Aspectos Filosóficos
O que fazer com um documento que se contradiz
A questão de fundo deste versículo não é sobre Esaú. É sobre a natureza do registro que temos em mãos.
Um documento que se contradiz pode ser lido de dois modos opostos, e os dois são intuitivos. O primeiro: se ele erra num ponto verificável, perde crédito no resto. O segundo: se ele conserva um ponto que o desfavorece, ganha crédito, porque mostra que não foi ajustado.
Os dois raciocínios são usados o tempo todo, e não se anulam — aplicam-se a coisas diferentes. O primeiro mede exatidão. O segundo mede honestidade de transmissão.
Aplicados aqui, dão resultados opostos e ambos verdadeiros. A exatidão dos nomes está comprometida: as três listas não podem estar todas certas ao mesmo tempo, do jeito que estão. E a honestidade da transmissão fica demonstrada: quem copiou tinha como consertar e não consertou.
Há uma pergunta mais difícil por baixo. Um registro precisa ser coerente para ser útil? Arquivistas conhecem bem a resposta prática: um arquivo que só guarda o que combina é um arquivo editado, e um arquivo editado vale menos, não mais. As inconsistências que um arquivo carrega são parte da informação que ele transmite — dizem de onde veio cada peça.
Onde marcar o limite: nada disso decide se as listas de Gênesis 26, 28 e 36 são historicamente exatas. Decidir isso exigiria informação externa que não existe. O que se pode dizer é apenas que a discrepância, sozinha, não serve de argumento nem a favor nem contra — e que usá-la como prova, em qualquer das duas direções, é ir além do que ela suporta.
7. Aplicações Práticas
Não ajustar o relato para que ele fique redondo
A aplicação mais direta deste versículo é sobre como se conta o que aconteceu.
Existe uma tentação constante, em relatório de trabalho, em histórico de família, em prestação de contas: alinhar os detalhes que não batem, porque o conjunto fica mais convincente. O texto bíblico, neste ponto, faz o contrário.
Vale como critério prático. Relato em que tudo encaixa perfeitamente costuma ser relato trabalhado; relato com pontas soltas costuma ser relato preservado.
Expor a dificuldade em vez de contorná-la
Quem lê a Bíblia com atenção acaba encontrando passagens que não fecham. Este versículo é uma delas.
Duas atitudes são ruins. Uma é fingir que não há problema, o que só adia o encontro do leitor com ele. A outra é tratar a descoberta como escândalo, como se um nome divergente derrubasse o livro inteiro.
A terceira atitude — pôr o problema na mesa, listar as explicações propostas, dizer qual é mais forte e qual é mais fraca, e admitir que nenhuma se impõe — é trabalhosa e não dá resposta pronta. É a única que sobrevive à leitura atenta.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Como Judite pode ter sumido de uma lista que se pretende completa?
Uma genealogia registra quem gerou. Mulher que não deixou filho homem, nessa lógica, não precisa constar.
É a explicação de Murphy e de Jacobus, e ela é razoável. Gênesis 26:34 registra o casamento; nada em Gênesis diz que Judite teve filhos.
Mas repare que isso explica apenas o sumiço dela. As mudanças de nome das outras duas continuam sem resposta por esse caminho.
Se a mulher recebia nome novo ao casar, por que Gênesis 26 traz o nome antigo e Gênesis 36 o novo?
Aqui o costume proposto trabalha contra a explicação, e vale notá-lo.
Gênesis 26:34 conta o casamento — o momento exato em que o nome novo seria dado. Seria de esperar o contrário: nome antigo antes do casamento, novo depois. O texto faz ao inverso.
Isso não invalida a hipótese dos dois nomes, mas mostra que ela precisa de ajustes para funcionar. Nenhum comentarista consegue formulá-la sem supor algo além do que o texto informa.
Havia problema religioso em casar com cananeia, ou só problema social?
Em Gênesis, a razão dada é de parentela, não de culto.
Abraão manda buscar mulher "na minha terra e na minha parentela", em Gênesis 24:4. Isaque manda Jacó à casa de Betuel, em Gênesis 28:2. Nenhum dos dois menciona deuses estrangeiros.
A razão religiosa aparece depois, formulada em Deuteronômio 7:3-4: a mulher estrangeira desviará o filho para servir a outros deuses. É provável que a preocupação já existisse antes; mas o texto de Gênesis, como está, argumenta por linhagem.
Aná era homem ou mulher?
Homem, quase certamente.
O texto hebraico deste versículo traz "filha de Zibeão", forma que faria de Aná uma mulher. Mas o versículo 24 apresenta Aná entre os filhos de Zibeão, e o versículo 25 diz que Oolibama era filha dele.
O Pentateuco Samaritano, a Septuaginta e a versão siríaca leem "filho". A leitura masculina é a que o restante do capítulo sustenta.
9. Conexão com Outros Textos
Os outros dois relatos dos casamentos de Esaú
Gênesis 26:34-35 — "Ora, quando Esaú tinha quarenta anos, tomou por mulher a Judite, filha de Beeri, o heteu, e a Basemate, filha de Elom, o heteu; elas foram amargura de espírito para Isaque e para Rebeca."
O primeiro registro, com dois nomes que não constam desta lista e um juízo que esta lista não repete.
Gênesis 28:8-9 — "Vendo Esaú que as filhas de Canaã eram más aos olhos de Isaque, seu pai, foi ele a Ismael e tomou para si por mulher, além das mulheres que já tinha, a Maalate, filha de Ismael, filho de Abraão, irmã de Nebaiote."
Aqui está a única explicação que Gênesis dá para um casamento de Esaú: ele percebeu o que os pais achavam e reagiu.
A regra de casamento da família
Gênesis 24:3-4 — "Far-te-ei jurar pelo SENHOR que não tomarás mulher para meu filho das filhas dos cananeus, no meio dos quais habito; mas irás à minha terra e à minha parentela."
Gênesis 27:46 — "Disse Rebeca a Isaque: Enfadada estou da minha vida por causa das filhas de Hete. Se Jacó tomar mulher dentre as filhas de Hete, como estas, para que me servirá a vida?"
A frase que liga diretamente os casamentos de Esaú à viagem de Jacó.
Deuteronômio 7:3-4 — "Não contrairás matrimônio com eles; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; pois fariam desviar teus filhos de mim."
A mesma regra, agora com razão religiosa declarada — o que Gênesis não faz.
Os heteus e os heveus em Gênesis
Gênesis 23:10-11 — "Efrom, o heteu, respondeu a Abraão na presença dos filhos de Hete: Não, meu senhor; ouve-me: o campo te dou, também te dou a caverna que nele está."
Os heteus de Gênesis são vizinhos com quem se negocia terra.
Gênesis 34:2 — "Siquém, filho de Hamor, o heveu, príncipe daquela terra, viu-a, tomou-a e a possuiu."
A outra aparição dos heveus em Gênesis, no episódio de Diná.
Pessoas com dois nomes
Gênesis 35:10 — "Teu nome é Jacó; não te chamarás mais Jacó, mas Israel será o teu nome."
O caso mais conhecido, e a base da explicação mais antiga para a divergência deste versículo.
2 Samuel 12:24-25 — "E chamou-lhe Salomão... e mandou dizer pelo profeta Natã que se chamasse Jedidias, por amor do SENHOR."
Dois nomes dados à mesma pessoa no mesmo versículo — o costume existia mesmo.
A força de um registro genealógico
O que a filiação decidia na prática, e por que os nomes eram anotados com pai e povo.
A lista repetida séculos depois
1 Crônicas 1:35-36 — "Os filhos de Esaú: Elifaz, Reuel, Jeús, Jalão e Corá. Os filhos de Elifaz: Temã, Omar, Zefi, Gatã, Quenaz, Timna e Amaleque."
Notável: 1 Crônicas copia a lista deste capítulo, mas não repete os nomes das mulheres. Começa direto pelos filhos — o que retira do texto posterior a divergência que este versículo carrega.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Esaú tomou as suas mulheres dentre as filhas de Canaã: Ada, filha de Elom, o heteu, e Oolibama, filha de Aná, filha de Zibeão, o heveu;
Texto hebraico
עֵשָׂו לָקַח אֶת־נָשָׁיו מִבְּנוֹת כְּנָעַן אֶת־עָדָה בַּת־אֵילוֹן הַחִתִּי וְאֶת־אָהֳלִיבָמָה בַּת־עֲנָה בַּת־צִבְעוֹן הַחִוִּי׃
Transliteração
'Esav laqach 'et-nashav mibbenot Kena'an: 'et-'Adah bat-'Eilon ha-Chitti, we'et-'Oholivamah bat-'Anah bat-Tsiv'on ha-Chivvi.
Análise palavra por palavra
לָקַח — laqach, "tomou". Verbo no perfeito, forma simples.
É o verbo mais comum do hebraico para pegar, receber, apanhar. Com "mulher" por objeto, forma a expressão fixa para casar-se: laqach ishah, "tomar mulher".
Não há em hebraico bíblico um verbo próprio para casar, do modo como o português tem. Diz-se que o homem toma a mulher e que o pai a dá. A linguagem reflete o arranjo social: o casamento é uma transferência entre casas, e os verbos são os da transferência.
Vale registrar que a ordem das palavras aqui é incomum. O normal em hebraico narrativo seria o verbo antes do sujeito; aqui vem "Esaú tomou", com o nome na frente. Essa inversão costuma marcar mudança de assunto ou destaque do sujeito — coerente com um versículo que abre a lista depois da fórmula do versículo 1.
נָשָׁיו — nashav, "as suas mulheres". Plural de ishah, mulher, com o sufixo de terceira pessoa.
A mesma palavra significa mulher e esposa; o hebraico não distingue as duas coisas, e o contexto decide. O plural aqui é simples constatação: eram várias.
מִבְּנוֹת כְּנָעַן — mibbenot Kena'an, "dentre as filhas de Canaã". A preposição min indica origem, procedência; benot é o plural de bat, filha, na forma ligada ao nome seguinte.
A expressão é a mesma que aparece, com poucas variações, em Gênesis 24:3, 27:46 e 28:1 — sempre nos textos em que a família decide de onde as mulheres devem vir. É fórmula, não descrição casual.
עָדָה — 'Adah, "Ada".
O nome é formado sobre a raiz עדה, que significa ornar, adornar, enfeitar. O sentido provável é "ornamento", "enfeite". A derivação é aceita pela maioria dos léxicos, embora, como em quase todo nome próprio antigo, não seja demonstrável.
אֵילוֹן — 'Eilon, "Elom".
Formado sobre a palavra para carvalho ou terebinto, árvore grande. Nomes de árvore eram comuns como nome de pessoa e de lugar; o mesmo nome designa uma cidade em Josué 19:43 e um juiz de Israel em Juízes 12:11.
אָהֳלִיבָמָה — 'Oholivamah, "Oolibama". Nome composto de 'ohel, tenda, e bamah, altura, lugar alto.
Ao pé da letra: "tenda do lugar alto". A palavra bamah é a que o Antigo Testamento usa para os santuários em elevação, os chamados altos, condenados repetidamente nos livros dos Reis. Isso dá ao nome um sabor de culto.
Convém marcar o limite da observação. O nome pode ter sentido religioso, pode ser apenas descrição de moradia em terreno alto, e não há como decidir. O texto não comenta.
Nomes com 'ohel não são raros: Oolá e Oolibá, em Ezequiel 23:4, são construídos com a mesma palavra, e ali o sentido religioso é explícito.
עֲנָה — 'Anah, "Aná".
Origem incerta. As propostas o ligam à raiz ענה, que tem pelo menos três sentidos distintos em hebraico — responder, ser afligido, cantar —, e não há como saber qual está em jogo, se algum. Os léxicos registram a incerteza.
בַּת־עֲנָה בַּת־צִבְעוֹן — bat-'Anah bat-Tsiv'on, "filha de Aná, filha de Zibeão".
Aqui está a dificuldade de texto. A palavra bat, filha, aparece duas vezes, o que tornaria Aná uma mulher.
O Pentateuco Samaritano, a Septuaginta e a versão siríaca trazem, no segundo caso, ben, filho. Em hebraico as duas palavras diferem por uma letra, e a confusão em cópia manual é fácil. A leitura "filho" é a que se harmoniza com os versículos 24 e 25 deste capítulo.
צִבְעוֹן — Tsiv'on, "Zibeão".
Provavelmente ligado à palavra tsavua', que designa a hiena e cujo sentido básico tem a ver com cor manchada, tingida. Nomes de animal como nome de pessoa eram frequentes; a derivação, porém, é discutida.
הַחִתִּי / הַחִוִּי — ha-Chitti, "o heteu"; ha-Chivvi, "o heveu".
Ambos com o artigo e a terminação que forma nome de povo a partir de um nome de ancestral ou de lugar — a mesma construção de ha-Chori, "o horeu", que aparece no versículo 20.
É essa proximidade de forma que sustenta a hipótese de troca na cópia entre "heveu" e "horeu", tratada no item 2. As duas palavras diferem por uma letra em hebraico.
11. Conclusão
O versículo é uma linha de cadastro, e dela decorrem três coisas.
A primeira é sobre o que Gênesis considera identificação suficiente. Nome, pai e povo — nada além, nada aquém. É a forma completa do registro antigo, e ela mostra que a lista foi feita para valer como documento, não para ilustrar.
A segunda é sobre a divergência com Gênesis 26:34 e 28:9. Ela existe, é real, atinge nomes e filiações, e nenhuma das cinco explicações propostas ao longo dos séculos consegue cobrir todos os pontos ao mesmo tempo. Disso decorre um dever de método: quem trata o assunto deve apresentar as saídas possíveis com as respectivas fraquezas, e não escolher a mais cômoda para fechar o caso.
A terceira decorre do fato de as duas listas terem sobrevivido lado a lado no mesmo livro. Corrigir um nome seria trivial, e ninguém corrigiu. Conclui-se daí que quem organizou Gênesis trabalhava conservando material recebido, e que a fidelidade ao documento pesou mais do que a aparência de coerência.
Fica em aberto, e provavelmente ficará, saber qual das listas reproduz os nomes que aquelas mulheres de fato usaram. Não há manuscrito, fonte externa nem argumento interno que decida — e a única resposta que o material sustenta é que não se pode decidir.













