Ele o chamou de Sibá; por isso o nome daquela cidade é Berseba até hoje.
1. Introdução
Isaque chama o poço de Sibá. Por isso, diz o texto, a cidade se chama Berseba até hoje.
O versículo é uma explicação de origem — o tipo de nota que o Gênesis usa para conectar um acontecimento remoto a um nome que o leitor do texto já conhece. Mas há um problema que o texto não resolve: Berseba já tinha essa explicação. No capítulo 21, Abraão nomeou o lugar Berseba depois de um juramento com outro Abimeleque, usando sete cordeiras como testemunha. Agora Isaque nomeia de novo, com a mesma raiz, mas pelo ângulo do juramento, não do número sete.
Dois patriarcas, uma cidade, duas explicações para o mesmo nome. O problema editorial é o ponto do versículo, e o texto o deixa de pé sem harmonizar.
2. Contexto Histórico e Cultural
A raiz shava e seus dois sentidos
A raiz hebraica que está por trás do nome Sibá e do nome Berseba é sh-v-a. Essa raiz tem dois campos semânticos distintos em hebraico: "sete" (o número) e "jurar" (o ato de comprometer-se solenemente). Os dois sentidos não são acidentalmente parecidos — compartilham a mesma raiz porque o juramento hebraico originalmente envolvia o número sete: repeti-se o compromisso sete vezes, ou se usavam sete animais como testemunha, ou se invocava o número de alguma forma ritual.
Essa fusão entre o número e o ato jurídico é atestada em outras línguas semíticas antigas. No acadiano (língua da Babilônia), o verbo para jurar também guarda relação com o campo numérico. A etimologia popular que os textos bíblicos oferecem para Berseba explora justamente essa ambiguidade: o nome pode significar "poço do juramento" ou "poço das sete" — e os dois episódios que o explicam, em Gênesis 21 e aqui, elegem um sentido cada um.
Tel Beer Sheva: o sítio arqueológico
Berseba é identificada com o sítio arqueológico de Tel Beer Sheva (Tel es-Seba em árabe), Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2005, situado a cerca de seis quilômetros a leste da cidade moderna de Berseba, no norte do Neguebe israelense. Escavações ao longo dos séculos XX e XXI revelaram ocupação ininterrupta desde o período Calcolítico (cerca de 4000 a.C.) até o período romano e bizantino.
O sítio tem relevância particular para a arqueologia bíblica porque a expressão "de Dã até Berseba" (Juízes 20:1; 1 Samuel 3:20; 2 Samuel 17:11) delimitava o território de Israel de norte a sul — Berseba era o extremo sul da terra habitada. A frase é fórmula geográfica convencional que aparece pelo menos oito vezes no Antigo Testamento. A cidade existia como referência importante na época em que esses textos foram compostos, o que torna a fórmula "até hoje" do versículo 33 historicamente inteligível: quem escreveu conhecia Berseba como cidade estabelecida e quis conectar o nome que ela já tinha ao episódio patriarcal.
Explicações de origem de nomes de lugares no Gênesis
O Gênesis contém dezenas de notas do tipo "por isso o lugar se chama X até hoje" — o que os estudiosos chamam de explicações de origem de topônimos. Babel (Gênesis 11:9), Betel (Gênesis 28:19), Peniel (Gênesis 32:30), Maanaim (Gênesis 32:2) são exemplos. Em geral essas notas funcionam como âncora narrativa: o leitor já conhece o nome do lugar; a história explica como ele surgiu.
O problema com Berseba é que o Gênesis oferece duas âncoras para o mesmo nome, em capítulos diferentes, sem indicar qual é a "real" ou como elas se relacionam. Isso é diferente de um único episódio explicado de dois ângulos — são dois episódios distintos, com dois atores diferentes (Abraão em Gênesis 21, Isaque aqui), dois conjuntos de testemunhas diferentes, e dois aspectos diferentes da raiz shava acionados.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ele o chamou de Sibá"
O nome dado ao poço é Sibá — palavra que, no original, serve ao mesmo tempo para "sete" e para "juramento". Isaque está nomeando o poço a partir do juramento que acabou de fazer — o versículo 31 narrou o juramento mútuo com Abimeleque. O nome do poço registra o evento na paisagem: toda vez que alguém chamasse aquele lugar de Sibá, estaria evocando o juramento.
Nomear um lugar a partir de um acontecimento é prática que o Gênesis descreve repetidamente. Os poços Eseque e Sitna, nos versículos 20 e 21 deste capítulo, receberam nomes que registraram as brigas. Reobote, no versículo 22, registrou o sossego. Sibá, aqui, registra o acordo. Os nomes são memória fixada em topônimo.
"Por isso o nome daquela cidade é Berseba até hoje"
A nota conecta o nome do poço ao nome da cidade. Sibá deu origem a Berseba — que quer dizer "poço de Sibá", e portanto "poço do juramento" ou "poço das sete", conforme o lado da palavra que se ouça. O raciocínio é: porque o poço se chamou Sibá, a cidade que cresceu ao redor dele herdou a parte do nome.
O problema é que Gênesis 21:31 já havia feito a mesma conexão, com Abraão como agente e as sete cordeiras como âncora semântica. Ali o texto diz: "por isso chamou aquele lugar Berseba, pois ali os dois fizeram juramento." É a mesma palavra dos dois lados — mas o que Gênesis 21 põe diante dos olhos é o número sete, nas cordeiras entregues, e o que Gênesis 26 põe é o juramento em si.
Dois episódios, dois patriarcas, a mesma palavra, o mesmo resultado: Berseba. A leitura crítica clássica vê aqui o rastro de duas tradições sobre a origem do nome — uma ligada a Abraão, outra a Isaque — que o texto preservou sem harmonizar. A leitura tradicional interpreta como confirmação ou reafirmação dinástica: Abraão nomeou, Isaque reafirmou o nome no mesmo ato de nomear seu poço. As duas leituras têm argumentos; nenhuma é demonstrável a partir do texto.
O que é notável é que o texto não escolhe. Não diz "e assim o nome foi confirmado por Isaque" nem "e assim o nome teve uma segunda origem". Diz simplesmente "por isso o nome daquela cidade é Berseba até hoje" — como se Isaque fosse o único responsável pela explicação — e deixa o leitor familiarizado com o capítulo 21 fazer a pergunta.
"Até hoje"
A fórmula "até hoje" aparece dezenas de vezes no Antigo Testamento como nota do ponto de vista de quem escreveu o texto. Ela diz: quando este texto foi composto, o nome ainda existia, e o lugar ainda existia. É um marcador de continuidade entre o passado narrado e o presente do compositor — e, por extensão, do leitor original.
Berseba como cidade existia no período monárquico de Israel, o que é historicamente bem estabelecido. A fórmula não resolve quando o texto foi escrito, mas confirma que quem o escreveu conhecia Berseba como cidade real e ativa, não como localidade perdida da memória.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Berseba
Uma das cidades mais mencionadas no Antigo Testamento. A expressão "de Dã até Berseba" funciona como delimitação norte-sul do território de Israel (Juízes 20:1; 2 Samuel 17:11; 1 Reis 4:25). É lugar de passagem de patriarcas — Abraão fez aliança ali (Gênesis 21:31), Agar foi mandada para o deserto próximo a ela (Gênesis 21:14), Isaque recebeu teofania ali (Gênesis 26:24), Jacó partiu dali em direção ao Egito (Gênesis 46:1). Elias descansou sob uma árvore em Berseba antes de ir ao Horebe (1 Reis 19:3-4). O sítio arqueológico correspondente é Tel Beer Sheva.
O nome Sibá
O nome do poço — shiv'ah, Sibá — é a palavra hebraica para o número sete ou para o ato de jurar, dependendo do contexto. Isaque usa o nome no contexto do juramento com Abimeleque (versículo 31). Abraão, no Gênesis 21:28-30, havia usado o mesmo campo semântico com ênfase nas sete cordeiras do testemunho. O nome do poço de Isaque e o nome da cidade nasceram, portanto, de dois episódios distintos, mas da mesma raiz.
A dupla explicação de origem no Gênesis
Não é a única vez que o Gênesis oferece duas origens para o mesmo nome. O nome "Israel" tem duas explicações de origem no livro: em Gênesis 32:28, dado depois da luta no Jaboque, e em Gênesis 35:10, reafirmado em Betel. Há estudiosos que veem os dois episódios como versões paralelas de uma mesma tradição; outros os tratam como dois eventos distintos que confirmam o nome. O padrão de ambiguidade editorial que se vê em Berseba é, portanto, recorrente no Gênesis — não um erro isolado, mas um modo de trabalhar com tradições múltiplas.
5. Pontos de Ensino
1. A raiz shava carrega dois sentidos ao mesmo tempo: "sete" e "jurar". Esse é o fundamento da dupla explicação de origem de Berseba. O nome não é ambíguo por imprecisão — é ambíguo porque a raiz era ambígua para os próprios falantes do hebraico antigo.
2. Gênesis 21:31 e Gênesis 26:33 oferecem duas explicações de origem para o mesmo nome. A primeira ancora o nome no número sete (as cordeiras); a segunda, no juramento. O texto preservou as duas sem indicar qual é a "real".
3. "Até hoje" é nota do compositor, não do personagem. Ela marca que, quando o texto foi escrito, Berseba existia como cidade com esse nome. Não resolve quando o texto foi escrito, mas confirma que o autor conhecia Berseba como cidade ativa.
4. Isaque nomeia o poço, e o nome do poço dá nome à cidade. A lógica da nota é: poço chamado Sibá → cidade chamada Berseba. O mesmo raciocínio está implícito em Gênesis 21:31, com Abraão como agente do mesmo raciocínio.
5. O texto não harmoniza as duas explicações. Não diz que Isaque confirmou o nome de Abraão, nem que há uma explicação mais correta. A justaposição das duas tradições é editorial — e é deliberada ou pelo menos aceita por quem organizou o texto.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma questão que tem paralelos na filosofia da linguagem: o que um nome realmente "significa" e a quem pertence a autoridade de fixar seu sentido?
Gottlob Frege, no ensaio Über Sinn und Bedeutung ("Sobre Sentido e Referência", 1892), distinguiu entre o referente de um nome — o objeto a que ele aponta — e o sentido — o modo pelo qual esse objeto é apresentado. Berseba como referente é um lugar geográfico específico no Neguebe. Mas o sentido — o que o nome evoca — difere conforme a história que se conta: "poço das sete" evoca Abraão e as cordeiras; "poço do juramento de Isaque" evoca o acordo com Abimeleque. O mesmo referente, dois sentidos, e nenhum dos dois invalida o outro.
Walter Benjamin, em seu ensaio Über Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen ("Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem", 1916), argumentou que nomear é o ato fundamental de dar sentido à experiência — o nome não apenas identifica, mas inaugura a relação entre o objeto e o mundo humano. Sob essa perspectiva, os dois atos de nomear — Abraão e Isaque — não são redundantes: cada um inaugura uma relação nova entre o lugar e a experiência humana que o criou. Berseba, nomeada duas vezes, tem duas inaugurações.
Há também uma questão sobre autoridade. No mundo antigo, nomear um lugar é um ato de posse — quem nomeia reivindica. Abraão nomeou Berseba quando era o ator principal do pacto com Abimeleque. Isaque nomeia agora que é ele o protagonista de um novo acordo com novo Abimeleque no mesmo lugar. A justaposição pode ser lida como reivindicação dinástica: a terra que foi de Abraão passa a ser de Isaque pelo mesmo ato simbólico de nomear.
O problema que o texto deixa sem resolver é se um nome pode ter duas origens sem perder sua função. A linguagem cotidiana sugere que sim — nomes de lugares muitas vezes acumulam camadas de etimologia popular que convivem sem se excluir. Mas a tradição hermenêutica (a disciplina que interpreta textos) sempre tentou eleger uma das duas como "a correta". O Gênesis resiste a essa eleição.
7. Aplicações Práticas
A memória fixada em nome de lugar
Os lugares que Isaque nomeou ao longo do capítulo — Eseque, Sitna, Reobote, e agora Sibá — são fragmentos de memória transformados em topônimos. Toda vez que alguém chamava aquele poço de Sibá, estava, sem saber, repetindo a história do juramento de Isaque com Abimeleque.
Esse mecanismo de memória inscrita na paisagem é universal e antiquíssimo. Nomes de lugares carregam acontecimentos que os habitantes já esqueceram. A cidade de Belém carrega um nome cujo sentido poucos habitantes modernos conhecem. O Rio de Janeiro foi nomeado a partir de um equívoco sobre a baía que os portugueses viram em janeiro. O Neguebe, onde fica Berseba, carrega em hebraico a palavra para o sul da terra — e foi o sul de Israel por milênios.
A prática de nomear lugares a partir de experiências significativas é uma forma de resistir ao esquecimento. Isaque nomeou o poço para que a história do acordo não dependesse apenas da memória oral. O texto que preservou o nome cumpriu a mesma função por mais três milênios.
Duas versões de uma história e o que fazer com elas
O problema das duas explicações de Berseba — Abraão em Gênesis 21, Isaque aqui — tem aplicação fora do estudo do texto. Narrativas importantes costumam ter múltiplas versões, e a tendência imediata é escolher uma como "a real" e descartar a outra.
O que o Gênesis faz é diferente: preserva as duas sem eleger. Isso não é necessariamente descuido editorial — pode ser fidelidade a fontes distintas, reconhecimento de que cada versão captura algo verdadeiro sobre o lugar, ou simplesmente honestidade sobre os limites do que se sabe. Em qualquer dos casos, o resultado é um texto que resiste à simplificação.
Em contextos onde há versões conflitantes de acontecimentos importantes — na família, na história de uma comunidade, no relato de um conflito —, a postura de preservar as duas versões sem eleger prematuramente uma delas é mais difícil e mais fiel à realidade do que a harmonização rápida. O Gênesis sugere, pelo exemplo, que algumas tensões não precisam ser resolvidas para serem transmitidas.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Berseba não foi nomeada por Abraão no capítulo 21? Por que Isaque nomeia de novo?
Esse é o ponto central do versículo. Gênesis 21:31 diz que Abraão chamou aquele lugar Berseba, conectando o nome ao juramento com um Abimeleque e às sete cordeiras. Gênesis 26:33 conecta o mesmo nome ao poço de Isaque chamado Sibá, a partir de um juramento com outro Abimeleque. As duas tradições existem lado a lado no texto, sem harmonização. A leitura crítica vê dois relatos de origem distintos preservados pelo mesmo compositor; a leitura tradicional vê Isaque reafirmando o nome dado pelo pai, ou dando novo nome ao poço que cavou no mesmo território. O texto, por si mesmo, não decide entre as leituras.
Sibá e Berseba são nomes diferentes ou o mesmo nome?
São diferentes, mas derivados da mesma raiz. Sibá (shiv'ah) é o nome do poço — a palavra simples da raiz, que significa "sete" ou "juramento". Berseba (be'er sheva) é o nome da cidade — literalmente "poço de sete" ou "poço de juramento". O nome da cidade inclui a palavra be'er ("poço") como prefixo. Assim, o poço chamado Sibá gerou o nome Be'er Sheva (poço do Sibá/juramento), que é Berseba.
Quando o texto diz "até hoje", a que período isso corresponde?
Não se sabe com certeza quando esse texto foi composto na forma que chegou até nós. "Até hoje" indica que, no período de composição, Berseba existia com esse nome como cidade conhecida. Berseba é mencionada como cidade ativa em textos que vão dos juízes ao período monárquico. Independentemente da data da redação final, a fórmula cumpre a função de ancoragem geográfica: o leitor original sabia onde ficava Berseba, e o texto lhe diz que o nome vem de lá.
A raiz shava pode realmente significar "sete" e "jurar" ao mesmo tempo?
Sim — é uma das ambiguidades lexicais mais discutidas do hebraico bíblico. As duas palavras, sheva (sete) e shava (jurar), são graficamente próximas e provavelmente têm origem comum. O juramento hebraico antigo pode ter envolvido o número sete ritualisticamente — sete repetições do compromisso, ou sete animais testemunhos, como as cordeiras de Gênesis 21. Com o tempo, o ato e o número se fundiriam na mesma raiz. Essa hipótese de etimologia tem amplo apoio entre linguistas semíticos, embora não seja demonstrável com certeza absoluta.
9. Conexão com Outros Textos
A primeira explicação de origem de Berseba, com Abraão
Gênesis 21:27-31 — "E assim ambos fizeram aliança em Berseba. E levantou-se Abimeleque, e Ficol, príncipe do seu exército, e tornaram-se à terra dos filisteus. E plantou Abraão um bosque em Berseba, e invocou ali o nome do SENHOR, Deus eterno. E peregrinou Abraão na terra dos filisteus muitos dias." A explicação do nome vem pelo número sete (as sete cordeiras) e pelo juramento, usando a mesma raiz.
A dupla etimologia de Israel
Gênesis 32:28 e Gênesis 35:10 — O nome "Israel" é dado a Jacó em dois episódios distintos. Gênesis 32:28 o dá depois da luta no Jaboque; Gênesis 35:10, em Betel. O padrão de nome com duas explicações de origem não é exclusivo de Berseba no livro.
A fórmula "até hoje" em outros lugares
Gênesis 32:32 — "Por isso os filhos de Israel não comem até ao dia de hoje o nervo do quadril." A fórmula cumpre a mesma função: ligar um episódio passado a uma prática ou nome que o leitor original já conhecia.
Josué 4:9 — "E as doze pedras que Josué levantou no meio do Jordão estão ali até o dia de hoje." Mesma função de memória inscrita na paisagem.
Nomear a partir de um evento: os poços do capítulo
Gênesis 26:20-22 — Eseque ("discussão"), Sitna ("oposição") e Reobote ("lugar largo") são nomeados a partir dos eventos que marcaram cada poço. O mesmo princípio que rege os nomes dos poços rege o nome de Sibá.
Berseba como fronteira sul de Israel
Juízes 20:1 — "Então saíram todos os filhos de Israel, e juntou-se a congregação como um só homem, desde Dã até Berseba." A fórmula geográfica que confirma a existência e importância de Berseba no período subsequente aos patriarcas.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Ele o chamou de Sibá; por isso o nome daquela cidade é Berseba até hoje.
Texto hebraico
וַיִּקְרָא אֹתָהּ שִׁבְעָה עַל־כֵּן שֵׁם־הָעִיר בְּאֵר שֶׁבַע עַד הַיּוֹם הַזֶּה
Transliteração
wa-yiqra otah shiv'ah al-ken shem-ha-ir Be'er Sheva ad ha-yom ha-zeh
Análise palavra por palavra
וַיִּקְרָא — wa-yiqra, "e chamou". Verbo qara ("chamar, nomear"), qal, terceira pessoa masculino singular, com vav consecutivo. É o verbo padrão do ato de nomear no Gênesis — o mesmo usado quando Adão nomeia os animais (Gênesis 2:20), quando Abraão nomeia Berseba (Gênesis 21:31), quando Jacó nomeia Betel (Gênesis 28:19). Nomear com qara é ato de autoridade e de posse.
אֹתָהּ — otah, "a ela" (objeto direto feminino). Refere-se ao poço, que em hebraico é substantivo feminino (be'er, feminino). É o poço que recebe o nome, não a cidade — a cidade herda o nome do poço pela lógica da nota que segue.
שִׁבְעָה — shiv'ah, Sibá. O nome dado ao poço. Forma feminina de sheva, que significa tanto "sete" quanto "juramento". A forma feminina é incomum para o número (o masculino sheva seria mais esperado), o que sugere que pode ser forma substantivada ou nome próprio — algo como "a de sete" ou "a do juramento". A raiz é sh-v-a, compartilhada por sheva (sete) e pelo verbo shava (jurar, na forma nifal). Essa ambiguidade é estrutural, não acidental.
עַל־כֵּן — al-ken, "por isso, por essa razão". Fórmula conclusiva que introduz a consequência do ato narrado. É a marca linguística das explicações de origem de nomes de lugares no Gênesis — em Gênesis 11:9 ("por isso se chamou Babel"), Gênesis 19:22 ("por isso o nome da cidade é Zoar"), Gênesis 32:30 ("por isso chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel").
שֵׁם־הָעִיר — shem-ha-ir, "o nome daquela cidade". Shem ("nome") em estado construto com ir ("cidade") definida pelo artigo. A construção é genitivial: "o nome de A" é "shem-A". A cidade é apresentada com artigo definido — o leitor conhecia a cidade, e o texto explicará de onde veio o nome que ela já tem.
בְּאֵר שֶׁבַע — Be'er Sheva, Berseba. Dois substantivos justapostos: be'er ("poço") e sheva ("sete" ou "juramento"). A composição é "poço de sete" ou "poço do juramento" — ambos os sentidos estão na raiz, e o texto explora os dois em momentos diferentes. Em Gênesis 21:31, o ângulo das sete cordeiras; aqui, o ângulo do juramento. O mesmo nome, a mesma raiz, dois episódios.
עַד הַיּוֹם הַזֶּה — ad ha-yom ha-zeh, "até o dia de hoje". Ad ("até"), ha-yom ("o dia"), ha-zeh ("este"). Fórmula de perspectiva do compositor: o nome continua em uso no tempo em que o texto é escrito ou copiado. É nota de arqueologia linguística — o nome sobreviveu do episódio até o presente do compositor. A mesma fórmula em Gênesis 32:32, Josué 4:9, 1 Samuel 30:25, entre outros.
A estrutura do versículo
O versículo tem dois momentos: a ação (Isaque nomeia o poço) e a consequência (por isso a cidade se chama Berseba até hoje). A lógica pressupõe que a cidade cresceu ao redor do poço ou que o poço estava dentro da cidade. O nome do poço — Sibá — é a parte nuclear do nome da cidade — Be'er Sheva, "poço de Sibá/juramento". O versículo é, em síntese, uma equação: poço de Sibá = Berseba.
11. Conclusão
O versículo faz o que as explicações de origem do Gênesis sempre fazem: liga um ato remoto a um nome que o leitor já conhece. Isaque nomeia o poço, e o nome do poço vira nome da cidade — "até hoje", diz o texto, ancorando a narrativa na geografia que o leitor do texto original podia verificar.
O problema é que a mesma cidade já tinha essa explicação. Em Gênesis 21:31, Abraão havia chamado o lugar Berseba a partir de um acordo com um Abimeleque anterior, usando as sete cordeiras como âncora do juramento. A raiz shava tem dois sentidos — "sete" e "jurar" —, e cada episódio elege um. Dois patriarcas, dois Abimeleques, dois aspectos da mesma raiz, o mesmo nome.
O texto não harmoniza. Não diz que Isaque confirmou o nome do pai nem que há uma explicação mais correta. Justapos as duas tradições e deixa a tensão de pé. Esse é um dos lugares onde o Gênesis mostra, com mais clareza do que em qualquer nota editorial, que foi composto a partir de tradições que nem sempre contavam a mesma história da mesma forma — e que quem organizou o texto preferiu preservar ambas a escolher uma.
O que se pode afirmar é que Berseba existia como cidade real, ativa e conhecida — a fórmula "até hoje" confirma isso — e que seu nome foi suficientemente importante para merecer explicação de dois patriarcas. Se a raiz do nome vem do número sete, do juramento, ou da fusão dos dois sentidos que o hebraico antigo mantinha juntos na mesma raiz, não é possível decidir. O que o texto decide é preservar o nó.













