Então Abraão tomou ovelhas e bois, deu-os a Abimeleque, e ambos fizeram uma aliança.
1. Introdução
Ovelhas e bois mudam de mão pela segunda vez em dois capítulos. Só que agora vão na direção contrária.
Em Gênesis 20:14, depois do episódio de Sara, "Abimeleque tomou ovelhas e bois, servos e servas, e os deu a Abraão". Aqui, em 21:27, "Abraão tomou ovelhas e bois, deu-os a Abimeleque". O mesmo par de animais, os mesmos dois verbos hebraicos — tomar e dar —, os mesmos dois homens, com os papéis trocados.
Uma repetição assim, num narrador que economiza cada palavra, é assinatura. O texto está pedindo que o leitor ponha as duas cenas lado a lado, e não diz o que fazer com a comparação.
Há mais no versículo. A expressão traduzida por "fizeram uma aliança" é, em hebraico, "cortaram uma aliança" — karat berit. O verbo é o de cortar, e ele guarda a memória de um rito em que animais eram partidos ao meio e as partes passavam entre os pedaços, invocando sobre si o destino do animal caso quebrassem o combinado. Abraão conhece esse rito por experiência própria: foi assim que Deus firmou aliança com ele em Gênesis 15.
E há o "ambos". O narrador declara reciprocidade — os dois fizeram — num acordo em que o diálogo registrou apenas um lado exigindo e apenas um lado jurando.
Este estudo trata da inversão dos presentes, do idioma de cortar uma aliança e da primeira vez em que o livro narra dois homens firmando pacto entre si.
2. Contexto Histórico e Cultural
O fecho da negociação
O bloco caminhou em cinco passos. Abimeleque chegou com o comandante do exército e declarou que Deus acompanha Abraão (v.22). Exigiu juramento com alcance de três gerações e cláusula sobre a terra (v.23). Abraão jurou em duas palavras (v.24). Expôs então a causa do poço tomado à força (v.25). O rei negou conhecimento em três cláusulas e apontou a falta de notificação (v.26).
Este versículo é o desfecho da parte diplomática. Depois dele, o texto voltará ao poço, com um gesto adicional de Abraão que servirá de prova de titularidade, e o lugar receberá nome.
O que aconteceu em Gênesis 20:14
A cena que este versículo espelha é precisa e vale reler. Depois do sonho, da advertência e da confrontação, "Abimeleque tomou ovelhas e bois, servos e servas, e os deu a Abraão; e lhe devolveu Sara, sua mulher" (20:14). Em seguida ofereceu a terra e entregou mil peças de prata a título de reparação pública em favor de Sara.
O sentido daquele gesto é discutível. Pode ser lido como reparação de um dano que ele quase causou, feita sob advertência divina expressa; pode ser lido como generosidade muito além do exigido, já que bastava devolver a mulher. As duas leituras são defensáveis, e o texto não qualifica o ato.
O que é objetivo é a direção: naquele capítulo, os bens saíram das mãos do rei para as mãos de Abraão. Aqui, saem das mãos de Abraão para as mãos do rei.
Alianças até este ponto do livro
A palavra berit já apareceu algumas vezes em Gênesis, e sempre com Deus como uma das partes. Em 6:18 e 9:9-17, Deus estabelece aliança com Noé e com toda a carne, e o sinal é o arco nas nuvens. Em 15:18, faz aliança com Abraão depois do rito dos animais partidos. Em 17:2-14, estabelece a aliança da circuncisão, chamada de aliança perpétua.
Há uma menção anterior a acordo entre pessoas: em 14:13, Mamre, Escol e Aner são chamados de "aliados de Abrão", literalmente "senhores da aliança de Abrão". Mas o texto não narra a celebração desse pacto; ele apenas pressupõe que existe.
Gênesis 21:27 é, portanto, a primeira vez em que o livro narra o ato de dois seres humanos firmarem aliança entre si. Depois dele virão Isaque e Abimeleque em 26:28-31 e Jacó e Labão em 31:44-54.
Tratados no mundo em que a cena se passa
Acordos entre poderes desiguais eram prática corrente no antigo Oriente Próximo, e os arquivos hititas preservam dezenas deles. A estrutura recorrente inclui a identificação das partes, o histórico da relação, as estipulações, a invocação de divindades como testemunhas, as maldições contra quem quebrar e, com frequência, a entrega de bens e uma refeição de ratificação.
Vários desses elementos aparecem ao longo do bloco de Gênesis 21: o histórico ("a bondade que lhe tenho feito"), o garante divino ("jure-me por Deus"), a testemunha qualificada (o comandante do exército), a extensão aos sucessores e, aqui, a entrega de bens.
Convém marcar o limite da comparação. O texto bíblico é narrativa, não documento; as semelhanças são de lógica e de vocabulário. Que o narrador conhecesse a prática é hipótese bem apoiada; extrair dela datação para a passagem é bem menos seguro, e é assunto em disputa.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então Abraão tomou ovelhas e bois"
A frase hebraica é wa-yiqqach Avraham tson u-vaqar, e o leitor de Gênesis 20 reconhece cada palavra dela.
Em 20:14, o texto diz wa-yiqqach Avimelekh tson u-vaqar. É o mesmo verbo, laqach ("tomar"), na mesma forma consecutiva, seguido do mesmo par de substantivos, tson u-vaqar, e depois do mesmo verbo natan ("dar"). A única diferença entre as duas construções é qual nome próprio ocupa a posição de sujeito e qual ocupa a de destinatário.
Esse tipo de espelhamento é um recurso conhecido da narrativa hebraica, e o narrador de Gênesis o usa com frequência. Ele não comenta, não sublinha, não avisa. Reproduz a frase com os papéis trocados e deixa a comparação por conta de quem lê os dois capítulos seguidos.
O par tson u-vaqar merece uma nota. Tson designa o rebanho miúdo — ovelhas e cabras juntas, sem distinção —, e vaqar designa o gado grande, bovino. Juntos, os dois termos funcionam como fórmula para "os animais de criação", do mesmo modo que em português se diria "rebanhos e gado". Não é uma lista de itens; é uma expressão global de riqueza pastoril.
Repare no que a fórmula não inclui. Em 20:14, Abimeleque deu "ovelhas e bois, servos e servas". Aqui, Abraão dá apenas ovelhas e bois. Não há servos, não há prata, não há oferta de terra — e não haveria como haver, já que a terra é do outro. A retribuição é parcial em relação ao que foi recebido, e o texto não comenta a diferença.
"deu-os a Abimeleque"
O verbo natan é o mais comum do hebraico para dar, e cobre um leque enorme: presentear, entregar, conceder, pagar, colocar. Ele não decide, sozinho, a natureza da transferência.
E é justamente aí que o versículo se torna interessante, porque a natureza da transferência é o ponto obscuro da cena. O que são esses animais?
Há pelo menos quatro leituras possíveis, e vale expor as quatro em vez de escolher uma.
A primeira é ritual. Se a aliança é "cortada", como diz o idioma hebraico, os animais podem ser os do rito — os que seriam partidos, ou sacrificados, ou consumidos numa refeição de ratificação. Essa leitura tem apoio na expressão usada logo em seguida e nos paralelos de Gênesis 15 e 31:54.
A segunda é de presente diplomático. Acordos entre partes desiguais costumam vir acompanhados de entrega de bens pela parte menor, como reconhecimento e como demonstração de boa-fé. Nessa leitura, os animais não são consumidos: passam a integrar os rebanhos do rei.
A terceira é de pagamento. Abraão está comprando alguma coisa — a paz, o direito de continuar ali, ou, mais especificamente, o reconhecimento sobre o poço. Essa leitura ganha força pelo que virá adiante, quando outro lote de animais será separado com finalidade declaradamente probatória.
A quarta é de devolução. Abraão estaria restituindo o que recebeu em Gerar, desfazendo uma situação em que enriqueceu às custas de um engano. Essa leitura é atraente e é a mais frágil das quatro: o texto não usa vocabulário de restituição, não menciona o episódio anterior e não estabelece equivalência entre os lotes.
Não é possível decidir entre elas com o texto disponível, e as quatro não são inteiramente excludentes — um mesmo gesto pode ser ritual e diplomático ao mesmo tempo. O que se pode afirmar é que o narrador escolheu o verbo mais neutro que tinha à mão e não qualificou o ato.
A inversão, e o que ela produz
Vale demorar-se no espelho, porque é o achado do versículo.
No capítulo 20, quem dá é o ofensor. Abimeleque tomou a mulher de outro homem sem saber, foi advertido, devolveu e pagou. Os presentes são, ali, parte de um movimento de reparação — ainda que sob advertência divina, e ainda que ele fosse tecnicamente inocente.
No capítulo 21, quem dá é Abraão. E o leitor que faz a comparação inevitavelmente pergunta: dando os mesmos animais, ele está ocupando a mesma posição?
A pergunta é legítima, e a resposta não é dada. Se o paralelismo for levado a sério, Abraão estaria agora na cadeira de quem repara. Se o gesto for lido apenas como parte do rito, o paralelo é de forma e não de sentido.
Há um argumento a favor de levar o espelho a sério, e ele é o histórico dos dois homens. Abraão foi enriquecido por Abimeleque duas vezes em circunstâncias que não o favorecem: no Egito, o faraó o tratou bem "por causa dela" e ele saiu com ovelhas, bois, jumentos, servos e camelos (12:16); em Gerar, saiu com rebanhos, servos e mil peças de prata. Nos dois casos, o enriquecimento veio de um engano.
E há um argumento em sentido contrário, também interno ao livro. Em 14:22-23, diante do rei de Sodoma, Abraão recusou aceitar qualquer coisa, "nem um fio nem uma correia de sandália", para que o rei não pudesse dizer "eu enriqueci Abrão". Ele tinha, portanto, escrúpulo declarado quanto a dever riqueza a reis estrangeiros — escrúpulo que não manifestou em Gerar.
Juntar esses dados produz uma leitura possível: a entrega de animais aqui seria a única forma disponível de desfazer a assimetria, num homem que já demonstrou preocupação com esse tipo de dívida. É leitura, e vale dizê-lo com todas as letras: o texto não a enuncia, e quem a adota está interpretando um silêncio.
"e ambos fizeram uma aliança"
O hebraico é wa-yikhretu sheneihem berit, e cada uma das três palavras merece exame.
Wa-yikhretu vem de karat, "cortar". É o verbo de cortar madeira, de cortar cabelo, de cortar fora — e, quando o objeto é berit, forma o idioma padrão do hebraico bíblico para firmar um pacto. Diz-se, literalmente, que se corta uma aliança.
A explicação corrente para o idioma é o rito dos animais partidos, e ela tem apoio direto no próprio texto bíblico. Em Gênesis 15:9-18, Abraão parte ao meio uma novilha, uma cabra e um carneiro, dispõe as metades umas diante das outras, e um fogareiro fumegante com uma tocha passa entre os pedaços; ao fim, o texto diz que naquele dia o SENHOR "cortou aliança" com ele.
Jeremias 34:18-20 explicita a lógica implícita no rito, e é a passagem decisiva sobre o assunto. Deus fala dos homens "que passaram entre as partes do bezerro" e declara que fará com eles o que fizeram ao animal, porque quebraram o combinado. Ou seja: passar entre os pedaços é uma autoimprecação encenada — que eu seja partido assim se eu faltar.
Vale registrar dois limites com honestidade. O primeiro é que Gênesis 21 não descreve nenhum corte de animais: o texto diz que Abraão deu ovelhas e bois, e não que os partiu. O idioma pode estar sendo usado de forma já cristalizada, como acontece com expressões que perdem a memória da origem. O segundo é que a explicação do idioma pelo rito, embora amplamente aceita, não é a única já proposta, e a etimologia de berit continua discutida — sugeriu-se relação com a ideia de comer, com a de vínculo e com a de cortar, sem que se possa decidir.
A palavra berit
Uma aliança bíblica não é um contrato no sentido moderno, e a diferença importa.
Um contrato regula uma transação: define objeto, preço e prazo, e se extingue quando cumprido. Uma berit estabelece uma relação: define como as partes se comportarão uma com a outra, é feita para durar, costuma incluir os descendentes e é garantida por juramento diante da divindade.
É por isso que o vocabulário de aliança e o de família se misturam com tanta frequência na Bíblia hebraica. Parceiros de aliança se tratam por "irmão"; a lealdade devida dentro de uma aliança é chamada de chesed, a mesma palavra usada para a fidelidade entre parentes; e a quebra de uma aliança é descrita com o vocabulário do adultério.
No caso presente, o conteúdo da berit foi enunciado no versículo 23: não haver traição, haver lealdade recíproca, e a proteção estender-se à terra e aos descendentes do rei. É um pacto de não agressão e de boa vizinhança entre dois poderes que dividem a mesma região.
"ambos" — a palavra que declara o que o diálogo não mostrou
O termo é sheneihem, "os dois deles". Ele é gramaticalmente dispensável: o verbo já está no plural, e ninguém teria dúvida sobre quem participou. O narrador o acrescentou.
E o acréscimo produz uma afirmação que o diálogo não sustenta. Ao longo do bloco, quem exigiu juramento foi Abimeleque; quem jurou foi Abraão. Não há registro de compromisso assumido pelo rei — nem de não tomar poços, nem de proteger os descendentes do outro, nem de qualquer contrapartida.
O narrador, porém, escreve "ambos". E, adiante, dirá que os dois juraram.
Duas explicações se apresentam. A primeira é que houve corte no relato: o narrador resumiu, deixando de fora a fala equivalente do rei, e "ambos" registra o que de fato ocorreu. A segunda é que o resumo é mais generoso do que os fatos, e que a reciprocidade formal encobre um acordo materialmente desigual, celebrado sob a presença do comandante do exército de um dos lados.
Não é possível decidir entre elas. O que se pode observar é que o versículo é a primeira afirmação de igualdade em todo o bloco, e que ela vem do narrador, não da cena.
O que este pacto significa dentro do livro
Falta uma observação de conjunto, e ela é teologicamente interessante.
Até este ponto, toda berit narrada em Gênesis teve Deus como uma das partes: com Noé, com toda a carne, com Abraão duas vezes. A palavra pertencia ao vocabulário da relação entre o divino e o humano.
Aqui, pela primeira vez, o livro narra dois homens cortando aliança entre si. E o homem que o faz é justamente aquele que já é parte de duas alianças divinas — a de Gênesis 15, selada com animais partidos, e a de Gênesis 17, selada na carne pela circuncisão.
Vale resistir à tentação de extrair disso uma censura. O texto não sugere que a aliança com Abimeleque concorra com a aliança com Deus, não registra desaprovação divina, não apresenta consequência negativa. Ele simplesmente narra que o homem da promessa também firma pactos políticos, com reis estrangeiros, sobre poços e pastagens.
Há, contudo, uma tensão objetiva que já apareceu no versículo 23 e que este versículo consuma: a terra sobre a qual o pacto incide é a terra prometida à descendência de Abraão desde 12:7. Ele acaba de assinar, com o poder local, um acordo que pressupõe o domínio desse poder sobre um território que a promessa destina aos filhos dele.
O narrador não comenta. E o capítulo terminará com Abraão morando muito tempo "na terra dos filisteus" — ainda estrangeiro, dentro do acordo que acabou de firmar.
Uma refeição que não aparece
Vale, por fim, registrar uma ausência, porque ela ilumina por contraste.
Nos dois outros pactos humanos do livro, há refeição. Em 26:30, Isaque prepara um banquete para Abimeleque e os seus, "e eles comeram e beberam", e só no dia seguinte se levantam e juram. Em 31:54, Jacó oferece sacrifício no monte e chama os parentes para comer pão, e eles comem e passam a noite ali.
Em Gênesis 21:27 não há refeição registrada. Há entrega de animais e há o corte da aliança, e a comitiva partirá em seguida.
Não convém tirar conclusão firme de um silêncio: narrativas resumem, e a ausência de menção não é a menção de ausência. Ainda assim, quem lê os três episódios lado a lado nota que este é o mais seco dos três — sem mesa, sem noite passada juntos, sem o gesto que, nos outros dois, transforma um acordo em convivência.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Ovelhas e bois (tson u-vaqar)
Tson designa o rebanho miúdo, ovinos e caprinos sem distinção; vaqar, o gado bovino. O par funciona como fórmula global para os animais de criação, e por extensão para a riqueza de um chefe de clã pastoril.
A diferença entre os dois tipos é econômica. O rebanho miúdo é móvel, pasta em terreno pobre e fornece lã, leite e carne; o gado grande exige melhor pastagem e água mais abundante, e serve também para tração. Ter os dois indica uma economia bem estabelecida, não apenas nomadismo de subsistência.
O paralelo em Gênesis 20:14
A frase espelhada é quase idêntica: mesmo verbo de tomar, mesmo par de animais, mesmo verbo de dar, com os papéis invertidos. A diferença está no que acompanha: em Gerar houve também servos, servas e mil peças de prata, além da oferta de terra; aqui há apenas os animais.
A comparação é convidada pelo próprio texto e não é resolvida por ele. Se a inversão significa reparação, equilíbrio de dívida ou simples repetição de um gesto convencional, permanece em aberto.
Cortar uma aliança (karat berit)
Idioma padrão do hebraico bíblico para firmar um pacto. O verbo é o de cortar, e a explicação corrente remete ao rito dos animais partidos, atestado em Gênesis 15:9-18 e explicado em Jeremias 34:18-20, onde passar entre os pedaços equivale a invocar sobre si o destino do animal em caso de quebra.
O texto de Gênesis 21 não descreve corte de animais. É plausível que o idioma esteja sendo usado de forma já cristalizada, como ocorre com expressões que perdem a memória da origem, e é também plausível que o rito tenha ocorrido sem ser narrado. Não é possível decidir.
Berit
Termo hebraico para pacto, aliança, tratado. Distingue-se de um contrato porque não regula uma transação e sim uma relação: define conduta futura, é feita para durar, costuma alcançar descendentes e é garantida por juramento diante da divindade.
A etimologia é discutida. Propôs-se relação com a raiz de cortar, com a ideia de comer — pela refeição de ratificação — e com um termo acádio que significa vínculo ou espaço entre. Não há consenso.
Alianças humanas no ciclo patriarcal
Este é o primeiro pacto entre seres humanos cuja celebração o livro narra. Em 14:13, Mamre, Escol e Aner são chamados de aliados de Abrão, mas o texto pressupõe o acordo sem descrevê-lo.
Os dois pactos humanos seguintes seguem o mesmo desenho geral e acrescentam elementos: Isaque e Abimeleque, em 26:26-31, incluem banquete e juramento na madrugada seguinte; Jacó e Labão, em 31:44-54, incluem um montão de pedras como testemunha, um nome dado ao monumento, um limite geográfico que nenhum dos dois deve ultrapassar com má intenção, sacrifício e refeição.
A presença da testemunha
Ficol, o comandante do exército, está em cena desde o versículo 22 e permanecerá até o 32. Não fala nenhuma vez em toda a Bíblia.
Num pacto sem documento escrito, a testemunha qualificada é o registro. A presença da segunda autoridade militar do reino torna o ato público e impede alegação futura de desconhecimento — precisamente a alegação que o rei acabou de fazer a respeito do poço.
O que fica pendente
A aliança é firmada e o poço continua sem titularidade reconhecida. Abimeleque não o devolveu no versículo anterior, e este versículo não trata do assunto.
Isso é dado de composição, não descuido: o narrador fecha a parte diplomática e reabre em seguida a questão material, que exigirá um gesto adicional e de natureza diferente — não mais de presente, mas de prova.
5. Pontos de Ensino
1. A frase espelha 20:14 quase palavra por palavra. Mesmo verbo de tomar, mesmo par tson u-vaqar, mesmo verbo de dar. Muda apenas quem é sujeito e quem é destinatário. Num narrador econômico, uma repetição assim é assinatura.
2. A retribuição é parcial. Em Gerar vieram ovelhas, bois, servos, servas e mil peças de prata, mais a oferta de terra. Aqui vão apenas ovelhas e bois. O texto não comenta a diferença.
3. A natureza da entrega não é declarada. Os animais podem ser rituais, presente diplomático, pagamento pela paz ou devolução do que se recebeu. As quatro leituras são defensáveis e não são todas excludentes; o narrador escolheu o verbo mais neutro disponível.
4. O idioma é "cortar uma aliança". Karat berit guarda a memória do rito dos animais partidos, atestado em Gênesis 15:9-18 e explicado em Jeremias 34:18-20: passar entre os pedaços é invocar sobre si o destino do animal.
5. E, aqui, nenhum animal é cortado no texto. Abraão dá; não parte. É plausível que o idioma esteja cristalizado, e é plausível que o rito tenha ocorrido sem ser narrado. Não é possível decidir.
6. Aliança não é contrato. Berit não regula uma transação, estabelece uma relação: define conduta futura, alcança descendentes e é garantida por juramento diante da divindade.
7. "Ambos" é a primeira afirmação de igualdade do bloco. E ela vem do narrador, não da cena: no diálogo, só um exigiu e só um jurou. Ou houve corte no relato, ou o resumo é mais generoso do que os fatos.
8. É o primeiro pacto humano narrado no livro. Até aqui, toda berit de Gênesis teve Deus como parte — Noé, toda a carne, Abraão duas vezes. Em 14:13 há menção a aliados de Abrão, mas sem narração da celebração.
9. O pacto incide sobre a terra prometida. O acordo pressupõe o domínio de Gerar sobre um território destinado à descendência de Abraão desde 12:7. A tensão é objetiva e o narrador não a comenta.
10. Não há refeição registrada. Nos outros dois pactos humanos do livro há mesa: banquete em 26:30, pão comido no monte em 31:54. Aqui não. Silêncio não é ausência comprovada, mas o contraste é notável.
6. Aspectos Filosóficos
Duas linhas fecham a negociação. Animais mudam de mãos, e a aliança é cortada.
Quem chegou ao versículo 27 vindo do capítulo 20 lê essa frase duas vezes. Não porque seja difícil, mas porque já a leu antes — com os nomes trocados.
O espelho
Em Gerar, foi o rei quem tomou ovelhas e bois e os deu ao pastor. Aqui, é o pastor quem toma ovelhas e bois e os dá ao rei.
O narrador não diz nada sobre isso. Não escreve "assim como antes", não observa a simetria, não interpreta. Reproduz a construção e segue.
Esse é um dos modos característicos de Gênesis. O livro raramente julga por adjetivo; monta cenas que rimam e confia em que o leitor perceba a rima. Quem lê apenas o capítulo 21 vê uma entrega de presentes num acordo. Quem leu o 20 vê outra coisa: vê uma devolução, ou uma equalização, ou uma repetição de gesto — e a escolha entre essas leituras fica por conta de quem lê.
Do que exatamente esses animais são feitos
Vale insistir na ambiguidade do gesto, porque ela é real e é interessante.
Se a aliança é "cortada", os animais podem ser os do rito. Abraão sabe o que é isso: em Gênesis 15 ele mesmo partiu ao meio uma novilha, uma cabra e um carneiro, afastou as aves, espantou as aves de rapina que desciam sobre os cadáveres e esperou até que, no escuro, um fogareiro fumegante passasse entre os pedaços.
Se são presente diplomático, integram os rebanhos do rei e ficam por lá.
Se são pagamento, Abraão está comprando paz — e comprará, alguns versículos adiante, também o reconhecimento do poço, com outro lote de animais e com finalidade declaradamente probatória.
E se são devolução, o gesto tem um alcance moral que o texto não enuncia: seria o homem que enriqueceu com um engano refazendo, na medida do possível, a conta.
O verbo escolhido não decide. Natan serve para presentear, entregar, conceder e pagar. É o verbo mais neutro possível, e o narrador o usou sem qualquer qualificação.
Uma dívida que talvez esteja sendo paga
A leitura da devolução merece um parágrafo próprio, com as suas credenciais e as suas fraquezas.
A favor: Abraão enriqueceu duas vezes por meio do mesmo expediente. No Egito, o faraó o tratou bem por causa de Sarai, e ele saiu com ovelhas, bois, jumentos, servos, servas e camelos (12:16). Em Gerar, saiu com rebanhos, servos e mil peças de prata. E há um dado que mostra que ele tinha consciência do problema: em 14:22-23, recusou aceitar do rei de Sodoma "nem um fio nem uma correia de sandália", para que o rei não pudesse dizer que o havia enriquecido.
Contra: o texto não usa vocabulário de restituição, não estabelece equivalência entre os lotes, não menciona o episódio anterior e não põe uma palavra na boca de Abraão sobre o assunto. A retribuição, aliás, é claramente menor do que o recebido — nada de servos, nada de prata.
O saldo honesto é este: a leitura é possível e não é demonstrável. Quem a adota está interpretando um silêncio, e convém que diga isso ao adotá-la.
Cortar
Vale parar no idioma, porque ele é uma das expressões mais impressionantes da língua bíblica e passa despercebida sob a tradução.
Em hebraico não se "faz" uma aliança: corta-se uma aliança. E a razão disso, segundo a explicação mais aceita, é o rito em que animais eram partidos ao meio e os contratantes passavam entre as metades.
Jeremias 34 mostra o que esse gesto queria dizer. Deus fala dos homens que passaram entre as partes do bezerro e diz que fará com eles o que fizeram ao animal, porque quebraram o combinado. A caminhada entre os pedaços é uma frase encenada: que eu seja partido assim se eu faltar.
Aqui, o texto não descreve corte nenhum. Diz que Abraão deu ovelhas e bois e que os dois cortaram aliança. É bem possível que a expressão já estivesse cristalizada — as línguas fazem isso o tempo todo, e ninguém que diz "assinar embaixo" pensa numa página. Mas quem sabe de onde vem o idioma lê a frase com outro peso, e é razoável supor que o leitor antigo também soubesse.
A palavra "ambos"
O detalhe mais fino do versículo é uma palavra dispensável.
O verbo já está no plural. Ninguém teria dúvida sobre quem participou. E, ainda assim, o narrador escreve "os dois deles".
É a primeira vez, em todo o bloco, que aparece uma afirmação de paridade. Até aqui, o que houve foi um rei exigindo e um estrangeiro jurando. Abimeleque não prometeu nada, não se comprometeu a nada, não jurou nada que o texto registre.
O narrador declara reciprocidade que a cena não mostrou. Ou ele resumiu, cortando a fala equivalente do rei, ou o resumo é mais bonito do que o acordo. As duas hipóteses são plausíveis e o texto não permite escolher.
Vale reparar que a ambiguidade não é grave para a narrativa. Do ponto de vista do que vai acontecer, tanto faz: os dois viverão em paz, Abraão morará muito tempo naquela terra, e o filho dele repetirá a cena com um rei do mesmo nome uma geração adiante. A assimetria interessa a quem lê com atenção, não ao enredo.
O homem da aliança faz uma aliança
Há aqui um fato de composição que vale enunciar com clareza: esta é a primeira vez que Gênesis narra dois seres humanos firmando pacto entre si.
Até este ponto, a palavra pertencia a Deus. Aliança com Noé. Aliança com toda a carne, com o arco nas nuvens. Aliança com Abraão, no escuro, entre pedaços de animais. Aliança da circuncisão, marcada na carne de toda a casa.
E é justamente o homem dessas alianças que agora corta uma com um rei filisteu, por causa de pastagem e de água.
A leitura devocional costuma ficar desconfortável com isso e resolver o desconforto de duas maneiras: ou espiritualiza a cena, ou a critica como falta de fé. O texto não autoriza nenhuma das duas. Não há reprovação divina, não há consequência negativa, não há comentário.
O que há é uma tensão que fica de pé. A terra sobre a qual se assina o acordo é a terra prometida. Abraão firma com o poder local um pacto que pressupõe o domínio desse poder sobre o território destinado aos descendentes dele. E o capítulo terminará dizendo que ele morou muito tempo na terra dos filisteus — estrangeiro, em paz, dentro do acordo.
O que falta na mesa
Uma última observação, por contraste com os pactos posteriores.
Quando Isaque fizer o mesmo com um Abimeleque, haverá banquete: comem, bebem, passam a noite e juram na madrugada (26:30-31). Quando Jacó fizer o mesmo com Labão, haverá um montão de pedras com nome próprio, sacrifício no monte e pão comido em família (31:44-54).
Aqui não há mesa. Há animais entregues, aliança cortada, e no versículo 32 a comitiva se levanta e volta para a terra dos filisteus.
Silêncio narrativo não prova ausência, e é honesto dizê-lo: relatos resumem. Mas o contraste entre os três episódios é visível, e quem os lê seguidos percebe que este é o mais seco — um acordo funcional entre dois homens que resolveram um problema e não se tornaram amigos.
7. Aplicações Práticas
Devolver o que se recebeu em circunstâncias que não honram
Se a leitura da devolução for correta — e ela é possível, ainda que não demonstrável —, o gesto de Abraão tem um alcance considerável. Ele enriqueceu duas vezes por meio do mesmo expediente, e agora entrega parte disso de volta a quem lhe deu.
Vale reparar que ele não faz discurso. Não confessa, não explica, não pede desculpas. Toma os animais e entrega.
Há situações em que essa é a forma correta de resolver. Dinheiro recebido a mais, vantagem obtida por informação que não devia ter, benefício que veio de um erro alheio, comissão sobre negócio que não se cumpriu como prometido — em todos esses casos, a devolução silenciosa costuma valer mais do que a explicação elaborada. Quem devolve encerra a questão; quem explica a prolonga.
Acordo não elimina desconfiança, apenas dá forma a ela
O pacto deste versículo é firmado entre um homem que mentiu sobre a mulher e um rei cujos homens tomaram um poço à força. Nenhum dos dois tem motivo para confiar plenamente no outro.
E é exatamente por isso que existe o pacto. Se houvesse confiança, bastaria a palavra. Foi preciso juramento por Deus, testemunha militar, entrega de bens e a fórmula solene do corte porque as duas partes sabiam com quem estavam lidando.
A aplicação corrige uma ideia comum de que exigir formalidade é sinal de má relação. É o contrário: a formalidade é o que torna possível a relação onde a confiança ainda não existe. Contrato entre sócios, regras escritas em sociedade familiar, combinados explícitos numa equipe nova — nada disso ofende ninguém. O que ofende é descobrir tarde que não havia combinado nenhum.
Compromisso que só um lado assume não é aliança, é submissão
O narrador escreve "ambos", mas a cena mostrou um exigindo e outro jurando. Vale carregar esse desconforto, porque ele descreve muitos arranjos reais.
Existe uma quantidade grande de acordos chamados de parceria em que uma parte assume obrigações detalhadas e a outra não assume nenhuma verificável. Sociedades em que um trabalha e outro "traz oportunidades". Relações profissionais em que um lado se compromete com prazos e o outro se compromete com intenções. Arranjos familiares em que um cuida e os outros aprovam.
O teste é simples e vale aplicá-lo antes de fechar: liste o que cada lado se obrigou a fazer, e veja se as duas colunas têm conteúdo. Se uma delas tiver só frases genéricas, o que existe não é aliança. Pode até ser conveniente, e às vezes é a única opção disponível — mas convém saber o nome do que se está assinando.
Custa alguma coisa entrar num acordo, e deve custar
Abraão não firma o pacto apenas com palavras. Ele entrega animais, e animais são o capital de um chefe de clã pastoril. O compromisso tem preço, e o preço é pago no ato.
Isso opera como filtro. Compromissos que não custam nada são assumidos com facilidade e abandonados com a mesma facilidade — é por isso que promessas verbais se multiplicam e produzem tão pouco. Quando há um custo real na entrada, as duas partes pensam antes, e as duas têm algo a perder se o acordo naufragar.
Na prática, isso significa dar preferência a arranjos em que cada lado põe alguma coisa na mesa desde o começo: um adiantamento, uma entrega parcial, uma reserva de agenda, um recurso comprometido. Não como desconfiança, e sim como forma de tornar o combinado real para os dois.
Nem todo problema se resolve na conversa em que ele é levantado
Abraão reclamou do poço, o rei negou saber, e a aliança é fechada sem que a questão material seja tocada. O poço não volta neste versículo. A titularidade precisará de um gesto adicional, de outra natureza, feito depois.
Esse desenho é comum e costuma frustrar. Levanta-se um problema numa reunião, o problema não é resolvido ali, o acordo maior segue adiante, e fica a sensação de que a queixa se perdeu.
O que a sequência mostra é que a queixa não se perdeu: ela ficou registrada, e voltou depois, por outro caminho. Vale separar as duas coisas ao negociar — o que se resolve nesta conversa e o que fica pendente para tratamento próprio. Misturar tudo costuma travar o acordo inteiro; separar permite avançar sem abrir mão do que ficou.
Sentar-se com quem já lhe causou dano
Estes dois homens têm um histórico ruim, e ele é recíproco. Um enganou o outro e quase provocou a morte dele. O outro tem homens que tomam poços de quem não pode reagir.
E firmam aliança. Não porque um tenha perdoado o outro em cerimônia, não porque tenham esclarecido tudo — o versículo 26 mostra que não esclareceram —, mas porque ambos concluíram que conviver era melhor do que o contrário.
Isso desmonta a exigência, comum em ambientes religiosos, de que toda reconciliação passe por reconhecimento completo e reparação integral. Muitas relações que precisam continuar — entre sócios, entre parentes, entre vizinhos, entre países — continuam sem isso, sobre um acordo prático de conduta futura. O ideal é melhor. Quando o ideal não vem, o acordo prático é uma alternativa legítima, e Gênesis o registra sem apologia e sem crítica.
Comprometer-se com um poder maior sem perder de vista o que se cedeu
O pacto incide sobre uma terra que, na lógica do livro, foi prometida à descendência de Abraão. Ele assina reconhecendo, na prática, o domínio de outro sobre esse território — e o capítulo termina com ele morando muito tempo ali, ainda estrangeiro.
O texto não condena a decisão, e a prudência tampouco. Acomodar-se ao poder existente é, muitas vezes, a única forma de continuar operando: aceita-se a regra do mercado, do órgão regulador, da instituição, do sócio majoritário.
O que vale preservar é a consciência do que foi cedido. Abraão jurou lealdade a um domínio que a promessa não reconhece, e o texto não indica que ele tenha percebido a tensão. Quem faz acordos com poderes maiores faria bem em anotar, para si, a diferença entre o que aceitou por necessidade e o que passou a considerar correto. Confundir as duas coisas é o modo mais comum de uma acomodação temporária virar convicção permanente.
A mesa que não foi posta
Nos outros dois pactos humanos do livro há refeição: Isaque prepara banquete para Abimeleque, Jacó chama os parentes para comer pão no monte. Aqui não há registro de mesa, e a comitiva vai embora logo em seguida.
Silêncio narrativo não prova ausência, e é honesto reconhecê-lo. Mas o contraste sugere uma distinção útil: existe o acordo que resolve um problema e existe o acordo que inicia uma convivência, e comer junto é, em quase todas as culturas, o gesto que separa um do outro.
Quem quer apenas resolver pode fechar e ir embora — é legítimo, e economiza tempo. Quem quer construir relação precisa da parte que não está no contrato: o tempo gasto sem pauta, a refeição, a noite que se passa no mesmo lugar. Vale escolher conscientemente qual dos dois se está fazendo, em vez de esperar de um acordo funcional aquilo que só a convivência produz.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Abraão dá presentes se quem foi prejudicado foi ele?
O texto não explica, e essa é a pergunta central do versículo. Quatro leituras são defensáveis. Os animais podem ser o elemento ritual da aliança, já que o idioma hebraico fala em "cortar" um pacto. Podem ser presente diplomático da parte menor, prática corrente em acordos desiguais. Podem ser pagamento pela paz — e, adiante, outro lote servirá especificamente como prova sobre o poço. Ou podem ser devolução do que ele recebeu em Gerar. O narrador usou o verbo mais neutro disponível e não qualificou o ato; as quatro leituras não são todas excludentes, e não é possível decidir entre elas.
A semelhança com Gênesis 20:14 é proposital?
É difícil ler de outro modo. As duas frases usam o mesmo verbo de tomar, o mesmo par hebraico tson u-vaqar e o mesmo verbo de dar, mudando apenas quem é sujeito e quem é destinatário. Num narrador que economiza cada palavra, uma coincidência dessas costuma ser assinatura. Ainda assim, o texto não comenta a simetria e não diz o que ela significa: se reparação, equilíbrio de dívida ou repetição de gesto convencional permanece em aberto.
O que significa "cortar uma aliança"?
É o idioma padrão do hebraico bíblico para firmar um pacto: karat berit, literalmente "cortar aliança". A explicação corrente remete ao rito dos animais partidos ao meio, entre cujas metades as partes passavam. Gênesis 15:9-18 descreve o rito, e Jeremias 34:18-20 explicita a lógica dele: quem passou entre as partes do bezerro e quebrou o combinado será tratado como o animal. Passar entre os pedaços é uma autoimprecação encenada.
Houve animais cortados nesta cena?
O texto não diz. Ele afirma que Abraão deu ovelhas e bois e que os dois cortaram aliança, sem descrever partição de animais. É plausível que o idioma estivesse cristalizado, como acontece com expressões que perdem a memória da origem; é igualmente plausível que o rito tenha ocorrido sem ser narrado. Não é possível decidir.
Qual a diferença entre aliança e contrato?
Um contrato regula uma transação: define objeto, preço e prazo, e se extingue quando cumprido. Uma berit estabelece uma relação: define como as partes se comportarão, é feita para durar, costuma alcançar descendentes e é garantida por juramento diante da divindade. É por isso que o vocabulário de aliança e o de família se misturam tanto na Bíblia hebraica, com parceiros tratando-se por irmão e a quebra sendo descrita com o vocabulário do adultério.
Por que o texto diz "ambos", se só Abraão jurou?
Essa é a tensão mais fina do versículo. O termo hebraico "os dois deles" é gramaticalmente dispensável, já que o verbo está no plural, e mesmo assim o narrador o acrescentou. No diálogo registrado, quem exigiu foi Abimeleque e quem jurou foi Abraão; o rei não assume obrigação alguma que o texto anote. Ou houve corte no relato, com a fala equivalente do rei omitida, ou o resumo é mais generoso do que os fatos. As duas hipóteses são plausíveis.
Esta é a primeira aliança entre pessoas na Bíblia?
É a primeira cuja celebração Gênesis narra. Antes disso, toda berit do livro tem Deus como parte: com Noé (6:18; 9:9-17) e com Abraão (15:18; 17:2-14). Em 14:13, Mamre, Escol e Aner são chamados de aliados de Abrão, mas o texto pressupõe o acordo sem descrever a celebração. Depois deste, virão Isaque e Abimeleque em 26:28-31 e Jacó e Labão em 31:44-54.
Abraão fez mal em firmar aliança com um rei estrangeiro?
O texto não sugere isso. Não há reprovação divina, não há consequência negativa, não há comentário do narrador. Existe, porém, uma tensão objetiva: o pacto incide sobre uma terra prometida à descendência de Abraão desde 12:7, e pressupõe o domínio de Gerar sobre ela. O livro registra a tensão sem resolvê-la, e o capítulo termina com Abraão morando muito tempo naquela terra, ainda estrangeiro.
Por que não há refeição, se os outros pactos do livro têm?
Realmente não há registro de mesa aqui, ao contrário de 26:30, onde Isaque prepara banquete e só no dia seguinte se jura, e de 31:54, onde Jacó oferece sacrifício e come pão com os parentes no monte. Silêncio narrativo não prova ausência — relatos resumem —, mas o contraste é visível, e quem lê os três episódios seguidos nota que este é o mais seco dos três.
O poço foi resolvido com esta aliança?
Não. A aliança é firmada e a titularidade do poço continua sem reconhecimento: o rei não o devolveu no versículo anterior e este versículo não trata do assunto. O narrador fecha a parte diplomática e reabre em seguida a questão material, que exigirá de Abraão um gesto adicional e de natureza diferente — não mais de presente, e sim de prova.
9. Conexão com Outros Textos
A cena espelhada
Gênesis 20:14 — "Então Abimeleque tomou ovelhas e bois, servos e servas, e os deu a Abraão; e lhe devolveu Sara, sua mulher." A frase que este versículo inverte quase palavra por palavra.
Gênesis 20:15 — "A minha terra está diante de você; more onde lhe parecer bem." O que acompanhou os presentes de Gerar e não tem contrapartida aqui.
Gênesis 20:16 — "Dei mil peças de prata a seu irmão." A parte da entrega original que não é retribuída.
Gênesis 12:16 — "Ele tratou bem a Abrão por causa dela; e este teve ovelhas, bois, jumentos, servos, servas, jumentas e camelos." O primeiro enriquecimento pelo mesmo expediente.
Gênesis 14:22-23 — "Não tomarei nada do que é seu, nem um fio nem uma correia de sandália, para que você não diga: Eu enriqueci Abrão." O escrúpulo declarado sobre dever riqueza a um rei.
Cortar uma aliança
Gênesis 15:9-10 — "Trouxe todos estes animais, partiu-os pelo meio e pôs cada metade em frente da outra." O rito descrito no próprio ciclo de Abraão.
Gênesis 15:17-18 — "Um fogareiro fumegante com uma tocha acesa passou por entre os pedaços... Naquele dia o SENHOR fez aliança com Abrão." O idioma e o rito juntos.
Jeremias 34:18-20 — "Os homens que passaram entre as partes do bezerro... eu os farei como o bezerro." A explicação da lógica do rito.
Êxodo 24:8 — "Este é o sangue da aliança que o SENHOR fez com vocês." O sangue como elemento de ratificação.
Alianças em Gênesis, antes desta
Gênesis 6:18 — "Mas com você estabelecerei a minha aliança." A primeira ocorrência do termo no livro.
Gênesis 9:12-17 — "Porei o meu arco nas nuvens, e ele será o sinal da aliança entre mim e a terra." A aliança com toda a carne.
Gênesis 17:2-7 — "Estabelecerei a minha aliança entre mim e você... aliança perpétua." A aliança da circuncisão.
Gênesis 14:13 — "Estes eram aliados de Abrão." A menção a um pacto humano cuja celebração o livro não narra.
Os pactos humanos seguintes
Gênesis 26:28-29 — "Vimos claramente que o SENHOR está com você... façamos um juramento entre nós." A cena repetida uma geração depois, com Isaque.
Gênesis 26:30-31 — "Então Isaque lhes preparou um banquete, e eles comeram e beberam. Na manhã seguinte juraram de parte a parte." A refeição que falta em Gênesis 21.
Gênesis 31:44 — "Venha, pois, e façamos aliança, eu e você, que sirva de testemunho entre nós." Jacó e Labão.
Gênesis 31:51-54 — O montão de pedras como testemunha, o limite que nenhum dos dois deve ultrapassar com má intenção, o sacrifício e o pão comido no monte.
A terra sobre a qual se pactua
Gênesis 12:7 — "À sua descendência darei esta terra." A promessa que o pacto atravessa sem mencionar.
Gênesis 15:18-21 — "À sua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates." As fronteiras declaradas.
Gênesis 21:34 — "E Abraão morou muito tempo na terra dos filisteus." O desfecho do capítulo, dentro do acordo firmado aqui.
Gênesis 23:4 — "Sou apenas um estrangeiro e peregrino entre vocês." A condição que o pacto não altera.
Rebanhos como riqueza e como preço
Gênesis 13:2 — "Abrão tinha se tornado muito rico em gado, prata e ouro." A composição do patrimônio que ele agora reparte.
Gênesis 24:35 — "O SENHOR abençoou muito o meu senhor... deu-lhe ovelhas e bois, prata e ouro." A mesma fórmula, no relato do servo.
Gênesis 32:13-15 — Jacó separa centenas de animais como presente para aplacar Esaú. O uso de rebanhos para comprar paz.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então Abraão tomou ovelhas e bois, deu-os a Abimeleque, e ambos fizeram uma aliança.
Texto hebraico
וַיִּקַּח אַבְרָהָם צֹאן וּבָקָר וַיִּתֵּן לַאֲבִימֶלֶךְ וַיִּכְרְתוּ שְׁנֵיהֶם בְּרִית
Transliteração
wa-yiqqach Avraham tson u-vaqar wa-yitten la-Avimelekh; wa-yikhretu sheneihem berit
Análise palavra por palavra
וַיִּקַּח — wa-yiqqach, "e tomou". Forma consecutiva do verbo laqach, que encadeia a narrativa. É exatamente a mesma forma que abre 20:14, ali com Abimeleque como sujeito.
אַבְרָהָם — Avraham, sujeito. A posição que, no versículo espelhado do capítulo anterior, era ocupada pelo nome do rei.
צֹאן וּבָקָר — tson u-vaqar, "rebanho miúdo e gado". Tson é um coletivo que cobre ovinos e caprinos sem distinção; vaqar designa o gado bovino. O par funciona como fórmula global para os animais de criação, e por extensão para a riqueza pastoril.
וַיִּתֵּן — wa-yitten, "e deu". Forma consecutiva de natan, o verbo mais geral do hebraico para dar. Cobre presentear, entregar, conceder, pagar e colocar — e é justamente essa amplitude que impede determinar a natureza da transferência.
לַאֲבִימֶלֶךְ — la-Avimelekh, "a Abimeleque". A preposição le marca o destinatário. Note-se a inversão exata em relação a 20:14, onde a mesma preposição introduzia o nome de Abraão.
וַיִּכְרְתוּ — wa-yikhretu, "e cortaram". Forma consecutiva plural de karat, "cortar". Com o objeto berit, forma o idioma padrão para firmar um pacto. O verbo é o mesmo empregado para cortar árvores, cortar fora um membro e extirpar alguém do meio do povo.
שְׁנֵיהֶם — sheneihem, "os dois deles". Numeral com sufixo pronominal. É dispensável, já que o verbo está no plural, e a presença dele afirma a paridade das partes.
בְּרִית — berit, "aliança, pacto, tratado". Substantivo feminino de etimologia discutida: propôs-se ligação com a raiz de cortar, com a ideia de comer — pela refeição de ratificação — e com um termo acádio que significa vínculo ou espaço entre. Não há consenso.
A simetria com 20:14
Vale dispor as duas construções lado a lado, porque a correspondência é quase perfeita.
Em 20:14: wa-yiqqach — Abimeleque — tson u-vaqar — wa-yitten — a Abraão.
Em 21:27: wa-yiqqach — Abraão — tson u-vaqar — wa-yitten — a Abimeleque.
Os verbos são idênticos e estão na mesma forma. O objeto é a mesma fórmula. As duas posições nominais trocam de ocupante. A única assimetria material é que o versículo do capítulo 20 acrescenta "servos e servas" à lista.
Esse tipo de espelhamento é recurso conhecido da narrativa hebraica, e o narrador de Gênesis o emprega com frequência sem nunca apontá-lo. Que a construção seja deliberada é altamente plausível; o que ela significa, o texto não diz.
Uma nota sobre a ordem das cláusulas
A frase tem três verbos em cadeia: tomou, deu, cortaram. Os dois primeiros têm sujeito singular; o terceiro, plural.
A progressão gramatical acompanha a progressão do sentido. Começa com a ação de um só — Abraão toma e Abraão dá — e termina com a ação conjunta. O versículo caminha do unilateral para o bilateral em três palavras verbais.
Cabe registrar que essa progressão é o único apoio textual à ideia de paridade no bloco inteiro. Nos versículos anteriores, a distribuição é claramente assimétrica: um exige, o outro jura. Aqui a gramática iguala.
11. Conclusão
O bloco diplomático termina como começou: com um gesto que só é plenamente legível para quem leu o capítulo anterior.
A frase de abertura é o decalque de 20:14, com os nomes trocados de posição. Mesmo verbo de tomar, mesma fórmula para os animais, mesmo verbo de dar. Antes, o rei entregava ao pastor; agora, o pastor entrega ao rei. Nada é comentado — o narrador reproduz a construção e passa adiante, contando com quem lê.
A retribuição, porém, não é integral. Em Gerar vieram também servos, servas, mil peças de prata e a oferta de terra; aqui vão apenas ovelhas e bois. Se isso é reparação parcial, gesto ritual, preço da paz ou presente de protocolo, o verbo escolhido não decide: natan serve igualmente para presentear, entregar e pagar.
Depois vem o idioma que a tradução apaga. Em hebraico não se faz uma aliança, corta-se uma aliança — e a expressão guarda a memória do rito em que animais eram partidos e as partes caminhavam entre as metades, invocando sobre si o destino do bicho em caso de quebra. Abraão passou por isso do outro lado, no escuro do capítulo 15. Aqui, nenhum corte é descrito; só a expressão permanece.
O que se firma não é um contrato, e a distinção importa. Uma berit não regula uma transação que se extingue ao ser cumprida: estabelece conduta futura, alcança descendentes e tem a divindade como garante. O conteúdo dela foi enunciado no versículo 23 e é de não agressão e boa vizinhança.
A última palavra do versículo hebraico antes de berit é a mais reveladora. "Os dois deles" é dispensável, e o narrador o escreveu — declarando paridade num bloco em que um exigiu e o outro jurou, sem que o rei se comprometesse com nada que o texto registre. Ou o relato foi resumido, ou o resumo é mais generoso do que os fatos.
Fica ainda um dado de composição que merece nota. Até aqui, toda aliança de Gênesis tinha Deus como parte. Esta é a primeira cuja celebração o livro narra entre dois seres humanos — e quem a corta é justamente o homem que já é parte de duas alianças divinas, sobre uma terra que a promessa destina aos descendentes dele. O narrador não comenta a tensão, e o capítulo terminará com Abraão morando muito tempo ali, estrangeiro e em paz.













