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Êxodo 15:25

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 16 acessos
Ele clamou ao SENHOR, e o SENHOR lhe mostrou um lenho; ele o jogou nas águas, e as águas ficaram doces. Ali lhe pôs estatuto e direito, e ali o pôs à prova.
Moisés, de pé à beira de uma fonte rasa no deserto, lança um pedaço de madeira na água enquanto o povo, cansado e sedento, observa ao redor sob o sol forte.

Estudo


Ele clamou ao SENHOR, e o SENHOR lhe mostrou um lenho; ele o jogou nas águas, e as águas ficaram doces. Ali lhe pôs estatuto e direito, e ali o pôs à prova.

1. Introdução

O povo reclamou, e Moisés não discutiu com o povo: clamou a Deus. A resposta não é um milagre feito de longe, e sim uma instrução — o verbo hebraico que a ABC traduz por "mostrou" é o mesmo de onde vem a palavra Torá, e o que Deus ensina a Moisés é um pedaço de madeira.

Que madeira era essa, e se ela adoçava a água por virtude própria, foi discutido por rabinos, viajantes e botânicos, e um sábio de Jerusalém do século II antes de Cristo usou este versículo para defender os médicos.

Na segunda metade, sem transição, o texto diz que "ali" Deus deu estatuto e direito — sem dizer qual — e que "ali" pôs o povo à prova.

É a primeira lei dada a Israel depois do mar, e o versículo não a transcreve.

2. Contexto Histórico e Cultural

Plantas que adoçam a água: o que os viajantes procuraram em Mara

A ideia de que uma planta posta na água a torna bebível não é absurda, e os comentaristas do século XIX foram procurá-la. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) junta exemplos da Índia, da Flórida e do Peru. Nenhuma dessas plantas cresce no Sinai.

O primeiro a propor uma planta do próprio lugar foi Johann Ludwig Burckhardt (viajante suíço que percorreu o Oriente Próximo disfarçado de muçulmano e morreu no Cairo em 1817). Em 1816 ele passou pela fonte que muitos identificam com Mara e sugeriu as bagas do gharqad (arbusto espinhoso e baixo do deserto, de bagas vermelhas, que cresce em volta das fontes salobras). O Pulpit levanta três objeções: o texto fala de um lenho, não de bagas; em abril, quando Israel teria passado por ali, as bagas não estão maduras; e o efeito delas sobre a água salobra, se existe, é pequeno demais.

Edward Robinson (geógrafo bíblico norte-americano, que percorreu o Sinai e a Palestina em 1838) perguntou aos beduínos e não encontrou ninguém que conhecesse uma planta com esse poder. Mais tarde, Ferdinand de Lesseps (o diplomata francês do canal de Suez) disse que os nômades usavam uma espécie de bérberis — informação de segunda mão, registrada por August Dillmann (comentarista alemão do Pentateuco, século XIX) e nunca confirmada.

O saldo é modesto: há plantas que clareiam a água turva, mas não se conhece nenhuma que tire de uma fonte o amargor dos sais dissolvidos. Os que procuraram a planta acabaram falando de uma árvore hoje extinta ou de um efeito que a madeira sozinha não explica.

O versículo citado em defesa dos médicos

O uso mais antigo deste versículo fora do Pentateuco não é teológico: é médico. Por volta de 180 antes de Cristo, Jesus ben Sira, um mestre de Jerusalém, escreveu um livro de conselhos que os cristãos conhecem como Eclesiástico (ou Sirácida) e que o neto dele traduziu para o grego no Egito, décadas depois. O original hebraico ficou perdido por séculos; boa parte dele reapareceu a partir de 1896, em folhas achadas no depósito de manuscritos de uma sinagoga do Cairo.

O capítulo 38 abre com um elogio do médico: honre o médico antes de precisar dele, porque também ele foi criado por Deus. E então vem o argumento: "O Senhor faz sair da terra os remédios, e o homem prudente não os despreza. Não foi a água adoçada por um lenho, para que se conhecesse a sua força?" (Eclesiástico 38:4-5).

Ben Sira lê Mara como prova de que Deus pôs poder de cura nas coisas da terra. O lenho não é só um sinal: é um remédio, e o remédio é obra de Deus. Quem usa o que a terra dá não desconfia de Deus — usa o que ele criou.

A frase tem uma ambiguidade que o hebraico e o grego mantêm: "a sua força" é a força do lenho ou a força de Deus? O manuscrito hebraico traz, à margem, a variante "a força deles", que puxa a frase para os remédios. A dúvida é exatamente a dos comentaristas de Mara: a virtude estava na madeira ou em quem a mostrou?

O resto do capítulo mostra que o assunto era disputado. Ben Sira manda o doente orar, purificar-se e oferecer sacrifício (Eclesiástico 38:9-11) e, em seguida, "dar lugar ao médico" (Eclesiástico 38:12). E o fecho do trecho, no grego, soa quase como ameaça: "quem peca diante do seu Criador caia nas mãos do médico" (Eclesiástico 38:15). Ben Sira defende o médico contra alguém — contra uma piedade que via no recurso à medicina falta de confiança em Deus. O retrato desfavorável dos médicos em outros livros da Bíblia está no estudo de Gênesis 50:2.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ele clamou ao SENHOR"

O povo se dirigiu a Moisés com uma queixa; Moisés não responde ao povo. Vira-se para Deus. É a primeira cena do deserto e já tem a forma que se repetirá dezenas de vezes: o povo contra Moisés, Moisés diante de Deus.

Há um contraste com o capítulo anterior. Na beira do mar, Deus perguntou a Moisés: "Por que você clama a mim? Diga aos filhos de Israel que marchem" (Êxodo 14:15). Ali o clamor foi tratado como hora errada para rezar; aqui o mesmo verbo traz a resposta. O texto não explica a diferença. A mais simples é que diante do mar a saída já estava dada, e diante da água amarga não estava.

"e o SENHOR lhe mostrou um lenho"

O verbo hebraico não é o comum de "mostrar". É o verbo de ensinar, o mesmo de onde vem a palavra Torá ("instrução"). Ao pé da letra: "o SENHOR o ensinou um lenho". A história da interpretação gira em torno dessa escolha, e as respostas se dividem em quatro.

Primeira leitura: Deus ensinou a Moisés uma propriedade natural. É a de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII): se o verbo é de instrução, a árvore tinha uma virtude de adoçar a água, e Deus a revelou a quem não a conhecia. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) diz o mesmo com mais candura: Deus tinha outros meios, mas quis ensinar a Moisés um pouco de química. Nessa leitura o remédio estava ao alcance; faltava saber.

Segunda leitura: o lenho era amargo, e o milagre foi dobrado. A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) registra os palpites: um salgueiro (Rabi Yehoshua), uma oliveira, "porque não há nada mais amargo que a oliveira" (Rabi Elazar de Modiin), um loendro, de folhas venenosas (Rabi Yehoshua ben Korcha), um cedro (Rabi Natan), raízes de figueira e de romãzeira (outros). Rabban Shimon ben Gamliel tira a regra: o ser humano cura o amargo com o doce; Deus cura o amargo com o amargo — põe o que estraga dentro do que está estragado, para fazer ali o milagre. Os exemplos são a pasta de figos de Isaías sobre a úlcera de Ezequias (Isaías 38:21) e o sal de Eliseu na fonte de Jericó (2 Reis 2:21). A paráfrase aramaica chamada Pseudo-Jônatas escolhe o loendro e acrescenta um gesto que o hebraico não tem: Moisés escreve sobre o lenho o Nome de Deus antes de jogá-lo. O milagre passa da planta para o Nome.

Terceira leitura: o lenho era a Torá. Na edição hebraica da Mekhilta, Rabi Shimon ben Yochai lê a própria forma do verbo: o texto não diz "e lhe fez ver", diz "e lhe ensinou", como em Provérbios 4:4. E os intérpretes de alegorias lembram que a sabedoria "é árvore de vida para os que a seguram" (Provérbios 3:18). Como a mesma Mekhilta já tinha lido os três dias sem água como três dias sem Torá, o remédio de Mara foi uma palavra.

Quarta leitura: não se sabe, e foi milagre. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) escreve secamente: "não sabemos que árvore era". E pensa como quem conhece fontes: se a água fosse parada, um remédio poderia tratá-la; mas água que corre leva embora o que foi tratado e traz água amarga nova. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) põem o poder na palavra que designou a madeira, não na madeira. Sforno (Obadias Sforno, comentarista italiano do século XVI) leva a ideia ao extremo: todas as árvores do mundo num pouco de água não fariam nada; um graveto, se Deus quisesse, adoçaria o oceano.

O texto não decide entre as quatro. O que ele fixa é a ordem: clamor, instrução, gesto humano, resultado. Nas pragas, Deus mudava a água diretamente. Aqui ensina, e Moisés faz.

"ele o jogou nas águas, e as águas ficaram doces"

O gesto é o de jogar longe — o mesmo verbo com que Faraó mandou jogar os meninos no Nilo (Êxodo 1:22). O livro começou com crianças jogadas na água para morrer; aqui se joga na água o que a torna boa de beber. Nada indica que o texto pense no paralelo; ele vale como observação de leitor.

"Águas" vem duas vezes seguidas, e Rabi Elazar de Modiin tirou daí que eram amargas desde sempre, contra Rabi Yehoshua, para quem tinham ficado amargas por um tempo. O texto não diz por quanto tempo a fonte ficou doce; o nome Mara, "amarga", continuou.

"Ali lhe pôs estatuto e direito"

A frase entra sem aviso. Não há "o SENHOR falou a Moisés", não há conteúdo. Nachmânides estranhou: em todos os outros lugares em que Deus dá leis, o texto as escreve.

A tradição rabínica respondeu enchendo o rótulo. Na Mekhilta, Rabi Yehoshua diz que "estatuto" é o sábado e "direito" é a honra devida a pai e mãe; Rabi Elazar de Modiin, que "estatuto" são as proibições de relações sexuais e "direito" as leis de estupro, multas e lesões. O Talmude Babilônico (Sanhedrin 56b) conta dez mandamentos em Mara: os sete dados a todos os descendentes de Noé, mais três — os tribunais, o sábado e a honra aos pais. A prova é engenhosa: no Deuteronômio, o sábado e a honra aos pais vêm com o acréscimo "como o SENHOR, seu Deus, lhe ordenou" (Deuteronômio 5:12, 16), e Rav Yehuda completa: "ordenou em Mara". Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) põe na lista o sábado, a vaca vermelha e as leis civis; Chizkuni observa que para a vaca vermelha não há fonte anterior a Rashi.

A resposta da letra é outra. Nachmânides propõe que aqui "estatuto e direito" não sejam leis da Torá, e sim normas de convivência para a travessia: preparar-se para a fome e a sede, orar em vez de murmurar, obedecer aos anciãos, respeitar as mulheres nas tendas, tratar em paz os estrangeiros que viessem vender ao acampamento. O apoio é Josué 24:25, onde Josué também "pôs estatuto e direito" ao povo em Siquém, e o par designa regras de uma sociedade, não artigos do Sinai.

Quem pôs? O hebraico diz só "pôs", e "lhe", no singular. Ibn Ezra entende que Deus pôs para Israel; a leitura de Nachmânides permite que tenha sido Moisés. E "lhe" é o povo tomado como uma pessoa só, segundo Rashi. A ABC conserva as duas ambiguidades.

"e ali o pôs à prova"

O segundo "ali" separa a prova da lei, e cada comentarista leu a prova de um jeito. Para Rashi, a prova foi a sede, e o resultado foi ruim: o povo reclamou em vez de pedir a Moisés que rezasse. Para Ibn Ezra e Nachmânides, a prova foi o próprio caminho sem água, como o Deuteronômio dirá dos quarenta anos (Deuteronômio 8:2-3, 16). Sforno a afina: em crise, todo mundo aceita regra; a prova era saber se a aceitariam quando a crise passasse. Rabi Yehoshua chegou a ler "o elevou", e a Mekhilta registra a resposta de Rabi Elazar de Modiin: "elevar" se escreve com outra letra.

O sentido do verbo de provar, com as suas ocorrências, está no estudo de Gênesis 22:1. O que é deste versículo é a sequência: a prova vem depois da água. O povo já bebeu quando o texto diz que foi provado.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés — aparece aqui pela primeira vez no papel que vai ocupar até o fim do Pentateuco: o homem entre um povo que reclama e um Deus que responde. Não se defende das queixas e não as transmite a Deus como acusação; pede. O hebraico nem diz o nome dele neste versículo — o sujeito de "clamou" e de "lançou" se deduz do verso anterior.

O SENHOR — age por instrução, não por intervenção direta. Nas pragas, o próprio Deus mudava a água; aqui ele ensina um meio e deixa o gesto ao homem.

O povo — referido no fim do versículo só por um pronome no singular ("lhe", "o"): Israel como uma pessoa só, que recebe a lei e é provada.

Mara — a fonte de água amarga a três dias do mar, primeiro ponto de parada nomeado depois da travessia. O nome e a identificação do lugar estão no estudo de Êxodo 15:23.

Os sábios citados — Rabi Yehoshua e Rabi Elazar de Modiin, mestres da Terra de Israel do fim do século I e começo do II, discordam sobre quase cada palavra deste trecho na Mekhilta; o segundo morreu, segundo a tradição, no cerco de Betar, em 135.

O acontecimento — o primeiro milagre do deserto e a primeira lei depois do mar, no mesmo versículo e no mesmo lugar. Na ordem do livro, Mara abre a série dos problemas de água e de comida que vai do maná (Êxodo 16) à água da rocha em Refidim (Êxodo 17:1-7). Em Refidim a direção da prova se inverte: ali é o povo que "põe o SENHOR à prova", e o lugar ganha o nome de Massá, "prova".

5. Pontos de Ensino

A queixa e a oração começam do mesmo ponto. O povo e Moisés têm o mesmo problema — não há água que se beba. A diferença está em para onde cada um se vira. O texto não condena a sede; mostra duas respostas a ela.

A resposta de Deus é uma instrução. O verbo escolhido é o de ensinar. Deus não dissolve o problema de longe: indica um meio e espera que alguém o use. Quem ensina o versículo pode mostrar que a ação humana não foi dispensada — foi orientada.

O texto não diz que madeira era. Todas as identificações, antigas e modernas, são palpites. A lista da Mekhilta mostra como os rabinos liam: a oliveira e o loendro, amargos, fazem do milagre um paradoxo; o cedro e a figueira, não.

A primeira lei vem sem texto. O versículo diz que houve estatuto e direito, e cala o conteúdo. Toda a discussão sobre o que foi dado em Mara — sábado, honra aos pais, tribunais, normas de acampamento — é tentativa de preencher esse vazio. Ensinar o versículo é mostrar o vazio, e não escolher uma resposta como se fosse do texto.

A prova vem depois do socorro. Deus primeiro dá água e depois prova. A ordem desfaz a ideia de que a provação é condição para receber ajuda: aqui ela é o que vem com a ajuda recebida.

A cena é pequena, e o vocabulário é grande. Ensinar, estatuto, direito, provar: quatro palavras da aliança numa parada de beira de estrada, semanas antes do Sinai.

6. Aspectos Filosóficos

Uma lei sem conteúdo: regra ou princípio?

O versículo junta duas palavras para o que Deus deu em Mara: estatuto e direito. A tradição judaica fez dessas duas palavras duas categorias de lei. O Talmude (Yoma 67b) define: "direitos" são as normas que, se não estivessem escritas, mereceriam ser escritas — não matar, não roubar; "estatutos" são as que a razão não explica e que o impulso mau contesta — não comer porco, não vestir lã misturada com linho. Rashi aplica a distinção ao versículo seguinte e acrescenta à lista a vaca vermelha. Daí a pergunta: o que é uma lei que se obedece sem entender, e o que é uma lei que se entende?

Ronald Dworkin (filósofo do direito norte-americano, 1931-2013, professor em Oxford e em Nova York) passou a vida discutindo uma pergunta vizinha: o direito é feito só de regras, ou também de outra coisa?

Regras e princípios

No ensaio "O modelo de regras" (1967, depois reunido em Levando os direitos a sério, 1977), Dworkin distingue dois tipos de norma. A regra funciona no modo tudo ou nada: se os fatos que ela prevê acontecem, ela se aplica, e pronto. O limite de velocidade é 80; quem passou de 80 infringiu. O princípio funciona de outro jeito: tem peso. Pode ceder diante de outro princípio num caso e prevalecer em outro, sem deixar de valer.

O exemplo mais famoso do ensaio é um processo de Nova York de 1889. Um neto envenenou o avô para receber a herança antes que o testamento fosse mudado. Todas as regras sobre testamentos davam o dinheiro ao neto. O tribunal negou, invocando um princípio que não estava escrito em lei nenhuma: ninguém pode lucrar com a própria fraude. Para Dworkin, o caso mostra que os juízes não aplicam só regras; aplicam princípios que fazem parte do direito mesmo sem estar promulgados, e que dão sentido às regras.

Como isso ilumina Mara

A distinção rabínica e a de Dworkin não coincidem. O "estatuto" rabínico se parece com a regra no fato de não pedir justificativa, mas o que o define é a falta de razão aparente, não a forma de aplicação. O "direito" se parece com o princípio por ser compreensível, mas na Torá ele é também regra detalhada. Forçar a correspondência seria atribuir ao texto uma teoria que ele não tem.

Onde Dworkin ajuda é na pergunta sobre o vazio do versículo. A lei de Mara não tem conteúdo escrito. Se fosse só regra, isso seria um defeito grave: regra sem texto não se aplica. Mas a leitura de Nachmânides — normas de convivência para o caminho, ensinadas antes do código — descreve algo muito parecido com o que Dworkin chama de princípios: orientações que existem antes das regras e que vão dar sentido a elas. Orar em vez de murmurar, ouvir os anciãos, tratar em paz o estrangeiro: nada disso é artigo de código, e tudo isso é direito.

O limite

Dworkin escrevia sobre sistemas jurídicos modernos, com tribunais, juízes profissionais e constituições. Nada disso existe no deserto de Sur. O que a comparação mostra é uma possibilidade de leitura, não uma tese do texto: que a primeira "lei" de Israel pode ter sido menos um regulamento do que um modo de viver juntos, e que a tradição a preencheu com regras porque regra é o que se consegue escrever.

7. Aplicações Práticas

Para onde se leva uma queixa. O versículo começa com duas reações à mesma falta de água: o povo reclama com o líder; o líder leva o problema adiante. Quem administra um grupo — uma família, uma equipe, uma comunidade — conhece a cena. A queixa justa contra quem está à frente costuma vir na forma de acusação, e a tentação de quem é acusado é defender-se. Moisés não se defende. A aplicação é modesta e real: diante de uma reclamação, a pergunta útil é o que resolve o problema, não quem tem razão.

O remédio que alguém precisa mostrar. Na leitura de Nachmânides, a solução estava ali, numa árvore do lugar, e faltava quem soubesse. Boa parte das dificuldades práticas tem esse formato: não falta recurso, falta conhecimento. Pedir orientação — a Deus, na oração, e a quem sabe, no ofício — não é sinal de fraqueza; é o que Moisés faz.

Regras aceitas na crise e regras vividas na calma. A observação de Sforno serve fora do deserto. Em hora de aperto, qualquer pessoa promete mudar de vida, aceita disciplina, faz voto. A prova é o que fica dessas promessas quando a água já está doce. O versículo põe a prova depois do socorro, e é aí que ela costuma vir.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se a água ficou doce, por que o lugar continuou se chamando Mara?

Porque o nome guarda a primeira impressão, não o desfecho. O texto deu o nome em Êxodo 15:23, antes do milagre, e não o troca depois. Lugares da Bíblia costumam ser batizados pelo problema — Massá, Meribá, Quibrote-Hataavá — e não pela solução.

Moisés teve de fazer alguma coisa, ou bastava rezar?

O texto põe as duas coisas em sequência: ele clamou, e depois lançou o lenho. A água não ficou doce com a oração; ficou doce depois do gesto que a resposta à oração indicou. Por que Deus quis um gesto, o texto não diz. Os comentaristas que pensam num remédio natural acham isso óbvio; os que pensam num milagre puro tratam o gesto como sinal.

O povo sabia que estava sendo provado?

Nada indica que sim. O texto informa a prova ao leitor, depois do fato, como fez com Abraão. Para o povo, houve sede, queixa e água.

A lei de Mara é a mesma do Sinai?

Há duas posições antigas. Para o Talmude e para Rashi, em Mara foram dadas, por antecipação, algumas leis que depois apareceriam no Sinai — o sábado sobretudo, e o maná, no capítulo seguinte, de fato pressupõe uma regra de sábado já conhecida (Êxodo 16:23). Para Nachmânides, na leitura literal, eram normas de acampamento e não leis da Torá. O versículo não permite decidir.

9. Conexão com Outros Textos

A outra fonte curada: Eliseu em Jericó

2 Reis 2:21 — "Ele foi até a nascente das águas, jogou ali o sal e disse: 'Assim diz o SENHOR: Curei estas águas; não haverá mais delas morte nem aborto.'"

A cena gêmea de Mara: uma fonte imprestável, um objeto jogado na água, a água boa. Eliseu escolhe o sal, que estraga água boa — por isso a Mekhilta junta os dois episódios. E o verbo de Jericó é "curar", aplicado à água, o mesmo com que Deus se apresenta em Êxodo 15:26.

O mesmo verbo de ensinar

Gênesis 46:28 — "E Jacó enviou Judá adiante de si a José, para que este o encaminhasse a Gósen; e chegaram à terra de Gósen."

"Encaminhar" é o mesmo verbo de "mostrou" em Mara. O campo duplo da raiz — atirar e ensinar — está exposto no estudo daquele versículo.

Estatuto e direito postos por um líder

Josué 24:25 — "Naquele dia Josué fez aliança com o povo e lhe pôs estatuto e direito em Siquém."

1 Samuel 30:25 — "E daquele dia em diante ele fez disso estatuto e direito para Israel, até o dia de hoje."

As duas outras vezes em que o par aparece assim, no singular. Em ambas, quem estabelece a norma é um líder diante de uma situação concreta — a aliança renovada, a partilha do despojo de Davi. É o apoio de Nachmânides para ler Mara como normas de convivência.

A prova explicada depois

Êxodo 16:4 — "Então o SENHOR disse a Moisés: Eis que farei chover pão do céu para vocês; o povo sairá e recolherá a porção de cada dia no seu dia, para que eu o ponha à prova, se anda na minha lei ou não."

No maná, o vínculo entre prova e lei, que Mara só menciona, fica explícito.

Água mostrada no deserto

Gênesis 21:19 — "Então Deus abriu os olhos dela, e ela viu um poço de água; foi, encheu o odre de água e deu de beber ao menino."

Deus não cria a água de Agar; faz ver a que já estava lá. É o modelo mais próximo da leitura natural de Mara.

A leitura cristã: o lenho e a cruz

É a única leitura cristã que o estudo deste capítulo acolhe, porque é antiga e porque nasce de uma palavra. A Septuaginta traduziu o "lenho" de Mara por xýlon ("madeira, lenho"), e é com essa palavra que o Novo Testamento chama a cruz.

1 Pedro 2:24 — "Ele mesmo levou os nossos pecados no seu corpo sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, vivêssemos para a justiça; pelas suas feridas vocês foram curados."

O texto junta, sem citar Mara, as duas coisas que Êxodo 15:25-26 junta: um lenho e uma cura.

A ligação explícita vem no século II. Justino (Justino Mártir, apologista cristão morto em Roma por volta de 165), no Diálogo com Trifão 86, faz uma lista dos "lenhos" do Antigo Testamento que prefiguram a cruz, e põe nela o lenho lançado nas águas amargas de Mara ao lado do pau que Eliseu jogou no Jordão para fazer flutuar o ferro do machado (2 Reis 6:6). No século IV, Ambrósio de Milão (o bispo que batizou Agostinho), em Sobre os mistérios 3.14, aplica Mara ao batismo: a água sem a pregação da cruz não serve à salvação; consagrada pela cruz, torna-se banho espiritual. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) repete a figura: a cruz adoça as águas amargas da aflição.

A leitura é tipológica — vê no episódio uma figura de outro, posterior — e não é o sentido do Êxodo, que não pensa em cruz nenhuma. O Pulpit Commentary achou que ela tinha "sabor de misticismo", e Keil e Delitzsch, que arriscaram ligar o lenho à árvore da vida (Gênesis 2:9), disseram que a ligação "não pode ser tida como estabelecida". O que se pode afirmar é que a palavra grega permitiu a ponte e que a Igreja antiga a atravessou cedo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Ele clamou ao SENHOR, e o SENHOR lhe mostrou um lenho; ele o jogou nas águas, e as águas ficaram doces. Ali lhe pôs estatuto e direito, e ali o pôs à prova.

Texto hebraico

וַיִּצְעַק אֶל־יְהוָה וַיּוֹרֵהוּ יְהוָה עֵץ וַיַּשְׁלֵךְ אֶל־הַמַּיִם וַיִּמְתְּקוּ הַמָּיִם שָׁם שָׂם לוֹ חֹק וּמִשְׁפָּט וְשָׁם נִסָּהוּ׃

Transliteração

va-yits'aq el-YHWH, va-yorehu YHWH ets, va-yashlekh el-ha-mayim, va-yimteqú ha-máyim; sham sam lo choq u-mishpat, ve-sham nissahu.

Análise palavra por palavra

וַיִּצְעַק — va-yits'aq, "e clamou".

Qal — a forma simples e ativa do verbo hebraico —, terceira pessoa do masculino singular, da raiz ts-'-q, gritar por socorro: o verbo do povo diante do mar (Êxodo 14:10, 15). O sujeito não é nomeado; o leitor o tira de Êxodo 15:24.

וַיּוֹרֵהוּ — va-yorehu, "e lhe mostrou", "e o ensinou".

Hifil — a forma causativa do verbo hebraico —, terceira pessoa do masculino singular, com o sufixo "-hu", "o, a ele", da raiz y-r-h. É a palavra que governa o versículo.

A mesma raiz aparece duas vezes no capítulo, com os dois sentidos que ela tem. Em Êxodo 15:4, no Qal, é atirar: o SENHOR "arremessou" ao mar os carros de Faraó. Aqui, no Hifil, é apontar, indicar, ensinar — e é desse uso que vem torah, "instrução", e moreh, "mestre". O cântico usa a raiz para o que Deus lança contra o inimigo; a prosa de Mara, para o que ele ensina ao seu servo.

O Hifil de y-r-h quase nunca quer dizer simplesmente "fazer ver". Para isso o hebraico tem outra palavra, o Hifil de ra'ah, "ver" — a que daria vayar'ehu, "e lhe fez ver". As duas formas diferem por uma letra, e foi essa diferença que Rabi Shimon ben Yochai leu na Mekhilta. O Hifil de y-r-h com pessoa por objeto é ensinar: os levitas "ensinarão os teus juízos a Jacó" (Deuteronômio 33:10); "ele me ensinava" (Provérbios 4:4); "que ele nos ensine os seus caminhos" (Isaías 2:3). A construção aqui tem dois objetos — a pessoa ("o") e a coisa ("um lenho") —, como "ensinar a alguém alguma coisa".

As traduções antigas perderam isso: a Septuaginta escreveu édeixen e a Vulgata ostendit, ambos "mostrou", e as versões portuguesas seguiram.

עֵץ — ets, "um lenho".

Substantivo masculino singular, sem artigo. O hebraico usa a mesma palavra para a árvore em pé e para a madeira cortada: a "árvore da vida" de Gênesis 2:9 e a "lenha" do holocausto de Gênesis 22:3 e 22:6. A falta de artigo diz que é uma madeira qualquer, não "a" árvore conhecida de alguém. A ABC escolheu "lenho" porque guarda os dois sentidos.

וַיַּשְׁלֵךְ — va-yashlekh, "e jogou".

Hifil da raiz sh-l-kh, jogar, atirar longe: o verbo de Faraó em Êxodo 1:22 ("joguem no Nilo") e o do cajado em Êxodo 4:3.

אֶל־הַמַּיִם — el-ha-mayim, "nas águas". Mayim só existe no plural; "as águas" é o modo normal de dizer "a água".

וַיִּמְתְּקוּ — va-yimteqú, "e ficaram doces".

Qal, terceira pessoa do masculino plural, da raiz m-t-q, ser doce. Verbo de estado: as águas não "foram adoçadas", ficaram doces. A raiz dá o adjetivo do enigma de Sansão, "do forte saiu o doce" (Juízes 14:14), e o das "águas roubadas são doces" de Provérbios 9:17. O par doce/amargo é o de Isaías 5:20: "ai dos que fazem do amargo doce e do doce amargo".

הַמָּיִם — ha-máyim, "as águas". A segunda ocorrência seguida, com a vogal alongada da pausa no meio do versículo.

שָׁם שָׂם — sham sam, "ali pôs".

Duas palavras que soam quase iguais e se escrevem com letras diferentes: sham, "ali", com shin; sam, "pôs", com sin, Qal perfeito da raiz s-y-m. O jogo de som amarra o lugar ao ato: "ali" e "pôs" ficam colados. O verbo sim reaparece duas vezes no versículo seguinte, com a doença por objeto; a relação entre os três usos está no estudo de Êxodo 15:26.

לוֹ — lo, "lhe". Preposição com sufixo de terceira pessoa do masculino singular: o povo tratado como um só.

חֹק — choq, "estatuto".

Substantivo masculino singular, da raiz de gravar, o que foi fixado por autoridade. A Septuaginta pôs no plural, dikaiómata, "preceitos", e com isso transformou uma norma em código.

וּמִשְׁפָּט — u-mishpat, "e direito".

Conjunção e substantivo masculino singular, da raiz sh-f-t, julgar. Designa o juízo, a decisão justa, a norma que resulta dela e também o costume, o "jeito" de fazer: em 1 Samuel 27:11, "assim foi o mishpat dele" quer dizer "assim era o costume dele". É nesse último sentido que Nachmânides se apoia para ler aqui normas de vida, e não artigos de lei. A Septuaginta também o pluraliza: kríseis.

וְשָׁם — ve-sham, "e ali". O hebraico podia ter escrito "pôs-lhe estatuto e direito e o provou"; escreveu "ali… e ali", e a repetição separa a lei da prova.

נִסָּהוּ — nissahu, "o pôs à prova".

Piel — a forma intensiva do verbo hebraico —, perfeito, terceira pessoa do masculino singular, com sufixo de objeto, da raiz n-s-h, testar. A grafia com samekh é o argumento de Rabi Elazar de Modiin contra a leitura "o elevou", que pediria a raiz n-s-', com shin. A Septuaginta traduziu epeírasen, o mesmo verbo grego de "tentar" no Novo Testamento.

11. Conclusão

O que se conclui deste versículo vai em quatro direções.

A primeira resposta de Deus no deserto é ensino, não espetáculo. O verbo escolhido para o gesto divino é o da instrução, e a água só muda depois que um homem faz o que aprendeu. Qualquer leitura que transforme Mara num milagre em que o ser humano assiste parado precisa passar por cima da gramática.

A natureza do remédio ficou em aberto, e essa abertura foi fecunda. Como o texto não diz se a madeira tinha virtude própria, ele serviu tanto a Ben Sira, que defendeu os médicos com ele, quanto aos rabinos que viram ali Deus curando pelo avesso do remédio. As duas leituras são legítimas, e nenhuma é a do texto.

A lei de Israel, no relato do Êxodo, começa antes do Sinai e sem texto. "Estatuto e direito" são nomeados e não transcritos. O que se pode afirmar é só isto: houve uma norma, posta num lugar concreto, ligada a uma crise concreta. O conteúdo — sábado, tribunais, honra aos pais, regras de acampamento — é reconstrução, antiga e respeitável, mas reconstrução.

A prova não condiciona o socorro; acompanha-o. O povo bebeu antes de ser provado. O versículo não descreve um Deus que exige aprovação para dar água, e sim um Deus que dá água e, ali mesmo, começa a formar um povo.

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Êxodo 15:25

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