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Mateus 21:24

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 32 acessos
Respondeu Jesus: “Eu também farei uma pergunta a vocês. Se me responderem, também eu direi com que autoridade faço estas coisas.
No pátio do templo de Jerusalém, Jesus, de pé e calmo, ergue a mão enquanto faz uma pergunta a um grupo de sacerdotes e anciãos que se entreolham, hesitantes; ao redor, peregrinos observam a cena.

Estudo


Respondeu Jesus: “Eu também farei uma pergunta a vocês. Se me responderem, também eu direi com que autoridade faço estas coisas.

1. Introdução

Perguntado sobre a sua autoridade, Jesus não responde: propõe uma troca. Ele também fará uma pergunta, uma só, e se eles responderem, ele dirá com que autoridade age.

Devolver uma pergunta com outra era um movimento conhecido nos debates dos mestres judeus e nos tribunais gregos, e não soava como fuga.

Mateus dá à contra-pergunta a forma de um acordo, onde Marcos tinha uma ordem.

E a pergunta que virá, sobre o batismo de João, é a segunda pergunta dos chefes — "quem lhe deu?" — devolvida a eles e aplicada a outro homem.

2. Contexto Histórico e Cultural

A contra-pergunta nos debates dos mestres judeus

A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) guarda, no fim do tratado Yadayim (4:6-8), uma série de discussões entre fariseus e saduceus, os dois partidos que disputavam a interpretação da Lei no tempo do segundo templo. Elas mostram, em miniatura, como se debatia.

Os saduceus acusam: "Nós nos queixamos de vocês, fariseus, porque dizem que as Sagradas Escrituras tornam impuras as mãos, e os livros de Homero não". A regra parecia absurda: tocar no rolo sagrado deixava a pessoa impura, e tocar num livro pagão, não.

Rabban Yohanan ben Zakkai, que respondeu pelos fariseus, não defendeu a regra. Devolveu outra: "Eles também dizem que os ossos de um jumento são puros, e os ossos de Yohanan, o sumo sacerdote, são impuros". Os saduceus aceitavam essa segunda regra, e explicaram: a impureza dos ossos humanos é proporcional ao apreço por eles, para que ninguém faça colheres com os ossos do pai ou da mãe. Então Yohanan fechou: "Assim também as Sagradas Escrituras: a impureza delas é proporcional ao apreço por elas".

A técnica é exatamente a que se vê em Mateus 21:24. Em vez de defender a própria posição, quem é atacado apresenta um caso que o adversário já aceita e que tem a mesma estrutura do caso em disputa. O adversário, ao explicar o seu caso, explica o do outro. E a escolha do exemplo não é inocente: Yohanan usa os ossos de um sumo sacerdote para responder a um partido de famílias sacerdotais.

Na mishná seguinte (Yadayim 4:7), o formato aparece nos dois sentidos: "Nós nos queixamos de vocês, saduceus...", e a acusação é devolvida com a mesma fórmula. A queixa respondida com outra queixa era uma forma regular de debate, registrada como tal. Que esse tipo de resposta não era desaforo, no ambiente judaico, foi mostrado no estudo de Mateus 15:3.

A ética de quem pergunta

O tratado Pirkei Avot ("Capítulos dos Pais", a coleção de ditos dos mestres judeus que faz parte da Mishná), em 5:7, lista sete traços do sábio e sete do tolo. O sábio não fala diante de quem é maior em sabedoria; não interrompe o outro; não se apressa em responder; pergunta o que é pertinente e responde ao ponto; trata do primeiro assunto primeiro e do último por último; sobre o que não ouviu, diz "não ouvi"; e reconhece a verdade. O tolo faz o contrário.

A lista ajuda a ler a cena inteira de Mateus 21:23-27 como um teste de conduta. Jesus pergunta "o que é pertinente": a pergunta sobre João não muda de assunto, é o mesmo assunto em outro caso. E quando os chefes, três versículos adiante, disserem "não sabemos", estarão usando a fórmula do sábio — "não ouvi" — para esconder o que pensam, o que a lista põe entre os traços do tolo: não reconhecer a verdade.

A pergunta como arma nos tribunais gregos

No mundo grego, a contra-pergunta tinha teoria. Aristóteles, na Retórica (livro III, capítulo 18), trata da interrogação no debate público e diz quando ela é útil. O caso principal é aquele em que o adversário já disse uma coisa e basta mais uma pergunta para que a sua posição se torne absurda. Outro é quando a pergunta força o adversário a se contradizer, ou a dar uma resposta evasiva que o público percebe.

Os exemplos de Aristóteles são de tribunal. Péricles perguntou a Lâmpon, um adivinho que dizia que os ritos de uma deusa não podiam ser conhecidos por quem não fosse iniciado, se ele próprio os conhecia; Lâmpon disse que sim; "e como, se você não é iniciado?". Sócrates, acusado de não crer em deuses, levou Meleto a admitir que ele cria em seres divinos, filhos dos deuses — e ninguém crê em filhos de deuses sem crer em deuses.

A pergunta sobre João, em Mateus, funciona como o segundo caso de Aristóteles: qualquer resposta deixa os interrogadores em contradição, ou com a multidão, ou consigo mesmos. Não há sinal de que Jesus conhecesse a retórica grega, e não é preciso: a técnica era de qualquer debate. O que o paralelo mostra é que um ouvinte educado à grega também reconheceria a manobra como legítima e eficaz, não como fuga.

O nome que os estudiosos deram à forma

Rudolf Bultmann (exegeta alemão, 1884-1976), no livro História da tradição sinótica (1921), classificou as cenas em que Jesus é interpelado por adversários como "diálogos de controvérsia", e apontou a contra-pergunta como um dos seus traços típicos, aparentado aos debates rabínicos. A classificação dele foi muito discutida depois, sobretudo pela tese de que essas cenas teriam sido criadas pelas comunidades cristãs. A observação sobre a forma ficou.

3. Análise Teológica do Versículo

"Respondeu Jesus"

O texto chama de resposta o que, à primeira vista, é uma recusa de responder. Mateus não escreve "Jesus perguntou" nem "Jesus devolveu": escreve que ele respondeu. A forma é a fórmula comum do evangelho para introduzir fala, mas aqui ela tem efeito. Antes de saber o que Jesus diz, o leitor já foi avisado de que aquilo conta como resposta.

"Eu também farei uma pergunta a vocês"

O "também" põe os dois lados no mesmo plano. Os chefes chegaram como quem interroga um suspeito; Jesus se coloca como quem tem o mesmo direito de interrogar. Num templo onde eles eram a autoridade e ele o acusado, a palavra inverte a hierarquia sem levantar a voz. O grego repete esse "eu também" duas vezes no versículo (item 10): ele também pergunta, ele também dirá. A simetria é construída na frase.

A pergunta é uma só, contra as duas deles. A ABC traduz por "uma pergunta", que é o sentido; o grego diz "uma palavra" — um assunto, uma questão. O Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) lê "uma questão análoga": uma pergunta da mesma forma que a deles. É a leitura que o versículo seguinte confirma.

"Se me responderem, também eu direi"

Aqui Mateus difere de Marcos de um modo que pouca gente nota. Em Marcos 11:29-30, Jesus diz duas vezes, no imperativo: "respondam-me". É uma ordem, e soa como desafio. Mateus tira as duas ordens e põe no lugar uma condição: "se me responderem". A contra-pergunta, em Mateus, vira um acordo com cláusula — vocês dizem, eu digo.

O acordo é honesto no sentido literal. Jesus promete uma resposta e a condiciona a uma resposta. Quando os chefes, no versículo 27, disserem "não sabemos", ele cumprirá a cláusula ao pé da letra: "nem eu digo a vocês". Ninguém pode acusá-lo de ter quebrado a palavra. Foi o outro lado que não pagou a sua parte.

"com que autoridade faço estas coisas"

Jesus repete a primeira pergunta dos chefes quase palavra por palavra — "com que autoridade" e "estas coisas" — e deixa a segunda de fora. Ele não promete dizer "quem me deu". Promete dizer "com que autoridade".

A ausência explica-se no versículo seguinte. A pergunta sobre João é "de onde vinha o batismo de João? Do céu ou dos homens?" — isto é, quem deu a João a autoridade de batizar. É a segunda pergunta dos chefes, a do doador, devolvida e aplicada a outro homem. Jesus não esquece a segunda pergunta: transforma-a na sua.

Por que não é evasiva?

A leitura mais comum, desde a Antiguidade, vê na contra-pergunta uma saída hábil de uma armadilha. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz que Jesus "escapou do laço". Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) fala de uma pergunta embaraçosa que frustra, com prudência, o plano dos adversários. A leitura é verdadeira, mas é pequena. Explica o efeito tático e não explica a escolha do tema: Jesus poderia ter feito qualquer pergunta embaraçosa, e fez justamente sobre João. Há quatro leituras sobre o que a contra-pergunta é, além de uma saída.

Primeira leitura: a contra-pergunta é a própria resposta. Jesus foi batizado por João, e no batismo uma voz do céu o declarou Filho (Mateus 3:16-17). Se o batismo de João veio do céu, a autoridade de quem foi apresentado nesse batismo também veio. Quem responder "do céu" sobre João terá respondido "do céu" sobre Jesus. A favor, o encadeamento com Mateus 3 e o fato de que, em Mateus 21:32, Jesus vai acusar os chefes justamente de não terem crido em João. Contra, Jesus não diz isso, e a ligação exige que o leitor a faça.

Segunda leitura: a contra-pergunta testa a competência dos juízes. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) a lê como um desafio ao direito deles de interrogá-lo. Quem examina profetas precisa ter um juízo sobre o profeta mais popular da geração. Se não têm, não estão em condição de examinar outro. A favor, a resposta "não sabemos" confirma exatamente isso: a comissão que veio julgar declara que não sabe julgar. Contra, a leitura supõe um tom de tribunal que o texto não explicita.

Terceira leitura: a contra-pergunta é pedagógica. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) entende que Jesus não quis apenas calá-los: quis levá-los ao ponto em que, reconhecendo João, reconheceriam a ele. A pergunta é uma porta aberta. A favor, Jesus prometeu responder se eles respondessem, o que supõe que a resposta deles era possível. Contra, o capítulo mostra que eles não atravessaram a porta, e a cena termina em silêncio.

Quarta leitura: a contra-pergunta expõe a falta de franqueza. A pergunta de Jesus obriga os chefes a escolher entre dizer o que pensam de João e conservar o apoio do povo. Quem perguntou sobre autoridade por princípio teria respondido; quem perguntou por cálculo vai calcular. A favor, é o que os versículos 25-26 vão narrar. Contra, nada, a não ser que essa leitura sozinha reduz a cena a uma armadilha devolvida.

As quatro leituras não se excluem, e é provável que a força da cena venha da soma. O que o texto permite afirmar é que a contra-pergunta não muda de assunto: é a pergunta deles, feita sobre outro homem, e por isso a resposta deles a ela teria sido também a resposta à própria pergunta que fizeram.

O que Jesus arrisca

A contra-pergunta tem um risco que costuma passar despercebido. Se os chefes respondessem "do céu", Jesus teria de cumprir a palavra e dizer com que autoridade agia — e isso, diante do tribunal competente para julgar falsos profetas, era oferecer a acusação. A condição que ele põe não é uma porta de fuga: é um compromisso de se expor, caso eles se exponham primeiro. O silêncio do versículo 27 só é possível porque eles recusaram primeiro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus e a comissão

Os interlocutores são os mesmos do versículo anterior: os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo, que interromperam Jesus enquanto ele ensinava no templo. A plateia também conta. A cena se passa num pátio cheio de peregrinos, e a resposta de Jesus é dada diante das mesmas multidões que os chefes vão temer no versículo 26.

João, que entra na cena sem estar nela

João Batista está morto há algum tempo, executado por Herodes Antipas (Mateus 14:10). Mas o seu nome ainda pesa em Jerusalém a ponto de os chefes não ousarem dizer em público o que pensavam dele. O partido sacerdotal já tinha ido a ele: em Mateus 3:7, fariseus e saduceus foram ao seu batismo, e ele os chamou de "raça de víboras". A pergunta de Jesus chama de volta um homem que eles tinham recusado em vida.

O começo de uma série

O versículo abre a maior sequência de debates do evangelho, toda no templo, no mesmo dia. Os chefes perguntam pela autoridade (Mateus 21:23-27); depois vêm as perguntas dos fariseus com os herodianos sobre o tributo a César (Mateus 22:15-22), a dos saduceus sobre a ressurreição (Mateus 22:23-33) e a do especialista na Lei sobre o maior mandamento (Mateus 22:34-40). Ela começa com esta contra-pergunta e termina com outra pergunta de Jesus, sobre de quem o Cristo é filho, seguida da nota: "daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas" (Mateus 22:46).

5. Pontos de Ensino

Responder com pergunta pode ser a resposta mais honesta

Quando a pergunta recebida esconde uma armadilha ou uma premissa, responder direto é aceitar o terreno do outro. A contra-pergunta de Jesus não foge do assunto: devolve o mesmo assunto num caso em que os interrogadores também precisam se comprometer.

Quem julga também é julgado pelo próprio juízo

Os chefes vieram examinar. A pergunta de Jesus os põe na posição de examinados: o que pensam de João revela como julgam profetas. Todo juízo sobre a autoridade de outro diz algo sobre quem julga.

A franqueza é condição do diálogo

Jesus promete responder se eles responderem. A conversa não exige concordância, exige que cada lado diga o que pensa. Quando um lado se recusa, o outro não tem obrigação de continuar se expondo.

Uma pergunta bem feita vale mais que um discurso

Contra duas perguntas, uma só. O texto mostra que a pergunta certa, sobre o caso certo, resolve mais do que uma longa defesa.

6. Aspectos Filosóficos

É possível julgar sem ser parte do que se julga?

Os chefes chegam como observadores neutros: querem examinar a autoridade de Jesus de fora, como quem examina um documento. A contra-pergunta desfaz essa posição. Para julgar Jesus, eles precisam ter julgado João; e o juízo que fizeram sobre João — e o medo de dizê-lo — os inclui no objeto do exame. O versículo levanta uma questão que a filosofia do conhecimento tratou muito no século XX: quem examina pode ficar fora daquilo que examina?

Edgar Morin e o conhecimento que inclui quem conhece

Edgar Morin (filósofo e sociólogo francês, nascido em 1921) passou cerca de trinta anos escrevendo O Método, obra em seis volumes publicada entre 1977 e 2004, e resumiu as suas ideias em Introdução ao pensamento complexo (1990). O alvo dele é o que chama de "pensamento simplificador": o hábito de separar o que está ligado, e de tratar o observador como se não fizesse parte do que observa.

Contra isso, Morin propõe alguns princípios. Um deles é o que chama de recursividade: há processos em que o produto volta a agir sobre quem o produziu, como um redemoinho que é formado pela água e, ao mesmo tempo, forma o movimento da água. Outro é a exigência de reintroduzir o sujeito que conhece em todo conhecimento. No terceiro volume de O Método, O conhecimento do conhecimento (1986), ele insiste: todo conhecimento traz a marca de quem conhece, das suas condições e dos seus interesses, e um conhecimento que não examina a si mesmo se engana sobre o que é.

Em Os sete saberes necessários à educação do futuro (1999), escrito para a UNESCO, Morin põe como primeiro saber o reconhecimento das "cegueiras do conhecimento": o erro e a ilusão nascem, muitas vezes, de quem não percebe que o seu próprio ponto de vista faz parte do problema.

O que isso ilumina em Mateus 21:24

A pergunta dos chefes é construída no modo que Morin chamaria de simplificador. Há um objeto, a autoridade de Jesus, e há examinadores neutros, eles mesmos. A contra-pergunta cria uma volta. O juízo deles sobre João passa a ser o critério do juízo deles sobre Jesus, e o que eles decidirem sobre os dois recai sobre eles mesmos. A pergunta "com que autoridade você faz isto?" volta como "com que autoridade vocês julgam isto?".

O efeito é o que Morin descreve: os examinadores são devolvidos ao exame. E a reação deles, três versículos adiante, mostra a "cegueira" de que ele fala, em versão deliberada: eles calculam as consequências de cada resposta e escolhem não saber. Para Morin, o primeiro erro é o de quem não vê o próprio ponto de vista; o dos chefes é pior, porque eles o veem e o escondem.

O limite da aproximação

Morin não comenta este texto, e a leitura acima aplica as ideias dele à cena. Há também uma tensão que precisa ficar visível. A pergunta de Jesus que vem a seguir é feita em forma de alternativa simples — "do céu ou dos homens?" —, justamente o tipo de disjunção que Morin critica. A aproximação não está no formato da pergunta, e sim no movimento: ela não acrescenta um dado ao exame, muda a posição de quem examina.

7. Aplicações Práticas

Antes de responder, veja o que a pergunta pressupõe

Há perguntas feitas para obter informação e perguntas feitas para produzir uma acusação. Numa reunião de trabalho, numa discussão de família ou num debate público, devolver a pergunta não é falta de educação quando ela vem montada como armadilha. Uma boa contra-pergunta aceita o assunto e muda apenas a posição de quem está sendo examinado.

Responda o que você pensa, mesmo que custe

O versículo mostra também o outro lado. Quem é perguntado sobre o que pensa e calcula a resposta pelo efeito que ela terá — no chefe, no grupo, na plateia — está fazendo o que os chefes vão fazer no versículo 27. Ninguém é obrigado a responder tudo; mas dizer "não sei" quando se sabe é a recusa que a cena expõe.

Não exija franqueza que você não oferece

Jesus condiciona a sua resposta à resposta dos outros. É uma regra razoável para qualquer conversa difícil: quem exige que o outro se exponha, e se recusa a expor-se, perdeu o direito de cobrar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus sempre respondia perguntas com perguntas?

Não. Em Mateus, ele responde diretamente a muitas: aos discípulos que perguntam por que fala em parábolas (Mateus 13:10-11), a Pedro sobre quantas vezes perdoar (Mateus 18:21-22), ao especialista na Lei sobre o maior mandamento (Mateus 22:36-40). A contra-pergunta aparece sobretudo quando a pergunta vem de adversários e traz uma acusação embutida: sobre o sábado (Mateus 12:10-11), sobre a tradição (Mateus 15:2-3), sobre o tributo (Mateus 22:17-20). É um recurso para um tipo de situação, não um hábito.

Não seria mais simples Jesus dizer "Deus me deu esta autoridade"?

Seria mais simples e não resolveria nada. Uma afirmação desse tipo não pode ser verificada por quem a ouve; qualquer falso profeta diria o mesmo. E, diante da comissão competente para julgar profetas, seria entregar a acusação. A contra-pergunta leva a decisão para um terreno em que os chefes já tinham elementos para julgar — o caso de João, conhecido de todos.

A promessa de responder era sincera?

O texto não permite saber o que aconteceria se os chefes respondessem "do céu". Mas a condição foi posta em termos que obrigavam Jesus, e não apenas os outros. Quem lê a promessa como blefe tem de explicar por que Jesus, poucos dias depois, diante do sumo sacerdote, responde à pergunta direta sobre ser o Cristo com "você o disse" (Mateus 26:64) — isto é, quando lhe perguntaram em juízo, ele se expôs.

Por que "uma" pergunta, se a pergunta sobre João tem duas partes?

Porque "do céu ou dos homens?" é uma questão só, com duas alternativas. O "um" do versículo marca o contraste com as duas perguntas dos chefes e a economia da réplica: eles fizeram duas, ele fará uma, e ela basta.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma cena em Marcos e Lucas

Marcos 11:29-30 — "Jesus lhes respondeu: Eu também vou fazer a vocês uma pergunta; respondam-me, e eu direi com que autoridade faço estas coisas. O batismo de João era do céu ou dos homens? Respondam-me."

Tradução livre a partir do Textus Receptus. As duas ordens, "respondam-me", que Mateus trocou por uma condição.

Lucas 20:3 — "Ele lhes respondeu: Eu também vou fazer a vocês uma pergunta. Digam-me."

O caso que dá a resposta

Mateus 3:16-17 — "Depois de batizado, Jesus saiu logo da água. E eis que os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me agrado."

O batismo de João é o lugar em que o céu falou sobre Jesus. A pergunta sobre a origem desse batismo leva até aqui.

Mateus 21:32 — "Pois João veio a vocês pelo caminho da justiça, e vocês não creram nele."

O próprio Jesus, poucos versículos depois, diz o que a contra-pergunta deixava implícito.

Outras contra-perguntas em Mateus

Mateus 12:10-11 — "E, para poderem acusá-lo, perguntaram a Jesus: 'É permitido curar no sábado?' Ele lhes disse: 'Qual de vocês, tendo uma única ovelha, se ela cair num buraco no sábado, não vai pegá-la e tirá-la de lá?'"

A mesma técnica de Yohanan ben Zakkai: um caso que o adversário já aceita, com a mesma estrutura do caso em disputa.

Mateus 12:27 — "E, se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os filhos de vocês os expulsam? Por isso, eles mesmos serão os juízes de vocês."

A pergunta sobre a fonte de um poder devolvida aos acusadores, com a mesma consequência: o juízo deles sobre o outro passa a julgá-los.

Mateus 22:19-20 — "Mostrem-me a moeda usada para pagar o tributo. E lhe trouxeram um denário. Ele então lhes perguntou: De quem é esta imagem e esta inscrição?"

Mateus 22:42, 45-46 — "O que vocês pensam a respeito do Cristo? De quem ele é filho?... Se, pois, Davi o chama de 'Senhor', como pode ele ser seu filho? Ninguém conseguia responder-lhe uma só palavra, e daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas."

O fecho da série de debates aberta em Mateus 21:24: a última palavra no templo é uma pergunta de Jesus que fica sem resposta.

Deus que responde com perguntas

Jó 38:2-4 — "Quem é este que escurece o meu plano com palavras sem conhecimento? Cinja agora os seus lombos como homem; eu vou perguntar, e você me responderá. Onde você estava quando eu lancei os fundamentos da terra?"

Jó exigiu de Deus uma explicação, e a resposta veio em forma de perguntas — dezenas delas. "Eu vou perguntar, e você me responderá" é a mesma inversão de papéis de Mateus 21:24.

A sabedoria sobre como responder

Provérbios 26:4-5 — "Não responda ao insensato segundo a sua insensatez, para que você não se torne igual a ele. Responda ao insensato segundo a sua insensatez, para que ele não se julgue sábio."

Dois conselhos opostos lado a lado. A contra-pergunta faz as duas coisas: não aceita os termos da pergunta e, ao mesmo tempo, expõe a posição de quem a fez.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Respondeu Jesus: “Eu também farei uma pergunta a vocês. Se me responderem, também eu direi com que autoridade faço estas coisas.

Texto grego (Textus Receptus)

Ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς, Ἐρωτήσω ὑμᾶς κἀγὼ λόγον ἕνα, ὃν ἐὰν εἴπητέ μοι, κἀγὼ ὑμῖν ἐρῶ ἐν ποίᾳ ἐξουσίᾳ ταῦτα ποιῶ.

Transliteração

Apokritheis de ho Iēsous eipen autois, Erōtēsō hymas kagō logon hena, hon ean eipēte moi, kagō hymin erō en poia exousia tauta poiō.

Uma nota sobre o texto

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas trazem aqui o mesmo texto. Conferido no interlinear do Bible Hub e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.

Análise palavra por palavra

Ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς — apokritheis de ho Iēsous eipen autois, "respondendo, Jesus lhes disse". Apokritheis é particípio aoristo de apokrinomai, "responder", com forma passiva e sentido ativo. A construção "respondendo, disse" vem do modo hebraico de narrar e é muito frequente nos evangelhos; às vezes aparece até onde ninguém perguntou nada. Aqui ela tem objeto real: há uma pergunta, e o que segue é apresentado como a resposta a ela.

Ἐρωτήσω ὑμᾶς — erōtēsō hymas, "perguntarei a vocês". Futuro de erōtaō, "perguntar". No grego clássico, erōtaō é o verbo de fazer perguntas; no grego do Novo Testamento passa a significar também "pedir, rogar". Aqui é perguntar. Marcos 11:29 usa o composto eperōtaō, mais insistente, "interrogar". O futuro anuncia a pergunta antes de fazê-la: Jesus primeiro estabelece as regras do intercâmbio, depois pergunta.

κἀγὼ — kagō, "eu também". É a fusão de kai, "também, e", com egō, "eu", numa só palavra. O pronome "eu" não era necessário em grego, porque o verbo já indica a pessoa; quando aparece, dá ênfase. E aparece duas vezes no versículo: "pergunto eu também", "digo eu também". As duas metades da frase são construídas em espelho, com o mesmo kagō no centro de cada uma.

λόγον ἕνα — logon hena, "uma palavra". Logos é "palavra", mas também "assunto, questão, razão, conta". Aqui designa um tópico de discussão: "uma questão". A ABC traduz por "uma pergunta", que é o sentido. O Expositor's Greek Testament propõe "uma questão análoga", uma pergunta com a mesma forma da que lhe fizeram.

Hena é o numeral "um", no acusativo masculino, concordando com logon. Em Mateus, o numeral vem depois do substantivo; em Marcos 11:29 e Lucas 20:3, antes. A posição final dá peso ao número: uma questão, uma só.

ὃν ἐὰν εἴπητέ μοι — hon ean eipēte moi, "a qual, se me disserem". O relativo hon retoma logon: a questão que, se vocês me responderem. Ean com o subjuntivo aoristo eipēte é a condição eventual — uma possibilidade real, sem antecipar se vai se cumprir. O grego não diz "responderem" com o verbo de responder; diz "disserem", o verbo comum de falar. O que se pede é que digam.

É a diferença em relação a Marcos 11:29-30, que traz duas vezes o imperativo apokrithēte moi, "respondam-me". Mateus substitui a ordem pela condição e faz do intercâmbio um acordo.

κἀγὼ ὑμῖν ἐρῶ — kagō hymin erō, "eu também direi a vocês". Erō é o futuro usado para o verbo "dizer", formado de outra raiz que não a de legō. É uma promessa feita em futuro do indicativo, sem nenhuma reserva: se a condição se cumprir, a resposta virá.

ἐν ποίᾳ ἐξουσίᾳ ταῦτα ποιῶ — en poia exousia tauta poiō, "com que autoridade faço estas coisas". As palavras são as da primeira pergunta dos chefes, com o verbo passado da segunda para a primeira pessoa: "você faz" vira "faço". A análise de poia e de exousia está no estudo de Mateus 21:23.

A repetição literal tem uma lacuna: falta a segunda pergunta, "quem lhe deu". O versículo promete responder só à primeira. A segunda é a que o versículo 25 vai devolver, sobre João.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: a contra-pergunta não é fuga. A técnica tinha forma reconhecida nos debates entre fariseus e saduceus e teoria nos manuais gregos de retórica, e em Mateus ela não muda de assunto — devolve a mesma questão, a do doador da autoridade, aplicada a um caso que os chefes conheciam. Conclui-se que Jesus aceitou o debate, mas não aceitou o lugar de réu que lhe ofereciam.

A segunda: Mateus deu à réplica a forma de um compromisso. Onde Marcos tinha ordens, Mateus pôs uma condição, e a condição obriga quem a propõe. Segue-se que o silêncio de Jesus no versículo 27 não será recusa arbitrária, e sim o cumprimento de um acordo que o outro lado não honrou. A responsabilidade pelo impasse fica, no relato de Mateus, com quem não respondeu.

A terceira: o versículo transfere o exame. Os chefes vieram examinar a autoridade de um homem e saem da cena tendo de revelar a qualidade do próprio juízo. Conclui-se que, para este evangelho, a pergunta sobre a autoridade de Jesus não se resolve sem uma pergunta sobre quem a faz. O que a cena deixa em aberto é se essa inversão foi, para os chefes, apenas uma derrota pública ou também um convite; o texto registra o que eles fizeram com ele, não o que poderiam ter feito.

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