📖 Navegar na Bíblia:

Mateus 11:19

✍️ Por Alberto Adriano·30 de junho de 2026·⏱️ 18 min de leitura·👁 33 acessos
Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: “Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores.” Mas a sabedoria é justificada pelos seus filhos.
Jesus à mesa com publicanos e pecadores na Galileia, sendo criticado pelos líderes religiosos

Estudo


Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: ‘Eis aqui um homem comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores!’ Mas a sabedoria prova-se justa por meio de suas obras.

1. Introdução

Este versículo fecha uma pequena parábola amarga que Jesus contou sobre a sua própria geração. Ele havia comparado as pessoas a crianças emburradas na praça, que não dançam quando tocam flauta nem choram quando entoam lamento. Nada agrada. Contra João Batista, que jejuava e vivia no deserto, diziam que ele tinha demônio. Contra Jesus, que comia nas casas e sentava à mesa com gente malvista, gritavam o contrário: glutão e beberrão.

A frase merece atenção justamente porque é dura. Não estamos diante de um elogio, e sim de um insulto público registrado pelo próprio evangelho. A tradição cristã costuma passar rápido por aqui, com medo de encostar na acusação. Vamos fazer o contrário: olhar de frente para o que chamavam Jesus, entender por que chamavam, e depois pesar a resposta enigmática que ele deu sobre a sabedoria.

2. Contexto Histórico e Cultural

No mundo judaico do primeiro século, a mesa era um território sagrado e político ao mesmo tempo. Com quem você comia dizia quem você era. Comer junto significava aceitação, aliança, igualdade. Por isso os fariseus separavam com cuidado a sua comida e a sua companhia: a pureza ritual passava pela mesa. Sentar-se para comer com um publicano (o coletor de impostos a serviço de Roma) ou com um pecador (termo técnico para quem não seguia a lei ao modo farisaico) equivalia a se sujar em público.

Os publicanos eram odiados por dois motivos somados. Primeiro, trabalhavam para o ocupante estrangeiro, arrecadando o dinheiro que sustentava Roma. Eram vistos como traidores da nação. Segundo, o sistema permitia que cobrassem a mais e ficassem com a diferença, de modo que muitos de fato roubavam. A palavra 'pecadores', ao lado deles, não era um xingamento vago: designava um grupo social concreto de pessoas consideradas fora da aliança, gente que a religião oficial havia rotulado e descartado.

A acusação de 'comilão e beberrão' tinha peso jurídico na memória de Israel. Em Deuteronômio, o filho rebelde e incorrigível, que os pais levavam aos anciãos para ser apedrejado, era descrito exatamente com essas palavras: obstinado, glutão e bêbado. Ou seja, chamar alguém de comilão e beberrão não era só dizer que ele exagerava na comida. Era encaixá-lo na figura do filho maldito, do sujeito que merece a pena de morte por desprezar a autoridade. A ofensa era calculada para destruir a reputação de Jesus como mestre.

Vale registrar o pano de fundo econômico. A Galileia da época vivia sob forte carga tributária, com camponeses endividados e uma elite ligada a Roma e a Herodes. Nesse quadro, um pregador que se recusava a marginalizar os marginalizados, e ainda comia com eles, era uma provocação direta às fronteiras sociais que mantinham a ordem. A crítica religiosa e a irritação social caminhavam juntas.

Há um contraste que a passagem constrói de propósito: João e Jesus, dois estilos opostos, ambos rejeitados. João era o profeta do deserto, austero, que não comia pão comum nem bebia vinho, vestido de pelos e alimentado de gafanhotos e mel. Jesus era o mestre das mesas, presente nas casas, nas festas, num casamento em Caná. A geração criticada arrumou defeito nos dois: de João, disseram que tinha demônio, por ser rígido demais; de Jesus, que era glutão, por ser aberto demais. O ponto é que a crítica não nasceu do comportamento real de nenhum deles, e sim da recusa prévia de aceitar o chamado de Deus, viesse ele pelo caminho austero ou pelo caminho festivo.

Aquela sociedade funcionava sob um código de honra e vergonha. A reputação valia quase tanto quanto a vida, e as acusações públicas eram armas para destruir a autoridade de um mestre diante do povo. Chamar Jesus de comilão, beberrão e amigo de gente impura era uma tentativa organizada de desqualificá-lo, de fazer com que ninguém o levasse a sério como enviado de Deus. O evangelho registra o insulto justamente para mostrar que o método falhou: a reputação foi atacada, mas a obra permaneceu.

A imagem do banquete, aliás, tinha peso profético. Os profetas descreviam o tempo do Messias como uma grande festa, um banquete de vinho e carne para todos os povos, como em Isaías. Ao comer e beber com os excluídos, Jesus não estava apenas quebrando etiqueta; estava encenando, na prática, esse banquete do reino, no qual os últimos são convidados primeiro. O que os críticos viam como escândalo era, no fundo, um sinal do reino chegando à mesa dos rejeitados.

3. Análise Teológica do Versículo

“Veio o Filho do homem, que come e bebe”

Esta frase mostra o modo de Jesus viver o seu ministério, em contraste com a vida austera de João Batista. O título 'Filho do homem' vem de Daniel, capítulo 7, onde descreve uma figura que recebe autoridade e reino; carrega ao mesmo tempo a ideia de humanidade e de dignidade divina. O fato de Jesus participar das refeições comuns simboliza comunhão e quebra de barreiras sociais, e reflete o caráter aberto da sua missão, como se vê no relato paralelo de Lucas.

“e dizem: ‘Eis aqui um homem comilão e beberrão'”

A acusação de ser 'comilão e beberrão' reflete a crítica que Jesus enfrentava dos líderes religiosos. Ela ecoa Deuteronômio, capítulo 21, onde o filho rebelde é descrito com palavras parecidas, o que sugere uma acusação grave. A crítica revela que os líderes não entenderam a missão de Jesus e se prendiam à aparência externa, e não ao coração, como já alertava o primeiro livro de Samuel.

“amigo de publicanos e pecadores!”

A convivência de Jesus com publicanos e pecadores demonstra a sua missão de buscar e salvar o que estava perdido. Os publicanos eram desprezados por colaborar com os ocupantes romanos, e a palavra 'pecadores' costumava se referir aos que não seguiam a lei ao modo dos fariseus. A amizade de Jesus com essas pessoas ilustra a sua graça e o caráter acolhedor da nova aliança, como aparece em Mateus, capítulo 9.

“Mas a sabedoria prova-se justa por meio de suas obras.”

Esta afirmação sugere que a verdadeira sabedoria é confirmada como certa pelos seus resultados. Ela ecoa Provérbios, capítulo 8, onde a sabedoria é apresentada como pessoa e ligada à vida justa. As ações de Jesus, incluindo as suas companhias e os seus ensinos, acabam revelando a sabedoria divina, cumprindo promessas antigas e mostrando os valores do reino de Deus, na linha do que diz Isaías quando lembra que os pensamentos de Deus não são os nossos.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus (Filho do homem) — Aqui o título destaca ao mesmo tempo a humanidade de Jesus e o seu papel de Messias vindo de Deus. É a autodesignação preferida de Jesus nos evangelhos.

Publicanos e pecadores — Grupo concreto de pessoas marginalizadas e desprezadas na sociedade judaica, seja por servir a Roma na cobrança de impostos, seja por não observar a lei ao modo farisaico.

Fariseus e líderes religiosos — Embora não sejam citados diretamente neste versículo, são eles que costumam criticar Jesus por suas companhias e atitudes ao longo do capítulo.

A sabedoria — Personificada aqui como alguém que é justificado, isto é, provado certo, pelos frutos daquilo que faz. Ecoa a tradição dos Provérbios.

Galileia — Região onde ocorreu grande parte do ministério de Jesus, com suas aldeias, mesas e encontros com todo tipo de gente.

5. Pontos de Ensino

Entender a missão de Jesus — A convivência de Jesus com publicanos e pecadores mostra que ele veio buscar quem estava perdido. Isso nos desafia a chegar perto de quem a sociedade empurrou para a margem.

Juízo e percepção — A crítica injusta que Jesus sofreu lembra que o julgamento humano falha com frequência. Convém ter cautela ao julgar e procurar enxergar como Deus enxerga.

Sabedoria em ação — A verdadeira sabedoria se demonstra pelas atitudes e pelos seus resultados, não por discursos. A fé se prova no modo de viver.

Acolhimento no serviço — O exemplo de Jesus ensina a importância de acolher e amar todas as pessoas, sem exigir primeiro um passado limpo.

Confirmação pela vida justa — Assim como a sabedoria é confirmada pelos seus frutos, a vida de quem segue a Cristo deveria confirmar a verdade do evangelho pela própria conduta.

6. Aspectos Filosóficos

Há um problema filosófico embutido nesta cena, e ele continua atual: quando um julgamento é impossível de agradar? Jesus descreve uma geração que rejeita João por ser rígido demais e rejeita a ele por ser aberto demais. O critério muda conforme a conveniência. Isso mostra que a acusação nem sempre nasce dos fatos; muitas vezes nasce da decisão prévia de rejeitar, e depois procura um motivo qualquer que sirva de justificativa. É o preconceito operando: primeiro a conclusão, depois a razão.

A frase final propõe outro critério. Em vez de julgar pela reputação ou pelo rótulo, Jesus manda olhar para os resultados: 'a sabedoria prova-se justa por suas obras'. É um teste pelos frutos, não pela fama. Curas, restaurações, gente que muda de vida, pobres tratados com dignidade: isso é o que confirma ou desmente uma pregação. O erro dos críticos foi olhar a companhia e não olhar o que acontecia dentro daquela companhia.

Convém não romantizar a cena. Jesus foi de fato chamado de bêbado e glutão, e o evangelho não escondeu isso. Aqui há uma lição de honestidade: a santidade verdadeira nem sempre tem aparência respeitável aos olhos dos guardiões da religião. Às vezes ela é confundida com escândalo justamente por chegar perto demais de quem foi condenado. Isso não significa aprovar todo comportamento; significa reconhecer que a proximidade com o pecador não é, por si, prova de corrupção.

É preciso também não fugir do que a acusação tinha de verdadeiro pela metade. Jesus de fato comia e bebia; de fato frequentava festas; de fato tinha amizade com publicanos. A mentira dos críticos não estava nos fatos, mas na interpretação: transformaram a alegria e a misericórdia em vício, e a compaixão em cumplicidade com o pecado. Esse é um mecanismo antigo e ainda comum. Pega-se um dado real, a proximidade com pessoas erradas, e cola-se nele uma conclusão falsa, a de que quem se aproxima está corrompido. Discernir exige separar o fato verdadeiro da conclusão mentirosa que grudaram nele.

Há ainda uma tensão que vale nomear sem medo. A frase final, 'a sabedoria se prova por suas obras', não é uma resposta que encerra o debate com prova lógica; é um convite a esperar e olhar os frutos. No momento em que Jesus a disse, a questão continuava em aberto: quem tinha razão, os críticos ou ele? Só o tempo, e os resultados, responderiam. Isso é honesto quanto à condição da fé: nem sempre há prova imediata que cale o adversário; muitas vezes o que existe é a promessa de que os frutos, mais adiante, mostrarão de que lado estava a sabedoria.

Há um último ângulo que merece atenção: o do rótulo. 'Comilão', 'beberrão', 'amigo de pecadores' são etiquetas, e etiquetas têm um poder perigoso: elas resumem uma pessoa numa palavra e dispensam quem julga de olhar mais fundo. Colada a etiqueta, o caso está encerrado; não é mais preciso conhecer a pessoa, basta repetir o rótulo. Foi isso que os críticos fizeram com Jesus, e é isso que fazemos uns com os outros o tempo todo. O evangelho, ao registrar o rótulo e ao mesmo tempo mostrar quem Jesus realmente era, ensina a desconfiar de toda palavra que pretende encerrar uma pessoa. Por trás do rótulo quase sempre há alguém que o rótulo não dá conta de descrever.

7. Aplicações Práticas

A primeira aplicação é desconfiar do próprio julgamento quando ele é rápido demais. Rotular uma pessoa pela companhia que ela tem, ou pela fama que carrega, é o mesmo erro dos críticos de Jesus. Antes de condenar, vale perguntar: eu estou olhando os fatos ou só confirmando o que já decidi pensar?

A segunda é sobre coragem social. Chegar perto de quem está marcado, seja o dependente químico, o preso, o endividado, o desprezado da vez, costuma render acusação. Quem faz isso será mal interpretado, como Jesus foi. A pergunta honesta é se estamos dispostos a pagar esse preço ou se preferimos a boa reputação de quem não se mistura.

A terceira é o teste dos frutos aplicado a nós mesmos. Não basta ter o discurso certo. A sabedoria de que Jesus fala se confirma em resultados concretos: gente ajudada de verdade, vidas mudadas, promessas cumpridas. Vale medir a própria fé não pelo que dizemos crer, mas pelo que de fato acontece por causa dela.

A quarta aplicação é sobre o modo como usamos a Bíblia contra as pessoas. Os críticos de Jesus tinham versículo na ponta da língua: Deuteronômio condenava o glutão e o beberrão, e eles usaram isso contra ele. Citar a Escritura corretamente e, ainda assim, chegar a uma conclusão perversa é um perigo real e permanente. O texto certo, na intenção errada, vira arma. Isso obriga a um exame de consciência: quando cito a Bíblia, estou buscando a verdade ou só munição para condenar alguém que já decidi rejeitar?

A quinta aplicação toca a alegria. João jejuava; Jesus festejava. Há espaço, no caminho de Deus, para a mesa farta, o vinho da festa, a comunhão à volta da comida. A religião azeda, que só sabe proibir e desconfiar de toda alegria, não é a de Jesus, que foi chamado de festeiro demais. Celebrar a vida com os outros, especialmente com quem foi deixado de lado, não é frouxidão espiritual; pode ser exatamente o sinal do reino que os críticos não souberam reconhecer.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O que significa Mateus 11:19?

Significa que Jesus foi acusado publicamente de comilão, beberrão e amigo de gente ruim por comer e conviver com publicanos e pecadores. Ele responde que a sabedoria se confirma pelos seus resultados, não pela crítica dos que rejeitam por princípio.

2. Como este versículo desafia a nossa visão das relações de Jesus?

Ele mostra um Jesus que não guardava distância de segurança. Sentava à mesa com os marginalizados, e isso escandalizava os religiosos. Desafia a ideia de que santidade é isolamento; aqui santidade é aproximação.

3. O que quer dizer 'a sabedoria prova-se justa por suas obras'?

Quer dizer que uma vida ou um ensino se provam verdadeiros pelos frutos que produzem, e não pela boa fama. As curas e transformações no ministério de Jesus provavam que ali havia sabedoria de Deus, apesar das acusações.

4. Como aplicar hoje o exemplo de Jesus de conviver com pecadores?

Aproximando-nos de quem a sociedade descartou, sem exigir primeiro que a pessoa se ajuste. Acolher não é aprovar tudo; é abrir a porta para que a mudança seja possível.

5. Que ensinos do Antigo Testamento têm relação com esta atitude de Jesus?

A sabedoria personificada de Provérbios 8 e 9, que chama a todos; e a lembrança de que Deus olha o coração, não a aparência, como no primeiro livro de Samuel.

6. Como este versículo deve influenciar o modo como julgamos a vida dos outros?

Ensina cautela. Os críticos julgaram pela mesa e erraram sobre o coração. Convém julgar menos pela aparência e mais pelos frutos, e reconhecer que o nosso juízo pode estar errado.

7. Por que Jesus é chamado de 'amigo de publicanos e pecadores'?

Porque de fato comia e convivia com eles. O que era insulto na boca dos críticos virou, no fundo, um retrato fiel da sua missão: buscar quem estava perdido.

8. Como o versículo desafia a visão tradicional de justiça e julgamento?

Mostra que a justiça de Deus não se prende ao rótulo social. Quem parecia impuro por sua companhia estava, na verdade, no centro do projeto de Deus.

9. A crítica a Jesus era só religiosa?

Não. Era religiosa e social ao mesmo tempo. Ao comer com publicanos e pecadores, Jesus derrubava fronteiras que mantinham a ordem social, e isso incomodava tanto quanto a questão da pureza ritual.

10. Existe diferença entre acolher o pecador e aprovar o pecado?

Sim, e é decisiva. Jesus acolhia a pessoa sem legitimar o mal que ela fazia. O convite à mesa era o começo de uma mudança, não um selo de que estava tudo certo.

9. Conexão com Outros Textos

“Porque veio João Batista, que não comia pão, nem bebia vinho, e dizeis: 'Ele tem demônio'; Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: 'Eis um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e dos pecadores'.” (Lucas 7:33-34)

O paralelo em Lucas deixa o contraste explícito: João não comia nem bebia e diziam que tinha demônio; Jesus come e bebe e o chamam de glutão. A mesma geração rejeita os dois com acusações opostas.

“E dirão aos anciãos da cidade: Este nosso filho é obstinado e rebelde, não obedece à nossa voz; é comilão e beberrão.” (Deuteronômio 21:20)

Aqui está a origem da força da ofensa. 'Comilão e beberrão' era a descrição do filho rebelde levado à morte pelos anciãos. Chamar Jesus assim era acusá-lo de merecer condenação.

“Não esteja entre os beberrões de vinho, nem entre os comilões de carne. Porque o beberrão e o comilão empobrecerão; e a sonolência os faz vestir trapos.” (Provérbios 23:20-21)

O provérbio de fato condena o glutão e o beberrão de verdade. A ironia é que Jesus não era isso; a acusação usava uma condenação real da Escritura contra quem não a merecia.

“E quando os fariseus viram isto , perguntaram aos seus discípulos: Por que o vosso Mestre come com publicanos e pecadores?” (Mateus 9:11)

A pergunta dos fariseus, 'por que o vosso mestre come com publicanos e pecadores?', é o eco direto da acusação. A resposta de Jesus, que veio para os doentes e não para os sãos, é a chave de tudo.

“Mas a sabedoria foi considerada justa por todos os seus filhos”.” (Lucas 7:35)

A versão paralela usa 'filhos' onde Mateus, na tradução aqui adotada, traz 'obras'. Guarde este detalhe: é o centro da variante textual comentada no item 10.

10. Original Grego e Análise

Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): “Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: “Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores.” Mas a sabedoria é justificada pelos seus filhos.”

Texto grego (Textus Receptus): ἦλθεν ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου ἐσθίων καὶ πίνων, καὶ λέγουσιν, Ἰδού, ἄνθρωπος φάγος καὶ οἰνοπότης, τελωνῶν φίλος καὶ ἁμαρτωλῶν· καὶ ἐδικαιώθη ἡ σοφία ἀπὸ τῶν τέκνων αὐτῆς.

Transliteração: êlthen ho hyiós tou anthrópou esthíon kai pínon, kai légousin, Idoú, ánthropos phágos kai oinopótes, telonón phílos kai hamartolón; kai edikaióthe he sophía apó ton téknon autês.

Palavra por palavra:

ἦλθεν (êlthen) — 'veio', verbo no passado que marca a chegada em cena, o mesmo usado para João no versículo anterior. Coloca Jesus e João lado a lado.

φάγος (phágos) — 'comilão', 'glutão'. Palavra rara e crua, quase um apelido de rua. Não é um termo técnico religioso; é xingamento popular.

οἰνοπότης (oinopótes) — 'bebedor de vinho', 'beberrão'. De oînos (vinho) e pínein (beber). Junta com a anterior o par de Deuteronômio 21.

τελωνῶν φίλος (telonón phílos) — 'amigo dos publicanos'. Phílos é amigo de verdade, do círculo próximo, não um conhecido qualquer. A acusação diz que ele pertencia àquele mundo.

ἐδικαιώθη (edikaióthe) — 'foi justificada', 'foi provada justa'. Mesmo verbo da linguagem de justificação de Paulo. Aqui a sabedoria é declarada certa pelo veredito dos fatos.

Nota textual (variante importante):

A tradução em português usada aqui traz 'suas obras'. Mas o Textus Receptus grego, base do Novo Testamento nesta obra, lê tôn téknon, 'seus filhos'. O texto crítico moderno (edições Nestle-Aland) prefere tôn érgon, 'suas obras'. A leitura 'filhos' é a que Lucas 7:35 traz com firmeza, e provavelmente foi ela que influenciou os copistas de Mateus. Ou seja: existe boa base para as duas. 'Justificada por seus filhos' sugere que a sabedoria se prova certa por meio das pessoas que a seguem e vivem dela; 'justificada por suas obras' sugere que ela se prova certa pelos resultados que produz. O sentido de fundo é próximo, mas não idêntico. Honestamente: não é possível provar qual foi a palavra original de Mateus; é uma variante real, antiga, e o mais que se pode dizer é que 'filhos' tem forte apoio e boa chance de ser o texto primitivo, enquanto 'obras' também é bem defendida. Vale conhecer a diferença em vez de fingir que o texto é único e fechado.

11. Conclusão

Mateus 11:19 é um dos versículos mais honestos do evangelho porque preserva o insulto no lugar de apagá-lo. Chamaram Jesus de glutão, bêbado e amigo de gente errada. Ele não se defendeu negando as companhias; assumiu-as e deslocou o julgamento para outro terreno: olhem os frutos.

Fica um duplo aviso. Contra o julgamento apressado, que condena pela aparência e pela companhia. E contra a religião que se sente pura por manter distância dos indesejados. A sabedoria de Deus, diz Jesus, não se comprova nos salões respeitáveis, e sim nas mesas onde os perdidos são tratados como gente. É por seus frutos que ela se defende sozinha.

E fica, para nós, o desafio de olhar Jesus sem o verniz que a devoção às vezes aplica. O Jesus deste versículo não é a figura distante e sem apetites de certos quadros; é alguém que ia às festas, sentava com gente de má fama e por isso apanhou na reputação. Reconhecer isso não diminui a sua santidade; revela que ela era de outra espécie, mais escandalosa e mais real do que a que os seus críticos sabiam medir. Quem procura hoje essa mesma sabedoria vai encontrá-la, provavelmente, nos mesmos lugares improváveis onde ela já se deixava ver naquele tempo.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 11:19

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia1.039 / 31.102 3,34%
Antigo Testamento548 / 23.145 2,37%
Novo Testamento491 / 7.957 6,17%