Ele lhes disse: “Por isso, todo escriba instruído a respeito do Reino dos céus é como o dono de uma casa, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.”
1. Introdução
O capítulo 13 de Mateus é o terceiro dos cinco grandes blocos de ensino do evangelho, e reúne sete parábolas sobre o Reino dos céus, do semeador à rede. Ao fim, Jesus pergunta aos discípulos se eles entenderam. Eles dizem que sim. Então vem a última palavra do discurso, a frase que estamos estudando.
Ela parece um comentário final qualquer, mas é a chave de leitura de todo o capítulo, e um dos versículos mais curiosos do evangelho. O motivo salta aos olhos de quem vem lendo Mateus: a palavra "escriba" acabou de mudar de lado. Até aqui, os escribas quase sempre aparecem contra Jesus. No capítulo anterior, são eles que exigem um sinal; no 23, receberão os "ais" mais duros do Novo Testamento. E de repente existe um escriba do outro lado, feito discípulo do Reino. A mesma profissão, agora de dentro.
O versículo só existe em Mateus e ocupa o ponto de maior destaque do discurso. Muitos estudiosos leem aí uma assinatura discreta do próprio autor, hipótese que vamos tratar com cuidado. E há a imagem em si: um dono de casa que abre a despensa e tira de lá coisas novas e velhas. Quem entendeu as parábolas não ganhou um diploma. Ganhou um depósito para administrar.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem eram os escribas
A palavra "escriba" traduz o grego grammateus, que por sua vez traduz o hebraico sofer. Na origem, o escriba era o profissional da escrita, num mundo em que a maioria não sabia ler. Depois do exílio na Babilônia, a comunidade judaica se reorganizou em torno da Lei escrita, e quem dominava o texto ganhou enorme autoridade. Esdras é o modelo desse novo papel, "escriba hábil na Lei de Moisés" (Esdras 7:6): copiava, guardava, lia em público e aplicava a Lei ao dia a dia. No Segundo Templo, o escriba acumulava três funções que hoje seriam de três profissões: copista, jurista e professor.
A formação
Não havia faculdade. A formação era por aprendizado direto com um mestre, ao longo de anos. O aluno memorizava grandes porções do texto e aprendia os métodos de interpretação: comparar passagens, resolver conflitos entre mandamentos. A memória era a sua biblioteca.
O lugar social
O escriba não era necessariamente rico, mas tinha prestígio: era chamado de mestre, ocupava lugar de honra nas sinagogas e dava pareceres em disputas. Alguns estavam ligados aos fariseus, outros ao grupo sacerdotal do Templo; os mais influentes tinham assento no Sinédrio. Uma nota de honestidade histórica: o sistema rabínico organizado só se consolidou depois da destruição do Templo, no ano 70; projetar para os dias de Jesus o que se sabe dos rabinos posteriores é um erro comum.
Por que a virada é significativa
Em Mateus, o retrato dos escribas é majoritariamente negativo. Eles sabem onde o Cristo deve nascer e não vão até lá (2:4-6), e com os fariseus exigem um sinal (12:38). No capítulo 23, são chamados de hipócritas sete vezes seguidas. Mas Mateus não é panfletário: em 8:19 um escriba diz que quer seguir Jesus, e no meio dos próprios "ais" Jesus afirma que enviará "profetas, sábios e escribas" (23:34) — sinal de que a sua comunidade tinha escribas cristãos. O problema nunca foi a profissão, e sim o que se fazia com ela. O homem das letras que trancava a porta do Reino (23:13) pode se tornar o que abre a despensa.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ele lhes disse"
Essa expressão indica que Jesus está falando diretamente aos seus discípulos, dando continuidade ao seu ensino sobre o Reino dos céus. O contexto é uma série de parábolas em Mateus 13, nas quais Jesus usa histórias para revelar verdades a respeito do Reino de Deus. Esse método de ensino era comum na tradição judaica, e permitia que os ouvintes se envolvessem com verdades espirituais por meio de cenas familiares.
"Por isso"
Essa expressão liga a afirmação às parábolas anteriores, sugerindo que a compreensão do Reino dos céus exige uma nova perspectiva. Jesus está enfatizando a importância de compreender os mistérios do Reino, que ele vem revelando por meio das parábolas.
"todo escriba instruído a respeito do Reino dos céus"
Aqui, "escriba" se refere a um mestre ou especialista na Lei judaica. No contexto do Novo Testamento, a palavra indica alguém com conhecimento das Escrituras. Ser "instruído a respeito do Reino dos céus" sugere uma transformação: passar do mero conhecimento da Lei para a compreensão dos princípios do Reino de Deus e para a vida segundo esses princípios. Essa transformação é semelhante à nova aliança profetizada em Jeremias 31:31-34, em que a lei de Deus é escrita no coração do seu povo.
"é como o dono de uma casa"
O dono da casa representa alguém com autoridade e responsabilidade sobre o seu lar. Nos tempos bíblicos, o dono da casa era responsável pelo bem-estar e pelo sustento da sua família e dos seus servos. Essa comparação indica que aqueles que compreendem o Reino dos céus têm a responsabilidade de compartilhar e de administrar as verdades espirituais que receberam.
"que tira do seu tesouro"
O depósito simboliza um lugar de abundância e de preparo. Na antiguidade, os depósitos eram essenciais para guardar alimentos e bens, garantindo a sobrevivência e a prosperidade da casa. No plano espiritual, isso representa a riqueza de conhecimento e de sabedoria que um discípulo do Reino possui.
"coisas novas e velhas"
Essa expressão destaca o valor tanto dos ensinos novos quanto dos antigos. As "coisas novas" podem ser entendidas como as novas revelações e compreensões trazidas pelos ensinos de Jesus, enquanto as "velhas" se referem às verdades já estabelecidas do Antigo Testamento. Esse equilíbrio ressalta a continuidade e o cumprimento do Antigo Testamento no Novo Testamento, como se vê em Mateus 5:17, onde Jesus afirma que não veio para revogar a Lei, mas para cumpri-la. A união dos tesouros antigos e novos reflete o caráter completo da revelação de Deus por meio de Cristo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Jesus Cristo
Aquele que fala esta parábola. Jesus está ensinando aos seus discípulos a respeito do Reino dos céus por meio de parábolas.
2. Os escribas
No contexto deste versículo, os escribas são aqueles que são instruídos nas Escrituras e que foram ensinados nos caminhos do Reino dos céus.
3. Os discípulos
Os ouvintes imediatos do ensino de Jesus, e que representam aqueles que estão aprendendo e crescendo na compreensão do Reino de Deus.
4. O Reino dos céus
Um tema central no ensino de Jesus, que representa o governo e o domínio de Deus, tanto presente quanto futuro.
5. O dono da casa
Uma imagem da pessoa responsável por administrar e compartilhar os tesouros de conhecimento e de sabedoria que vêm da Palavra de Deus.
5. Pontos de Ensino
Compreender o papel de um escriba
Um escriba no Reino dos céus não é apenas um guardião de tradições antigas, mas é também alguém aberto a novas revelações e percepções da Palavra de Deus.
Equilibrar o antigo e o novo
Os que creem são chamados a valorizar a riqueza do Antigo Testamento ao mesmo tempo em que acolhem os ensinos da nova aliança trazidos por Jesus. Ambos são essenciais para a compreensão completa do plano de Deus.
A administração do conhecimento
Assim como o dono da casa, os cristãos recebem a guarda dos tesouros das Escrituras. É preciso ser diligente em estudar, compreender e compartilhar essas verdades com os outros.
O aprendizado contínuo
O discipulado é um caminho para a vida inteira. Devemos buscar continuamente crescer na compreensão da Palavra de Deus, permitindo que ela transforme a nossa vida.
A aplicação prática das Escrituras
Os tesouros das Escrituras não servem apenas ao conhecimento intelectual, mas à aplicação prática na vida diária, orientando as nossas ações e as nossas decisões.
6. Aspectos Filosóficos: o novo e o velho, e a hipótese do autorretrato
A ordem das palavras: primeiro o novo
No grego, a expressão é kaina kai palaia: "novas e velhas". O novo vem primeiro. Em português, a ordem natural seria "velhas e novas", do mais antigo para o mais recente. Jesus, segundo Mateus, inverte. Uma leitura razoável é que o ponto de partida do discípulo passou a ser o novo, aquilo que Jesus está revelando, e é dali que ele volta ao antigo e o relê. Não é o antigo que julga o novo; é o encontro com Cristo que reorganiza a leitura de tudo o que veio antes. É preciso, porém, dizer o grau de certeza: parte dos estudiosos vê intenção teológica nessa ordem, e parte a considera apenas ênfase retórica, e não é possível provar qual das duas o autor tinha em mente. O que se afirma é que a ordem está no texto e combina com o capítulo, que anuncia coisas escondidas desde a fundação do mundo agora reveladas (13:35).
A régua deste site
Ler o antigo com honestidade quer dizer duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro: não jogar fora o que é difícil. Os textos duros continuam no depósito e são tirados de lá para exame dentro do seu contexto, não escondidos porque incomodam. Segundo: não repetir o que não se sustenta — quando uma leitura tradicional não resiste ao exame do texto ou da história, ela precisa ser corrigida.
A hipótese do autorretrato: o que a sustenta
Muitos estudiosos leem aqui uma assinatura discreta do autor do evangelho: quem escreveu Mateus seria um homem treinado nas Escrituras judaicas que passou a reler tudo à luz de Cristo e que, ao descrever o escriba discipulado, estaria se descrevendo.
Os argumentos são fortes. O versículo existe só em Mateus e está no ponto mais nobre do discurso, o encerramento. E o evangelho inteiro funciona assim: a genealogia em três blocos de catorze gerações, arranjo de quem trabalha o texto tecnicamente; a fórmula "para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta", repetida mais de dez vezes; o ensino de Jesus em cinco grandes discursos; e a declaração de 5:17, de que ele não veio revogar a Lei, mas cumpri-la. É a mesma operação da despensa: o antigo sai de novo, agora relido.
A hipótese do autorretrato: o que a limita
Agora a outra metade, indispensável. É uma hipótese defensável, não um fato provado. Primeiro: o versículo é fala de Jesus, não nota do autor; ler nele uma assinatura é inferência do leitor moderno. Segundo: o evangelho é anônimo. O título "segundo Mateus" foi acrescentado no século II, e a tradição atribuída a Pápias diz que Mateus reuniu "os ditos" em língua hebraica, o que não descreve bem o evangelho grego que temos. Terceiro: outra leitura, igualmente respeitável, vê ali a descrição dos mestres cristãos daquela comunidade, e não do autor. Quarto: não há dado externo que confirme. A hipótese é elegante e tem apoio real no texto, e continua sendo hipótese: quem a apresenta como certeza vai além do que as evidências permitem.
O dono da casa e o dono do campo
Há um detalhe de vocabulário que costuma passar em branco. A palavra grega traduzida por "dono de uma casa" é oikodespotēs, a mesma usada em 13:27, na parábola do joio, para o dono do campo a quem os servos perguntam de onde veio o joio. A repetição dificilmente é acidental: ali ele semeou boa semente e decide esperar a colheita com paciência; aqui, é o discípulo instruído que abre o seu depósito. O administrador responsável abre e fecha o discurso, e quem entendeu as parábolas entra na mesma categoria: responde pelo que está sob a sua guarda.
7. Aplicações Práticas
1. Estude o Antigo Testamento de propósito
Muitos cristãos vivem só no Novo. A parábola trata o antigo como parte do tesouro: escolha um livro do Antigo Testamento e leia-o inteiro, atento ao contexto.
2. Não tenha medo dos textos difíceis
O dono da casa abre a despensa toda, não só a prateleira agradável. Quando encontrar uma passagem que incomoda, não pule: anote a dúvida e procure o contexto histórico. A honestidade fortalece a fé.
3. Revise o que você aprendeu sem examinar
Todos carregamos ideias que nunca conferimos, repetidas por hábito. Corrigir uma delas não é traição; é administração da despensa.
4. Guarde antes de servir
Ninguém tira do depósito o que nunca colocou lá. Quem quer ter o que dizer precisa primeiro ter o que guardar.
5. Assuma a responsabilidade do que você sabe
Entender não é privilégio, é encargo. O dono da casa escolhe o que traz à mesa, e a criança, o recém-chegado e o estudioso não precisam do mesmo prato. Mas conhecimento guardado sem uso apodrece como comida esquecida no fundo do armário.
6. Continue aprendendo
O particípio grego usado no versículo indica alguém que foi feito discípulo, e discípulo é, por definição, aluno. Ninguém se forma. Se faz cinco anos que você não aprende nada novo do texto bíblico, a despensa parou de receber mercadoria.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Como o papel de um escriba no tempo de Jesus se compara ao papel de um professor ou estudioso da Bíblia hoje?
Os dois vivem do texto, explicam para outros e carregam autoridade diante da comunidade. Mas o escriba do primeiro século também copiava documentos e atuava como jurista, num mundo em que a memória substituía a biblioteca. Hoje qualquer pessoa tem acesso a mais texto do que um escriba veria na vida inteira. A raridade mudou de lugar: não está mais na informação, e sim no discernimento.
2. De que maneiras podemos garantir que estamos trazendo tanto as "coisas novas" quanto as "velhas" no nosso estudo pessoal da Bíblia?
Alternando os livros que você lê; lendo o Antigo Testamento com atenção ao seu contexto antes de correr para a aplicação cristã; e voltando a passagens que você acha que já domina. Um alerta: perceber que faz anos que você repete as mesmas conclusões.
3. Como equilibrar os ensinos do Antigo Testamento com os do Novo na compreensão da Palavra de Deus?
Reconhecendo que os dois falam de dentro de mundos diferentes. O Antigo Testamento se dirige a um povo específico, com leis civis e rituais ligadas a uma sociedade agrária do antigo Oriente Próximo, e ler aquelas normas como instruções diretas para hoje leva a distorções. Descartá-lo como superado, porém, é perder a base de quase tudo o que o Novo diz. A leitura equilibrada pergunta o que o texto significava para quem o recebeu primeiro, e o que dele permanece à luz de Cristo.
4. Quais são maneiras práticas de sermos bons administradores do conhecimento e da sabedoria que recebemos das Escrituras?
Guardar de forma organizada, com anotações. Verificar antes de repassar, conferindo citações e afirmações históricas. Ensinar alguém, porque ensinar expõe o que ainda não está compreendido. E admitir quando não se sabe, em vez de servir algo com a etiqueta trocada.
5. Como a ideia de ser "dono de uma casa" de tesouros espirituais influencia o modo como compartilhamos a nossa fé?
Muda o tom. O dono da casa não sai empurrando comida na rua; ele recebe pessoas e serve. Falar de fé fica mais hospitaleiro do que agressivo: escutar primeiro qual é a fome e trazer da despensa o que serve.
9. Conexão com Outros Textos
Mateus 5:17-20
"Não penseis que vim para revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas sim para cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota nem um til passará da Lei até que tudo se cumpra. Portanto qualquer um que desobedecer a um destes menores mandamentos, e assim ensinar às pessoas, será chamado o menor no Reino dos céus; porém qualquer que os cumprir e ensinar, esse será chamado grande no Reino dos céus. Porque eu vos digo que se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, de maneira nenhuma entrareis no Reino dos céus."
Jesus fala do cumprimento da Lei e dos Profetas, destacando a importância de compreender tanto os ensinos antigos quanto os novos.
2 Timóteo 3:16-17
"Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para mostrar erros, para corrigir, e para instruir na justiça; para que o homem de Deus seja completo, plenamente instruído para toda boa obra."
Destaca o valor de toda a Escritura para o ensino, a repreensão, a correção e a instrução na justiça, o que se alinha com a ideia de trazer à luz tanto os tesouros antigos quanto os novos.
Provérbios 2:1-5
"Filho meu, se aceitares minhas palavras, e depositares em ti meus mandamentos, para fazeres teus ouvidos darem atenção à sabedoria, e inclinares teu coração à inteligência; e se clamares à prudência, e à inteligência dirigires tua voz; se tu a buscares como a prata, e a procurares como que a tesouros escondidos, então entenderás o temor ao SENHOR, e acharás o conhecimento de Deus."
Incentiva a busca da sabedoria e do entendimento, semelhante ao papel do escriba em discernir e compartilhar os tesouros da Palavra de Deus.
1 Coríntios 4:1-2
"Que as pessoas nos considerem como servidores de Cristo, e guardiões dos mistérios de Deus. Além disso, exige-se dos guardiões que cada um seja fiel."
Paulo descreve os que creem como administradores dos mistérios de Deus, de modo semelhante ao dono da casa que administra os seus tesouros.
Colossenses 3:16
"A palavra de Cristo habite abundantemente em vós com toda sabedoria, ensinando-vos e advertindo-vos uns aos outros; e cantai a Deus com salmos, hinos, e cânticos espirituais, com graça no vosso coração."
Incentiva os que creem a deixar que a palavra de Cristo habite ricamente neles, ensinando e advertindo uns aos outros com sabedoria.
10. Original Grego e Análise
Texto grego (Textus Receptus)
Ὁ δὲ εἶπεν αὐτοῖς, Διὰ τοῦτο πᾶς γραμματεὺς μαθητευθεὶς εἰς τὴν βασιλείαν τῶν οὐρανῶν ὅμοιός ἐστιν ἀνθρώπῳ οἰκοδεσπότῃ, ὅστις ἐκβάλλει ἐκ τοῦ θησαυροῦ αὐτοῦ καινὰ καὶ παλαιά.
Transliteração
Ho de eipen autois, Dia touto pas grammateus mathēteutheis eis tēn basileian tōn ouranōn homoios estin anthrōpō oikodespotē, hostis ekballei ek tou thēsaurou autou kaina kai palaia.
Palavra por palavra
Διὰ τοῦτο (dia touto) — "por causa disto". Amarra a frase ao que acabou de acontecer: os discípulos disseram que entenderam (13:51), e por isso vem a responsabilidade. Depois, πᾶς (pas), "todo", sem exceção.
γραμματεὺς (grammateus) — "escriba". Vem de gramma, letra: "o homem das letras". Designa o especialista na Lei; em Mateus aparece mais de vinte vezes, quase sempre em conflito com Jesus. Aqui, não.
μαθητευθεὶς (mathēteutheis) — a palavra decisiva. É o particípio aoristo passivo de mathēteuō, de mathētēs, "discípulo", "aluno": "tendo sido feito discípulo". A voz é passiva: o escriba não se formou sozinho; alguém o discipulou. E o mesmo verbo reaparece em 28:19, na ordem "fazei discípulos de todas as nações" — verbo raro no Novo Testamento, que Mateus é quem mais usa.
εἰς τὴν βασιλείαν τῶν οὐρανῶν (eis tēn basileian tōn ouranōn) — "para o Reino dos céus". "Dos céus" é expressão típica de Mateus, usada no lugar de "de Deus", provavelmente por respeito judaico ao nome divino.
ἀνθρώπῳ οἰκοδεσπότῃ (anthrōpō oikodespotē) — "a um homem dono de casa". Oikodespotēs junta oikos (casa) e despotēs (senhor, aquele que manda): o chefe da casa, responsável pelo sustento de todos que vivem nela. A figura reaparece em 13:27, 20:1 e 21:33; a ligação com 13:27 é a mais forte, por estar no mesmo discurso.
ἐκβάλλει (ekballei) — "tira para fora", no presente, ação habitual. É o mesmo verbo usado para expulsar demônios (8:16) e os vendedores do Templo (21:12). Já θησαυροῦ (thēsaurou), "tesouro", é tanto o tesouro quanto o lugar onde ele é guardado: o cofre, a despensa. No meio do capítulo alguém encontra um tesouro (13:44); no fim, alguém distribui o seu.
καινὰ καὶ παλαιά (kaina kai palaia) — "coisas novas e velhas". Note a ordem: o novo primeiro. O grego tem duas palavras para "novo": neos, novo no tempo; e kainos, novo em qualidade. A palavra aqui é kainos, embora no grego comum do primeiro século as duas às vezes se sobreponham. Palaios é o antigo, o de longa data, sem carga negativa.
Nota textual
O Textus Receptus, base da nossa tradução, traz εἰς τὴν βασιλείαν, "discipulado para o Reino"; as edições críticas preferem o dativo τῇ βασιλείᾳ, "discipulado no Reino". A diferença é de nuance, não de doutrina. Registramos a variante porque a transmissão manuscrita do Novo Testamento tem milhares de pequenas diferenças entre as cópias.
11. Conclusão
Vale reunir o capítulo inteiro. A parábola do semeador ensina sobre recepção: a mesma semente cai em terrenos diferentes e dá resultados diferentes. Vem o joio, e com ele a paciência: o dono do campo não deixa que arranquem tudo antes do tempo. Depois o grão de mostarda e o fermento, algo pequeno que cresce e transforma tudo à sua volta. Depois o tesouro escondido e a pérola, o valor incomparável do Reino. E por fim a rede, cuja separação fica para o final. Sete parábolas, sete maneiras de dizer que o Reino dos céus não funciona como as pessoas esperavam: começa pequeno, cresce escondido, convive com o mal por um tempo, custa tudo e será separado no fim.
Então Jesus pergunta se entenderam. Eles dizem que sim. E aí ele fecha com a imagem do escriba.
É um final surpreendente. Depois de tantas parábolas sobre sementes, campos e redes, o último quadro é o de um homem abrindo a despensa da própria casa. Quem entendeu não recebeu um diploma. Recebeu um depósito para administrar: em Mateus, a compreensão sempre termina em responsabilidade. E a escolha da figura é o que torna o versículo tão interessante — o escriba, adversário recorrente das páginas anteriores, aparece aqui do lado de dentro, não porque trocou de profissão, mas porque foi feito discípulo. O saber que antes servia para trancar a porta agora serve para pôr comida na mesa.
Se a hipótese do autorretrato estiver certa — e ela é apenas uma hipótese —, então o autor colocou aqui uma descrição discreta do trabalho que ele mesmo fazia: pegar o que herdou das Escrituras de Israel, reler tudo à luz de Cristo e servir o antigo e o novo na mesma mesa. Guardar sem servir é acúmulo. Servir sem guardar é improviso. A parábola pede as duas coisas, e nessa ordem: primeiro encher a despensa, depois abrir a porta.













