📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 16:5

›
✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 15 acessos
E no sexto dia prepararão o que trouxerem, e será o dobro do que recolhem dia após dia.”
Interior de uma tenda no deserto, com uma mulher medindo grãos claros num recipiente de barro e um segundo recipiente cheio ao lado, enquanto a luz da manhã entra pela abertura.

Estudo


E no sexto dia prepararão o que trouxerem, e será o dobro do que recolhem dia após dia.”

1. Introdução

A fala de Deus a Moisés continua, e a primeira coisa que ela acrescenta à regra diária é uma exceção: no sexto dia, o que o povo trouxer para casa será o dobro. O versículo não diz por quê, não diz sexto dia de quê, e não menciona o sábado, que só será nomeado no versículo 23. Também não deixa claro se o dobro é uma ordem — recolham mais — ou um anúncio do que vai acontecer. E o verbo que ele usa não é o do campo, "recolher", mas o da casa, "preparar". Os comentaristas se dividiram em cada um desses pontos.

2. Contexto Histórico e Cultural

A véspera nos textos judaicos do Segundo Templo

Antes dos rabinos, dois grupos judeus já tinham feito deste versículo uma regra. O livro dos Jubileus (reescrita do Gênesis e do começo do Êxodo, composta em hebraico provavelmente no século II antes de Cristo) fecha a obra com as leis do sábado e diz: "não façam trabalho nenhum no dia de sábado, a não ser o que prepararam para vocês no sexto dia, para comer, beber e descansar" (Jubileus 50:9). O verbo e o dia são os de Êxodo 16:5. A preparação no sexto dia deixa de ser um episódio do deserto e vira condição permanente do sábado.

O Documento de Damasco, regra de uma comunidade aparentada à de Qumran (o sítio junto ao mar Morto onde se acharam os manuscritos), é ainda mais seco: "ninguém coma no dia de sábado senão o que já estava preparado" (Documento de Damasco 10:22). E acrescenta que não se coma do que estiver caído no campo — o que lembra, sem citar, o povo que saiu para recolher no sétimo dia e não achou.

Os dois textos mostram que, no tempo do Segundo Templo, o "prepararão" do sexto dia já era lido como lei e não como previsão. É o ponto de partida da leitura que a tradição rabínica depois detalhou.

Como o versículo virou costume: o "eruv" da véspera

Na tradição rabínica, este versículo deu origem a uma prática que existe até hoje. A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) lê em "no sexto dia prepararão o que trouxerem" a base do eruv tavshilin ("mistura dos cozidos").

O problema que ele resolve é prático. Num dia de festa, é permitido cozinhar para a própria festa (Êxodo 12:16 já abria essa exceção: "somente o que cada um precisar comer"), mas não para outro dia. Quando a festa cai numa sexta-feira, a família não pode, em princípio, cozinhar na festa para o sábado do dia seguinte — e no sábado não pode cozinhar nada. A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200), no tratado Beitzah 2:1, descreve a solução: na véspera da festa prepara-se um prato cozido destinado ao sábado, e, apoiado nele, pode-se continuar cozinhando para o sábado durante a festa. A preparação feita antes "abre" a preparação seguinte.

O Talmude (Beitzah 15b) dá outras bases para a prática — um mestre a tira do mandamento "lembre-se do dia de sábado", outro, de Êxodo 16:23 —, mas a Mekhilta a coloca aqui, no verbo "preparar" do sexto dia. A escolha faz sentido: é o primeiro versículo da Bíblia em que alguém prepara, num dia, a comida de outro.

A paráfrase aramaica do Pseudo-Jônatas (tradução livre da Torá, de redação tardia) vai mais longe e lê no versículo uma segunda prática, o eruv dos pátios: "no sexto dia prepararão o que levarem para comer no sábado; e farão a mistura nas casas e se associarão nas moradas, para que, levando disto para aquilo, tenham o dobro". É uma leitura que faz o dobro nascer de um arranjo entre vizinhos, não de um milagre. O texto hebraico não diz nada disso; o Targum projeta no deserto uma instituição dos rabinos.

As duas leituras mostram como um versículo de logística virou, para quem o lia como lei, o ponto de partida de toda a ética judaica da véspera: o sábado se faz na sexta-feira.

3. Análise Teológica do Versículo

"E no sexto dia"

O texto ainda não contou dia nenhum. O maná nem caiu, e a fala já fixa um "sexto dia". Sexto de quê?

Primeira leitura: o sexto dia da série do maná. O primeiro dia é o da primeira coleta; o sexto, cinco dias depois. É a que menos pede do texto: não pressupõe semana nenhuma, só uma contagem que começa com o próprio maná.

Segunda leitura: o sexto dia de uma semana já conhecida. O artigo — "o sexto dia", e não "um sexto dia" — sugere um dia identificável por todos. Charles Ellicott (bispo anglicano do século XIX) acha que a semana de sete dias era desconhecida no Egito; o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) acha que a semana existia, mas não como divisão regular do ano. A Mekhilta faz a conta do calendário e conclui que o dia 15 do segundo mês, data do versículo 1, caiu num sábado — e que o maná, portanto, começou num domingo.

A pergunta de fundo, se o sábado já era conhecido antes deste capítulo, pertence ao estudo de Êxodo 16:23. O que é deste versículo é o silêncio: Deus fala de um sexto dia sem falar do sétimo. A exceção é anunciada sem o motivo.

"prepararão o que trouxerem"

No versículo 4 o verbo era "recolher", e o lugar era o campo. Aqui o verbo é "preparar", e o lugar é a casa: o que se prepara é "o que trouxerem", isto é, o que já chegou à tenda. A frase pula a coleta e vai direto para depois dela.

O que é "preparar"? Para Samuel ben Meir, o Rashbam (comentarista francês do século XII), é cozinhar e assar com antecedência, o que o versículo 23 dirá com todas as letras. Para Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI), é mais que isso: é honrar o dia que vem com comida melhor, concentrar-se na véspera. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) lembra que o verbo também quer dizer arrumar e pôr de lado para apresentar depois, como os irmãos de José "prepararam" o presente antes de ele chegar (Gênesis 43:25). Or ha-Chayim (Chayim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) inclui no preparo o próprio ato de trazer: o que fosse carregar para dentro do acampamento tinha de ser carregado no sexto dia.

Em todas as leituras, a ideia é a mesma: o sexto dia trabalha para o dia seguinte. Pela primeira vez na Bíblia alguém recebe a instrução de cuidar, hoje, da comida de amanhã. E isso no mesmo discurso que, um versículo antes, proibiu recolher hoje o que é de amanhã. A regra e a exceção nascem juntas.

"e será o dobro"

A pergunta que divide os leitores é esta: o dobro acontece sozinho, ou o povo tem de recolher o dobro?

Primeira leitura: é milagre de medida. Salomão ben Isaac, o Rashi (o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI), entende que o povo recolhia como sempre e, ao chegar em casa e medir, achava o dobro. É por isso, diz ele, que o versículo fala do que "trouxerem", e não do que recolherem. Ele chama o efeito de bênção, com uma palavra do francês antigo, foison, "abundância". John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII), Ellicott e o Pulpit Commentary seguem nessa direção.

Segunda leitura: é coleta dobrada. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) lê o dobro como dois ômeres por pessoa, porque é o que o versículo 22 descreve: "recolheram pão em dobro". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) e Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX) concordam: no sexto dia o povo recolhia o dobro, e o milagre estava em que o dobro não apodrecia.

Terceira leitura: o versículo não manda, prevê. Chizkuni observa que estas frases não têm forma de ordem: Deus conta a Moisés o que vai acontecer. O povo sairia e recolheria, sem intenção de pegar mais, e acharia o dobro. É essa leitura que explica por que, em Êxodo 16:22, os líderes da congregação vão perguntar a Moisés o que estava acontecendo: ninguém lhes tinha dito nada.

Quarta leitura: não é "dobro", é "diferente". A Mekhilta brinca com as consoantes: a palavra do dobro se escreve igual à palavra que quer dizer "mudado, diferente". O pão do sexto dia seria um pão diferente — dois ômeres em vez de um, mais perfumado, mais dourado. A brincadeira não descarta o sentido de dobro; acrescenta-lhe uma qualidade.

O texto não permite decidir entre a primeira e a segunda. O versículo 22 diz que "recolheram em dobro", o que favorece Ibn Ezra; o versículo 29 diz que o SENHOR "lhes dá pão para dois dias", o que favorece Rashi. As duas frases estão no capítulo.

"do que recolhem dia após dia"

O sexto dia não tem medida própria: é definido pela comparação com os outros. Dobro de quê? Do que se recolhe "dia após dia". A exceção só existe porque há rotina. Sem a regra diária do versículo 4, o "dobro" não teria referência.

E, mais uma vez, a fala é só a Moisés. O versículo 5 continua o discurso do versículo 4, e o que Moisés e Arão dizem ao povo nos versículos 6 a 8 não inclui nada sobre o sexto dia. O texto registra a informação no ouvido de um e deixa o povo descobrir pelo fato. A consequência — líderes surpresos e uma explicação dada depois — aparece em Êxodo 16:22-23.

O que o versículo afirma, então, é pouco e preciso: haverá um dia diferente dos outros, e esse dia será anunciado pela comida, não pelo calendário. O povo saberá que o dia seguinte é diferente porque terá, nas mãos, comida para dois.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR — continua a fala iniciada no versículo 4. É a primeira vez no Êxodo que ele organiza uma semana: até aqui, os prazos que dava eram de um dia ("amanhã", Êxodo 8:23, 9:5, 9:18, 10:4) ou de uma noite (a Páscoa).

Moisés — o destinatário silencioso. Ouve o anúncio do sexto dia e não o repassa: o que ele e Arão dizem ao povo logo depois trata de carne e de pão, de tarde e de manhã, não da semana. Só em Êxodo 16:23, depois de os líderes virem perguntar, Moisés explica o dobro.

O povo — sujeito de três verbos no plural, "prepararão", "trouxerem", "recolhem", e de nenhum verbo de saber. Age sem ter sido informado.

A tenda — o lugar implícito do versículo. "O que trouxerem" é o que entra em casa. No versículo 4 a cena era o campo; aqui é o interior, onde se mede, se mói, se cozinha e se guarda.

O sexto dia — o primeiro dia da Bíblia identificado pela comida que se recebe. Na criação, o sexto dia é o dos animais da terra e do ser humano, fechado com "tudo era muito bom" (Gênesis 1:31). Aqui é o dia em que o povo terá comida para dois dias. O texto não liga explicitamente os dois sextos dias.

5. Pontos de Ensino

1. A regra nasce com a sua exceção. No mesmo discurso em que Deus proíbe recolher hoje o que é de amanhã, ele anuncia o dia em que se fará exatamente isso. O texto não vê contradição: a exceção é parte da regra desde o começo.

2. O descanso começa na véspera. Antes de haver nome para o dia de descanso, há a instrução de preparar. O que mais tarde se chamará sábado aparece primeiro como trabalho feito antes. A tradição judaica tirou daí a importância da sexta-feira.

3. Saber o quê antes de saber o porquê. O povo recebe a prática antes da explicação. A ordem do capítulo é essa: primeiro o dobro, depois a surpresa, depois o motivo. O texto não pede que o povo entenda antes de fazer.

4. A diferença do dia é marcada pela mesa. O sexto dia não é anunciado por um sinal no céu nem por um toque de trombeta: é reconhecido pela quantidade de comida em casa. A religião do Êxodo começa pelo concreto.

6. Aspectos Filosóficos

O povo recebe uma regra — no sexto dia, prepare o dobro — sem receber o motivo. Ninguém lhe diz que o dia seguinte será diferente, nem por quê. É possível agir bem sem entender a razão do que se faz? E é razoável?

Herbert Simon e a racionalidade limitada

Herbert Simon (1916-2001), economista e cientista político norte-americano, Prêmio Nobel de Economia em 1978, passou a vida combatendo uma ficção: a de que as pessoas decidem calculando todas as alternativas e escolhendo a melhor. Ninguém faz isso, dizia ele, porque ninguém tem nem a informação completa nem o tempo e a capacidade de cálculo necessários. A racionalidade humana é "limitada" — bounded rationality, na expressão que ele tornou corrente.

Daí ele tirou duas ideias. A primeira é que, na prática, ninguém procura o ótimo: procura o suficiente. Simon cunhou para isso uma palavra, satisficing (mistura de "satisfazer" e "bastar"): escolher a primeira alternativa que atende ao necessário, em vez de buscar a melhor possível.

A segunda está no livro que o fez conhecido, Administrative Behavior ("O comportamento administrativo", 1947). Uma organização, diz ele, existe justamente porque o indivíduo não consegue decidir tudo sozinho. Ela fornece às pessoas as "premissas de decisão" — as regras, os critérios, os dados de partida — para que cada um não precise reconstruir o raciocínio inteiro a cada vez. E a autoridade funciona dentro de uma "zona de aceitação": um campo de ordens que a pessoa cumpre sem examinar o motivo, porque confia que alguém o examinou.

Em The Sciences of the Artificial ("As ciências do artificial", 1969), Simon conta a parábola da formiga na praia. O caminho que ela faz na areia é cheio de curvas e desvios, e parece complicadíssimo. Mas a formiga é simples; a complexidade está no terreno. Quem observa o caminho atribui à formiga uma inteligência que é, na verdade, da praia.

O sexto dia como premissa de decisão

Lido com Simon, Êxodo 16:5 é a entrega de uma premissa de decisão. O povo não precisa saber que haverá um dia sem maná, nem por que haverá, nem quanto guardar. Recebe uma regra simples — no sexto dia, o dobro — que já embute o cálculo que ele não teria como fazer. Quem segue a regra age certo sem conhecer o motivo, porque o motivo foi resolvido em outro lugar.

E a regra está desenhada para quem tem racionalidade limitada. Não pede previsão do tempo, não pede cálculo de quantidade, não pede conhecimento do calendário. Pede uma única exceção a uma rotina já aprendida. É a forma mais barata possível de levar um grupo grande a fazer, no dia certo, a coisa certa.

A formiga de Simon também ajuda a ler o capítulo. Quem olha de fora o comportamento do povo — recolhe todo dia, não guarda, no sexto dia recolhe em dobro, no sétimo fica em casa — vê um padrão sofisticado, uma semana organizada. Mas o povo não precisa ter organizado a semana. A organização está no "terreno", isto é, no próprio maná: na quantidade que cai, no que apodrece e no que não apodrece.

O limite da comparação

Simon descreve como as pessoas decidem; não diz que obedecer sem entender seja bom. A "zona de aceitação" dele tem bordas: há ordens que ninguém aceita sem perguntar, e é saudável que haja. Uma organização que só funciona com premissas inquestionadas é frágil e pode ser perigosa.

No Êxodo, a confiança que faz a regra funcionar não é dada de antemão; está sendo testada, como diz o versículo 4. E o motivo não fica escondido para sempre: é revelado no versículo 23, depois do fato. O capítulo não elogia a obediência cega; mostra uma regra cuja razão chega depois, e um povo que, em parte, a seguiu antes de entender. É defensável ler isso como pedagogia, não como modelo permanente.

7. Aplicações Práticas

O descanso precisa ser preparado. Quem quer um dia de folga de verdade sabe que ele se ganha ou se perde na véspera. Se nada foi adiantado, o dia livre vira dia de tarefas atrasadas. O versículo põe a preparação antes do nome do descanso — e é nessa ordem que ele funciona na vida comum: a sexta-feira é que faz o sábado, ou o domingo.

Uma regra simples vale mais que um cálculo perfeito. Famílias e equipes que funcionam bem costumam ter poucas regras claras, que dispensam discutir tudo de novo a cada semana. "No sexto dia, o dobro" é desse tipo. Vale perguntar quais são as regras simples que poupam você de decidir a mesma coisa toda semana — e quais estão faltando.

Guardar com destino é diferente de acumular. O mesmo capítulo que condena a sobra autoriza uma reserva com endereço certo. Na vida financeira e doméstica a distinção é útil: a reserva que tem um fim definido — a conta do mês que vem, a viagem marcada — não é o mesmo que o acúmulo feito por medo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Deus não disse logo o motivo do dobro?

O texto não explica. Uma possibilidade é pedagógica: o povo aprenderia o dia de descanso pela experiência, encontrando comida para dois dias e depois um dia sem maná, e só então ouviria o nome. Outra é de composição: o capítulo pode ter guardado o anúncio do sábado para o versículo 23 por razões de narrativa, para que o primeiro sábado fosse uma descoberta. Não é possível decidir.

E se alguém recolhesse o dobro num dia comum?

O capítulo responde indiretamente: quem deixou sobra num dia comum a viu estragar (Êxodo 16:20). O dobro só se conservava no sexto dia. O versículo 5 não proíbe recolher mais nos outros dias; o versículo 18 mostra que, na medida, ninguém ficava com mais.

O versículo institui o sábado?

Não diretamente. Ele não nomeia o sétimo dia, não fala em descanso nem em santidade. Institui uma prática — o preparo dobrado — que só fará sentido quando o sábado for anunciado. Quem lê o capítulo pela primeira vez não sabe, no versículo 5, para que serve o dobro.

Por que o primeiro sinal do dia santo é comida, e não culto?

Porque o capítulo inteiro é sobre comida, e o dia de descanso entra nele pela via da comida: um dia em que não se sai para recolher. Não há sacrifício, nem reunião, nem oração prescrita. O primeiro sábado da Bíblia será um dia em que não se trabalha para comer. O culto virá depois, em outros textos.

9. Conexão com Outros Textos

O outro sexto dia

Gênesis 1:31 — "Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom. Houve tarde e manhã: o sexto dia."

O único "sexto dia" com artigo antes deste versículo. É o dia que fecha o trabalho da criação e antecede o descanso. O Êxodo não faz a ligação em palavras, mas usa o mesmo número, e o capítulo terminará num sétimo dia de descanso.

A colheita multiplicada antes do descanso

Levítico 25:20-21 — "Se vocês perguntarem: 'Que comeremos no sétimo ano, se não semearmos nem recolhermos a nossa colheita?', eu mandarei a minha bênção sobre vocês no sexto ano, e ela produzirá fruto para três anos."

A lei do ano sabático repete, em escala de anos, a lógica de Êxodo 16:5: antes do tempo de não trabalhar, o tempo anterior rende mais. Ali o sexto ano dá para três; aqui o sexto dia dá para dois. E ali, ao contrário daqui, a pergunta do povo é prevista e respondida antes.

O preparo permitido na festa

Êxodo 12:16 — "No primeiro dia haverá santa convocação, e no sétimo dia haverá santa convocação para vocês. Nenhum trabalho se fará neles; somente o que cada um precisar comer, isso apenas poderá ser preparado."

A festa dos pães sem fermento autoriza o preparo da comida no próprio dia santo. O sábado do maná vai na direção oposta: tudo se prepara antes. A diferença entre os dois regimes é a base da prática do eruv que a Mekhilta tira deste versículo.

O dobro em outro lugar

Gênesis 43:15 — "Então os homens tomaram os presentes e o dobro do dinheiro, e também Benjamim; levantaram-se, desceram ao Egito e apresentaram-se diante de José."

A mesma palavra hebraica para "dobro". Lá o dobro é levado por precaução, para pagar um engano; aqui é dado, para cobrir um dia sem coleta.

Preparar o pão antes do tempo

Provérbios 6:8 — "Ela prepara no verão o seu pão e ajunta na colheita o seu alimento."

A formiga do provérbio faz com o pão o que o povo fará no sexto dia, com o mesmo verbo de "preparar". A diferença é a escala de tempo: a formiga prepara uma estação; Israel, um dia.

O dia anunciado pela comida

Êxodo 16:29 — "Vejam: o SENHOR lhes deu o sábado; por isso, no sexto dia ele lhes dá pão para dois dias. Fique cada um onde está; ninguém saia do seu lugar no sétimo dia."

O versículo 29 dá a explicação que o versículo 5 omitiu, e a dá na ordem inversa: primeiro o sábado, depois o pão. É também a frase que apoia a leitura de Rashi, porque diz que é o SENHOR quem "dá" pão para dois dias.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E no sexto dia prepararão o que trouxerem, e será o dobro do que recolhem dia após dia.”

Texto hebraico

וְהָיָה בַּיּוֹם הַשִּׁשִּׁי וְהֵכִינוּ אֵת אֲשֶׁר־יָבִיאוּ וְהָיָה מִשְׁנֶה עַל אֲשֶׁר־יִלְקְטוּ יוֹם יוֹם׃

Transliteração

ve-hayá ba-yom ha-shishí ve-hekhínu et asher-yavíu, ve-hayá mishné al asher-yilqetú yom yom.

Análise palavra por palavra

וְהָיָה — ve-hayá, "e será".

O verbo "ser" no perfeito com a conjunção "e", forma que, numa fala sobre o futuro, vale como futuro: "e acontecerá". O versículo abre e se divide com a mesma palavra: "e será, no sexto dia… e será o dobro". As duas metades ficam simétricas, uma marcando o tempo e outra a quantidade. O português da ABC absorve o primeiro "será" na construção "E no sexto dia".

בַּיּוֹם הַשִּׁשִּׁי — ba-yom ha-shishí, "no sexto dia".

Preposição be, "em", com artigo, o substantivo yom, "dia", e o numeral ordinal shishí, "sexto", também com artigo. O duplo artigo — "o dia, o sexto" — é a forma normal do hebraico para o ordinal determinado. A expressão idêntica só tinha aparecido em Gênesis 1:31, onde fecha a criação ("o sexto dia", com o artigo apenas no numeral). No capítulo, volta nos versículos 22 e 29.

וְהֵכִינוּ — ve-hekhínu, "e prepararão".

Hifil — a forma causativa do verbo hebraico — da raiz k-w-n, cuja ideia básica é estar firme, de pé; no Hifil, tornar firme, deixar pronto, dispor. O sentido e as cores do verbo estão no estudo de Gênesis 43:25. Aqui ele está no perfeito com "e", valendo como futuro, terceira pessoa do plural.

Com pão por objeto, a mesma forma descreve a formiga que "prepara no verão o seu pão" (Provérbios 6:8). No Êxodo, é a primeira vez que o povo prepara alguma coisa com este verbo. No capítulo anterior a raiz tinha servido para Deus: o "lugar firme" de Êxodo 15:17 sai dela.

אֵת אֲשֶׁר־יָבִיאוּ — et asher-yavíu, "o que trouxerem".

A partícula que marca o objeto direto, et; o relativo asher, "o que"; e yavíu, Hifil imperfeito, terceira pessoa do plural, da raiz b-w-', vir — no Hifil, fazer vir, trazer para dentro. O verbo supõe um movimento de fora para dentro: do campo para a tenda. Rashi apoia nele a sua leitura do dobro achado em casa.

מִשְׁנֶה — mishné, "dobro".

Substantivo masculino, da raiz sh-n-h, repetir, fazer pela segunda vez. Significa o dobro, a segunda porção, o segundo em posição: é a palavra do "dobro do dinheiro" em Gênesis 43:12 e 43:15 e a do "segundo carro" de José em Gênesis 41:43. Mais tarde dará nome a duas obras: o "Deuteronômio", que em grego traduz a expressão "cópia (ou repetição) da lei" de Deuteronômio 17:18, e a Mishná, a "repetição" da lei oral.

As consoantes da palavra são as mesmas do particípio que significa "mudado, diferente". É sobre essa igualdade de letras que a Mekhilta faz a sua leitura de um pão "diferente" no sexto dia.

A Septuaginta traduziu por diploûn, "duplo", sem ambiguidade. Ônquelos, a paráfrase aramaica, também diz "o dobro".

עַל אֲשֶׁר־יִלְקְטוּ — al asher-yilqetú, "sobre o que recolhem".

A preposição al, "sobre, em cima de", aqui no sentido de comparação: dobro "em relação a". O verbo é laqat, recolher, no imperfeito, terceira pessoa do plural: a ação habitual, o que eles recolhem sempre. O imperfeito aqui não é futuro, é rotina.

יוֹם יוֹם — yom yom, "dia dia".

A palavra "dia" repetida, sem conjunção: a forma hebraica de dizer "a cada dia", "dia após dia". É a construção de Gênesis 39:10, onde descreve a insistência diária da mulher de Potifar. Aqui ela fecha o versículo marcando a rotina contra a qual o sexto dia se mede. O versículo 4 tinha usado outra fórmula, "a coisa de um dia no seu dia"; o versículo 5 usa a mais simples, como se a rotina já estivesse estabelecida.

Entre os dois yom o texto massorético (o texto hebraico padronizado pelos massoretas na Idade Média) põe um traço vertical, o paseq ("separador"), que manda fazer uma pausa entre as duas palavras iguais na leitura em voz alta, para que não se fundam.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o dia diferente da semana entra na Bíblia antes do seu nome e antes do seu motivo. O que chega primeiro é uma quantidade: o dobro. O sábado do Êxodo começa como uma conta de comida, e só depois vira palavra, santidade e lei. Isso diz alguma coisa sobre a ordem em que o capítulo quer que o leitor aprenda: pela mão antes de pela cabeça.

A segunda é que a regra diária do versículo 4 não é absoluta nem por um momento. No mesmo discurso em que proíbe recolher hoje o que é de amanhã, Deus anuncia o dia em que isso será feito. A regra e a exceção têm o mesmo autor e o mesmo propósito, e o que as distingue não é a quantidade guardada, mas para que ela é guardada.

A terceira é que o versículo não decide se o dobro é dom ou tarefa. As duas leituras — o dobro achado em casa e o dobro recolhido no campo — têm apoio em frases do mesmo capítulo, e talvez o texto não precise escolher: o sexto dia pede um preparo humano e garante um resultado que não depende só dele. É a mesma combinação do versículo anterior, agora concentrada num dia.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 16:5

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%