Moisés e Arão foram a Faraó e fizeram como o SENHOR havia ordenado: Arão jogou o seu cajado diante de Faraó e dos seus servos, e ele virou uma serpente.
1. Introdução
Êxodo 7:10 é o versículo da execução, e a execução vem curta: os dois vão, fazem, e o cajado vira serpente. Duas linhas para o primeiro sinal diante do rei do Egito.
Há três coisas para observar, e nenhuma delas está no espetáculo.
A primeira é uma ausência. A ordem do versículo 9 era condicional — o sinal se daria quando Faraó pedisse um prodígio. O versículo não registra que o rei tenha pedido coisa alguma.
A segunda é um acréscimo. A instrução dizia "diante de Faraó"; a execução acontece diante de Faraó e dos seus servos. Havia corte na sala, e o item 2 mostra quem era essa gente e por que a presença dela importa.
A terceira é quem faz. O gesto é de Arão, e o cajado é chamado de dele — o que abre uma questão que o próprio capítulo vai embaralhar cinco versículos adiante, e que o item 3 expõe sem fingir resolver.
2. Contexto Histórico e Cultural
"E dos seus servos" — quem estava na sala
A instrução do versículo anterior mandava jogar o cajado diante do rei. A execução acrescenta uma segunda plateia, e é ela que muda a natureza do ato.
Uma audiência real egípcia não era conversa a portas fechadas. Era ato de Estado, e tinha gente em volta.
O egípcio tinha uma palavra para essa gente: chenyt ("os que cercam", em egípcio — o séquito do rei, os funcionários que compunham a corte). Nos relevos e nas inscrições, o rei aparece sentado e o chenyt aparece de pé, em fila, atrás ou ao lado. Não são figurantes de decoração: são os homens que ocupavam os cargos do reino.
Os títulos dessa gente sobreviveram em quantidade. Havia o "companheiro único" (semer uati, em egípcio), título de proximidade pessoal ao soberano que o estudo de Gênesis 50:4 menciona; havia o "príncipe hereditário" e o "conde", que a essa altura já eram categorias de posição e não de sangue; havia o portador do selo, o mordomo, o escriba do rei.
E havia escriba anotando. Este é o dado prático mais importante para o versículo: a corte egípcia registrava. Audiências, decisões, tributos e recebimentos eram postos por escrito, e o gênero literário em que o rei consulta o séquito e decide diante dele é tratado no estudo de Êxodo 1:9.
O que a presença da corte faz com o gesto
Junte-se isso ao versículo e uma coisa fica clara.
Se o cajado tivesse sido jogado diante do rei sozinho, o episódio seria negociável: a palavra de dois estrangeiros contra a de um soberano, sem testemunha. Com a corte presente, o que aconteceu ali passou a ser sabido por um número de pessoas que o rei não controla.
E é essa mesma gente que, no versículo seguinte, será convocada a produzir o mesmo efeito. A repetição do sinal pelos especialistas egípcios não é gesto privado do rei: é resposta dada na frente de quem viu a primeira.
Onde isso teria acontecido
Convém marcar um limite. O Êxodo não nomeia a cidade, não descreve a sala e não dá nome a nenhum dos presentes. Tudo o que se sabe do cenário vem da arqueologia egípcia em geral, não deste texto.
Os palácios reais escavados — o de Malqata, em Tebas, e os de Amarna — mostram salas de audiência com colunas, estrado e trono, acessos controlados e pátios sucessivos antes da sala principal. Chegar até ali exigia passar por etapas. Mas não é possível decidir em que palácio, em que cidade ou em que época a cena do Êxodo se situa, e projetar a planta de um desses edifícios sobre o versículo seria acrescentar o que o texto não dá.
O que fica é o essencial: quando o cajado caiu no chão, havia mais olhos do que os do rei.
3. Análise Teológica do Versículo
"Moisés e Arão foram a Faraó"
Uma frase de deslocamento, e ela carrega um dado.
É a segunda ida. A primeira está em Êxodo 5:1, e terminou mal: o rei respondeu que não conhecia o SENHOR, e no mesmo dia mandou agravar o trabalho do povo. Entre aquela cena e esta houve dois capítulos inteiros de recuo — o povo não ouviu Moisés, Moisés objetou duas vezes, e o livro parou para dar uma genealogia.
Agora os dois voltam. O texto não diz uma palavra sobre como conseguiram entrar, quanto tempo esperaram, ou o que sentiram ao repetir o caminho. Escreve que foram.
"e fizeram como o SENHOR havia ordenado"
A fórmula da obediência exata. O Êxodo já a usara quatro versículos antes, em Êxodo 7:6 — e o estudo daquele versículo trata do que significa registrar obediência em três palavras depois de dois capítulos de objeção.
Aqui ela faz outro serviço, e é preciso enxergá-lo: é esta fórmula que cobre a ausência do pedido de Faraó.
O pedido que não aparece
Este é o achado do versículo, e ele é uma ausência.
A ordem do versículo 9 tinha condição: quando Faraó disser "façam um prodígio", então Arão joga o cajado. A execução não traz a condição. Não há pergunta do rei, não há exigência, não há diálogo. Os dois chegam, e o cajado cai no chão.
Três leituras cabem, e convém expô-las sem escolher.
Numa, o pedido houve e o texto o omitiu. O hebraico narrativo resume com frequência, e a fórmula "fizeram como o SENHOR havia ordenado" pode estar absorvendo tudo o que aconteceu, inclusive a fala do rei. A favor: é a leitura mais econômica, e o livro faz isso em outros lugares.
Noutra, o pedido não houve e os dois fizeram assim mesmo. A instrução teria previsto um cenário que não se realizou, e eles executaram o gesto de todo modo. A favor: o texto é explícito em registrar o que aconteceu, e não registra o pedido.
Numa terceira, a frase do versículo 9 nunca foi previsão de palavras exatas. Seria o modo de dizer que tipo de encontro seria aquele — um encontro em que se cobra demonstração — sem que a cobrança precisasse ser dita nesses termos. A favor: antecipações de fala, na narrativa bíblica, raramente se cumprem ao pé da letra.
Não é possível decidir entre as três, e o Êxodo não mostra sinal de estar incomodado com a diferença. Fica o registro: a condição foi enunciada e não foi narrada.
"Arão jogou o seu cajado"
Quem age é Arão. Moisés vai junto, é nomeado primeiro na frase de chegada, e não toca em nada.
E o cajado é chamado de dele. Isso vinha do versículo 9, mas aqui não é mais ordem: é relato. O objeto que cai no chão do salão pertence, segundo o texto, ao irmão mais velho.
O problema que o capítulo cria e não resolve
Vale enfrentá-lo, porque é real e a maioria das leituras passa por cima.
Em todo o capítulo 4, o cajado era de Moisés. Era o que ele tinha na mão em Êxodo 4:2, o que virou cobra em Êxodo 4:3, e o que ele foi mandado levar em Êxodo 4:17.
Aqui o cajado é de Arão.
Cinco versículos adiante, em Êxodo 7:15, Moisés é mandado levar na mão "o cajado que virou cobra" — que, pela letra deste versículo, é o de Arão.
E quatro versículos depois disso, em Êxodo 7:19, a ordem volta a ser para Arão tomar o cajado dele.
As possibilidades são conhecidas. Pode haver dois cajados, um de cada irmão, e o texto simplesmente não se preocupa em distingui-los. Pode haver um só, que passa de mão em mão conforme quem age. Pode ser que o possessivo hebraico indique apenas quem está segurando, sem qualquer afirmação de propriedade. E há quem proponha que o capítulo junte materiais de origem diferente, uns que davam o instrumento a Moisés e outros a Arão.
Nenhuma dessas leituras é demonstrável, e o Êxodo não comenta a troca. O que se pode afirmar é o dado: o objeto muda de dono entre um capítulo e outro, e o livro não acha que isso precise de explicação.
"diante de Faraó e dos seus servos"
A instrução dizia só "diante de Faraó". A execução acrescenta a corte.
Acréscimos assim, na narrativa hebraica, costumam ser o modo de dar a medida da cena. Não é um homem que vê; é um homem e o aparelho de Estado dele. O item 2 mostra quem eram esses servos.
E há uma consequência imediata: a resposta do versículo 11 também será pública. O rei não vai contestar em particular. Vai mandar chamar gente diante da mesma plateia.
"e ele virou uma serpente"
A instrução se cumpre, palavra por palavra — inclusive na escolha do substantivo, que continua sendo o termo grande, o mesmo do versículo 9, e não o de Êxodo 4:3.
E aqui está a segunda ausência do versículo, tão notável quanto a primeira.
Ninguém reage.
O texto não diz que o rei se assustou. Não diz que a corte recuou. Não diz que houve rumor, silêncio, admiração ou riso. A frase termina no fato e o versículo acaba.
Compare-se com Êxodo 4:3, onde o mesmo gesto, feito sozinho num monte, produziu uma reação registrada: Moisés fugiu. Ali, sem público nenhum, o Êxodo achou que valia a pena anotar o susto de um homem só. Aqui, com o rei do Egito e a corte inteira olhando, não anota nada.
A diferença é do texto e não do comentário. O que ela significa, não é possível decidir — pode ser economia narrativa, pode ser o modo de dizer que a corte não se impressionou, pode ser que a reação estivesse implícita para quem lesse. O que se pode afirmar é que o Êxodo não escreveu o espanto que o leitor moderno espera encontrar ali.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Arão
O executor. É a primeira vez em todo o livro que ele faz um gesto diante do rei, e não é um gesto de palavra. Em Êxodo 4:30 ele havia feito os sinais diante do povo; agora os faz diante do poder.
O cajado é chamado de dele, o que é novidade em relação a todo o capítulo 4.
Moisés
Presente e inativo. Nomeado na frase de chegada, ausente na frase do gesto. É a posição prevista desde Êxodo 7:1-2: ele recebe e transmite; outro executa.
Faraó
Presente e mudo. O rei não diz uma palavra neste versículo — nem para pedir, nem para reagir. Voltará a agir no versículo seguinte, e a primeira coisa que fará é mandar chamar gente.
Os servos
A corte. O texto não nomeia ninguém e não dá número. A palavra hebraica traduzida por "servos" é a mesma que designa desde o escravo até o alto funcionário — e aqui, pelo contexto, são os homens do palácio. Quem eram, o item 2 expõe.
Repare que eles aparecem por acréscimo: não estavam na ordem, aparecem na execução.
O lugar
A corte do Egito, sem cidade, sem nome e sem descrição. O Êxodo não diz onde ficava o palácio nem como era a sala.
O que já tinha acontecido ali
Esta é a segunda ida dos dois a este rei. A primeira, em Êxodo 5:1-2, foi só de palavras: um pedido e uma recusa. Desta vez levam um objeto.
5. Pontos de Ensino
A execução é mais curta que a ordem
O versículo 9 tem instrução, condição e fala citada. O versículo 10 despacha tudo em duas linhas. Essa desproporção é típica da narrativa hebraica e vale conhecê-la: o texto gasta palavras no que vai acontecer e economiza no que aconteceu.
Quem lê esperando que o cumprimento seja mais impressionante que a promessa costuma sair frustrado do Antigo Testamento.
O gesto é público, e isso é parte do gesto
A execução acrescenta a corte à ordem. O que foi feito, foi feito diante de testemunhas que não pertenciam a nenhum dos dois lados.
Isso tem consequência prática na cena: a resposta do rei, no versículo seguinte, terá de ser dada no mesmo lugar e diante da mesma gente.
Quem obedece não é necessariamente quem recebeu a ordem
A instrução chegou a Moisés; o braço que se mexe é o de Arão. E a fórmula de obediência — "fizeram como o SENHOR havia ordenado" — está no plural, cobrindo os dois.
O arranjo é simples e vale notá-lo: o texto conta como obediência dos dois um ato feito por um.
O silêncio da reação
Ninguém se assusta, ninguém comenta, ninguém se ajoelha. É preciso resistir à tentação de preencher isso — a maioria das recontagens do episódio acrescenta o espanto da corte, e o espanto não está no texto.
A lição de leitura é maior que o versículo: o que a Bíblia não registra também é informação, e o hábito de completá-la com o que seria natural acaba produzindo uma história diferente da que está escrita.
A obediência acontece mesmo quando o cenário previsto não aparece
A ordem tinha condição, e a condição não foi narrada. O gesto foi feito.
Se o pedido do rei houve e não foi escrito, ou se não houve e os dois agiram assim mesmo, não é possível decidir. Em qualquer das duas hipóteses, o que o versículo mostra é gente executando uma instrução num quadro que não bateu exatamente com o descrito.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo encena um problema simples e incômodo: um ato feito diante de testemunhas que não dizem nada.
Um gesto público depende de quem olha para virar acontecimento. Sem plateia, o cajado que cai no chão é um cajado que caiu no chão. Com plateia, pode virar prova, ameaça, insulto ou truque — e quem decide qual dessas coisas será não é quem fez o gesto.
É por isso que a ausência de reação no versículo pesa. Toda a força de um ato de demonstração está na resposta que ele arranca, e aqui o texto não arranca nenhuma. O gesto acontece num silêncio que não é aprovação nem recusa: é adiamento.
Há uma consequência para quem age assim. Quem escolhe demonstrar entrega ao outro a definição do que demonstrou. Quem fala pode insistir, explicar, corrigir; quem apenas faz depende inteiramente de como o feito for lido — e o versículo seguinte vai mostrar de que modo o rei do Egito escolheu lê-lo.
O Êxodo não formula nada disso. Ele monta a cena e cala, e é a leitura que o texto permite — não a que ele afirma.
7. Aplicações Práticas
Fazer diante de quem interessa, e não apenas diante de quem concorda
A aplicação de relação real está no acréscimo do versículo: o gesto foi feito diante do rei e da corte dele. Não foi uma conversa reservada.
Na vida comum, muita coisa se resolve — ou não se resolve — por causa disso. Tratar em particular um assunto que envolve várias pessoas costuma parecer mais delicado e quase sempre sai mais caro: quem não estava presente fica com outra versão, e a versão que circula não é a que aconteceu.
Não esperar a reação como pagamento
A segunda aplicação vem da ausência que o versículo registra. Ninguém aplaude.
Quem faz alguma coisa difícil e espera reconhecimento imediato costuma desmontar quando ele não vem. O versículo mostra um gesto feito, e o texto vira a página sem comentar. Quem trabalha assim — entregando o que foi combinado e seguindo adiante, sem depender do efeito na plateia — sofre menos e erra menos.
Fica o limite: o Êxodo não elogia isso nem o recomenda. A aplicação é do leitor.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Faraó pediu o prodígio ou não?
O texto não diz. A ordem previa o pedido; a execução não o registra. Três leituras cabem e o item 3 as expõe — e não é possível decidir entre elas. O que se pode afirmar é que a fórmula "fizeram como o SENHOR havia ordenado" é o que cobre o intervalo.
De quem era o cajado, afinal?
No capítulo 4 era de Moisés. Aqui é de Arão. Em Êxodo 7:15 Moisés é mandado levar o cajado que virou cobra, e em Êxodo 7:19 o cajado volta a ser de Arão. O Êxodo não concilia as frases e não parece achar que precisa. Nenhuma das explicações propostas é demonstrável.
Por que ninguém se assusta?
O versículo não registra reação de espécie alguma — nem do rei, nem da corte. Isso é ainda mais notável porque em Êxodo 4:3, com o mesmo gesto e sem plateia, o texto anotou que Moisés fugiu. Se é economia de narrativa ou observação sobre a frieza da corte, permanece em aberto.
Por que Moisés não faz nada?
Porque não é a função dele. Êxodo 7:1-2 distribuiu os papéis: Moisés recebe e transmite, Arão executa diante do rei. O que surpreende não é a inação de Moisés, e sim que ele seja nomeado primeiro numa frase em que não age.
Este sinal convence alguém?
O versículo não diz e o capítulo dirá que não. Mas convém não ler o episódio como fracasso de método: Êxodo 7:3-4 já avisara que o rei não ouviria, antes de qualquer sinal ser feito. O resultado não desmente a instrução; cumpre o que fora anunciado.
Os servos do rei tinham algum papel oficial na cena?
O texto não atribui nenhum a eles aqui. No versículo seguinte, porém, é entre essa gente que o rei vai buscar a resposta. A presença da corte, que parece detalhe, é o que torna possível o que vem a seguir.
9. Conexão com Outros Textos
A ordem que este versículo cumpre
Êxodo 7:9 — "Quando Faraó lhes disser: 'Façam um prodígio', você dirá a Arão: 'Tome o seu cajado e jogue-o diante de Faraó', e ele virará uma serpente."
Tudo se cumpre, menos a condição. A comparação lado a lado é o que torna visível o que falta.
O mesmo gesto sem plateia, e com reação
Êxodo 4:3 — "E disse: 'Jogue-o no chão.' Ele o jogou no chão, e o cajado virou uma cobra; e Moisés fugiu dela."
No monte, um homem só, e o texto anota o susto. Na corte, um rei e o séquito inteiro, e o texto não anota nada.
A primeira ida ao mesmo rei
Êxodo 5:1 — "Depois disso, Moisés e Arão foram a Faraó e disseram: 'Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Deixe o meu povo ir, para que me celebre uma festa no deserto.'"
A mesma dupla, o mesmo verbo de ir, o mesmo destinatário. A diferença é o que levam na mão.
A fórmula da obediência, quatro versículos antes
Êxodo 7:6 — "Moisés e Arão fizeram como o SENHOR lhes ordenou; assim fizeram."
A mesma fórmula, e ali sem nenhum ato descrito. Aqui ela vem colada ao gesto que a cumpre.
O cajado que volta para a mão de Moisés
Êxodo 7:15 — "Vá a Faraó pela manhã: ele estará saindo para as águas. Fique à espera dele à margem do Nilo e leve na mão o cajado que virou cobra."
Cinco versículos depois, o objeto deste versículo está na mão do outro irmão. O Êxodo não explica a passagem.
Os sinais feitos diante do povo, antes de qualquer corte
Êxodo 4:30 — "Arão falou todas as palavras que o SENHOR tinha dito a Moisés, e fez os sinais diante do povo."
Ali Arão fez as duas coisas, falar e agir, e o povo acreditou. Aqui ele só age, e não há resposta registrada.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Moisés e Arão foram a Faraó e fizeram como o SENHOR havia ordenado: Arão jogou o seu cajado diante de Faraó e dos seus servos, e ele virou uma serpente.
Texto hebraico
וַיָּבֹא מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן אֶל־פַּרְעֹה וַיַּעֲשׂוּ כֵן כַּאֲשֶׁר צִוָּה יְהוָה וַיַּשְׁלֵךְ אַהֲרֹן אֶת־מַטֵּהוּ לִפְנֵי פַרְעֹה וְלִפְנֵי עֲבָדָיו וַיְהִי לְתַנִּין׃
Transliteração
wa-yavo Mosheh we-Aharon el-Par'oh wa-ya'asu khen ka'asher tsiwwah YHWH; wa-yashlekh Aharon et-mattehu lifnei Par'oh we-lifnei avadav, wa-yehi le-tannin.
Análise palavra por palavra
וַיָּבֹא מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן — wa-yavo Mosheh we-Aharon, "e foi Moisés e Arão".
Detalhe de concordância que vale registrar: o verbo está no singular e os sujeitos são dois. Ao pé da letra, "e veio Moisés e Arão".
Isso não é erro. O hebraico põe com frequência o verbo no singular quando ele vem antes de sujeitos compostos, concordando com o primeiro deles. O que o traço deixa entrever, e sem forçar, é a hierarquia da dupla: a frase se organiza em torno de Moisés, e Arão entra em seguida — embora seja Arão quem age três palavras depois.
O verbo é bo, vir, entrar, chegar. Com a preposição el mais pessoa, é a expressão corrente de comparecer diante de alguém.
וַיַּעֲשׂוּ כֵן כַּאֲשֶׁר צִוָּה יְהוָה — wa-ya'asu khen ka'asher tsiwwah YHWH, "e fizeram assim como ordenou o SENHOR".
Agora o verbo está no plural: wa-ya'asu, "e fizeram", os dois. O texto vinha do singular na chegada e passa ao plural na obediência.
Khen é "assim", "desse modo" — a palavra que fecha a fórmula de cumprimento. Ka'asher é "conforme", "segundo o que". E tsiwwah é o verbo tsavah, ordenar, comandar, na forma intensiva do hebraico: o verbo próprio de ordem que vem de cima.
O conjunto é fórmula fixa do Pentateuco e aparece dezenas de vezes. A função dela é declarar correspondência exata entre o mandado e o feito, sem descrever o feito.
E é justamente aí que está o ponto. A fórmula afirma que tudo se deu conforme a ordem. A ordem tinha uma condição — o pedido do rei — que o relato não menciona. O texto hebraico não resolve isso, e nenhuma leitura da gramática o resolve: a fórmula é genérica por construção.
וַיַּשְׁלֵךְ אַהֲרֹן — wa-yashlekh Aharon, "e Arão jogou".
O mesmo verbo do imperativo do versículo 9 e o mesmo de Êxodo 4:3, na forma causativa do hebraico: arremessar, atirar, largar fora. O estudo de Êxodo 4:3 mostra o peso dele.
O sujeito vem expresso, Arão, e é a única vez no versículo em que um dos dois irmãos aparece sozinho num verbo.
אֶת־מַטֵּהוּ — et-mattehu, "o seu cajado".
Matteh com sufixo de terceira pessoa do singular masculino. Como o sujeito imediato é Arão, o possessivo é dele.
Convém dizer o que o hebraico permite e o que não permite aqui. O sufixo marca posse ou associação, e a língua não distingue entre "o cajado que lhe pertence" e "o cajado que ele está segurando". A ambiguidade é da língua, não da tradução — e é ela que mantém aberta a questão exposta no item 3.
לִפְנֵי פַרְעֹה וְלִפְנֵי עֲבָדָיו — lifnei Par'oh we-lifnei avadav, "diante de Faraó e diante dos seus servos".
Repare que a preposição se repete. O hebraico escreve lifnei duas vezes, uma para cada plateia, e poderia ter escrito uma só.
É o mesmo recurso notado no estudo de Êxodo 7:8 a respeito dos dois destinatários da fala: a repetição individualiza. Não é "diante do rei e da corte dele" como bloco único; são duas presenças, cada uma encarada de frente.
Avadav é o plural de eved com sufixo: "os servos dele". A palavra cobre toda a escala, do escravo ao ministro, e é a mesma que o Êxodo aplica aos israelitas escravizados. Aqui, pelo contexto, designa os funcionários da corte — e a coincidência de vocabulário é do texto: os servos do rei e os servos que o rei não solta chamam-se pelo mesmo nome.
O Êxodo não comenta a coincidência, e ela pode ser apenas o alcance normal da palavra. Mas ela está lá.
וַיְהִי לְתַנִּין — wa-yehi le-tannin, "e ele virou uma serpente".
A mesma construção de transformação do versículo 9 e de Êxodo 4:3 — o verbo "ser" mais a preposição le, "ser para", isto é, tornar-se.
E o mesmo substantivo do versículo 9: tannin, não nachash. O cumprimento conserva a palavra da ordem. O campo semântico do termo está desenvolvido no estudo de Êxodo 7:9.
O que o versículo não tem
Um último registro, e é sobre o que a frase hebraica deixa de fora.
Não há advérbio de tempo, não há palavra de espanto, não há verbo de reação. A oração final termina no substantivo e o versículo acaba ali. Em hebraico, como em português, o que se segue é o ponto final.
11. Conclusão
Do que foi exposto, três conclusões.
Primeira: a execução não bate exatamente com a ordem, e o texto não se incomoda. A instrução tinha condição — o pedido do rei — e a condição não foi narrada. A fórmula de obediência exata cobre o intervalo sem explicá-lo. Quem procura no Êxodo uma correspondência milimétrica entre o que foi mandado e o que foi contado vai encontrar, aqui, uma folga que o livro não considera problema.
Segunda: o gesto é público, e a publicidade é acrescentada na execução. A ordem falava do rei; o relato acrescenta a corte. Isso não é enfeite: é o que torna possível a cena seguinte, em que a resposta do rei terá de ser dada diante da mesma gente que viu a primeira.
Terceira: o Êxodo não escreve o espanto. Um cajado vira serpente no salão de audiência do rei do Egito, e ninguém no texto reage. O mesmo livro havia registrado a fuga de Moisés diante do mesmo tipo de gesto, feito sem plateia. A ausência é do texto, e preenchê-la com a admiração da corte — como fazem quase todas as recontagens — é escrever outra história.
O que não se conclui daqui: de quem era o cajado, se o rei pediu ou não pediu, e o que a corte pensou. As três coisas são levantadas pelo versículo e nenhuma delas é decidida por ele.













