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Êxodo 21:28

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 13 acessos
Se um boi chifrar um homem ou uma mulher, e a pessoa morrer, o boi certamente será apedrejado, e não se comerá a sua carne; mas o dono do boi será inocente.
Num descampado de terra batida à beira de uma aldeia antiga, homens de túnica cercam à distância um boi de chifres largos, enquanto ao fundo outros carregam um corpo coberto por um manto.

Estudo


Se um boi chifrar um homem ou uma mulher, e a pessoa morrer, o boi certamente será apedrejado, e não se comerá a sua carne; mas o dono do boi será inocente.

1. Introdução

Um boi chifra uma pessoa e ela morre. A lei manda apedrejar o boi, proíbe comer a carne dele e declara o dono inocente. As três ordens levantam perguntas que atravessaram a história: o animal tem culpa? Por que desperdiçar a carne de um boi numa terra pobre? E de que exatamente o dono fica inocente? Os rabinos chegaram a julgar o boi com o mesmo tribunal de vinte e três juízes que julgava homens, e a Europa cristã levou animais a processo até o século XVIII.

2. Contexto Histórico e Cultural

O boi da casa

O boi era o animal mais valioso de uma família de camponeses em Israel antigo. Puxava o arado e a carroça, debulhava o grão pisando-o na eira e, no fim da vida, dava carne e couro. Era também, de longe, o animal doméstico mais perigoso: pesado, com chifres, e capaz de matar com uma investida. Rashi (o comentarista judeu mais lido da Idade Média, da França do século XI) diz que a lei fala do boi porque é o caso comum, e que a regra vale para qualquer animal. O Talmude concorda.

Atenas: um tribunal para animais e objetos

Israel não era o único povo antigo a tratar a morte causada por um animal como caso de julgamento. Em Atenas, um dos tribunais de homicídio funcionava junto ao Pritaneu, o prédio público onde ardia o fogo comum da cidade. A Constituição dos Atenienses atribuída à escola de Aristóteles (57.4) diz que ali se julgavam os casos em que o culpado era desconhecido e os processos contra "coisas sem alma e outros animais" que tivessem matado alguém. A tradição atribuía a regra às leis de Drácon, do século VII a.C.

Platão, nas Leis (livro IX, 873e), propõe a mesma coisa para a cidade ideal: se um animal de carga ou qualquer outro animal matar uma pessoa, os parentes devem processá-lo por homicídio, e, se condenado, ele deve ser morto e lançado fora das fronteiras. Vale até para objetos: a pedra, a viga ou a arma que matar alguém sem mão humana deve ser julgada e jogada para fora do território. A exceção que Platão faz é o raio e "os projéteis vindos dos deuses".

Pausânias (viajante grego do século II, autor de uma descrição da Grécia) conta um caso aplicado (VI.11.6-8). Em Tasos, um homem que odiava o atleta Teágenes açoitava todas as noites a estátua dele. A estátua caiu e o matou. Os filhos processaram a estátua por homicídio, e os habitantes a jogaram no mar, conforme a lei de Drácon. Pouco depois veio a fome, e o oráculo de Delfos mandou trazer a estátua de volta.

A Europa dos processos contra animais

A prática ressurge, com força, na Europa medieval e moderna. O livro clássico sobre o assunto é o de E. P. Evans, O processo criminal e a pena capital de animais (1906). O caso mais citado é o de Falaise, na Normandia, em 1386: uma porca que matara uma criança foi julgada, vestida com roupas de gente e enforcada em praça pública. Em Autun, no começo do século XVI, o jurista Barthélemy de Chasseneuz defendeu os ratos da região num processo eclesiástico por terem destruído as colheitas, e alegou que os clientes não compareciam porque os gatos do caminho os ameaçavam. A Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa), ao comentar este versículo, registra que uma vaca foi executada na França ainda em 1740.

Na Inglaterra a forma foi outra. O animal ou objeto que causava a morte de alguém virava deodand (do latim deo dandum, "o que se deve dar a Deus"): era confiscado pela Coroa e o valor ia para fins piedosos. Carroças, cavalos e, no século XIX, até locomotivas foram declarados deodands. A instituição só foi abolida por lei em 1846, quando os acidentes ferroviários tornaram o confisco de trens inviável.

O que a comparação mostra

Os paralelos gregos e europeus, como o Êxodo, tratam a morte causada por animal como algo que precisa ser resolvido publicamente, e não como acidente sem dono. A diferença é o que fazem com o resto. O Êxodo distingue o animal do dono e decide os dois casos em versículos separados; e proíbe tirar proveito do animal morto, o que nenhum dos paralelos gregos faz. Nas coleções mesopotâmicas que regulam o boi que chifra, o boi não é morto: o caso é de indenização.

3. Análise Teológica do Versículo

"Se um boi chifrar um homem ou uma mulher, e a pessoa morrer"

A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo, do século III, tratado Nezikin ("Danos"), seção 10) começa por uma observação de sistema: o boi já estaria incluído em "quem ferir um homem, e ele morrer, certamente será morto" (Êxodo 21:12). O versículo existe para acrescentar o modo da morte, o apedrejamento. E estende a regra: "boi" vale para todo animal, porque no Decálogo de Deuteronômio 5:14 o boi aparece na lista de "todos os seus animais"; e "chifrar" vale para toda forma de matar — morder, empurrar, escoicear —, porque o versículo seguinte diz apenas "e matar".

Por que nomear a mulher, se a lei geral do homicídio não a nomeia? Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu da Espanha do século XII) responde com um argumento de tribunal: para o dono do boi não alegar que mulher não tinha o que fazer no campo onde os bois ficam. Em certos lugares, diz ele, não era costume a mulher sair da cidade. A lei fecha essa defesa de antemão.

A Mishná (a compilação da lei oral judaica fechada por volta do ano 200, tratado Bava Kamma, 4:4) acrescenta um caso que o versículo não imaginaria: o boi de estádio, treinado para lutar nos espetáculos, que mata alguém. Esse não é apedrejado, porque o versículo diz "se um boi chifrar", e aqui foram outros que o fizeram chifrar. E a Mishná seguinte (4:6) isenta o boi que se esfregou num muro e o derrubou sobre alguém, e o boi que investia contra um animal e matou uma pessoa. O boi, para os rabinos, só é apedrejado quando a morte vem do próprio ímpeto de chifrar um ser humano. Sem dizê-lo, a Mishná atribui ao animal algo parecido com uma direção da vontade.

"o boi certamente será apedrejado"

O apedrejamento é a pena que a Torá reserva aos crimes que atingem a comunidade inteira, e é executado por ela. Aplicá-lo a um boi põe o animal no lugar de um réu. A Mishná do tratado Sanhedrin (1:4) tira a consequência processual: o boi que matou alguém é julgado por um tribunal de vinte e três juízes, o mesmo dos crimes de morte. A Mekhilta dá a razão pela boca de Rabi Akiva: o versículo seguinte põe a morte do boi e a do dono na mesma frase, e, como a do dono exigiria vinte e três juízes, a do boi também. Na mesma Mishná, Rabi Eliezer discorda para as feras: o lobo, o leão, o urso ou a serpente que matam alguém não precisam de tribunal; quem os mata primeiro faz uma boa ação. Rabi Akiva insiste que até eles precisam de sentença.

Por que matar o animal? Há duas leituras principais.

Primeira leitura: o boi é culpado. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) dizem que o boi carrega a culpa do homicídio e fica impuro. A leitura se apoia em Gênesis 9:5, onde Deus diz que pedirá conta do sangue humano "de todo animal". A Bíblia de Cambridge e o Ellicott (comentário inglês do século XIX) leem o versículo como aplicação direta dessa frase.

Segunda leitura: o boi não tem culpa, mas violou uma ordem. Ibn Ezra, comentando Êxodo 21:31, diz que o boi é apedrejado porque é duro para Deus ver um animal matar um ser humano criado à imagem de Deus. A ênfase não está na culpa do boi, e sim no valor da vítima. O assiriólogo Jacob J. Finkelstein, no ensaio O boi que chifrou (publicado depois da morte dele, em 1981), deu a essa leitura a forma mais conhecida: o boi que mata um homem inverte a hierarquia da criação, em que o ser humano domina os animais (Gênesis 1:28), e por isso é tratado como um rebelde e eliminado. Finkelstein contrasta com as leis mesopotâmicas sobre o boi, que só tratam de indenização: lá o problema é econômico; aqui, de ordem do mundo.

Não é possível decidir pelo texto qual das leituras é a dele. O versículo não usa nenhuma palavra de culpa para o boi. Mas usa para ele o verbo da execução de pessoas.

"e não se comerá a sua carne"

A ordem parece supérflua: o animal apedrejado morre sem ser abatido segundo as regras, e a carne de animal morto assim já era proibida aos israelitas. A Mekhilta faz exatamente essa objeção e responde que a ordem trata de outro caso: se, levado para ser apedrejado, o dono correr e abater o boi segundo as regras, a carne continua proibida. A sentença, uma vez dada, pesa sobre o animal, e não sobre o modo da morte.

Rashbam (Rabi Shmuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) mostra o tamanho da proibição. A carne de animal morto, que o israelita não come, podia ser vendida a um estrangeiro ou dada aos cães (Deuteronômio 14:21; Êxodo 22:31). Esta não: nem o estrangeiro nem o cão. E a Mekhilta proíbe qualquer proveito, inclusive o couro, a gordura e o sangue, comparando o boi com a novilha cujo pescoço se quebra no vale quando se acha um morto sem culpado conhecido (Deuteronômio 21:1-9): se não se pode aproveitar a novilha que expia o sangue derramado, quanto menos o boi que o derramou.

O efeito prático é que o dono perde o boi inteiro. Numa família camponesa, isso era perder a força de trabalho de anos. A proibição faz da morte do boi uma perda para o dono mesmo quando a lei o declara inocente.

"mas o dono do boi será inocente"

A frase existe por causa do versículo seguinte, onde o dono avisado é condenado. Aqui o dono não sabia que o boi era perigoso, e a lei o isenta. Rashi diz que esse é o sentido simples.

Os rabinos, porém, perguntaram de que exatamente o dono fica isento, e as respostas, registradas na Mekhilta, desenham o mapa do que ele poderia dever. Rabi Yehudá: inocente também diante do Céu, e não só diante do tribunal. Ben Azzai: inocente de pagar a metade do resgate, porque, se o dono do boi conhecido paga o resgate inteiro, alguém poderia pensar que o do boi desconhecido pagaria metade. Rabban Gamliel: inocente de pagar o valor de um escravo morto. Rabi Akiva: inocente de pagar pelos fetos, se o boi atingir uma grávida, ao contrário do homem do versículo 22. E o Talmude (Bava Kamma 41a) lê a mesma palavra de outro modo, no sentido de "limpo" como quem diz que alguém saiu limpo de todos os bens: o dono fica "limpo" do boi, sem nenhum proveito dele.

A leitura talmúdica faz a frase dizer quase o contrário do sentido simples. Os dois sentidos convivem no comentário de Rashi, que dá os dois e marca qual é o literal.

O limite

O versículo não diz quem julga, quem apedreja, nem como se prova que foi o boi. Não fala de animais de outras espécies. E não diz por que a carne não se come. Tudo isso é leitura, antiga e coerente, mas leitura.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O boi

O hebraico diz "um boi", sem artigo: o animal de trabalho do camponês, macho, provavelmente castrado. A Septuaginta escolheu tauros, "touro", que em grego é o animal inteiro e bravo.

A vítima

"Um homem ou uma mulher", qualquer pessoa livre. O caso das crianças vem em Êxodo 21:31; o do escravo, em Êxodo 21:32.

O dono

Chamado de "dono do boi" com a palavra hebraica que serve também para marido e senhor. Inocente porque não sabia.

O tribunal e os que apedrejam

Não aparecem no texto. A Mishná pôs ali o tribunal de vinte e três juízes; o apedrejamento, nas outras leis da Torá, é feito pela comunidade.

Os mestres

Rabi Akiva e Rabi Eliezer, mestres da terra de Israel dos séculos I e II, em lados opostos sobre as feras. Rabi Yehudá, Ben Azzai e Rabban Gamliel, da mesma geração. Rashbam, neto de Rashi. Jacob J. Finkelstein (1922-1974), professor de assiriologia em Yale.

5. Pontos de Ensino

1. A morte de uma pessoa por um animal não é assunto privado. A lei leva o caso a julgamento público e exige uma resposta da comunidade, mesmo sem culpado humano.

2. O animal é distinguido do dono. O boi responde pelo que fez; o dono, pelo que sabia. Os dois casos são separados em versículos diferentes.

3. A proibição da carne impede o lucro com a morte. Ninguém aproveita o boi que matou — nem o dono, nem o estrangeiro, nem o cão.

4. "Inocente" não quer dizer "sem perda". O dono inocente perde o boi. A lei separa a culpa do prejuízo.

5. O texto não diz se o boi tem culpa. As duas leituras — culpa do animal ou valor da vítima — são antigas, e o versículo sustenta as duas.

6. A tradição pôs o boi no lugar do réu humano. O tribunal de vinte e três juízes, a exigência de que o ataque venha do próprio boi, a exclusão do boi treinado para lutar: os rabinos trataram o caso com as categorias do homicídio.

6. Aspectos Filosóficos

O animal pode ser culpado?

Mary Midgley (filósofa britânica, 1919-2018) passou boa parte da vida discutindo como pensamos os animais. No primeiro livro, A besta e o homem (Beast and Man, 1978), ela ataca uma ideia antiga: a de que o animal é o lugar da maldade, o "bicho" que há dentro de nós. O lobo, diz ela, foi pintado durante séculos como cruel, traiçoeiro e voraz, e os estudos de comportamento mostram um animal social, com regras e contenção, que mata para comer e raramente mata à toa. A palavra "bestial", aplicada ao pior do ser humano, é uma projeção: atribuímos ao animal os vícios que são nossos, e depois o castigamos por eles.

Os processos contra animais na Europa são o caso extremo dessa projeção. A porca de Falaise vestida de gente para ser enforcada é a culpa humana posta num corpo que não a entende. A primeira leitura do versículo, a que diz que o boi carrega a culpa do homicídio, cai sob a mesma crítica.

A comunidade mista

Mas Midgley não para na crítica. Em Os animais e por que eles importam (Animals and Why They Matter, 1983), ela propõe a ideia da comunidade mista: os animais domésticos não estão fora da vida humana, vivem dentro dela, com papéis, relações e expectativas recíprocas. O boi que puxa o arado é parte da casa. E uma comunidade mista precisa de regras para quando a relação se rompe.

Lido assim, o versículo não precisa atribuir culpa moral ao boi para fazer sentido. Ele trata o boi como membro da casa que fez algo que a casa não pode aceitar, e responde com o gesto mais grave que conhece. A segunda leitura do item 3, a de Ibn Ezra e de Finkelstein, está próxima disso: o problema não é a maldade do boi, é a ordem entre homens e animais que ele quebrou.

Onde a comparação para

Midgley escreveria contra a ideia de que um animal deve ser morto para restaurar uma hierarquia. A comunidade mista dela é feita de cuidado, não de domínio. O versículo supõe o domínio, e o apedrejamento é a reafirmação dele. O que os dois partilham é a recusa de tratar o animal como coisa: nem o Êxodo nem Midgley aceitam que a morte de uma pessoa por um boi seja resolvida como a queda de uma telha.

7. Aplicações Práticas

A morte não se resolve só com dinheiro

A lei não deixa o dono vender a carne do boi que matou para recuperar o prejuízo. Há perdas que não devem virar negócio. Em casos de acidente grave — no trânsito, no trabalho, num equipamento defeituoso —, a tentação de tratar o que causou a morte como mero bem a ser reaproveitado ou revendido merece resistência.

Inocência e responsabilidade são coisas diferentes

O dono é declarado inocente e mesmo assim perde o boi. Quem tem animais, máquinas ou obras sob a sua guarda pode não ter culpa de um acidente e, ainda assim, ter de arcar com parte das consequências. Aceitar isso sem se sentir acusado é uma forma de maturidade.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O boi era mesmo julgado?

Não há registro de um processo concreto. A Mishná descreve o procedimento como lei, mas os rabinos da Mishná viviam numa época em que os tribunais judaicos já não aplicavam a pena de morte, e muito do que escrevem é sistema.

E se o boi fugisse?

O texto não prevê. Pela lógica da Mekhilta, o dono que o recuperasse não poderia usá-lo nem vendê-lo depois da sentença.

Por que desperdiçar a carne?

A lei prefere a perda à suspeita de que alguém lucrou com a morte de uma pessoa. Num lugar onde a carne era rara, a proibição tornava o caso inesquecível para toda a vizinhança.

A regra vale para o cão que morde até matar?

Para os rabinos, sim: "boi" representa todo animal. A Mishná discute até as feras selvagens, para as quais Rabi Eliezer dispensa o tribunal.

O dono podia ser processado por outros motivos?

Pelo versículo, não. A Mekhilta lista os pagamentos de que ele fica livre, e o Talmude o declara isento também perante o Céu, segundo Rabi Yehudá.

9. Conexão com Outros Textos

A conta do sangue pedida ao animal

Gênesis 9:5 — "E certamente pedirei conta do sangue de vocês, o sangue das suas próprias vidas: de todo animal pedirei conta dele, e do homem também; de cada homem pedirei conta da vida do seu irmão."

A frase que a tradição cristã leu como fundamento da nossa lei. O animal entra na mesma conta do homem.

Gênesis 1:28 — "Deus os abençoou e lhes disse: 'Sejam férteis e multipliquem-se, encham a terra e a subjuguem; dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que se move sobre a terra.'"

A hierarquia que, para Finkelstein, o boi que mata viola.

Outros animais mortos pela lei

Levítico 20:15-16 — "Se um homem se deitar com um animal, certamente será morto; e vocês matarão o animal. Se uma mulher se aproximar de algum animal para se deitar com ele, você matará a mulher e o animal; certamente serão mortos; o sangue deles cairá sobre eles."

O outro caso em que a Mishná põe o animal diante de vinte e três juízes.

Êxodo 19:13 — "Nenhuma mão tocará nele, mas será certamente apedrejado ou flechado; seja animal, seja homem, não viverá…"

O animal apedrejado no Sinai, por ter pisado onde não podia.

A carne que não se come

Deuteronômio 14:21 — "Não comam nenhum animal que morreu por si mesmo. Você poderá dá-lo ao estrangeiro que está dentro das suas portas, para que o coma, ou vendê-lo a um forasteiro."

A regra geral que o boi apedrejado quebra: nem ao estrangeiro ele pode ser dado.

A novilha da morte sem culpado

Deuteronômio 21:3-4 — "Os anciãos da cidade mais próxima do morto tomarão uma novilha que nunca tenha trabalhado nem puxado jugo, a levarão a um vale de águas correntes, que não seja lavrado nem semeado, e ali, no vale, quebrarão o pescoço da novilha."

O outro animal de que, para a Mekhilta, não se tira proveito, e que serve de base ao raciocínio sobre o boi.

O justo e o seu animal

Provérbios 12:10 — "O justo conhece a vida do seu animal, mas as entranhas dos ímpios são cruéis."

O boi não é só perigo: é também alguém de quem o dono conhece o temperamento. É esse conhecimento que o versículo seguinte vai cobrar.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Se um boi chifrar um homem ou uma mulher, e a pessoa morrer, o boi certamente será apedrejado, e não se comerá a sua carne; mas o dono do boi será inocente.

Texto hebraico

וְכִֽי־יִגַּח שׁוֹר אֶת־אִישׁ אוֹ אֶת־אִשָּׁה וָמֵת סָקוֹל יִסָּקֵל הַשּׁוֹר וְלֹא יֵאָכֵל אֶת־בְּשָׂרוֹ וּבַעַל הַשּׁוֹר נָקִֽי׃

Transliteração

ve-khi yiggach shor et-ish o et-ishah va-met saqol yissaqel ha-shor ve-lo ye'akhel et-besaro u-va'al ha-shor naqi.

Análise palavra por palavra

וְכִי — ve-khi, "e se". A conjunção que abre caso novo; no texto hebraico tradicional, este versículo começa também um parágrafo novo, depois do espaço em branco que fecha as lesões.

יִגַּח — yiggach, "chifrar". Do verbo nagach, "investir com os chifres", no Qal. É verbo de animal com chifres, e quando sai do curral vira imagem de força militar: Moisés diz de José que "com eles chifrará os povos" (Deuteronômio 33:17); o profeta Zedequias faz chifres de ferro e diz ao rei "com estes chifrarás os sírios" (1 Reis 22:11); e Daniel vê um carneiro "chifrando para o ocidente, para o norte e para o sul" (Daniel 8:4). O adjetivo derivado, naggach, "chifrador", aparece no versículo seguinte.

שׁוֹר — shor, "boi". O termo comum para o boi ou a vaca individual, sem distinguir sexo ou idade; o rebanho se diz com outra palavra, baqar. É o animal do Decálogo ("nem o seu boi", Êxodo 20:17).

אֶת־אִישׁ אוֹ אֶת־אִשָּׁה — et-ish o et-ishah, "um homem ou uma mulher". Cada substantivo tem o seu marcador de objeto direto et, e cada um sem artigo: qualquer pessoa.

וָמֵת — va-met, "e ele morrer". Do verbo mut, "morrer", no Qal.

סָקוֹל יִסָּקֵל — saqol yissaqel, "certamente será apedrejado". O verbo saqal duas vezes: primeiro no infinitivo, depois na forma Nifal (a forma passiva do verbo hebraico). A construção dá certeza e ênfase, como "morrer, morrerá". O campo de saqal, o verbo da execução pública coletiva, está no estudo de Êxodo 8:26. Para o boi, a lei usa a forma enfática; no versículo seguinte, só a simples.

וְלֹא יֵאָכֵל אֶת־בְּשָׂרוֹ — ve-lo ye'akhel et-besaro, "e não se comerá a sua carne". O verbo está no Nifal, passivo, mas é seguido do marcador et, que normalmente indica objeto direto de verbo ativo. A combinação é rara e incomoda a gramática. O Talmude (Bava Kamma 41b) conta que Shimon ha-Amsoni (talvez "de Emaús") costumava extrair um ensinamento de cada et da Torá; aqui leu que o et inclui no proibido o que vem junto com a carne, o couro e o resto. Quando chegou a "temerás et o SENHOR, teu Deus" (Deuteronômio 6:13), desistiu do método, porque não via o que se poderia temer ao lado de Deus. Os alunos perguntaram o que fazer com todos os ensinamentos anteriores. Ele respondeu que receberia recompensa por ter interpretado e recompensa por ter parado. Rabi Akiva retomou depois: o et desse versículo inclui os estudiosos da Torá.

וּבַעַל הַשּׁוֹר — u-va'al ha-shor, "mas o dono do boi". Ba'al, "dono, senhor, marido", em forma ligada ao substantivo seguinte. O "e" inicial tem aqui valor de contraste.

נָקִי — naqi, "inocente". O adjetivo de quem está "limpo" de uma obrigação ou de uma culpa: é a palavra do servo de Abraão "livre" do juramento (Gênesis 24:8) e dos irmãos que seriam "inocentes" na proposta do mordomo de José (Gênesis 44:10). O sentido concreto de "limpo", "esvaziado", é o que o Talmude explora quando lê que o dono fica "limpo" do boi.

A Septuaginta

A tradução grega dobra o apedrejamento com outra palavra: lithois lithobolethesetai, "com pedras será apedrejado", como fará em todo o trecho. Chama o dono de kyrios, "senhor", a mesma palavra que usa para Deus, e o declara athoos, "não punível", um termo jurídico grego de quem escapa de pena.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões. A primeira: a morte de uma pessoa causada por um animal pede uma resposta pública, e a lei a dá com o mesmo gesto que usa contra homens, o que faz da vida humana a medida do caso. A segunda: a lei separa a culpa da perda — o dono inocente não é punido, mas também não sai com nada do animal que matou. A terceira: o texto não decide se o boi é culpado, e as duas leituras que a tradição construiu, a da culpa do animal e a da ordem violada, são ambas compatíveis com ele; o que nenhuma das duas permite é tratar a morte como acidente sem resposta.

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